Côco ou Cocô?

26/11/2009

O choque de ordem do Prefeito Eduardo Paes passou dos limites. O moralismo que embala o projeto não se sustenta pelo simples fato de que a Prefeitura não faz a sua parte. Ou pelo menos não faz o que a população espera que ela faça.

Por exemplo, no que diz respeito ao transporte alternativo está na cara que o Prefeito tem acordo político com as cooperativas de fachada (que têm donos) e está arrumando licitações para acomodá-los nas linhas. Pra não falar das empresas de ônibus, que mandam e desmandam, maiores beneficiárias das restrições impostas ao alternativo.

O Prefeito esbraveja contra falta de educação do carioca, diz que gasta demais com a limpeza da cidade e ameaça deixar o Rio sem coleta por um dia para demonstrar o que sustenta. Sem dúvida que a cidade está suja, mas será que o problema não está na educação pública, que vai de mal a pior?

Entusiasmado com o combate à venda de produtos perecíveis nas praias (camarão, queijo qualho, etc), Eduardo Paes elegeu o côco como inimigo número um da limpeza das areias. Pode ser, mas que tal cuidar do cocô despejado diariamente em toneladas nas águas das praias e lagoas do Rio?

Nos últimos anos a política da Prefeitura foi de intervir para tornar o Rio mais palatável aos negócios dos grandes comerciantes. Um urbanismo neoliberal, que negocia a cidade com grupos econômicos em detrimento da sua população. E vem aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas, pra encher as burras das empreiteiras, que depois vão retribuir os favores financiando as campanhas eleitorais.

Convenhamos, nada mais parecido com o antigo que o atual Prefeito do Rio. Afinal Paes é cria de Maia e Maia pariu Paes, com seu estilo marqueteiro de fazer política. Só muda mesmo o acento…

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Pouca gente atentava para o detalhe, mas o professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, Ildo Sauer, resolveu chutar o balde e chamar a atenção da opinião pública sobre mais uma das tantas jogadas e privilégios que cercam os tubarões da economia brasileira.

De acordo com Sauer, cerca de 12 mil megawatts (o que representa 25% de toda a energia consumida no país) são repassados a apenas 663 empresas no que se chama de “mercado livre de energia”. Trata-se de um grande negócio, já que neste mercado – que de livre não tem nada – os compradores pagam apenas 20% do valor que o consumidor comum paga no “mercado preso”. Essa mamata existe desde 2003…

Sauer alerta que esse é um dos motivos pelos quais não há investimentos para melhorar a geração e distribuição de energia no Brasil. Note-se que essa energia é fornecida ao tal mercado livre pelas mesmas fontes geradoras e distribuidoras do Estado brasileiro, subsidiando os lucros dos grandes conglomerados econômicos e financeiros que operam no país.

Mais uma vez quem paga a farra deles somos nós, simples mortais, que nos sujeitamos a uma das tarifas mais altas do mundo. Ou será que essa energia subsidiada cai do céu?

Todos os dias dezenas de pessoas tentam atravessar clandestinamente a fronteira do México com os Estados Unidos da América. Sonham com o “american way of life” (o estilo americano de vida), nem que seja limpando privada, levando cachorro pra passear, refrescando bunda de neném ou tomando conta de velhinho.

Esse “Deus nos acuda” reúne mexicanos, centro-americanos de diversas nacionalidades e até brasileiros, que se arriscam de diversas maneiras em enfrentar polícia de fronteira e cadeia, por uma oportunidade na “terra da liberdade”.

Afinal, mais valem dólares na mão e a promessa de uma vida melhor que lutar por um mundo mais digno em seu próprio país. Aos poucos o sonho da maioria se transforma em dura realidade.

Para aplacar essa sede de migração ilegal, incentivada pela propaganda enganosa, as autoridades democráticas dos EUA estão construindo na fronteira o Muro da Liberdade. Poucos são os comentários que se lê na imprensa brasileira a este respeito, mas o simples fato de se levantar um muro na fronteira deveria despertar curiosidade.

Afinal de contas os EUA não são o país das oportunidades para todos? Eles mesmos se orgulhavam de repetir essas palavras. Acontece que a situação já não é mais a mesma e a crise já elevou para 10% a taxa de desemprego no país.

Daqui a algum tempo os que conseguirem suplantar o Muro da Liberdade poderão ter saudade da terrinha, como tem acontecido nos últimos tempos depois que a crise baixou por lá.

Vinte anos depois da derrubada do Muro de Berlim o mundo assiste perplexo à construção do Muro que separa o atual território do Estado de Israel da Faixa de Gaza, isolando-a do restante do território da Autoridade Nacional Palestina.

Ao contrário das comemorações pela queda do Muro de Berlim, pouco se fala do Muro das Lamentações que isola e transforma aquele território no Gueto de Gaza. A ONU condena formalmente, assim como sempre condenou o sionismo como movimento de caráter racista, mas continuam as invasões às terras de palestinos expulsando-os de seus territórios.

Para conseguirem sobreviver muitos palestinos são obrigados a trabalhar em Israel, se submetendo a revistas e humilhações de todo tipo. O abastecimento do Gueto de Gaza é feito sob estrito controle e vigilância de tropas israelenses e há inúmeras denúncias de desvio de muitos produtos de outros países que não são entregues aos palestinos.

Israel é hoje um dos poucos estados religiosos, detentor da tecnologia para a fabricação de artefatos nucleares, fabricante e exportador de armas. Sua grande fonte de renda são os milhões de dólares enviados por judeus ricos norte-americanos.

Essa anomalia, denominada Estado Israel, usurpa os direitos humanos permanentemente, mas é considerado um Estado democrático pelas potências capitalistas. A última medida política adotada pelo Estado israelense foi proibir a participação dos partidos árabes nas últimas eleições, apesar de 20% de sua população ser de origem árabe.

Quem sabe algum dia os cidadãos de Israel resolvem dar um basta e decidem negociar uma paz justa com os árabes e palestinos, devolvendo todos os territórios que foram usurpados desde a constituição do Estado de Israel e garantindo a formação de uma pátria Palestina.

Muro da vergonha

11/11/2009

Assim foi denominado o Muro de Berlim, erguido em 1961 e que separava a capital da Alemanha entre dois mundos: o socialismo de caserna (oriental) do capitalismo de ilusão (ocidental). Durante quase três décadas aquele muro inacreditável simbolizou a era da Guerra Fria.

De um lado os tiranos comunistas, malvados, comedores de criancinhas, inimigos da liberdade e cegos seguidores de Moscou. De outro os democratas, simpáticos, bondosos, felizes, livres e radiantes, santas criaturas…

Poucos lembram que a divisão da Alemanha foi uma exigência das potências ocidentais porque, à vera mesmo, quem segurou o rojão contra os nazis de Hitler e companhia foi a União Soviética, que perdeu mais de 20 milhões de cidadãos na Segunda Guerra.

Mas os bondosos capitalistas do Oeste não poderiam aceitar que o Exército Vermelho entrasse soberano em Berlim, o que simbolizaria sua vitória contra o nazi-fascismo. As tropas inglesas e norte-americanas, mobilizadas à toque de caixa, foram submetidas a um bombardeio severo que custou mais de 200 mil vidas nas praias da Normandia. Passaram correndo pelo norte da Europa e chegaram à Alemanha rapidamente, antes que os soviéticos sozinhos tomassem a capital do Reich. Nem passaram por Paris, cuja população civil se levantou e expulsou as tropas nazis.

Os heróicos e simpáticos líderes ocidentais, que nem ligaram para o massacre de centenas de milhares em Hiroshima e Nagazaki, cobaias da bomba nuclear, não hesitaram em receber a colaboração dos “cientistas” nazis depois da Guerra, logo engajados no programa militar e espacial dos EUA.

O Muro de Berlim de fato era uma vergonha e tinha que cair, aliás, sequer deveria ter sido construído. Era o símbolo de um socialismo de caserna, deturpado e burocratizado. E graças à sua queda rapidamente os alemães do leste se deram conta que o paraíso do oeste não passava de um mundo de ilusão, no qual a fartura de uns é a miséria dos outros, as oportunidades de alguns são a exclusão da maioria. Para eles restou um consolo: não existe mais muro para tapar o sol com a peneira.

Inacreditáveis as cenas da perseguição a uma estudante do curso de Turismo no campus de uma universidade de São Paulo. E pelo jeito poderia ser lá como em qualquer outro lugar do país. Seu crime foi vestir um vestido curto, entrando em sala de aula com as pernas à mostra.

Pouco importa o tamanho do vestido, se a moça desfilou ou “provocou” alguém. O que mais assusta é a reação de pessoas que parecem sequer compreender o que representa uma Universidade, que deveria ser um centro de estudo, ensino e pesquisa. Mas será que aquela “galera” está mesmo interessada nisso?

A polêmica midiática acerca da conduta da moça e a reação da direção da Uniban é insignificante, diante das evidências da falência dos supermercados em que as instituições privadas transformaram o ensino superior.  Centenas de milhares de pessoas que sentam numa carteira de estudo para copiar o quadro, limitam-se a fazer os “deveres de casa” que colam da internet e não lêem absolutamente nada, nem o jornal. Existem exceções, é claro.

A pressão da sociedade de consumo impõe a necessidade de resultados. Quantos universitários são diplomados é mais importante do que saber que estudantes e como eles estão sendo formados. Esse é o resultado dos acordos MEC-USAID, durante a ditadura militar, que redundaram na primazia da escola privada em detrimento do ensino público.

A reação descontrolada de estudantes no campus da Uniban, misto de moralismo hipócrita e de caça às bruxas, prova que o modelo de educação está em crise, falido. Estabelecimentos como este deveriam estar subordinados não ao MEC, mas às associações de bares, restaurantes e shoppings centers.

Ninguém mora em favela porque quer ou acha bonito. Com raras exceções, as favelas não apresentam nenhum atrativo para que seus habitantes permaneçam ali. A favela é produto de uma série de fatores, sobretudo da ocupação desordenada da cidade em função do êxodo de outras regiões para as grandes cidades e a falta de programas de moradia.

No caso do Rio a existência de favelas denuncia a desigualdade, exposta em todas as paisagens da cidade. Onde quer que o cidadão se encontre ou por onde ele passe terá a imagem de uma favela. Até o final da década de 70 a miséria e a pobreza das favelas se confundiam com a simplicidade das comunidades de trabalhadores, que conviviam com base num código de respeito ao próximo e noções de civilidade, adquiridas no convívio com a própria família e reforçadas na escola pública.

Ali se instalaram no início da década de 80 grupos de traficantes varejistas de drogas, que vendem o que resta do grande tráfico da rota latino americana para a Europa. É evidente que esses grupos têm contatos e são abastecidos por grandes traficantes de drogas e de armas, mas sua organização é primária, primitiva.

Em que se baseiam esses grupos formados por pés rapados? Na ausência de políticas públicas, na carência de tudo, na ignorância e na impunidade. Estão livres pra se impor pela força das armas porque a eles o próprio Estado ensinou que só é possível controlar territórios abandonados pela força. Aliás, há fortes evidências de que armas, munição e drogas também são fornecidas por policiais. Daí porque não há nenhum interesse em acabar de verdade com esse comércio.

As drogas que vendem no varejo abastecem um mercado interno, formado por jovens de classe média. O rendimento desse mercado é ínfimo, diante do grande volume de drogas movimentado no mercado internacional, sobretudo da Europa e EUA.

Favela não tem nada de romântico, com querem crer alguns. Tão pouco é a causa da violência. Muito pelo contrário, seus moradores são trabalhadores e trabalhadoras, jovens e idosos que rejeitam a opressão dos traficantes varejistas e o pé na porta do barraco, prática corriqueira da polícia. Quando protestam estão dizendo que merecem outro tratamento e outras oportunidades na vida.

Semanas atrás o Presidente da Supervia, o secretário de transportes e o governador do Estado atribuíram à ação de milicianos inconformados com medidas que coibiram o transporte alternativo de vans os problemas em trens da Central. Segundo consta foi aberto inquérito, com base num laudo do Instituto Carlos Éboli, para apurar os responsáveis por atos de “vandalismo” praticados em Nilópolis e na Central do Brasil.

Dias depois novo pomba rolou e mais recentemente (19 de outubro) um novo incidente, quando um trem do ramal de Japeri se chocou com outra composição que estava parada, provocando ferimentos em dez passageiros. A bagunça continua com atrasos constantes, composições sujas e mal conservadas, passagens a preços abusivos (hoje R$ 2,40 e R$ 0,60 quando o sistema foi privatizado).

Até agora os vândalos e sabotadores não foram localizados e nem apresentados, mas ao que tudo indica continuam agindo, a despeito das ameaças das autoridades estaduais e das alegações da empresa concessionária. Ou será que eles estão sendo procurados nos lugares errados?

Que tal o delegado deixar de falar de “sabotadores” e abrir uma nova linha de investigação com um mínimo de credibilidade, convocando o secretário de transportes, o governador e o Presidente da Supervia para depor?

Basta ler o contrato de privatização e o que ele prevê como obrigações e deveres do poder concedente e da concessionária. Inclusive a cláusula que garante ao Estado o poder de intervir e encampar os serviços. Mas dessa o governador não quer nem ouvir falar, que classificou essa possibilidade como “demagogia”.