Difícil, muito difícil reconhecer nossos problemas. No começo nem imaginamos que eles existem de verdade e quando nos damos conta o melhor é não reconhecê-los ou escondê-los. Melhor reprimir do que tratar. Mas logo eles se manifestam de uma forma ou de outra. Uma delas é a compulsão, espécie de válvula de escape que encontramos para alcançar o prazer.

Prazer neste caso não necessariamente tem a ver com sexo ou desejo sexual, mas com realização de algo que nos falta. Existem muitas formas de compulsão que podem se manifestar na mania de comprar, de beber, de jogar, de se conectar, de guardar coisas, de subtrair pequenos objetos, de comer, de fumar e também de fazer sexo. Algumas dessas compulsões resultam até em problemas de saúde físicos e jogam a auto estima do indivíduo na lata de lixo.

Mas como todo prazer a compulsão, precedida de momentos de ansiedade, é passageira. Rapidamente a dura realidade da vida retorna para nos enquadrar. Quando as pessoas que nos rodeiam percebem o problema, a saída mais comum do compulsivo é a fuga, a omissão e a mentira. Esconder é a maneira que o compulsivo tem de negar a compulsão. Até porque ela pode parecer algo sujo, inaceitável aos olhos dos outros.

É verdade que a maioria dos humanos “normais” não consegue entender a compulsão e suas diversas formas de manifestação como uma questão de saúde. A tendência mais comum é de um julgamento moral, isolamento e afastamento do compulsivo. Daí a reação natural de esconder o problema.

Mas a maior dificuldade é encarar o problema e procurar ajuda. Esconder é mentir para si mesmo, não resolve e ainda agrava a questão. Talvez a melhor forma de enfrentar a compulsão é perceber que ela é mais comum do que parece, só que a maioria das pessoas prefere jogá-la para debaixo do tapete.

Afinal, o que todo ser humano quer é o reconhecimento dos que o cercam. Queremos o reconhecimento de nossos pais, dos amigos, dos coleguinhas da escola, do professor, do chefe, dos colegas de trabalho. Queremos que todos reconheçam nossa capacidade, nossas qualidades e que tratem nossos defeitos de forma fraterna e cautelosa.

Ocorre que muitas vezes desde a infância temos nossa auto-estima rebaixada, nossos desejos reprimidos. Isso geralmente acontece primeiro no ambiente familiar, outras vezes na escola ou no local de trabalho. Esquecemos que nosso pai, nossa mãe, o professor, o colega de sala ou de trabalho vêm de outros grupos com desajustes e também despejam suas frustrações sobre os outros, quase sempre de forma inconsciente.

Normalmente um compulsivo é um sujeito inteligente e sensível, acima da média dos considerados “normais”. Ele sabe que pode ser e render muito mais, mas se frustra pela falta de reconhecimento ou de importância pelo que faz ou pela função que exerce. E o pior é que ele se incomoda com isso, quando a maioria à sua volta não está nem aí, seja por ignorância ou por pouco se importar com ele.

Por isso, até por instinto, muitas pessoas que percebem as fragilidades do compulsivo acabam por tirar proveito da situação. São filhos que abusam dos pais, o(a) companheiro(a) que faz vista grossa ou o manipula, o chefe que assedia moralmente, etc.

No entanto, quem se importa sofre tanto ou mais que o compulsivo. São famílias que se desagregam, relacionamentos abalados e tantas outras manifestações que acabam por envolver aqueles que estão à sua volta.

Numa sociedade em que o mais importante é TER do que EXISTIR, onde PARECER é mais do que SER, onde o CONSUMO vale mais do que a ORIGINALIDADE, todas as compulsões são muito bem-vindas. Afinal esta sociedade lhe oferece as mais diversas formas de transformar suas frustrações e compulsões em PRAZER que pode ser comprado, mesmo que por alguns segundos. E isso se potencializa ainda mais com o advento da internet.

Encarar a compulsão é reconhecer que ela existe e pode se manifestar a qualquer momento. Encarar a compulsão é buscar ajuda psicológica individual ou em grupo. Encarar a compulsão é dizer NÃO aos que o cercam e se acostumaram a abusar das suas fragilidades. Encarar a compulsão é reagir, é dizer NÃO à fuga e ao consumo do prazer fugaz que nos oferecem como um band-aid para uma fratura.

Grândola Vila Morena é o hino da Revolução portuguesa que derrubou o fascismo sem disparar um tiro. O levante militar comandado pelos capitães de abril levou o povo às ruas e derrubou o fascismo, que infelicitava o país e as suas colônias na África desde a década de 20 do século passado.

(Núcleo Nova Piratininga)

O economista Victor Leonardo de Araújo, professor da Universidade Federal Fluminense, enviou carta ao jornal ‘O Globo’ enumerando os dados errados recorrentemente usados pelo jornal para criticar a economia da Venezuela. Entre eles, números sobre déficit público, inflação e produção industrial. Leia a íntegra do texto.

“Prezada Senhora Sandra Cohen, editora de Mundo de O Globo

Já é sabido que o jornal O Globo não nutre qualquer simpatia pelo governo do presidente venezuelano Hugo Chávez, e tem se esforçado a formar entre os seus leitores opinião contrária ao chavismo – por exemplo, entrevistando o candidato Henrique Caprilles sem oferecer ao leitor entrevista com o candidato Nicolás Maduro em igual espaço. Isto por si já é algo temerário, mas como eu não tenho a capacidade de modificar a linha editorial do jornal, resigno-me.

O problema é que o jornal tem utilizado sistematicamente dados um tanto quanto estranhos na sua tarefa de formar a opinião do leitor. Sou professor de Economia da Universidade Federal Fluminense e, embora não seja “especialista” em América Latina, conheço alguns dados sobre a Venezuela e não poderia deixar de alertá-la quanto aos erros que têm sido sistematicamente cometidos.

Como parte do esforço de mostrar que o governo Chávez deixou a economia “em frangalhos”, o jornalista José Casado, em matéria publicada em 15/04/2013 (“Economia em frangalhos no caminho do vencedor”) informa que o déficit público em 2012 foi de 15% do PIB.

Infelizmente, as fontes desta informação não aparecem na reportagem (apenas uma genérica referência a “dados oficiais e entidades privadas”!!!), uma falha primária que nem meus alunos não cometem mais em seus trabalhos.

Segundo estimativas apresentadas para o ano de 2012 no “Balanço Preliminar das Economias da América Latina e Caribe”, da conceituada Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), o déficit foi de 3,8% do PIB, ligeiramente menor do que no ano anterior, mas muito inferior ao apresentado pelo jornal.

Caso o jornalista queira construir a série histórica para os resultados fiscais para a Venezuela (e qualquer outro país do continente), pode consultar também as várias edições do “Estudio Económico” também da Cepal.

Para poupar o seu trabalho: a Venezuela registrou superávit primário de 2002 a 2008: 2002: 1% do PIB; 2003: 0,3; 2004: 1,8; 2005: 4,6; 2006: 2,1; 2007: 4,5; 2008: 0,1; e déficit nos anos seguintes: 2009: -3,7% do PIB; 2010: -2,1; 2011: -1,8; 2012: -1,3.

O déficit é decrescente, mas bem distante dos 15% do PIB publicados na matéria.

Afirmar que o déficit público na Venezuela corresponde a 15% do PIB tem sido um erro recorrente, e também aparece na matéria intitulada “Onipresente Chávez”, publicada na véspera, também no caderno “Mundo” do jornal ‘O Globo’ em 13/04/2013.

A este propósito, tenho uma péssima informação a lhe dar: diante de um quadro fiscal tão saudével, o presidente Nicolás Maduro não precisará realizar ajuste fiscal recessivo, e terá condições de seguir com as políticas de seu antecessor.

A matéria do dia 15/04/2013 possui ainda outros erros graves. O primeiro é afirmar que existe hiperinflação na Venezuela, e crescente. Não há como negar que a inflação é um problema grave na Venezuela, mas ‘O Globo’ não tem dispensado o tratamento adequado para informar os seus leitores.

A inflação na Venezuela tem desacelerado: foi de 20% em 2012, contra 32% em 2008 (novamente utilizo os dados da Cepal). Tudo indica que o jornalista não possui conhecimento em Economia, pois a Venezuela não se enquadra em qualquer definição existente para hiperinflação – a mais comumente utilizada é de 50% ao mês; outras, mais qualitativas, definem hiperinflação a partir da perda da função de meio de troca da moeda doméstica, situações bem distantes do que ocorre na Venezuela.

Outro equívoco é afirmar que “não há divisas suficientes para pagar pelas importações”. A Venezuela acumula superávits comerciais e em transações correntes (recomendo que procure os dados – os encontrará facilmente na página da Cepal).

Esta condição é algo estrutural, e a Venezuela é a única economia latino-americana que pode dar-se ao luxo de não precisar atrair fluxos de capitais na conta financeira para financiar suas importações de bens e serviços. Isto decorre exatamente das exportações de petróleo.

O problema, Senhora Sandra Cohen, é que os erros cometidos ao expor a situação econômica venezuelana não se limitam à edição do dia 15/04, mas tem sido sistemáticos e corriqueiros.

Como parte do esforço de mostrar que o governo Chávez deixou uma “herança pesada”, a jornalista Janaína Figueiredo divulgou no dia 14/04 (“Chavismo joga seu futuro”) que em 1998 a indústria respondia por 63% da economia venezuelana, e caiu para 35% em 2012.

Infelizmente, a reportagem comete o erro primário que o seu colega José Casado cometeu: não cita suas fontes.

Em primeiro lugar, a informação dada pelo jornal é que a Venezuela era a economia mais industrializada do globo terrestre no ano de 1998. Veja bem: uma economia em que a indústria representa 63% do PIB é super-hiper-mega-industrializada, algo que sequer nos países desenvolvidos foi observado naquele ano, nem em qualquer outro. E a magnitude da queda seria digna de algo realmente patológico.

Como trata-se de um caso de desindustrialização bastante severo, procurei satisfazer a minha curiosidade, fazendo algo bastante corriqueiro e básico em minha profissão (e, ao que tudo indica, o jornalista não fez): consultei os dados.

Na página do Banco Central da Venezuela encontrei a desagregação do PIB por setor econômico e lá os dados eram diferentes: a indústria respondia por 17,3% do PIB em 1998, e passa a representar 14% em 2012. Uma queda importante, sem dúvida, mas algo muito distante da queda relatada por sua jornalista.

Caso a senhora, por qualquer juízo de valor que faça dos dados oficiais venezuelanos, quiser procurar em outras fontes, sugiro novamente a Cepal, (Comissão Econômica para América Latina e Caribe).

As proporções mudam um pouco (21% em 1998 contra 18% em 2007 – os dados por lá estão desatualizados), mas sem adquirir a mesma conotação trágica que a reportagem exibe. Em suma: os dados publicados na matéria estão totalmente errados.

O erro cometido é gravíssimo, mas não é o único.

A reportagem ainda sugere que a Venezuela é fortemente dependente do petróleo, respondendo por 45% do PIB. Novamente, a jornalista não cita suas fontes.

Na que eu consultei (o Banco Central da Venezuela), o setor petróleo respondia por 19% do PIB em 1998, contra pouco mais de 10% em 2012.

Como a Senhora pode perceber, a economia venezuelana se diversificou. Não foi rumo à indústria, pois, como eu mesmo lhe mostrei no parágrafo acima, a participação desta última no PIB caiu. Mas, insisto, a dependência do petróleo DIMINUIU, e não aumentou como o jornal tem sistematicamente afirmado.

A edição de 13/04/2012, traz outros erros graves. Eu já falei anteriormente sobre os dados sobre déficit público apresentados pela matéria assinada pelo jornalista José Casado (“Onipresente Chávez”).

A mesma matéria afirma que a participação do Estado venezuelano representa 44,3% do PIB.

O conceito de “participação do Estado na economia” é algo bastante vago, e por isso era importante o jornalista utilizar alguma definição e citar a fonte – mas isto é algo, ao que tudo indica, O Globo não faz.

Algumas aproximações para “participação do Estado na economia” podem ser utilizadas, e as mais usuais apresentam números distantes daqueles exibidos pelo jornalista: os gastos do governo equivaliam a 17,4% do PIB em 2010 (contra 13,5% em 1997) e a carga tributária em 2011 era de 23% (contra 21% em 2000), nada absurdamente fora dos padrões latino-americanos.

Enfim, no afã de mostrar uma economia em frangalhos, O Globo exibe números simplesmente não correspondem à realidade da economia venezuelana. Veja bem: eu nem estou falando de interpretação dos dados, mas sim de dados que equivocados!

Seria importante oferecer ao leitor de O Globo uma correção dessas informações – mas não na forma de errata ao pé de página, mas em uma reportagem que apresente ao leitor a economia venezuelana como ela é, e não o caos que O Globo gostaria que fosse.

E, por favor, nos próximos infográficos, exibam suas fontes.

Atenciosamente,

Victor Leonardo de Araújo
Professor de Economia da Universidade Federal Fluminense”.

 

O currículo do presidente eleito do Paraguai é mesmo da pesada. Seu nome era citado no sítio Wikipedia, na internet, como “traficante e contrabandista de cigarro”. De acordo com o sítio Wikileaks, em comunicados da diplomacia norte-americana Horacio Cartes é identificado como “cabeça de organização de lavagem de dinheiro na Tríplice Fronteira”.

Nada disso, no entanto, foi empecilho para que o Partido Colorado, tradicional agremiação política das elites paraguaias, pudesse registrar a candidatura de Cartes. Aliás, ele foi também o candidato preferencial dos chamados “brasiguaios”, brasileiros que grilaram terras, viraram latifundiários e produzem soja no país vizinho.

Horacio Cartes é o dono de um império de 25 empresas de diversos setores, entre eles o financeiro, o de produção de tabaco e de soja, que emprega cerca de 3.500 pessoas no país. Um inquérito parlamentar do Congresso brasileiro revelou que uma de suas empresas, a Tabesa, se dedica ao contrabando de cigarros no Brasil.

Ora, um dos motivos alegados pelo Congresso paraguaio para interromper o mandato do ex-presidente Fernando Lugo foi a corrupção, aliado ao massacre de Curuguaty, em que 17 sem-terra morreram em confronto com a polícia. Uma nova eleição foi convocada, mas sequer o inquérito sobre Curuguaty foi concluído.

Triste sina a do povo guarani. Décadas de ditadura, uma democracia frágil, golpe de estado e um presidente ficha suja. Todo este atraso tem origem na interrupção da primeira experiência de nação independente, comandada por Solano Lopes, que desafiava os interesses dos ingleses na América Latina. E o Brasil, país que comandou a Tríplice Aliança (com Uruguai e Argentina) que derrotou militarmente o Paraguai, tem uma dívida histórica com nossos vizinhos. Mas a grande mídia brasileira continua preocupada com o que chama de “crise” da Venezuela…

Há um processo de esvaziamento e fragmentação dos sindicatos e centrais sindicais no Brasil nos últimos anos. Isto é provocado por um conjunto de elementos que se somam, levando a uma crise no movimento sindical. O principal deles advém das mudanças que a própria classe trabalhadora vem sofrendo, com a precarização das relações de trabalho, a terceirização, o trabalho sazonal no campo, o contrato temporário e um enorme contingente de trabalhadores que sobrevivem por conta própria.

Isso, por si só, já gera uma enorme quantidade de problemas, porque a classe trabalhadora se tornou muito mais heterogênea. No entanto, com a crise do socialismo soviético e o desmantelamento da URSS e do “bloco socialista”, a situação ficou ainda pior. A imposição do capitalismo neoliberal em todo o Planeta levou a uma série de ataques aos antigos direitos trabalhistas, conquistados a duras penas pela classe trabalhadora ao longo do século XX.

As idéias revolucionárias ou transformadoras foram perdendo força entre os próprios trabalhadores e suas organizações. Algumas se adaptaram por completo, como o PT e a CUT no Brasil. Outras foram minguando, por não conseguirem apresentar ou se incluir num projeto concreto de enfrentamento com o capital e nem forjar um novo projeto de socialismo, capaz de superar os equívocos das experiências do século passado.

O resultado é que hoje prevalece um sindicalismo pobre de idéias e de projetos, cujas estruturas servem de trincheira a alguns poucos militantes que ainda resistem, e de encosto a uma nova leva de lideranças absolutamente despolitizadas. Talvez esta situação esteja mudando na Europa ou em outros cantos do Planeta, onde a crise capitalista recrudesceu nos últimos anos, com o ataque a direitos que eram considerados intocáveis. Mas no Brasil a coisa chega a ser dramática.

Restam ainda alguns grupos doutrinários, ligados às idéias e métodos do socialismo de caserna, cuja atuação sindical visa tão somente subordinar os sindicatos às suas minúsculas organizações políticas. Mas são grupos tão fechados em si mesmos que não conseguem dialogar com os simples mortais, atuando como espécies de seitas pseudomarxistas.

Essas organizações, quando chegam à direção de um sindicato, via de regra repetem os mesmos erros: arrogância dos que crêem que tudo sabem, autosuficência, aparelhamento da máquina e desvio de recursos para outros fins sem conhecimento da base, empreguismo de amigos e parentes, relação autoritária com os funcionários do próprio sindicato, contratos obscuros, irracionalidade no uso dos recursos, ausência de prestação de contas, nenhum trabalho sério de formação das novas lideranças, pagamento de diárias aos diretores que se tornam complemento salarial, barganha de cargos e espaços. Enfim, uma escola de deformações que inevitavelmente concorre para o enfraquecimento e o descrédito da organização sindical.

O mais grave é que neste mar de erros crescem ervas daninhas, carreiristas e oportunistas de todo tipo, cujo objetivo é apenas se locupletar da máquina sindical. Alguns assimilam as práticas de reuniões e a oratória de seus mestres da esquerda para se manter nas proximidades dos centros de poder, apoiando qualquer coisa que venha de suas lideranças. Atuam como puxa-sacos, não contestam nada e estão sempre na espreita para obter a confiança dos dirigentes. Provavelmente serão as lideranças do futuro e apenas aguardam a sua vez chegar.

Mal sabem as velhas lideranças que os oportunistas de plantão hoje comem em suas mãos, mas amanhã comerão as suas mãos. E o pior, vão conduzir os sindicatos ao velho peleguismo mafioso, antidemocrático e patronal.

Fenômenos que também se pode observar nas centrais sindicais e suas variantes. Agora elas surgem como apêndices de partidos políticos, uma chaga que até então não se via no sindicalismo brasileiro. Não possuem sequer políticas de comunicação de massas condizentes com as tecnologias do nosso tempo. Via de regra convocam atos públicos e mobilizações esvaziadas para marcar posição e dizer que existem, porque ninguém sequer conhece seus dirigentes. Alguns são velhas figuras carimbadas, que não sabem o que é produção faz décadas. Umas mais conservadoras, outras governistas e outras com discurso mais à esquerda, mas com práticas tão semelhantes.

No entanto, existem também alguns bons exemplos, nos quais é possível se espelhar para a construção de um sindicalismo combativo, plural e de base. Não há receitas, ma é possível preservar alguns princípios, como: submeter as decisões à base, que deve ser informada do que se passa; construir pautas de reivindicações que atendam a todos os setores da categoria; realizar consultas e eleições democráticas; dividir os recursos financeiros por todas as estruturas (independente de quem as dirija); renovar as direções; adotar a transparência na conduta política e administrativa, prestando contas periodicamente; preservar e incentivar a organização nos locais de trabalho; somar forças com os demais movimentos populares para traçar políticas mais amplas para a sociedade; enfrentar a alienação no trabalho, através de atividades que levem os trabalhadores a refletir sobre o que produzem e para quem produzem.

Em tempos de muitos ataques e poucas lutas ainda é possível preservar princípios e conduzir os sindicatos dentro de uma linha de atuação independente dos patrões, governos e partidos, de forma plural e democrática. Eles podem ser ferramentas importantes de resistência, sobretudo se somados a outros movimentos populares e organizações democráticas.

As atuais administrações municipal e estadual transformaram o Rio numa feira livre de grandes negócios. É a cidade do vale tudo, do particular acima do público, da compra e venda de espaços, um verdadeiro território sem lei e sem limites para grupos privados.

Depois que deram um jeito de abafar a ligação direta de Carlinhos Cachoeira com a empreiteira Delta, cujo presidente sequer foi chamado a prestar depoimento na CPI, Fernando Cavendish e sua turma saíram de cena. Mas as negociatas do governador e do prefeito parecem infindáveis.

Até os antigos quartéis da PM serão vendidos a grupos privados. O de Botafogo já foi e os próximos serão os da Tijuca, o do Leblon e o quartel-general, no Centro da cidade. Cabral tanto fez que conseguiu expulsar a força alguns descendentes indígenas da sede do antigo Museu do Índio. Prometeu um museu olímpico no lugar, trocando nossos ancestrais pelos ideais da Grécia antiga.

As obras do novo Maracanã estão chegando ao fim, com a obra na casa de R$ 1 bilhão. Mas já há uma alerta de que já será preciso 39 modificações do novo estádio para sua utilização nas Olimpíadas, em 2016. Cerca de 9 mil pessoas que ainda utilizam as dependências do centro aquático Julio Delamare serão despejadas – inclusive 40 atletas olímpicos – para que toda a área do entorno do Maracanã seja transformada em estacionamentos.

A Prefeitura é uma mãe das empresas privadas. Paga 1/3 do que investe na saúde às Organizações Sociais, para administrar unidades de sua responsabilidade. Para agradar aos donos das empresas de ônibus – velhos financiadores de campanhas eleitorais – o prefeito começou a retirar das ruas as vans do transporte alternativo, que atendem a mais de 1 milhão de passageiros por dia.

O Município simplesmente abriu mão de seu direito de adquirir os imóveis da Rua da Carioca, patrimônio do Rio, para que o grupo Opportunity, do senhor Daniel Dantas arrematasse o casario antigo. O negócio mal foi fechado e os novos donos da rua já estão extorquindo os velhos inquilinos, cobrando reajustes absurdos nos aluguéis. E a Prefeitura ainda envia projeto à Câmara isentando de impostos proprietários de imóveis tombados em obras… Mão na roda.

No caso da venda do terreno para o campo de golfe das Olimpíadas – em área nobre da cidade – o grupo privado que comprar também gozará de isenção fiscal e ainda poderá construir espigões na área. O Porto virou “maravilha” e foi entregue de bandeja a um consórcio com forte participação de empreiteiras, que vão ser responsáveis até mesmo pela prestação de serviços na região.

 O BRT, uma das grandes realizações apresentadas pela administração de Eduardo Paes, já apresenta buracos e problemas estruturais. As obras, inauguradas para servirem de carro-chefe da reeleição de Dudu, estão orçadas em 770 milhões de reais. Acusada pela administração municipal de realizar serviços mal feitos, a empreiteira Sanerio se defende, alegando que a obra foi finalizada e entregue às pressas. De acordo com o presidente da empresa, “a prefeitura não esperou o tempo de assentamento do solo, que é de seis meses, para iniciar a operação dos BRTs”.

Um dos grandes beneficiários da política de entrega do patrimônio público, levada à cabo pela Prefeitura do Rio é, sem dúvida, o empresário Eike Batista. Seu grupo comprou o Hotel Glória e levou de presente a Marina da Glória, que vai virar uma espécie de puxadinho do hotel, desrespeitando projeto original do Parque do Flamengo.

 Aliás, Eike está em todas, inclusive no novo Maracanã. Para assegurar que o empreendimento será um sucesso de renda, a Prefeitura colocou no contrato da Parceria Público Privada cláusula que obriga dois grandes clubes (Fla-Flu) a mandarem seus jogos no estádio. Numa jogada de mestre o Prefeito agiu como verdadeiro porta-voz do futuro concessionário do Maracanã, ao anunciar repentinamente o fechamento do Engenhão. Afinal, no Brasil negócio bom é negócio financiado com dinheiro público e sem concorrência.

Do jeito que vai, só falta o Prefeito anunciar a licitação das praias cariocas. É bom nem dar a idéia porque ele pode gostar…

Começamos a envelhecer de verdade quando nos referimos sempre à nossa juventude, comparando as atitudes ou a falta delas com as adotadas pelas novas gerações. É certo que tudo muda, mas nem sempre mudança significa melhoria ou avanço.

Progresso hoje é viver na correria, pular de um canto a outro, ter respostas na ponta da língua para qualquer situação a qualquer momento. Progresso é não criar raízes, é viver em constante tensão, é competição. Pouco importa o conteúdo se a embalagem parece atraente e bela para um produto qualquer, do brinquedo que compramos à comida que digerimos. Por isso, ao mesmo tempo em que cresce a média da expectativa de vida das pessoas, cresce o número de obesos, enfartados e de pessoas com AVC.

A criançada e os adolescentes têm acesso a um sem fim de informações, são inúmeras as fontes de divulgação, a internet propicia todas as possibilidades. No entanto, tudo é resumido a no máximo cinco linhas, das respostas aos exercícios da escola aos textos que elas postam no Facebook. A internet criou o “resumismo”: todo mundo está antenado em tudo e não tem conhecimento profundo sobre absolutamente nada.

Livros só aqueles que a escola recomenda. E assim mesmo como é difícil ultrapassar as dez primeiras páginas… Aliás, não existe instituição com mais problemas hoje que a Escola. A família se vira, muda, se adequa, mas as novas gerações condicionadas a não raciocinar, querem as respostas para se livrar de tudo. Melhor dar respostas na base do copia e cola, do que dar soluções que exijam pensar, um verbo que está fora de uso.

Neste oceano de mediocridade poucos são os que conseguem chegar à superfície para respirar novos ares e se destacar. Por isso, estamos enfrentando dificuldades em todas as áreas, inclusive nas artes. Poucos são os novos atores, escritores, compositores e artistas que destoam da mediocridade. A quantidade de remakes, de releituras, de regravações é impressionante. Na TV, no cinema e na música predominam as comediazinhas bobas, regadas a piadinhas sobre sexo e besteirol.

Do jeito que as coisas estão acho que a solução é radicalizar. Será que devo seguir a lição de meu pai, quando não permitiu a entrada de TV lá em casa? Será que nossos pais tinham tanto tempo assim com seus filhos? Será que devemos ficar mais tempo com os pequenos para preencher nosso sentimento de culpa? Será que devo cortar a internet? Sei lá, pode ser… Isso não impediu que eu e meus irmãos víssemos TV nas casas de amigos, mas nos deu mais tempo livre para ler jornais e livros, brincar e usar a criatividade.

Sem mais nem porque o Prefeito Dudu decidiu anunciar o fechamento do Engenhão, Estádio Olímpico construído para os Jogos Pan Americanos de 2007. De acordo com o Prefeito, uma empresa alemã fez um levantamento da situação e indicou que havia riscos em relação ao telhado do estádio.

Um susto para os torcedores e para o contribuinte carioca, que já tinham no Engenhão uma referência para o futebol do Rio desde 2010, quando o Maracanã foi fechado para obras visando a Copa do Mundo de 2014. No entanto, existem muitas coincidências estranhas nesta história. Vamos a elas:

1 – A empresa alemã responsável pelo laudo sobre o telhado do Engenhão – que não indica risco iminente, mas possibilidade de risco caso haja ventos fortes – é a mesma que está montando o telhado do novo Maracanã. Uma situação no mínimo irônica, depois daquela imagem da enchente em que quatro peões de sunga retiravam água acumulada no novo telhado do Maraca;

2 – Uma empresa portuguesa já havia feito este mesmo alerta em 2010 e o Botafogo repassou a preocupação às autoridades municipais, que não tomaram nenhuma providência. Só agora, depois de passado prazo de cinco anos em que vigora o seguro da obra, a Prefeitura decide interditar o estádio;

3 – Ao mesmo tempo a reforma do Maracanã (que custará ao erário público mais de R$ 1 bilhão) está em fase de conclusão. Parece mentira, mas o consórcio que toca a obra bilionária (Delta, depois Odebrecht/OAS) é o mesmo que ergueu o Engenhão, que também teve seu custo final multiplicado.

4 – O anúncio do vencedor da licitação de privatização do novo Maracanã sai agora, dia 11 de abril. E no edital há uma exigência de que dois clubes firmem contrato de compromisso de utilização do estádio durante a parceria entre Prefeitura e a concessionária vencedora, ou seja, por 35 anos;

5 – Não se sabe qual será o custo de utilização por jogo do Maracanã privatizado, mas se sabe que os clubes sempre reclamaram de prejuízos quando a bilheteria de um jogo no velho Maracanã era fraca. Portanto, vai sobrar para Flamengo e Fluminense financiar a privatização, porque a concessionária que vencer a licitação não vai correr o risco de administrar um elefante branco;

 6 – Quem vai pagar a conta das obras necessárias para recuperar o Engenhão, que incluem o telhado, a iluminação, estrutura hidráulica, dentre outras? Quem vai cobrir os prejuízos do Botafogo com o fechamento do Estádio, que não tem data para reabrir? Flamengo e Fluminense preferem mandar a maioria de seus jogos do Campeonato Brasileiro no Maracanã ou no Engenhão? Qual vai ser o preço médio do ingresso no novo Maracanã, administrado por um consórcio privado?

Ao que parece o que menos interessa ao Prefeito é jogar no time das empresas privadas. Não há qualquer compromisso em ajudar os clubes do Rio e facilitar a vida dos torcedores cariocas. Neste campeonato desigual ganharão sempre as empreiteiras, o consórcio que for dono do Maracanã e o Prefeito, que precisa manter boas relações com essa gente para seguir sua carreira político-eleitoral. De outro lado, perdem os clubes e os torcedores, que só terão prejuízo pagando as contas das empresas privadas e seus amigos na Prefeitura.

Parece mentira, mas cerca de nove mil pessoas de programas de natação, hidroginástica, pólo aquático entre crianças e pessoas idosas estão sem as piscinas do Parque Aquático Julio Delamare, desde 2 de abril. O motivo não é a reforma do local ou dos equipamentos, utilizados também por cerca de 40 atletas olímpicos de alto rendimento, mas a privatização do complexo do Maracanã.

No local serão erguidos bares, restaurantes, um heliponto e um estacionamento para dois mil veículos, que serão explorados pela concessionária de vencer a licitação. Vale lembrar que o Julio Delamare, junto com o Estádio de Atletismo Célio de Barros, eram bens tombados desde 2002, mas o decreto de tombamento foi revogado pelo atual prefeito, Eduardo Paes.

O Julio Delamare passou por reformas que custaram R$ 10 milhões aos cofres públicos, justamente para as competições dos Jogos Pan Americanos de 2007. O que era para ser mais um legado do Pan vai virar um monte de entulho nos próximos meses. Parte das milhares de pessoas atendidas por programas sócio-esportivos estão sendo deslocadas para o América Futebol Clube, na Tijuca. Outra parte deverá ser transferida para o CEFAN, na Avenida Brasil.

O mais incrível é que a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e a Secretaria de Esporte e Lazer do Estado do Rio de Janeiro não preparam as condições para a transferência dos usuários do Julio Delamare para outros locais. A desinformação é grande e o Presidente da CBDA, Coaracy Nunes, e o secretário André Lazaroni trocam acusações. A secretaria diz que informou a CBDA à tempo, mas a Confederação nega.

Devemos agradecer mais este empreendimento à dupla Cabral/Paes, sempre solícita às demandas das grandes empreiteiras e dos promotores do megaeventos que tomam conta do Rio.

Já se passaram 49 anos quando os tanques do Exército saíram de Juiz de Fora e chegaram ao Rio em 1 de abril. Por desconhecimento, descrença ou mesmo falta daquilo roxo o então Presidente João Goulart decidiu não derramar sangue e se retirar. Em Brasília os golpistas no Congresso se apressaram a dizer que o cargo estava vago e a legitimar os militares no poder.

Trevas de 21 anos se abateram sobre o Brasil, sob o patrocínio direto do governo norte-americano. E olha que João Goulart só propunha reformas de base. Era a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma universitária e algumas outras medidas que apenas acelerariam o desenvolvimento social, cultural, político e econômico do país. Mas a paranóia anticomunista e o receio de parcela da classe média conservadora se encarregaram de dar base de apoio aos golpistas.

Durante 21 anos imperou o medo, a censura, a repressão, a tortura, o assassinato promovido pelo Estado, o desmonte de qualquer projeto de nação, o ataque à cultura e ao saber. Na economia desenvolveu-se a megalomania do Brasil Grande, integrado de ponta a ponta via Embratel, sob o controle das câmeras da Rede Globo. A dívida pública, financiada por investimentos externos, cresceu e nos atormenta até hoje, em forma de juros milionários que pagamos todos os anos.

Pior do que as mortes, prisões arbitrárias, tortura e censura a combatentes de esquerda e democratas, é o tamanho da conta que pagamos pelos anos de chumbo. As comissões da verdade – iniciativa tímida, mas importante – poderão até revelar parte dos absurdos cometidos por torturadores, mandantes e financiadores do golpe de 1964. Talvez até consiga-se processar e condenar alguns deles. Quem sabe?

O mais grave legado do Golpe de 1964 está entranhado na sociedade brasileira, uma conta que pagamos até hoje com juros e correção monetária. Nosso ensino público, que revelou as mentes mais brilhantes deste país saídas de simples banquinhos dos grupos escolares durante gerações, foi destroçado. Em seu lugar foi implantada a mentalidade do ensino pago, o descaso com o educador e a transformação da escola pública em depósito de crianças pobres. O sistema educacional brasileiro agoniza com as médias ridículas de notas de Português e Matemática em todos os exames nacionais.

A violência de Estado, que foi direcionada contra um grupo pequeno da sociedade que se opunha ao regime ditatorial, se generalizou, perpetuando o preconceito, o pé na porta nas favelas, a tortura e o assassinato contra as parcelas mais pobres da sociedade. Hoje a violência está sem qualquer controle, presente nas capitais inchadas e atingindo de forma alarmante o interior.

Para sustentar as imensas desigualdades deixadas pelo modelo econômico e social da ditadura, criou-se e fortaleceu-se a indústria da mentira, formada por um grupo de famílias controladoras das grandes redes de comunicação. Elas estão de pé até hoje, intactas e reforçadas pelas oligarquias regionais que controlam o Congresso Nacional e os governos estaduais, através das “repetidoras”, que como papagaios transmitem as programações idiotizantes para todo o país.

Desta amarga experiência de 21 anos herdamos uma sociedade em frangalhos, na qual imperam a ignorância, a corrupção, o “jeitinho”, a ganância, o desrespeito ao próximo – sobretudo às crianças e aos idosos – e ao que é público. Tudo isso embalado pela violência cotidiana, sob o som do plim-plim da Globo.

Enquanto teimarmos em não encarar e desconhecer as chagas de nossa História, elas continuarão como feridas abertas, cada vez mais expostas na sociedade brasileira. Por isso é sempre importante lembrar o golpe de 1964.