Pecado ou felicidade?

03/05/2016

Se acreditasse no pecado, instrumento da filosofia ocidental judaico-cristã para justificar a punição do ser humano, não poderia acreditar na felicidade. Devo isso à minha formação familiar, já que minha mãe, cristã, jamais impôs a seus filhos qualquer dogma religioso. Por sua vez, meu pai, um ateu meio macumbeiro, tão pouco nos ensinou a temer ninguém.

Pecado é viver da exploração alheia, é apostar na ignorância e no atraso, é roubar, maltratar, torturar, discriminar e delatar. Esses “pecados” não existem por acaso, são frutos de uma ordem econômica, política e social que violenta, diariamente, bilhões de serem humanos.

Por trás deles existe uma ideia que sustenta esse estado injusto de coisas, comumente difundida, de que há seres humanos melhores e outros piores – a maioria – que estão na Terra justamente para “pagar seus pecados”. Esses “pecadores” são os pobres, os favelados, os camponeses, os trabalhadores, os sem-terra, os sem-teto, os menores abandonados, os mendigos, as prostitutas e toda sorte dos que compõem a “gentalha”. Junte-se a isso toda sorte de preconceito.

Essa maioria, confinada nas favelas e periferias, não seria feliz e jamais alcançará a felicidade porque vive em pecado, provocado pela sua própria incapacidade de agir ou reagir à condição a que foi relegada. Às vezes um ou outro supera suas dificuldades e aparece como exemplo de que “quem se empenha conquista um lugar ao sol”.

A essa gente está reservado o mau gosto, os maus modos, a violência, o alcoolismo, as doenças infectocontagiosas e todo tipo de praga que se conhece. Ora, se a maioria de nossa gente vive em pecado, a forma de trata-la é a única que sempre se dispensou ao povo: exploração, violência, ignorância, repressão religiosa, maus-tratos, tortura, discriminação e morte.

Ao contrário das elites brasileiras, o que esse povo demonstra todos os dias, da forma como lhe é possível, é apenas e tão somente a busca da felicidade. E isso está nas mínimas iniciativas, como o soltar pipa, o churrasquinho com os amigos no final de semana, a pelada no campinho de terra, o baile funk na favela, ocupando os espaços que lhe restam.

Ao contrário do discurso dominante, tudo que se produziu até hoje de destaque na sociedade brasileira, tem origem na cultura e no cotidiano de nosso povo. Nas artes, na cultura, nos esportes, na culinária, no lazer, na saúde, na habitação, em tudo a cara de nosso povo está presente.

Se tivessem um mínimo de capacidade autocrítica e de visão solidária de mundo, as classes dominantes brasileiras poderiam dar uma contribuição importante ao país. Mas como estão atreladas à mesquinharia dos que acreditam que podem viver bem por trás de condomínios fechados, continuam sua sina de mandatários dos feitores da senzala.

Preferem investir em cadeia que em escolas de qualidade, em polícia e repressão do que em oportunidades de emprego e salários dignos, em construir palacetes em vez de bairros com saneamento básico, em sonegar impostos e repassar a conta aos consumidores, em abrir contas em paraísos fiscais com dinheiro de corrupção do que aplicar recursos públicos em hospitais e transportes dignos para a população.

Nos dias que vivemos toda uma carga enorme de ódios e preconceitos vêm à tona, por parte de uma parcela das camadas médias. Tudo provocado pelo medo de perder privilégios, coisa que os governos petistas nem pensaram em tocar. Programas sociais de alcance questionável são condenados como se fossem apenas fonte de votos; projetos educacionais limitados são atacados de forma tosca.

Ainda se acredita que as mulheres mais pobres engravidam para ganhar bolsa-família ou que os pobres declaram ser negros para obter vagas para ingressar nas universidades públicas pelo sistema de cotas. Ainda se difunde o mito de que o jovem negro e favelado não quer nada com o batente e prefere queimar maconha que estudar.

Esse “Brazil que não conhece o Brasil” transforma Malafaia, Bolsonaro, Janaína Paschoal, Marco Antonio Villa e até Eduardo Cunha em seus ídolos. Chega-se às raias do absurdo de admitir um governo que, antes mesmo de tomar posse, já anuncia remédios amargos, apenas para interromper o mandato de uma Presidente legitimamente eleita, gostemos dela e de seu projeto ou não.

Para essa turma Lula e Dilma são perigosos comunistas e não há argumento científico que os demova disso. Hoje, parte dos que foram às ruas pelo impeachment já estão envergonhados pelo que pressentem que virá. Amanhã a maioria deles vai sofrer na própria pele as consequências de sua ignorância política e sua mesquinharia.

Espremida entre sua cabeça de rico e sua condição de remediada, a chamada classe média será chamada mais uma vez a dar sua cota de sacrifício, a partir de medidas econômicas e políticas que vão sacrificar ainda mais seus parcos ganhos.

Na contramão deste embate entre os setores mais retrógrados e mais conscientes da sociedade brasileira, a esmagadora maioria de nosso povo se mantem alheia à crise instaurada em Brasília. E provavelmente se manterá assim, até que a crise interrompa até mesmo o churrasquinho de final de semana, o remédio da farmácia popular, o pagode, o baile funk e a pelada com os amigos.

Resta saber se essa gente será capaz e criativa para tomar o destino em suas mãos. A juventude do Rio, São Paulo e Goiás já começou a provar que é possível outro caminho, ocupando, cuidando e gerindo suas escolas, abandonadas pelo poder público. Será que veremos a busca da felicidade superar a repressão do pecado?

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2 Respostas to “Pecado ou felicidade?”

  1. Henriquinho,

    Puta texto, põe uns botões de compartilhamento, meu filho, queremos divulgar seu blog, ajude.

    Beijos, meu camarada,

    Arnobio

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