A vaca já tossiu

31/12/2014

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Depois da nomeação da maior parte do ministério de seu segundo governo, a Presidente eleita desdisse tudo que disse e mandou o primeiro ferro no traseiro dos trabalhadores. Em nome de uma economia para acertar as contas com os agiotas da dívida pública, diversos benefícios foram limitados.

O seguro-desemprego passa a ser pago pela primeira vez somente se o trabalhador tiver 18 meses de carteira assinada, quando antes o período mínimo era de seis meses, incluindo uma variação do pagamento, de três a cinco parcelas. O governo também decidiu apertar o cerco ao seguro defeso, pago aos pescadores em épocas em que a reprodução das espécies é assegurada, que não poderá ser acumulada com seguro-desemprego.

No caso do PIS, a equipe de Dilma quer que o valor pago ao trabalhador seja proporcional aos meses trabalhados. No entanto, a Constituição assegura que o valor do abono é de um salário mínimo. Já as pensões passarão a ser pagas temporariamente para quem tenha menos de 44 anos de idade, de acordo com uma tabela, reduzindo os valores pagos às viúvas sem filhos e mesmo às que tenham filhos. E nas pensões vitalícias dos ex-governadores e suas viúvas? Ninguém vai mexer?

O primeiro pacote de maldades de Dilma estoura exatamente nas costas dos trabalhadores, o que deve gerar uma economia de R$ 18 bilhões/ano, de acordo com a equipe economia. O problema é que o pacote foi anunciado justamente às vésperas do Ano Novo, quando todos os preços de tarifas públicas e impostos são aumentados. No Rio, por exemplo,  a passagem do ônibus urbano pula de R$ 3,00 para R$ 3,40 (13%), um prenúncio da garfada geral que atinge o cidadão todo início do ano.

Para os anti-petistas de carteirinha quem tossiu foi Dilma. Para os que deram um voto de confiança à Presidente, o pacote anunciado é a segunda decepção depois do anúncio do seu ministério (dos horrores).

Para quem só votou em Dilma no segundo turno para evitar coisa pior, fica a certeza de que a Presidente se tornou refém do mercado e da grande mídia, temendo uma crise política maior com o escândalo do petrolão e com a chantagem dos credores da dívida pública. Bem-vindos ao segundo mandato…

Os analistas da grande mídia identificaram o novo ministério com a cara da Presidente Dilma, sem grande interferência do PT e de Lula. Ora, se o diagnóstico está correto a Presidente é mesmo muito, muito feia.

Depois de anunciar e confirmar o banqueiro Joaquim Levy mãos de tesoura para o Ministério da Fazenda, a agronegociante Kátia serra elétrica Abreu para a Agricultura e o empresário Armando Monteiro para a pasta da Indústria e Comércio, Dilma apresentou uma barca de ex-governadores, candidatos derrotados, deputados e senadores para o Ministério de seu segundo governo.

Na cota do PMDB aparece Elizeu Padilha, para a Aviação Civil, que tem no currículo passagens pela prefeitura de Tramandaí (RS), pelo Ministério dos Transportes (governo FHC), e que é indiciado por formação de quadrilha. Outro peemedebista é Helder Barbalho, que responde a inquérito por desvio de verba da saúde no município de Ananindeua (PA), onde foi prefeito. Filho do conhecido Jáder Barbalho, Helder vai ocupar a pasta da Pesca e Aquicultura.

Junta-se a eles o senador peemedebista pelo Amazonas, Eduardo Braga, que ocupará a pasta das Minas e Energia. Braga foi candidato derrotado ao governo do Amazonas e teve entre seus principais doadores de campanha a Odebrecht, o Banco Pactual e a Coca-Cola. Para completar o time do PMDB aparece o deputado Edinho Araújo (Ministério dos Portos), que iniciou a carreira na antiga ARENA – partido da ditadura militar – e é suspeito de fraude em licitação de obras.

Para tocar o Ministério das Cidades Dilma chamou Gilberto Kassab (PSD), empresário, corretor de imóveis e ex-prefeito de São Paulo, muito criticado pelos movimentos de sem-teto por sua administração a frente da maior cidade do país. Cid Gomes (Pros) foi o escolhido para a pasta da Educação, justamente ele que se notabilizou por criticar professores em greve no Ceará, quando afirmou que deveriam trabalhar “por amor”.

Para fechar com chave de ouro esta leva do Ministério, Dilma convidou George Hilton (PRB – IURD), do antigo PFL e que foi flagrado pela Polícia Federal com malas de dinheiro da Igreja Universal no Aeroporto de Belo Horizonte, em 2007, caso que ganhou repercussão internacional.

Para atender às demandas da sua “base aliada” Dilma montou um verdadeiro filme de terror, um Walking Dead de Natal, com antigos personagens da política nacional, conhecidos por suas raízes nas oligarquias regionais. Que coisa feia, Presidente!

Secos e molhados

17/12/2014

Alguns colegas de profissão adotam um discurso de que jornalista tem lado, de que não se pode confundir independência com ausência de posição frente aos acontecimentos. Esse é um velho debate no meio jornalístico. Eu ainda prefiro um jornalismo apegado aos fatos, menos opinativo e mais objetivo, embora o ordenamento e a narrativa dos fatos estejam sempre subordinados ao ponte de vista de quem escreve. Cabe a cada leitor, telespectador, internauta ou ouvinte tirar suas próprias conclusões.

Sempre se associa o jornalismo alternativo e independente à ausência absoluta de qualquer dependência econômico-financeira do Estado, de governos e partidos políticos. Tive uma experiência assim quando o Programa Boca Livre (ainda na Rádio Band AM do Rio) conseguiu patrocínio da Loteria do Estado do Rio de Janeiro.

Foi quando o então governador Garotinho concedia entrevista ao vivo do estúdio de uma emissora de TV e eu, como diretor de uma associação de bairro, contestava as informações e opiniões emitidas pelo entrevistado. Dias depois o contrato de patrocínio do Programa foi rompido.

No ar explicamos o ocorrido aos ouvintes, mas lembramos que a verba publicitária do governo é paga com recursos dos impostos do cidadão, não pode ser usada para interesse político do mandatário de plantão.

A recente divulgação, pela Folha de S. Paulo, dos números da verba publicitária das estatais, de 2000 a 2013, é esclarecedora. Não só pelo fato do governo do PT seguir a lógica do mercado e privilegiar – como fizeram os tucanos e outros – as grandes redes de TV e Rádio na destinação de recursos da publicidade de empresas estatais. Mas também pelo financiamento de portais que se dizem “alternativos”, por empresas estatais, se bem que em montantes bem inferiores.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República só divulgou os dados por uma decisão do STJ, a partir de uma ação movida pela Folha de SP e de Fernando Rodrigues, jornalista da UOL (Grupo Folha).

Em treze anos os governos gastaram cerca de R$ 16 bilhões com propaganda. Só em 2013 foram R$ 2,3 bilhões, dos quais 64% vieram de empresas estatais e o restante pela Presidência e ministérios. A turma do Partido da Imprensa Golpista foi a que mais se beneficiou da distribuição de recursos de publicidade governamental neste período. O Sistema Globo abocanhou R$ 4,2 bilhões, seguido da Record com R$ 1,3 bilhão, do SBT (R$ 1,17 bilhão) e do Grupo Bandeirantes, com R$ 1 bilhão.

Mas é bom que se diga que publicações tidas como “alternativas” e de esquerda, como a revista Carta Capital e alguns sítios na Internet também tiveram seu quinhão da verba publicitária dos governos do PT. Carta Capital, por exemplo, arrecadou R$ 44 milhões, enquanto Caros Amigos recebeu R$ 4,7 milhões.  Na internet o sítio de Luis Nassif faturou R$ 5,2 milhões e o de Paulo Henrique Amorim recebeu R$ 2,6 milhões. Já o sítio Brasil 247 ficou com R$ 1,7 milhão (desde 2011).

Carta maior faturou R$ 9,1 milhões nos últimos dez anos. O Opera Mundi teve R$ 2 milhões e recursos oficiais e a revista Fórum recebeu R$ 1,7 milhão no mesmo período.

Ser de esquerda não é ser adepto da pobreza, do improviso e do simplório. Mas é no mínimo suspeito um jornalismo que se apresenta como “alternativo” à grande mídia e se sustenta de verba oficial. Dá para entender porque alguns coleguinhas de profissão deixaram de exercer o jornalismo e partiram para advogar abertamente em favor dos governos do PT. É o que chamo de Partido da Imprensa Governista.

Da minha parte ainda prefiro a velha frase do Marquês de Itararé (pseudônimo de Aparício Torelli), depois reavivada por Millor Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.

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Sob uma narrativa cômica o filme Relatos Selvagens, co-produção espano-argentina, leva o espectador  a uma boa reflexão sobre a loucura contemporânea. Com o pano de fundo da sociedade argentina, as seis histórias mostram, com bom humor e dramaticidade, saídas extremadas para situações que parecem insolúveis, dentro da pretensa racionalidade da legalidade democrática em que vivemos.

Que saída teria um músico frustrado, rejeitado na academia, obrigado a seguir carreira como comissário de bordo, pode dar para sua vida quando todas as pessoas à sua volta lhe negaram qualquer possibilidade de conquistar o sonho?

Como um pobretão do interior, com seu carro velho, e um homem de classe média alta, com seu carrão importado, expressam frustrações e preconceitos quando se veem frente a frente numa rodovia de pouca circulação?

Que solução uma garçonete de restaurante de beira de estrada pode encontrar quando dá de cara, dentro de seu local de trabalho, com o sujeito mafioso que provocou o suicídio de seu pai e deu em cima de sua mãe?

Como um cidadão pacato e trabalhador, consciente de seus direitos, pode encontrar resposta para a extorsão legalizada, quando é multado e tem seu carro rebocado, mesmo quando estava estacionado em espaço sem qualquer sinalização?

De que forma um pai rico e uma mãe permissiva podem abafar um crime cometido por um filho mimado? E o que dizer de uma noiva desesperada que descobre a traição do marido em plena festa de casamento?

Relatos Selvagens traz episódios com desfechos inusitados, em que todos os sentimentos humanos são levados ao extremo, em experiências e situações que podem ocorrer a qualquer hora a qualquer cidadão comum. É cômico e ao mesmo tempo trágico. Sem dúvida, um dos grandes filmes do ano. Mais um com a participação do grande Ricardo Darin.

Não fossem os compromissos que amarram partidos e políticos ao poder, a Presidente Dilma poderia brindar os brasileiros com uma medida concreta neste final de ano: solicitar a todos os dirigentes da Petrobras, inclusive Graça Foster, que peçam seus bonés e vão cantar em outras freguesias.

Do contrário, o petrolão vai sangrar ainda por muito tempo no colo de Dilma e deve entrar por seu segundo mandato. Ocorre que o rabo preso da Presidente e seu partido parece grande, até porque ela mesma pertenceu ao Conselho da estatal.

Em breve vão aparecer os nomes dos senhores deputados, senadores, governadores e ministros que se beneficiaram dos esquemas de corrupção dentro da Petrobras. E quando isso vier a público vai ser difícil evitar uma grave crise política. Então será a hora de Dilma confirmar se “não vai restar pedra sobre pedra” ou se os envolvidos – do governo e da oposição – vão se unir e colocar panos quentes.

Muitos atribuem a queda do valor das ações da Petrobras ao escândalo do Petrolão. Na verdade o que joga não só os papéis da Petrobrás, como de todas as petroleiras para baixo nesse momento, é a queda vertiginosa do valor do barril do petróleo no mercado internacional, hoje negociado em torno de 40 dólares.

Espera-se que o escândalo do petrolão sirva pelo menos para que o governo apresente formalmente a proposta de reforma política, encerrando de uma vez por todas com o financiamento privado de campanhas eleitorais e outras mamatas.

Para dar jeito na gestão das estatais e órgãos públicos basta aplicar o binômio “Democracia e Transparência”. Assim, não haveria mais dirigentes indicados por partidos políticos, mas eleitos pelos servidores. Os planos e projetos seriam aprovados em congressos internos, com a participação das organizações democráticas da sociedade, e os conselhos diretores teriam o acompanhamento da sociedade civil.

Não é por acaso que entre as conclusões do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), seja recomendada a desmilitarização das polícias militares estaduais. Esta excrescência, que perdura até os nossos dias, foi criada pela ditadura para incorporar a polícia a uma formação militar, subordinada àquele regime e totalmente apartada da premissa básica de atuar para a segurança do cidadão.

Várias das recomendações do relatório, por sinal, dizem respeito ao arcabouço jurídico da ditadura, que prevaleceu na Constituição de 1988 e permanecem em vigor e intactos, como o auto de resistência à prisão (alegada até hoje em incursões policiais em favelas), a possibilidade de civis serem julgados pela Justiça Militar e a Lei de Segurança Nacional.

No texto final do relatório a própria CNV reconhece que o número de assassinados e desaparecidos durante a ditadura é bem maior do que os 434 casos relatados pela Comissão, o que prova que ainda há muito a investigar. O número de 377 mandantes e torturadores envolvidos nos crimes de tortura, seqüestro e assassinato também pode ser bem superior, já que as Forças Armadas se recusaram a contribuir com as investigações, o que já constitui uma atitude suspeita.

De acordo com o documento, cerca de 300 militares brasileiros foram enviados à Escola de Formação do Panamá, onde receberam treinamento de tortura e outras práticas de investigação com especialistas da CIA. Foi assim que a ditadura militar brasileira, que sequestrou e torturou cerca de 20 mil pessoas, criou know how e exportou conhecimento para seus pares dos países do Cone Sul, no que ficou conhecido como Operação Condor.

Aliás, a CIA parece manter até hoje as velhas práticas com técnicas cada vez mais sofisticadas. É o que apontam as conclusões de uma Comissão do Senado dos EUA, relatando a situação de 119 prisioneiros do governo norte-americano, interrogados, torturados e presos em centros de detenção das Forças Armadas em cinco países estrangeiros, durante o governo Bush.

Em 2010 o Supremo Tribunal Federal brasileiro negou provimento a uma ação da OAB do Rio e reafirmou a constitucionalidade da Lei de Anistia, de 1979. No entanto, as revelações da CNV dão consistência às práticas de crimes contra a humanidade, considerados inafiançáveis e imprescritíveis pela Corte Interamericana de Justiça e outros organismos internacionais. Assim, a Lei de Anistia não se aplicaria aos agentes do Estado que praticaram violações dos direitos humanos.

A principal lacuna nas investigações vem justamente da Presidência da República. Não basta a presidente Dilma chorar e declara sua solidariedade aos parentes e familiares dos mortos e desaparecidos. Caberia a ela, mandatária da Nação e chefe das Forças Armadas, determinar que o comando maior das três armas colaborasse ativamente com o trabalho da Comissão, sob pena de afastamento de seus ministros militares. E mais: em vez de aceitar como coisa dada a aplicação da Lei da Anistia a mandantes, torturadores e assassinos, defender publicamente a apuração, julgamento e punição de todos.

Não se trata, em absoluto, de um acerto de contas, uma vingança. É determinante que a violência de Estado seja banida do cotidiano dos brasileiros de milhões de brasileiros, vítimas que são até hoje das incursões policiais, violações de seus lares, tortura, fuzilamentos e “balas perdidas”.

É essa estrutura militarizada das PM que está por trás de grande parte dos cerca de 50 mil homicídios que ocorrem todos os anos no país, a maioria sem investigação e sem solução, sobretudo contra a juventude negra e pobre das periferias e favelas. É essa barbárie praticada pelo Estado brasileiro, que primeiro foi aplicada contra negros e indígenas, depois contra quaisquer adversários dos regimes autoritários e hoje grassa nas comunidades pobres, que precisa ser encerrada de uma vez por todas. E para isso é fundamental que todos os responsáveis por esses crimes sejam julgados e condenados.

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No ano que se encerra completei 30 anos de profissão. O jornalismo não daria mesmo dinheiro, como profetizou meu velho e bom pai, mas me proporcionaria algumas passagens inesquecíveis.

Comecei minha carreira ainda como estagiário na Feema (no tempo do velho Chagas Freitas), cuja assessoria de imprensa reunia uma turma de velhos profissionais, entre eles Roberto Amaral, que pouco víamos na ocasião, mas que até recentemente era presidente do PSB. Lembro do Bagrinho – que volta e meia dava uns pegas na secretária, em pleno horário de expediente – e a Sônia, que logo depois assumiu a chefia, por conta de sua participação ativa na campanha do Brizola.

Na Escola de Comunicação da UFRJ o professor que me fez compreender o jornalismo como algo concreto e necessário para a sociedade foi, sem dúvida, o jornalista Nilson Lage. “Desconfie sempre das fontes oficiais”, repetia o mestre. Foi com base em seu livro, Ideologia e Técnica da Notícia, que pude entender a materialidade do jornalismo, em oposição ao subjetivismo que imperava a época, quando ninguém sabia ao certo para que servia o curso de Comunicação, propositalmente misturado com a publicidade num currículo confuso.

Outro que me influenciou, se bem que não cheguei a ser seu aluno, foi o jornalista Maurício Azedo. Nas poucas vezes em que o vi e ouvi – em reuniões, debates e palestras – percebi em seu entusiasmo a importância do jornalismo como instrumento de denúncia das mazelas da sociedade. Tenho a honra de guardar a carta assinada por Azedo, já como Presidente da ABI, elogiando uma das edições especiais do Jornal da ASSIBGE-SN.

No Rádio era fã de carteirinha do grande Adelson Alves, “O amigo da madrugada”, dando aulas de cultura brasileira, sempre apresentando músicos, poetas e discutindo temas e curiosidades das diversas regiões do país. Ainda como aprendiz, emprestei meus parcos conhecimentos para algumas edições do Jornal O Bondinho, da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (RJ), da qual fui diretor por alguns mandatos.

Assim que conclui o curso da Escola de Comunicação da UFRJ (1983), louco para trabalhar, aceitei o desafio de me transferir para Angra dos Reis. Lá trabalharia no Jornal Maré (semanal) e na Rádio Angra AM, ambos do mesmo proprietário. Era puxado, porque saía do jornal no final da tarde e emendava na Rádio, para exercer a função de redator até às 22h. Comigo o estava o colega José Figueiredo, que hoje trabalha em O Globo.

Depois de voltar ao Rio e trabalhar por alguns meses nas revistas Portos e Navios e Navegação, com Chico Sertão e meu grande amigo Nelson Moreira (hoje em O Dia), fui convidado por Jessie Jane para mudar de ares e me transferi para Volta Redonda. Lá me esperava o Sindicato dos Metalúrgicos, entidade sindical mais forte da Região Sul Fluminense.

Em 86 seu presidente, o falecido Juarez Antunes, fora eleito deputado federal Constituinte. Cheguei ainda no auge da campanha eleitoral e, aos poucos, fui compreendendo que a Cidade do Aço respirava luta de classes em cada esquina. O Sindicato era mais importante até que a Prefeitura e todas as lutas sociais desembocavam por lá.

Para quem tem formação familiar de esquerda e militava nas fileiras de um grupo revolucionário, não havia desafio profissional mais interessante: era unir o útil ao agradável. E mesmo sem ter conversado uma só vez com o “baleia” (apelido do Juarez), encontrei nos seus escritos inspiração para uma nova fase na minha carreira. Redigia, editava e muitas vezes ajudava a distribuir os boletins, para sentir a receptividade do material junto à peãozada.

Tinha que escrever pouco, usar mais substantivos que adjetivos, evitar frases e parágrafos longos. Aquele era o segredo para conseguir que milhares de operários, entrando e saindo apressados da Usina Presidente Vargas (CSN) todos os dias, se interessassem e lessem o boletim do Sindicato. Além disso, ainda editava sozinho o Jornal A Verdade, também do Sindicato.

Foi ali que fiz a opção pela imprensa sindical. De volta ao Rio, depois de dois anos em Volta Redonda, fiz alguns trabalhos para a Fassinpas (Associação de servidores da Previdência que daria origem ao atual Sindsprev/RJ) e materiais diversos para oposições sindicais, entre eles, “O Dia do Leão”, para a Chapa 6, da oposição rodoviária.

Era uma cópia fiel de O Dia de então, jornal popular mais lido pelos rodoviários, só que com matérias dirigidas ao “leão”, como o rodoviário se identificava na época. A Chapa 6 não venceu, foi surrupiada em um processo eleitoral fraudulento comandado pelos pelegos, mas o falecido ex-presidente do sindicato, Luis Martins, certamente não esqueceu daqueles jornais.

Logo depois fui convidado para trabalhar na ASSIBGE, onde permaneci até 1990, quando me transferi para São Paulo. Na CUT Grande São Paulo, um reduto da esquerda na Central que já sucumbia aos ditames dos novos pelegos do PT, fiz parceria com Vitto Gianotti, velho militante da Oposição Metalúrgica .

Gianotti era e continua a ser um entusiasta da imprensa operária e me deu oportunidade de redigir e editar os jornais da campanha do “Fora Collor”, que a CUT Nacional não queria assumir. Foram algumas edições de 50 a 100 mil exemplares, distribuídos pela militância da CUT Regional pela cidade.

Em São Paulo ainda trabalhei alguns meses no Sindicato dos Químicos de Osasco e Região. Mas quando cheguei o clima já estava azedado entre a direção do Sindicato e os funcionários. Fiquei do lado mais fraco e, depois de uma greve de algumas semanas, decidi que não havia clima para seguir trabalhando ali.

De volta ao Rio, gramei com pequenos trabalhos até que, no final de 99, o grupo de oposição para o qual eu redigia boletins e jornais, venceu a eleição para a direção da ASSIBGE-SN. Aos trancos e barrancos desde então permaneço por lá. Faço de tudo um pouco: assessoria de imprensa, redação e edição de boletins, jornais e, recentemente, até fotografia.

Em 96 ajudei a montar o projeto de um programa de rádio, que seria inicialmente bancado pelo Sindsprev/RJ. Foram uns seis meses sem receber um tostão, fazendo o Programa Boca Livre, na Rádio Bandeirantes AM, com o meu grande amigo e radialista Luis Antônio Bap.

Aprendi muito com o Bap, com quem trabalhei no Rádio por 17 anos, primeiro na Band e depois na Tropical AM. “Comunicar é tornar comum”, repetia sempre. Uma experiência inesquecível com um programa independente, democrático e que debatia a fundo qualquer assunto: do futebol à novela, da política internacional à literatura. Tudo num tom descontraído, mas sempre profissional.

Hoje, com 54 anos de vida e 30 de profissão, reconheço que o velho Frank Acker tinha razão, quando dizia que eu não ganharia dinheiro. Mas, como ele sabiamente também dizia, a gente tem que fazer o que gosta, e por isso não tenho do que me queixar. Se já não estou no Rádio, pelo menos ainda resta o Blog.

Da infância e da juventude lembro do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil, que chegavam todos os dias lá em casa e me incentivaram o gosto pelos jornais diários. Era muito bom decifrar a coluna do Castello e ler os artigos do Oldemário Touguinhó, especialista em esportes. Das histórias em quadrinhos preferia as do repórter Tintin, do belga Hergé, certamente a minha primeira inspiração profissional.

Nos tempos de Universidade tive o prazer de conviver com vários colegas, que hoje são grandes profissionais, entre eles Nelson Moreira (O Dia); Chico Otávio, Carter Anderson e José Figueiredo (O Globo); Liana Mello e Heloísa Villela (TV Record). Do convívio profissional não posso esquecer Luis Antônio Bap e Lindinor Laranjeira, meus companheiros no Rádio, além do meu amigo e parceiro arte-finalista Juarez Quirino.

Apesar dos pesares, ainda vale à pena ler os artigos inteligentes do Arnaldo Bloch (aos sábados, no segundo Caderno de O Globo) e assistir às belas reportagens coordenadas pelo grande Caco Barcellos, no programa Profissão Repórter.

O escândalo da Petrobras, envolvendo as principais empreiteiras do país, lavagem de dinheiro e financiamento de campanhas de partidos e políticos de diversas legendas, pode gerar duas saídas:

1) uma crise política que fragilize e ameace o segundo mandado de Dilma Rousseff, acompanhado de uma abertura do mercado da construção civil no Brasil a empresas estrangeiras;

2) uma reforma política que ponha fim ao financiamento privado de campanhas eleitorais e uma reforma completa na gestão de empresas estatais e serviços públicos.

A primeira é a solução preferida dos conservadores. Em torno dela está agrupado todo tipo de gente reacionária, com um discurso moralista, visando criar o caos político e propor a interrupção do mandato de Dilma. A ela estão vinculados os porta-vozes da direita e boa parte da grande mídia empresarial.

A segunda pode unir os trabalhadores e a maioria do povo brasileiro, em torno de soluções que vão à raíz da corrupção. O escândalo do petrolão deve servir como exemplo para que se acabe, de uma vez por todas, a promiscuidade entre partidos, candidatos e grandes empresas, sempre beneficiadas pelo Estado brasileiro.

Cabe aos sindicatos e movimentos populares estimular uma saída política que interrompa a sangria de recursos públicos, propondo como resposta a democratização e a transparência na gestão de empresas estatais e órgãos públicos.

É preciso que estatais e serviços públicos passem a ser administradas com metas debatidas com a sociedade e seus funcionários. Essas metas devem ser conduzidas de forma transparente por dirigentes eleitos pelos próprios servidores.

Desta forma será possível acabar com as nomeações de cabos eleitorais de parlamentares e partidos para os postos chefes do aparelho de Estado. Ao mesmo tempo, será possível oferecer ao povo brasileiro serviços públicos de qualidade em todos os ramos.

Como botafoguense que sou, não posso me eximir de comentar a sucessão de erros que levou à queda do clube para a segunda divisão do futebol brasileiro em 2015. Como um clube de tanta tradição consegue sair do topo para o fundo do poço?

Tudo começou em 2013. Com um elenco bem formado, sob o comando de um treinador experiente e um craque como Seedorf, o time venceu os dois turnos do campeonato carioca e se sagrou campeão do Rio pela vigésima vez.

Mas o jogo que marcou a conquista foi em Volta Redonda. Por que? Porque semanas antes o Botafogo perdera o Engenhão, a partir de uma medida muito mal explicada pela Prefeitura. Diante de um laudo emitido pela mesma empresa que fizera a cobertura da reforma do Maracanã, o senhor Paes foi a público anunciar a interdição do Engenhão, sob a alegação de que um vento de mais 60 km por hora poderia derrubar a cobertura do estádio.

O curioso é que semanas depois encerraria o prazo para que o consórcio que administra o Maracanã fechasse os contratos necessários com pelo menos dois grandes clubes do Rio, exigência para confirmar a administração daquele estádio pelo grupo privado. Coincidência?

E o Presidente do Botafogo? O que fez? Nada, absolutamente nada! Não deu um pio, sequer para questionar o laudo. Afinal, o senhor Assunção já estava filiado ao PMDB, partido ao qual pertencem o prefeito e o governador do Rio. À boca pequena comenta-se que o Botafogo teria um contrato prestes a assinar com uma grande montadora de automóveis, que renderia ao clube cerca de R$ 30 milhões.

Assim mesmo, com a força do elenco, o time ia bem no Campeonato Brasileiro, mas repentinamente começou a se desfazer de jogadores. Lutando contra os atrasos de salários a equipe ainda conquistou, com muito esforço, uma das vagas para a Libertadores das Américas. Estranhamente a direção não renovou o contrato com o treinador vitorioso e o elenco foi completamente desfeito do final de 2013 para o início de 2014.

Veio o ano de 2014 e a diretoria anunciou o novo comandante da equipe, que teria a responsabilidade de disputar o mais importante torneio das Américas, do qual o clube não participava fazia 18 anos. O cidadão não passava de um auxiliar-técnico das divisões de base, totalmente desconhecido e despreparado para enfrentar o desafio. Uma série de barangas foi contratada ao longo da temporada, entre elas Carlos Alberto trancinha, o maior chinelinho do futebol brasileiro.

Resultado: a pior colocação da história do clube num campeonato estadual e a desclassificação ainda na fase de grupos da Taça Libertadores. O aprendiz de treinador voltou para o lugar de onde veio e um novo técnico assumiu. No início do segundo semestre, logo após a Copa do Mundo, o Botafogo tinha um amistoso comemorativo de 100 anos de seu homônimo da Paraíba. Os jogadores se recusaram a viajar e o jogo foi cancelado. Motivo: atraso no pagamento dos salários do elenco.

O até então Presidente insistia nos meios de comunicação que se tratava de um problema contornável e que acertaria tudo com os jogadores. Prometeu várias vezes até que se desmoralizou com o grupo. Um novo diretor de futebol foi contratado, o ex-atleta do clube, Wilson Gotardo. O novo cartola ainda teve o crédito de confiança do grupo, mas enfrentou diversos problemas e o desgaste natural de quem lida com crises.

Mais tarde soube-se que o motivo dos atrasos salariais era que todas as fontes de renda do clube estavam penhoradas, porque a direção não havia honrado o termo de acordo judicial de pagamento parcelado das dívidas trabalhistas com ex-funcionários, ex-atletas e ex-treinadores. Por iniciativa de ex-dirigentes um grupo de empresários aceitou fazer uma vaquinha para ajudar no pagamento dos salários.

Jogos do Campeonato Brasileiro foram vendidos a grupos privados, que levavam as partidas para estádios em outros estados. A torcida cada vez mais afastada e descrente viu o melancólico elenco, ainda reforçado com Scheik e Ramirez (sem vagas no Corínthians), desabar para a zona de rebaixamento, onde permaneceu até o final da competição.

Descontente com a reação dos jogadores, que ao menos revelaram ter dignidade e cobraram seus direitos, o ex-Presidente esperou um dos tantos momentos de desequilíbrio do grupo na competição para afastar quatro dos melhores e mais experientes atletas, coincidentemente algumas das lideranças do elenco.

A atitude só serviu para quebrar de vez o time e confirmar a visão mesquinha, tacanha e autoritária do cartola, até então endeusado por parte da mídia esportiva. Mais adiante foi revelado que a família do senhor Assunção recebia 5% da verba do patrocinador do clube que ele presidia.

Ao final de 2014 o grande Botafogo de Futebol e Regatas está reduzido a cinzas, com uma dívida calculada em R$ 700 milhões. Uma nova diretoria foi eleita. Dela o único nome conhecido e que parece sério é o de Carlos Alberto Torres, o capita do Tri de 1970, no México.

Se insistir na velha receita de coalhar o elenco de jogadores cafetinados por empresários do futebol, o Botafogo corre o risco de repetir o vexame deste ano em 2015 e nem retornar à primeira divisão. Se optar por outro modelo, que dê valor aos jogadores revelados nas divisões de base do clube e contratar alguns bons jogadores para as posições certas, o Botafogo pode gastar menos e conseguir melhores resultados.

Espero que em 2015, como já o fez em outras ocasiões, o clube da estrela solitária supere a mediocridade, renasça das cinzas e possa dar alegrias à sua enorme torcida em todo o Brasil. E digam o que disserem, mais uma vez os apaixonados alvinegros de todo o país vão continuar seguindo seu clube, esteja ele onde estiver.

O Botafogo de Futebol e Regatas está entre os 12 maiores clubes do mundo do século XX, pelo ranking da FIFA. É também o clube que mais cedeu jogadores para as seleções brasileiras que disputaram competições oficiais. O BFR é detentor de dois títulos nacionais, quatro torneios Rio-S. Paulo, 20 títulos estaduais e da Copa Comembol (atual Sul Americana). Além disso, o BFR é um clube de enorme tradição no Remo, no Basquete, no Volei, Natação, Polo Aquático e Atletismo, de onde saíram grandes nomes do esporte nacional como Bebeto de Freitas, Bernard e Bernardinho, Silvio Fiolo, dentre tantos outros.