“Mais uma vez o mundo se curva diante do Brasil”, diriam antigamente para ressaltar algum feito nacional. Infelizmente os dados atualizados sobre a Gripe H1N1 (mais conhecida por Gripe Suína) indicam que o Brasil é o país com o maior número de óbitos.

Isso é possível graças a “eficácia” da política do Governo para encarar o problema. Lula foi o primeiro a dizer que o Brasil iria tirar esse problema de letra. Quando surgiram os primeiros casos o Ministro José Gomes Temporão (indicado pelo PMDB) foi a público para afirmar que o sistema de saúde estava plenamente preparado para dar conta do recado.

Depois que a epidemia se alastrou pelo País, com casos de contaminação a partir de doentes residentes no Brasil, Temporão pediu que evitassem o pânico. Mas o vírus H1N1 avançou ainda mais e mais uma vez passamos a assistir as cenas de doentes apinhados em filas e corredores de Hospitais superlotados.

O pior desta falta de política foi a criação de uma cadeia burocrática para a liberação do medicamento Tamiflu aos doentes com sintomas da doença. O resultado disso não podia ser outro: além de sermos recordistas mundiais em mortes por Gripe Suína, somos também o país no qual se verificou o maior percentual de óbitos em relação ao número de casos confirmados da doença (557 mortes para 5.206 casos confirmados laboratorialmente). Ou seja, mais de dez por cento dos doentes foram a óbito.

Devemos mais este “sucesso” às autoridades sanitárias, mais preocupadas em ocupar postos pela via político–eleitoral que propriamente pela capacidade demonstrada de desenvolver uma política de saúde pública eficaz.

Resta ao ministro cabo-eleitoral do PMDB a patética polêmica sobre como melhor interpretar os números alarmantes. Segundo Temporão, correto seria comparar as mortes para cada 100 mil habitantes. Assim, pasmem, o Brasil ficaria na sétima colocação neste ranking da vergonha.

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A briga entre os herdeiros de Roberto Marinho e Edir Macedo envolve muito mais do que preceitos éticos, religiosos ou a busca pela verdade. Os dois grupos parecem ter razão quando exibem nas programações das Organizações Globo e da Rede Record reportagens e textos carregados uns contra os outros.

Vale tudo na disputa do mercado da mídia no Brasil. A Globo de fato tem tido dificuldades em manter o patamar médio de 60% de audiência dos áureos tempos da ditadura militar. A Record é a emissora de TV que mais cresce, contratando artistas, jornalistas e apresentadores, muitos dispensados pela Globo.

A audiência é a chave que abre as portas da publicidade, dos investimentos de grandes anunciantes, como cadeias de eletrodomésticos, hipermercados, cervejas, material esportivo, etc. O próprio Governo analisa o ibope das emissoras quando distribui sua propaganda institucional.

O que espanta neste tiroteio entre Record e Globo não é propriamente o tom das matérias, mas a completa ausência do poder público no debate. É o Ministério das Comunicações o órgão cuja missão é controlar o sistema de comunicações de Rádio e TV, mas até agora o ministro Hélio Costa (PMDB/MG) não deu um pio sobre o que se joga no ventilador.

Ora, como poder concedente, o Governo, neste caso representado pelo Ministério das Comunicações, deveria ser o maior interessado em que as denúncias feitas pelas duas emissoras fossem rigorosamente investigadas. Elas envolvem favorecimento ilícito, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, etc. E então, Hélio Costa? Vai ficar o dito pelo não dito?

QUAL MARINA?

11/08/2009

A possibilidade da candidatura de Marina Silva à Presidência da República, pelo PV, movimenta a agenda política nacional. Ela desmonta o quebra-cabeça da sucessão de 2010, porque introduz um elemento novo no debate eleitoral. Por isso, o Planalto anda preocupado.

Até então previa-se um processo eleitoral relativamente conhecido: de um lado dona Dilma (PT/aliados), cuja imagem vem sendo construída pelo Palácio do Planalto como a “mãe do PAC” e herdeira de Lula; de outro o governador José Serra (PSDB), esperança dos tucanos para retornar ao comando do País. No essencial, os dois se equivalem quando se trata de defender o programa Bolsa Família e a transferência de renda para banqueiros e especuladores, através do pagamento dos juros e amortizações da dívida pública.

Se Marina sair candidata certamente tirará votos da candidata do PT/aliados. Sua candidatura também pode esvaziar o balão de Heloísa Helena (Psol), que galvanizou as preferências do eleitorado progressista e de esquerda em 2006.

Ninguém duvide que a candidatura de Marina poderá fazer estragos, sobretudo se centrar seu discurso na defesa do meio-ambiente e da Amazônia. O problema é o que Marina fará num provável segundo turno, porque até segunda ordem a cúpula do PV (incluindo Gabeira) vai de Serra na cabeça.

A candidatura de Marina interessa muito ao PV, legenda relegada ao segundo plano nos últimos tempos. Pode ser a esperança de eleição de uma bancada de deputados e senadores maior, dando um fôlego ao partido. E sem dúvida interessa ao PSDB, que precisa roubar votos da candidata do Planalto. 

Mas se Marina sinalizar desde o início um discurso de crítica dura ao governo Lula e uma tendência a não apoiar nem Dilma nem Serra no segundo turno, poderá contar com o apoio de dirigentes e ativistas de diversos partidos de esquerda e movimentos sociais.

Neste caso, restará ao Psol empreender uma campanha para a eleição de Heloísa Helena ao Senado por Alagoas. Aliás, uma excelente oportunidade para que Heloísa torne a encarnar com brilhantismo o papel de porta-voz dos movimentos populares e de combate aos desmandos do Governo e das oligarquias em Brasília.

O presidente do Senado, José Sarney, é hoje figura central da política nacional. Odiado pela maioria e desejado por alguns, Sarney só pode ser amado por seus parentes e amigos mais chegados, cabos eleitorais nomeados para estatais e órgãos públicos.

Sarney passou a ser uma espécie de Geni da política nacional: todos querem levar pra cama, ninguém quer assumir, todos desprezam sua figura repugnante, mas precisam dele. Os mesmos que o atacam, adorariam tê-lo ao seu lado.

Quando o momento político é de baixa, serve de bode expiatório para todos os crimes da vida política nacional: prevaricação, nepotismo, empreguismo, mau uso e desvio de verbas públicas, etc. E todos tacam pedra na Geni…

Tal como na fábula da canção de Chico Buarque, o comandante de um Zepelin Dourado ameaça bombardear o país em 2010. Mas resolve reconsiderar sua decisão caso Geni se deite com ele. Acontece que Geni também tem seus caprichos e se recusa a fornicar com o estrangeiro.

O país em polvorosa pressiona Geni a fazer a vontade do forasteiro. O rei, o bispo, o comerciante, todos os mais destacados personagens da corte imploram até que Geni cede às pressões e se deita com o comandante do Zepelin Dourado. Para alívio geral da cidade o forasteiro satisfeito se retira. Mal raia o sol da manhã e toda a cidade está novamente na porta do casebre de Geni a lhe xingar e atirar pedras.

Sarney é assim: quanto mais próximo das eleições, mais cresce sua importância como timoneiro do maior partido da República. Passadas as eleições, todos tacam pedras na Geni.

Consciente de seu papel e de sua importância, Sarney acusa as pedradas e de quando em vez reage. Mas sabe que todos virão lhe fazer a corte quando chegar a hora da eleição presidencial.

No entanto, ao contrário da fábula cantada em versos por Chico, em que Geni salva a cidade ao deitar-se contra sua vontade com o forasteiro repugnante, Sarney vende caro, muito caro sua participação no jogo político nacional.

E nesse jogo, Sarney empurra sua decisão sobre a sua situação do Senado para adiante. Se não contar com o apoio do PT de Lula, pode levar o PMDB para uma candidatura própria no primeiro turno e negociar sua volta ao governo com o vencedor do segundo turno entre Serra e Dilma. Já se o PT segurar sua onda até o fim, manterá os cargos e todos os esquemas fisiológicos que garantem o saco de gatos do seu partido no governo até o final de 2010.

A diferença é que Geni é muito mais despojada que Sarney, pois sacrifica seus caprichos em nome dos demais. Sarney, ao contrário, estica a corda até onde pode para levar o máximo de vantagem com o sacrifício do país.

Conclusão: não é Geni que está refém das pressões do País, mas o País que está refém de Sarney.

PRA QUE SENADO?

04/08/2009

Não há novidade no noticiário a respeito das atividades da famiglia Sarney. O grande oligarca começou seus negócios no Maranhão e hoje estende seus tentáculos até o Amapá. No âmbito da política nacional Sarney já esteve até na Presidência, portanto, os desmandos de sua gestão no Senado não deveriam escandalizar ninguém.

Como todo oligarca, seu José tem três filhos que dignificam a linhagem de sua famiglia: Roseana, figura apagada no Senado e que recentemente se aboletou na cadeira de governadora do Maranhão pela força, depois que a Justiça afastou o governador eleito pelo voto da maioria, Jackson Lago; o deputado verde, Zequinha Sarney, que é o focinho do pai e o mais cotado para dar seqüência às atividades políticas do clã; e o empresário Fernando, implicado diretamente na Operação Boi Barrica.

Mas afinal, qual é o problema do seu José pedir o chapéu panamá e deixar a presidência daquela Casa chamada Senado Federal? Sarney é uma espécie de fiador do pacto PT/Lula/Dilma/PMDB. Como o PMDB é uma verdadeira casa-da-mãe-joana, na qual cada cacique tem seus interesses regionais, se Sarney for defenestrado da Presidência do Senado a casa do PMDB fica sem alicerce.

Lula e Collor, que jamais pouparam Sarney dos mais pesados xingamentos quando disputavam sua sucessão presidencial, hoje estão do mesmo lado e fazem de tudo para segurar as pontas do seu José. Parece brincadeira, mas o equilíbrio do poder no Brasil está nas mãos dele, o velho Sarney!!!

Trocando em miúdos, Sarney é uma espécie de Geni da política nacional: todo mundo usa, todo mundo quer e também é bom pra apanhar e pra cuspir.

E é por isso mesmo que provavelmente vamos assistir a mais uma marmelada (colaboracionismo, enganação, trapaça, falcatrua). Se Sarney renunciar haverá nova eleição para a Presidência do Senado. O Bloco PT/PMDB e aliados tem maioria e continuará mandando, apesar das disputas internas. Se Sarney se licencia, quem assume é Marconi Perillo, tucano, ex-governador de Goiás e vice-presidente do Senado. Quem no Governo Lula está disposto a passar pela experiência de um Senado dirigido pela oposição? Ainda mais em véspera de ano eleitoral…

O único elemento capaz de acrescentar outra saída nessa encruzilhada do seu José encontra-se adormecido em berço esplêndido. Não chame o povo brasileiro pra ir às ruas contra ou favor de nada. Ele parece disperso, cansado, sem saco pra isso.

Ainda mais depois de tantas tentativas seguidas: foi às ruas pelo fim da ditadura e pela anistia e os anistiados assumiram parcela do poder e lhe deram as costas; voltou às ruas pelas eleições diretas para presidente e viu sua energia se transformar no pacto Tancredo-Sarney; retornou às ruas pelo Fora Collor e teve que aturar dois mandatos de FHC.

Agora, até que atura o Lula. Afinal o Presidente é gente boa, e apesar de ser o campeão de transferência de riqueza para bancos e grandes empresas de todos os tempos, o Governo Lula escancarou o crédito popular. E quem não gosta de exibir sua TV de plasma, mesmo que a custo de 70 prestações infindáveis das Casas Bahia? Lula também herdou e ampliou o Bolsa Família, maior cabo eleitoral do país.

A crise do Senado, apimentada pelos escândalos de contratações irregulares, distribuição de passagens, nepotismo e outros condimentos, só comprova a inutilidade daquela Casa. O sistema bicameral é totalmente sem sentido. A chamada casa revisora do parlamento, que deveria representar o interesse dos Estados em Brasília, é uma verdadeira alcatéia de raposas felpudas da política, que usam seus poderes para chantagear e negociar com o Executivo a favor de seus interesses políticos regionais.

O senhor Daniel Dantas é desses tipos predadores que mal acabam de almoçar e já estão pensando na janta. Seus negócios variam, desde que estejam sempre bem articulados e pendurados nas estruturas de poder que lhes dêem suporte.

Depois de ser flagrado na Operação Satihagraha em inúmeras falcatruas (já foi condenado a uma pena de 10 anos de prisão em processo de corrupção ativa e tornou-se réu sob as acusações de crimes de quadrilha e organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, evasão de divisas e lavagem de dinheiro), Dantas agora é o mais novo “minerador”  virtual do País.

O grande empreendedor, que surgiu no cenário nacional ao formar o consórcio Opportunity e abocanhar parcela da telefonia fixa no processo de privatização do governo FHC, é também dono da empresa Global Mine Exploration (GME4) que lida com minérios em 14 estados da Federação. Concorrente de Eike Batista, cujo papai (Eliezer Batista) foi ministro das Minas e Energia na ditadura militar, mapeou e entregou tudo de bandeja ao filhinho, Dantas é mais original em suas operações.

Sua empresa não extrai sequer um punhado de minério, não usa maquinário pesado, não desmata e não polui. É o que os analistas chamariam de uma empresa “limpa”, ecologicamente correta. Simplesmente consegue licenças do Departamento Nacional de Produção Mineral (órgão do Ministério das Minas e Energia), localiza as áreas onde existem minérios nobres (ouro, minério de ferro, zinco, alumínio, manganês cobre, fosfato, cassiterita, níquel e até diamante) e repassa a prospecção para outras empresas, inclusive multinacionais. A GME4 já obteve 1.381 autorizações de pesquisa do Governo.

Trata-se da modalidade TERCEIRIZAÇÃO DO PAÍS, com o agravante que o negócio é realizado com apoio e aval do Governo e que o minério extraído de subsolo nacional é riqueza que não será reposta. Nada mal para quem responde por diversos crimes de tamanha gravidade e mantém relações íntimas com o poder desde o governo FHC até o governo Lula.