Nem governo jeca nem política caracu

16/05/2016

Com seu ministério ficha-suja, em que todos os componentes têm explicações a dar à Justiça sobre suas atividades, o usurpador Michel Temer procura apagar os primeiros focos de incêndio que cercam seu governo provisório.

Definitivamente trata-se de um governo jeca, formado por velhos coronéis da política, totalmente apartado das necessidades da maioria de nosso povo, conduzido por um velho político de bastidores. Também chama a atenção a quantidade de ministros de Dilma e Lula que compõem o governo golpista, o que só prova a capacidade das oligarquias em servir a quem quer que seja, desde que seus interesses estejam assegurados.

A contradição básica deste governo está em como contemplar a gula dos que sempre viveram à custa das benesses do Estado, com a necessidade premente de reduzir a presença do Estado para agradar à ganância do “mercado”. Os credores internacionais querem garantias de que o pagamento de juros e amortizações da dívida pública será cumprido à risca.

Temer terá um mandato-tampão para adotar toda sorte de medidas impopulares e tem consciência disto. Foi o que declarou em sua entrevista ao programa Fantástico, em 15 de maio. Aliás, a Rede Globo dá sinais de seu tucanismo, com certo receio de se comprometer integralmente com o governo Temer.

Afinal, vem aí a reforma previdenciária, que pretende somar idade mínima de 65 anos com tempo mínimo de contribuição de 40 anos. E vem mais: reforma trabalhista, que nada mais é do que o corte de direitos dos trabalhadores e a redução do papel do Estado como moderador de conflitos entre patrões e empregados.

Outra medida esperada é a mudança no sistema de exploração do petróleo da camada pré-sal, beneficiando as grandes companhias multinacionais do ramo e reduzindo a participação da Petrobras. Além disso, a privatização de estatais e a ampliação das parcerias público-privadas, nome pomposo para a entrega de serviços à exploração de grupos empresariais.

Mais uma bomba que precisa ser desarmada logo é a dívida dos estados com a União, que já começa a ter repercussão direta sobre o pagamento de salários, aposentadorias e pensões dos servidores estaduais em algumas unidades da Federação. Talvez seja por isso que o sinistro da Fazenda, Meirelles, já prepara o terreno para a volta da CPMF ou algo parecido.

Para tocar um programa pesado como este, Temer sabe que precisará do Congresso Nacional. Daí porque fez de seu ministério a casa-da-mãe-joana dos parlamentares, deputados e senadores. Ainda assim, terá que negociar com Eduardo Cunha os nomes do novo Presidente e da liderança do governo na Câmara.

O cafetão do baixo-clero não vai querer sair de cena, justamente quando se sabe que Temer pilota um governo com pouca autonomia de voo. Ele percebe que Temer precisa mais de sua base do que o baixo-clero precisa de Temer. Ou seja, o momento é oportuno para a extorsão e a chantagem sobre o governo golpista, métodos que Cunha conhece bem.

Todas as medidas pensadas, ainda não anunciadas e já declaradas fazem parte do tal “remédio amargo”, que ataca os interesses dos trabalhadores e mais pobres, incluindo setores da classe média. Por isso, Temer é aconselhado a fazê-las de uma vez, nos primeiros 90 dias de seu governo provisório. Depois vêm as Olimpíadas e as classes dominantes contam com o esquecimento popular para administrar a crise até 2018.

Nestes primeiros dias pós-golpe há dois tipos de comportamento entre os opositores de Temer: 1) As viúvas de Lula reclamam pelos cantos e nas redes sociais, mas têm pouca iniciativa para reagir. Preferem apostar no desgaste natural do governo provisório e aguardar até 2018 pela candidatura de Lula; 2) Os movimentos populares organizados e a juventude, que só têm a perder com as medidas que este governo deve impor à maioria da população. Esses reagem e vão às ruas, sinalizando os processos de luta que virão.

Há toda uma série de especulações teóricas sobre como se pode melhor exercer a resistência popular. Mas a sensação de que “estamos todos no mesmo barco” começa a predominar, o que facilita a possibilidade de formação de frentes de luta e até frentes politicas, forjadas a partir da mobilização e da solidariedade com a juventude e os movimentos populares.

Seja como for, o sentimento de unidade popular não pode mascarar a responsabilidade do PT e os limites que sua política “caracu” (aquela em que o PT entrava com a cara e o povo com o resto) impôs como prejuízo à maioria da população. Portanto, este processo pode e deve propor novos métodos de ação e reivindicações, sem o saudosismo de que “nos tempos do PT é que era bom”.

É evidente que Lula, Dilma e os petistas vão tentar surfar na onda da resistência popular, tentando canalizar o descontentamento com Temer para suas candidaturas no plano eleitoral. No entanto, os tempos já serão outros, o PT não terá tanta força política e as novas direções forjadas na luta deverão impor novas formas de organização e novos métodos de ação.

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