Toda vez que acontece um quebra-quebra, agências bancárias depredadas e outras escaramuças que descambam em formas violentas de protesto, volta à tona o debate sobre a infiltração de provocadores, visando à criminalização das manifestações e dos movimentos populares. Isso esteve muito em voga a partir de 2013, com o emprego da chamada tática black bloc nas manifestações de rua, por parte de grupos de jovens.

Alguns atribuem o uso das táticas bloc a anarquistas, outros a autonomistas. Temo que este debate esteja se sofisticando ou tomando tempo demais, quando o foco de nossas atenções deveria estar voltado para coisas bem mais importantes. Mas, já que o assunto voltou à pauta, vamos a ele.

Como até hoje ninguém conseguiu oferecer um estudo mais profundo a respeito ou sequer uma reportagem confiável que mostre esses grupos por dentro, pretendo apenas dar alguns pitacos.

1 – Infiltrados – Depois que recebi cópia de documento de um órgão de segurança em que constava meu nome e de um companheiro, com o relato de uma reunião ocorrida em São Paulo, durante os anos 90, no qual havia detalhes de tudo que fora discutido, cheguei à conclusão óbvia que o aparelho de repressão continua intacto, anos depois do final da ditadura militar. Portanto, certamente até hoje há infiltrados e provocadores em todas as organizações de esquerda e movimentos populares;

2 – Provocadores – Certamente há uma divisão de tarefas entre os agentes da repressão: alguns compilam dados e outros agem nas atividades de rua, os chamados provocadores. Eles existem para estimular o conflito violento com a polícia e a depredação generalizada. Assim, é possível construir e “provar” o discurso de que a luta popular é, por si só, violenta;

3 – Violentos – Se observarmos as lutas populares em todo o Planeta veremos que elas possuem características semelhantes. As manifestações de rua, por princípio, são sempre pacíficas e reivindicam algo concreto ou expressam um sentimento de repúdio a algo ou alguém (políticos, governos, etc). No entanto, as classes dominantes usam da violência institucional – autorizada ou não – para forjar o confronto e criminalizar as lutas e os movimentos insurgentes. São inúmeros os exemplos de experiências de luta em que há grupos que enfrentam a polícia: na Coréia usam escudos, capacetes e até porretes; na França são constantes os confrontos de rua nas recentes lutas contra as reformas neoliberais. Mas esses mesmos recursos muitas vezes são usados pela direita, como na Venezuela, muito mais violentos;

4 – Baderneiros – Outra característica do discurso midiático empresarial é taxar os que lutam de “baderneiros” e de baderna todos os protestos que denunciam os interesses do sistema. Assim, ao classificar a todos os manifestantes de “baderneiros”, a mídia pretende desqualificar as manifestações e as reivindicações populares;

5 – Vândalos – O mais recente adjetivo usado para classificar quem protesta é “vândalo”. Ao pé da letra “vândalo” é um povo de origem germânica, que por isso mesmo foi tratado de “bárbaro” pelo Império Romano, que então dominava a Europa e grande parte da África e Oriente Médio. No imaginário popular o “vandalismo” é confundido com atitude dos que danificam, deliberadamente, bens públicos ou privados ou, de forma mais objetiva, selvageria. Mas quem eram os “bárbaros”? Nada mais do que povos que foram massacrados durante séculos pelos civilizados romanos e decidiram se levantar para defender seu direito a existir livremente, enfrentando o Império.

6 – Depredação de patrimônio – Quando se trata de agências bancárias, ônibus urbanos e lojas de departamentos é bom lembrar que tudo isso está coberto por seguro. Portanto, os “prejuízos” são cobertos e a vida continua. Há coisas que fogem ao controle, como o quebra-quebra de prédios públicos, o que, de fato, constitui prejuízo para a sociedade. No entanto, os prejuízos alegados nestes casos são ínfimos, comparado ao prejuízo perpetrado por agentes públicos e corruptores, que assaltam cotidianamente o erário público.

A violência policial contra manifestações tem a ver com a velha forma das elites brasileiras em tratar os movimentos reivindicatórios como “caso de polícia”. Enquanto as classes dominantes encararem protestos de rua como “baderna” o tratamento que darão será o mesmo: porrada e bomba.

No caso do Brasil é preciso observar que a polícia militarizada é usada em larga escala nas incursões que redundam em feridos e mortos nas favelas e periferias. Só recentemente setores da classe média que participam de protestos estão sentindo na pele aquilo que já é regra para o povão.

Particularmente nunca fui dado a me apaixonar por táticas de luta que incluam qualquer tipo de violência. Encaro uma passeata como momento de protesto político. Não me preocupo com táticas de rotas de fuga, uso de pedras, paus, escudos, etc. Mas não condeno os que se enfrentam com a repressão, quando são atacados por de policiais em manifestações públicas.

As táticas black bloc se assemelham, de certa forma, ao ludismo, movimento nascido entre as primeiras levas de operários que, sem conhecer formas de organização e luta mais evoluídas, voltavam-se contra os patrões procurando dar-lhes prejuízo pela via da obstrução ou quebra proposital das máquinas. Obviamente, essa forma de agir se mostrou insuficiente e logo foi superada pela organização sindical.

Os que se incomodam ou têm receio de serem confundidos com infiltrados, provocadores, violentos, vândalos ou baderneiros devem ficar em casa ou, no máximo, assistir a tudo pela TV do botequim. Também podem adotar o protesto virtual como saída, assim ninguém se machuca. Para o sistema, estamos todos rotulados, sejam as nossas intenções as mais pacíficas ou não.

É corrente na esquerda um discurso de que agora não é hora de criticar Lula, Dilma e o PT, porque seria o momento de combater o inimigo comum, o golpe e os golpistas. Tenho sido um feroz opositor do golpe que levou Temer à Presidência desde antes de sua confirmação e seguirei combatendo com todas as minhas forças. Não é possível ceder um milímetro aos que justificam a ruptura institucional, sob a alegação de que o Brasil estava um caos e Dilma não tinha mais força para governar.

Bastou um ano de governo golpista para comprovar que as tais “pedaladas” não passavam de uma desculpa fajuta, uma armação fiscal patética, uma ilegalidade forjada para interromper o mandato de Dilma Rousseff. Pior: todas as medidas adotadas pelo governo Temer vão no sentido de restringir os poucos avanços sociais conquistados nos governos petistas e, o pior, retroceder em relação a conquistas históricas dos trabalhadores e do povo, no campo dos deveres do Estado, do trabalho e da Previdência. São medidas que visam aprofundar o abismo social e econômico entre as classes dominantes e a maioria de nosso povo.

No entanto, o papel da intelectualidade não é se limitar ao óbvio. Ao contrário, cabe aos pensadores estimular novas idéias, buscar as raízes dos problemas, apontar possibilidades e usar a crítica como instrumento de superação dos problemas.

Lula, Dilma e o PT são corresponsáveis pelo desfecho político que levou Temer à Presidência. Não pelo que fizeram em treze anos de governos, mas justamente pelo que deixaram de fazer. O discurso corrente na esquerda é que não se podia fazer mais, porque não havia uma correlação de forças favorável às mudanças desejadas no Congresso Nacional. É um argumento forte, não fosse pelo fato de que não temos um regime parlamentarista.

Hoje os correligionários de Lula e Dilma denunciam o Congresso Nacional, o STF e a mídia golpista. Na verdade reclamam de três poderes (inclui-se a imprensa como um quarto poder informal), mas o que foi feito nos treze anos de governos petistas para modificar ou, pelo menos, melhorar a qualidade desses poderes?

O que foi e o que não foi feito em treze anos

Ao contrário de firmar um programa mínimo de mudanças e exigir um compromisso com este programa da chamada “base aliada”, o PT preferiu centrar fogo nas vitórias eleitorais, embalado pelas peças publicitárias de marqueteiros, aceitando ao seu lado gatos, ratos e sapatos. Em vez de restringir o toma lá dá cá de verbas e cargos públicos, o PT manteve a mesma política dos governos anteriores e ainda se lambuzou com gente da laia de Delcídio do Amaral e André Vargas.

Ao contrário de nomear juristas progressistas para o STF, o que fez o PT? Colocou lá uma série de figuras que se revelaram mais reacionárias dos que lá já estavam. Nenhum sequer com uma postura independente, capaz de agir em defesa da legalidade.

Ao contrário de abrir um debate sobre o papel da mídia com a sociedade e de apresentar um projeto de reforma dos meios de comunicação de Rádio e TV (que são concessões públicas), engavetou o projeto tímido de Franklin Martins e seguiu enchendo as burras das grandes cadeias de comunicação privadas com propaganda oficial, as mesmas que apoiaram o golpe e fazem campanha aberta pelas reformas neoliberais do governo Temer.

Sequer uma auditoria da dívida pública (interna e externa), como prevê a Constituição, foi realizada. Não houve nenhuma iniciativa dos governos petistas em levantar a origem da dívida e a necessidade de sua renegociação, o que hoje custa um preço altíssimo ao país, comprometendo mais de 40% do Orçamento da União anualmente.

Mais do que isso: não houve a tentativa de aplicar reformas populares, que abrissem nova perspectiva social e econômica para o povo e o país. O PT optou por fortalecer os velhos grupos monopolistas brasileiros, do agronegócio, dos bancos privados, das empreiteiras, das comunicações, das montadoras de automóveis, do comércio atacadista, oferecendo subsídios e depois isenções fiscais a esses grupos.

As razões do golpe que conduziram Temer à Presidência

O que derrubou Dilma não foram os programas sociais ou o preconceito de parte da classe média, ainda que isso tenha certa importância, mas o fato de que seria necessário um governo disposto a assegurar os interesses do capital financeiro, em plena crise internacional do capitalismo, com reformas draconianas em curto prazo.

Depois de se refestelar com altos ganhos durante os governos petistas, em tempos de vacas magras o capital rentista exigiu, com sua “Ponte para o Futuro”, o fim dos investimentos públicos e a implantação de reformas que retirem e restrinjam os direitos dos trabalhadores.

O PT de Dilma, não podia cumprir este programa, pelo menos na dose cavalar desejada pelo capital, apesar de ter cedido além da conta com a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda e de aplicar um programa de medidas que levaram o país rapidamente à recessão, com queda da arrecadação e desemprego. Não podia porque não daria as costas ao seu eleitorado, mas boa parte das atuais reformas já estava em estudos e nos projetos do próprio governo Dilma, só que em doses homeopáticas.

Outro caminho era possível

Mas afinal, havia outro caminho senão o que foi adotado pelo comando petista nestes treze anos? Não existem fórmulas prontas, receitas infalíveis, mas um princípio poderia ser usado desde o início do primeiro governo Lula: fortalecer o papel da organização popular. Como? Dando aos movimentos sociais papel de protagonista em todas as frentes: da luta pelo meio ambiente à definição de uma política de plantio; da luta pela moradia ao papel de projetar e fiscalizar obras na construção de habitações; da luta pela democratização da mídia ao desenvolvimento de uma TV/Rádio públicas, com verba e programação criativa e popular; da luta pela fiscalização das concessionárias de serviços públicos, com transparência e prestação de contas; da democratização das empresas e órgãos públicos, com a eleição direta de seus dirigentes e transparência em sua gestão. Nada disso implica num programa socialista ou numa política idealista dentro de uma sociedade capitalista, mas num sistema de gestão que funcionaria a partir da participação popular, que levaria nosso povo a ter papel preponderante nas decisões de governo.

“Ah! Mas a burguesia não permitiria isso…”, podem retrucar. Talvez. Provavelmente outra forma de governar, mesmo sem significar um programa socialista, jogasse as forças reacionárias ferozmente contra o governo. Mas não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos, não se pode fazer política tentando ignorar os interesses opostos das classes sociais.

Seguirei aqui e em todos os espaços ao meu alcance combatendo o golpe que conduziu Temer à Presidência. Cumprirei meu dever de denunciar a farsa de processos viciados, que visam a penalizar Lula e Dilma por crimes que não cometeram. Mas me dou ao direito e me sinto no dever, desde já, de criticar o PT e seus líderes pelas opções que fizeram. E a opção que fizeram foi governar dentro dos estritos limites dos governos da burguesia, com suas instituições e métodos. O resultado está aí: poucos avanços que sequer arranharam as desigualdades.

A tão falada lista de Fachin, revelada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, tornou pública a existência de cerca de cem nomes de políticos de grande relevância no cenário nacional que estariam envolvidos em esquemas de financiamento de campanha e outros, de acordo com denúncias de executivos da empreiteira Norberto Odebrecht.

As gravações das delações de Marcelo e Emílio Odebrecht, além de outros dirigentes da empresa, mostram exatamente a promiscuidade das relações entre o poder econômico e o mundo político no Brasil. Como jogadores experientes, os dirigentes da Odebrecht cercavam por todos os lados para emplacar sua aposta na cabeça.

Não surpreende que ex-presidentes, ministros, senadores, deputados, governadores e prefeitos de partidos de direita se alimentem dessas relações, que desnudam o verdadeiro caráter de classe dos seus governos e mandatos: seus avós e pais estiveram e eles e seus filhos estão na vida política a serviço da conservação de um sistema que massacra os mais pobres e amplia os lucros dos mais ricos.

Mas é inaceitável que políticos historicamente ligados à esquerda estejam entre os acusados, seja em troca de pequenos favores seja por receberem dinheiro para financiamento de suas campanhas eleitorais. Não se trata de um problema moral, apesar deste elemento estar presente, mas de um compromisso de classe. Para se conquistar a frágil democracia que temos no Brasil algumas centenas de dirigentes e militantes de esquerda deram suas próprias vidas e alguns milhares foram presos e torturados.

Um dos motivos alegados pelos golpistas de 1964 para justificar a intervenção militar foi o combate à corrupção. Da lista dos que tiveram seus direitos políticos cassados figuravam, entre os primeiros, comunistas como Luís Carlos Prestes e Gregório Bezerra, trabalhistas como João Goulart e Leonel Brizola, e lideranças populares, como Francisco Julião. Todos tiveram suas vidas vasculhadas de cabo a rabo e nada foi encontrado que pudesse incriminá-los.

Gente de esquerda não aceita e nem procura financiamento de grandes empresas, simplesmente porque seu dever é lutar contra a ordem estabelecida, que dá a essas mesmas grandes empresas a liberdade de explorar seus trabalhadores, de atropelar o meio-ambiente, de realizar negócios em prejuízo do povo trabalhador, de sacrificar os interesses do país. Este é um princípio lógico, derivado de um compromisso de classe.

O PT não é o único partido no campo da esquerda que sofreu com este tipo de escândalo nos últimos tempos. A mesma coisa aconteceu com partidos social democratas da Europa, cujos dirigentes deram as costas para os trabalhadores e assumiram programas de reformas neoliberais. Depois foi possível apurar que alguns deles tinham relações mais do que amistosas com empresas e bancos.

No entanto, ainda resta ao Partido dos Trabalhadores uma saída honrosa, que poderia diferenciá-lo das demais gangues partidárias da direita. No momento em que todos os denunciados negam veementemente as acusações, caberia ao Diretório Nacional do PT aprovar uma resolução exigindo de todos que tiveram seus nomes citados nas delações de empreiteiras peçam licença dos respectivos cargos e mandatos que ocupam e que seus nomes sejam vetados de figurar entre os candidatos do partido nas próximas eleições, até que tudo seja esclarecido.

Diante deste gesto, mínimo a se esperar de um partido que diz ter compromissos com o povo brasileiro, seria possível pensar numa reorganização da esquerda brasileira. Até porque, direta ou indiretamente, as consequências de tudo isso respingam sobre toda a esquerda, dentro e fora do PT, em sua esmagadora maioria formada de gente que hipoteca sua vida à transformação da sociedade.

Faz tempo que apesar de depositar meu voto na urna em candidatos majoritários do PT (muito mais por falta de alternativas), tenho alertado para as posições conciliadoras desse partido e, sobretudo, de suas lideranças nacionais. Não faço isso para defender qualquer outra legenda, porque não estou ligado a nenhuma delas.

A ruptura institucional que levou Temer e caterva ao comando do Planalto serviu para deixar claras as intenções das classes dominantes e seus porta-vozes. Não há projeto de país, não há propósito de oferecer uma alternativa sólida para as futuras gerações, integrar os que estão à margem ou reduzir a distância entre os mais ricos e os mais pobres.

Ao contrário, a cada dia que passa o governo jeca de “mercado”, fruto de uma aliança do grande capital com as oligarquias regionais/baixo clero, empurra a sociedade brasileira para o abismo. Isso não parece novidade para ninguém e até os analistas mais conservadores já perceberam o desastre que este governo representa.

O que salta aos olhos dos mais atentos é a postura da cúpula do Partido dos Trabalhadores. Diante do escândalo da Petrobras, da corrupção deslavada das grandes empreiteiras e das práticas hediondas dos grandes frigoríficos, como responde o grupo dirigente deste partido?

Na tentativa de justificar a política que implantou nos 13 anos de seus governos, a direção do PT (com Lula na cabeça) sai em defesa dos “campeões nacionais” e dos “players internacionais”, representados por esses grupos econômicos.

O que se pode concluir da política que o PT faz hoje, para combater o governo Temer? No momento em que o partido teria que apresentar uma crítica e uma autocrítica de sua conduta, pelo menos para retomar o leme da luta popular, se presta ao papel de defensor do que há de mais nefasto do grande capital.

Isso tem consequências sérias na luta política. É sabido que Lula se prepara para concorrer à Presidência em 2018, o que é legítimo. O que se pergunta é: que política o PT e Lula pretendem para um próximo governo? A mesma dos governos anteriores? Seremos obrigados a ouvir a desculpa de que “não se governa sem alianças”, quando o problema não são as alianças, mas quais alianças, em torno do que e com quem? Vamos ver mais uma vez ministérios e empresas estatais dirigidas por velhas raposas, por indicação de corruptos?

Ora, em vez de Reforma Agrária vamos voltar a distribuir cestas básicas nos acampamentos de sem-terra e prestigiar o Agronegócio? Em vez de casas populares em regime de mutirão, com apoio material e técnico do governo, vamos retomar a construção de blocos de apartamentos do “Minha Casa Minha Vida” nas periferias, para agradar as grandes empreiteiras? Em vez de transparência na gestão da Petrobras, com a participação ativa dos petroleiros, vamos manter os cargos em confiança, indicados pelos partidos da “base aliada”? Em vez de debater um programa e metas a partir das organizações populares vamos centrar a luta política na figura de um candidato?

Não sejamos ingênuos. O Partido dos Trabalhadores nunca se propôs a ser um partido de ruptura com a ordem estabelecida, a não ser pequenos grupos em seu interior sem qualquer expressão popular.

Hoje, após 13 anos de governos, é possível afirmar que se trata de um partido social-democrata, portanto, uma agremiação política disposta apenas a pequenas reformas dentro do capitalismo, um partido de centro.

Não escrevo isso para ofender ou desmerecer quem quer que seja. A política não se faz pela cor das bandeiras, por discursos, pelos gritos de guerra ou palavras de ordem, mas pela prática, pelas medidas que se toma, pelas propostas que se apresenta e pelas alianças que se faz.

Portanto, cabe aos setores organizados, à juventude, os intelectuais e lideranças populares de esquerda se preparar para o embate político de 2018. Não que isso seja a prioridade do momento, até porque a esquerda socialista terá que trabalhar nas ruas e nas lutas contra o governo Temer, em aliança com o PT. Mas isso significa, desde já, levantar propostas concretas, dentro do possível num processo eleitoral.

Uma delas é exigir, seja qual for o candidato e o governo que saia das urnas de 2018, o compromisso de anular as medidas promovidas pelo governo Temer. Outra é retomar o debate das propostas populares para os grandes problemas nacionais: Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma Tributária, Reforma do Ensino, Reforma das Telecomunicações.

Interessante a polêmica gerada a partir da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal, que levantou fraudes na fiscalização do Ministério da Agricultura na fiscalização de 21 grandes frigoríficos brasileiros. De início provocou indignação generalizada na sociedade, por força das manchetes espalhafatosas da mídia e pelo fato de se tratar de um alimento de primeira necessidade.

Logo veio a reação do setor do agronegócio, que acionou seus porta-vozes no governo Temer para colocar panos quentes, como o próprio ministro da Agricultura, Blairo Maggi. E agora a reação dos mercados consumidores, como a Coréia do Sul, China e a União Europeia, que anunciam a suspensão da compra de carne dos frigoríficos envolvidos.

Uma ramificação do escândalo atinge, em cheio, o novo ministro da Justiça do governo Temer, Osmar Serraglio (PMDB/PR), que teria ligação direta com o chefe da fiscalização no seu estado, um dos implicados no esquema, e andou pedindo favores para aliviar a situação de um frigorífico local. Serraglio é um dos beneficiários de doação de campanha eleitoral da JBS, em 2014 (R$ 200 mil).

Há detalhes que precisam ser esclarecidos por especialistas, como as substâncias que teriam sido utilizadas pelos frigoríficos denunciados para disfarçar o prazo de validade da carne. Nem eu, nem qualquer leigo e nem a Polícia Federal temos a obrigação de conhecer detalhes técnicos a respeito. Mas o que deve ser destacado é que a operação vem sendo preparada há dois anos, a partir de denúncias feitas por servidores do próprio Ministério da Agricultura.

Os arautos da política dos “grandes campeões nacionais”, muito em voga durante o governo Lula, se mostram preocupados. Não sem razão, porque a disputa por mercados internacionais é parte fundamental da briga entre grandes grupos econômicos. É evidente que o escândalo da Carne Fraca abala a imagem dessas empresas, que exportam para inúmeros países.

No entanto, é possível afirmar que os produtos brasileiros exportados para mercados mais exigentes sofrem uma fiscalização mais efetiva quando chegam a outros países. Na verdade, a carne que está sob suspeita atinge em maior proporção o mercado interno e vai para a mesa do brasileiro.

No rastro do escândalo da Carne Fraca deveria aparecer uma série de problemas envolvendo os grandes frigoríficos no Brasil. Um deles é a forma como subordinam os pequenos produtores a regras de intensa exploração, outro é o uso de hormônios na produção de animais, além dos preços rebaixados que pagam pelo produto e tudo mais que se soma nesta cadeia de horrores.

O nacionalismo travestido de esquerda gerou deformações no movimento dos trabalhadores, como a tal “burguesia nacional” que teria contradições com o capital internacional (antigo PCB). Esta tese se comprovou falsa, quando a burguesia brasileira aceitou ser sócia minoritária do grande capital, na aliança que gerou a ditadura militar.

O governo Lula apostou em grandes grupos econômicos, que formam oligopólios no Brasil, para disputar os mercados internacionais. Não estava errado, em se tratando de um projeto que jamais pretendeu questionar a estrutura desigual e oligopolizada da economia brasileira.

Mas foi só a crise econômica internacional impor dificuldades aos negócios desta gente para ela mandar o PT às favas. Afinal, grandes empreiteiras e frigoríficos sempre doaram para os caixas 1 e 2 de campanhas eleitorais do PT, PMDB, PSDB, DEM, PP, indistintamente. Essa gente só tem interesse em seus negócios, nunca teve pátria ou preocupação social alguma.

Em vez de se incomodar com as consequências da Operação Carne Fraca para os “campeões nacionais” e a economia capitalista no Brasil, parte da esquerda brasileira deveria estar atenta à necessidade de quebrar a oligopolização do setor, que impõe uma produção a custo baixíssimo, de produtos de qualidade questionável e um processo que só pode ser avalizado por uma burocracia corrupta, subordinada a grupos políticos atrasados, como os que mandam no Brasil de Michel Temer.

Para que servem os meios de comunicação? Informar, analisar, promover o debate a partir de fatos e acontecimentos de interesse geral da sociedade. Se não for para isso, que papel social esses canais podem cumprir?

Infelizmente, no Brasil e no mundo, os compromissos financeiros dos proprietários dos canais da mídia empresarial, que sobrevivem de concessões públicas, acabam por falar mais alto. Em pleno Dia Nacional de Lutas contra as reformas trabalhista e previdenciária (15/3/2017), só o que essas empresas conseguem mostrar são os transtornos das paralisações, sobretudo as dos transportes coletivos. Como se transtornos nos transportes e no trânsito não fossem parte do dia a dia da população nas principais capitais brasileira.

O discurso, surrado e modorrento, apela para o senso comum: “O direito de ir e vir do cidadão está sendo desrespeitado”, repetem os âncoras de Rádios e TVs. O envergonhado Ricardo Boechat, que sabe muito bem o que representam essas reformas e os estragos que elas poderão causar aos “cidadãos”, caso sejam aprovadas pelo Congresso Nacional, não perde a oportunidade para atacar os servidores públicos e de estatais.

A tentativa é jogar a população contra os setores mais organizados da sociedade, uma atitude leviana e perigosa. Ora, senhor Boechat, como jornalista não vejo o grupo o qual o senhor representa dar vez ou voz a inúmeras organizações da sociedade civil, que se colocam abertamente contra e apresentam argumentos sólidos sobre as reformas do governo. Onde está o direito ao contraditório, beabá do jornalismo?

Qual deveria ser o papel de um apresentador de rádio e TV que se confessa “ignorante” ou “confuso” sobre o assunto, pelo menos durante as manhãs em que comanda o noticiário da Band News? Promover o debate sobre o tema, dando espaço igual para os que têm argumentos a favor e contra essas reformas.

É fácil dar uma de paladino da indignação do “trabalhador” e da “dona de casa”, pretensamente prejudicados pelas manifestações promovidas por um punhado de servidores públicos. Difícil é contrariar a vontade dos donos de emissoras de Rádio e TV, cada vez mais agraciados com verbas públicas da propaganda oficial do governo Temer. Ou será que existe argumento mais convincente que esse para justificar uma abordagem tão antiprofissional nos principais canais da mídia empresarial brasileira?

Vamos parar com essa demagogia! Basta observar os dados da tabelinha abaixo, elaborada pelo site O Cafezinho a partir das informações da Secretaria de Comunicação do governo federal, para entender como a banda toca na mídia empresarial brasileira.

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*O autor deste artigo foi comentarista do Programa Boca Livre durante 17 anos, primeiro na Rádio Bandeirantes AM, depois na Rádio Tropical AM do Rio de Janeiro.

1 – Você já viveu o suficiente para saber que não vai ficar rico de trabalhar e nem precisa mais de elogios de chefes para tocar sua vida profissional, ainda que isso seja sempre bom. Relaxe,  faça sempre o seu melhor, mas encerre suas atividades quando tirar o pé do seu local de trabalho.

2 – Evite comer bobagens e tomar todas, porque seu organismo já não está em condições de enfrentar grandes desafios. Além disso, lembre-se que é na meia-idade que as principais ameaças à saúde do homem podem atacar de forma inesperada (ataque cardíaco, AVC, câncer de próstata, etc).

3 – Faça exercícios o suficiente para o gasto. Nada de exageros, de querer parecer garotão, saradão, ou achar que pode vencer competições esportivas. Caminhada num ritmo adequado e umas pedaladas podem ajudar. Não esqueça os exames de sangue e de próstata periodicamente.

4 – Na sua idade o sexo é quase sempre bom ou muito bom. Você já sabe controlar a ansiedade, sabe que sexo exige cumplicidade, que ela também tem que gozar (de preferência mais que você) e você só tem um tiro. Portanto, muita preliminar, massagem e tudo que puder proporcionar à sua namorada, esposa ou parceira.

5 – Dê preferência às mulheres maduras. Elas estão buscando homens mais seguros de si, que saibam o que querem. Você não está imune às tentações de mulheres mais jovens, mas tenha sempre em mente que, em geral, elas te enxergam como um troféu, um petisco, e não como algo sério. E isso pode ser uma roubada.

6 – Nada de estresse com os filhos. Eles hoje querem tudo da forma que acham que é a melhor e na mesma hora. Eles que esperem um pouco. Faça somente o que puder e dentro do seu tempo. Nada de ceder a chantagens emocionais do tipo “é isso agora ou não é nada”.

7 – Conversar é bom demais, principalmente com amigos(as). Converse sobre tudo, você já tem bagagem e vivência suficiente para ter suas próprias opiniões, sem deixar de ficar atento a outras, é claro. Se gostar de uma cervejinha para acompanhar o papo, bom. Se preferir um vinho ou uma caipirinha, melhor ainda.

8 – Para quem gosta de debater política o momento exige muita paciência. Tem gente que nasceu ontem e acha que já entende de tudo. Em sua maioria são superficiais em suas análises e resumem a realidade a uma leitura binária: bons x maus; petralhas x coxinhas.

9 – Defenda as causas que achar fundamentais, mas com argumentos sólidos, sem personificar suas críticas. Assim mesmo não perca a linha e nunca, mas nunca mesmo, apele para palavrões e agressões. Sua firmeza advém da calma dos que sabem do que estão falando ou mesmo dos que não têm vergonha de reconhecer seus equívocos.

10 – Mantenha sua casa minimamente em ordem. Você pode receber a visita de amigos, levar sua amada, ser surpreendido pelos filhos. Nada de roupa suja acumulada pelos cantos e cozinha com louça para lavar. Geladeira com o suficiente para o dia a dia. Banheiro em condições de uso para você e suas visitas.

11 – Quando estiver se sentindo só, pegue o carro e saia para dar uma volta. Sem carro? Vá a um cinema, convide um(a) amigo(a) para conversar fiado. Caminhar na beira da praia ou num parque é bom para tudo: espairecer e exercitar os músculos. Um bom filme em casa também ajuda.

12 – Retome a possibilidade da paixão por uma mulher, por seus filhos, pelos hobbies que você sempre quis cultivar e até pelo seu clube de futebol. São momentos de raro prazer e até decepção, mas que precisam ser vividos com toda a intensidade. Nada melhor que experimenta-los na meia idade.

13 – Viaje de preferência acompanhado. Um passeio a uma cidade do interior ou a uma praia podem ser verdadeiras aventuras a dois, mesmo que o outro seja um velho amigo. Se puder viajar com alguém mais chegado, como sua namorada ou esposa ou seu filho, melhor.

14 – Cuidado com as armadilhas da interatividade digital. Se conhecer alguém que lhe pareça interessante, não perca tempo e tente convence-la a um papo presencial. Pode dar tudo certo ou tudo errado. Não se iluda com as maravilhas da internet, o mundo real é aquele que você enfrenta todos os dias, no qual as pessoas não podem esconder seus problemas e suas virtudes.

15 – Faça planos factíveis, nada de coisas mirabolantes como construir aquela casa dos sonhos ou viajar por 10 países em 20 dias. Vá no seu ritmo, um passo de cada vez. Se precisar repensar ou mudar de planos não se sinta frustrado, a vida é uma construção cotidiana.

16 – Não perca seu tempo com mágoas, ódio e rancores. São sentimentos que só machucam quem os cultiva. Use o que puder para se livrar deles: uma carta, um e-mail, um post ou mesmo um papo franco. Não deixe nada disso pesar na sua consciência, procure estar sempre leve e em paz consigo mesmo.

17 – Ambicione só o que você sabe que pode e precisa ter. Nada de consumir por consumir, se endividar ou acumular bens que raramente serão usados. Nada de carrões do ano e outras babaquices.

18 – Prefira as coisas (roupas, lugares, etc) confortáveis e práticas, deixe de lado as formalidades dos que precisam se afirmar pela embalagem, porque você só precisa de conteúdo. Também não convém ser desleixado…

19 – Lembre-se, você já foi bonito ou bonitinho. Hoje você está mais para charmoso ou gostoso. Nada de se achar porque você não está em condições disso. Chegue devagar, nada de investidas radicais e empreitadas arriscadas em ambientes desconhecidos.

20 – Se você encontrar uma mulher bacana trate-a bem, com paciência e carinho. Mas, se por acaso for alarme falso, vá adiante, siga em frente que a probabilidade de encontrar quem você deseja é grande nesta fase da vida.

 

*de Thomas Craveiro

Estranho a reação da maioria da esquerda brasileira diante das mobilizações e protestos de policiais militares. Uma parte condena e outra se omite, poucos se dignam a apoiar o movimento. Ora, em que sentido a defesa de reivindicações mais do que justas, como melhores salários, pagamento de salários e gratificações atrasadas, pode alterar a convicção de que é preciso desmilitarizar a Polícia?

Por que não se pode apoiar e ser solidário aos policiais e seus familiares, justamente quando se enfrentam com governos estaduais e o próprio governo Temer? Isso impede o debate sobre o fim da estrutura militar, a necessidade de uma policial civil técnica, subordinada a regras e controles democráticos?

O fato concreto é que essas mobilizações (sobretudo no E. Santo e Rio), capitaneadas pelas esposas e parentes dos policiais, demonstram a insatisfação de boa parte da tropa com a política de segurança pública dos governantes e com o oficialato. Agora já se espalha o boato de que uma parcela dos homicídios cometidos no E. Santo, durante os dias de mobilização da PM, teriam sido cometidos por grupos de extermínio formados por policiais.

Outra forma de atacar o movimento é dizer que os mesmos policiais militares que não estão em serviço nas ruas, aproveitam a paralisação para fazer bicos em empresas de segurança privada. Se quisessem acabar com essas empresas os governantes não tolerariam e nem legalizariam o “bico”. Mas as classes dominantes não podem passar sem a segurança privada e preferem incentivá-la que oferecer condições dignas aos PM. Ao contrário, oferecem o “bico” como solução, mantendo os policiais ainda mais reféns desta estrutura perversa.

Isso é típico da covardia mais vil das classes dominantes. Quando é para fazer o trabalho sujo usa a PM como capatazia para qualquer serviço, inclusive reprimir greves e manifestações populares, mas quando os policiais decidem se insurgir contra baixos salários e péssimas condições de trabalho, investem na criminalização da tropa junto à sociedade.

A maior demonstração disso é a tentativa de impedir que o movimento se alastre a outros estados, através do envio de um Projeto de Lei ao Congresso Nacional, que visa “regulamentar” greves nos “setores essenciais” e criminalizar qualquer movimento dos policiais.

Há quem acredite que a luta dos PMs e seus familiares prejudica mais a população pobre. Trata-se de um argumento frágil, porque os trabalhadores e suas famílias vivem em seu cotidiano nas favelas e periferias entre a repressão policial e da bandidagem.

Fui, sou e sempre serei um crítico contundente da militarização da polícia. Sempre que debato o tema defendo (como indica que é a vontade da maioria dos policiais em inúmeras pesquisas) o fim da Polícia Militar, a formação de uma única polícia civil, profissional, com formação superior, bem remunerada e treinada, voltada ao combate de crimes comuns.

Cansei de denunciar no rádio e em inúmeros artigos as barbaridades da violência e da corrupção policial, sobretudo das polícias militares nas áreas de favelas e periferias. Os maiores adversários dessas posições são os porta-vozes das elites, que confundem isso propositalmente com a defesa dos bandidos e dos direitos humanos acima da lei.

E agora? Onde estão os defensores dos “justiceiros” fardados? Estão do lado dos governantes reacionários, como Temer, Raul Jungmann, Paulo Hartung e Pezão. A eles se somam os responsáveis maiores pela grande rede de corrupção que impera nas PM: parte dos comandantes e do oficialato, que complementam sua renda com o “arrego” de traficantes e motoristas.

Alguns fazem vistas grossas e até tem interesses na formação de grupos de milicianos, nova modalidade de exploração das populações das favelas. São eles os sócios de empresas privadas (quase sempre em nome de familiares) de segurança, das empresas de reboque, de outras que prestam serviços nos quartéis e que vivem do achaque da população e da bandidagem (arrego) e da corrupção.

É evidente que as polícias são estruturas e corpos especiais de repressão do Estado burguês, como bem frisou V. Lenin em seu “O Estado e a Revolução”. Mas isso não impede que até mesmo dentro das polícias surjam contradições com governantes e suas políticas reacionárias. No entanto, é preciso observar que, diferentemente da época em que os policiais eram recrutados sem critérios objetivos, hoje eles são servidores públicos concursados.

Os baixos salários, as más condições de trabalho e o atraso de pagamentos têm a ver com a política econômica recessiva do governo, o arrocho salarial que atinge a todo o funcionalismo público e a corrupção reinante dentro e fora dos quartéis.

Obs: Incluo no rol de esquemas de corrupção que envolve setores da PM os acordos com o jogo do bicho e a exploração de caça níqueis.

O movimento dos policiais militares do Espírito Santo gera insegurança e uma polêmica grande em torno da política de segurança pública. São sete anos de salários congelados, o menor de todo o país. Só se fala do número alarmante de homicídios durante os dias do movimento, mas pouco se discute as reivindicações dos policiais.

Um setor da mídia empresarial tende a amenizar as consequências da paralisação, reforçada pelos parentes dos policiais, tratando a questão com cautela. Evidentemente esta posição procura jogar tudo nas costas dos grevistas, deixando de lado qualquer crítica política ao governo do ex-tucano e atual pmdbista, senhor Hartung.

De outro lado, um setor mais conservador da sociedade aproveita o conflito para apostar no pânico e na lógica de que o país necessita mais ainda de uma força policial militarizada. Para isso, divulga dados exagerados e não confirmados sobre o número de homicídios ocorridos durante o movimento, associando esta situação a boatos e ao caos.

É evidente que todo tipo de delito tende a crescer numa situação destas, inclusive os homicídios. Afinal, a ausência de uma força policial nas ruas torna mais fácil a atuação da bandidagem. Mesmo os conflitos entre familiares e vizinhos, os acertos de contas, tendem a crescer nessas circunstancias. Até mesmo os saques e quebra-quebras são comuns nestas condições.

A depender da forma de abordagem da situação ela pode gerar pânico e a sensação de que a solução seria aumentar a militarização da sociedade, agregando forças militares e até uma guarda municipal armada ao patrulhamento cotidiano das ruas.

Ao contrário deste discurso histriônico, poucos países adotam o modelo da policia militarizada semelhante ao do Brasil. Aqui chegamos ao absurdo de termos duas polícias, uma civil (voltada para a investigação e judicialização) e outra militar (voltada para a repressão ao crime e aos conflitos sociais).

Enquanto houver sociedade dividida em classes, a classe dominante apelará sempre à força organizada do Estado para manter o status quo. E a polícia, como corpo especial de repressão, tem papel fundamental nisso. Por sua vez, a ausência de uma força policial gera as condições para que a criminalidade aja de maneira mais extrema.

Isso não significa que a solução é uma polícia militarizada, ainda mais armada, com carta branca para planejar e agir da forma que bem quiser, de acordo com seus comandantes militares, com uma justiça própria e estrutura verticalizada.

A experiência brasileira vem demonstrando que a militarização da polícia torna seu controle social inexistente. Isso se acentuou ainda mais durante a ditadura militar, quando as PM foram usadas como tropas auxiliares de repressão aos grupos de oposição ao regime.

Com o fim da ditadura, as PM – assim como as Forças Armadas – permaneceram intactas, com a mesma filosofia de repressão ostensiva, só que voltada para a repressão generalizada contra, sobretudo como instrumento de contenção nas periferias e favelas, regiões onde a presença do Estado é praticamente nula.

A PM age de acordo com seus princípios e não presta satisfação de suas ações, inclusive os crimes praticados contra a população civil e a corrupção de seus comandantes e da própria tropa. O número de homicídios praticados por policiais militares e a quantidade de delitos envolvendo policiais é assustador, a ponto da ONU recomendar o fim da polícia militarizada no Brasil.

A crise da PM do Espirito Santo só fortalece a necessidade de um debate profundo sobre qual é a segurança pública que queremos. O fim da polícia militarizada não é o mesmo que o fim de qualquer polícia. Ela pressupõe a existência de uma polícia bem formada, investigativa e bem remunerada, instrumento eficaz no combate à criminalidade organizada.

O país terá que escolher se prefere manter uma polícia semelhante à velha capatazia a serviço das classes dominantes, dos tempos da colônia e do Império, ou se quer uma polícia técnica e preparada para uma política de segurança inteligente.

Ligo a TV num dia de semana entre 19:30h e 23h, no canal a cabo de notícias das Organizações Globo. Assisto a um programa que deveria se pautar pela apresentação e debate dos assuntos mais importantes do dia. No entanto, o que se passa? Três abobalhados, comandados por um pateta, passando receitas e impressões imprecisas sobre assuntos da maior importância, como se o telespectador fosse um idiota, incapaz de identificar as alucinações dos comentaristas. Um deles chega a recitar poema de um autor norte-americano que ele mesmo traduziu.

Segue-se um programa sobre aplicações financeiras e as reações do “mercado” às decisões econômicas adotadas no Brasil e no Mundo. Fico pensando: quem assiste a isso? Mais tarde vem o jornal da emissora, no qual outra equipe de comentaristas se reúne para aliviar Temer, tricotar suposições e dar palpites sobre os próximos passos a serem dados pelo Planalto, em meio aos escândalos apurados pela Operação Lava-Jato. Em dois minutos qualquer um percebe que a linha editorial visa rolar macio quando e trata do governo e crucificar as oposições.

Ora, o que há de jornalismo nisso? Muito pouco. E é justamente por isso que se entende a crise do jornalismo. Mas de qual jornalismo? Os fatos estão aí, ocorrendo em todos os lugares mundo afora. As ferramentas para captá-los estão cada vez mais ágeis. As técnicas de apuração, redação e edição continuam válidas, atuais, no que tange à construção de matérias. Aliás, a palavra “matéria” dá bem o sentido do objeto do jornalismo. Hoje, com uma câmera de celular se pode filmar e difundir um acontecimento da maior importância quase que instantaneamente.

O que está em crise é o jornalismo empresarial, aquele em que a própria empresa de comunicação confunde propositalmente os seus interesses com os da sociedade, como se fossem um só, de maneira a obter vantagens.

Ou seja, prevalece uma linha editorial/empresarial do veículo ou do grupo ao qual o veículo de comunicação pertence, o que não seria novidade, visto que se trata de empresas privadas. Mas agora não há nem a tentativa de dar um tom de neutralidade na abordagem das matérias, para não falar dos comentaristas escolhidos a dedo (os tais “especialistas”) para emitir opiniões, quase sempre coincidentes com a linha editorial da empresa.

A aparência continua sendo de trabalho jornalístico, mas as técnicas de edição, o tom de voz de repórteres e apresentadores, o viés dos comentários fortalece sempre o ponto de vista adotado de dentro das redações para fora. Ou seja, os fatos servem apenas para comprovar ou ilustrar as teses empresariais e políticas adotadas pelas empresas de comunicação, seus dirigentes e vassalos.

E o que resta aos profissionais de imprensa que trabalham nestas empresas? Aos mais conscientes lamentar e, provavelmente, buscar refúgio em atividades extras. Há também os que preferem adotar o tom cínico, sempre alegando que trabalham ali porque precisam sobreviver. E há os que embarcam na política da empresa para construírem suas carreiras.

O jornalismo empresarial brasileiro do século XXI mudou sua forma de observar e publicar as matérias em relação ao dos anos 60 a 90 do século XX. Antes o jornalista era um intelectual de classe média baixa, suburbano, boêmio, geralmente um desses malucos que gostavam de ler e escrever, que aprendiam a profissão catando milho e encaixando seus textos nos espaços das páginas dos jornais. Sua vivência era nos botequins, tomando café nos balcões dos bares, conversando fiado e observando os assuntos do dia nos comentários dos populares. Ali, nas esquinas das grandes cidades, nas subidas dos morros, nas estações de trem e pontos de ônibus fervilhavam as fontes para as pautas do dia, que seriam discutidas mais tarde nas redações, gerando as matérias do dia seguinte.

O jornalismo feito a partir da observância dos fatos do cotidiano tinha papel muito mais relevante que as opiniões emitidas em editoriais, que refletem apenas as preocupações dos seus proprietários. Um jornal vendia nas bancas pelas suas manchetes, a partir de fatos concretos e importantes para os leitores. A exigência de formação acadêmica, através das faculdades de Comunicação, veio a qualificar os profissionais de imprensa. Mas em absoluto significava inverter a lógica da razão de ser do trabalho jornalístico: o fato, a matéria antes da opinião.

Esta inversão (uma espécie de “editorialização” do jornalismo) foi possível graças a certa elitização dos jornalistas, depois que a profissão foi reconhecida e a imagem da TV passou a dar status a uma parte minoritária da categoria. Isso tornou o profissional de imprensa um ser diferente, descolado da realidade concreta das ruas. Seu ambiente natural passou a ser os bairros de classe média alta e os espaços reservados a uma elite da sociedade.

A redução do efetivo profissional, a pretexto da implantação de novas tecnologias, criou redações enxutas, repletas de “sabichões”, yuppies da comunicação, vaidosos e com suas teses sobre tudo e todos. O que cresceu nas empresas de comunicação foi o setor de publicidade e vendas.

Os poucos repórteres de rua só chegam ao fato depois que ele foi comunicado às redações. Poucos procuram os fatos a partir de suas fontes, no máximo são chamados a testemunhar o que acontece. Saem das redações pautados previamente, com perguntas que tendem a extrair dos entrevistados o que seus chefes esperam das matérias. A abordagem é quase sempre superficial, até porque o tempo para apurar e editar três ou quatro matérias por dia é pequeno. Na verdade a maioria das pautas é pensada a partir das ideias que brotam dos aquários das redações, onde ficam as chefias.

O que explica a crise do jornalismo empresarial é a apropriação do jornalismo e sua transformação apenas num grande negócio. No afã de conquistar mercados e anunciantes, as empresas passaram a vender opiniões para a sociedade, mascaradas de jornalismo. Em contrapartida, o mundo real dos simples mortais é cada vez mais feroz, em ritmo alucinante. A juventude manuseia com facilidade as novas tecnologias nas redes sociais e, a seu jeito, aos trancos e barrancos vai “furando” as redações, com suas pautas desconcertantes, baseadas na realidade das pessoas e dos fatos do cotidiano.

Deste confronto de propósitos, abordagens e formas de editar as matérias surge também um conflito objetivo, por vezes levado às vias-de-fato nas ruas. Isso não é novo: desde o final da ditadura carros de emissoras (sobretudo da Globo) eram virados e queimados durante manifestações de massas. O slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” vem da década de oitenta. E muitas vezes o profissional é confundido como agente dos interesses da empresa para a qual trabalha, sofrendo ofensas e até agressões.

Claro está que um jornalismo de opinião nada tem a ver com o jornalismo original (palavra que tem origem italiana em giornale, giorno ou giornata). O dia, a jornada, o jornalista e o jornal são frutos de atividades concretas, vivas, quentes, pulsantes. Isso pressupõe uma cobertura de rua, sempre de olho na realidade social e, por consequência, no conflito, em pequena ou larga escala.

Não se pode prever o que será dos veículos de comunicação, mas a estratégia empresarial de sobrevivência aposta numa simples migração para o meio digital, via Rede Mundial de computadores, com a redução do meio impresso. O Rádio AM e FM é outro veículo que sofre com as mudanças tecnológicas, como se verifica no fechamento de emissoras do Rio.

Seja qual for o meio, o que pode dar novo fôlego e vigor ao jornalismo é a inversão da lógica meramente empresarial e o retorno às ruas, onde os fatos acontecem. E este jornalismo precisa cada vez mais de repórteres, dispostos a ouvir e a apurar atentamente os fatos, as distintas versões e a retratá-los da forma mais fiel possível para os internautas, espectadores, ouvintes ou leitores.