Todas as forças do centro-esquerda e esquerda sabem da importância de sua unidade nas eleições 2018. Muitos falam da necessidade de unidade contra o golpe e a direita, mas pouco fizeram de concreto até aqui para costurar essa aliança e enfrentar os golpistas.

O maior responsável por isso, por sua importância, é o PT. Na prática, a tática de esticar a corda da denúncia contra a prisão e a inelegibilidade de Lula, apontando um candidato benzido por Lula, inviabiliza a possibilidade de um debate real sobre essa unidade eleitoral no campo democrático e popular.

Não há no horizonte uma brecha que permita enxergar uma reviravolta na cúpula do Judiciário, que desemboque na validação da candidatura de Lula. Para quem esqueceu das palavras de Romero Jucá, vale lembrar que o aval ao golpe se deu “com o Supremo, com tudo”.

A dificuldade da cúpula petista em dar um passo adiante no sentido de compor uma frente eleitoral antigolpe se dá pelo instinto de sobrevivência do próprio partido. Só que o golpe não foi apenas contra o governo do PT, mas principalmente contra as conquistas sociais e democráticas que o povo brasileiro arrancou nas últimas décadas após a ditadura militar.

Quem pode garantir que diante da crise política que o país atravessa, com o descrédito dos partidos e seus membros, a candidatura ungida por Lula vai herdar a maioria dos votos do ex-presidente e chegar ao segundo turno? Quem garante que a mídia empresarial, já fechada com Alckmin (PSDB) não esteja preparando sua artilharia pesada de denúncias justamente para as eleições?

Essa interpretação de que o golpe foi contra o PT e Lula, além de limitada, empurra a classe trabalhadora e o povo para um risco muito maior: o de termos um governo de direita por mais quatro anos, com reformas neoliberais até a medula. E a isso não sobreviverão nem Lula, nem o PT e muito menos as frágeis organizações dos trabalhadores.

Cabe às lideranças sociais minimamente comprometidas com a democracia e o povo brasileiro chamarem o PT e os demais partidos de esquerda e centro-esquerda à razão, com urgência.

Ainda há tempo para a formação de uma chapa unitária deste campo político, com um programa mínimo, que comece pela convocação de um plebiscito para debater a revogação das medidas impostas pelo governo golpista e o famigerado Centrão nesses últimos dois anos.

Ainda é possível convocar um encontro nacional do movimento popular, sindical e da juventude em defesa de uma frente eleitoral antigolpista nas eleições 2018. Quem vai acender a chama?

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Ainda não estão confirmadas as candidaturas à Presidência para as eleições 2018, mas já há elementos para analisar os aspectos que jogam a favor e contra os principais pré-candidatos. Para além de propostas e programas de governo, há o tempo de TV e a parte do Fundo Eleitoral que cada partido pode agregar às candidaturas. Além disso, o apoio necessário para que os candidatos tenham base suficiente de apoio na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

O processo eleitoral de 2018 deve ocorrer em meio a uma profunda anomalia, com a exclusão do pré-candidato com mais indicações nas pesquisas eleitorais. A prisão de Lula não só é absurda pela ausência de provas concretas que a justifiquem, como adultera por completo o cenário eleitoral.

Em meio ao cenário do golpe de 2016 e a imposição de medidas que aprofundam a recessão, o arrocho e o desemprego, o primeiro cenário que se abre aponta para uma profunda incerteza. No campo da direita despontam Jair Bolsonaro (extrema direita) e Geraldo Alckmin (PSDB+Centrão), que tentarão se desvincular da imagem do governo Temer, mas que seguirão o mesmo receituário radicalmente neoliberal de ataques aos direitos da maioria.

Ao centro desponta Ciro Gomes, que precisa ampliar suas alianças para ter chances de sucesso eleitoral e de governabilidade, além da candidatura de centro-esquerda do PT – provavelmente de Fernando Haddad – que deve ser lançada com a negação do registro de Lula.

À esquerda aparece a candidatura de Guilherme Boulos, que pode cumprir o papel de recolocar o debate de ideias e propostas de um programa popular, comprometido com a revogação das medidas adotadas durante o governo Temer.

Vamos ao cenário:

Centro e Centro-Esquerda

. Lula / Fernando Haddad – O PT sabe que provavelmente não haverá candidatura Lula, mas segue na sua política de esticar a corda até o último segundo. Não se trata de uma questão jurídica, mas de uma decisão política da cúpula do Judiciário (claramente vinculada aos setores conservadores do empresariado) para impedir que isso ocorra, visto que sua candidatura ameaça a aplicação de reformas draconianas que ainda não foram impostas pelo golpe de 2016, num ritmo que são exigidas pelo sistema financeiro internacional.

O mais provável é que o ex-ministro e ex-prefeito de SP, Fernando Haddad, seja confirmado como candidato do PT. O que não se pode garantir é que Haddad vá herdar o eleitorado lulista, muito maior do que o eleitorado petista, com força suficiente para leva-lo ao segundo turno.

A posição de manter Lula candidato até o último suspiro cria um fato político de denúncia, mas dificulta em muito uma aliança dos partidos de esquerda e centro-esquerda no primeiro turno das eleições presidenciais. Será mesmo essa a intenção do PT?

 

. Ciro Gomes – O ex-ministro e ex-governador do Ceará tem se esforçado para marcar posição independente e progressista, aparecendo bem nas primeiras pesquisas eleitorais, mas sofreu um duro golpe em suas pretensões ao ver os partidos do “Centrão” fecharem apoio à Geraldo Alckmin, do PSDB.

Agora, resta a Ciro retomar a costura com o PSB e o PCdoB, para obter mais tempo de TV e tentar um bloco de negociação com o PT, capaz de convencer a cúpula petista a negociar seu apoio, o que é pouco provável. Resta saber se Ciro aceitaria ser vice de uma candidatura petista.

No caso do PSB, partido dividido por lideranças regionais, o que importa, além de fazer bancada no Congresso Nacional, é reeleger seus atuais governadores. Já o PCdoB oscila entre seguir o indicado por Lula ou reforçar um bloco com o PSB e PDT.

 

. Marina Silva – Afastada do cenário político nos últimos anos, Marina Silva não deve cumprir o mesmo papel de protagonista nestas eleições. Sua candidatura permanece isolada, aguardando os desdobramentos da rejeição da inscrição de Lula para saber o que pode herdar de votos do eleitorado petista.

Tem pouco tempo de TV e quase nada de participação no Fundo Eleitoral Partidário. Em meio a uma polarização política muito maior que em 2014, seu discurso apaziguador e sereno tende a sucumbir ao tiroteio entre candidaturas no campo do centro-esquerda e da direita.

 

Direita e extrema direita

. Geraldo Alckmin – Com a adesão dos partidos do Centrão, o tucano Alckmin ganha tempo de TV, recursos de campanha e base no parlamento, mas herda o ônus de ser apoiado por partidos e parlamentares que votam em projetos impopulares, profundamente identificados com o fisiologismo e práticas criminosas.

Ao mesmo tempo, Alckmin terá que responder por que seu partido esteve desde o início no governo Temer – o mais impopular desde Collor de Mello – apoiou e votou na reforma trabalhista e explicar a situação de alguns correligionários, como o senador Aécio Neves e o ex-governador de Minas, Eduardo Azeredo.

Apesar de todos esses fatores negativos para a sua campanha, Alckmin pode chegar ao segundo turno, contando com a máquina eleitoral dos partidos que o apoiam.

 

. Jair Bolsonaro – Toma como base um eleitorado que perdeu a paciência com a política e com os políticos tradicionais. Assim, para Bolsonaro o pouco tempo de TV de que dispõe pode não ser tão decisivo, visto que sua candidatura não dialoga com o eleitor de centro e muito menos com o da esquerda.

Se Lula não for mesmo candidato, Bolsonaro tem chances de ir ao segundo turno, em função da pulverização de candidaturas do centro-esquerda e as debilidades da candidatura Alckmin.

 

. Henrique Meirelles – Se for mantida, sua candidatura pode representar a figura de conselheiro do que o Brasil precisa, de acordo com a lógica do “mercado”. Seria uma candidatura pró-forma, isolada, sem chances de decolar e sem apoio sequer da maioria de seu partido.

 

. Paulo Rabello de Castro – Se conseguir manter sua candidatura pelo PSC, o empresário Paulo Rabello de Castro poderá cumprir para a direita o papel que Boulos terá para a esquerda nessas eleições: uma espécie de porta-voz das posições programáticas ultra neoliberais.

 

Esquerda e extrema-esquerda

. Guilherme Boulos – O candidato do PSOL caminha para ser uma espécie de candidatura “saudades do PT das origens”, com um discurso de apoio às reivindicações populares. Pode cumprir um papel importante, não apenas de denúncia do sistema, como de pontos programáticos dos quais a maioria dos candidatos foge: taxação de lucros e dividendos, defesa das estatais e serviços públicos, reforma urbana e agrária, combate ao monopólio privado da mídia, etc.

 

. Vera Lúcia – O PSTU deve repetir sua participação de outras eleições, desta vez com uma candidatura ainda menos conhecida. Não se sabe se terá sequer força para eleger parlamentares às assembleias legislativas nos estados em que disputar o pleito.

 

 

*Não inclui Manuela D’Ávila (PCdoB) entre os presidenciáveis porque seu partido lançou a candidatura como instrumento para negociação de apoio a outras candidaturas, provavelmente Ciro Gomes ou a que for confirmada pelo PT.