metrooriginalMapa do projeto original do Metrô do Rio 

Tudo bem, admito que é difícil ser contra o que costumaram chamar de “progresso”. Ainda que esse “progresso” custe as casas e a história de milhares de pessoas que moravam nos arredores da Vila Olímpica ou dos novos corredores expressos do BRT, incontáveis horas de atrasos e engarrafamentos de centenas de milhares de cariocas e moradores da Baixada, Zona Oeste, Niterói e São Gonçalo que precisam transitar pela Avenida Brasil e a Ponte.

O tal “progresso” nos impõe ser sede dos Jogos Olímpicos, assim como fomos recentemente da Copa do Mundo. É o mundo dos megaeventos, das grandes arenas, dos novos esportes vendidos em grandes estruturas circenses, com seus mega patrocinadores e a sua mega mídia, ávida em nos mostrar a “emoção” dos atletas por algumas semanas.

A que ponto chegou a irracionalidade desse verdadeiro “bota abaixo” do século XXI, promovido pela Prefeitura e o Governo do Estado. O autódromo foi para o espaço e de quebra a Vila Autódromo, vizinha da Vila Olímpica, teve que sumir do mapa. Afinal, Vila Olímpica não é lugar para pobre fedorento, como diz aquele megaempresário da construção civil que vai herdar milhares de metros quadrados da Barra, em empreendimentos imobiliários, assim que os jogos encerrarem.

Isso se levarmos em conta que o Estado encontra-se em situação caótica, a partir de previsões de arrecadação de royalties que não se confirmaram, com a queda dos preços do barril do petróleo no mercado internacional. Somem-se a isso os R$ 138 bilhões de incentivos fiscais concedidos nos últimos anos a grandes empresas que se instalaram no Rio e patrocinadores de campanhas eleitorais.

Em plena crise de falência dos cofres públicos, dilapidados pelas gordas quantias investidas em obras faraônicas que vão virar sucata depois dos Jogos, o governador interino consegue R$ 2,9 bilhões do governo federal para concluir as obras da linha 4 do Metrô e garantir a segurança nas Olimpíadas. Já os salários dos servidores estaduais, bem como de aposentados e pensionistas, está sendo parcelado e pago com atrasos que causam inúmeros prejuízos ao funcionalismo.

Agora pare e pense: a quem a obra da linha 4 do Metrô vai beneficiar?

Basicamente às pessoas que se deslocam da Barra/São Conrado para o Centro do Rio e vice-versa. A grande massa dos trabalhadores que presta serviços na Barra e São Conrado vive nas comunidades daquela região: Rocinha, Vidigal, Rio das Pedras, Cidade de Deus. Portanto, esses não necessitam de Metrô para se deslocar, porque são atendidos por linhas de ônibus naquele trecho.

Tampouco a outra parte de trabalhadores que precisa sair da Baixada, Zona Oeste e São Gonçalo para a Barra o fará pela Linha 4, o que demandaria um tempo absurdo de viagem, ainda mais tendo como opções o BRT e a Linha Amarela que, pelo menos em tese, deveriam facilitar o deslocamento.

Pois bem, quem vai se beneficiar com a Linha 4 do Metrô do Rio, tal como ela está desenhada, é a classe média alta da Barra e São Conrado, que se desloca ao Centro do Rio para trabalhar, além dos seus filhos, da PUC. É isso mesmo, o Metrô, que deveria ser um transporte de massa, vai consumir bilhões dos cofres públicos em obras superfaturadas para beneficiar uma ínfima minoria da população do Rio.

Originalmente a Linha 4 sairia da Carioca (Centro), passando por Laranjeiras, Botafogo, Humaitá até a Gávea, dali podendo fazer a futura integração com a Barra. Mas o governo do Estado deixou o desenho original de lado e optou por fazer da Linha 4 uma extensão da Linha 1, o que diminui as opções e pouco ajuda em desatar o nó do trânsito da Zona Sul, o que seria desejável para a cidade.

Pior ainda, abandonou a idéia inicial de ligar a Zona Oeste do Rio (Jacarepaguá) a São Gonçalo através do Metrô, sob a Baía de Guanabara. Optou por essa extensão da Linha 1 até a Barra, que chamou de Linha 4, deixando de fora a grande massa gonçalense que todos os dias perde horas no deslocamento entre as duas cidades, usando as barcas ou ônibus pela Ponte Rio Niterói.

E tudo isso ao custo astronômico de R$ 9,7 bilhões, dos quais R$ 6,6 bilhões foram financiados pelo BNDES, 70% a mais do que a previsão inicial de R$ 5 bilhões. Isso sem contar o aditivo de última hora, estimado em R$ 900 milhões para a conclusão das obras.

O projeto original fora orçado em 1998, para ser concluído em 2003, ao custo de R$ 392 milhões pelo consórcio Rio Barra S.A. Porém, há cálculos que indicam a possibilidade dos gastos totais chegarem a R$ 19 bilhões de reais, só para concluir o trecho de 16 km e seis estações.

Formam o consórcio Rio Barra SA dois consórcios: 1) Consórcio Construtor Rio Barra, formado por Queiroz Galvão (líder), Odebrecht Infraestrutura, Carioca Engenharia, Cowan e Servix; 2) Consórcio Linha 4 Sul, formado pela Odebrecht Infraestrutura (líder), Carioca Engenharia e Queiroz Galvão.

O traçado original do Metrô do Rio (projetado em 1968) previa 67 quilômetros de extensão, 54 estações e três ramais que cruzariam a cidade, com conexões com a Baixada (Linha 2 – Pavuna), Zona Oeste (Linha 3 até São Gonçalo) e Linha 1 (Zona Sul a Tijuca), todas conectadas pelas estações do Centro. Este era o desenho de um Metrô democrático, porque atenderia ao grosso da população do Rio e Grande Rio, e racional, porque desanuviaria o trânsito da cidade.

Enfim, a Linha 4 do Metrô, que não é mais do que uma extensão da antiga Linha 1 e vai beneficiar uma minoria dos cariocas, é passado à opinião pública como o grande legado das Olimpíadas. Obra superfaturada, construída pelas mesmas empreiteiras de sempre e com a assinatura corrupta do velho e conhecido PMDB.

* Em conversa com um sindicalista metroviário soube que o quilômetro construído na Linha 4 custou, em média, R$ 800 milhões, o mais cara do mundo. Outra pérola da nova obra é que ao lado da Estação General Osório, em Ipanema, foi construída outra estação, de forma que os passageiros que chegarem da Linha 1 terão que sair da composição e entrar nesta nova estação para seguir pela Linha 4.

A União Européia, fundada oficialmente em 1993, foi planejada como bloco econômico e político para se contrapor aos avanços dos EUA e do bloco asiático, capitaneado até então pelo Japão. Eram ainda os primórdios da mundialização do capital ou da globalização econômica.

No entanto, como projeto pensado e executado sob a égide do capital, a UE teve como principal objetivo servir às estratégias de expansão dos grandes conglomerados econômico-financeiros europeus. A frente deles os grandes bancos alemães e franceses, aos quais se aliaram, mais tarde, as grandes empresas britânicas.

Sob a pressão do grande capital, os países mais pobres da Europa aderiram ao projeto da União Européia. No entanto, tiveram que adotar uma série de ajustes exigidos pela Troika (União Europeia, Banco Central Europeu – BCE – e FMI), que exigiu limites nos investimentos públicos, privatizações, redução de direitos trabalhistas e previdenciários, aumentos de impostos e congelamento de salários.

Ao mesmo tempo, os preços de produtos agrícolas deixaram de ser subsidiados em diversos países e os pequenos produtores e comerciantes passaram a depender do crédito privado, enfrentando em seus países de origem a concorrência da inundação de produtos de países vizinhos e das grandes empresas atacadistas e comerciais europeias.

Para realizar essa política os governos europeus que aderiram ao bloco ampliaram suas dívidas públicas, tornando seus países reféns dos grandes bancos alemães e franceses, principais credores dessas dívidas. Quando a crise imobiliária norte-americana chegou à Europa, a partir de 2008, contaminando primeiro as empresas de capital britânico com investimentos nos EUA, e depois todo o sistema, veio a falência de diversas empresas e o desemprego em massa.

Para se defender, assim como fez nos EUA, o capital financeiro cobrou dos Estados a recuperação das instituições bancárias e de crédito. Bilhões de euros foram carreados para ajudar aquelas instituições. E foram essas mesmas instituições financeiras que passaram a cobrar a fatura dos empréstimos concedidos aos estados mais pobres da UE, o que desembocou numa crise que atingiu diversos países, como Itália, Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia.

No caso da Grécia, a Troika agiu de maneira cruel, empurrando o país para um beco sem saída, quase desembocando em sua retirada da União Europeia. As medidas que se seguiram, adotadas pelo governo do Sryza, significaram perdas históricas para os trabalhadores, aposentados e a juventude grega.

Ficou evidente que a União Europeia é comandada de Bruxelas, pela Troika, voltada para preservar os interesses de um grupo seleto de burocratas a serviço do grande capital, e não por um parlamento europeu ou outra instituição política que aja por consenso entre todos os seus membros.

Paralelamente à criação do bloco da UE, o novo ciclo migratório de pessoas que deixaram as ex-colônias dos países da África, do Leste Europeu e até da Ásia e buscaram melhores condições de vida na Europa Ocidental, aumentou de forma vertiginosa. Esse movimento se deu por duas razões: guerras e falta de condições mínimas de sobrevivência em alguns destes países (fruto inclusive da colonização predatória de países europeus) e necessidade de mão de obra barata no Continente Europeu.

Ocorre que novas correntes migratórias surgem recentemente, justo num momento de crise econômica, o que provoca reações negativas, capitaneadas por conservadores e grupos neofascistas. Os chanceleres francês e alemão tentam amenizar o problema, mas na prática a UE adota cada vez mais restrições para resgatar levas e levas de migrantes que fogem das guerras no norte da África e Oriente Médio, provocadas pela política externa do bloco europeu e seu aliado, os EUA.

O resultado do plebiscito que retira a Grã Bretanha da União Europeia é fruto da frustração de grande parte da população britânica com as promessas de uma situação melhor e da falta de credibilidade política dos que defenderam a permanência na UE. A isso se soma o crescimento do discurso racista e xenófobo, pregado pelos setores mais conservadores. Este sentimento cresce em toda a Europa e pode representar o fim da UE, a menos que o projeto seja repensado como um todo.

A União Europeia só pode se manter e consolidar com base em novas premissas, que visem a preservar os direitos e avanços sociais, trabalhistas e previdenciários dos povos. Qualquer união forjada por cima, em nome do interesse do grande capital, tende a impor um modelo restritivo, que ameaça o padrão de vida alcançado na Europa do pós-guerra.

Não foi enchente, deslizamento de terra, um motim da polícia ou uma fatalidade com mortos e feridos. Na sexta-feira, 17 de junho, o governador em exercício do Rio, Francisco Dornelles, decidiu editar um decreto classificando a situação do estado como de “calamidade pública”.

Além da alegada falta de recursos para cumprir os compromissos para a conclusão de obras e assegurar a segurança nas olimpíadas, o mandatário apela às dificuldades enfrentadas pelo governo para pagar servidores e manter os serviços públicos básicos em funcionamento.

Quem imaginou que se tratava de um gesto nobre, que o governador reconhecia o caos em que nos encontramos, enganou-se redondamente. Trata-se de uma jogada, um artifício de linguagem que possibilita escapar das exigências da lei e captar recursos do governo federal em caráter extraordinário. Ocorre que a União não pode socorrer os entes federativos quando se trata de recursos para pagar salários de servidores.

A negociação fora feita com antecedência com o governo federal, porque Dornelles, político astuto, não dá ponto sem nó. A grana que virá – fala-se em R$ 3 bilhões – será para a finalização da Linha 4 do Metrô e para cobrir as despesas de segurança durante os jogos.

Logicamente a preocupação do senhor governador é com a realização dos jogos olímpicos, e não com o funcionalismo estadual. Dos R$19 bilhões de dívida calculada do estado, cerca de R$12 bilhões é com o Rio Previdência, o instituto previdenciário dos servidores do estado. Os outros sete bi são com credores do estado, entre eles empresas terceirizadas e empreiteiras, que estão cobrando suas faturas.

No entanto, o rombo do Rio Previdência não parece problemático para o governo. Afinal, desde maio o governo passou a atrasar e pagar parceladamente os salários, aposentadorias e pensões do funcionalismo.

Ao todo 24 estados e o Distrito Federal têm dívidas com a União e as negociações se arrastam nas últimas semanas, tendo em vista que a insolvência pública é notória, tanto de estados e municípios quanto do governo federal.

Foi pensando nisso que a equipe econômica do governo Dilma apresentou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 257/2016. O Projeto continua tramitando e conta com apoio entusiasmado de setores do governo interino de Michel Temer.

Resumidamente, o PLP 257/2016 prevê:

  1. a) Alongamento oneroso para o pagamento da dívida dos estados com a União
  2. b) Intenso ataque aos direitos dos servidores e intervenção mediante monitoramento e avaliação dos estados
  3. c) União poderá receber bens, direitos e participações acionárias em sociedades empresárias, controladas por estados e DF, como contrapartida à amortização, para privatizá-las em seguida
  4. d) Limita o gasto público primário a percentual do PIB redefinido no Plano Plurianual (PPA)
  5. e) Possibilita Regime Especial de Contingenciamento
  6. f) Considera Aposentadorias e Pensões como “Despesas de Pessoal”
  7. g) Torna mais rígidos os controles das despesas com pessoal
  8. h) Estabelece mecanismos automáticos de ajuste da despesa para fins de cumprimento do limite concebido, em 3 estágios sequenciais.
  9. i) Permite a contratação de dívida para reduzir pessoal
  10. j) Transforma a união em seguradora internacional para investidores privados nacionais e estrangeiros
  11. k) Desrespeito às vinculações de recursos
  12. l) Ilegalidade na previsão de atualização monetária para a dívida pública
  13. m) garantia de remuneração da sobra de caixa de bancos

Ora, este Projeto cai como uma luva nas mãos do “mercado”, em relação aos gastos públicos. Em nome da renegociação de prazos para o pagamento das dívidas dos estados com a União, o PLP 257/2016 prevê mais privatizações, menos recursos para pessoal e serviços públicos.

Ou seja, quem esperava que as Olimpíadas do Rio trariam investimentos, empregos e progresso para a cidade, o Estado e o país, embarcou numa canoa furada. O que vier será conjuntural, mas a conta a pagar pelos investimentos será muito mais salgada do que se imagina, somando-se a já gigantesca dívida pública brasileira.

Do orçamento original em torno de R$ 25 bilhões das obras de estrutura (o chamado legado), cerca de R$ 14 bi são de recursos públicos, sendo R$ 8 bilhões do governo estadual. Outros R$ 10,5 bilhões são de Parcerias Público Privadas (PPP), grande parte também financiada por recursos públicos.

Ainda de acordo com o Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, o custo total das Olimpíadas, computando as obras do legado, a matriz de responsabilidade e as isenções e renúncias fiscais, totaliza R$ 39 bilhões, dos quais 62% são de recursos públicos. Isso para justificar quatro semanas de jogos olímpicos e paraolímpicos. Imaginem quem vai pagar essa continha…

As delações de Sérgio Machado, envolvendo 23 parlamentares, entre eles Michel Temer, Aécio Neves, deputados do PT e até Jandira Feghali (PCdoB), abre ainda mais o leque de partidos e políticos comprometidos com as transações para financiamento de campanha e enriquecimento ilícito, a partir de recursos de fornecedores da Transpetro, ou seja, da Petrobras, a “madame mais honesta dos cabarés”, de acordo com Machado. O PMDB foi o campeão, com R$ 104 milhões dos R$ 109 milhões repassados.

Ainda que o sonho de deputados, senadores, governadores, ministros e o próprio Temer seja arranjar um jeito de abafar as investigações iniciadas com a Operação Lava Jato, o fato é que só o material já revelado sobre tantos acusados mantém a opinião pública vigilante contra qualquer manobra neste sentido.

Há quem confirme que o retorno de Temer ao comando do PMDB, em 2014, tinha por finalidade acalmar a bancada de deputados federais, já que os R$ 40 milhões mensais arrecadados pelo partido só estavam chegando aos senadores (Painel FSP – 16/6/2016).

É evidente que todo e qualquer arranjo “abafador” terá que contar com a anuência e participação do Poder Judiciário, notadamente o Juiz Sérgio Moro e os magistrados do STF, além do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot.

Na mídia não há acordo entre os grandes grupos de como proceder: o grupo Folha, que perdeu leitores e anunciantes nos últimos anos, vê no prosseguimento das investigações e na revelação de novos depoimentos e gravações um mote para recuperar o terreno perdido. Por isso, publica todas as denúncias e sustenta a posição de novas eleições para Presidente.

Já as Organizações Globo, que tendiam a bancar a operação abafa desde os primeiros dias do governo Temer, percebeu que o melhor seria pressionar os coronéis do PMDB e tentar tucanizar cada vez mais o governo interino, porque o que importa é aprovar as medidas conservadoras. O Grupo Abril prefere insistir na afirmação do que há de mais conservador, para ser fiel ao público de suas publicações.

O problema para essa gente é que o remédio amargo que pretendem para a sociedade enfrenta grande resistência por alguns motivos:

1) O governo interino dos coronéis do PMDB e os “mercado boys” é frágil, porque não conta com o referendo das urnas e seus membros estão umbilicalmente ligados à corrupção generalizada;

2) É muito difícil convencer à sociedade que, em meio a uma crise que afeta aos mais pobres, propor soluções que ataquem  justamente os direitos dos que mais sofrem;

3) O golpe institucional-parlamentar, mais do que solidificar uma aliança dos setores conservadores, unificou na oposição todos os democratas e matizes de esquerda;

4) O governo interino atua de forma tão bisonha em todas as frentes que encontra resistência por todos os lados;

5) Não há uma massa crítica, no meio intelectual, que defenda e dissemine as ideias conservadoras e as medidas pretendidas por este governo e pelo grande capital;

6) Mesmo sem Cunha a atrapalhar seus planos na Câmara, Temer sabe que terá que negociar cada pauta, de forma que precisará recuar de muitos de seus objetivos. Essas negociações incluem cargos e verbas, o que contradiz o outro setor do governo, mais preocupado em diminuir os investimentos públicos.

Difícil prever os desdobramentos dessa sangria desatada. No entanto, nenhum governo cai de podre ou maduro. É preciso que a opinião pública desfavorável se transforme em força nas ruas, exigindo um desfecho que envolva o voto popular, seja por novas eleições presidenciais seja por um plebiscito.

A operação que pretende esvaziar o balão de Eduardo Cunha não é tão simples quanto parece. Cunha foi levado à condição de Presidente da Câmara dos Deputados com mais da metade dos votos dos seus pares, enfrentando o candidato do PT e o do PSB/PSDB/DEM.

Antes mesmo das eleições de 2014, Cunha arrecadou e distribuiu recursos e recomendações a financiadores para as campanhas de parlamentares em todo o país. Já estava em campanha para o posto máximo do parlamento, terceiro na sucessão de poder.

Portanto, Cunha tem em suas mãos dezenas de deputados e até senadores, aos quais ajudou a eleger Brasil afora. Foi neste contexto que, ao se ver ameaçado de perder poder, decidiu investir contra o mandato de Dilma, não por qualquer compromisso ético ou ideológico.

No entanto, envolvido em inúmeras denúncias de que se beneficiou com recursos públicos, inclusive na Petrobras, o nome de Cunha foi se tornando um dos mais citados nas delações premiadas da operação Lava Jato, tornando sua situação muito complicada.

O afastamento de Dilma (ainda que provisório) e a posse de Temer não o faria mudar o curso de sua política: chantagear o governante de plantão para alimentar sua bancada fisiológica de parlamentares e se sustentar a frente da Câmara.

Ocorre que para executar seus planos ultraconservadores, a aliança entre coronéis do PMDB e os “mercado boys” precisa de maioria no Congresso Nacional. E Cunha seria uma pedra no caminho do governo interino, ao exigir mundos e fundos para aprovar matérias cabeludas e impopulares.

A solução foi tirar Cunha do caminho. Primeiro com a decisão de afastá-lo do comando da Câmara, ainda que mantendo todas as suas mordomias. Diante das resistências e manobras comandadas por Cunha, o próximo passo dado foi abrir investigação de Claudia Cruz na operação Lava Jato. E a terceira tacada foi derrota-lo no Conselho de Ética da Câmara, abrindo espaço para a cassação de seu mandato.

Mas a cassação de Cunha o levaria a uma situação ainda mais complicada, a de se tornar réu comum, perdendo o foro privilegiado de parlamentar em qualquer investigação judicial. Assim, mesmo numa condição menos favorável, Cunha deve partir para uma nova tentativa de negociação com Temer. Agora, como num duelo, os dois pistoleiros têm balas na agulha de suas armas, ambas ameaçadoras.

Como no conto infantil, o patinho feio só tem duas saídas: sucumbir à pressão de seus irmãos e se afogar na lagoa ou bater as asas e voar. Está na cara que Cunha, fora da Presidência da Câmara, teve seu poder de barganha e mobilização reduzido. A ameaça de investigação sobre sua esposa cria outro elemento de desconforto e pode levar a revelações que fogem do controle do âmbito da política.

A dificuldade que envolve um acordo entre Temer e Cunha é que a sociedade quer a cabeça de Cunha e ele só pode se salvar se houver sucesso na tentativa de abafar as investigações contra todos os figurões do PMDB. Ao se calar, Cunha sabe que pode ser submetido a execração e penas elevadas. Se delatar, Cunha também não tem certeza de que vai amenizar sua pena.

O velho João Saldanha sempre dizia que os cartolas se reuniam todas as noites para tramar o fim do futebol brasileiro, mas não conseguiam porque o futebol brasileiro é maior que todos eles.

Saldanha se foi, mas no final de sua vida lançava um alerta: “Todo time agora tem que ter um cabeça-de-área”. Era justamente para criticar o que se costumou chamar de “Era Dunga” na seleção, um futebol defensivo, botinudo, feio. Hoje o botinudo é o treinador da seleção e João ficou na saudade.

Pois é, João; parece que as elites conseguiram o que era impossível: destroçaram o futebol brasileiro. No afã de arrumar uns trocados e enriquecer rapidamente, a cartolada instalada na CBF, nas federações e nos clubes aceitou ser sócia minoritária do esquemão internacional do futebol.

E isso teve consequências óbvias para o futebol dentro e fora dos campos. Desde os anos 90 o futebol brasileiro passou a integrar o sistema montado pela FIFA, fornecendo mão de obra de boa qualidade e barata para os clubes europeus. Mais tarde o mercado se abriu ainda mais, com a entrada dos árabes.

Com a lei Pelé um monte de empresários do futebol passaram a cafetinar garotos e jovens pobres. Os dirigentes de clubes simplesmente terceirizaram as divisões de base e muitos saem sem sequer terem atuado entre os profissionais. As vendas e contratações de jogadores beneficiam empresários, dirigentes e até treinadores, menos os clubes, que estão falidos.

Para amealhar mais alguns trocados, a cartolada vendeu o espetáculo a preço de bananada para a Rede Globo, que paga pelo direito de transmissão dos campeonatos regionais e brasileiros muito menos do que as emissoras europeias pagam aos clubes do velho continente. Resultado: a Globo faz o que quer e fatura muito mais com seus patrocinadores do que todos os clubes juntos.

Tem jogo depois da novela das nove, jogo aos sábados à noite, jogo aos domingos pela manhã e às 16 horas, em pleno horário de verão. É jogo na TV aberta e paga todos os dias em todos os horários. Os treinadores reclamam porque não têm tempo sequer para treinar seus times. No meio do ano, em pleno campeonato brasileiro, alguns clubes passam por verdadeiros desmontes, na janela de contratação do futebol europeu.

Os estádios, como de resto tudo mais, vão sendo privatizados e transformados em “arenas”, nas quais os investidores passam a fazer suas programações e o futebol é apenas mais uma de tantas atrações. O ingresso de um jogo de série A ficou caro e as “arenas” estão vazias, já que o torcedor deixou de ser a razão do espetáculo, passando a ser mero telespectador em casa ou num bar. Não por acaso os garotos preferem usar camisas de clubes europeus que as dos brasileiros.

Nas divisões de base dos clubes, entregues a cafetões de meninos, os jovens atletas não são treinados para entender o futebol como jogo coletivo, mas para se destacarem individualmente, de forma que apareça logo um clube estrangeiro interessado em leva-los embora. A formação é deficiente, mas o dinheiro é forte.

Essa combinação de interesses, que nada tem a ver com o futebol em si, tomou conta do espetáculo e o transformou em algo esvaziado e desinteressante para a juventude e os antigos torcedores. Não por acaso as arenas estão às moscas e os jogos são de baixa qualidade.

Só quem perde com essa situação são os clubes e o torcedor, justamente os dois fatores fundamentais para a paixão pelo futebol.  Os clubes porque estão endividados e administrados por dirigentes oportunistas, que em sua esmagadora maioria querem enriquecer a custa do futebol. Os torcedores porque estão cada vez mais desencantados com a baixa performance de seus clubes.

De protagonista do futebol mundial, o futebol brasileiro se transformou em mero coadjuvante. Não é por acaso que nossa seleção foi eliminada da Copa por 7 x 1 pela Alemanha, dentro do Mineirão. Agora, em nova passagem de Dunga pelo comando da seleção, fomos eliminados duas vezes antes de chegarmos às semifinais da Copa América, uma vez pelo Paraguai e outra pelo Peru.

Da CBF não se pode esperar nada. É uma subsidiária dos esquemões financeiros que envolvem a FIFA, com jogos contra adversários inexpressivos para agradar patrocinadores e outras mutretas. A mídia, que poderia estimular um debate mais profundo sobre o futebol brasileiro, é parte interessada neste esquema, o que limita suas críticas e impede que se produza ideias novas que reformulem por completo o futebol dentro e fora de campo.

Só se pode esperar algo mais profundo dos jogadores mais experientes e dos torcedores que não estejam comprometidos com as organizadas. Daí a importância de organizações do tipo Bom Senso Futebol Clube. Há quem diga que com a derrota e eliminação para o Peru na Copa América chegamos ao fundo do poço. Os mais pessimistas acham que o fundo ainda não foi alcançado e que será com uma eliminação do Brasil da Copa da Rússia. Será?

Para sair das especulações e críticas rasteiras e oportunistas a saída é parar com o “achismo” e ouvir os envolvidos. O grande papel que caberia à CBF e à mídia neste momento seria convocar torcedores, jogadores, técnicos, dirigentes de clubes e imprensa especializada para debater os rumos do futebol brasileiro, extraindo daí as propostas mais consistentes para a reformulação do esporte. A democracia ainda é a melhor receita sempre.

Em plena ditadura militar, na década de setenta, algumas vezes pude assistir com meu irmão às lutas de Muhammad Ali pela TV. Era diferente, muito diferente de tudo que já tínhamos visto. Os outros eram só lutadores, às vezes bons, às vezes medianos, mas nenhum igual a ele.

Seu estilo de lutar era original, um espetáculo. Bailava no ringue, usava o jogo de pernas para bater com precisão no adversário e sair rapidamente de seu alcance. Muitas vezes fazia do outro lutador seu sparring, deixando-o no centro do tablado e circulando à sua volta, girando como se dançasse ao seu redor. Outras vezes chamava o oponente para bater mais forte, enquanto fechava a guarda e esperava o melhor momento para desferir contra ataques mortais.

Seus golpes eram mais precisos do que fortes, mas suficientemente certeiros para nocautear os oponentes. Apesar de seu tamanho, Ali só usava a força suficiente para derrubar os outros boxeadores. Nunca foi de surrar ou esmurrar ninguém até a exaustão. Lutava com inteligência e isso o distinguia de todos.

Como explicou George Foreman, um de seus maiores adversários, Ali não lutava por dinheiro, por isso era tão difícil enfrentá-lo e vencer. Ele desafiava os outros boxers porque sabia se expressar. Usava as palavras para mandar recados, quase sempre relacionados a questões políticas, raciais, contra as injustiças.

Em plena década de sessenta, no auge de sua forma, já campeão, Ali recusou-se a servir ao exército norte-americano no Vietnã. Alegou que nenhum vietcong fizera nada para que ele fosse lá jogar bombas e disparar tiros contra aquele povo, ao contrário dos brancos norte-americanos.

Aquilo lhe valeu a cadeia e a perda do cinturão de campeão. Sua atitude corajosa o transformou num porta-voz da comunidade negra. Não era mais apenas um atleta brilhante, mas um ídolo dos negros que extrapolava fronteiras. Diferente de Pelé, que parou por um dia uma guerra entre dois países quando foi jogar na África, Ali parou um país inteiro por semanas, quando derrotou Foreman no Zaire, em 1973.

Tornou-se amigo de Malcon-X, líder dos panteras negras, grupo político revolucionário estadonidense. Foi então que se converteu ao islamismo e adotou o nome de Muhammad Ali. Mais tarde conheceu e se tornou amigo de Fidel Castro. Sua atitude desafiadora denunciava a existência do apartheid no país que se dizia o mais democrático do Planeta.

Ali tinha consciência que não lutava apenas boxe. Demolia seus oponentes primeiro moralmente, com suas palavras e provocações, depois com seu bailado estonteante, seu jogo de corpo e seus golpes fatais. A impressão que se tinha era que cada adversário que colocavam na sua frente – em sua maioria de negros – tinha a missão de calar aquele sujeito impertinente, que fazia e dizia o que todos os demais negros pobres queriam fazer.

Por vezes sua luta se tornava cômica, porque o outro lutador não conseguia atingi-lo e se cansava de tanto tentar. Ali zombava dos que usavam a força para tentar derrotá-lo. Fugia dos golpes do adversário como no filme de Chaplin, em que ele confundia o oponente a tal ponto que esse chegava a brigar com o árbitro da luta.

Foi três vezes campeão mundial dos pesos pesados. Mas mesmo os grandes campeões se ressentem das feridas e golpes que sofreram ao longo de suas carreiras. Ali foi acometido de Parkinson anos depois de deixar os ringues, mas jamais foi esquecido. Foi tão grande para a causa negra nos EUA e no mundo quanto Nelson Mandela.

Como era emocionante assistir às lutas de Ali, mesmo que fossem tarde da noite. A TV ainda era em preto e branco e a imagem nem sempre muito nítida. Era uma mistura de luta e dança, de sapateado e força, de músculos e frases repetidas sem parar, a desafiar os adversários e insuflar o público. Ali era um líder e um grande artista de todas as causas justas. A ele todas as homenagens são insuficientes.

Descanse em paz, campeão!

Desde 21 de maio o Brasil vive aos sobressaltos, aguardando qual será o novo ministro, secretário ou presidente de órgão público nomeado envolvido em falcatrua. Três semanas de temporada do circo dos horrores do desgoverno Temer.

Na primeira semana foi a vez de Romero Jucá ser abatido pela gravação de conversa com Sérgio Machado. Perdeu o cargo no Planejamento, mas não perdeu a pose para defender o governo Temer no Senado.

Logo depois apareceram as conversas de Machado com seu padrinho e Presidente do Senado, Renam Calheiros.  E logo em seguida foi a vez do senador José Sarney, todos pegos com a boca na botija, num quebra-cabeça que pode ser montado por qualquer criança para explicar a construção do golpe que apeou a ex-presidente do governo.

Sem Ministério da Cultura, Temer tentou achar uma mulher de expressão na sociedade que topasse dirigir a nova secretaria. Ninguém topou e Temer teve que chamar o secretário de cultura de Eduardo Paes. A pressão foi tanta que o usurpador foi obrigado a recriar o Ministério, mas a crise continua.

O ministro da Educação, um fazendeiro do nordeste, recebe Alexandre Frota e outras assumidades do Revoltados Online, para debater propostas de sua pasta. A mais importante delas: Escola sem partido.

Aliás, em seu ministério de corruptos, empresários e homens do “mercado”, ainda falta a representação feminina, dos negros e das chamadas “minorias”. Para não pegar mal Temer deu logo um jeito: chamou a privatizadora de carteirinha, Maria Silvia, para tomar conta do cofre do BNDES. E para completar o time feminino levou uma ex-deputada do PMDB/AP, que é contra o aborto mesmo em caso de estupro, também envolvida em escândalo em sua campanha eleitoral.

Mal os caras assumem e começa o Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País, do falecido Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto). O Ministro da Transparência foi pego em outra gravação, dando conselhos a Renan Calheiros de como driblar a investigação do Ministério Público. Rodou e ainda deixou Renan numa podre.

A resistência aos indicados por Temer é quase unanimidade. Não apenas por se tratar de um governo ilegítimo, que não saiu das urnas, mas também pelas figuras escolhidas para preencher ministérios, secretarias e órgãos públicos. É os casos do Ipea e do IBGE, em que um chicago boy do “mercado” foi indicado.

Nas relações internacionais o sinistro José Serra não emplaca uma. Por onde passa é manifestação de repúdio ao desgoverno Temer. Para completar nenhum chefe de governo da América Latina ou de outros países demonstrou entusiasmo até aqui com suas visitas.

Agora, Temer aprova um pacote de reajustes de servidores, que de resto já estava acertado com o governo que saiu. Só que no meio foram colocados alguns penduricalhos, como 14 mil novos cargos comissionados e um reajuste bacana para os magistrados. Uma evidente contradição com o discurso de “austeridade” e moralidade que o levaram a usurpar a cadeira de Dilma.

No meio deste circo dos horrores, os grupos empresariais de mídia procuram disputar a opinião pública. A Globo expressa sua posição de apoio a Temer, justificado no artigo de Eliane Cantanhede: “Ruim com ele, pior sem ele”. A Globo não pode esconder o que a concorrência mostra e sua tática consiste em tentar “tucanizar” o máximo possível a equipe de Temer. A Band, que também apostou suas fichas no desgoverno Temer, já começa a questionar as decisões, ainda mais agora do cinismo do “pacote de bondades” que aumentou os salários de juízes e criou 14 mil novos cargos.

Já a Folha SP abre suas páginas para mostrar as contradições da turminha da moralidade, publicando farto material que incrimina ministros, secretários e até Temer. A Folha não esconde que defende uma solução institucional para a crise, com eleições diretas para Presidente.

No Judiciário as coisas continuam andando a toque de cágado. Os senhores togados não se movem, fazendo vistas grossas para a enxurrada de processos que envolvem ministros e secretários de Temer, ao contrário da pressa que tiveram para impedir que Lula fosse empossado no ministério de Dilma. O desgoverno interno faz um agrado, liberando reajustes de salários e benefícios à cúpula do Judiciário.

No Senado Temer começa a enfrentar problemas, porque ainda há indecisos sobre a condenação de Dilma, o que pode melar suas pretensões golpistas de reinar até o final de 2018. Como cada dia é um susto, com novas gravações e novos nomes de ministros e secretários implicados em delações premiadas, o PMDB e seus aliados querem apressar a votação do Impeachment.

A banda dos representantes do “mercado” no governo jeca começa a ensaiar seu pacote de maldades. Privatizações, liberação do pré-sal, liberdade irrestrita para as Agências reguladoras, reforma da Previdência, desvinculação do reajuste das aposentadorias em relação ao salário mínimo. E vai por aí… Mas até eles sabem que precisam de apoio da opinião pública ou pelo menos de calmaria para aplicar seu receituário sobre o corpo doente do país.

A mediocridade ronda as redações de TV, Rádio, jornais e mídia digital. Sinal dos tempos? Talvez, mas o que assistimos hoje é mais do que isso. Há um verdadeiro descompasso entre o cotidiano do cidadão e o delírio dos midiotas. Só assim consigo definir os colegas que decidiram assumir um papel que não lhes cabe: decidir o que serve e o que não serve, o que é e o que não é notícia, o que deve e o que não deve ser divulgado, comentar mais do que apurar.

O papel do jornalismo é conspirar contra as aparências. Quando tudo parece acomodado, dentro de um ritmo de “normalidade”, o jornalismo aparece para questionar, para jogar luz sobre os fatos e provocar o debate. Mas isso não pode acontecer a partir de uma idéia ou de uma tese abstrata que surge no aquário das mentes brilhantes dos editores das redações. Isso só pode ocorrer a partir de fatos concretos, uma notícia que pode virar uma reportagem de maior fôlego.

Por isso, é a sociedade que deve pautar os meios de comunicação e não o contrário, como está  acontecendo hoje. São inúmeros os exemplos disso, talvez o mais flagrante seja o da Globonews. Infelizmente analistas do senso comum se travestem de “jornalistas” para dar um ar solene ao mais descarado espetáculo de subserviência aos patrões e ao “mercado”.

Quando um veículo de comunicação passa a ser identificado com o poder, seu papel passa a ser de mero advogado dos poderosos. E para isso os fantoches da Globonews não poupam esforços. É preciso criminalizar tudo e a todos que não fazem parte da sua patota de janotas e patricinhas, todos com os mesmos adjetivos na ponta da língua.

A apuração dos fatos, a reportagem de fôlego, o confronto de idéias, o choque de opiniões deixam de existir como matérias primas do jornalismo. O que parece evidente é secundarizado ou distorcido, desde que represente uma ameaça ao pensamento linear dos defensores da democracia do “mercado”.

No fundo, essa turminha global expressa a reprodução em linguagem midiática do que há de mais retrógrado, conservador e preconceituoso na sociedade brasileira. Onde essa gente vive? Será que tomam cafezinho num botequim? Eles andam de trem, ônibus ou metrô lotado? De onde vem a inspiração para as suas pautas?

No tempo em que ser jornalista era tão importante quanto ser jornaleiro, as redações refletiam a realidade das ruas. O jornalista morava no Meier, Caxambi, Engenho de Dentro. Não existia o “politicamente correto”. O repórter não era nem tão pobre que não pudesse dominar corretamente o idioma e a técnica de redação e nem rico demais que não soubesse o que se passava nas ruas, nos becos e vielas das cidades.

Hoje, quando o jornalista assumiu o status de “celebridade”, as redações estão coalhadas de bons moços e moças de família de classe média alta, desses que nunca encostaram a barriga no balcão da padaria para pedir um café. Eles não têm tempo a perder com a gentalha, com a massa que fala errado, que enfrenta engarrafamento na hora do rush.

Estão tão distantes da realidade da massa ignara que quando vão para as ruas parecem seres abstratos, desacostumados que estão com o barulho e a fumaça. O máximo que frequentam são os salões e gabinetes, os aquários das redações e as ilhas de edição.

Por favor, senhores e senhoras midiotas: mais informação e menos análise; mais substantivos e menos adjetivos; mais realidade e menos abstração. Os telespectadores, leitores, ouvintes e internautas precisam mais das notícias e reportagens do que ouvir suas opiniões. Ah! E quando tiverem que entrevistar “especialistas” digam quem eles são, o que fizeram e procurem oferecer mais de uma opinião sobre os assuntos, porque nunca existiu uma única opinião sobre nada.

A ancoragem de TV e Rádio, tão comum no jornalismo norte-americano, só ajuda quando se tem um grande analista, capaz de separar o que é a sua opinião do papel que lhe cabe, mesmo ao analisar os fatos: elucidar o que está por trás da informação.

É muito brega repetir chavões, massificar conceitos, marginalizar opiniões distintas, entregar um noticiário tão mastigado que chega a ser infantil. O Brasil não é tão limpo e cheiroso quanto vocês querem fazer crer aos telespectadores, leitores, ouvintes e internautas. Até porque, eles tocam suas vidas com os pés no chão, fazendo as contas para saber se o dinheiro vai dar até o final do mês.

Será que ninguém ainda se deu conta nas redações que colegas de todo o mundo estão enxergando o Brasil de formas completamente distintas que a maioria dos editores? Será que isso não os assusta? Será que essa turminha não desconfia de nada disso? Será que não imaginam que a realidade precisa ser retratada em seu todo, ainda que eles não gostem dela? Será que a reação das ruas aos repórteres das Organizações Globo não os faz pensar no papel que estão cumprindo?

Nesse país de tantos contrastes a contradição salta aos olhos em cada esquina. Há um sem fim de matérias por fazer, de aspectos a explorar, de opiniões a colher, de ideias a confrontar. É só para isso que serve toda a técnica jornalística que aprendemos. Caso contrário, vamos nos conformar em fazer jornalixo, embalado com gráficos e vinhetas, numa cantilena modorrenta todos os dias.