Leite derramado

31/08/2016

No momento em que escrevo este artigo os senadores se preparam para retomar a sessão que deve interromper o segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff. Por não haver qualquer base jurídica para tal, fica evidente que o impedimento de Dilma tem caráter eminentemente político. Mas afinal, por que chegamos a esta situação?

O maior responsável pela destituição de Dilma é o seu próprio grupo político, formado por parte da cúpula e expoentes do PT. Ao sair de uma reeleição apertada, no final de 2014, Dilma e seus companheiros decidiram agradar ao “mercado”.

Cederam à chantagem da mídia empresarial, capitaneada pelas Organizações Globo, cujo receituário é cortar gastos públicos e manter juros elevados, para assegurar os ganhos do sistema financeiro, inclusive os credores da dívida pública brasileira.

Não por acaso a condução da política econômica foi entregue ao senhor Joaquim Levy, notório representante do setor financeiro. Suas primeiras medidas foram justamente passar a faca nos investimentos sociais, contingenciar as verbas dos ministérios e assegurar elevadas taxas de juros.

O resultado disso foi uma recessão brutal, que representou um duro golpe na produção, provocando mais inflação e desemprego em massa. Enquanto o povo sofria, a Rede Globo reclamava que Levy ainda não tinha carta branca para aumentar os cortes.

Dilma, que já não contava com maioria na Câmara dos Deputados, foi se enfraquecendo na medida em que seu governo cortava as verbas dos ministérios de seus aliados. O PMDB e demais partidos da chamada “base aliada”, sempre viveram das benesses da estrutura do Estado brasileiro.

O projeto dessa gente nada tem de político ou ideológico, mas apenas de sobrevivência. Trata-se dos herdeiros das capitanias hereditárias, que há séculos vivem de forma parasitária das relações econômicas que derivam do poder político.

É evidente que Eduardo Cunha teve papel importante no encaminhamento do pedido de abertura do impedimento de Dilma. Como tesoureiro informal de grande parte das campanhas eleitorais de seus pares em todo o Brasil, Cunha foi eleito com folga para comandar a Câmara dos Deputados, derrotando o candidato do governo e da oposição neoliberal, formada pelo PSDB/DEM.

Sem dúvida que para isso muito contribuíram as manifestações de rua, coordenadas por grupos de direita e estimuladas pelas Organizações Globo. Alimentadas pelas investigações da Operação Lava Jato, elas deram a base de apoio de grande parte das camadas médias para o golpe político institucional que ora se confirma.

Mas o destino do governo Dilma foi traçado quando fez a opção por uma política econômica recessiva e concentradora da renda. A inflação e o desemprego, aliados à intensa propaganda sobre a corrupção nos governos petistas, tiraram dos setores populares qualquer energia para ir às ruas defender o mandato da Presidente.

A julgar pelas medidas já adotadas e pelas que anunciou o governo Temer tem o firme propósito de fazer em dois anos o que o “mercado” sonhava que o PT fizesse na íntegra: a entrega do que resta do orçamento do país a grandes grupos privados e ao sistema financeiro. Como o PT não se propôs a assumir este programa na íntegra e Dilma perdeu as condições políticas para governar, a bola da vez está com Temer e a “base aliada”, comandada pelo PMDB e o PSDB.

Ainda não se sabe a que custo e em que ritmo as reformas pretendidas pelas classes dominantes serão impostas. Elas já estão anunciadas: aumento da idade mínima para aposentadoria; cortes na Educação e na Saúde públicas; congelamento de investimentos, salários e concursos nos serviços públicos; privatização da exploração do petróleo da camada do pré-sal e de empresas estatais; imposição do negociado sobre a legislação trabalhista. Tudo para garantir superávits primários e o pagamento em dia de juros e amortizações da dívida pública aos credores do sistema financeiro.

Aos trabalhadores, à juventude, aos aposentados e aos setores mais conscientes das camadas médias restará virar a página dos governos petistas, resistir, lutar e construir um novo polo político à esquerda, com uma cultura profundamente combativa e democrática. E essa alternativa não pode se prender exclusivamente ao processo eleitoral, ainda que dele deva participar.

Anúncios

Algumas especulações rondam o cenário político atual até 2018. As medidas anunciadas pelo governo golpista, muito mais pela pressão do empresariado, do mercado financeiro e dos credores da dívida pública, são nitidamente antipopulares. O porta-voz mais fiel dessa política privatista no cenário partidário é o PSDB, que ocupa postos estratégicos no governo Temer.

Os tucanos estão no Ministério da Fazenda, no BNDES, nas relações exteriores e pressionam para que Temer adote integralmente o receituário neoliberal nos próximos dois anos. Daí algumas manifestações de descontentamento e reuniões de bastidores entre o tucanato e os demais setores do governo.

No entanto, o partido majoritário na composição do governo, o PMDB, é uma federação de grupos políticos das oligarquias regionais, num país de dimensões continentais. Um partido com tantas diferenças internas nunca teve e não tem a vocação para impor medidas econômicas e sociais desgastantes, tendo em vista que sua sobrevivência depende do jogo eleitoral.

Por outro lado, algumas das medidas que estão sendo anunciadas pelo governo golpista têm origem no próprio governo Dilma e contavam com o apoio da maioria da cúpula do PT, como a PEC 257. A cada dia que passa, com os resultados dos indicadores econômicos e sociais sombrios já sob o governo Temer, fica mais evidente que será muito difícil enfrentar e debelar a crise – cujas raízes são muito mais graves – com a intensificação da política recessiva, a mesma adotada pelo ex-ministro Joaquim Levy, agora aditivada com a privatização escancarada da economia.

O governo Temer e seus aliados mais próximos já definiram sua estratégia para os próximos meses: 1) acelerar o Impeachment de Dilma e sacramentar Temer como presidente de fato e de direito; 2) empurrar a cassação de Eduardo Cunha para depois das eleições de outubro, evitando uma possível delação premiada que influenciasse o resultado eleitoral deste ano.

O que virá depois disso ainda está no campo da especulação política. O PMDB estará disposto a pagar o preço político em 2018 pelas medidas duras exigidas pelo “mercado” ou tentará um acordo que garanta um meio termo desta política? O PSDB seguirá no governo Temer até o fim ou pulará fora antes por descontentamento ou também para evitar o desgaste político das medidas impopulares?

Para o PT será positivo ou negativo estender a mão ao governo Temer, mesmo depois de consumado o golpe político-institucional, visando isolar os tucanos e tentar uma solução mais branda nas medidas que este governo se comprometeu a adotar? Ao que parece a Direção do PT rejeita até mesmo qualquer proposta que represente uma mudança do calendário eleitoral, como a antecipação das eleições presidenciais, levantada por Dilma.

No campo institucional que variáveis estão postas no jogo político para 2018? Com um possível desgaste do governo Temer em curto prazo pode prosperar a Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME), que corre no TSE, visando a impugnação da chapa Dilma-Temer? Até que ponto uma delação premiada de Eduardo Cunha pode inviabilizar o governo Temer e atingir seus aliados? Com o avanço das investigações da Operação Lava Jato será possível acelerar os trâmites judiciais e tornar Lula inelegível em 2018? Haverá acúmulo e unidade das forças populares para apresentar uma alternativa política consistente e viável nos próximos dois anos?

Essas e outras questões estão postas no tabuleiro de xadrez da crise econômica e política brasileira para o próximo período.

Numa dessas copas do mundo de futebol um dos patrocinadores – se não me engano uma marca de barbeador manual – inventou uma personagem, o Pacheco, camisa 12. Era aquele torcedor apaixonado, para o qual só importava vestir a camisa amarela e sair por aí de bandeira na mão para gritar “Gol do Brasil!” Nada mais acertado para pegar carona no sentimento nacional que ronda o país nessas ocasiões.

O Brasil não ganhou, mas Pacheco continua vivo até hoje, só que na cabeça de narradores/apresentadores e repórteres da maioria das emissoras de Rádio e TV brasileiras que cobrem os grandes eventos esportivos.

Se há duas coisas que são receitas de sucesso de público e audiência no Brasil são o esporte – sobretudo o futebol – e as novelas. Que tal juntar as duas? Foi o que fizeram as TVs e Rádios em todo o país, reforçando aquele nacionalismo que representa a pátria de chuteiras.

Chega a ser ridículo acompanhar a narrativa do ambiente que cerca os jogos e competições em que atletas brasileiros participam. Para começar, a maioria dos coleguinhas sequer conhece as modalidades esportivas e muito menos os competidores, daí recorrerem aos ex-atletas como comentaristas.

Na hora das partidas ou provas o modelo da dramaturgia sobe à cabeça e, na falta do que dizer ou informar, os narradores passam a torcer a favor de qualquer brasileiro (que eles não conhecem e nunca tiveram curiosidade em acompanhar), fazendo aquela “corrente para frente”, como se torcida ganhasse alguma coisa.

Muitas vezes os ex-atletas/comentaristas acompanham os narradores, abandonando a função de analistas e críticos dos competidores para a qual são convidados, para se tornarem apenas torcedores de luxo, com direito a “vamos lá”, “agora vai”, “para cima deles, Brasil” e outras bobagens.

Por isso, não sabiam que o grego das argolas podia rivalizar e até derrotar Artur Zanetti. Da mesma forma desconheciam o potencial de Thiago Braz, que ganhou a medalha de ouro no salto com vara. Na natação nossos competidores não tinham a menor chance, tanto que das cerca de sessenta medalhas não conquistaram nenhuma. Mas sempre havia uma “ponta de esperança” e a “força dessa torcida para empurrar o brasileiro”. Também ignoravam a força do campeão olímpico de Londres, que derrotou o atleta brasileiro da canoagem, tido como medalha de ouro certa antes da competição.

E os nossos repórteres esportivos? Embarcam todos na mesma receita do dramalhão. Após as provas, com vitória ou derrota dos atletas brasileiros, são sempre as mesmas perguntas: “Qual é a emoção deste momento?” ou “O que você sentiu na hora do ponto decisivo?” A receita é sempre arrancar uma cara de choro ou uma lágrima do entrevistado para emocionar o telespectador ou ouvinte. Se ainda assim não der certo o jeito é apelar para aquela: “Você passou por muitas dificuldades para chegar até aqui…”

A coisa chegou a tal ponto que os próprios atletas, quando não alcançam o que deles se cobra, passaram a pedir desculpas aos brasileiros. Pouco ou quase nada é dito sobre a realidade do esporte olímpico, as federações e confederações de esportes, verdadeiros ninhos de ratos comandados por cartolas inescrupulosos, que administram sem qualquer transparência.

No entanto, o mesmo dramalhão que força a emoção e até divide com o expectador/ouvinte/torcedor a responsabilidade pelo triunfo dos atletas brasileiros, também é responsável pela frustração quando a expectativa não se confirma. E na maioria dos casos não se confirma mesmo.

Não importa. Se não deu certo agora é porque faltaram detalhes ou até porque “Deus não quis”. Certamente seremos melhores na próxima… E aí vem toda aquela arenga envolvendo o esforço pessoal de cada atleta, mostrando a família, o passado de dificuldades e a superação da glória, como quem diz “se você quiser você também consegue”.

A objetividade jornalística é jogada na lata de lixo, trocada por uma narrativa puramente emocional e piegas. Na maioria dos casos não se faz uma avaliação dos fatos, os erros e acertos cometidos no caminho das competições, que estrutura existe por trás dos atletas, os exemplos de sucesso de outros países, os recursos materiais e humanos que envolvem a preparação e mesmo o que se passa no esporte olímpico brasileiro.

Esse mar de superficialidade, que procura fundir a dramaturgia e o esporte, serve para render pontos na audiência e aumentar o faturamento das emissoras, mas faz muito mal ao jornalismo e ao esporte.  Está óbvio que o esporte brasileiro não está subordinado a qualquer política governamental séria e que os resultados, com algumas exceções, é desastroso. Mas alguns idiotas ainda atribuem essa simples constatação ao “complexo de vira-latas” do brasileiro.

O papel do jornalismo, de jogar luz sobre os acontecimentos e chamar os envolvidos a debater os problemas e buscar soluções, foi abandonado por uma mídia que confunde seus interesses empresariais com a necessidade de triunfo a qualquer preço ou tragédia, para reconfortar os derrotados e leva-los a acreditar que da próxima vez tudo será diferente e chegaremos lá.

O futebol reflete em muito os dilemas e contradições da sociedade brasileira. Dele é possível extrair boas e más lições, expondo nossas chagas, mas também oferecendo respostas muitas vezes inesperadas.

Há muito a seleção brasileira reflete o caos do Brasil dentro e fora de campo, que tem traços de capitalismo selvagem, coronelato e amadorismo caótico. Não por acaso os resultados têm sido pífios, inclusive nos torneios de clubes das Américas.

Pois não é que foi no dia dos pais, data comemorada, mas tão relegada ao segundo plano, que o futebol nos deu outra grande lição!/ E teve que acontecer justamente com o meu Botafogo FR.

Na semana do primeiro jogo do returno do Campeonato Brasileiro em que o alvinegro enfrentaria o São Paulo, a diretoria do clube paulista fez uma proposta para a transferência do treinador do Botafogo, Ricardo Gomes, para o clube do Morumbi. E o pior é que Gomes aceitou, abandonando o clube na sexta-feira pela manhã, no último treino que antecedeu ao jogo do final da semana.

Em princípio qualquer profissional pode receber propostas de outro clube ou empresa. O que é estranho é que a proposta seja feita exatamente dias antes do jogo em que as duas equipes se enfrentariam pela mesma competição. Ou seja, são entidades esportivas filiadas a uma Confederação (CBF), mas o que prevalece mesmo são os interesses econômicos.

A maioria dos comentaristas esportivos chamou a isso de “lógica do mercado” e até mesmo o Presidente do Botafogo considerou a transação normal. No entanto, parece que os deuses do futebol não concordaram com a negociata. Depois de noventa minutos de um jogo morno, o lateral esquerdo alvinegro, Diogo Barbosa, foi à linha de fundo e cruzou rasteiro para Sassá balançar a rede do tricolor paulista, em pleno Morumbi.

Alguém se lembrava de Ricardo Gomes depois que o treinador teve um AVC em pleno Engenhão, quando comandava o Vasco numa partida contra o Flamengo, em 2011(int). Como já fez inúmeras vezes com atletas e treinadores considerados acabados para o futebol, o Botafogo foi buscar Gomes em casa, no ano passado, dando a ele a oportunidade de retomar sua carreira interrompida e esquecida.

Em episódio semelhante o meia Willian Arão, que se destacou pelo Botafogo na segunda divisão em 2015, fez um compromisso por debaixo dos panos com a diretoria do Flamengo antes de encerrar o ano. Arão quebrou o contrato que tinha com o Botafogo, mesmo depois que o clube depositou por duas vezes o valor acertado para sua renovação. Este mesmo atleta antes de chegar ao Botafogo cheirava a peixe no Corinthians, onde sequer era relacionado entre os reservas.

A diferença é que Arão é um jovem, que assim como Neymar, tem em seu pai o mau exemplo da figura do procurador/empresário/cafetão sem escrúpulos. Já Ricardo Gomes é um profissional experiente e sabe que sua atitude prejudicaria o clube que o resgatou, que se encontra numa condição incômoda e perigosa na tabela do campeonato. Não foi o São Paulo que o procurou em casa, quando ele ainda dava clara demonstração de debilidade física e estava há quatro anos afastado dos gramados.

Pois bem, a resposta não demorou. O jogo foi xoxo, fraco, como de resto tem sido a maioria das partidas do futebol brasileiro nos últimos tempos. Mas Sassá saiu do banco de reservas para dizer mais uma vez aos escroques do futebol – inclusive ao presidente do Botafogo, que justificou a transação na véspera do jogo – que ainda existe uma ética rondando os estádios.

A bola que balançou a rede são-paulina nos acréscimos da partida de domingo, 14 de agosto de 2016 (Dia dos Pais), teve um gosto especial. Não um sabor de vingança ou de mágoa, mas de justiça, de alívio, retirando do peito e da garganta do torcedor alvinegro um grito de gol que valeu muito mais do que os três pontos conquistados na partida.

Foi preciso que um jogador saído das divisões de base do Botafogo FR, comandado por um treinador interino também formado no clube, colocasse o pé e desviasse a bola para o gol do São Paulo FC, como quem diz: por mais que só se pense em grana e negociatas no futebol, ainda existe um código de ética dentro de campo.

Talvez seja por essas coisas que o futebol é apaixonante. Talvez sejam essas coincidências do destino que fazem do Botafogo FR um clube tão especial. Obrigado, Botafogo FR, pelo presente que deu a todos os esportistas no Dia dos Pais.

Dia desses, durante os jogos do Rio, assisti a uma reportagem na TV sobre os desafios enfrentados pelos espectadores nas arenas olímpicas. Na Barra, no Engenhão, no Maracanãzinho ou na Vila Militar os mesmos problemas: falta de condução suficiente depois da meia-noite.

Estrangeiros e turistas brasileiros tiveram que encarar a Via Crucis que os cariocas enfrentam todos os dias. Longas filas no BRT para tentar chegar ao Metrô, só que depois da uma da manhã não havia mais Metrô circulando. O jeito era seguir nos ônibus, apinhados de gente. Teve gente chegando de madrugada em casa.

A desculpa da empresa que administra o Metrô, repetida pelo secretário de transportes, é que a madrugada é usada para fazer a manutenção das composições. No caso dos trens a Supervia deu uma maquiada, colocando trens com melhores condições na linha que atende ao Engenhão. O resto, a sucata, foi empurrada para as outras linhas. Afinal, quem quer saber do povão da Baixada e da Zona Oeste?

Já no VLT que circula pelo Centro a jogada é faturar na compra do bilhete. A máquina para aquisição da passagem não dá troco, de maneira que a empresa embolsa pelo menos R$ 0,20 de cada passageiro.

Disso tudo decorrem duas questões:

1) Por que a maior parte das competições mais importantes são disputadas a partir das 22 horas de Brasília? Simples: para comprar os direitos de imagem dos jogos a cadeia de TV norte-americana NBC impôs a realização de competições nos horários que melhor convém aos seus interesses comerciais para o horário dos EUA. O resultado disso foi a loucura de provas de natação, atletismo, jogos de futebol, vôlei e basquete sendo realizados em horários impróprios para os próprios atletas e para o público.

2) Como a estrutura de transportes da cidade não estava preparada para atender aos torcedores? Outra resposta que não tem mágica: Metrô, Trem, Barcas e Ônibus do Rio estão nas mãos de empresas e consórcios privados, que não dialogam entre si e não seguem qualquer planejamento organizado pela Prefeitura. Ou seja, fazem o que lhes convém, apesar dos inúmeros subsídios que recebem, a começar pela administração do Rio card.

O Rio é lindo, mas a realidade dos cariocas não é nada maravilhosa. Como se vê, o carioca enfrenta verdadeiras maratonas todos os dias.

Para além de toda a corrupção envolvendo os R$ 38 bilhões gastos nas Olimpíadas do Rio, há algo intrigante nos primeiros resultados da delegação brasileira dentro das arenas. Uma delegação de 400 atletas, de quase todas as modalidades, mas que deixa muito a desejar no confronto com esportistas de outras nações.

Ainda é cedo para um balanço criterioso, no entanto, a julgar pelos primeiros resultados, parece que o sonho olímpico tem muito mais a ver com as estruturas montadas especialmente para os Jogos do que com a preparação dos atletas em si.

No caso da natação, por exemplo, até aqui não colocamos sequer um atleta brasileiro nas finais. O judô já tem uma medalha de ouro, mas se espera mais deste que é um dos esportes em que temos uma de nossas maiores tradições olímpicas. No atletismo não temos nenhum nome de ponta, apesar de certa evolução em algumas provas.

Com a punição da Rússia, que perdeu toda a delegação de atletismo para os jogos do Rio, talvez o Brasil consiga melhorar seu desempenho nesta modalidade, mas nem isso está garantido. Mesmo que venhamos a ter um resultado melhor em algumas modalidades, a impressão que se tem é que montamos a maior delegação do Brasil de todas as Olimpíadas sem nenhuma ambição esportiva.

A distribuição de recursos para federações e confederações pode explicar um pouco esta situação: enquanto a CBF ficou com 57% de todos os recursos (R$518,9 milhões) e o Volei com R$107,4 milhões em 2015, as demais 20 confederações concentram não mais do que 30% do dinheiro investido para estrutura e formação de atletas.

A esmagadora maioria desses recursos é de fontes públicas: Banco do Brasil, Correios, Caixa Econômica, Infraero e Petrobras. Outros 19% dos investimentos são de convênios com o Ministério dos Esportes e 18% são repasses das loterias federais. O que sobra (13%) são de contratos com TV e outros.

Ainda assim, dos R$ 907 milhões investidos nas 22 confederações desportivas brasileiras em 2015, pouco se sabe. A corrupção, a falta de transparência e de democracia são as marcas da maioria destas entidades, nas quais imperam caciques e figuras que não prestam contas, não chamam os atletas a opinar e definem contratos e prioridades a partir de critérios duvidosos.

Como afirmou em entrevista em 2015 ao Jornal Zero Hora o ex-atleta e ex-treinador de vôlei, Bebeto de Freitas, o esporte no Brasil é uma casca de ovo podre. “Se a gente pegar, nos últimos 10 anos, todos os escândalos das federações e confederações, de contas que não batem, documentos e contratos ilegais… Existe uma forma de exercer o esporte no Brasil que é terceirizar. A forma que se encontrou para manipular o esporte no Brasil é terceirizando. O dinheiro vem do governo, eles pagam essas empresas, e o que acontece depois ninguém vai atrás para saber”, afirmava Bebeto um ano antes das Olimpíadas.

Outros países já provaram que é possível tornar o esporte numa política de largo alcance e inclusão social. No entanto, num país de 200 milhões de habitantes, a receita é massificar o esporte na base. E isso só pode começar pela escola, tornando obrigatório não só a prática desportiva acompanhada de professores de Educação Física desde o Ensino Fundamental, como a construção de estrutura física necessária para isso nas próprias escolas.

Com um mínimo de recursos e tempo será possível aos professores selecionar os que mais se destacarem nas diversas modalidades esportivas. Dali pode-se firmar convênios com os clubes sociais e esportivos, dando a estes incentivos para que desenvolvam um trabalho sério de estrutura e pessoal para a formação de atletas. A última ponta da cadeia deve ser a Universidade, não só com bolsas de estudo para os atletas, mas desenvolvendo todo um sistema de pesquisa e apoio técnico e científico ao desempenho dos jovens esportistas.

O apoio direto e indireto à prática esportiva de massa desde cedo cria inúmeras possibilidades de melhoria na sociedade: o incentivo ao espírito coletivo nas crianças; um melhor desempenho dos estudantes em sala de aula; o fortalecimento dos clubes como células de formação de base de atletas; o emprego de centenas de milhares de professores e treinadores; e, finalmente, a construção de um futuro para milhares de atletas, que poderão ser profissionais do esporte mesmo depois do encerramento de suas carreiras esportivas.

Os poucos bons resultados que colhemos até aqui nas Olimpíadas são muito mais por conta do esforço individual de atletas e treinadores, do que da política de esportes no Brasil. No entanto, a situação tende a ficar pior. Com o avançar da crise econômica e a política do governo Temer de corte de investimentos públicos, a ressaca olímpica pós Jogos do Rio pode ser ainda mais danosa para o esporte olímpico no Brasil.

Não se trata de torcer contra, de espírito de vira-lata ou qualquer coisa que o valha. Mas a sensação que o cidadão do Rio tem durante esses jogos olímpicos é que está condenado a ser um intruso na sua própria cidade.

O sujeito que deveria ter uma atitude tranquila e cordial com os visitantes cumpre um papel lamentável, de bobo da corte. Talvez ele acredite que as coisas podem ser abrandadas sempre com desculpas, piadinhas e chavões idiotas, como “trazer um canguru para a Vila dos Atletas” para agradar aos australianos.

Já o governador em exercício prefere o total ostracismo. Quanto mais esquecerem dele, ainda mais neste período em que os servidores recebem salários atrasados e pela metade, melhor. Nem sei se terá coragem de se juntar ao prefeito e ao presidente interino para tomar aquela sonora vaia na abertura dos jogos.

A Rede Globo, Band e Record, que compraram os direitos de transmissão, se esforçam em deixar tudo e qualquer problema de lado para tirar aquela emoção a mais dos atletas. É preciso exagerar na dose sobre a origem humilde de cada um, quem sabe levar o entrevistado às lágrimas, para encher de falso orgulho o telespectador. Até parece que nas outras delegações não existem casos iguais ou ainda maiores de superação.

Os noticiários estão repletos de esportes pela manhã, no meio do dia e à noite. As emissoras precisam que seu negócio seja visto a cada segundo, para negociar mais inserções publicitárias com os patrocinadores nacionais e internacionais.

A mídia, comprometida que está com o negócio dos jogos, passa a ser identificada e hostilizada em muitas cidades pelas quais passa a tocha olímpica. E quando as manifestações conseguem criar obstáculos no caminho da tocha, a saída dos organizadores é apelar para a já conhecida violência policial contra os que protestam.

A loucura é tamanha que esqueceram de prever a bagunça que as mudanças de trânsito causariam em toda a cidade, sobretudo nos pontos de maior circulação, como Linha Amarela, Avenida Brasil, Av. Ayrton Sena e outros. O resultado são centenas de quilômetros de engarrafamento todos os dias.

Os gênios da engenharia de trânsito não calcularam que ao tomar metade do espaço das vias para as faixas exclusivas de circulação de veículos da “família olímpica”, a já sobrecarregada frota da cidade teria que se espremer ainda mais nas avenidas, sobretudo nos horários de pico.

O feriado de 4 de agosto é uma prova do fracasso retumbante da mobilidade urbana e o risco que a cidade corre de travar, causando um mico internacional. Sem ter estrutura de transportes de massa adequada e submetido a um estresse agudo, o Rio pode transbordar de problemas ao mesmo tempo e estragar a festa.

A solução do prefeito foi abandonar o posto de alcaide e se dedicar 24 horas por dia ao papel de bobo da corte, uma espécie de rei momo do circo olímpico. Aliás, ele anda bem acima do peso.  Assessorado pelo dirigente máximo do Comitê Olímpio Brasileiro e seus demais colaboradores, o bobo da corte olímpica toca o circo com seu habitual cinismo.

Aos cariocas e fluminenses, que estão longe do reino do faz de contas olímpico e precisam desempenhar suas atividades cotidianas, resta a cidade real e suas mazelas do dia a dia. De resto, vamos rezar para que nada de mais aconteça, inclusive as previsões de atividades de grupos terroristas durante os jogos, que só serviram para ampliar o sítio montado em torno do nosso São Sebastião do Rio de Janeiro.