Leio nos jornais que os EUA já deram seu veredicto sobre o possível uso de armas químicas num bairro de Damasco, antes de qualquer conclusão técnica a respeito. De acordo com as autoridades norte-americanas, a tragédia teria sido provocada pelas forças do governo de Assad.

Assim, fica evidente que EUA, França e Inglaterra se preparam para mais uma aventura militar. Aliás, quando se trata de guerras e agressões militares eles são especialistas. E o que a humanidade vai ganhar com isso? Nada, provavelmente vai morrer muito mais gente, mas os fabricantes de armas terão suas contas mais engordadas.

Tenha partido de qualquer dos lados do conflito, o uso de armas químicas é totalmente condenável. Só mostra a que ponto de barbárie degenerou o conflito na Síria, que também já atinge o Líbano.

O estranho é que Assad tenha autorizado um bombardeio civil com armas químicas, justamente no momento em que uma equipe de especialistas da ONU sobre este assunto está em Damasco. Seria como uma confissão de crime.

Este filme não é novo, em se tratando da busca de justificativas para intervenções militares imperialistas. Em defesa da humanidade e da democracia as Forças Armadas dos EUA, da França e da Inglaterra já fizeram de tudo na face da Terra. E sempre começa com algum tipo de provocação sem provas, plantada na mídia.

A mais recente foram os relatórios que confirmavam a existência de armas de destruição em massa pelo governo iraquiano de Sadam Hussein, seu desafeto e antigo aliado. O filme Zona Verde (com Matt Damon) ilustra com perfeição a farsa montada para justificar a invasão do Iraque.

Se mais uma ação armada imperialista se confirmar, com todas as conseqüências trágicas que dela advém, será mais uma prova da velha máxima sobre a política norte-americana: “Nada mais republicano que um democrata no poder”.

Primeiro foram os investimentos petrolíferos do senhor Eike Batista naquele país. Tudo estava irregular, o empreendimento foi confiscado e sua empresa acabou expulsa da Bolívia. Apesar disso, Eike e suas pirâmides da marca “X” receberam bilhões em financiamentos do BNDES aqui no Brasil, autorizados pelo governo brasileiro. Agora o império de Eike derrete e quem garante o pagamento de suas dívidas ao erário público?

Depois foi o episódio da regularização dos carros roubados no Brasil que circulam naquele país. O governo brasileiro não gostou, mas pelo jeito ficou tudo como dantes, ninguém mais fala nisso. Foi a forma encontrada pelos bolivianos para legalizar a bagunça.

Recentemente foi a vez da trágica morte de um adolescente boliviano num estádio de futebol, em Oruro, por um foguete disparado da torcida do Corinthians. Trataram de arrumar um menor de idade aqui no Brasil para confessar o crime, mas ninguém encaminhou o rapaz para prestar depoimento à Justiça na Bolívia.

Houve até campanha de solidariedade, protestos contra a ilegalidade e a injustiça de manter os torcedores corintianos no xilindró. Parte da mídia abraçou a causa e deu força, afinal o Coringão é um dos trens pagadores do futebol brasileiro. Depois de três meses foram todos liberados e recebidos em São Paulo como heróis.

Apenas algumas semanas depois do retorno ao país, eis que o senhor Leandro, um dos “heróis” de Oruro, membro da Gaviões da Fiel, se envolve em briga no Estádio Mane Garrincha, em Brasília. Com ele estava um vereador de Francisco Morato (SP). “Loucos” ou marginais?

Agora a “fuga” do senador boliviano, que estava na embaixada brasileira em La Paz, condenado por vários crimes, entre eles a morte de camponeses em sua região. O coitado estava “deprimido”, não tinha direito nem a “banho de sol”, etc. O responsável direto pela operação de retirada do condenado de seu país, diplomata brasileiro, se apiedou do infeliz e comandou uma operação de “ajuda humanitária”.

Decididamente, nos últimos anos só demos bola fora nas relações com a Bolívia. Elas custaram a cabeça do Patriota e uma geladeira para o senhor Saboia. E depois são os bolivianos que são atrasados…

Há pessoas de esquerda defendendo o Programa “Mais Médicos”, sobretudo no que diz respeito à vinda de profissionais cubanos para clinicar em localidades do interior do Brasil, como se o problema fosse ideológico. Em que pese o exemplo internacionalista dos médicos cubanos – para alguns analistas conservadores apenas uma forma de arrecadar recursos para Cuba – creio que a discussão está meio enviesada.

É muito digno que um país pobre disponha de profissionais de saúde para atuar em outros países, o que faz há décadas. É vergonhoso o preconceito, dirigido especialmente aos cubanos, com afirmações levianas sobre sua formação e capacidade, por parte da grande mídia e alguns dirigentes sindicais.

Da mesma forma, é inadmissível a atitude dos que atacam os médicos brasileiros, alegando que não querem trabalhar para os pobres. Trata-se de um grave equívoco responsabilizar os nossos médicos pela situação de calamidade da saúde pública, sobretudo o SUS.

Um governo que gasta anualmente mais de 45 % de seu Orçamento para pagar juros e amortizações de uma dívida pública (externa e interna), sem sequer questionar a origem desta dívida, ao mesmo tempo em que aplica somente 4% em saúde, não pode repreender os profissionais de saúde.

Os concursos para preenchimento de vagas no setor público prevêem salários ridículos e condições de trabalho pavorosas na maioria das unidades de saúde. Em cidades do interior os prefeitos anunciam salários melhores, mas as condições de trabalho são ainda piores ou inexistem.

As direções de hospitais, UPAs e postos de saúde nos estados e municípios estão entregues, em sua maioria, a todo tipo de cabos eleitorais de prefeitos e governadores. Ali se trama, todos os dias, as licitações fraudulentas para a aquisição de medicamentos, insumos e equipamentos superfaturados, enquanto falta o básico para o atendimento à população.

O governo brasileiro quer tapar o sol com a peneira. O Brasil tem “mais médicos” do que o recomendável pela Organização Mundial de Saúde. Em vez de atacar a raiz do problema da saúde pública, prefere importar médicos. É evidente que isso não vai resolver nada e ainda está criando um clima de mal estar entre profissionais brasileiros e cubanos. 

Parece que a saída está num saneamento do SUS, afastando o gerenciamento político das unidades de saúde. Com democracia e transparência será possível aos próprios profissionais de saúde administrar os recursos de forma correta, com o apoio e vigilância da população usuária. O resto é demagogia.

Obs: A defesa da presença de médicos cubanos no Brasil pelo governo dá ênfase às técnicas da medicina preventiva. Tudo bem, mas as mesmas autoridades que devem fazer o dever de casa, já que cerca de 60% dos lares brasileiros não contam com serviços de saneamento básico.

Como tudo em Sucupira, a importação de médicos cubanos é mais um tema a ser debatido a partir de preconceitos. O preconceito de que médico cubano não tem formação suficiente, que é um produto de exportação, propaganda e arrecadação do regime daquele país, que se sujeita a trabalhar por qualquer coisa só para deixar a ilha, etc.

Todas essas baboseiras difundidas pela grande mídia sucupirana acabaram por trazer à luz alguns fatos interessantes, que normalmente passariam despercebidos da maioria. Um deles é que Cuba, aquela ilhota subdesenvolvida comandada por lunáticos guerrilheiros barbudinhos, pasmem, exporta médicos…

Já o Brasil exporta gado e soja, que se destacam com a pujança do agronegócio. Os EUA, por exemplo, exportam armamentos. Os alemães, coreanos e japoneses exportam automóveis. Os chineses exportam todo tipo de bugiganga. E Cuba exporta médicos. A média de doutores formados em Cuba é de 6,7 por mil habitantes, quando a Organização Mundial de Saúde informa que a média internacional é de 1,4 por 1.000. O forte deles é a medicina preventiva, outro absurdo para os padrões da medicina comercial, que adora uma especialidade, consultórios particulares e a prescrição de remédios, muitos remédios. Obviamente, nada disso ocorre por acaso ou obra do Divino Espírito Santo.

Outro grande “escândalo” para os padrões sucupiranos é o fato do pagamento dos médicos cubanos se dar através de convênio entre o governo daqui e de lá, que repassa ao médico que trabalha fora do país apenas uma bolsa. Quanta ousadia desses barbudinhos!?

Será que os médicos sucupiramos formados nas universidades públicas não devem nada à sociedade? Eu estava até simpático àquela proposta de fazerem residência por dois anos em unidades públicas de saúde, após a conclusão do curso. Infelizmente os cagões do PT recuaram no que havia de mais interessante no programa “Mais médicos”.

É evidente que o problema de Sucupira não é a falta de médicos, afinal temos 1,9 para cada mil habitantes. O problema é que o Sistema Único de Saúde não funciona. E por que? Porque o SUS é gerenciado por governantes que fazem o que bem entendem: não repassam as verbas orçamentárias previstas, não contratam pessoal suficiente, permitem e se locupletam de licitações fraudulentas com medicamentos e equipamentos nas unidades de saúde, indicam seus cupinchas para administrar Postos de Saúde e Hospitais.

Por isso, a saúde pública está essa vergonha. Por isso os médicos não querem arriscar suas carreiras profissionais no interior do país, aonde falta o básico para a prestação de um serviço aceitável à população. E neste ponto estão corretíssimos.

Aí vai o governo sucupirano e decide “importar” médicos. É mais ou menos como o corno que encontra a mulher com o outro no sofá de sua casa e quer resolver o problema retirando o sofá da sala. Afinal, em Sucupira é sempre melhor tapar o sol com a peneira e queimar mais alguns milhões do erário público do que enfrentar a situação. 

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Ele tinha uma doença rara, que indicava poucos anos de vida, mas resistiu até os 13. Esperto e malicioso, aceitava de bom grado o carinho e o afeto do pai e da mãe. No entanto, com os coleguinhas da escola, confidenciava sua intenção odiosa de se transformar em matador de aluguel. O “moleque” era danado mesmo e usava o grande afeto de sua avó como álibi para seu único e terrível objetivo na vida: matar toda a família.

Sem que ninguém desconfiasse de nada, pesquisou soníferos pela internet. Nas horas vagas dava uma de bonzinho e treinava com os pais o uso de armas de fogo. Para não perder a prática, brincava de atirar em transeuntes que passavam em frente à sua casa. Rapidamente assimilou o necessário para dirigir veículos e estacionar com maestria.

Um belo dia resolveu por em prática seu plano hediondo. Depois de um churrasco de família decidiu aniquilar toda a família. Colocou sonífero nas bebidas ingeridas pelos adultos, esperou que fizesse efeito e, com dois disparos, pôs fim à vida da tia e da avó, que estavam deitadas em suas respectivas camas, na casa da frente.

Depois, sorrateiramente, foi até a casa de trás do terreno e meteu uma bala na cabeça do próprio pai, que estava deitado de bruços. Com a mãe foi mais frio ainda: colocou-a de joelhos e a fuzilou pelas costas, com um tiro certeiro na nuca. Tudo com uma simples pistola Ponto 40, que pesa um quilo e meio. A arma funcionou perfeitamente, exceto a barulheira e o tranco provocados pelos disparos noite adentro, mas esses são detalhes menores e fáceis de esclarecer.

Não satisfeito, o menino decidiu tirar o carro da garagem e dirigir até as proximidades da escola. Ali estacionou e dormiu dentro do veículo, do qual saiu na manhã seguinte para ir à aula. Mais tarde, retornou a casa e, certamente, com remorso, deu cabo da própria vida.

O plano era perfeito, mas Marcelo só não contava com a indiscrição de seus coleguinhas. Os malditos decidiram dar com as línguas nos dentes e contaram tudo com riqueza de detalhes em seus depoimentos. Até um psiquiatra forense já encontrou nexo entre a patologia do garoto e a chacina que ele provocou: um surto. Certamente para se vingar da vida cruel que levava.

Sem a ajuda de ninguém um garoto de 13 anos assassinou toda a família e cometeu suicídio. Essa é a história de Marcelo Pesseghini, o menino prodígio da Brasilândia, de acordo com a versão da Polícia de São Paulo. 

Por essas e outras a Polícia segue como uma das instituições que goza do mais alto prestígio e credibilidade na sociedade brasileira…

Neste dia, em 1869, deu-se um dos episódios mais vergonhosos da trágica Guerra do Paraguai, como chamamos no Brasil. Ao bater em retirada de Assunção, Solano Lopes e alguns poucos combatentes arrastaram consigo mulheres, idosos e crianças que preferiam seguir o que sobrou do Exército guarani, do que ser dizimados pelas tropas brasileiras.

Quatro dias antes o Conde D’Eu ordenara a queima de um hospital de campanha paraguaio, com cerca de mil feridos. Restaria aos meninos paraguaios lutar ou morrer na perseguição empreendida pelo Exército brasileiro.

Num ato de desespero, na localidade de Acosta Ñu, cerca de 3 mil meninos de seis a 14 anos se prepararam para enfrentar o inimigo. Mesmo sabendo que se tratava de um bando de crianças, as tropas brasileiras foram em frente e menos de um dia dizimaram os pequeninos combatentes.

Ao cair da tarde, contabilizados mais de duas mil crianças mortas, suas mães foram impedidas de atender e cuidar dos feridos. O campo de “batalha” foi incendiado, sob a ordem do carniceiro Conde D’Eu. Este é apenas um dos tristes episódios protagonizados pelo Exército brasileiro no Paraguai.

A República Guarani era, então, o país mais próspero da América do Sul. A metalurgia começava a se desenvolver, canhões e fuzis eram fundidos pelos próprios paraguaios, crescia a indústria da construção naval.

Não havia latifúndios, a terra era de todos, o analfabetismo estava em franca decadência e até no front de batalha circulavam jornais dos soldados paraguaios, editados em guarani. Logo a independência e ousadia paraguaia passaram a representar uma ameaça aos interesses do Império Britânico na região.

Para combater Francisco Solano Lopez, os ingleses financiaram um golpe que derrubou o governo do Uruguai. Lopez pediu permissão para atravessar pequena parte do território argentino em apoio ao aliado que estava sob ameaça, o que foi negado por Bartolomeu Mitre, caudilho argentino. Em troca, Mitre autorizou a entrada de tropas brasileiras rumo ao Paraguai. O Imperador Dom Pedro II recebeu amplo apoio político e bélico dos britânicos, formando a Tríplice Aliança com os golpistas uruguaios e o governo argentino.

A Guerra do Paraguai durou seis anos. Ao final, restou ao Paraguai pouco mais de dez por cento de sua população masculina. Lopes lutou até o último homem e preferiu a morte a se deixar aprisionar. Argentina e Brasil confiscaram parte do território paraguaio e hoje o Paraguai é o que conhecemos.

Sou de uma geração que aprendeu nos livros de História que o Paraguai era governado por um tirano, que ambicionava expandir seu território, e que nosso bravo Exército empreendeu uma campanha gloriosa em defesa da pátria. Era plena ditadura militar e os livros não contavam que, então, o Brasil ainda era um Império em que milhões de pessoas viviam sob o regime da escravidão.

Por isso, os paraguaios lembram Acosta Ñu e comemoram o seu Dia das Crianças em 16 de agosto. Quando vamos rever nossa História e reconhecer a sanha criminosa de nossas elites?

O rei está nu

15/08/2013

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Em questão de semanas muita coisa mudou no Brasil. A jornada de junho foi só o começo. Mesmo bem menores, as atuais movimentações de rua são filhas diretas daquele momento e dão capilaridade às grandes passeatas, levando as mobilizações para o terreno concreto da vida das pessoas de carne e osso.

A sensação que se tem é que as velhas peças enferrujaram e não encaixam mais. Os antivírus dos antigos programas não estão mais dando conta do recado e os hackers tomaram conta. As estruturas estão expostas, as máscaras caíram e tudo, absolutamente tudo, ficou muito evidente.

É evidente demais para qualquer cidadão que uma polícia militarizada não tem condições de continuar existindo, disparando bombas e balas de borracha contra manifestantes nas ruas, assim como não há como esconder o envolvimento de policiais militares com o desaparecimento e morte de pessoas.

É muito óbvia a manipulação da informação pela grande mídia e o mau humor das pessoas com as Organizações Globo e suas afiliadas está nas ruas. O que as câmeras captam não está em consonância com o discurso dos apresentadores, âncoras e textos de redatores das TVs comerciais, jornalões e emissoras de rádio das grandes cadeias nacionais.

É cristalina a desmoralização dos poderosos, encastelados em palácios, parlamentos e mansões. Mesmo as tentativas de mudar de cara, apresentar uma face maquiada e mais palatável cai no descrédito, em função da continuidade de uma política que só visa preservar os interesses econômicos e políticos de uma minoria.

A falência do discurso da eficiência do privado e da saturação do estatal abre espaço para se pensar algo novo, no plano do que deve ser público, democrático e transparente. O jeito autoritário, verticalizado, secreto e corrupto de perpetuar os interesses das classes dominantes se tornou tão antiquado e cínico que beira o insuportável.

Não há mais como suportar os baixíssimos salários de professores, médicos e a péssima qualidade das escolas e hospitais públicos, diante de tanta gastança desnecessária com dinheiro público. Ao mesmo tempo, não há o que justifique as elevadas mensalidades das escolas particulares e dos planos de saúde.

Quem tem paciência para ficar horas espremido em ônibus, trens e metrô todos os dias? E os que possuem automóveis também não suportam mais esperar quilômetros em longos engarrafamentos.

A ocupação da Câmara Municipal do Rio, em função de uma CPI chapa branca, montada para nada apurar e isentar de responsabilidade o Prefeito e seu governo, é uma demonstração do esgotamento do cinismo oficial. O cerco à residência de Cabral, em pleno Leblon, é a prova do completo isolamento político em que se encontra o governador.

O mesmo ocorre pelo Brasil afora, em que prefeituras e câmaras municipais são ocupadas por manifestantes. A maioria que não participa destas investidas mais ousadas demonstra simpatia pela causa dos ocupantes e manifestantes.

Há uma sensação de cansaço com as velhas engrenagens. Ninguém aceita mais ser tratado como idiota, marionete de Jornal Nacional. É certo que não há uma resposta unitária, eficaz e capaz de contagiar todos ou a maioria com uma proposição alternativa. Mas só este sentimento de desprezo com tudo que cheira mal cria um ambiente que pode produzir coisas novas em todos os segmentos e espaços.

Todos os dias o noticiário policial no Brasil é destaque em jornais, TV e Rádios. Latrocínios, assassinatos, estupros, assaltos, crimes de todo tipo estão estampados nos meios de comunicação. De norte a sul do país vivemos uma epidemia de violência, uma violência do cotidiano, violência do Estado que se transformou em violência cultural.

A ditadura militar vendeu a imagem de um país ordeiro com um povo pacífico. Era uma tentativa de colocar a História do Brasil para debaixo do tapete, apresentando a formação do brasileiro como a “contribuição do branco, do negro e do indígena”. Tudo parecia em harmonia nos livros, um paraíso de paz e sossego.

Nada mais falso do que essa versão. A História do Brasil, apesar de ser contada com base em pouco mais de 500 anos da presença do colonizador europeu, é uma saga de massacres. Foi assim nas missões e em todas as regiões onde tribos nativas rejeitaram a dominação portuguesa. Foi assim em Palmares e em todos os quilombos que reuniam escravos negros, indígenas e brancos pobres que não aceitaram a escravidão.

Da mesma forma foram tratadas todas as rebeliões populares dos tempos da Regência, como a Praieira, a Balaiada, Cabanada, falsamente contadas como levantes separatistas. Outros episódios marcantes da nossa História registram as práticas da tortura, assassinato, traição e degredo, como a revolta das Vacinas e a das Chibatas.

A Guerra do Paraguai é um capítulo a parte e demonstra que o Estado brasileiro, a serviço de suas elites oligárquicas, não nutre apenas ódio contra o seu povo, mas também contra todos que ousam desafiar sua sanha de império regional da América do Sul. Como explicar que ao final do conflito mais de 80% de toda a população masculina adulta daquele país fora dizimada 

O cerco e o massacre de Canudos e do Contestado são outros episódios que ilustram a história da violência no Brasil. Uma violência que tem raiz na ideologia das elites brasileiras, desde os tempos das capitanias hereditárias. A origem de nosso Estado policialesco tem seu melhor exemplo na guarda imperial, sempre pronta a cassar e a castigar “negro fujão”.

Não por acaso o desfecho de confrontos recentes da História do Brasil é marcado pela violência policial, como a prisão, tortura e assassinatos durante a Ditadura Militar. Nossos policiais exportaram a tecnologia da tortura para todos os regimes ditatoriais das Américas.

A jagunçada dos antigos coronéis vestiu farda e se transformou numa máquina de opressão cotidiana nas favelas e periferias, no campo e nas cidades. Em quase todas as notícias envolvendo violência no Brasil, policiais se fazem presentes, ora como autores ora como coadjuvantes.

Esquadrões da morte, milícias nas horas vagas, seguranças de empresas privadas, fazem bicos de todo tipo para complementar sua renda. Resta aos brasileiros reproduzir este rastro de violência em seu cotidiano. O marido que bate na esposa, a mãe que castiga fisicamente os filhos, a empregada que maltrata o idoso, o adolescente que briga na escola e ameaça o professor.

Jogada à sua própria sorte, parte da juventude das favelas e periferias das grandes cidades parte para a criminalidade. Marginalizada essa juventude pobre e negra já é, basta apenas delinqüir pela primeira vez para não mais parar.

Essa violência cultural e cotidiana que tomou conta do Brasil dá cabo de cerca de 50 mil pessoas por ano, assassinadas por armas de fogo. Grande parte pelas mãos assassinas do Estado policialesco, outra parte pelo crime e outra pela brutalidade e a ignorância de boa parte de nosso povo.

Resolver assuntos banais recorrendo à violência se tornou um costume nas últimas décadas. Qualquer desavença no trânsito ou briga de vizinhos pode levar à morte. Não há penitenciárias e Poder Judiciário que dêem conta disso. Ameaças, extorsões, estupros, confissões extraídas na base do tapa, tudo isso faz de nosso cotidiano um caldeirão de tensões, prestes a derramar a qualquer momento.

Nosso déficit não é de leis mais severas, de cadeias indevassáveis e reformatórios infanto-juvenis, mas de educação, com escolas dignas e em tempo integral para as crianças e jovens. Nosso atraso cultural é o maior responsável pela epidemia de violência que assola o país. É este acerto de contas que precisamos com urgência para que o país não mergulhe ainda mais no obscurantismo.

Como não pode evitar a convocação de uma CPI para investigar as atividades das empresas de ônibus do Rio, o governo Paes decidiu montar uma encenação. Com ampla maioria na Câmara de Vereadores, simplesmente colocou quatro dos cinco membros na Comissão e ainda indicou o presidente e o relator da CPI.

O prefeito e sua turma na Câmara Municipal só não contavam com a reação de manifestantes, que apareceram para acompanhar a sessão de instalação da CPI. Grupos de jovens não só não aceitaram a composição da Comissão, como decidiram ocupar o Plenário e realizar acampamento em plena Cinelândia, aprovando um documento entregue aos vereadores.

Durante anos houve tentativas de convocação de uma CPI dos ônibus no Rio. O máximo que se conseguiu foi uma CPI sobre os preços das passagens, que não deu em nada e ainda sugeriu que os preços cobrados estavam defasados. Agora, depois da jornada de manifestações populares de junho, alguns parlamentares da própria base de apoio ao governo Paes acabaram assinando o pedido para a instalação da CPI.

Numa época em que nem os pais conseguem provar às crianças a inocência de chapeuzinho vermelho e de branca de neve diante do lobo e da bruxa, os vereadores da base do governo que compõem a CPI e sequer assinaram o pedido de sua instalação só servem de prova do crime. 

A relação promíscua entre empresários de ônibus e poder público municipal e estadual no Rio é antiga. Ela se aprofunda a partir de meados da década de 60, quando o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, mandou desmanchar os bondes a marretadas na garagem da antiga CTC, em Triagem. Ali se instaurou o reino do rodoviarismo, que tomaria conta dos transportes públicos no Rio.

Vários são os casos de vereadores que utilizam os favores da Fetranspor e da Rio Ônibus para eventos políticos e beneficentes, como convenções partidárias e festas populares. Bastaria solicitar a íntegra do parecer do conselheiro do Tribunal de Contas do Município, Antonio Carlos Flores de Moraes, acerca da licitação dos serviços de ônibus, realizada pela primeira vez em 2010.

Os técnicos do TCM averiguaram várias semelhanças entre os consórcios de empresas, o que contraria a Lei de Licitações e revela “fortes indícios de formação de cartel”. 33 empresas de ônibus não poderiam participar da licitação. Entre os indícios estão:

– Os endereços de quatro empresas de ônibus são os mesmos e correspondem à sede do Rio Ônibus, que é o sindicato das viações, na Rua da Assembleia, no centro da capital.
– Os CNPJ de quatro grupos foram abertos no mesmo dia.
– Os consórcios foram procurar a garantia financeira exigida pelo edital no mesmo dia e na mesma instituição bancária.
– Dezesseis das 41 empresas de ônibus que se inscreveram participaram de mais de um consórcio. O edital proibia a permanência da mesma viação em mais de um consórcio vencedor.
– Doze pessoas são sócias de mais de uma empresa.
– Um único empresário, Jacob Barata Filho, é sócio em sete empresas de ônibus: Alpha, Ideal, Transurb, Normandy, Saens Peña, Verdun e Vila Real.
– Outro empresário, Álvaro Rodrigues Lopes, é proprietário de cinco empresas: City Rio, Algarve, Rio Rotas, Translitorânea e Andorinha.

De acordo com o relatório do conselheiro Antônio Carlos Flores, as empresas de ônibus tinham de repassar parte da arrecadação das catracas para o poder público gerenciar o sistema, conforme previsto pelo edital, mas isso não está ocorrendo. O cálculo das tarifas se baseia nos custos de mão de obra, manutenção, diesel, lubrificantes e outros insumos e o número de passageiros transportados.

No entanto, o esquema não leva em consideração, como ocorre em outros sistemas para diminuir as passagens, as receitas extras das empresas com publicidade nos ônibus e exploração de terminais: alguns contam com estabelecimentos comerciais que geram dinheiro para as empresas de ônibus. São 25 terminais explorados pelas companhias.

O Tribunal de Contas do Município também analisa um convênio de R$ 50 milhões entre as empresas de ônibus e a Secretaria Municipal de Educação para a instalação de um sistema que monitora a presença e freqüência dos alunos. As empresas também receberam R$ 55 milhões para transporte de alunos da rede pública.

O TCM entende que a Lei de Responsabilidade Fiscal foi ferida, pois deixam dívidas para outras gestões. O fato de o município arcar com as despesas dos estudantes fere o edital e a Lei Orgânica do Município, de acordo com o conselheiro Antônio Carlos Flores, já que a gratuidade é garantida aos estudantes pelo artigo 403.

Também pressionado pela opinião pública, o TCM voltou atrás e decidiu retomar a averiguação das denúncias sobre o sistema.

O impasse foi criado pela base do governo Paes. O jogo é pesado e envolve uma das maiores máfias do Rio e do Brasil. Pelo jeito existe mesmo muita coisa escabrosa na relação entre empresários de ônibus e a Prefeitura do Rio. Caso contrário, vereadores não estariam colocando em risco seu futuro político para impedir qualquer apuração séria e independente a respeito.

Estranhos extremos

09/08/2013

Difícil acreditar na inocência dos policiais da UPP da Rocinha, no caso do desaparecimento do pedreiro Amarildo. Tão difícil quanto acreditar na linha única de investigação da polícia de São Paulo, no caso da chacina da família de policiais de Brasilândia.

Todas as evidências possíveis para a apuração dos fatos do caso Amarildo foram inexplicavelmente perdidas: as câmeras de segurança da UPP não funcionaram, os policiais conduziram Amarildo para um posto de polícia e não para a delegacia, não há testemunhos e a Secretaria de Segurança não dá à sociedade qualquer satisfação sobre o caso.

Já no caso da família de policiais de Brasilândia só há uma linha de investigação e a polícia se apressou a apresentar sua versão para os fatos: a responsabilidade pela chacina teria sido do menino de 13 anos, filho do casal.

Passadas semanas do sumiço de Amarildo, só agora o delegado que primeiro investigava o caso aparece com a acusação à esposa do pedreiro, de estar envolvida com o tráfico de drogas da Rocinha. Esta investigação foi considerada inconsistente pelo delegado Zaccone, que está a frente do caso.

Recentemente a TV exibiu um vídeo em que Amarildo sai da UPP e é colocado dentro de uma viatura da própria polícia. Se aquela é a última imagem antes do desaparecimento, não restam dúvidas do envolvimento de policiais com o sumiço do pedreiro.

Em São Paulo, o oficial do 18º Batalhão da PM, no qual a policial Andréia estava lotada, chegou a afirmar, em entrevista à Rádio Bandeirantes, que ela denunciara a participação de outros policiais no roubo a caixas eletrônicos de bancos e que o caso estaria sendo investigado. Depois, em seu depoimento, voltou atrás.

Ninguém da família ou entre os vizinhos acredita na possibilidade do menino Marcelo ter sido o assassino e depois ter se suicidado. Não há vestígios de pólvora na mão do menino e a mãe foi encontrada ajoelhada, com um tiro na nuca, o que indica que estaria acordada na hora dos crimes e foi executada por trás.

Ora, mesmo que o pai, a avó e a tia do menino estivessem deitados no momento dos crimes, um disparo de pistola ponto 40 chamaria a atenção de uma das pessoas que estava na casa.

Os dois casos, apurados paralelamente pela polícia dos dois estados, seguem duas formas estranhas de condução. No caso de Amarildo a polícia do Rio tenta protelar a investigação ou qualquer conclusão. Ninguém sabe ninguém viu. No caso da família de policiais da chacina de São Paulo a polícia insiste com uma única linha de investigação, que incrimina um menor de idade que também morreu. Já há uma conclusão.

Estranhos extremos…