Sob o risco de cometer erros e omissões em minha análise, tentarei resumir neste texto os aspectos que julgo mais consistentes para entender o Brasil de hoje. Vamos lá:

 

Por que Dilma foi derrubada?

Na certa não foi pelas “pedaladas fiscais”, que Miriam Leitão e Merval Pereira cansaram de invocar para justificar a interrupção do segundo mandato da ex-Presidente. Tampouco foi por ser um governo “comunista”, que enfrentou os poderosos, apesar de algumas medidas compensatórias das administrações petistas, como crédito popular, reajustes do salário mínimo e programas sociais, como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida.

A crise que derrubou Dilma foi gestada também pelo próprio PT, ao alimentar de isenções de impostos e incentivos fiscais os grandes grupos econômicos, que não aplicaram praticamente nada na produção. A pá de cal veio com a nomeação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda, que anunciou uma série de medidas recessivas e manteve elevada a taxa de juros.

Daí em diante a economia, que já não ia bem, foi ladeira abaixo. Os investimentos na produção caíram ainda mais, o desemprego cresceu a um nível que não se via desde o final da década de 90 e o apoio popular ao governo despencou, bombardeado pelas denúncias de corrupção da Operação Lava-Jato e as manifestações da parcela mais reacionária da classe média, apoiadas pela mídia empresarial (Globo e outras).

A perda de apoio popular teve repercussão no Congresso e o Centrão se descolou definitivamente do governo, submetido cada vez mais à chantagem do parlamento. Por sua vez, o “mercado” exigia novas medidas drásticas de contenção de investimentos públicos, programa que o PT não teria condições de impor ao país, porque significaria seu suicídio político.

 

Temer, o governo jeca do mercado

Com a destituição de Dilma, restava ao seu vice, Michel Temer, governar por dois anos e meio, tempo suficiente para impor ao país a PEC da contenção de gastos e a reforma trabalhista, previstos no programa Uma Ponte para o Futuro (Fiesp). Essas medidas desorganizaram o mercado de trabalho, deixando o trabalhador sem benefícios básicos, e levaram ao congelamento dos investimentos públicos por 20 anos.

Apesar da ínfima popularidade do governo golpista, o baixo clero do PMDB e dos partidos do Centrão conseguiu levar Temer até o final de seu mandato ilegítimo. Mas a crise, ao contrário de estancar, só fez crescer e as oposições e os movimentos populares não tiveram força para impor resistência.

Por sua vez o PT não foi capaz de fazer uma autocrítica dos equívocos que cometeu e Temer passou a ser identificado como um resquício da era PT. Os demais partidos políticos não ofereceram alternativas ao país e nem novas lideranças capazes de ganhar confiança e popularidade para as eleições de 2018.

 

A escalada de Bolsonaro

Um conjunto de fatores somou para a eleição de Jair Bolsonaro. A crise econômica, a desesperança, a falta de lideranças políticas que tivessem crédito e inspirassem confiança e, sobretudo, a cruzada antipetista alimentada pela Lava-Jato, que reuniu parte da classe média mais reacionária e as seitas neopentecostais.

A prisão de Lula e a proibição de sua candidatura tiraram de cena o único candidato capaz de impor uma derrota à direita. É importante ressaltar que a mídia empresarial (Org. Globo) e o PSDB consideraram essa a maior vitória da Operação Lava-Jato.

Adicione-se a isso o bombardeio de notícias falsas e calúnias moralistas, a partir dos disparos pelo Whatsapp, dirigidos a um público ultraconservador. Se Bolsonaro já tinha uma maioria ampla no primeiro turno (46%), acabou por açambarcar parcela expressiva do eleitorado conservador no segundo turno, a partir da demonização do PT e da ameaça de seu retorno ao governo.

 

Quem compõe e o que quer o governo Bolsonaro

Mais do que qualquer projeto fascista clássico ou neofascista, o governo Bolsonaro é um somatório de forças destrutivas. O grupo de economistas ultraconservadores em torno de Paulo Guedes, o setor neopentecostal, os discípulos de Olavo de Carvalho, militares ressentidos com o fim da ditadura e um grupo de familiares e amigos do próprio Presidente.

Seu programa de governo tem dois objetivos básicos e vai ficando evidente a cada semana: impor as reformas ultraneoliberais, por exigência do “mercado” (Previdência, Fiscal, etc) e, ao mesmo tempo, destruir o que restou das conquistas sociais e instituições públicas e empresas estatais.

Para conter resistências a essas medidas, o governo Bolsonaro deve lançar mão de dois expedientes: o clássico aparelho repressivo do Estado, com reequipamento das polícias, voltando-as para reprimir manifestações populares, além de perseguir os movimentos sociais com o uso de falsos expedientes através da Justiça, como a criminalização e prisão de lideranças.

A eles se soma o mais grave e imprevisível: como não tem projeto e nem ferramentas clássicas de construção de um projeto fascista (ideologia, partido sólido, projeto ultranacionalista, política segregacionista, etc), o governo Bolsonaro libera o território para o domínio de grupos milicianos paramilitares, com seus pequenos negócios, sobretudo nas áreas mais pobres, o que, aliado à pregação neopentecostal, cria uma contenção social pela resignação ou pela violência armada cotidiana. É o que chamo de “mexicanização”.

 

Prognóstico

No plano econômico a aprovação das reformas e a privatização em massa, ao contrário de criar um novo “ambiente favorável de negócios”, como repetem os papagaios do mercado financeiro, terão como resultado uma verdadeira terra arrasada. A desvalorização do trabalho no Brasil tem raízes no escravismo colonial e pode ser constatada até hoje pelo valor do salário mínimo e o percentual de pessoas que recebem menos de 1 sm (50% da PEA), enquanto 80% da mão de obra do país recebem até 2 sm/mês.

A manutenção da política de pagamento de juros/amortizações da dívida pública (o que não foi repactuado sequer nos governos petistas), espreme a arrecadação pública, forçando os governos a adotarem a clássica “contenção de gastos” para arcar com os compromissos com o mercado financeiro. O país é refém de um sistema perverso de rolagem das dívidas, que se transformou numa esponja dos orçamentos dos governos federal, estadual e municipal.

Com as reformas trabalhista e previdenciária restará uma massa superexplorada, sobrevivendo para dar conta do consumo e dos gastos imediatos (alimentos, moradia, transporte), sem direitos e benefícios. O Brasil reafirmará sua dependência de maneira cabal, sem investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia de ponta. Restará a produção intensiva e predatória do agronegócio, voltado para a exportação de produtos primários, cada vez mais desvalorizados no mercado internacional.

 

Para além da resistência

Para dar conta de enfrentar essa avalanche será preciso um diagnóstico preciso das forças populares, sobretudo por parte da esquerda marxista. Para o momento, é necessário combinar um projeto de medidas democráticas e populares, em aliança com democratas e progressistas. Se é verdade que o projeto reformista/conciliador do PT já não consegue responder no campo econômico e político, também é verdade que a esquerda brasileira está esfacelada e sem projeto.

Não basta “resistir”, será preciso construir uma alternativa palpável, com base social de massa. Isso não exclui a necessidade e a importância das alianças até mesmo com setores liberais, que se veem acossados pelo governo Bolsonaro. Ou seja, não dá para ficar apenas na denúncia cotidiana dos absurdos deste governo sem forjar um projeto alternativo concreto para as questões que mais afligem os trabalhadores, os desempregados, a juventude e todo o povo.

No ritmo em que as medidas estão sendo tomadas – destruir é mais fácil que construir – a tendência é que surjam explosões populares, saques e outras manifestações espontâneas pela sobrevivência. É nesse caldeirão do desespero e da resistência popular que poderá surgir nova energia para enfrentar e derrotar o tenebroso inverno que vivemos. Uma pista: retomar as reformas de base, de João Goulart, com uma roupagem atualizada.

Anúncios

Nas entrevistas e no depoimento que prestou aos parlamentares, na Câmara dos Deputados, o colega Glenn Greenwald deu verdadeiras aulas de jornalismo. A base de tudo é a independência do nosso trabalho e o compromisso em informar assuntos de interesse da sociedade, sobretudo aqueles que atinjam os poderosos, que escondem seus atividades escusas nas sombras.

O papel do jornalismo é jogar luz sobre os fatos e as suas diferentes versões, oferecendo ao leitor, ouvinte, telespectador ou interespectador elementos suficientes para que ele próprio tire suas conclusões, doa a quem doer.

Checar a informação, ouvir o maior número de versões possível, extrair o que de mais importante e contraditório exista sobre os acontecimentos é o trabalho do jornalista.

Foi nas aulas do mestre Nilson Lage, na Escola de Comunicação da UFRJ, que entendi nosso papel e compreendi que o jornalismo, em certa medida, segue a lógica do materialismo dialético de Marx e Engels. Por isso o que produzimos é “matéria”, baseada em fatos concretos.

No entanto, apesar de concreto, o fato pode ser interpretado de diferentes formas, nos obrigando a ouvir os relatos e versões de testemunhas e analistas, quase sempre com leituras de mundo diferentes ou opostas. O que para um representa X, para outro representa Y.

O conflito entre as versões para um mesmo FATO gera o que vulgarmente se pode resumir na equação VERSÃO 1 X VERSÃO 2 = CONCLUSÃO. Esta equação tem semelhança evidente com a da TESE X ANTÍTESE = SÍNTESE, uma simplificação da filosofia marxista.

 

O jornalismo chapa branca é sempre medíocre

Ao usar o método da apuração independente o jornalista ajuda a sociedade a compreender os acontecimentos e a se posicionar sobre eles. Ou seja, o jornalismo é uma mola propulsora do debate e, portanto, da democracia. Só uma sociedade informada pode tomar decisões maduras.

Por isso, em geral as elites e os governantes odeiam o jornalismo, como enfatizou Glenn na Câmara dos Deputados. Para isso contribui decisivamente o sigilo sobre a fonte das informações, assegurado no Artigo 5, Inciso XIV da Constituição brasileira.

Mas não só as classes dominantes olham com desconfiança o trabalho do jornalista e da imprensa independente. Também na esquerda há os que, contrariando a dialética marxista, preferem um jornalismo de um lado só, arvorando-se ao papel de porta-vozes dos “fracos e oprimidos”.

Sem debate, sem polêmica, sem choque de ideais, sem dar voz aos diversos segmentos da sociedade não há jornalismo. Muitos dos que hoje aplaudem Glenn Greenwald e o trabalho de sua equipe sempre preferiram a passividades dos blogs dos amigos do poder e jamais questionaram a farta distribuição de verbas publicitárias para a mídia empresarial, sem enfrentá-la, durante os governos do PT.

As experiências de socialismo de caserna levaram a tentativas de manter povos sob a orientação de um partido, o que representa o congelamento da circulação da informação, uma ameaça à democracia e ao debate de ideias, questões fundamentais para o avanço civilizatório da humanidade. Uma sociedade superior ao “capitalismo financeirizado” só poderá prosperar com mais democracia, porque nesta etapa a democracia é uma ameaça ao próprio sistema.

 

Por que o sistema se choca com o Intercept Brasil?

Com o advento das Organizações Globo, a partir da ditadura de 1964, o jornalismo brasileiro passou a ser propositalmente confundido com espetáculo. O trabalho da reportagem deixou de ser o mais importante, atropelado pelas opiniões, piadinhas e considerações dos “âncoras”. Os fatos são jogados, não apurados. Não há versões e nem opiniões diferentes em debate, mas a exclusão escandalosa dos que de alguma forma contestam a ordem e o sistema.

Foi o que assistimos durante a Operação Lava-Jato, na qual a Globo – porta-voz das classes dominantes – foi parte integrante de um esquema de justiçamento seletivo, a partir de denúncias de corrupção todos os dias estampadas em manchetes sensacionalistas.

Como máquina de propaganda que cobre o território nacional e entra todos os dias nos lares dos brasileiros, as Organizações Globo agora tentam, desesperadamente, desqualificar o trabalho dos colegas do pequeno e corajoso Intercept Brasil. Numa tática inteligente, Glenn e seus colegas buscam parcerias na própria mídia empresarial para ampliar o raio de alcance de suas reportagens, sobre o conluio produzido por procuradores e o juiz da Lava-Jato.

 

É só jornalismo

É evidente que a cumplicidade de promotores públicos e juiz – “com o STF, com tudo” – foi parte de um projeto das classes dominantes de surrupiar o governo para a implantação de reformas mais duras, que o PT e seus aliados não pretendiam impor de forma integral à sociedade. O resultado foi a mediocridade do governo Temer e a truculência desvairada do governo Bolsonaro, cujo objetivo é desmontar o que restou do Estado brasileiro e impor a reforma da Previdência.

Só o que já foi publicado é suficiente para desmontar o esquema da Lava-Jato, propositalmente confundida com “combate à corrupção”. Na verdade, uma operação seletiva, que teve como propósito retirar o ex-presidente Lula do cenário político, condenando-o a chefe de uma “organização criminosa”.

Muitos criticam Glenn e sua equipe por estarem criando um sistema de informações em conta-gotas, que deixaria o país refém de suas publicações. Na verdade, o que o Intercept Brasil está fazendo é apenas o trabalho de apuração profissional do material recebido, o que a maioria da mídia empresarial despreza. É só jornalismo, algo vital para o exercício da democracia.

As revelações das conversas entre juiz e promotores pelo sitio de notícias Intercept Brasil, via Telegram, colocam em xeque o papel da mídia e do profissional de imprensa em nosso país. Nos últimos anos nos acostumamos a consumir um jornalismo de espetáculo, baseado em versões e disputa de narrativas.

O jornalismo foi rebaixado à condição de promotor de espetáculos e os jornalistas a comentaristas, via de regra a serviço da linha editorial do órgão para os quais trabalham. Inverteu-se por completo a função da imprensa, qual seja a de noticiar fatos de interesse geral da sociedade, narrando os acontecimentos e ouvindo as diversas partes envolvidas.

Em vez disso passamos a ter muita manchetes, fotos, imagens e infográficos, e poucos fatos que serviriam de ponto de partida para as matérias. Sim, matéria, porque o fundamental do jornalismo é a materialidade dos fatos e não o que o repórter ou editor pensam deles.

A coisa é tão escandalosa que temos repórteres que se arvoram a economistas, juristas, analistas internacionais e até a paladinos da justiça, esgrimindo teses e considerações a respeito de acontecimentos. Alguém precisa explicar a essas figuras patéticas que é justamente para isso que os veículos de comunicação contam com seus editorialistas.

Para alimentar o debate sobre os temas noticiados podem ser ouvidos analistas devidamente capacitados a fazê-lo, com versões contraditórias, e não os chamados “especialistas” de rabo preso, pinçados a dedo para confirmar o que pensa a direção da emissora, omitindo-se o currículo e os interesses dessas figuras.

Os colegas do Intercept Brasil não são paladinos de nada, nem porta-vozes de ninguém. Eles estão apenas exercendo o trabalho do jornalista, qual seja o de levar à sociedade fatos que chegaram ao seu conhecimento e que são de interesse público.

Para isso firmaram um compromisso ético que é próprio da profissão, o de preservar as conversas sobre assuntos estritamente pessoais entre os interlocutores, ainda que seja estranha a existência de qualquer diálogo entre promotor e juiz.

Aos que condenam a preservação da fonte que repassou os diálogos entre o senhor Sérgio Moro e os procuradores do MPF ao Intercept Brasil, cabe lembrar que ela está prevista na Constituição brasileira (Artigo 5º, parágrafo XIV).

Ao jornalista cabe reportar um acontecimento ao público (daí a expressão repórter), seja ele um atropelamento, um assassinato, uma votação no parlamento, uma manifestação popular. Para ilustrar a matéria é seu dever ouvir as partes em conflito e suas justificativas, deixando ao leitor, ouvinte, telespectador ou interespectador o papel de tirar suas conclusões sobre o ocorrido.

Via de regra diversos jornalistas – e eu me incluo aí – são alçados à condição de debatedores convidados em programas de rádio, TV e na internet. É evidente que nesta função podem e devem opinar, mas ainda assim devem fazê-lo sempre procurando se ater aos fatos que vão debater.

Quando o profissional de imprensa passa a subordinar o exercício da profissão ao que seu patrão deseja, deixa de ser jornalista e de fazer jornalismo, passando ao papel de porta-voz de opiniões ou bajulador de plantão. E isso se torna mais grave quando as fontes oficiais e poderosas (governantes, empresários, economistas do “mercado”, etc) passam a ser as únicas a serem consultadas ou levadas em consideração.

O caso dos diálogos entre membros da Operação Lava-Jato, publicados pelo Intercept Brasil, revelam a falta de credibilidade da mídia empresarial brasileira. Não por acaso a fonte que repassou os diálogos impróprios e ilegais de Sérgio Moro e os promotores do MPF, escolheu um sítio independente e o colega Glenn Grennwald para entregar o conteúdo das trocas de mensagens.

Seja por terem adotado uma linha editorial francamente favorável aos paladinos da Justiça da Lava-Jato, obtendo informações e gravações de grampos ilegais, seja pelos interesses políticos e econômicos inconfessáveis, a mídia empresarial brasileira está contra a parede. Sua resposta: tentar desacreditar a fonte e até o veículo que está publicando os diálogos que desmontam a pretensa imparcialidade da Justiça no caso Lula.

A mídia empresarial brasileira – com exceções que só confirmam a regra – abandonou o jornalismo para se dedicar a defender interesses privados, aos quais ela está ligada ou subordinada. A isso se pode chamar de jornalixo e aos que tomam parte deste espetáculo de porta-vozes da ilusão. Não espanta que estejam perdendo audiência e credibilidade a cada dia que passa.

O Atlas da Violência no Brasil (Ipea/FBSP – versão 2019) traz dados estarrecedores, referentes ao ano de 2017, que dão a dimensão da tragédia e o custo social dos erros e omissões que as elites cometeram e teimam em seguir cometendo. Foram 65.602 homicídios, três mil a mais que em 2016, numa escalada crescente desde 1979.

São números que impressionam, só pelo fato de o Brasil ter se tornado o campeão mundial de homicídios, a grande maioria por arma de fogo. Aqui morre mais gente que em territórios com guerras e conflitos internos, como no Iraque, Afeganistão ou Síria.

As maiores vítimas: 91% são homens, na maioria jovens (55% entre 15 a 29 anos) mestiços (64,6%) e negros (8,5%). Cabe destacar que 76,9% dos homicídios ocorrem por armas de fogo. De acordo com o Atlas, esse índice poderia ser até 12% maior, não fosse o Estatuto do Desarmamento.

Outro fato a observar é a crescente onda de violência e assassinatos contra a mulher, praticada por maridos, companheiros, namorados e ex, que se arvoram a tirar as vidas de suas parceiras simplesmente por ciúmes, na maioria das vezes. Dos 8% de homicídios praticados conta mulheres, cerca de 40% aconteceram dentro das residências das próprias vítimas, o que dá entender que a taxa de feminicídio é elevada.

O interessante é que os dados da pesquisa reafirmam a nossa pirâmide social desde os tempos do Brasil colônia:

1 – No topo estão homens brancos e ricos que exploram, desprezam e que usam da força bruta – através do destacamento policial – contra homens negros, além de praticar a violência sexual contra as mulheres negras e oprimir suas esposas brancas.

2 – Mulheres brancas vêm abaixo, igualmente desprezando os homens negros, explorando e maltratando as mulheres negras. Sua frustração com a opressão que sempre sofreram de seus pares são descarregadas em forma de ódio, preconceito e uma ponta de ciúmes sobre as “criadas”, muitas vezes assediadas pelos seus maridos.

3 – Ainda mais abaixo estão os homens negros, que também maltratam e violentam as mulheres negras. Com formação escolar baixíssima, se ocupam de atividades profissionais que muitas vezes exigem mais a força do que capacidade intelectual. Ganham em média menos que as mulheres brancas.

4 – Abaixo de todos estão as mulheres negras, a maioria sem instrução suficiente, mães solteiras que também são “pais”, que cuidam da casa e dos filhos, com subempregos e que ocupam os postos mais mal remunerados.

Como essa pirâmide não foi abalada e nem invertida ao longo de cinco séculos, mesmo com a abolição da escravatura (a última que aconteceu no mundo), os resultados da violência não poderiam ser diferentes. O mais grave é que esses números mostram o comprometimento da juventude, preço muito alto para qualquer sociedade.

Os números da violência no Brasil de 2017 mostram um país mergulhado na barbárie, tomado por inúmeros focos e organizações criminosas, incapaz de resolver suas diferenças no diálogo e na construção de códigos aceitos e respeitados por todos.

Das discussões em botequins aos bate-bocas entre vizinhos, dos problemas no trânsito aos ciúmes entre casais, das briguinhas entre colegiais às questões mais banais, tudo se “resolve” pela força bruta, pelo enfrentamento físico (Cerca de 20% dos homicídios decorrem dessas desavenças banais). Uma demonstração de que aqui prevalece a lei do mais forte.

Esse é o resultado de duas vertentes: 1 – A incapacidade das classes dominantes em ceder e oferecer mínimas condições para as massas populares empobrecidas viverem com dignidade. Aqui nem o Estado de Bem-Estar Social foi alcançado; 2 – Uma sociedade sem Educação, em casa e nas escolas, onde o exemplo é a ignorância, a violência, o machismo e o abandono da juventude.

É evidente que a desigualdade, a ignorância e a exclusão social são combustíveis que alimentam o fogaréu da violência e das elevadas taxas de homicídios no Brasil. Seguir com políticas econômicas excludentes, com desemprego em massa e baixíssimos salários, e ainda incentivar o porte e a posse de armas é atirar mais lenha nessa fogueira.

Confira a íntegra do estudo:

http://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/

Jogar futebol profissional no Brasil sempre foi um meio de fugir da pobreza, é certo. No entanto, há algo que o destino cobra, mais cedo ou mais tarde: formação. O problema de Neymar Junior não está no futebol, ao contrário, mas na incapacidade de lidar com o mundo e com a imagem de figura pública ou pop star.

Isso certamente ele herdou do exemplo que teve em casa. Desde que foi negociado com o Barcelona, depois de se destacar no Santos aos 17 anos, Neymar esteve envolvido em inúmeras passagens que provam a completa falta de noção (ou de Educação, como queiram) do atleta.

Na ocasião descobriu-se um esquema envolvendo o senhor Neymar pai, na prática o empresário do jogador. A venda fora anunciada por 57 milhões de euros, mas na verdade chegou a 95 milhões de euros. A empresa N&N, controlada pelo pai do atleta, recebeu 40 milhões de euros do Barcelona, sem ser a detentora de direitos econômicos do jogador, enquanto o Santos, clube que o projetou e que detinha os direitos contratuais, recebeu apenas 17 milhões de euros, isso sem falar dos bônus recebidos por fora por Neymar pai e Neimar JR pela transação.

Na Espanha o Presidente do Barcelona caiu, porque não conseguiu explicar a origem e o destino da grana da compra de Neymar Jr. Aqui ficou tudo por isso mesmo, apesar de se saber que Neymar pai foi o atravessador da negociata. O Santos acabou prejudicado.

E apesar da negociação fechada, Neymar ainda foi escalado para jogar contra o próprio clube que adquiriu os direitos sobre o atleta, na decisão da Copa Toyota em 2014, numa demonstração de completa falta de ética para com o torcedor, que ainda não sabia da transação.

Logo descobriu-se um esquema de sonegação fiscal envolvendo Neymar e seu pai. Neymar teria utilizado as empresas controladas por seu pai – Neymar Sport e Marketing, N&N Consultoria e N&N Administração de Bens – para não pagar pelo menos R$ 63,6 milhões de impostos entre 2012 e 2014.

Ao chegar a Espanha, Neymar Jr sentiu o peso de sua falta de educação. Recebeu críticas de torcedores e da imprensa esportiva pelo mau hábito que adquiriu no Brasil de cair em campo por qualquer coisa, o famoso “cai-cai”. Com Messi e Suarez dividindo as atenções e as glórias de seu clube, Neymar Jr foi transferido para o Paris Saint Germain, onde teria mais chances de brilhar sozinho.

Os encantos de Paris enchem os olhos de qualquer um, para o bem e para o mau. A estrela de Neymar ainda brilhava dentro dos gramados, mas seu excesso de individualismo continuou pesando na hora de reclamar das arbitragens e dos adversários. Com Neymar o PSG seguiu vencendo o fraco campeonato francês, mas não foi longe na pretensão de vencer competições europeias. Outros craques surgiram e já se fala abertamente na transferência de Neymar para outro clube.

Na seleção da CBF Neymar usou e abusou da individualidade e ainda chegou a ser premiado com a braçadeira de capitão, posto para o qual jamais esteve preparado. O fracasso da Copa no Brasil fez com que o jogador aumentasse o tom de suas querelas, tanto com árbitros com adversários. A seleção era e continua sendo Neymar e mais dez. Foi expulso contra a Colômbia numa Copa América e a seleção não prosperou.

Recentemente agrediu um torcedor que o provocou, demonstrando que aos 26 anos continua com os nervos fora de controle. Agora, em plena preparação para a Copa América, se vê envolvido em mais um problema, desta vez com uma mulher que o acusa de estupro.

Dadas as circunstâncias nebulosas que envolvem o caso, Neymar tratou de se defender cometendo o erro de expor imagens e conversas que teria tido pela internet com a suposta vítima, o que só depõe contra ele. Isso mostra mais uma vez o destempero e o despreparo de Neymar.

Ninguém discute o futebol e o valor de Neymar JR dentro de campo. No entanto, sua carreira se transformou num problema para técnicos, empresários e empresas que associam seus produtos a ele.

Se o Brasil fosse um país em que houvesse noção clara de limites e de justiça, Neymar JR seria afastado da seleção nacional até que se esclarecesse a questão. Muitos dirão que não, que isso é problema dele fora de campo. Acontece que o futebol se transformou num grande negócio e a imagem de Neymar também está associada ao da própria seleção de seu país, dada a importância que ele assumiu no esporte.

Enfim, Neymar é a expressão do chamado novo rico, que ganha muito dinheiro mas parece não ter um pingo de educação e não está nem aí para nada. Sua imagem acaba sendo associada ao que há de pior na sociedade brasileira, o malandro espaçoso, personagem insuportável por onde passa.

Quem melhor alertou sobre a carreira de Neymar JR foi o experiente treinador Renê Simões, ainda em 2010: “Eu poucas vezes vi alguém tão mal educado quanto esse rapaz Neymar. Está na hora de alguém educar este rapaz ou nós vamos criar um monstro no futebol brasileiro. Ele é o senhor todo poderoso dentro de campo e ninguém está fazendo absolutamente nada”. Renê só não poderia imaginar que o monstro sairia de dentro dos gramados para agir da mesma forma fora dele.

Um artigo recente de um antigo companheiro me inspirou a abordar questões que reputo da maior importância para a esquerda brasileira e internacional. Já se vão quase 30 anos da queda da URSS e o início do desmonte do bloco do socialismo real. Foi tempo suficiente para a esquerda fazer um balanço aprofundado daquela experiência, o que foi válido e o que precisa ser superado, para propor um novo projeto revolucionário no século XXI.

Sem isso, sem estratégia, sem clareza de a que porto se quer chegar, vamos continuar reféns dos acontecimentos, no campo da resistência aos ataques do inimigo de classe, ao sabor dos ventos, a reboque de táticas para remediar os males produzidos pelo capitalismo contemporâneo.

Seria uma estupidez negar a importância das revoluções russa, chinesa e cubana, as principais revoltas proletárias e camponesas de massas do século XX. Em todos os terrenos elas foram fundamentais para os avanços experimentados pela humanidade.

Das melhorias sociais e econômicas produzidas no plano nacional naqueles países, a partir da nacionalização da terra e estatização da propriedade industrial, que retiraram milhões de seres humanos da miséria, da ignorância e da morte, até o equilíbrio de forças que elas asseguraram no cenário internacional no século passado. Tudo isso apenas demonstrou o potencial existente na construção de sociedades não baseadas no lucro e na ganância de uma minoria.

Mas as experiências de sociedades não capitalistas não conseguiram produzir um novo paradigma de produção, gestão, consumo e, consequentemente, de participação criativa daqueles povos para um novo sistema de poder político: uma democracia de massas. Esse parece ser o grande desafio da esquerda marxista, sem o qual repetirá e reproduzirá sempre a velha fórmula fracassada da vanguarda como representante indireta e, portanto, acima dos trabalhadores no poder.

Deriva dessa confusão e dessa substituição do poder popular por um poder de partido de vanguarda toda a degeneração que condenou aquelas revoluções à estagnação e a derrocada, com sua consequente paralisia, rendição ou substituição pela velha ordem do capital. O que originalmente se pretendia poder popular passou a ser o poder de um partido, posteriormente da sua direção e mais adiante de uns poucos ou subordinado a chefes.

No entanto, o capitalismo contemporâneo, revestido de modernidade e reduzido a um “mercado” para poucos, se assemelha a um zumbi, um morto vivo receitando o mesmo remédio antipopular para os povos, uma sombra da pujança do capitalismo que se afirmou pela produção e o consumo de massa na segunda metade do século passado, sobretudo na Europa ocidental.

É bom que se diga que o chamado Estado de Bem Estar Social, que assegurou benefícios importantes aos trabalhadores e hoje é alvo de ataques do Capital, só foi possível pela imposição dos povos que resistiram de armas em punho ao nazi-fascismo, com destaque para as guerrilhas organizadas pelos partidos de esquerda.

A especulação financeira é o último reduto ao qual se apega uma ínfima minoria para preservar seus privilégios. Por isso mesmo, o sistema transformou-se num entrave para o desenvolvimento das inúmeras forças produtivas que se vislumbra, a partir da entrada em cena da virtualidade e das tantas possibilidades tecnológicas de ponta.

Em vez de propiciar melhorias aos seres humanos, o Capital no século XXI esmaga os sonhos e as potencialidades de prazer, fartura e cultura da humanidade, com seu sistema injusto, que preserva os ganhos dos super ricos, desregula o mercado de trabalho, leva homens e mulheres a jornadas de trabalho exaustivas, impõe privatizações e conduz as sociedades a quebradeiras.

Não cabe mais à esquerda marxista seguir a reboque das velhas palavras de ordem e estruturas de poder, ditadas pelo dilema entre resistir aos ataques do capital financeiro especulativo e as tímidas reformas da social democracia. Isso não a desobriga de manter-se na luta cotidiana dos trabalhadores, em defesa de seus direitos. No entanto, é preciso dizer:

. Que sociedade propõem os marxistas no plano geral e na gestão cotidiana de órgãos públicos, empresas, poder local, etc?

. Como se organizará a produção e o consumo nessa sociedade?

. Qual será o sujeito dessa nova sociedade?

. Como se exercerá o poder nessa sociedade?

. Que papel caberá à iniciativa privada nessa sociedade?

. Que papel caberá aos centros de pesquisas de ponta no enfrentamento dos principais desafios da humanidade?

. Que papel terão e como funcionarão os meios de comunicação nesta sociedade?

. Qual será o papel das culturas originárias, atropeladas e esmagadas pelo colonialismo e capital?

. Como se pretende harmonizar os avanços produtivos/tecnológicos com o respeito à Natureza?

É pensando nesses e noutros aspectos estratégicos para uma nova ordem econômica, social e política para a humanidade que a esquerda marxista deve se apresentar. Não é mais possível repetir as posturas alienantes que separam os objetivos anunciados das práticas cotidianas.

Neste sentido as manifestações de 2013 no Brasil foram didáticas têm muito a ensinar. De lá para cá ninguém mais liga para os intermináveis discursos de palanques, do alto dos carros de som, a ditar regras com a pretensão de dirigir as “massas” aqui em baixo. O menosprezo, o desconforto e a desconfiança causados pelos conchavos e arranjos de cúpula são visíveis, porque ao fim e ao cabo as redes sociais desnudaram os corredores da vida política, transpuseram os muros e acabaram com os segredos.

E então? Vamos aceitar os desafios estratégicos que podem recolocar os marxistas na ofensiva ou seguir apenas na mediocridade da administração de problemas insolúveis dentro deste sistema?

Mais uma vez a juventude brasileira assume papel de destaque no cenário político nacional. Basta acompanhar as ondas de protestos urbanos no Brasil, desde a campanha pelo fim da escravatura, para entender a importância dos jovens na luta política brasileira. Felizmente, com uma posição sempre progressista, contra o atraso e ao lado da maioria do povo.

A campanha contra o nazi-fascismo teve na juventude estudantil brasileira sua força motriz, assim como a luta pela redemocratização, no pós-guerra. O mesmo aconteceu na campanha do “Petróleo é nosso”, que redundou no monopólio estatal de exploração de petróleo e na criação da Petrobras. O combate contra a ditadura militar também contou com a juventude estudantil sua vanguarda, da mesma forma que as lutas pelas “Diretas, Já!” e o “Fora Collor”.

Ao cortar verbas para as Instituições Federais de Educação, o governo Bolsonaro mexeu justamente com o segmento mais combativo e independente da juventude brasileira. Isso denota a completa incapacidade deste governo para qualquer coisa, a partir da ausência de um núcleo de pensamento estratégico que o oriente.

As manifestações multitudinárias de 15 de maio ainda não são a derrocada do governo Bolsonaro. Mas foram um xeque ao rei no xadrez da política nacional. Por que? Há alguns elementos que indicam um acelerado desgaste deste governo e sua incapacidade de governar. São eles:

. Não há programa de governo – O tempo da campanha eleitoral ficou para trás e não há muito espaço para seguir “culpando o PT” pela situação do país. Nem mesmo as fake News sustentam isso. Cresce o desemprego, a economia está paralisada e o governo só tem como bandeira a reforma da Previdência, que enfrenta muita desconfiança e resistência por parte da opinião pública. Agora, decide cortar recursos públicos em áreas sociais.

. Incapacidade para formar maioria no Congresso Nacional – Está evidente que os parlamentares eleitos no rastro do fenômeno Bolsonaro não são profissionais da política e não têm capacidade de articular a defesa do governo e de seus objetivos (?) no Congresso. A melhor demonstração disso foi a aprovação, por mais de 300 votos, da convocação do ministro da Educação para dar explicações na Câmara dos Deputados.

. Incapacidade de diálogo com a mídia – As declarações desastradas e o direcionamento de verbas, priorizando aparições no SBT, Record e Band, abriram um conflito com a maior cadeia de comunicação do país, que ainda procura poupar Bolsonaro em função da sua bandeira de reforma da Previdência. Não fosse isso, já estaria completamente frito.

. O desgaste é acelerado e vai para as ruas – As manifestações gigantescas de 15 de maio, em cerca de 200 cidades do país, demonstram que o governo está perdendo a opinião pública e as ruas. Os bolsominions sumiram das redes sociais e nem os robôs da internet conseguem alimentar com argumentos sólidos a defesa deste governo. Boa parte do eleitorado de Bolsonaro se recolheu, está sem coragem de defende-lo publicamente.

. Isolamento internacional – Até mesmo nos EUA, seu ideal de sociedade, Bolsonaro é desprezado. Nem mesmo políticos conservadores desejam associar sua imagem ao tipo tosco do Presidente do Brasil. A política externa é desastrosa, conduzida por um anticomunismo grotesco, que só traz prejuízos à imagem e aos negócios do país.

Restará ao governo eleito no final de 2018 duas alternativas:

1 – Se articular com o MDB, o PSDB e os partidos do Centrão para refazer o ministério e os postos-chave em Brasília, visando construir maioria no Congresso e aprovar as reformas que interessam à burguesia. O problema é que isso enfrentaria resistência e desgaste na própria base que elegeu Bolsonaro, sob a promessa de varrer a “velha política”.

2 – Aceitar sua incapacidade e renunciar, abrindo caminho para um governo preponderantemente dirigido por militares, com o general Mourão à frente, disposto a cumprir o programa de reformas que interessa às classes dominantes, com apoio da mídia empresarial.

Seja como for, parece que a tese de um projeto fascista ou neofascista, que parte da esquerda comprou e tentou associar a Bolsonaro, não condiz com a absoluta incapacidade deste governo de apresentar um projeto e de se sustentar.

O maior desafio da esquerda brasileira é recompor sua força popular em novas bases. Está evidente que as tradicionais representações estudantis e sindicais, verticalizadas e aparelhadas por correntes e partidos, não têm legitimidade para canalizar o descontentamento popular. Muito menos os partidos políticos de esquerda, hoje muito mais agarrados à luta institucional e seus mandatos parlamentares do que à organização popular de base.

A Previdência Social é uma expressão que delimita o sistema de pagamento de aposentadorias e pensões aos trabalhadores que concluem sua vida laboral, por tempo de serviço, tempo de contribuição ou invalidez. Até 1988 este sistema era financiado pelas contribuições regulares de trabalhadores (descontados em seus contracheques), patrões e/ou governos.

A Constituição de 1988 estabeleceu a Seguridade Social (Título VIII, Capítulo II, Artº 194 e 195), que engloba Previdência, Saúde Pública e Assistência Social. Este sistema é solidário, ou seja, uma geração de trabalhadores sustenta a outra com suas contribuições, sucessivamente. Suas fontes de financiamento vão além das contribuições de trabalhadores, patrões e/ou governos, contando com Contribuição Sobre Lucro Líquido (CSLL), Cofins e parcela da arrecadação das loterias.

Essa informação é vital para entender que não há rombo na Previdência. O que há é que os sucessivos governos deixam de contribuir com sua parte e ainda utilizam o artifício da Desvinculação das Receitas da União (DRU), que retira entre 20% a 30% de toda a arrecadação anual da União para uso indiscriminado.

A sobra de recursos da Seguridade Social foi de R$72,7 bilhões em 2005; R$ 53,9 bilhões em 2010; R$ 76,1 bilhões em 2011; R$ 82,8 bilhões em 2012; R$ 76,4 bilhões em 2013; R$ 55,7 bilhões em 2014, e R$11,7 bilhões em 2015 (dados da Associação Nacional dos Fiscais da Previdência). E isso tem a ver com o crescimento da economia, que gera produção, empregos, consumo e incide diretamente sobre a arrecadação da Seguridade Social.

 

O Brasil vai quebrar?

O argumento dos defensores da PEC 06/2019 (Nova Previdência) é que se não for feita a reforma, o país vai quebrar e não haverá novos investimentos e empregos no país.

Ora, as reservas em dólar do governo brasileiro estão em cerca de US$393 bilhões (maio/2019). A dívida pública em relação ao PIB% (hoje em torno de 80%), apesar de absurda, chega a 3% ao ano, se financiada em 30 anos, enquanto em países como os EUA ela vai a 360% do PIB, ou 7,5% ao ano.

Ou seja, não há nenhuma relação direta entre a reforma da Previdência e uma recuperação econômica do Brasil. Isso tudo se inscreve na chantagem das classes dominantes, que elegeram as reformas ultraliberais como forma de abocanhar o que restou do Estado brasileiro.

 

Acabar com privilégios?

A grande massa dos beneficiários do Regime Geral da Previdência Social no Brasil é de trabalhadores que recebem entre 1 e 2 salários mínimos/mês. Portanto, não há privilégios a cortar na Seguridade Social brasileira. Mesmo entre os servidores públicos – que possuem um regime próprio de Previdência e são acusados de “privilegiados” – menos de 10% dos beneficiados pertencem a uma elite da sociedade, formada por uma minoria de servidores com altos salários nos poderes Judiciário, no Ministério Público e no Legislativo.

“No ano de 2017, a Previdência Social concedeu aproximadamente 5,0 milhões de benefícios, dos quais 89,06% eram previdenciários, 6,52% assistenciais e 4,42% acidentários. Os benefícios concedidos à clientela urbana atingiram 82,16% e os concedidos à clientela rural somaram 17,84% do total. As espécies mais concedidas foram o auxílio-doença previdenciário, a aposentadoria por idade e o salário-maternidade, com, respectivamente, 39,8%, 14,39% e 12,63% do total. O valor total dos benefícios concedidos em 2017 atingiu R$ 6,8 bilhões.

“Em 2017, 99,01% dos benefícios concedidos à clientela rural apresentavam valor de até um piso previdenciário, enquanto que os benefícios da clientela urbana dessa faixa corresponderam a 43,86% do total. O valor médio dos benefícios apresentou um crescimento de 4,94%, passando de R$ 1.305,42 em 2016 para R$ 1.369,91 em 2017. O valor médio dos benefícios urbanos foi 55,87% maior que o dos benefícios rurais, respectivamente, R$ 1.463,48 e R$ 938,94” (Dados do Portal da Previdência Social, ano 2017 – Ministério da Economia).

 

O que propõe o senhor Guedes?

A proposta do governo Bolsonaro, apresentada pelo senhor Paulo Guedes, acaba com o atual sistema de Previdência (solidária e pública), para criar uma Previdência privada. Em resumo ela impõe:

. Fim da Seguridade Social e criação de um sistema de Capitalização individual;

. Aumento do tempo mínimo necessário de contribuição para o trabalhador se aposentar para 40 anos;

. Aumento da idade mínima de 55 para 60 anos (mulher) e 60 para 65 anos (homem);

. Redução do valor do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que atende a 1,3 milhão de beneficiários, dos atuais R$900,00 para R$400,00. O BPC tem o valor de um salário mínimo e é pago mensalmente a idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência que possuem renda familiar de até R$ 238;

. Contribuição exclusiva do trabalhador (sem participação de patrão e/ou governos) para uma conta poupança individual em banco, sem que se estabeleça com antecedência quanto ele terá direito a receber quando se aposentar;

. Redução dos valores das pensões, de acordo com o número de dependentes.

. Os servidores públicos terão que aumentar sua contribuição (atualmente em 11%) de seus vencimentos brutos. A previsão é que o percentual pule, inicialmente, para 14%, podendo crescer ainda mais.

 

Dinheiro para Saúde e Educação?

O senhor Guedes insiste que o governo economizará cerca de R$1 trilhão em dez anos, mas não apresenta dados concretos que justifiquem isso. Recentemente, em audiência pública na Câmara dos Deputados, Guedes informou que esse tal R$ 1 trilhão não será um recurso a ser investido em outras áreas, como Saúde e Educação, como se propagava até então.

 

Vale a pena aplicar em previdência privada?

“Desde o começo de 2017, o total de dinheiro investido nesse tipo de aplicação no país aumentou 18%, chegando a R$ 757,5 bilhões em maio de 2018, segundo os dados mais recentes da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

“Um levantamento com base nos dados de mercado feito pela Monetus, startup de gestão de investimentos digital, estima que 70% dos fundos de previdência privada renderam nos últimos 12 meses menos do que o CDI ou que a Selic, duas taxas de referência que andam juntas e que, em um ano até junho, acumularam alta na faixa de 7,3%.

“A grande maioria dos fundos de previdência privada é pós-fixada, o que significa que o rendimento varia mês a mês e não é possível saber, de antemão, quanto ele vai aumentar no futuro. Todas as operadoras cobram uma taxa de administração anual, geralmente de 1,5% a 4% ao ano sobre o valor total aplicado e uma taxa de carregamento que pode ser cobrada na entrada ou na saída”.

E se a seguradora quebrar? “A previdência privada não tem o amparo do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), um fundo formado pelos bancos que restitui até R$ 250 mil aos investidores caso a instituição onde está seu investimento quebre. O FGC é válido para aplicações como poupança, CDB e letras de crédito” (Matéria de Juliana Elias – Portal UOL – 2/8/2018).

Ou seja, além de não ter segurança você só sabe com quanto vai contribuir, mas não tem condição de saber quanto vai receber e nem por quanto tempo vai receber a aposentadoria.

 

O que está por trás da proposta de privatização da Previdência?

A Seguridade Social representa 24% dos gastos da União por ano, só perdendo para o que o governo gasta para pagar juros e amortização da dívida pública. Enquanto cresce de forma abusiva e ilegal (através da cobrança de juros sobre juros – anatocismo) a parcela do orçamento federal destinada a cobrir gastos com a dívida pública, cujos títulos estão nas mãos de grandes bancos/financeiras, diminui a cada ano o investimento do governo federal nas áreas sociais.

O que está em disputa, portanto, é o Orçamento ou as prioridades de investimentos. Vamos seguir alimentando a juros extorsivos o sistema financeiro ou vamos aplicar os impostos pagos pela população na Saúde, Educação, Transportes de massa, saneamento básico, cultura, segurança, lazer, etc?

O sistema de Seguridade Social, tal como é hoje, beneficia diretamente a cerca de 30 milhões de pessoas e indiretamente a muito mais brasileiros, sobretudo aos mais pobres e em cidades pequenas, cuja economia e arrecadação dependem diretamente das aposentadorias e pensões dos idosos que sustentam suas famílias.

Ou seja, trata-se de uma escolha: ou vamos assegurar uma velhice minimamente digna para os trabalhadores ou vamos entregar suas contribuições para um grupo seleto de banqueiros e financistas ganhar rios de dinheiro.

A entrevista de Lula revela que o velho líder popular é hoje muito mais um cacique político do que um lutador das causas populares. E mais: subestima as lições que a História do Brasil cansou de dar ao longo de cinco séculos. Temos uma elite tão tacanha e mesquinha que um conciliador de classes é visto como um perigoso “comunista” a ser isolado e afastado, assim como fizeram com João Goulart.

Não se pode cobrar de Lula – que nunca afirmou ser de esquerda – uma posição política que não teve, não tem e não terá. Mas é possível cobrar, sim, um mínimo de coerência na análise dos fatos. Depois do golpe de 2016, quando a derrubada de Dilma serviu de pretexto para os que queriam as mesmas reformas que exigem hoje, ficou mais uma vez evidente que o sistema econômico implantado no Brasil – altamente oligopolizado – não dá margem para negociar sequer migalhas para o povo brasileiro.

Nada contra conversar, ouvir ou chamar as diferentes posições existentes na sociedade ao debate, mas a política está subordinada a interesses de classes. As medidas a serem adotadas em todos os campos da política e da economia terão consequências, tanto para a minoria rica e empresarial quanto para a grande maioria pobre e trabalhadora.

Nada pessoal contra Lula, que de resto continua a ser um cara generoso e bonachão, mas um alerta aos que ainda insistem em ver nele alguém que pode abrir caminho para uma mudança no curso da História no Brasil.

A campanha “Lula livre” toma como pressuposto a necessidade de reviver os “bons tempos” dos governos de Lula. É bom lembrar que nenhum interesse das classes dominantes no Brasil foi contrariado nos governos petistas, muito ao contrário, ainda que tenha havido avanços na incorporação de grande contingente do povo ao mercado de consumo.

Hoje, vítimas de sua própria política, Lula e a cúpula do PT se recusam a reconhecer os limites das opções que fizeram. Não se discute o dever de qualquer brasileiro sincero em repudiar a prisão e os processos contra Lula. Defender a liberdade de Lula é papel de todos que tenham um pingo de lucidez política e amor à democracia.

No entanto, independente das concordâncias ou divergências que se possa ter com o que Lula afirmou durante as duas horas de entrevista, o que fica evidente é que:

. Não há autocrítica política a fazer, porque fazer autocrítica significa questionar a política de conciliação de classes, materializada pelas alianças com o PMDB e o Centrão;

. Não há outro caminho a seguir, que não seja o de conciliar os interesses de classes antagônicas, de crescimento econômico com distribuição de renda, ou seja, a sociedade de mercado;

. O avanço da organização popular e da consciência de classes não faz parte das preocupações da cúpula do partido, o que se encaixa perfeitamente na crítica do líder da esquerda uruguaia, Pepe Mujica, que reconhece que essa política forma apenas consumidores e não cidadãos com capacidade crítica;

. O PT continua firme e forte, apesar dos dirigentes que passaram a agir como lobistas de grandes empresas privadas e alguns estarem envolvidos com esquemas de obtenção ilegal de recursos, seja para o partido ou para benefício pessoal;

. Lula pede autocrítica das elites e expressa confiança no Judiciário, revelando a mais pura incapacidade de compreensão de que a sociedade capitalista é marcada por classes com interesses opostos, e que as classes dominantes têm no Estado burguês uma ferramenta fundamental para manter sua dominação.

Isso só reforça a necessidade de se construir um novo projeto popular e socialista para o Brasil, livre do dogmatismo das tradicionais correntes da esquerda e do velho reformismo do PT. Um projeto que privilegie os interesses de nosso povo em todas as áreas, com profunda vocação democrática e de construção horizontal.

Este novo projeto só poderá emergir da luta contra os governos das classes dominantes e de suas políticas se for construído nas lutas e na resistência nas periferias e favelas, nas ruas, nas praças, nas escolas, nas repartições, no campo, nas fábricas e empresas.

Tive a pachorra de assistir a quase duas horas da entrevista que Lula concedeu a Monica Bérgamo e Florestan Fernandes Filho, em 26 de abril*. O ex-presidente continua eloquente e falador, mas há algo de novo no discurso de Lula: o personalismo dos velhos caciques políticos.

Por diversas vezes Lula falou na primeira pessoa para se referir a feitos e passagens dos dois governos que presidiu. E quando teve que criticar empurrou as responsabilidades para o PT, Dilma e outros companheiros de jornada. Autocrítica zero.

Em que pese ter rebatido com firmeza uma série de questões, como o possível envolvimento direto com corrupção e as acusações de seu ex-companheiro e ministro, Antonio Palocci, Lula segue convicto de que o melhor a fazer para governar o país é conciliar interesses, chamar todo mundo para conversar e encontrar saídas.

Fica evidente para quem quiser acompanhar a íntegra da entrevista que as decisões de Lula são pessoais, acima do seu partido e do séquito que o acompanha e venera. Quando perguntado por que não saiu do país ou não pediu asilo político e permaneceu em uma embaixada estrangeira no Brasil, Lula respondeu: “Quero desmascarar Moro e Dalagnol, quero provar a farsa montada”.

Ou seja, mais importante que seguir fazendo política parece ser a sua “honra” pessoal.

Outras questões que confirmam seu personalismo podem ser extraídas de diversas passagens da entrevista, como: “Quem recuperou a autoestima do país e do povo brasileiro?”. Ou ainda: “Estou mais preocupado com o que está acontecendo com o povo brasileiro. Porque eu posso brigar, o povo nem sempre pode”.

Questionado sobre o processo eleitoral e a cassação de sua pré-candidatura à Presidência, Lula respondeu que todos os advogados garantiam que ele poderia disputar a eleição de 2019. E ainda arrematou: “Eu tinha certeza que ia ganhar as eleições de dentro da cadeia”. Isso só confirma que o PT e Lula subestimaram os objetivos de sua prisão.

Ao ser perguntado sobre o resultado das urnas, Lula foi enfático: “O PT provou que é o único partido político no Brasil”. Sobre corrupção, limitou-se a dizer que “pode ter havido, mas é preciso que se apresente provas”.

Sobre o papel das Forças Armadas no governo Bolsonaro, Lula adotou o tom de crítica aos comandantes das três forças: “Qual é a razão do ódio que eles têm do PT? Quero perguntar aos chefes das Forças Armadas se teve governo que fez mais por eles do que eu fiz”.

Será que alguém contou à Lula o papel das FFAA na História do Brasil? Talvez seja por isso que, ao contrário de seus colegas da Argentina, do Uruguai e Chile, Lula nada fez para punir os mandantes e torturadores da ditadura militar.

Num raro momento Lula admitiu que errou ao não regulamentar os meios de comunicação, depois de uma conferência em 2010 que discutiu o tema. Assim mesmo dividiu a responsabilidade com sua sucessora. “Deixei para a Dilma”, afirmou.

Mas o que marca a opção política de Lula como um político conciliador de classes, é a sua avaliação sobre a eleição de Bolsonaro. De acordo com o ex-Presidente, a elite brasileira deveria fazer autocrítica. Para Lula essa elite devia pensar: “A gente ganhou tanto dinheiro no governo Lula e o povo pobre vivia tão bem”.

As principais definições de como pensa e age o ex-presidente ficaram por conta de suas frases. Ao se referir aos seus governos, Lula disse: “Ninguém mais vai ter neste país a dupla de sindicalista e empresário na Presidência (referindo-se ao seu vice, o empresário José de Alencar)”. Quanto à Dilma Rousseff, Lula afirmou: “Nem todo filho repete o sucesso do pai”.

(*) Acompanhe a íntegra da entrevista pelo link https://www.youtube.com/watch?v=zCzco42kRAg