Leio e vejo nos noticiários de jornais e TVs que a falta de chuvas e a estiagem que castigam São Paulo já se estendem ao Rio e Minas. Os afluentes estão com suas nascentes muito baixas e o próprio Paraíba do Sul, maior fonte de abastecimento de água do Rio, dá sinais evidentes de vazão muito baixa.

Não por acaso em alguns municípios e regiões da Capital Fluminense já começa a faltar água, isso em plena Primavera. Em São Paulo, na Capital e no interior, a escassez de água já não é novidade e o governo estadual só não assumiu o racionamento durante as eleições para não prejudicar a candidatura de Aécio Neves.

Os candidatos não abordaram o assunto em campanha porque poderia sobrar para todo mundo. Da falta de gerenciamento e alternativas do governo tucano de Alckmin à política de vista grossa da devastação da Amazônia por parte do governo do PT, todos têm participação direta nesta, que pode ser uma das maiores crises de abastecimento de água do país.

E justo no Brasil, dono da vasta floresta amazônica, de inúmeras fontes naturais de suas bacias hídricas e das maiores reservas subterrâneas de água, como o Aquífero Guarani.

Duas grandes correntes que levam chuvas ao território brasileiro: a que vem da Patagônia argentina e entra pelo Sul, quase sempre chegando aos estados do Sudeste; e a que vem da Amazônia, margeando a Bolívia, o Paraguai e retornando ao território nacional pelo Mato Grosso do Sul, chegando a São Paulo.

O que os olhos poderosos dos satélites não veem, a floresta, lamentavelmente, sente: 20% das árvores da Amazônia original já foram para o chão. Restaram imensas clareiras que somam uma área maior que a França e a Alemanha juntas.

“Das chuvas que ocorrem principalmente durante o verão, a umidade é oriunda da Amazônia. E essa chuva que fica vários dias é que recarrega os principais reservatórios da Região Sudeste”, explica Gilvan Sampaio, climatologista do Inpe.

O que torna a Amazônia diferente de todas as grandes florestas equatoriais do planeta é a Cordilheira dos Andes. Um imenso paredão, de 7 mil metros, que impede que as nuvens se percam no Oceano Pacífico. Elas esbarram na Cordilheira e desviam para o Sul.

“Esses ventos viram aqui e se contrapõem à tendência natural dessa região de ser deserto. É uma região que produz 70% do PIB da América do Sul – região industrial, agrícola, onde está a maior parte da população da América do Sul”, explica Antônio Nobre, pesquisador do Inpa.

Fincadas em até 20 ou 30 metros de profundidade, as raízes das grandes árvores da Amazônia sugam a água da terra. Os troncos funcionam como tubos. E, pela transpiração, as folhas se encarregam de espalhar a umidade na atmosfera.

Diariamente, cada árvore amazônica bombeia em média 500 litros de água. A Amazônia inteira é responsável por levar 20 bilhões de toneladas de água por dia do solo até a atmosfera, 3 bilhões de toneladas a mais do que a vazão diária do Amazonas, o maior rio do mundo.

É evidente que o problema não se resume às mudanças nas condições climáticas. Uma série de medidas poderia ser tomada, caso houvesse planejamento na captação e reserva de água, entre elas a dragagem de rios e o fim dos despejos de esgotos clandestinos, tanto de empresas quanto de residências.

Uma das maiores preocupações dos governos tucanos de São Paulo foi abrir o capital da Sabesp nas bolsas de valores, negociando ações e tornando a empresa – em vez de voltada para a captação e tratamento de água e esgoto – em fonte de captação de recursos para o estado.

No sul de Minas o problema é com a barragem de Furnas, com nível bem abaixo do previsto. No Rio, o Paraíba do Sul está com seu nível mais baixo (menos da metade) nos últimos 80 anos. Com a proximidade do verão e a falta de chuvas, o consumo tende a crescer e o risco de racionamento é iminente. Em quanto isso não se vê nenhum plano integrado dos governos estaduais e governo federal para enfrentar o problema, que já é preocupante. Será que o jeito vai ser rezar para chover?

bolsafamília

Passadas as eleições presidenciais de 2014, cabem algumas reflexões sobre o processo eleitoral, que foi dos mais disputados desde a redemocratização formal do país. Uma das questões apontadas para justificar a reeleição de Dilma Rousseff e a derrota de Aécio Neves é o Programa Bolsa Família, que atende a famílias mais pobres em todo o país, complementando a renda de famílias mais pobres com recursos entre R$ 77 e R$ 154.

O governo faz as contas e afirma que gastou R$ 25 bilhões com o PBF em 2013, beneficiando cerca de 50 milhões de brasileiros (14 milhões de famílias). Considerando um Orçamento anual que atinge em torno de R$ 1,5 trilhão, o investimento é relativamente baixo.

O PBF pode ajudar a explicar a vitória de Dilma no Norte e Nordeste, mas não é tudo. Até porque os estados de S. Paulo e Minas Gerais receberam R$ 2 bilhões cada do PBF em 2013, o mesmo que alguns estados do Nordeste, como Ceará, Maranhão e Pernambuco. O Rio recebeu R$ 1,4 bilhão, enquanto a Bahia foi o estado que mais se beneficiou com os recursos do PBF, com R$ 3,2 bilhões.

Observando o mapa eleitoral, veremos que S. Paulo votou em peso em Aécio e Pernambuco despejou a maioria de seus votos no primeiro turno em Marina, enquanto o Rio se dividiu entre os três mais votados no primeiro turno. O fato é que a região Nordeste foi das que mais cresceu em termos econômicos nos últimos anos, de forma comparativa com as demais regiões do país. E isso tem consequências na hora do voto.

O grande problema é que esse tipo de programa assistencial provê o beneficiário com o mínimo necessário à sua subsistência, mas não cria condições para que ele assuma plenamente sua cidadania. Como tudo que representa gasto de dinheiro público no Brasil, a gestão do PBF também não está imune a manipulações e malversação de recursos.

Portanto, o PBF é um paliativo, não ataca as causas da pobreza e da desigualdade e, consequentemente, não atinge o poder das oligarquias regionais, que seguem comandando a política em seus estados e no Congresso Nacional. O PBF não teve qualquer impacto negativo sobre a eleição de antigos e novos membros das famílias que controlam a política de Norte e Sul do país.

Ao contrário, os aliados do governo e mesmo os candidatos de oposição fizeram questão de incorporar aos seus discursos de campanha a manutenção do PBF. Muitos, inclusive, são vistos como incentivadores e promotores do PBF em seus respectivos estados, o que não corresponde à realidade por se tratar de um Programa assistencial federal.

No entanto, de acordo com dados do Relatório da Mundial da Saúde 2013, o PBF reduziu em parte a pobreza (- 28%), a mortalidade infantil por desnutrição e diarreia de crianças até cinco anos de idade. Como todo programa de governo o PBF não está livre de possíveis manipulações, tanto na escolha dos beneficiários quanto na fiscalização do uso de seus recursos pelas autoridades estaduais e municipais.

Apesar do espetáculo midiático e de campanha em torno do Bolsa Família, quando Dilma e Aécio divergiam até sobre quem seriam os pais do PBF, a verdade é que o Programa não impediu que os tucanos, primeiros a lançar programas assistenciais semelhantes (Bolsa Escola, Programa de Renda Mínima e Auxílio-gás), perdessem a eleição para Lula em 2002. Da mesma forma, aliados do governo Dilma também foram derrotados em estados em que o PBF distribui recursos em larga escala.

Alívio

29/10/2014

Foi o que senti depois que a TV anunciou o resultado do segundo turno da eleição 2014. Confesso que não foi uma sensação agradável, não há muito que comemorar, a não ser a derrota dos tucanos e seu projeto requentado de Brasil, regado a champanhe e caviar para os especuladores do mercado financeiro internacional.

A vitória de Dilma, desta vez por escassos três por cento de diferença, faz o sinal amarelo acender para os petistas. O desgaste natural de três governos consecutivos não esconde que administrar programas assistenciais como Bolsa Família, cotas para minorias, Minha Casa Minha Vida e outros, não basta.

O Brasil das grandes cidades se ressente de serviços públicos de qualidade, como escolas, hospitais, moradia, segurança e transportes de massa. É bem verdade que essas são questões diretamente subordinadas aos governos estaduais e prefeituras, mas o cidadão comum identifica a crise dos serviços públicos com quem governa, seja o Presidente, o ministro, o governador ou o prefeito.

E não deixa de ter razão, afinal, seja qual for o ente público e sua responsabilidade administrativa, o fato é que o brasileiro paga muito imposto, direta e indiretamente. Além disso, o governo federal é parceiro de uma série de iniciativas nas áreas sociais junto aos governos estaduais e municipais.

No Rio, para tristeza da população mais consciente, Luiz Fernando Pezão, o tocador de obras de Sérgio Cabral, foi eleito. Muito em função da alternativa Marcelo Crivella não inspirar confiança ao eleitorado progressista e de esquerda, o que redundou em 13% de votos nulos no segundo turno. Serão mais quatro anos de PMDB. Certamente de mais corrupção, escolas e hospitais abandonados, violência urbana, polícia assassina, milícias e outras mazelas.

Dilma já fala em reforma política e plebiscito, mas a rejeição pela Câmara de Deputados do Decreto Lei que previa a regulamentação de conselhos populares dá uma mostra do que vem pela frente. O novo Congresso é ainda mais conservador que o que encerra sua legislatura no final de 2014.

O PSDB promete fazer barulho, agora com uma bancada maior na Câmara e nomes de peso da política no Senado. O PMDB continuará sendo o fiel da balança para a aprovação do que quer que seja no Congresso e deverá vender ainda mais caro sua fidelidade ao Planalto, com figuras como Eduardo Cunha e outros menos cotados nas negociações com o baixo clero.

Dilma terá menos tempo para mostrar a que veio, porque o descontentamento com o governo petista ficou evidente com o resultado da eleição. Se mantiver a política de acordos e submissão à sua “base aliada”, poderá se afundar em problemas na política e na economia (inflação), sem avançar da resolução de problemas que atravancam o dia a dia dos brasileiros, como as graves deficiências na Educação e na Saúde públicas. Da mesma forma terá que enfrentar os oligopólios da comunicação, propondo uma nova legislação que ponha limites aos grupos privados nesta área, e reveja excrescências da legislação eleitoral.

Se insistir no toma lá dá cá e não buscar apoio direto nos movimentos populares e organizações da sociedade civil, Dilma ficará no meio do caminho, dependendo cada vez mais de um Congresso dominado por oligarquias das diversas regiões do país.

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Seja qual for o resultado da eleição no domingo, 26 de outubro, já se pode tirar algumas conclusões do processo eleitoral de 2014 e fazer prognósticos para os quatro anos que virão e as próximas disputas políticas.

Com Dilma

Se Dilma vencer continuará dependendo da “base aliada”, que tem sua expressão simbólica em Michel Temer (PMDB), seu vice. Isso significa que, com um Congresso Nacional ainda mais conservador, teremos um segundo mandato ainda menos sintonizado com a maioria da sociedade, a não ser pelos programas assistenciais, que devem ser mantidos e ampliados.

Não se deve esperar qualquer grande avanço no que diz respeito às reformas agrária e urbana, ao controle social da mídia, nas áreas da saúde e da educação e no que diz respeito ao problema da dívida pública. Apesar de prometer, Dilma não deve ter força para aprovar um Plebiscito sobre uma reforma política. Se acontecer ela ficará muito aquém das questões mais sentidas pela maioria dos brasileiros.

As direções dos movimentos populares deverão pressionar por reformas sociais e políticas mais profundas, mas por sua posição ambígua (apoio à Dilma/PT e crítica à posturas tímidas do governo) deverão mesmo ficar – com perdão da expressão chula – na tática galinha: tomar no c… e sair cacarejando.

Os prognósticos para a economia são sombrios, já que a crise internacional não dá sinais de arrefecer. Nada que perturbe os negócios de bancos e empreiteiras, beneficiários da política econômica e das grandes obras em curso no país, além de financiadores de campanhas eleitorais. No terreno da política internacional, Dilma deve seguir com uma política de aproximação com os vizinhos da América Latina, via Mercosul, e fortalecimento dos BRICS.

Com o segundo mandato de Dilma o PT não terá que enfrentar grandes problemas internos, devendo se reagrupar, apesar das diferenças entre críticos e lulistas. O partido terá que se reorganizar no Rio e em São Paulo, para não depender de aliados pouco confiáveis nas próximas eleições. Tenderá a manter sua aliança preferencial com o PMDB e preparar caminho para lançar Lula em 2018.

Uma vitória de Dilma também provocará um rearranjo nas oposições. A ala mais a esquerda do PSB, já derrotada, deverá ser expurgada ou encontrar abrigo em outra legenda, em função da guinada do partido à direita. O PSB cresce em sua representação no Congresso e nos estados, mas deve ter uma postura mais crítica em relação ao segundo mandato de Dilma e, pelo menos no começo, uma atuação mais próxima do PSDB.

Os tucanos terão que reciclar seus projetos e discursos, para não continuarem no “quase”. Tentarão encontrar consenso interno entre as alas de São Paulo e de Minas, porque sabem que deverão enfrentar Lula em 2018, o que exigirá um esforço eleitoral muito maior. Para isso terão que reciclar sua atuação política em Brasília e reforçar suas principais lideranças no Congresso. Sobrará espaço para o senador José Serra, que nunca desistiu de pleitear a Presidência.

Com Aécio

Mas e se Aécio vencer? Bem, aí a coisa muda completamente de figura, pelo menos no tabuleiro político nacional. Se confirmada a análise e o prognóstico de Armínio Fraga, ex e futuro ministro da Fazenda, teremos mais cortes nos gastos públicos, juros mais elevados e inflação controlada pela redução da demanda do consumo. Conclusão: desaceleração da produção e desemprego. Quem vai gostar é o capital financeiro internacional, mas os bancos domésticos e as empreiteiras também não vão perder nada.

As “mudanças” pensadas pelos tucanos devem incluir reformas mais draconianas, reduzindo direitos dos trabalhadores e assegurando um ambiente “mais favorável” aos investidores. Não se pode afirmar que Aécio vá privatizar o que restou da infraestrutura do país, mas se não vender os 51% que faltam de estatal na Petrobras e esvaziar os bancos públicos, poderá comandar gestões privatizantes nestas instituições.

No plano externo, Aécio deve reaproximar o Brasil de uma política mais alinhada aos EUA, afastando-se de relações mais estreitas com os demais países da América Latina, embora não deva mexer nos acordos econômicos do Mercosul.

Como seria natural o PMDB deverá se adaptar facilmente à nova realidade, oferecendo seus préstimos e votos no Congresso Nacional ao novo governo. Isso, claro, em troca de ministérios e cargos na máquina administrativa.

Ao PT restará reencontrar o caminho da oposição. Nas ruas este papel não poderá ser protagonizado pelo seu setor moderado, que voltará a fazer discursos inflamados pela “ética na política” dentro do Congresso Nacional. Se o setor mais crítico do PT forçar uma avaliação da atuação do partido nos últimos 12 anos, poderá abrir uma crise interna e até uma cisão. Já o lulismo tenderá a atribuir a derrota a fatores externos (à mídia pró-tucanos).

No caso de uma vitória tucana, as direções dos movimentos populares deverão abrir fogo cerrado sobre o novo governo. Resta saber se suas bases serão fiéis ou já estarão tão adaptadas ao jogo de “morde e assopra” com o governo, que não terão fôlego para partir para o pau. De todo jeito, a política de arrocho salarial e de corte nos gastos públicos deve recolocar a resistência popular na ordem do dia. Antigos e novos atores deverão ocupar as ruas.

Dona de um eleitorado de 20 milhões de pessoas, que conquistou em duas eleições e a coloca como líder da terceira força política de maior expressão no país, Marina Silva terá que fazer mágica para aglutinar a sua Rede Sustentabilidade, também rachada em função das opções no segundo turno destas eleições. Como costurar um acordo sólido entre gente que pretende construir um projeto independente, com um perfil mais voltado para o social, e gente que ainda namora o PSDB?

Por último, que papel caberá à esquerda socialista? Seguir com uma postura marginal na luta política, baseada apenas nas denúncias? Abrir um debate entre as diversas correntes que queiram compor um novo projeto político para o país? Como construir um programa mínimo, que aglutine amplos setores da sociedade? Como se inserir nos setores mais marginalizados da sociedade? Como construir alternativas concretas de gestão popular? Como retomar a luta social nas ruas, no campo e na cidade?

Estes desafios precisam ser encarados, se a esquerda socialista brasileira quiser sair do gueto político em que se encontra, cuja expressão é o resultado alcançado nas últimas duas eleições presidenciais.

 

 

Mais uma vez um debate entre candidatos à Presidência passou ao largo dos grandes problemas nacionais. Foi o que se viu na “arena” do SBT, em 16 de outubro, quando Dilma e Aécio se enfrentaram em nível baixíssimo. Teve golpe baixo, rabo de arraia e dedo no olho.

Sobrou para todos e para todo lado. Das acusações de nepotismo contra Aécio, que teria empregado sua irmã e outros familiares no governo de Minas, ao citado emprego do irmão de Dilma numa prefeitura petista.

O escândalo da Petrobras foi, mais uma vez, alvo de rusgas entre os candidatos, quando Dilma revelou notícia que dava conta da suposta participação do falecido presidente do PSDB no esquema de corrupção. Aécio devolveu questionando por que, diante das denúncias, Dilma ainda não afastou o tesoureiro do PT, que também arrecada para a campanha da Presidente.

A realização de obras de mobilidade também foi motivo de divergências. Enquanto Aécio afirmou que Dilma concluiu apenas 10% das obras prometidas, a Presidente lembrou que grande parte das obras são em parceria com prefeituras e governos estaduais, inclusive os governados por aliados de Aécio.

Dilma contra-atacou questionando a situação do Aeroporto da cidade de Cláudio, no interior de Minas, construído na fazenda de um tio de Aécio. Mais uma vez a Presidente catucou o adversário sobre o desvio de verbas da educação e da saúde em seu governo. O Tucano respondeu com um documento do TCE de Minas, que atestaria que as contas de seu governo teriam sido aprovadas por unanimidade por aquele tribunal.

O ápice da baixaria foi o questionamento de Dilma a respeito da Lei Seca. Aécio não fugiu da responsabilidade e assumiu que, certa feita, dirigiu com carteira vencida e se negou a fazer o exame de bafômetro. Mas aproveitou para alfinetar Dilma, lembrando que a campanha da Presidente tem se notabilizado por rebaixar o nível do debate.

A tentativa de debater idéias e propostas mais uma vez foi apenas uma fachada para oferecer ao público um espetáculo de pugilismo eleitoral. Parece que o PT e o PSDB se notabilizaram em jogar para a platéia. Dão mais importância ao confronto direto entre candidatos – que por sinal são muito fracos – do que o que pretendem propor ao país e realizar nos quatro anos de governo.

Aécio não gosta que falem do passado dos governos do PSDB e Dilma não gosta que falem do presente do governo do PT. Como nenhum dos dois parece ter o que apresentar sobre o futuro, protagonizam uma briga de gato e rato, em que a política passa longe.

Quem melhor captou as intenções dos dois partidos foi o mediador do SBT, Carlos Nascimento. Em certo momento, diante de aplausos e vaias da platéia dividida entre tucanos e petistas, pediu silêncio em respeito aos candidatos e telespectadores, afirmando: “Isso aqui não é um programa de auditório.”

Menos…

16/10/2014

Está circulando nas redes sociais um filmete de campanha do PT do Rio Grande do Sul, no qual atores repetem uma série de frases feitas sobre os pretensos feitos do governo petista e dizem que seu voto é para os “outros”.

Nas últimas semanas, como era de se esperar, intensificou-se o trabalho de propaganda das duas candidaturas em toda a mídia. A do PT vende um Brasil de sonhos, como se os 12 anos de Lula e Dilma tivessem tirado o país do buraco e o levado ao Paraíso. Já o PSDB pinta tudo de ruim, procurando associar Dilma ao fracasso e Aécio às mudanças que a população pede.

E o que vemos no dia a dia? Sem demérito para os programas assistenciais, eles nem arranharam os problemas mais grossos que o cidadão brasileiro enfrenta em seu cotidiano.

Todos os dias o trabalhador brasileiro de qualquer grande cidade sai de casa cedinho, espera uma condução, duas ou três e leva pelo menos duas horas, em média, para chegar ao seu local de trabalho. Melhor levar marmita, porque comer na rua todo dia é um luxo que só parte da classe média pode ter. No final do dia enfrenta aquela fila para retornar, espremido num ônibus ou trem lotado, quase dormindo em pé de cansaço.

No começo do mês recebe entre um e dois salários mínimos, o que não é suficiente para suprir um conjunto de necessidades básicas de uma família de dois adultos e duas crianças (hoje o Dieese calcula em R$ 3 mil). A mulher complementa a renda, trabalhando de doméstica ou em qualquer outro local, recebendo sempre menos que um colega homem, porque no Brasil esse absurdo ainda é comum.

Só assim é possível pagar as compras do supermercado, os serviços indispensáveis e o crediário das Casas Bahia ou do Ricardo Eletro.

Já os filhos saem para estudar na escola pública mais próxima ou na que encontraram vagas. Só que muitas vezes são obrigados a voltar antes da hora, pela falta de professores e também porque a escola não oferece nenhuma atividade extra-classe. A diversão da garotada é soltar pipa, correr atrás de bola e brincar de joguinho de celular.

Entre uma brincadeira e outra a criançada e os adolescentes estão expostos ao assédio de grupos de traficantes varejistas e colegas, muitos transformados em aviõezinhos e soldados do tráfico.

Na casinha ou barraco próprio ou de aluguel, de no máximo dois cômodos, ainda mora a vovó, recebendo uma mixaria de aposentadoria, que mal dá para cobrir as despesas com os remédios para a doença crônica que carrega.

Na comunidade, vila ou bairro de periferia em que moram, as ruas e vielas não são asfaltadas, o esgoto não é encanado, a água e a energia são de gato e o hospital mais próximo fica longe. Polícia só quando o poder local atrasa o “arrego”, porque a área é dominada por traficantes, milicianos ou grupos de extermínio, que também exploram o transporte alternativo, a cat-Net e a distribuição do gás de botijão.

Nos finais de semana rola um pagode na birosca mais próxima e uma cerveja. Um filme na TV e um baile funk para a garotada.

De maneira geral é assim que vive o grosso da população brasileira. Este roteiro nenhum candidato usa em sua campanha. Os da situação para não mostrar a dura realidade do cidadão; os de oposição porque mais lhes interessa prometer mudanças. O resto é propaganda enganosa.

No entanto, essa situação poderia ser pior ainda se a política dos tucanos ainda estivesse  imperando. Digo e repito: por isso – e só por isso – ainda prefiro votar 13 em 26 de outubro.

Patético

15/10/2014

Como jornalista profissional que sou e analista que pretendo ser, fui obrigado a acompanhar até o fim o debate entre Dilma e Aécio, na Band. Não esperava muito, mas o que assisti foi pavoroso. Talvez esteja mesmo ficando velho e exigente demais.

Os dois se apresentaram como gerentes da mediocridade, da ausência de espontaneidade e da política mais rasteira. Sobraram acusações, faltou conteúdo e até cultura política. Dá saudade dos debates com Brizola, Lula, Maluf e Mário Covas.

Fernando Mitre, porta-voz da Band, declarou que o debate foi duro, assim como dura será a campanha até o final. E olhe que o eleitorado teve saco para assistir ao confronto, que ficou 2/3 de sua duração liderando a audiência no horário em que foi ao ar.

Mitre mirou num alvo e acertou em outro. Muito duro será aturar o festival de acusações e falas decoradas de Aécio e Dilma por mais duas semanas. Paciência, essa foi a escolha do eleitorado…

Como o eleitor brasileiro pode confiar num tipo como Aécio Neves, que fala como um boneco de ventríloquo, repetindo frases que decora insistentemente, sem mexer um músculo de sua face?

Dilma, que mais parece aquela inspetora gorda e chata da escola, sempre pronta a repreender a garotada, não tem a menor espontaneidade e se enrola quando precisa improvisar.

Sobre o debate propriamente dito, o que se viu foi Dilma na ofensiva e Aécio meio acuado. Afinal, se alguém tinha algo a ganhar era a petista. O playboy acabou tendo que se explicar mais do que conseguiu cobrar de Dilma. E olhe que o telhado de vidro da Presidente é grande…

Os mais apaixonados que me desculpem, mas Dilma e Aécio são a cara do que restou da política do PT e do PSDB, representantes legítimos da falta de idéias, de projetos insensíveis à realidade da maioria do povo brasileiro e apegados à mesquinharia dos que os cercam, nos palácios e bastidores em que se reúnem seus assessores.

Definitivamente, a realidade do Brasil não apareceu no palco da Band. Ou será que a coisa está tão feia como os dois?

A manifestação de apoio de Marina Silva a Aécio Neves, no segundo turno, foi cercada de expectativa. Mais uma vez, Marina qualificou o debate eleitoral, elencando pontos importantes para o avanço da sociedade brasileira. E fechou dizendo que não se trata de uma aliança para governar, mas um voto de confiança.

Num gesto explícito de aproximação, Aécio assumiu em Carta pontos que eram levantados por Marina durante os últimos dias, como pré-condição para apoiá-lo. Entre os pontos citados estão: compromisso com a manutenção das políticas assistenciais (Bolsa Família e outros), creches e escola em tempo integral no ensino fundamental; trabalhar pelo fim da reeleição; retomada da reforma agrária; política de desenvolvimento sustentável; e demarcação de terras indígenas.

Na verdade, a Carta de Aécio, anunciada em Recife um dia antes da declaração de Marina, foi uma espécie de xeque-mate para forçar Marina a tomar uma posição em apoio à sua candidatura. Mas também pode transformar Aécio em refém dos compromissos ali explicitados. No entanto, quantas vezes já se viu candidatos assumirem compromissos públicos e, assim que chegam a seus postos de governo, abandonarem suas promessas?

Em Recife, Aécio assumiu compromissos públicos. Mas que compromissos Aécio e sua coligação firmaram com as classes dominantes e suas representações no Brasil e no plano internacional? Que compromissos os tucanos estabeleceram historicamente e colocaram em prática desde a fundação do PSDB e nos oito anos dos governos de FHC?

Sinceramente, gostaria de acreditar que o PSDB e seu candidato mudaram de rumo. Mas não é o que se vê nos governos tucanos, como o de São Paulo e de Minas. E o pior, Aécio ressuscita Armínio Fraga – ex-ministro de FHC – como porta-voz de sua política econômica.

As circunstâncias da campanha inviabilizaram por completo o apoio de Marina a Dilma no segundo turno. Mas seria perfeitamente compreensível uma atitude de neutralidade de Marina, até porque o eleitorado brasileiro não se move pela vontade de lideranças e partidos.

O que temo não é o gesto de grandeza de Marina, quando decide apoiar Aécio em nome de alguns aspectos importantes para o país, mas a sua desmoralização, caso Aécio não cumpra os pontos com os quais se comprometeu em sua Carta se vencer a eleição.

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A frase acima define com maestria o cenário eleitoral do segundo turno deste Brasil de 2014. Para quem não sabe, MUDANÇA também pode ser para pior. E para quem ainda não acordou, o voto, neste caso, pode definir muita coisa.

Cansei de postar aqui neste blog as incoerências do PT, as opções lamentáveis que seu comando fez em governar com a chamada “base aliada”, as consequências disso, a política assistencial como caminho tímido e incapaz de retirar a maioria dos brasileiros da ignorância e do semianalfabetismo.

Cansei de polemizar e alertar sobre o que representa a tal “base aliada”, nome atual do antigo Centrão, que concentra as figuras mais repugnantes das oligarquias regionais deste país. Hoje, as denúncias sobre as cagadas na Petrobras só confirmam as práticas políticias desta gente – contaminando o próprio PT – que já acena para Aécio, como a prostituta que não escolhe cliente.

Está evidente que esta turma vive agarrada ao aparelho de Estado porque é dele que se locupleta e multiplica seus negócios e fortunas desde que o Brasil era formado por capitanias hereditárias. Portanto, para essa turma tanto faz quem está no Planalto, o importante é garantir maioria nos governos estaduais e no Congresso Nacional.

É óbvio que mudar o Brasil de verdade, ainda que com as mais tímidas medidas sociais, requer a decisão corajosa de tocar o dedo na ferida destas oligarquias e do grande capital monopolista, que manda na economia. Sem isso, não haverá progresso e vida melhor para o nosso povo. Estão aí os exemplos da Venezuela, Equador e Bolívia para nos mostrar isso.

Em doze anos de governos petistas nem arranhamos as causas dos principais problemas que geram o enorme fosso entre as classes dominantes e a maioria da população.

Mas, como disse lá em cima, MUDANÇA nem sempre é para melhor. A coisa pode ficar ainda pior se Aécio e o PSDB retornarem ao Planalto. Por que? Talvez as novas gerações não se lembrem ou não tenham saco para pesquisa a política do governo FHC. Lá vão algumas dicas:

. Para controlar a inflação o remédio receitado foi aumentar as taxas de juros e mantê-las num patamar que inibisse o consumo;

. Com o consumo reprimido, a produção reduzia e o emprego também. Resultado: desemprego em patamares nunca inferiores a 12%;

. Outro ponto importante foram as privatizações, notadamente a Vale do Rio Doce (maior mineradora do mundo), Rede Ferroviária e Telebras (Sistema de Telefonia). Todos estes processos foram eivados de suspeitas de corrupção e favorecimentos de determinados grupos privados;

. Em 1997 o governo e o Centrão aprovaram a reeleição, que permitiu a FHC um novo mandato em 1998;

. No segundo mandato FHC houve forte desvalorização do Real frente ao Dólar. O governo tucano foi ao FMI, que cedeu empréstimos em troca da redução de investimentos em gastos públicos, superávit primário (para garantir o pagamento dos juros da dívida pública) e taxas de juros maiores ainda;

. A situação de cortes de investimentos foi tão grave que redundou no apagão energético de 2001. Foram oito anos sem concursos públicos nos serviços públicos;

. Os salários eram mantidos sob arrocho nos serviços públicos e na iniciativa privada, ainda mais porque o trabalhador enfrentava a ameaça de desemprego. As aposentadorias também acompanhavam a tendência de arrocho;

. Os dois governos FHC não tiveram mais escândalos revelados porque o Procurador-Geral da União era conhecido por engavetador-geral da União. Mas a própria aprovação da emenda da reeleição, as privatizações e o caso do escândalo do painel do Senado deixaram marcas profundas;

Não, os governos de Lula e de Dilma não trouxeram os avanços esperados pelo povo brasileiro. Carregam os vícios e a mediocridade de quem não quis enfrentar as oligarquias e o grande capital. Mas, definitivamente, a MUDANÇA que se apresenta neste segundo turno certamente é ainda pior para o país. Por isso, e só por isso, vale votar contra Aécio e o PSDB, digitando 13 no segundo turno.