Como um cabo do Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio pode alvejar, a quarenta metros de distância, um cidadão com uma furadeira na mão, pensando se tratar de uma submetralhadora? Por um lado o cabo deve ter boa mira, por outro trata-se, no mínimo, de um caso de imperícia.

O que é estranho é que o comandante do BOPE, em vez de reconhecer o grave erro cometido pelo seu subordinado, ainda tenta justificar a ação comparando fotos da furadeira e de uma submetralhadora. Por ter se apresentado de livre e espontânea vontade na delegacia, a Lei faculta ao criminoso o direito de responder à ação em liberdade.

A viúva que testemunhou o caso ainda foi xingada e destratada pelo policial, durante a incursão no Morro do Andaraí. Mas isso faz parte do varejo da tragédia da política de segurança pública do Governo do Rio de Janeiro.

Na verdade a questão é: que tipo de polícia temos e que tipo de polícia precisamos? O BOPE, tão decantado pelas façanhas do Coronel Nascimento (Tropa de Elite), é uma força policial de combate, portanto no mesmo grau de tropas militares. Sua filosofia é atirar primeiro para depois perguntar.

Como pode este tipo de tropa agir dentro de comunidades de elevada densidade populacional? Há quem diga – com certa razão – que o BOPE é uma tropa respeitada pela população. Respeitada ou temida? Outros ensaiam uma saída sociológica para justificar a violência policial pelo fato de que a polícia e os policiais são frutos desta mesma sociedade violenta. Talvez…

Esquecem que um policial tem, em tese, a responsabilidade de zelar para que a lei seja cumprida. Para isso deve ter treinamento intensivo e especializado, preparo intelectual e psicológico para lidar com público. Por isso mesmo a formação mínima exigida de um policial não pode ser de ensino fundamental ou segundo grau. Ao mesmo tempo os salários devem ser dignos, inclusive para que se exija dedicação exclusiva destes servidores públicos. Está aí a PEC 300 para ser votada no Congresso Nacional.

Grande polêmica se abriu nos noticiários do País nas últimas semanas sobre a participação do governo brasileiro nas negociações para um acordo sobre o uso de energia nuclear pelo Irã. Ao contrário das previsões da grande mídia, que chegou a tratar a atuação brasileira com chacota, o Brasil e a Turquia conseguiram firmar uma acordo com o governo iraniano.

Trata-se do mesmo acordo que as potências internacionais pretendiam impor ao Irã há meses atrás. O urânio do projeto nuclear iraniano seria enriquecido a vinte por cento na Turquia e retornaria ao Irão para ser usado sem fins militares. Afinal, o que mudou? Por que o governo dos EUA e seus aliados no Conselho de Segurança da ONU querem impor novas sanções ao Irã sem que o acordo sequer seja analisado ou testado?

É evidente que o governo brasileiro aproveita a oportunidade e a legitimidade como membro provisório do CS da ONU para faturar politicamente com o acordo. Lula jamais escondeu a intenção de tornar o Brasil membro permanente daquele Conselho. Também consta da agenda internacional do Brasil a realização de negócios com aquele país.

No entanto, o que é de estranhar é a subjetividade dos argumentos dos que são contra o acordo com o Irã. “O governo do Irã não é confiável”, diz Hilary Clinton e reproduz fielmente a grande mídia internacional. Confiável para quem e em relação a que? Quem é confiável para os EUA e seus aliados? Israel seria confiável? Surgem indícios cada vez mais fortes de um acordo de fornecimento de armas nucleares daquele país para o governo racista da África do Sul, no ano de 1975. Dois governos amigos dos EUA.

Aqui o caso é ainda mais grave, um verdadeiro complexo de colônia dos que usam o noticiário para ridicularizar a posição do Brasil como mediador de conflitos internacionais. São as velhas classes dominantes tupiniquins, parceiras minoritárias das potências internacionais, a anunciar sua submissão, como se o Brasil não tivesse que se meter nas coisas dos “grandes”. Para elas somos “café com leite”, não podemos jogar no tabuleiro das disputas mundiais.

Mais uma vez assistimos a um show da mentalidade tacanha que acomete as elites nacionais. Por essas e outras elas só podem merecer desprezo do seu povo e serem tratadas como escória, cuja vocação é se ajoelhar e rezar na cartilha do capital mundializado, em seu papel de forças subalternas. Também pudera, nunca ousaram nada mesmo. Não seria agora que o fariam.

Depois de anunciar semanas atrás o corte de R$ 21 bilhões no Orçamento da União para este ano, o Governo Lula mete a tesoura mais uma vez nos gastos que previa fazer em 2010.

Sem muita conversa o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou novo corte, desta vez de R$ 10 bilhões. Muita gente boa acreditou que se tratava de uma medida cautelosa, tendo em vista possíveis repercussões negativas no Brasil da crise econômica que atinge a Europa.

Outros acharam que se tratava de uma tentativa de conter um possível crescimento da inflação, a partir do aumento do consumo no país. Mantega, aliás, bateu nesta tecla para justificar a tesourada no Orçamento.

Coincidência é que dias antes do anúncio de Mantega o Banco Central surpreendeu todos e simplesmente aumentou a taxa básica de juros oficial praticada no país em 0,75%. “Até aí morreu o Neves”, como diriam os antigos.

A triste coincidência é que ao elevar a taxa de juros o país terá que pagar mais aos credores de nossas dívidas. Deu pra entender!? Para bancar a farra dos banqueiros nós, simples mortais, perdemos R$ 10 bilhões previstos no Orçamento do país. E ainda dizem que não temos mais com o que nos preocupar em se tratando de dívida pública…

Mediocridade

12/05/2010

Se pudesse definir a seledunga seria com essa palavra. A responsabilidade disso não é do treinador, mas de quem o contratou para treinar a seleção brasileira de futebol. Eles precisavam de um sujeito que fosse um cordeiro, para obedecer às ordens do Teixeira e não contrariar os patrocinadores, mas que tivesse pele de lobo, para enfrentar a imprensa e os milhões de torcedores.

A Copa do Mundo é um torneio disputado em um mês. Por isso o mais sensato seria convocar os jogadores que vem se destacando nos meses que antecedem a competição.

Júlio Baptista, Josué, Gilberto Silva, Felipe Mello e Grafite são barangas perfeitamente dispensáveis. E o Doni? Aqui mesmo temos o Bruno, o Rogério Ceni e o Marcos, os três bem superiores ao Doni e ao Gomes.

Parece que o Dunga e a Comissão Técnica da CBF não ligam mesmo para o futebol jogado aqui no Brasil. Leo Moura (Fla), Hernane (S. Paulo), PH Ganso e Neymar (Santos) teriam vaga facilmente nesta seleção. E ele leva justamente o Robinho, que menos tem feito algo de bom no Santos, o Gilberto, lateral do Cruzeiro, e o Kleberson, reserva no Flamengo. Que futebol eles andam assistindo?

O argumento dos que se somam aos critérios de escolha do Dunga é de que este grupo vem ganhando. Verdade, mas de quem? Irlanda? Peru? Venezuela? Estados Unidos (jogo duro)? Espanha, Itália, Alemanha, Inglaterra e Argentina agradecem ao Dunga e ao Ricardo Teixeira. Os empresários da bola também. Afinal, ficou patente que o principal critério adotado para vestir a amarelinha é jogar fora do Brasil.

A seleção de futebol de um país é a expressão do que o esporte conseguiu produzir de melhor para representá-lo na maior competição mundial de um único esporte. Por isso, é óbvio que os convocados devem ser os que estão se destacando no momento da competição.

Por sua simplicidade de regras e de equipamentos o futebol é o esporte coletivo com maior número de adeptos em todo o Planeta. No Brasil acrescenta-se a pitada do improviso, porque na maioria das cidades, nos bairros pobres, periferias e favelas, joga-se descalço, com qualquer coisa redonda que rola, em pequenos espaços. É isso que dá ao jogador brasileiro a habilidade que o destaca dos demais. Diga-se de passagem que Dunga nunca esteve entre esses craques quando jogava.

Dunga e Teixeira querem o que chamam de “resultados”. Esqueceram dos resultados de 1958, 1962 e 1970, seleções que encantaram o mundo. A julgar pelos critérios de Dunga, Pelé e Garrincha não seriam selecionáveis.

Pode até dar zebra, mas com esta seledunga aumentam bastante as chances dos nossos adversários.

Os barões da comunicação na América Latina não estão reclamando da ameaça à liberdade de imprensa. Eles reclamam é da possibilidade de regulamentação do serviço de informação, da possibilidade de fiscalização da sociedade sobre suas empresas de mídia e seus negócios.

Grupos como Clarin, Cisneros e Globo, que formam os principais consórcios de comunicação privada na Argentina, Venezuela e Brasil se acostumaram a pautar a sociedade a partir de seus próprios interesses econômicos e políticos, contando com o beneplácito dos políticos que eles ajudam a eleger.

Esses grupos de mídia inverteram o dever de informar e de jogar luz sobre a verdade, independente de interesses econômicos e de governos, como defende o jornalista Carl Bernstein, um dos colegas que investigaram o escândalo Watergate, que derrubou Richard Nixon.

O que esses senhores e suas associações querem é continuar determinando o que pode e o que não pode ser notícia, ignorando ou minimizando fatos da realidade popular ou que contradigam seus interesses. Com raras exceções os jornais, noticiários das emissoras de Rádio e TV estão sendo pautados pelo poder público e seus eventos, através dos press releases (agora via internet), reproduzindo matérias compradas das Agências de Informação internacionais. As redações estão vazias de pessoal e pobres de conteúdo.

E mais: se acham no direito de construir campanhas, como a que defende descaradamente o latifúndio e ataca os sem-terra (Grupo Bandeirantes) ou as que visam destruir imagens de pessoas consideradas não gratas, como a das Organizações Globo em relação a Hugo Chavez.

No Brasil uma boa investigação das relações trabalhistas na maioria dos grandes grupos de comunicação bastaria para revelar absurdos, como o desrespeito à jornada diária de trabalho, salários aviltantes, não pagamento de matérias reproduzidas em mais de um veículo de comunicação, entre outros.

Agora que passaram a enfrentar questionamentos por parte de alguns poucos governantes mais corajosos e de setores da sociedade organizada, criam a campanha pela garantia da liberdade de imprensa, ou melhor, liberdade de empresa na América Latina.

Para o jornalismo tão ruim quanto a censura de Estado é a comercialização da notícia.

Por sete votos contra dois o Supremo Tribunal Federal – órgão do Judiciário mais político do que técnico – negou mérito à ação da Ordem dos Advogados do Brasil que pedia a exclusão dos torturadores da Lei da Anistia, assinada em 1979. Na justificativa de seu voto, o Presidente do STF, César Peluzo, foi capaz de afirmar que o Brasil é um país da concórdia.

O problema é que a decisão do STF tem implicações muito mais sérias para a sociedade brasileira do que imaginam as excelências que votaram contra a matéria. Não se tratava apenas de fazer justiça aos familiares dos cerca de 150 assassinados e desaparecidos políticos nos cárceres da ditadura militar brasileira, além dos três mil torturados e 10 mil exilados, mas de coibir a prática da tortura e morte por agentes do Estado.

Sem qualquer exagero, do final da ditadura para cá centenas de milhares de inocentes foram presos, torturados e mortos com o mesmo modus operandi usado pelas equipes da repressão durante o regime militar. O chamado “auto de resistência” se transformou em prática generalizada por policiais, que descrevem sempre o mesmo cenário: o meliante recebe a polícia a tiros, é ferido na troca de tiros, preso, socorrido e levado pela polícia, mas sempre morre antes de dar entrada no Hospital para o qual é conduzido.

A prática da tortura e do assassinato por agentes do Estado, portanto, não só não acabou como se generalizou. O que o STF fez dar um salvo-conduto ao Estado e seus agentes para seguir a política de extermínio, sobretudo nas comunidades de periferias e favelas, nas quais qualquer um se transforma em suspeito de traficar drogas e de pertencer à quadrilhas de bandidos, até crianças.

A decisão do STF foi criticada em todo o mundo, até porque em países vizinhos da América Latina, vários são os casos de mandantes e torturadores detidos já condenados. Em qualquer regime razoavelmente democrático a prática da tortura é tratada como crime hediondo, imprescritível e inafiançável.

Até quando a sociedade brasileira vai se deixar chantagear por um grupo de alucinados, que em 1964 usurpou o poder e deixou rastros de sangue, corrupção e dívidas econômicas e sociais imensas para os nossos filhos e netos?

No Brasil torturador é perdoado. Pela lógica da decisão do STF os soldados nazistas da Alemanha de Hitler que serviam nos campos de concentração também deveriam ser anistiados, em nome da “concórdia”. Com um Supremo Tribunal como esse não pode haver esperança de Justiça.