O conjunto da obra

27/05/2016

Apesar de boa parte do conteúdo das gravações de Sérgio Machado com caciques do PMDB ainda permanecer inédita, já é possível fazer conexões entre o que foi revelado e os diversos atores e poderes envolvidos com a trama.

Fica evidente pelas palavras de Jucá, Calheiros e Sarney que o desespero tomou conta da cúpula do PMDB, quanto ao andamento e os desdobramentos da Operação Lava-Jato. Era preciso conter a “sangria desatada” e “delimitar” as ações do MP, Polícia Federal e Justiça, impedindo que avançassem para além das denúncias e investigações sobre o PT e integrantes do governo Dilma.

A condenação de Dilma, como já se sabia, nada teve a ver com pedaladas fiscais, corrupção ou a crise econômica. Tudo isso foi usado para justificar o golpe institucional-parlamentar que apeou a Presidente do governo. Enfim, Dilma foi defenestrada porque seu governo não quis ou não conseguiu segurar as ações da Lava-Jato.

Como atestou o procurador do Ministério Público, Carlos Fernando de Santos Lima, em palestra em 30 de março, “Aqui temos um ponto positivo que os governos investigados do PT têm a seu favor. Boa parte da independência atual do Ministério Público, da capacidade técnica da Polícia Federal decorre de uma não intervenção do poder político, fato que tem que ser reconhecido. Os governos anteriores realmente mantinham o controle das instituições, mas esperamos que isso esteja superado”.

Ou seja, para a cúpula do PMDB e depois a do PSDB a única forma de segurar os escândalos que os atingiriam seria tirar Dilma da Presidência e frear as investigações em curso. Para isso, os golpistas não titubearam em se aliar a Eduardo Cunha, desafeto de todos, para autorizar a abertura do processo de Impeachment na Câmara.

Enquanto Cunha fazia o trabalho sujo, porque Dilma se recusou a aceitar um acordo para livrá-lo da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, os golpistas articulavam com ministros do STF, a cúpula das Forças Armadas e agora surgem as primeiras citações aos jornais, para que o impeachment tivesse o sinal-verde de todos os poderes e a mídia.

O que nenhuma das personagens envolvidas nesta trama contava era com as gravações de Sérgio Machado e a decisão do grupo Folha, destoando do resto da mídia empresarial, que decidiu defender uma saída para a crise pela via de novas eleições. A decisão da Folha SP criou grande embaraço aos golpistas, que agora são forçados a dar uma explicação sobre o que foi revelado.

Diante das evidências, as Organizações Globo e outras mídias empresariais querem fazer a sociedade engolir que as gravações provam uma tentativa de todos os envolvidos ou citados nos escândalos – inclusive a Presidente afastada – de abafar a Lava-Jato, mas que isso não teria dado certo.

Esta tese é tão mentirosa e vergonhosa que não se sustenta, simplesmente pelo fato de só agora, depois que a Folha de São Paulo passou a publicar parte das gravações de Sergio Machado com os cabeças do PMDB, a Rede Globo teve que correr atrás para “revelar” novos trechos das gravações. Ora, então está claro que o grupo Globo tinha conhecimento ou no mínimo teria acesso ao conteúdo do que fora gravado por Machado.

É interessante observar que até 12 de maio, data do golpe parlamentar-institucional que retirou Dilma da Presidência, as Organizações Globo sempre obtinham gravações com “exclusividade”, ditando o ritmo midiático da histeria antigovernamental.

Outro fato que atesta a inconsistência da tese “global” é que, na prática, desde que a Câmara autorizou a abertura do processo de impeachment, em abril, a Operação Lava-Jato não produziu ou não teve quase nenhum holofote para suas atividades. As fases 29 e 30 da Lava-Jato são pratos requentados de coisas que já se sabia e com personagens menores na engrenagem.

Também salta aos olhos de qualquer um a atitude passiva do Supremo Tribunal Federal. Ágil e duro para impedir a posse de Lula no ministério de Dilma, pelo fato de que havia suspeitas de que se tratava de uma tentativa de fugir da alçada do juiz Sérgio Moro, o STF sequer se pronunciou sobre os casos de ministros nomeados por Michel Temer, também citados na Lava-Jato.

O mesmo STF segue calado diante das citações de que praticamente todos os ministros fariam parte das articulações para retirar Dilma do Palácio do Planalto.

Está evidente que a trama golpista foi costurada entre a cúpula do PMDB, do PSDB, Cunha e sua bancada, ministros do STF, cúpula das Forças Armadas e parcela expressiva da mídia, cada qual com um papel neste jogo. Na verdade, como gostam de dizer os senadores que afastaram Dilma da Presidência, ela foi condenada pelo “conjunto da obra”. De fato, eis aí o “conjunto da obra”.

Anúncios

Gato por lebre

25/05/2016

Os primeiros dias do governo jeca de Michel Temer dão a pista do tipo de administração se apoderou do país. Em aliança com representantes do “mercado”, uma chusma de desqualificados abrigados no maior partido político do Ocidente (PMDB) dá o tom das trapalhadas.

As gravações de conversas de Sergio Machado com Romero Jucá e Renan Calheiros, publicadas pela Folha SP, demonstram que o rei está nu. E que tudo foi acertado com o pessoal do Supremo Tribunal Federal, talvez excetuando alguns ministros, além do comando das Forças Armadas, que estaria “monitorando o MST”. Agora só falta a conversa de Machado com Sarney.

Ou seja, o golpe institucional-parlamentar que apeou a Presidente do poder teve por objetivo frear a “sangria desatada” das delações premiadas e dar uma “delimitada” na Operação Lava Jato. Afinal, ia sobrar para todo mundo, inclusive o PSDB. E, pelo jeito, todos conhecem o “esquema do Aécio”, menos o sinistro Gilmar Mendes.

O que queriam essas figuras deploráveis dos altos poderes da República? Paralisar as investigações da Operação Lava Jato. E tiraram Dilma da Presidência porque seu governo não tinha força ou disposição para evitar que a apuração chegasse aos caciques do PMDB e do PSDB.

Portanto, quem acreditou que Michel Temer encarnaria um novo tempo, embarcou num conto do vigário. Em verdade trata-se de uma aliança esdrúxula entre corruptos da pior espécie, representantes das oligarquias regionais abrigadas no PMDB que queriam salvar suas respectivas peles, e o mercado financeiro, interessado em impor sua agenda econômica neoliberal até a medula.

O fiador deste pacto é o senhor Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula, o que prova que o mercado financeiro também participou ativamente dos governos petistas. Só que agora Meirelles dá todas as cartas, apresentando um pacote de medidas que ataca o setor público, esquece de taxar as elites e mantêm em dia o pagamento de juros/amortizações da famigerada dívida pública (externa/interna) brasileira.

Vem aí a redução dos gastos obrigatórios com Saúde e Educação – como se estivéssemos nadando em recursos nessas duas áreas -, uma nova reforma da Previdência para penalizar ainda mais os trabalhadores e a redução da participação da Petrobras na exploração do petróleo da camada do Pré-Sal. Isso, só para começar.

O problema para o pessoal do “mercado” é que Temer e sua equipe ministerial de desqualificados atrapalha mais do que ajuda. Esses jecas, acostumados a rapinagem mais rasteira dos cofres públicos, não têm a menor noção do ridículo. A mais recente piada saiu do gabinete do sinistro da Educação, Mendonça Filho, que recebeu o grupo Revoltados Online e Alexandre Frota para debater sugestões para o setor.

Essa combinação explosiva de velhos oligarcas espertalhões e yuppies do “mercado” produz um governo esdrúxulo, sem apoio popular e sob a desconfiança até do mais empedernido direitista, que vestiu camisa da CBF e foi às ruas gritar pelo impeachment de Dilma. Isso dá mais munição à imprensa estrangeira e coloca o desgoverno Temer sob maior desconfiança internacional.

O grande vilão dessa turma passou a ser a delação premiada. O ex-senador Delcidio do Amaral foi o primeiro do meio político a bater com a língua nos dentes. Agora aparece Sergio Machado, que antes de ser presidente da Transpetro foi senador e conhece bem como a banda toca em Brasília. Por isso, é fundamental conter o ímpeto de vingança de Eduardo Cunha, que continua forte nos bastidores.

Nem a 30ª fase da Lava Jato, que expôs novos negócios sujos envolvendo o nome de Zé Dirceu, conseguiu aplacar o efeito bombástico das conversas de Machado e Jucá, a ponto de Romero pedir o boné do ministério. Agora as afirmações de Calheiros pairam no ar, como um fantasma a assombrar o governo Temer. O que virá com as conversas entre Machado e Sarney?

Vamos por partes. Antes de mais nada é preciso saber porque Sérgio Machado teria gravado a conversa com Romero Jucá. Depois é preciso responder: quem vazou e por que vazou a gravação da conversa entre Sérgio Machado e Romero Jucá? Por que a conversa só veio a público agora, depois do impeachment e da posse de Temer? Por que a Folha de SP foi procurada e divulgou a gravação?

Se a conversa foi gravada em março é sinal de que Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e amplamente citado na Operação Lava Jato, já estaria preparando sua delação premiada, assim como já fizeram outras personagens desta história.

A quem interessaria o vazamento da gravação? Em tese a gravação poderia ser uma iniciativa pessoal de Machado, mas também um golpe combinado com Eduardo Cunha, já prevendo que sua cabeça seria entregue de bandeja, como atesta a frase de Jucá sobre o “boi de piranha”.

Cunha sempre soube que Machado era o homem de Renan Calheiros na Petrobras, como identificaram as investigações da Polícia Federal. E é possível que Renan tenha negado guarida ao amigo de longa data, procurando se preservar na Lava Jato.

A essa altura, Machado deve estar pedindo proteção ao Ministério Público, ao Sérgio Moro e aos orixás, porque todos os graúdos do PMDB com quem ele conversou naquele período temem que suas vozes sejam as próximas a aparecer no noticiário. Não seria de estranhar se o próximo fosse Calheiros.

Cunha atua hoje da forma como um chantagista mais gosta: na sombra, na moita. Já emplacou a presidência e a liderança do Governo Temer na Câmara, além de alguns outros amigos no governo, como o Ministro da Justiça (que foi seu advogado) e alguns outros apadrinhados que lhe devem favores.

Assim como o PT tinha sua estratégia para manter o governo Dilma e não queria ficar refém de Cunha, Temer e a cúpula do PMDB também tinham a deles: derrubar Dilma e depois entregar a cabeça de Cunha, limpando o terreno para um governo com maioria no Congresso Nacional. Acontece que Cunha também traçou sua estratégia e está movendo suas peças uma a uma no tabuleiro de xadrez.

Nem o PT nem o PMDB contavam com a astúcia e o poder de Eduardo Cunha. Ele abandonou Dilma e o PT, que se recusaram a garantir maioria na Comissão de Ética da Câmara. Como resposta articulou sua bancada para abrir o processo de impeachment de Dilma. Derrotou o PT.

Na hora que mais precisava de seu partido (PMDB), Cunha foi abandonado e afastado da Presidência da Câmara, tratado como um pária. Mas como todo bom chantagista, Cunha se precaveu, provavelmente convencendo aliados próximos e outros “abandonados” a montar as suas bombas relógio. A depender do andar da carruagem ele vai detoná-las, criando um pânico perturbador na cúpula palaciana.

Apesar de contemplado no governo, Cunha quer mais: quer retornar por cima. Ele é o único personagem de toda esta trama que não depende de governo A, B ou C. Tem votos suficientes na Câmara para aprovar ou barrar o que quiser e isso ficou claro desde a sua eleição para presidir aquela Casa, quando derrotou o PT e o PSDB.

Há quem afirme que por trás da divulgação da gravação da conversa de Jucá e Machado estaria o senhor José Serra. Não que seja impossível esta hipótese. Mas, convenhamos, ainda que Serra desejasse a pasta do Planejamento, justamente no lugar de Jucá, ele sabe que a desestabilização do governo Temer pode colocar por água abaixo seu sonho presidencial, seja pelo PSDB ou pelo PMDB.

E por que a Folha de São Paulo foi escolhida para receber a gravação? Por algum apreço pelo trabalho jornalístico ou pelos belos olhos de algum colega da redação? Não, a Folha já havia declarado em editorial sua posição por novas eleições, a partir da conclusão de que a queda de Dilma e a posse de Temer não dariam a estabilidade política necessária ao país para os planos do grande empresariado.

Ou seja, além de fragilizado pela falta de legitimidade popular e pelas medidas draconianas que pretende adotar como programa de governo, Temer e a cúpula do PMDB estão nas mãos de Eduardo Cunha. Vamos ver aonde isso tudo vai dar…

  • Consta que Sergio Machado teria gravado conversas também com José Sarney e Renan Calheiros.

É impressionante como uma parte considerável da população mais consciente ainda não se deu conta ou não quer se dar conta do que aconteceu em 12 de maio de 2016. Talvez cegas de ódio pelo PT e com o desgoverno Dilma, essas pessoas ainda não acordaram para a gravidade do que representa a “solução Temer”.

O dia seguinte já aconteceu e demonstrou que a interrupção do mandato de Dilma Rousseff, ao contrário de representar um alívio para o país, jogou o comando da nação nas mãos de quadrilheiros da velha política, fiadores dos “mercado boys”.

Só o que se houve de ministros e do próprio presidente usurpador é o mantra: “Precisamos cortar gastos”.

Basta dar uma passada de olhos na biografia dos ministros para ver que todos estão encrencados em algum escândalo, de preferência de corrupção, desvio ou mal versação de verbas, etc.

A ideia do tal governo dos técnicos e especialistas logo deu lugar a um ministério de deputados e senadores truculentos, despreparados e falastrões para ocupar as pastas. Na Saúde um sujeito que teve campanha eleitoral financiada por administradora de planos privados. Na Educação o herdeiro de uma oligarquia do Nordeste. Na Cultura… bom, na Cultura é melhor fechar o Ministério.

A Previdência Social virou um apêndice do Ministério da Fazenda, o que desvirtua por completo uma pasta com vocação inteiramente social, transformando-a em mero instrumento contábil do velho Henrique Meirelles e sua turma de garotos do mercado.

E a corrupção!? Onde foi parar aquela pressa em passar o Brasil a limpo? Não se houve mais falar em Operação Lava Jato e Sérgio Moro, a não ser nos discursos e promessas de que ela continuará existindo.

A EBC foi violentada com a demissão de seu Presidente, que deveria cumprir mandato de quatro anos, segundo prevê a legislação.

Eduardo Cunha, mesmo fora da Presidência da Câmara, continua dando as cartas na casa legislativa mais importante do país. Os ministros e demais políticos profissionais citados em depoimentos de delação premiada e listas de empreiteiras continuam lépidos e fagueiros.

A mídia conservadora, liberal e de esquerda de todo o mundo trata o que houve no Brasil como golpe e o país passa vergonha internacional com a denúncia de artistas no Festival de cinema mais famoso do mundo. Só a mídia empresarial brasileira, comprometida com tudo, menos a cobertura equilibrada dos fatos, tenta dar ares de legalidade à República Jeca de Temer.

Ninguém precisa morrer de amores pelo PT, Lula ou o governo Dilma (como é meu caso), nem mesmo ser de esquerda.  Mas não se pode ignorar o que se passa no país ou mesmo dar “um voto de confiança” a Temer e sua gangue.

A reação popular ao golpe de 12 de maio precisa ocorrer e logo. Caso contrário, os trogloditas do mercado e os corruptos de sempre vão meter os pés na Previdência Social, nos programas sociais, na Saúde, na Educação, assim como estão fazendo com a Cultura. Já avisaram que querem aprovar o saco de maldades rapidamente.

Ao contrário do que pensam os que odeiam as esquerdas, quem vai pagar a conta caso não haja uma forte resistência ao desgoverno Temer não será o PT – que já abriu a possibilidade para acordos eleitorais até com o PMDB para as eleições municipais deste ano –, mas a grande maioria da população, incluindo amplos setores da classe média.

Nestes primeiros dias que sucedem ao golpe de 12 de maio ainda é possível articular frentes de resistência, escrever, ocupar as redes sociais, etc. Mas o principal é deixar as mágoas de lado e voltar às ruas, de vermelho, verde e amarelo ou a cor que se queira, para exigir que a vontade popular seja respeitada.

Diante do afastamento de Dilma e da falta de legitimidade de Temer a única saída honrosa seria a convocação de eleições presidenciais ainda este ano. Vença quem vencer, pelo menos teremos um governo legitimado pelo voto popular.

Com seu ministério ficha-suja, em que todos os componentes têm explicações a dar à Justiça sobre suas atividades, o usurpador Michel Temer procura apagar os primeiros focos de incêndio que cercam seu governo provisório.

Definitivamente trata-se de um governo jeca, formado por velhos coronéis da política, totalmente apartado das necessidades da maioria de nosso povo, conduzido por um velho político de bastidores. Também chama a atenção a quantidade de ministros de Dilma e Lula que compõem o governo golpista, o que só prova a capacidade das oligarquias em servir a quem quer que seja, desde que seus interesses estejam assegurados.

A contradição básica deste governo está em como contemplar a gula dos que sempre viveram à custa das benesses do Estado, com a necessidade premente de reduzir a presença do Estado para agradar à ganância do “mercado”. Os credores internacionais querem garantias de que o pagamento de juros e amortizações da dívida pública será cumprido à risca.

Temer terá um mandato-tampão para adotar toda sorte de medidas impopulares e tem consciência disto. Foi o que declarou em sua entrevista ao programa Fantástico, em 15 de maio. Aliás, a Rede Globo dá sinais de seu tucanismo, com certo receio de se comprometer integralmente com o governo Temer.

Afinal, vem aí a reforma previdenciária, que pretende somar idade mínima de 65 anos com tempo mínimo de contribuição de 40 anos. E vem mais: reforma trabalhista, que nada mais é do que o corte de direitos dos trabalhadores e a redução do papel do Estado como moderador de conflitos entre patrões e empregados.

Outra medida esperada é a mudança no sistema de exploração do petróleo da camada pré-sal, beneficiando as grandes companhias multinacionais do ramo e reduzindo a participação da Petrobras. Além disso, a privatização de estatais e a ampliação das parcerias público-privadas, nome pomposo para a entrega de serviços à exploração de grupos empresariais.

Mais uma bomba que precisa ser desarmada logo é a dívida dos estados com a União, que já começa a ter repercussão direta sobre o pagamento de salários, aposentadorias e pensões dos servidores estaduais em algumas unidades da Federação. Talvez seja por isso que o sinistro da Fazenda, Meirelles, já prepara o terreno para a volta da CPMF ou algo parecido.

Para tocar um programa pesado como este, Temer sabe que precisará do Congresso Nacional. Daí porque fez de seu ministério a casa-da-mãe-joana dos parlamentares, deputados e senadores. Ainda assim, terá que negociar com Eduardo Cunha os nomes do novo Presidente e da liderança do governo na Câmara.

O cafetão do baixo-clero não vai querer sair de cena, justamente quando se sabe que Temer pilota um governo com pouca autonomia de voo. Ele percebe que Temer precisa mais de sua base do que o baixo-clero precisa de Temer. Ou seja, o momento é oportuno para a extorsão e a chantagem sobre o governo golpista, métodos que Cunha conhece bem.

Todas as medidas pensadas, ainda não anunciadas e já declaradas fazem parte do tal “remédio amargo”, que ataca os interesses dos trabalhadores e mais pobres, incluindo setores da classe média. Por isso, Temer é aconselhado a fazê-las de uma vez, nos primeiros 90 dias de seu governo provisório. Depois vêm as Olimpíadas e as classes dominantes contam com o esquecimento popular para administrar a crise até 2018.

Nestes primeiros dias pós-golpe há dois tipos de comportamento entre os opositores de Temer: 1) As viúvas de Lula reclamam pelos cantos e nas redes sociais, mas têm pouca iniciativa para reagir. Preferem apostar no desgaste natural do governo provisório e aguardar até 2018 pela candidatura de Lula; 2) Os movimentos populares organizados e a juventude, que só têm a perder com as medidas que este governo deve impor à maioria da população. Esses reagem e vão às ruas, sinalizando os processos de luta que virão.

Há toda uma série de especulações teóricas sobre como se pode melhor exercer a resistência popular. Mas a sensação de que “estamos todos no mesmo barco” começa a predominar, o que facilita a possibilidade de formação de frentes de luta e até frentes politicas, forjadas a partir da mobilização e da solidariedade com a juventude e os movimentos populares.

Seja como for, o sentimento de unidade popular não pode mascarar a responsabilidade do PT e os limites que sua política “caracu” (aquela em que o PT entrava com a cara e o povo com o resto) impôs como prejuízo à maioria da população. Portanto, este processo pode e deve propor novos métodos de ação e reivindicações, sem o saudosismo de que “nos tempos do PT é que era bom”.

É evidente que Lula, Dilma e os petistas vão tentar surfar na onda da resistência popular, tentando canalizar o descontentamento com Temer para suas candidaturas no plano eleitoral. No entanto, os tempos já serão outros, o PT não terá tanta força política e as novas direções forjadas na luta deverão impor novas formas de organização e novos métodos de ação.

Em meio ao golpe institucional que apeou do Palácio do Planalto a Presidente Dilma, algumas questões cruciais ficaram expostas. Vale a pena abordá-las, ainda que de maneira sucinta, para evitar a tentativa de vitimização do PT. Isso não impede que se reconheça os avanços nas áreas sociais alcançados nestes 13 anos de governos petistas, o que foi absolutamente insuficiente para assegurar uma resistência popular de massas ao golpe.

O partido e suas lideranças, por suas políticas equivocadas e por suas omissões, foram corresponsáveis pela virada de mesa protagonizada pelo seu principal ex-aliado e os partidos da oposição conservadora, que assumem o governo com Temer, o usurpador.

Muita gente avalia que o governo golpista será de crise e terá dificuldades para se impor. A meu ver Temer só terá contra si as disputas internas de partidos e grupos da burguesia pelas fatias de poder. Não creio numa vigorosa reação popular de massas num primeiro momento, o que não deve ser confundido com manifestações de rua promovidas por movimentos populares e sindicais.

Afinal, quais foram os principais e graves erros cometidos pelo PT e seus governos?

1 – Governar sem a pressão das ruas, optando por uma composição de governo que acomodou forças reacionárias

Um governo que cria a expectativa de mexer com privilégios das minorias não pode se limitar a vencer eleições e conquistar apenas parte do poder executivo (Presidência) e do legislativo (Congresso Nacional). Não se trata de discutir se era possível ou governar sem alianças, mas de construir uma base de apoio popular nas ruas. Ao abrir mão da pressão popular o PT ficou refém da própria aliança que fez com o PMDB e outros partidos da burguesia, que hoje lhes dão as costas e tomam o governo tão facilmente quanto tirar doce da boca de uma criança;

2 – Adotar a mesma política de arrecadação para campanhas eleitorais, a partir de negociatas nas estatais e nos fundos de pensão

Ao optar por um governo que acomodava gregos e troianos, o PT não só satisfez parte das classes dominantes como passou a participar da velha política predatória do Estado, usando seus dirigentes nas empresas estatais e fundos de pensão para influenciar na arrecadação de finanças para suas campanhas eleitorais e até o enriquecimento ilícito de alguns de seus quadros. Isso deu munição pesada aos que queriam desmontar o projeto petista de governo, como se viu com a Operação Lava Jato, independente de sua condução parcial. Ao contrário disso, correto seria democratizar a máquina pública nas estatais e nos serviços públicos, com eleições diretas dos dirigentes e transparência em sua gestão.

3 – Jamais ter apresentado uma política de comunicação de massas que forjasse uma alternativa concreta ao monopólio das Organizações Globo

Não seria preciso investir contra ou abrir uma guerra declarada contra as Organizações Globo para construir uma política alternativa de comunicação direta com amplas massas. Bastaria ter um projeto de fortalecimento estratégico da TV Brasil. Como? Comprando as transmissões de futebol e carnaval, além de levar para a TV pública artistas de ponta e grandes jornalistas, produzindo o que há de melhor em telenovelas e telejornais. Ou seja, usar as verbas públicas para fortalecer um canal público de TV, com uma programação robusta e atrativa, em vez de seguir distribuindo verbas de publicidade para as emissoras privadas, que hoje se mostram patrocinadoras diretas do golpe institucional;

4 – Apresentar um projeto – hoje lei – que aprofunda a criminalização dos movimentos sociais e favorece a repressão militar

Pior do que não se apoiar nas ruas, o governo Dilma sacramentou a criminalização dos movimentos sociais. Isso começou em 2013, quando a cúpula petista não fez a leitura correta das manifestações populares, protagonizadas pela juventude. A nova lei que trata do tema amplia os poderes da repressão policial sobre as ações de massas, sob a justificativa de garantias para a realização de megaeventos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Este arcabouço legal servirá e poderá ser ampliado pelos futuros governos, na tentativa de aplacar a resistência a medidas impopulares;

5 – Adotar uma política econômica recessiva a partir do segundo mandato de Dilma

Depois de uma eleição apertada a cúpula do PT que cercava a presidente Dilma, e seus aliados do PMDB, decidiram dar as costas para tudo que se pregou na campanha, aceitando a chantagem da mídia empresarial. Colocaram o banqueiro Joaquim Levy (Bradesco) no comando da economia, com sua receita neoliberal e recessiva. Levy Cortou investimentos públicos, elevou a taxa de juros, manteve o pagamento integral de juros e amortizações da dívida pública, a partir do superávit primário. Resultado: em questão de meses o país mergulhou em recessão, inflação e desemprego. Essa política devastadora foi aplicada de forma violenta o suficiente para derrubar todos os indicadores econômicos e jogar o país em profunda crise econômica. Levy saiu do governo como a vítima que tentou aplicar o remédio correto que não foi aceito, e a conta caiu nas costas do povo, fazendo disparar a impopularidade de Dilma.

Estes cinco pontos que elenquei, longe de serem os únicos, são cruciais e marcam as diferenças da experiência dos governos reformistas/conservadores do PT no Brasil para outros governos reformistas/revolucionários de nuestra América, como o da Venezuela, Bolívia e até Argentina.

O que menos importa agora é o que será do PT. Afinal, não foram poucos os alertas de intelectuais e até ex-petistas sobre as opções do partido e os rumos que seus governos tomaram. Infelizmente, não será o PT a grande vítima de seus próprios erros e da ganância golpista de seus ex-aliados. Quem arcará com as consequências dos equívocos desta experiência será o povo brasileiro. Vem chumbo grosso por aí.

As avaliações deste período não devem servir para enxovalhar o PT nem para embarcar no discurso de sua vitimização. Podem servir, sim, para que outras experiências de governo ligadas aos interesses populares aprofundem os aspectos positivos e não repitam os graves erros cometidos.

Quem sabe uma nova esquerda possa surgir do processo de resistência, nas ruas, capaz de dialogar com a maioria de nosso povo, com um discurso e uma prática coerente, antenada com os anseios da juventude, democrática e transparente?

O patinho feio

06/05/2016

O Cunha de hoje cumpre função semelhante ao Sarney de ontem. Quando o todo poderoso ex-presidente agia nos bastidores de Brasília, como presidente do Senado, ninguém queria o escritor do Maranhão na mesma foto. Era uma espécie de Geni, na qual todos gostavam de tacar pedra.

Hoje, depois de ter cumprido a nefasta missão de comandar sua bancada no processo de impedimento de Dilma, Cunha deixou de ser útil a tucanos, ppsistas e até peemedebistas. Ele é tratado como uma espécie de patinho feio, estranho à sua coletividade, alguém que só tinha vocação para ser líder do baixo clero.

Agora que os estrategistas da elite conservadora triunfaram, não pega bem manter Cunha a frente da Câmara, como segundo homem na cadeia sucessória do país. Ele não tem verniz para permanecer em posto de tamanha importância. Não por acaso o senhor Teori Zsavascki relatou e empurrou em tempo recorde seu parecer pelo afastamento de Cunha de suas funções, recebendo o apoio unânime de seus pares no STF.

Com isso, parte significativa do baixo clero na Câmara fica órfã, abrindo caminho para a afirmação de novas lideranças, sobretudo as que comandem aquela Casa para referendar o projeto que virá com o governo Temer.

Resta saber se Cunha se resignará com o “exílio” a que será relegado. Afinal, ele acreditou que seria preservado caso emprestasse seu capital político ao impedimento de Dilma e ao futuro governo Temer. Talvez isso aconteça, caso Temer e sua turma confirmem o que já se diz nos bastidores, abafando os escândalos abertos com a Operação Lava Jato, inclusive os que têm em Cunha como personagem.

Em sua agonia vai espernear, jurando que é vítima de uma perseguição dos petistas, porque decidiu assumir a brava missão de defenestrar a Presidente da República. O discurso serve para mantê-lo próximo dos que ainda acreditam nele e em seus nobres propósitos.

Eduardo Cunha não age como as velhas raposas felpudas da política nacional. Seu universo é outro, pragmático, rasteiro, vingativo, da escola dos desqualificados que não pensam em projeto estratégico. Criou-se na política com a equipe que montou a farsa do Governo Collor, na base da chantagem e da roubalheira explícita.

Por isso, ninguém deve se surpreender se, acuado e ameaçado de prisão, Cunha crescer e decidir voar como o cisne. Assim, poderia vingar-se de seus irmãozinhos patos que o toleravam, mas o rejeitavam. Se Cunha gostar de voar pode despejar a maior delação premiada que o país já viu sobre as cabeças da República. É esperar para ver.

Se acreditasse no pecado, instrumento da filosofia ocidental judaico-cristã para justificar a punição do ser humano, não poderia acreditar na felicidade. Devo isso à minha formação familiar, já que minha mãe, cristã, jamais impôs a seus filhos qualquer dogma religioso. Por sua vez, meu pai, um ateu meio macumbeiro, tão pouco nos ensinou a temer ninguém.

Pecado é viver da exploração alheia, é apostar na ignorância e no atraso, é roubar, maltratar, torturar, discriminar e delatar. Esses “pecados” não existem por acaso, são frutos de uma ordem econômica, política e social que violenta, diariamente, bilhões de serem humanos.

Por trás deles existe uma ideia que sustenta esse estado injusto de coisas, comumente difundida, de que há seres humanos melhores e outros piores – a maioria – que estão na Terra justamente para “pagar seus pecados”. Esses “pecadores” são os pobres, os favelados, os camponeses, os trabalhadores, os sem-terra, os sem-teto, os menores abandonados, os mendigos, as prostitutas e toda sorte dos que compõem a “gentalha”. Junte-se a isso toda sorte de preconceito.

Essa maioria, confinada nas favelas e periferias, não seria feliz e jamais alcançará a felicidade porque vive em pecado, provocado pela sua própria incapacidade de agir ou reagir à condição a que foi relegada. Às vezes um ou outro supera suas dificuldades e aparece como exemplo de que “quem se empenha conquista um lugar ao sol”.

A essa gente está reservado o mau gosto, os maus modos, a violência, o alcoolismo, as doenças infectocontagiosas e todo tipo de praga que se conhece. Ora, se a maioria de nossa gente vive em pecado, a forma de trata-la é a única que sempre se dispensou ao povo: exploração, violência, ignorância, repressão religiosa, maus-tratos, tortura, discriminação e morte.

Ao contrário das elites brasileiras, o que esse povo demonstra todos os dias, da forma como lhe é possível, é apenas e tão somente a busca da felicidade. E isso está nas mínimas iniciativas, como o soltar pipa, o churrasquinho com os amigos no final de semana, a pelada no campinho de terra, o baile funk na favela, ocupando os espaços que lhe restam.

Ao contrário do discurso dominante, tudo que se produziu até hoje de destaque na sociedade brasileira, tem origem na cultura e no cotidiano de nosso povo. Nas artes, na cultura, nos esportes, na culinária, no lazer, na saúde, na habitação, em tudo a cara de nosso povo está presente.

Se tivessem um mínimo de capacidade autocrítica e de visão solidária de mundo, as classes dominantes brasileiras poderiam dar uma contribuição importante ao país. Mas como estão atreladas à mesquinharia dos que acreditam que podem viver bem por trás de condomínios fechados, continuam sua sina de mandatários dos feitores da senzala.

Preferem investir em cadeia que em escolas de qualidade, em polícia e repressão do que em oportunidades de emprego e salários dignos, em construir palacetes em vez de bairros com saneamento básico, em sonegar impostos e repassar a conta aos consumidores, em abrir contas em paraísos fiscais com dinheiro de corrupção do que aplicar recursos públicos em hospitais e transportes dignos para a população.

Nos dias que vivemos toda uma carga enorme de ódios e preconceitos vêm à tona, por parte de uma parcela das camadas médias. Tudo provocado pelo medo de perder privilégios, coisa que os governos petistas nem pensaram em tocar. Programas sociais de alcance questionável são condenados como se fossem apenas fonte de votos; projetos educacionais limitados são atacados de forma tosca.

Ainda se acredita que as mulheres mais pobres engravidam para ganhar bolsa-família ou que os pobres declaram ser negros para obter vagas para ingressar nas universidades públicas pelo sistema de cotas. Ainda se difunde o mito de que o jovem negro e favelado não quer nada com o batente e prefere queimar maconha que estudar.

Esse “Brazil que não conhece o Brasil” transforma Malafaia, Bolsonaro, Janaína Paschoal, Marco Antonio Villa e até Eduardo Cunha em seus ídolos. Chega-se às raias do absurdo de admitir um governo que, antes mesmo de tomar posse, já anuncia remédios amargos, apenas para interromper o mandato de uma Presidente legitimamente eleita, gostemos dela e de seu projeto ou não.

Para essa turma Lula e Dilma são perigosos comunistas e não há argumento científico que os demova disso. Hoje, parte dos que foram às ruas pelo impeachment já estão envergonhados pelo que pressentem que virá. Amanhã a maioria deles vai sofrer na própria pele as consequências de sua ignorância política e sua mesquinharia.

Espremida entre sua cabeça de rico e sua condição de remediada, a chamada classe média será chamada mais uma vez a dar sua cota de sacrifício, a partir de medidas econômicas e políticas que vão sacrificar ainda mais seus parcos ganhos.

Na contramão deste embate entre os setores mais retrógrados e mais conscientes da sociedade brasileira, a esmagadora maioria de nosso povo se mantem alheia à crise instaurada em Brasília. E provavelmente se manterá assim, até que a crise interrompa até mesmo o churrasquinho de final de semana, o remédio da farmácia popular, o pagode, o baile funk e a pelada com os amigos.

Resta saber se essa gente será capaz e criativa para tomar o destino em suas mãos. A juventude do Rio, São Paulo e Goiás já começou a provar que é possível outro caminho, ocupando, cuidando e gerindo suas escolas, abandonadas pelo poder público. Será que veremos a busca da felicidade superar a repressão do pecado?