Todo novo movimento introduz uma nova cultura, em todos os aspectos e em toda a sua abrangência. A cultura da democracia direta, da cobrança coletiva, do fim da intermediação entre representados e representantes, tudo isso passou a ser uma possibilidade concreta a partir das jornadas de junho, através das convocações e transmissões pela internet.

A grande mídia empresarial também foi colocada em xeque a partir de junho. O crescimento da Mídia NINJA, como testemunho ocular e instantâneo dos fatos e manifestações de rua, via internet, baratinou completamente a cobertura quadrada, pesada e conservadora das empresas midiáticas, sobretudo de TV.

O repúdio dos manifestantes às empresas de comunicação, sobretudo à Rede Globo, o que não é uma novidade, na figura de seus repórteres e suas equipes, demonstrou até aonde vai a desconfiança popular em relação à manipulação dos fatos. O testemunho dos Ninjas – inclusive através de filmes e fotos de celulares – foi fundamental para mostrar outros ângulos da notícia, que não têm vez no jornalismo empresarial.

Um jornalismo militante não exige necessariamente a escolha de um lado, mas a possibilidade de testemunhar fatos e apresentá-los tais como eles ocorrem, ao vivo, sem cortes ou edições. O que os repórteres ninjas fazem hoje é simplesmente acompanhar os conflitos por dentro e transmiti-los diretamente pela internet. É a versão renovada dos “focas”, dos correspondentes de guerra, que tornaram o jornalismo algo muito mais dinâmico e real do que as antigas ladainhas editoriais.

A intermediação editorial, selecionada previamente em estúdios e redações, tira os fatos do clima em que eles acontecem. Trilha musical, narrativa sem o som que acompanha as imagens, ângulos devidamente escolhidos para apresentar os fatos são formas de fazer uma “apresentação” da notícia que pode levar a uma subversão da realidade dos fatos. Quando a matéria vai ao ar ao vivo esta possibilidade é menor, embora, ainda assim, dependendo do repórter e do editor que o orienta, ela exista.

A transmissão de fatos ao vivo, ainda que em condições técnicas inferiores às de estúdios, se transformou numa arma de combate ao jornalismo frio, burocrático e empresarial da grande mídia. O “ao vivo” pode introduzir elementos não desejados pelas grandes emissoras, como cartazes e reclamações que contrariem a linha editorial da mídia empresarial.

O lado grotesco da cobertura midiática das jornadas de junho ficou, justamente, por parte das grandes empresas de comunicação. A TV Globo, em particular, passou a transmitir manifestações de rua com as imagens de helicópteros – de cima – e uma narração de estúdio. Ocorre que as manifestações, como tudo na vida, tem uma dinâmica, cheiro e cores próprias. Ou seja, a Globo insistiu na edição dos fatos, mesmo quando eles estão sendo transmitidos ao vivo, apesar das limitações das imagens de um helicóptero.

A Mídia Ninja é uma provocação, no bom sentido, uma confrontação dos fatos com a grande mídia empresarial, a partir de sua apresentação do próprio local e na hora em que eles acontecem. A grande mídia se afastou dos fatos para construir uma narrativa sobre eles. Ou seja, os fatos em si deixaram de ter importância, mais importante é a edição e a interpretação com que eles são apresentados.

O melhor exemplo desta superficialidade na apresentação dos fatos é o tratamento que foi dado aos manifestantes do Black Bloc, independente do juízo de valor que se faça deles. Suas ações foram estigmatizadas como “vandalismo”, sem qualquer chance do telespectador receber informações sobre o porquê das práticas violentas daquele grupo.

O testemunho instantâneo dos fatos, apresentados ao vivo pela internet, leva o internauta ou espectador a tomar contato com as imagens, mas a contextualização dos acontecimentos é e sempre será uma tarefa para o profissional da imprensa. Portanto, do meu ponto de vista, não se trata de questionar o exercício profissional do jornalista, mas de colocar em questão o padrão de jornalismo empresarial que a grande mídia impõe. Mais do que jogar fora os diplomas ou condenar a profissão ao museu da História, o que precisa ser revista e melhor trabalhada é a formação do jornalista.

Não cabe ao jornalista decidir o que é ou não importante ser mostrado ao leitor, telespectador, ouvinte ou internauta. Cabe, sim, mostrar os fatos, contextualizar os acontecimentos, investigar as versões e deixar a cargo do leitor, ouvinte, telespectador ou internauta tirar suas próprias conclusões. Em resumo, exercer a profissão em sua plenitude e com base na ética e na função social que cabe ao jornalista.

É preciso combater a glamourização do jornalismo empresarial. Uma dos vícios mais evidentes desta certa soberba do jornalista é a pergunta-resposta (“Você concorda que isso assim assado pode ser sinal daquilo?”). Ou seja, pede-se ao entrevistado apenas que confirme a versão que o jornalista ou a empresa em que ele trabalha tem de determinado fato.

Esses e outros temas que envolvem o jornalismo e a mídia estão em aberto, e o debate sobre eles deve continuar. Ainda mais depois das jornadas de junho de 2013 e tudo que elas representaram na mudança de comportamento da sociedade brasileira.

Não satisfeito com o engarrafamento do Papa e a pane no Metrô, a Prefeitura do Rio preparou outra grande surpresa para a cidade durante da Jornada Mundial da Juventude católica. Do Campus Fidei, em Guaratiba, emergiu o pantanal que já existia e a Prefeitura tentou maquiar. Foi só chover por uns dias que o lamaçal veio à tona.

Disso decorreu um grande transtorno para moradores e peregrinos. Os moradores da região ficaram com o gostinho da frustração, já que o acampamento e a missa do Papa foram transferidos para Copacabana.

Quem se preparou para faturar um trocado ficou na mão, pior do que a visita de João Paulo II à cidade de Melo, no Uruguay, que gerou prejuízo aos moradores que esperavam pela presença de milhares de brasileiros que não apareceram por lá.

Já os peregrinos, mais uma vez surpreendidos pela desorganização do evento, tiveram que mudar completamente de rota, visto que a distância entre Guaratiba e Copacabana é em torno de 50 quilômetros. Mais um transtorno nessa jornada de erros.

Quem também enfrentou as conseqüências foram os moradores de Copacabana, que não puderam sair e entrar no bairro entre sábado e domingo. Para tentar corrigir os erros grosseiros cometidos nos dias anteriores os transportes públicos funcionaram direto, sem interrupção. Assim mesmo, os peregrinos da Igreja Católica sofreram e muito para sair do bairro.

De tudo que se viu ficou evidente que marketing não faz as coisas acontecerem. É preciso estrutura e planejamento. Problemas graves de trânsito, transporte e acomodações. Ou seja, tudo nas coxas, tudo errado.

Ao final, na maior cara dura, o Prefeito deu entrevista coletiva para retificar a nota que dera dias antes à atuação da Prefeitura: saiu de 0 para 10 de um dia para o outro. Prova do desequilíbrio de nosso alcaide. Não sou religioso, mas certamente Deus deve estar olhando por nós.

Tudo bem que a juventude católica tem fé, mas é preciso muito mais do que fé para aturar o pomba-rolou da Cidade Maravilhosa. Depois do primeiro mico transmitido para o mundo inteiro, com o Papa engarrafado na Presidente Vargas, chegou a vez do sistema de transportes dar o ar de sua graça.

Foram duas horas e meia de pane, causada pelo rompimento de um cabo de alimentação de energia, que paralisou todo o sistema de Metrô da cidade. E justamente no horário em que as pessoas tentavam se deslocar do trabalho para casa e os peregrinos mais precisavam de transporte para chegar à Missa de abertura da JMJ, em Copacabana.

Com o Metrô superlotado e os novos trens chineses que só possuem duas “locomotivas”, a energia necessária para puxar as composições aumentou consideravelmente e o sistema de alimentação não suportou a carga. O resultado foi o que se viu: trens parados dentro de túneis, gente apavorada e sem informação (porque ninguém aparece para dar explicações) e as estações fechadas.

Os ônibus para a Zona Norte, Zona Oeste e outras regiões da cidade de do Grande Rio passavam lotados e os pontos de ônibus apinhados de gente. Para a Zona Sul os ônibus também circulavam abarrotados. A população carioca ficou a “ver navios” por duas horas e meia, até que o sistema fosse aos poucos se normalizando, a partir das seis e meia da tarde.

Quando o pesadelo da tarde parecia superado, os peregrinos, que haviam enfrentado chuva por mais de duas horas nas areias de Copacabana, foram novamente surpreendidos. Ao final do espetáculo, não havia ônibus em quantidade para transportar a massa que pretendia retornar aos locais de estadia.

Os que estavam rodando não paravam. Talvez porque os fiéis receberam o vale-peregrino, que lhes dá direito a transporte subsidiado. Mas os motoristas de ônibus de nossa cidade, orientados pelos empresários a rejeitar idosos e escolares, não quiseram quebrar o protocolo e decidiram deixar os peregrinos na mão. Foi preciso que policiais parassem os ônibus e vans para obrigar que cumprissem sua função de transportar pessoas.

Isso tudo sem contar com o tempo médio de sete horas para a entrega do kit peregrino, no Sambódromo. Do jeito que as coisas vão, a peregrinação dos fiéis se transformará numa verdadeira via crucis até o último dia da JMJ. Deus nos acuda!

Apesar de um tanto ofuscada pela presença do Papa Francisco a Jornada Mundial da Juventude Católica atraiu ao Rio mais de um milhão de jovens do Brasil e dos quatro cantos do Planeta. É bonito ver tanta gente falando diversos idiomas, com bandeiras tão diferentes.

Infelizmente a programação da JMJ não inclui o debate sobre temas atuais para a juventude e a humanidade. Nem mesmo sobre os problemas enfrentados pelos jovens. Será que eles não têm nada a dizer ou a trocar entre si sobre a realidade de seus países e continentes? Mais parece uma enorme celebração do que um evento de fé que reflita sobre a realidade.

Ao mesmo tempo em que acolhe tão bem os participantes da JMJ, pelo menos dentro da medida do possível de nossa parca infraestrutura, a cidade segue tratando mal os seus próprios jovens. Alguns deles estavam na manifestação de 22 de julho, que tentou chegar ao Palácio Laranjeira. Dez foram presos, alguns sem qualquer motivo ou por “desacato a autoridade” policial.

Eles protestavam contra os gastos públicos absurdos anunciados com a vinda do Papa (R$ 118 milhões). Nada contra a visita do Papa ou a realização da JMJ, mas enquanto o governo Dilma anuncia corte de R$ 10 bilhões no Orçamento deste ano, para pagar juros e amortizações da dívida pública eterna, sobra grana para arenas de futebol e a ostentação dos megaeventos.

Se a fé católica se basear meramente na crença da existência de um Deus que não se relaciona com o dia a dia das pessoas de carne e osso, como haverá de atrair e prosperar? Basta disputar o rebanho com seitas neo-pentecostais, que prometem o reino dos céus e nos querem incutir que o inferno é aqui, na Terra?

Será essa a modernização da Igreja Católica? Uma lavagem cerebral baseada em rezas, cânticos, pula-pula e espetáculos midiáticos de fé? Talvez esta seja a forma de continuar empurrando o debate sobre seus próprios dogmas para debaixo do tapete.

No dia a dia dos seres normais, livres de receitas de comportamento, as questões estão expostas de forma clara. Como condenar a união civil de homossexuais se temos irmãos, parentes e amigos que são homossexuais? Como condenar o aborto se todos enfrentamos isso ou já passamos por essa experiência em nossas famílias? Como aceitar o celibato dos padres se somos todos feitos de carne e osso e nossos corpos estão permanentemente pedindo amor e sexo? Como celebrar o amor a um Deus no Céu e aceitar tanta injustiça na Terra? 

A hipocrisia da Igreja Católica já não se sustenta nem mesmo entre os católicos. A maioria já não freqüenta missas, não contribui e nem acredita nos dogmas da Igreja. Não basta colocar a frente do Vaticano um Papa simpático que se denomina Francisco. Certamente o verdadeiro Francisco de Assis se dedicaria a uma outra Igreja, aquela da Teologia da Libertação.

Sucupira é aqui

23/07/2013

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A chegada do Papa Francisco ao Rio mais uma vez mostrou a completa falta de entrosamento entre autoridades e seus comandados, autoridades e povo e tudo mais.

No percurso o Papa ficou engarrafado na Avenida Presidente Vargas, ao lado de um ônibus de linha. Um carro da escolta ainda bateu no carro da segurança, causando dificuldades no percurso. E aonde foram parar os batedores de motos? Ninguém sabe ninguém viu.

Em meio à zona total, com populares cercando o carro papal, Francisco se desvencilhou da massa sem precisar dar autógrafo e ainda acenou para o público. Até que conseguiu chegar ao Comando da Aeronáutica, ao lado do aeroporto Santos Dumont.

Para afastar quem quer que quisesse chegar ao Palácio Guanabara, um enorme contingente de PMs tomou as ruas de Laranjeiras. Eles não estavam lá para garantir a segurança do Papa, mas a integridade de Cabral e companhia. O pau cantou e alguns manifestantes foram detidos.

Dilma fez discurso de boas vindas, falou de Igreja e fé dos brasileiros. Aplaudida pelo séquito de puxa-sacos no salão do Palácio, Dilma trocou beijos e abraços com Francisco. O Papa exaltou a juventude, o que talvez não tenha agradado muito a Cabral.

Depois sua santidade teve que enfrentar uma sessão de tortura, cumprimentando os casais mais populares da República, a começar pelo vice-presidente e sua boazuda, Cabral e patroa, os presidentes da Câmara e do Senado, o Prefeito e sua acompanhante… Martha Suplício e outros ministros não podiam faltar. Até o Pezão e o presidente da Assembléia Legislativa tiraram suas casquinhas.

Como se vê, a obra de Dias Gomes continua mais atual do que nunca. Faltaram Dirceu Borboleta e as irmãs Cajazeira. Mudam os personagens, mas Sucupira é aqui.

Se o Papa Francisco é pop eu não sei, mas que sua Igreja Católica está em crise no Brasil todo mundo sabe. A redução do número de pessoas que se dizem católicas no país é expressiva a cada pesquisa publicada.

Entre os católicos declarados grande parte não vai à missa, sequer contribui ou participa das campanhas e comemorações promovidas pela Igreja. A esmagadora maioria sequer acompanha as orientações políticas da Igreja. Confessionário e reza passaram a ser lembradas apenas nas horas mais críticas e desesperadoras.

No último Censo (2010) os brasileiros que se declararam católicos ficaram em 64,6%, enquanto no Censo de 2000, este total foi de 73% e em 1991 chegava a 83%. Os grupos religiosos que mais crescem no país são os evangélicos, com 22,2% em 2010, contra 5,2% no Censo de 1970.

Esses dados pioram ainda mais nas pesquisas do Instituto Data-Folha, que revelam a queda de 75%, em agosto de 1994, para 57% em junho deste ano. Neste mesmo período, os evangélicos pentecostais e não pentecostais subiram de 14% para 28%.

Desde que abandonou a Teologia da Libertação (a partir dos anos 90), que pregava uma linha de ação mais preocupada com a realidade de seu povo, a Igreja vem perdendo fiéis, sobretudo na juventude brasileira.

Seus cultos foram esvaziados de conteúdo e resvalaram para um tom exclusivamente espiritual. Por sua vez, as seitas neo-pentecostais trataram de animar a celebração, evocando a Deus a partir de cantoria e pula-pula.

Como todas as instituições construídas de forma piramidal, a Igreja Católica aos poucos vai deixando de fazer sentido e atrair novos fiéis. O conservadorismo de seus dogmas a respeito de temas que dizem respeito ao dia a dia das pessoas de um país majoritariamente urbano – aborto, casamento informal, união civil entre homossexuais, uso de anticoncepcionais – foi criando barreiras informais que afastam cada vez mais o cidadão comum da liturgia da Igreja Católica.

Para disputar espaço entre a juventude com as seitas neo-pentecostais surgiram os grupos carismáticos, padres “moderninhos” na forma e ultraconservadores em conteúdo. São animadores de auditório de certa capacidade, mas só rompem com a caretice da instituição pela forma com que conduzem suas missas. Fazem mais sucesso como cantores, escritores e apresentadores do que propriamente como padres da Igreja Católica.

A Jornada Mundial da Juventude ficou em segundo plano diante da visita do novo Papa Francisco. Não se sabe muito bem o que esse contingente de mais de um milhão de pessoas vem discutir e produzir de bom aqui no Brasil. A impressão que passa a juventude que chegou ao Rio nos últimos dias é de uma galerinha deslumbrada, disposta a cantar e pular por sua fé em Jesus. Uma juventude pouco antenada com a realidade mundial e da própria juventude.

Pode ser apenas uma primeira impressão. Vamos aguardar…

Acostumados a manifestações bem comportadas, em que trajetos e horários são combinados e até agendados com ofícios e protocolos, governantes e a cúpula da área de segurança pública do Rio estão como baratas tontas em meio às recentes mobilizações de rua.

Ao assistir as declarações do comandante da PM se tem impressão que a farda está cheirando a naftalina. Pezão – o candidato natimorto do Cabral – atribui as hostilidades contra o governador aos oposicionistas e ainda cita nomes. Parece que o Beltrame já entendeu o que se passa, mas tem gente achando que está numa guerra em defesa “dos homens de bem” contra os mascarados do mau.

Basta procurar a expressão Black Bloc no Google para saber que são, o que querem e seus métodos de ação. Infelizmente a cúpula do governo do Rio parece não se importar muito com essa tal de Rede Social… Já a grande mídia só quer enxergar uma mão da interatividade proporcionada pela internet: a que sugere e elogia. Melhor rotular o Black Bloc como grupo de “vândalos”.

Criminalizar os grupos de Black Blocs formados por anarquistas é uma forma de criar o medo, o pânico em quem quer protestar. Ao mesmo tempo, é uma forma de ampliar a repressão contra todos os manifestantes. Um truque tão infantil que chega a provocar risos dos mais jovens.

Enquanto a polícia quebra a cabeça para encontrar uma fórmula técnica e menos traumática de lidar com algo que já existe há anos em outros países, o governador Sérgio Cabral, pivô e combustível das manifestações de rua no Rio, segue com suas estripulias.

Depois dos helicópteros que usa para trabalhar e passear, surge a revelação de que o seu governo contratou por R$ 3,5 milhões um serviço de jatinhos. Diante de tantas provocações das últimas semanas e de um extenso currículo de irregularidades e relações perigosas, só resta a Cabral pedir para sair.

No Rio a razão de ser das atuais manifestações tem nome: Sérgio Cabral. Seu governo é tão identificado com o que há de pior em termos de gestão pública, que o melhor seria que o governador, num rasgo de lucidez e humildade que não lhe são comuns, renunciasse e deixasse aliviado o cidadão carioca e fluminense.

Numa situação normal de temperatura e pressão os protestos dos últimos dias seriam amplamente condenados pela sociedade. Mas, diante do consenso de impopularidade do governador, mesmo as reações violentas exaustivamente condenadas pela grande mídia passam a ser toleradas. Fico com medo dos meus filhos começarem a considerar a possibilidade de aderir ao Black Bloc…

 * Quando finalizava este texto saiu a informação de que o sociólogo Paulo Baía havia sofrido um seqüestro relâmpago e avisado para não falar mais nada sobre a Polícia Militar. Será que isso tem a ver com o debate sobre a desmilitarização da PM ?

Foi anunciado como uma Greve Geral, depois paralisação nacional e, finalmente, virou Dia Nacional de Lutas. O fato é que houve manifestações em todo o Brasil no dia 11 de julho. Cerca de 60 rodovias e avenidas foram interrompidas por movimentos de luta dos sem-terra e sem-teto, algumas capitais foram mais afetadas, como Porto Alegre, Vitória e Belo Horizonte, onde os transportes não funcionaram.

Como manifestação até que não foi mal, mas como demonstração de força foi pouco, muito pouco. As tais oito centrais e projetos de centrais sindicais que marcaram o protesto mostraram muita fragilidade. Parte delas nada mais é do que cartório de registro de sindicatos, que vivem do Imposto Sindical. Outras, como a CUT e a Força Sindical são braços do governo desde que Lula chegou ao Planalto. Conlutas e Intersindical ainda são muito frágeis, divididas que estão.

Com objetivos diferentes – algumas queriam apenas lembrar que existem, outras (CUT e FS) se cacifar junto ao governo Dilma e umas protestar de verdade – todas juntas mostraram que não têm força e nem apelo sequer junto à classe trabalhadora. É certo que a grande massa dos trabalhadores brasileiros nem é sindicalizada. Mas isso não justifica a fragilidade da mobilização.

Os sindicatos são herdeiros das primeiras associações de trabalhadores. No Brasil atravessaram o século XX sob intensa repressão, intervenção e ação direta dos patrões e dos governos. Mas em sua essência os sindicatos são expressões de uma sociedade verticalizada, algo que está em decadência. Para ter um instrumento de organização e luta os trabalhadores elegiam uma diretoria e nela depositavam sua confiança para representá-los em negociações frente aos patrões, governos e a Justiça.

Hoje, com o advento da internet e das redes sociais, a representação indireta e toda a estrutura verticalizada dos sindicatos e centrais sindicais também está em xeque. Junte-se a isso a desconfiança que boa parte da juventude e dos trabalhadores tem da maioria dos dirigentes sindicais e seus objetivos.

Não foi um fracasso total, mas o Dia Nacional de Lutas acabou como uma demonstração de fragilidade do movimento sindical brasileiro, diante das recentes manifestações de massas que arrastaram milhões para as ruas. Cabe aos sindicalistas mais sérios refletir sobre o que está se passando, para não insistirem em fórmulas que já se mostraram ultrapassadas de enfrentar a luta de classes.

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Dia 10 de julho de 2013 entrevistamos no Programa Boca Livre (Rádio Tropical 830 AM – 13h às 14h), o jornalista e doutor em Ciência da Informação Carlos Nepomuceno. Foi mais uma tentativa de entender o que se passa no mundo e, em particular no Brasil, com o advento das redes sociais, via internet.

 A reflexão de Nepomuceno vai muito além da análise conjuntural das condições para o surgimento do movimento que levou milhões de pessoas de todo o país às ruas, no mês de junho. Para ele, a grande ferramenta que possibilitou quebrar a ordem monárquica na Europa medieval foi o papel jornal. Até então o castelo determinava tudo, o que era correto e o que não era, o que podia e o que não podia. 

Quando a burguesia nascente decidiu difundir suas idéias através da prensa, dos tipos, do papel e da tinta, muito mais gente pode receber e difundir opiniões. Ali nascia a nova ordem, que mais tarde derrubou a monarquia decadente e instaurou a República e as suas instituições.

Diga-se de passagem que, de forma brilhante, um certo líder revolucionário (V.I. Lênin), na Rússia do início do século passado, percebeu isso com extrema nitidez e pôs abaixo a ordem burguesa naquele país. Ele chamou o seu jornal diário de toda a Rússia de “organizador coletivo”.

 No século XX assistimos a um processo de concentração de poderes. Durante décadas a mídia radiofônica e televisiva ditou conceitos, preconceitos, dirigiu e selecionou a informação que lhe interessava. Todo um arcabouço de instituições políticas e econômicas altamente centralizadas se constituiu, com base numa mídia de amplíssimo alcance, que dita as regras.

 Hoje assistimos a uma nova revolução técnico-científica, que proporciona a qualquer cidadão informar e opinar sobre os mais diversos assuntos. A popularização da internet e das chamadas redes sociais (facebook, youtube, etc) oferece a qualquer um os meios para difundir fatos e idéias, sem a necessidade de prévia autorização de nenhuma instituição governamental ou privada.

 O resultado disso é que a sociedade vai se comunicando em tempo cada vez mais instantâneo, formando opiniões, travando debates e construindo suas conclusões sem precisar do Jornal Nacional. As novas gerações, que nasceram em pleno boom da internet, já encaram isso como natural. Por isso, estão muito mais ambientadas com essa forma direta de comunicação.

 Isso, por si só, quebra a cadeia formada pela grande mídia. Inúmeras formas de pensar e visualizar os problemas passaram a ser compartilhadas. A comunicação vertical, controlada e dirigida, está em questionamento. O melhor exemplo disso foi a repercussão negativa do comentário de Arnaldo Jabor, no início das manifestações de junho. Isso tudo tem enorme implicação na engrenagem de poder.

 A comunicação em rede criou inúmeras possibilidades para a evolução da humanidade. A era dos carros-de-som, das manifestações programadas, dos palanques e da representação indireta está com os dias contados. À esquerda e à direita, quem não perceber o que está se passando vai caducar.

Definitivamente há um fosso entre os palácios e parlamentos e o cidadão brasileiro comum. Isso é provocado por inúmeros motivos, mas, sobretudo, porque governantes e parlamentares vivem em outro país.

Enquanto o trabalhador, a dona de casa, o profissional liberal e até o pequeno empresário dão duro de domingo a domingo para cumprir com suas obrigações e levar uma vida modesta, a casta privilegiada esnoba.

Transporte para essa gente é avião, jatinho e carro oficial com motorista na porta. Quando muito ficam retidos em aeroportos. Educação é nas escolas particulares para filhos e netos. Saúde é no Sírio-libanês ou na Rede D’Or. Moradia só nos melhores bairros, cercados de serviços. Lazer é viagem para outros países, muitas vezes disfarçadas de compromissos oficiais.

O compromisso político desta minoria é exclusivamente com a preservação de seus privilégios, o que só pode ocorrer com o uso de mandatos como moeda de troca com os grandes cartéis, que controlam o país. Por essas e outras é impossível entender a “voz das ruas”. A saída que Dilma e seu marqueteiro encontraram com seu plebiscito é a expressão deste fosso.

O que o cidadão brasileiro quer é respeito, é ter direito a uma educação pública de qualidade, com professores bem pagos e estrutura, para não precisar pagar o olho da cara por uma escola para seus filhos. O que qualquer brasileiro pede é uma rede de saúde pública capaz de atendê-lo com dignidade numa hora de aflição. O que o trabalhador quer é um transporte decente, que o leve da casa ao trabalho e do trabalho para casa com um mínimo de conforto. O que qualquer homem do campo implora há séculos é por um pedaço de terra para produzir e morar. O que a juventude pede é oportunidade para desenvolver seus sonhos.

Para atender a esta “pauta” será preciso parar de jogar quase a metade do Orçamento anual do país na lata de lixo dos juros e amortizações da dívida pública, paga aos banqueiros e especuladores. Será preciso enfrentar os cartéis, que monopolizam a vida brasileira em todos os ramos da economia.

Em vez disso, o que o governo oferece como resposta às manifestações populares? Um plebiscito que não discute nada disso. O Planalto aproveita as mobilizações populares para apresentar a sua pauta política, para tentar discutir os seus dilemas. E sabe que nem as questões levantadas por Dilma para o Plebiscito vão alterar o quadro político-partidário brasileiro.

Assim, a tendência é que siga o divórcio entre as ruas e a corte palaciana. Certamente essa distância cada vez maior entre representantes e representados vai trazer mais descrédito para a frágil democracia brasileira. O ressentimento popular tenderá a crescer e retornar ainda mais forte. E um dia seremos todos “vândalos” contra o Império Romano.