Estranho a reação da maioria da esquerda brasileira diante das mobilizações e protestos de policiais militares. Uma parte condena e outra se omite, poucos se dignam a apoiar o movimento. Ora, em que sentido a defesa de reivindicações mais do que justas, como melhores salários, pagamento de salários e gratificações atrasadas, pode alterar a convicção de que é preciso desmilitarizar a Polícia?

Por que não se pode apoiar e ser solidário aos policiais e seus familiares, justamente quando se enfrentam com governos estaduais e o próprio governo Temer? Isso impede o debate sobre o fim da estrutura militar, a necessidade de uma policial civil técnica, subordinada a regras e controles democráticos?

O fato concreto é que essas mobilizações (sobretudo no E. Santo e Rio), capitaneadas pelas esposas e parentes dos policiais, demonstram a insatisfação de boa parte da tropa com a política de segurança pública dos governantes e com o oficialato. Agora já se espalha o boato de que uma parcela dos homicídios cometidos no E. Santo, durante os dias de mobilização da PM, teriam sido cometidos por grupos de extermínio formados por policiais.

Outra forma de atacar o movimento é dizer que os mesmos policiais militares que não estão em serviço nas ruas, aproveitam a paralisação para fazer bicos em empresas de segurança privada. Se quisessem acabar com essas empresas os governantes não tolerariam e nem legalizariam o “bico”. Mas as classes dominantes não podem passar sem a segurança privada e preferem incentivá-la que oferecer condições dignas aos PM. Ao contrário, oferecem o “bico” como solução, mantendo os policiais ainda mais reféns desta estrutura perversa.

Isso é típico da covardia mais vil das classes dominantes. Quando é para fazer o trabalho sujo usa a PM como capatazia para qualquer serviço, inclusive reprimir greves e manifestações populares, mas quando os policiais decidem se insurgir contra baixos salários e péssimas condições de trabalho, investem na criminalização da tropa junto à sociedade.

A maior demonstração disso é a tentativa de impedir que o movimento se alastre a outros estados, através do envio de um Projeto de Lei ao Congresso Nacional, que visa “regulamentar” greves nos “setores essenciais” e criminalizar qualquer movimento dos policiais.

Há quem acredite que a luta dos PMs e seus familiares prejudica mais a população pobre. Trata-se de um argumento frágil, porque os trabalhadores e suas famílias vivem em seu cotidiano nas favelas e periferias entre a repressão policial e da bandidagem.

Fui, sou e sempre serei um crítico contundente da militarização da polícia. Sempre que debato o tema defendo (como indica que é a vontade da maioria dos policiais em inúmeras pesquisas) o fim da Polícia Militar, a formação de uma única polícia civil, profissional, com formação superior, bem remunerada e treinada, voltada ao combate de crimes comuns.

Cansei de denunciar no rádio e em inúmeros artigos as barbaridades da violência e da corrupção policial, sobretudo das polícias militares nas áreas de favelas e periferias. Os maiores adversários dessas posições são os porta-vozes das elites, que confundem isso propositalmente com a defesa dos bandidos e dos direitos humanos acima da lei.

E agora? Onde estão os defensores dos “justiceiros” fardados? Estão do lado dos governantes reacionários, como Temer, Raul Jungmann, Paulo Hartung e Pezão. A eles se somam os responsáveis maiores pela grande rede de corrupção que impera nas PM: parte dos comandantes e do oficialato, que complementam sua renda com o “arrego” de traficantes e motoristas.

Alguns fazem vistas grossas e até tem interesses na formação de grupos de milicianos, nova modalidade de exploração das populações das favelas. São eles os sócios de empresas privadas (quase sempre em nome de familiares) de segurança, das empresas de reboque, de outras que prestam serviços nos quartéis e que vivem do achaque da população e da bandidagem (arrego) e da corrupção.

É evidente que as polícias são estruturas e corpos especiais de repressão do Estado burguês, como bem frisou V. Lenin em seu “O Estado e a Revolução”. Mas isso não impede que até mesmo dentro das polícias surjam contradições com governantes e suas políticas reacionárias. No entanto, é preciso observar que, diferentemente da época em que os policiais eram recrutados sem critérios objetivos, hoje eles são servidores públicos concursados.

Os baixos salários, as más condições de trabalho e o atraso de pagamentos têm a ver com a política econômica recessiva do governo, o arrocho salarial que atinge a todo o funcionalismo público e a corrupção reinante dentro e fora dos quartéis.

Obs: Incluo no rol de esquemas de corrupção que envolve setores da PM os acordos com o jogo do bicho e a exploração de caça níqueis.

O movimento dos policiais militares do Espírito Santo gera insegurança e uma polêmica grande em torno da política de segurança pública. São sete anos de salários congelados, o menor de todo o país. Só se fala do número alarmante de homicídios durante os dias do movimento, mas pouco se discute as reivindicações dos policiais.

Um setor da mídia empresarial tende a amenizar as consequências da paralisação, reforçada pelos parentes dos policiais, tratando a questão com cautela. Evidentemente esta posição procura jogar tudo nas costas dos grevistas, deixando de lado qualquer crítica política ao governo do ex-tucano e atual pmdbista, senhor Hartung.

De outro lado, um setor mais conservador da sociedade aproveita o conflito para apostar no pânico e na lógica de que o país necessita mais ainda de uma força policial militarizada. Para isso, divulga dados exagerados e não confirmados sobre o número de homicídios ocorridos durante o movimento, associando esta situação a boatos e ao caos.

É evidente que todo tipo de delito tende a crescer numa situação destas, inclusive os homicídios. Afinal, a ausência de uma força policial nas ruas torna mais fácil a atuação da bandidagem. Mesmo os conflitos entre familiares e vizinhos, os acertos de contas, tendem a crescer nessas circunstancias. Até mesmo os saques e quebra-quebras são comuns nestas condições.

A depender da forma de abordagem da situação ela pode gerar pânico e a sensação de que a solução seria aumentar a militarização da sociedade, agregando forças militares e até uma guarda municipal armada ao patrulhamento cotidiano das ruas.

Ao contrário deste discurso histriônico, poucos países adotam o modelo da policia militarizada semelhante ao do Brasil. Aqui chegamos ao absurdo de termos duas polícias, uma civil (voltada para a investigação e judicialização) e outra militar (voltada para a repressão ao crime e aos conflitos sociais).

Enquanto houver sociedade dividida em classes, a classe dominante apelará sempre à força organizada do Estado para manter o status quo. E a polícia, como corpo especial de repressão, tem papel fundamental nisso. Por sua vez, a ausência de uma força policial gera as condições para que a criminalidade aja de maneira mais extrema.

Isso não significa que a solução é uma polícia militarizada, ainda mais armada, com carta branca para planejar e agir da forma que bem quiser, de acordo com seus comandantes militares, com uma justiça própria e estrutura verticalizada.

A experiência brasileira vem demonstrando que a militarização da polícia torna seu controle social inexistente. Isso se acentuou ainda mais durante a ditadura militar, quando as PM foram usadas como tropas auxiliares de repressão aos grupos de oposição ao regime.

Com o fim da ditadura, as PM – assim como as Forças Armadas – permaneceram intactas, com a mesma filosofia de repressão ostensiva, só que voltada para a repressão generalizada contra, sobretudo como instrumento de contenção nas periferias e favelas, regiões onde a presença do Estado é praticamente nula.

A PM age de acordo com seus princípios e não presta satisfação de suas ações, inclusive os crimes praticados contra a população civil e a corrupção de seus comandantes e da própria tropa. O número de homicídios praticados por policiais militares e a quantidade de delitos envolvendo policiais é assustador, a ponto da ONU recomendar o fim da polícia militarizada no Brasil.

A crise da PM do Espirito Santo só fortalece a necessidade de um debate profundo sobre qual é a segurança pública que queremos. O fim da polícia militarizada não é o mesmo que o fim de qualquer polícia. Ela pressupõe a existência de uma polícia bem formada, investigativa e bem remunerada, instrumento eficaz no combate à criminalidade organizada.

O país terá que escolher se prefere manter uma polícia semelhante à velha capatazia a serviço das classes dominantes, dos tempos da colônia e do Império, ou se quer uma polícia técnica e preparada para uma política de segurança inteligente.

Ligo a TV num dia de semana entre 19:30h e 23h, no canal a cabo de notícias das Organizações Globo. Assisto a um programa que deveria se pautar pela apresentação e debate dos assuntos mais importantes do dia. No entanto, o que se passa? Três abobalhados, comandados por um pateta, passando receitas e impressões imprecisas sobre assuntos da maior importância, como se o telespectador fosse um idiota, incapaz de identificar as alucinações dos comentaristas. Um deles chega a recitar poema de um autor norte-americano que ele mesmo traduziu.

Segue-se um programa sobre aplicações financeiras e as reações do “mercado” às decisões econômicas adotadas no Brasil e no Mundo. Fico pensando: quem assiste a isso? Mais tarde vem o jornal da emissora, no qual outra equipe de comentaristas se reúne para aliviar Temer, tricotar suposições e dar palpites sobre os próximos passos a serem dados pelo Planalto, em meio aos escândalos apurados pela Operação Lava-Jato. Em dois minutos qualquer um percebe que a linha editorial visa rolar macio quando e trata do governo e crucificar as oposições.

Ora, o que há de jornalismo nisso? Muito pouco. E é justamente por isso que se entende a crise do jornalismo. Mas de qual jornalismo? Os fatos estão aí, ocorrendo em todos os lugares mundo afora. As ferramentas para captá-los estão cada vez mais ágeis. As técnicas de apuração, redação e edição continuam válidas, atuais, no que tange à construção de matérias. Aliás, a palavra “matéria” dá bem o sentido do objeto do jornalismo. Hoje, com uma câmera de celular se pode filmar e difundir um acontecimento da maior importância quase que instantaneamente.

O que está em crise é o jornalismo empresarial, aquele em que a própria empresa de comunicação confunde propositalmente os seus interesses com os da sociedade, como se fossem um só, de maneira a obter vantagens.

Ou seja, prevalece uma linha editorial/empresarial do veículo ou do grupo ao qual o veículo de comunicação pertence, o que não seria novidade, visto que se trata de empresas privadas. Mas agora não há nem a tentativa de dar um tom de neutralidade na abordagem das matérias, para não falar dos comentaristas escolhidos a dedo (os tais “especialistas”) para emitir opiniões, quase sempre coincidentes com a linha editorial da empresa.

A aparência continua sendo de trabalho jornalístico, mas as técnicas de edição, o tom de voz de repórteres e apresentadores, o viés dos comentários fortalece sempre o ponto de vista adotado de dentro das redações para fora. Ou seja, os fatos servem apenas para comprovar ou ilustrar as teses empresariais e políticas adotadas pelas empresas de comunicação, seus dirigentes e vassalos.

E o que resta aos profissionais de imprensa que trabalham nestas empresas? Aos mais conscientes lamentar e, provavelmente, buscar refúgio em atividades extras. Há também os que preferem adotar o tom cínico, sempre alegando que trabalham ali porque precisam sobreviver. E há os que embarcam na política da empresa para construírem suas carreiras.

O jornalismo empresarial brasileiro do século XXI mudou sua forma de observar e publicar as matérias em relação ao dos anos 60 a 90 do século XX. Antes o jornalista era um intelectual de classe média baixa, suburbano, boêmio, geralmente um desses malucos que gostavam de ler e escrever, que aprendiam a profissão catando milho e encaixando seus textos nos espaços das páginas dos jornais. Sua vivência era nos botequins, tomando café nos balcões dos bares, conversando fiado e observando os assuntos do dia nos comentários dos populares. Ali, nas esquinas das grandes cidades, nas subidas dos morros, nas estações de trem e pontos de ônibus fervilhavam as fontes para as pautas do dia, que seriam discutidas mais tarde nas redações, gerando as matérias do dia seguinte.

O jornalismo feito a partir da observância dos fatos do cotidiano tinha papel muito mais relevante que as opiniões emitidas em editoriais, que refletem apenas as preocupações dos seus proprietários. Um jornal vendia nas bancas pelas suas manchetes, a partir de fatos concretos e importantes para os leitores. A exigência de formação acadêmica, através das faculdades de Comunicação, veio a qualificar os profissionais de imprensa. Mas em absoluto significava inverter a lógica da razão de ser do trabalho jornalístico: o fato, a matéria antes da opinião.

Esta inversão (uma espécie de “editorialização” do jornalismo) foi possível graças a certa elitização dos jornalistas, depois que a profissão foi reconhecida e a imagem da TV passou a dar status a uma parte minoritária da categoria. Isso tornou o profissional de imprensa um ser diferente, descolado da realidade concreta das ruas. Seu ambiente natural passou a ser os bairros de classe média alta e os espaços reservados a uma elite da sociedade.

A redução do efetivo profissional, a pretexto da implantação de novas tecnologias, criou redações enxutas, repletas de “sabichões”, yuppies da comunicação, vaidosos e com suas teses sobre tudo e todos. O que cresceu nas empresas de comunicação foi o setor de publicidade e vendas.

Os poucos repórteres de rua só chegam ao fato depois que ele foi comunicado às redações. Poucos procuram os fatos a partir de suas fontes, no máximo são chamados a testemunhar o que acontece. Saem das redações pautados previamente, com perguntas que tendem a extrair dos entrevistados o que seus chefes esperam das matérias. A abordagem é quase sempre superficial, até porque o tempo para apurar e editar três ou quatro matérias por dia é pequeno. Na verdade a maioria das pautas é pensada a partir das ideias que brotam dos aquários das redações, onde ficam as chefias.

O que explica a crise do jornalismo empresarial é a apropriação do jornalismo e sua transformação apenas num grande negócio. No afã de conquistar mercados e anunciantes, as empresas passaram a vender opiniões para a sociedade, mascaradas de jornalismo. Em contrapartida, o mundo real dos simples mortais é cada vez mais feroz, em ritmo alucinante. A juventude manuseia com facilidade as novas tecnologias nas redes sociais e, a seu jeito, aos trancos e barrancos vai “furando” as redações, com suas pautas desconcertantes, baseadas na realidade das pessoas e dos fatos do cotidiano.

Deste confronto de propósitos, abordagens e formas de editar as matérias surge também um conflito objetivo, por vezes levado às vias-de-fato nas ruas. Isso não é novo: desde o final da ditadura carros de emissoras (sobretudo da Globo) eram virados e queimados durante manifestações de massas. O slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” vem da década de oitenta. E muitas vezes o profissional é confundido como agente dos interesses da empresa para a qual trabalha, sofrendo ofensas e até agressões.

Claro está que um jornalismo de opinião nada tem a ver com o jornalismo original (palavra que tem origem italiana em giornale, giorno ou giornata). O dia, a jornada, o jornalista e o jornal são frutos de atividades concretas, vivas, quentes, pulsantes. Isso pressupõe uma cobertura de rua, sempre de olho na realidade social e, por consequência, no conflito, em pequena ou larga escala.

Não se pode prever o que será dos veículos de comunicação, mas a estratégia empresarial de sobrevivência aposta numa simples migração para o meio digital, via Rede Mundial de computadores, com a redução do meio impresso. O Rádio AM e FM é outro veículo que sofre com as mudanças tecnológicas, como se verifica no fechamento de emissoras do Rio.

Seja qual for o meio, o que pode dar novo fôlego e vigor ao jornalismo é a inversão da lógica meramente empresarial e o retorno às ruas, onde os fatos acontecem. E este jornalismo precisa cada vez mais de repórteres, dispostos a ouvir e a apurar atentamente os fatos, as distintas versões e a retratá-los da forma mais fiel possível para os internautas, espectadores, ouvintes ou leitores.