O que a mídia apresenta como algo escandaloso no Maranhão não deveria causar espécie a nenhum brasileiro. Afinal, será que presídios abandonados e detentos que controlam cadeias são fatos desconhecidos país afora (int) Alguma novidade em uma família controlar um estado por tantas décadas (int)

Depois das tradicionais festas de final de ano, com o apelo desenfreado ao consumo, o cidadão volta à dura realidade. Mais dura ainda com o advento do verão, que amplifica os transtornos nossos do dia a dia.

Não deveria ser assim, afinal o calor forte dos trópicos é algo que qualquer um nascido por essas bandas já conhece desde que se entende por gente. O que não mudou mesmo foi a forma como lidamos com isso.

Pra que cuidar da rede de abastecimento de água, embora se saiba que o consumo sempre aumenta nesta época (int) Água em grande quantidade só a que cai do céu, em forma de tempestades. Depois da enxurrada aparece sempre aquela “autoridade” para dizer o óbvio: o volume d’água foi maior do que o que se esperava para todo o mês. E lá se vão casas, ruas, praças, vidas, esperanças, sonhos… E lá vêm verbas públicas para serem desviadas em obras emergenciais, sem licitação pública, é claro.

E as estradas (int) Por que melhorar se podemos mantê-las como estão ou piorar (int) Deixa as concessionárias fazerem o quiserem. A privatização das estradas trouxe um montão de promessas, com obras que não aconteceram, mas pedágios caros e em grande quantidade, além de engarrafamentos para transformar as férias do cidadão em martírio. Mas quem quer saber disso (int)

O transporte já conhecemos bem. Vôos com atrasos são uma rotina, que piora nos meses de férias. Os preços das passagens estão nas nuvens, porque apenas duas empresas mandam no “livre mercado” por aqui. Mas isso é sofrimento de quem ainda pode voar.

Para quem só precisa sair de casa para trabalhar a coisa continua fora dos eixos e dos trilhos. Trens atrasados e de péssima qualidade, descarrilamentos, gente caminhando nas linhas até as estações, nenhuma informação ao passageiro. Um bunda le-lê generalizado.

Os ônibus continuam daquele jeito… Para que ar-condicionado (int) Nesse calorzinho gostoso de 50 graus de sensação térmica, melhor mesmo é curtir a pele no forno dos veículos movidos à diesel e no conforto das carrocerias de caminhão. Com direito a bate-boca entre passageiros e motoristas. E de preferência com preços majorados e isenção de impostos aos pobres e esforçados empresários do ramo.

Nas principais artérias das grandes cidades os engarrafamentos já fazem parte da paisagem. Eles quase sempre são provocados por uma combinação de fatores: ruas estreitas, excesso de veículos em circulação, sinalização mal feita e, sobretudo, a frota de carroças velhas, cujos donos teimam em manter circulando.

Esses veículos (kombis, fuscas, chevettes, del reis, etc) e seus motoristas desqualificados escolhem as vias de grande circulação para dar pane. Resultado: aquele engarrafamento monstro… E nada de fiscalização.

Turismo virou símbolo de pirataria. Vale tudo para arrancar até o último centavo dos pobres turistas nacionais e estrangeiros, com serviços péssimos e caros, como no Corcovado e nas praias.

E a violência (int) Mata-se e morre gente por qualquer motivo: tiroteios sem qualquer sentido, com disparos de policiais despreparados e mal pagos e marginais de quinta categoria. Brigas de botequim, ciúmes de ex-namorados, disputas entre vizinhos, tudo é motivo para resolver pendengas simples na base do tiro e da facada. Isso sem falar da violência no trânsito, com vans irregulares, ônibus com pneus carecas e pilotos frustrados e suas máquinas assassinas. Morre até criança em piscina!

Portanto, não adianta transformar o Maranhão em Sucupira e os Sarney em Odoricos, como se fossem exceções. Vivemos num verdadeiro Maranhil ou num Brasanhão, como queiram, com muitos Sarneys e seus discípulos. E eles continuam dando as cartas.

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A violência é a solução dos embrutecidos. Não se trata da violência revolucionária, do embate político entre classes pela disputa do poder político, mas da violência como resquício do mais genuíno instinto animal de nossas origens, para o acerto de contas entre seres humanos.

É esta violência, primitiva e bárbara, que se expressa da forma mais absurda na triste realidade dos presídios brasileiros, com detentos torturados e até decapitados, como no caso de Pedrinhas, no Maranhão. Ela é a expressão mais brutal da violência do dia a dia, de maridos e namorados que espancam companheiras, de discussões em bar que acabam em tiros, facadas e mortes, das incursões policiais e da barbárie do tráfico nas favelas e periferias, que redundam em assassinatos.

Os números do Brasil são alarmantes: 50 mil mortes por crimes violentos em 2012, contra 46 mil em 2011. Isso quer dizer que metade das mortes por ano nessas condições na América Latina e Caribe ocorrem no Brasil. Enquanto isso, o governo federal investiu R$ 238 milhões em 2013 em presídios, contra R$ 362 milhões em 2012.

Grande parte da população não se comove com a barbárie das cenas e fotos de Pedrinhas. Isso é um sintoma de que a violência deixou de gerar indignação ao cidadão comum. Ao contrário, muita gente acha que a solução é jogar os presidiários a sua própria sorte, para que se matem uns aos outros.

Há também a tese de que o auxílio pago às famílias de presidiários é um luxo que afronta a realidade brasileira. Ninguém informa que este auxílio só é pago pelo INSS quando o preso paga em dia suas contribuições à Previdência. Ou seja, possivelmente uma ínfima parcela das famílias dos presidiários recebe este tal auxílio.

De uma forma ou de outra, seja pelas falhas da legislação e, sobretudo, pelas condições dos presídios – verdadeiras universidades do crime – a maioria dos que conseguem sair das cadeias volta a delinqüir. Por um raciocínio elementar pode-se concluir que o presidiário sairá mais violento do que quando ingressou no sistema prisional. Quem sofre as conseqüências disto é a própria população, indiferente ao que acontece nas cadeias.

Há quem defenda a “solução final”, ou seja, a pena de morte para os crimes considerados hediondos. A tese que prevalece é de que muitos dos presos são irrecuperáveis. De certa forma esta tese já se aplica no Brasil: dois presos morrem por dia nas penitenciárias do país, grande parte por acertos de contas e brigas entre grupos rivais.

Todas as teses conservadoras sobre este tema têm como pano de fundo o ódio contra os pobres, que na verdade são marginalizados em todas as esferas da vida pública brasileira. Elas se baseiam na convicção de que a solução dos conflitos está na aniquilação dos mais fracos, tal como ocorre todos os dias em nossa sociedade.

A camuflagem que justifica a brutalidade e a barbárie contra os marginalizados é a histeria emocional. Ora, se a sociedade convencionou o uso de um conjunto de normas (leis) e penas para os que fogem a essas normas, cabe a ela recuperar os infratores. Como, se eles se comportam como verdadeiros animais? – perguntam com indignação as pessoas.

E por que se comportam com mais e mais brutalidade, como nas cenas do presídio de Pedrinhas? Uma parcela dos marginalizados sofre muito mais, já que não tem qualquer tipo de referência familiar na qual se agarrar em sua formação. Criados nas ruas, vielas e guetos, largados à sua própria sorte, só conhecem a linguagem da violência desde que nasceram. Criado desta forma como um ser humano vai reagir?

Os presídios devem ser espaços de ressocialização e não de degredo e mais sofrimento para os apenados. Neles deve haver ensino obrigatório, incluindo o aprendizado de uma profissão. É preciso dar dignidade a quem nunca teve, para que os presidiários possam escolher entre seguir no mundo do crime e se integrar ao conjunto da sociedade.

Definitivamente, com cadeias como a de Pedrinhas (MA) e tantas outras espalhadas por todo o país, não há nenhuma chance de recuperação. Ao contrário, a probabilidade é que o criminoso se convença de que sua única opção é seguir no crime. Na certa se sair da cadeia vai reincidir.

Já há quem levante a bandeira da privatização dos presídios, transformando o presidiário numa commoditie. Afinal, trata-se de uma massa de cerca de 550 mil pessoas. Dados da Comissão Pastoral Carcerária Nacional indicam que o custo mensal por preso numa cadeia privatizada (R$ 3 mil) é mais do que o dobro de um presídio com administração pública (R$ 1.2 mil). A grande diferença é que nós pagamos essa continha salgada, mas isso não representa nenhuma diferença de tratamento para os presos e de resultado para a sociedade.   

 

Obs: Enquanto debatemos a situação dos presídios já há países em que a população carcerária diminui ano a ano. Qual será o segredo?

Passados os festejos, fogos e bebedeiras, o carioca cai na real. Mais uma vez o verão chega para rachar, com temperaturas que ultrapassam a sensação térmica de 45 graus. Com a chapa quente aumentam também os transtornos. Consome-se mais água para matar a sede e fazer higiene pessoal. Só é possível trabalhar e permanecer em ambientes fechados com refrigeração, o que redunda em consumo bem maior de energia elétrica.

Na cidade olímpica a Natureza age e reage como sempre fez. Mais quente fica à medida que a cidade do concreto e do asfalto avança, derrubando árvores, represando córregos e rios, tapando a terra, deixando um rastro de calor e temperaturas insuportáveis dos trópicos nesta época do ano. A coisa atinge uma situação tão alarmante que a Prefeitura deveria indicar que as pessoas permanecessem em casa, como ocorre em países de clima extremamente frio e com nevascas.

Os problemas urbanos, já bastante acentuados em outras estações do ano, tornam-se agudos numa cidade largada às traças, como o Rio. Ônibus e trens sem refrigeração circulando lotados, são como centros volantes de tortura coletiva dos usuários, quando enfrentam engarrafamentos ou problemas mecânicos. Há locais na cidade em que simplesmente é impossível circular entre 10 e 16 horas, tal o bafo quente que exala do encontro dos raios solares com o calçamento e as construções no entorno. É uma questão de calamidade pública e assim deveria ser encarado pelas autoridades, que nada fazem.

Qualquer atração turística vira um transtorno, por conta do número de pessoas que passam férias no Rio e a falta de estrutura para atender aos turistas. Filas intermináveis para subir ao Corcovado e ao Pão-de-Açúcar, sem contar os esquemas para achacar os turistas por taxistas, flanelinhas, assaltantes e todo tipo mal intencionado, o que arrasa a imagem da cidade. A árvore de Natal do Bradesco, na Lagoa, que deveria iluminar as noites, é motivo para imensos congestionamentos, com reflexos em toda a redondeza.

Os serviços de hospitais públicos, que são normalmente precários, pioram ainda mais no verão carioca. Já foram registrados problemas com a falta de refrigeração nas unidades Clementino Fraga e Rocha Farias. E as escolas? Até quando nossas crianças e jovens terão que freqüentar salas de aula sem ar condicionado, sobretudo nos meses de fevereiro, março e abril? Trata-se de uma questão de saúde pública e não de um capricho. O mesmo se aplica à frota de ônibus/caminhões das empresas ligadas a Rio-ônibus. 

Mas o que revolta são os constantes cortes de luz e de água. Prefiro definir como “cortes” e não como “falta”. Primeiro porque são serviços essenciais, segundo porque nem a energia e nem a água “faltam”, simplesmente deixam de chegar a diversos bairros e localidades por absoluta ausência de planejamento e respeito à população. No entanto, as mesmas empresas que não garantem o abastecimento do cidadão, sempre acertam nas cobranças das contas, que incluem juros quando há atrasos no pagamento.

O Rio é, sem dúvida, uma cidade belíssima. No entanto, dá tristeza ver a combinação de erros e omissões políticas que levam a cidade a se transformar num forno caótico, do qual sobem labaredas de incompetência, privilégios, desmandos, violência e corrupção. E o governo ainda planeja montar uma imensa roda-gigante, no valor de R$ 7 milhões. Deve ser para cozinhar os miolos dos freqüentadores…