A tão falada lista de Fachin, revelada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, tornou pública a existência de cerca de cem nomes de políticos de grande relevância no cenário nacional que estariam envolvidos em esquemas de financiamento de campanha e outros, de acordo com denúncias de executivos da empreiteira Norberto Odebrecht.

As gravações das delações de Marcelo e Emílio Odebrecht, além de outros dirigentes da empresa, mostram exatamente a promiscuidade das relações entre o poder econômico e o mundo político no Brasil. Como jogadores experientes, os dirigentes da Odebrecht cercavam por todos os lados para emplacar sua aposta na cabeça.

Não surpreende que ex-presidentes, ministros, senadores, deputados, governadores e prefeitos de partidos de direita se alimentem dessas relações, que desnudam o verdadeiro caráter de classe dos seus governos e mandatos: seus avós e pais estiveram e eles e seus filhos estão na vida política a serviço da conservação de um sistema que massacra os mais pobres e amplia os lucros dos mais ricos.

Mas é inaceitável que políticos historicamente ligados à esquerda estejam entre os acusados, seja em troca de pequenos favores seja por receberem dinheiro para financiamento de suas campanhas eleitorais. Não se trata de um problema moral, apesar deste elemento estar presente, mas de um compromisso de classe. Para se conquistar a frágil democracia que temos no Brasil algumas centenas de dirigentes e militantes de esquerda deram suas próprias vidas e alguns milhares foram presos e torturados.

Um dos motivos alegados pelos golpistas de 1964 para justificar a intervenção militar foi o combate à corrupção. Da lista dos que tiveram seus direitos políticos cassados figuravam, entre os primeiros, comunistas como Luís Carlos Prestes e Gregório Bezerra, trabalhistas como João Goulart e Leonel Brizola, e lideranças populares, como Francisco Julião. Todos tiveram suas vidas vasculhadas de cabo a rabo e nada foi encontrado que pudesse incriminá-los.

Gente de esquerda não aceita e nem procura financiamento de grandes empresas, simplesmente porque seu dever é lutar contra a ordem estabelecida, que dá a essas mesmas grandes empresas a liberdade de explorar seus trabalhadores, de atropelar o meio-ambiente, de realizar negócios em prejuízo do povo trabalhador, de sacrificar os interesses do país. Este é um princípio lógico, derivado de um compromisso de classe.

O PT não é o único partido no campo da esquerda que sofreu com este tipo de escândalo nos últimos tempos. A mesma coisa aconteceu com partidos social democratas da Europa, cujos dirigentes deram as costas para os trabalhadores e assumiram programas de reformas neoliberais. Depois foi possível apurar que alguns deles tinham relações mais do que amistosas com empresas e bancos.

No entanto, ainda resta ao Partido dos Trabalhadores uma saída honrosa, que poderia diferenciá-lo das demais gangues partidárias da direita. No momento em que todos os denunciados negam veementemente as acusações, caberia ao Diretório Nacional do PT aprovar uma resolução exigindo de todos que tiveram seus nomes citados nas delações de empreiteiras peçam licença dos respectivos cargos e mandatos que ocupam e que seus nomes sejam vetados de figurar entre os candidatos do partido nas próximas eleições, até que tudo seja esclarecido.

Diante deste gesto, mínimo a se esperar de um partido que diz ter compromissos com o povo brasileiro, seria possível pensar numa reorganização da esquerda brasileira. Até porque, direta ou indiretamente, as consequências de tudo isso respingam sobre toda a esquerda, dentro e fora do PT, em sua esmagadora maioria formada de gente que hipoteca sua vida à transformação da sociedade.