De vez em quando a imprensa nacional escolhe bodes expiatórios e casos sem importância para desfraldar a bandeira do nacionalismo. Isso é muito freqüente no futebol, quando se trata de defender a pátria de chuteiras. Pouco importa se a seleção brasileira está na caixinha da Nike e seus amistosos sem qualquer relevância.

Recentemente a mesma imprensa do nacionalismo de varejo elegeu mais um bode da sua pequena coleção: o pai norte-americano de um menino que é filho de uma brasileira falecida.

Em praticamente todos os artigos de jornais, textos de matérias de rádio e TV o que mais se lê e se ouve é a estranha expressão “pai biológico”. Por que pai “biológico”? É a primeira vez que um caso estritamente familiar atinge tamanha proporção e se usa um substantivo composto para tratar a figura do genitor.

Pouco importa se a mãe do menino Sean era brasileira e se seu pai é estadonidense. A definição de núcleo familiar está restrita ao pai, à mãe e aos filhos. Avôs, avós, tios, tias, primos e primas são parentes, mas não pertencem à família. Justo seria se o menino ficasse órfão de pai e mãe que os avôs o criassem. Não é esse o caso.

No caso o que houve foi quase um seqüestro, ou seja, a mãe do menino trouxe a criança para o Brasil dizendo que faria uma viagem de férias e nunca mais retornou aos EUA, onde o pai a aguardava com o filho. Uma conduta absurda e inadmissível, tendo em vista que não há qualquer notícia de que o pai maltratasse o garoto.

Não me atrevo a aplaudir o ministro do STF, Gilmar Mendes, que deu ganho de causa ao pai. Ele o fez por interesses outros, relativos a questões políticas internacionais entre o Brasil e os EUA. Mas o episódio reforçou a impressão de que nossa grande imprensa vive na mediocridade de tentar ocultar sua ideologia entreguista alimentando casos como este, justamente quando um pai, cidadão de outro país, apenas reivindica o legítimo direito de criar o seu filho.

MALAS DE 2009

29/12/2009

Em várias áreas eles se destacaram, sempre com suas aparições estabanadas, tiradas estapafúrdias e comentários desnecessários. Alguns nem precisaram dizer nada para confirmar sua posição de malas do ano.

Malas esportivas – Nos esportes uma mala pesada foi mais uma vez Rubinho Barrichello. Com o melhor carro da Fórmula 1 ele conseguiu iludir muita gente, mas no final entregou os pontos e chegou em terceiro.  Mala pesada mesmo só o senhor Carlos Artur Nuzman, o homem do COB. Mesmo sendo responsável pelo fracasso do Pan 2007 obteve carta-branca, ou melhor, cheque em branco dos governos municipal, estadual e federal para convencer os gringos que o Rio vai dar show de bola em 2016. Naturalmente tudo com muito dinheiro público…

Malas televisivas – O que dizer do casal Juliana Paes e Márcio Garcia, que conseguiram perder os papéis de protagonistas da novela maluca para o outro casal (ruinzinho também)? Com seu desempenho calhorda conseguiram provar mais uma vez que nem sempre os reis têm majestade. Thaís Araújo conseguiu roubar a cena ou o troféu, dando uma de top model internacional, como a mais nova Helena de Manoel Carlos. Ninguém melhor para contracenar com ela que José Mayer, o comilão de todas as novelas globais.

Malas midiáticas – No jornalismo ninguém pior do que Carlos Alberto Sardenberg, uma espécie de porta-voz da indignação global, sempre torcendo pra tudo dar errado, saudoso dos bons tempos do tucanato perfumado em Brasília. Não que os tempos do neopetismo tenham que ser enaltecidos, mas nada pior do que os discípulos de FHC. Míriam Leitão, o casal Bonner e Bernardes e Alexandre Garcia também merecem ser lembrados.

Malas capitais – Nas hostes de Brasília apareceram muitas malas pesadas, como sempre. Edmar do Castelo, Sarney e família, Arruda e sua gangue, Michel Temer. Todos têm motivos de sobra para concorrer ao troféu, mas o vencedor é… Gilmar Mendes. Da operação para livrar Daniel Dantas até a soltura do médico estuprador, foram só casos célebres este ano. Sem falar do fim da exigência de diploma para se exercer a profissão de jornalista.

Malas fluminenses – Na política regional sempre temos malas pesadas. Este ano, na falta da dupla Garotinho/Benedita, temos que nos contentar com Serginho Cabral e Eduardo Paes. Outro nome de destaque é o do prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, o ilusionista do PT, sempre se esforçando ao máximo em dar nó em pingo d´água para tirar proveito pessoal de qualquer situação. E teve gente acreditando que ele seria mesmo candidato a governador…

O troféu de mala regional este ano vai mesmo para ele, Júlio Lopes, o relações públicas das concessionárias travestido de secretário de transportes. Para justificar o projeto de privatização dos bondes de Santa Teresa, ninguém melhor que ele. Problemas com a operação das Barcas S. A.? Chamem o Julinho que ele explica. Pomba rolou nos trens da Central? É com o Julinho. Ele mata no peito e devolve de primeira a historinha dos vândalos. Problemas no Metrô? E daí? Fácil explicar, afinal quem tem Julinho no secretariado nem esquenta…

Depois das barcas e dos trens da Central chegou a hora do Metrô dar o ar de sua graça no “pomba rolou” dos transportes do Rio. Aproveitando a inauguração da estação mais cara do Rio (Ipanema), o governador e a empresa Metrô Rio anteciparam em dois meses a entrada em operação da ligação direta entre Pavuna e Botafogo.

Cabral convidou Lula para uma voltinha triunfal, com direito ao tradicional sorriso para as câmeras. No dia seguinte veio a triste realidade para o povão: muita gente, confusão e correria, com direito a cenas de desmaio e gritaria. O Metrô se transformou num verdadeiro trem-fantasma, assustando passageiros e funcionários.

Técnicos e especialistas já alertaram que o plano do governador e do Metrô-Rio é uma aventura, pois desconsidera o fluxo real de passageiros, a capacidade das estações, o número de trens e até as diferenças das composições (na Linha 1 circulam com 6 vagões e na Linha 2 com 8). Fora a confusão, porque trens com destinos diferentes trafegam pelos mesmos trilhos num trecho considerável de estações.

Em meio ao caos o secretário Julinho Lopes (sempre ele, o amigo das concessionárias) tentava explicar os problemas à imprensa na Estação Glória, quando foi vaiado por passageiros indignados. A direção do Metrô Rio pediu desculpas em matéria paga nos jornais. E daí? Alguém se sente seguro no Metrô do Rio com tanta gente, ar condicionado que não gela e os riscos de operar linhas diferentes sobre os mesmos trilhos?

Barcas, trens e Metrô. O que têm em comum os principais meios de transportes de massa do Rio? Todos estão nas mãos de grupos privados desde o governo Marcello Alencar. Nenhum governador desde então teve a coragem de questionar as privatizações. Pelo contrário, agora o secretário de transportes mais parece um porta-voz das empresas, em vez de interceder em favor da população. E todos os contratos de concessão permitem a intervenção do Estado e até a encampação das empresas.

Presente de grego

21/12/2009

O governador Sérgio Cabral Filho mandou presentear a todos os cidadãos fluminenses com mais um brilhante projeto: tarifa única de transporte de R$ 4,40 em toda a Região Metropolitana do Rio.

Maravilha! Só que o tempo de duração da tarifa única é de… duas horas. Ou seja, o sujeito vai ter que usar as duas passagens – ida e volta ou em trechos complementares – no período máximo de duas horas. Deve ser para estimular uma nova safra de corredores recordistas, já visando as Olimpíadas de 2016.

Ida e volta é que não dá mesmo, mas nem a passagem complementar se justifica neste curto espaço de tempo. Afinal, se o passageiro encontrar problemas pela frente no primeiro trecho da viagem? Ou será que não existem engarrafamentos, transtornos que paralisam os trens e o Metrô? Que tal o governador mandar o seu secretário Julinho (o amigo das empresas) fazer o percurso?

Para completar o presentão natalino, Serginho vai criar uma câmara de compensação controlada por um banco, para evitar prejuízos aos empresários. Aí está o espírito nobre do projeto. O governador não quer que nenhum amigo arque com qualquer prejuízo, mesmo que ele não exista, no caso dos empresários do ramo.

Mais uma vez o erário público será chamado a cobrir as despesas que por ventura forem necessárias para ressarcir as pobres empresas privadas do setor de transportes urbanos do Rio. Ou seja, o cidadão vai pagar o bilhete único e também entrar com mais algum em forma de impostos para bancar o chororô dos empresários. Deu pra entender o nosso Cavalo de Tróia???

Eduardo Paes nem esquentou a cadeirinha de Prefeito do Rio e já começa a quebrar promessas de campanha. Afinal ele prometeu que não haveria aumento de impostos, você se lembra!? Tudo bem que a nova Lei não aumenta imposto, mas cria uma nova “contribuição”, a COSIP, sigla pomposa para designar a taxa de iluminação pública.

Há quem jure de pés juntos que a nova taxa significa uma bitributação, já que a iluminação pública é serviço embutido no IPTU. Paes esgrime até a justificativa de que a Lei de Responsabilidade Fiscal prevê a possibilidade de se criar a nova taxa. Diz também que ela já existe em praticamente todas as demais capitais do país. Ou seja, estamos importando das outras cidades o que há de pior e não os melhores exemplos.

Segundo o Prefeito o município gasta demais com iluminação e inclusive deve à Light pelo serviço. Um serviço porco, diga-se de passagem. Há ruas e pedaços inteiros de bairros do Rio sem qualquer iluminação, um verdadeiro convite à ação da bandidagem.

A bancada governista na Câmara de Vereadores parece que só mudou de nomes, porque a proposta veio do antigo alcaide, César Maia. Os edis do DEM, outrora favoráveis ao projeto, agora são ferrenhos opositores. Mas isso é o que menos importa. O que vale é a conta a ser paga pelo contribuinte.

Conta cujo cálculo é o maior absurdo, baseado no consumo da energia doméstica de cada cidadão. Ou seja, quem gasta mais em casa vai pagar mais pela iluminação da rua. Um contra-senso, visto que é de se supor que quem passa mais tempo na rua mais necessita do serviço de iluminação pública. Se contarem essa em Portugal os patrícios vão rolar de rir…

Tomara que Paes se retrate e não sancione a Lei, quem sabe lembrando o seu mentor, César Maia, o prefeito dos factóides. Seria uma verdadeira luz no fim do túnel… Caso contrário terá que enfrentar a ira da sociedade, das entidades democráticas e do Ministério Público.

Mais um escândalo toma conta do noticiário político brasileiro. Desta vez o arrependido ex-senador José Roberto Arruda e agora governador do Distrito Federal – que confessou mentir no episódio do painel do Senado – foi flagrado por um ex-assessor com o “panetone” na boca.

Um esquema de corrupção de R$ 600 mil por mês envolvia Arruda, secretários de governo, assessores e deputados distritais. O guloso presidente da câmara distrital, não tendo onde colocar tanto dinheiro que recebeu, colocou maços do numerário até nas meias. O desespero se justifica afinal, em Brasília tem muito ladrão.

Uma verdadeira Arca de Noé partidária envolvia o governo de Arruda: do DEM (sem partido) passando pelo PMDB – presença obrigatória em qualquer governo – até o PPS, PSB, PDT, PSC e outros menos cotados. Todos se apressaram a deixar o governo ou a desmentir envolvimento no esquema.

Alguns empresários que repassavam a grana também são figurinhas carimbadas e estão sendo investigados em outros estados e cidades por participarem de outros esquemas de compra de favores junto a governantes. Uma mão suja a outra.

A novidade (será?) agora é que em uma das fitas gravadas o senhor Durval Barbosa, ex-assessor direto do governador, conversa com empresário Alcyr Collaço (o homem da cueca de ouro) e diz que Arruda dava 1 milhão para o deputado federal Tadeu Filippelli (PMDB/DF). Collaço então corrige Barbosa e afirma: – É 800 pau (sic). Quinhentos pro Filippelli, 100 para o Michel, 100 para Eduardo, 100 para Henrique Alves.

Michel no caso é o Temer, do PMDB/SP (Presidente da Câmara dos Deputados). Eduardo é o Cunha (deputado federal do PMDB/RJ) e Henrique Alves é deputado federal do mesmo PMDB pelo Rio Grande do Norte. Talvez seja por isso que Lula tenha declarado que “as imagens não falam por si só”.