Será que Zé Dirceu, Lula, Dilma e companhia não sabiam em que buraco estavam se metendo quando montaram o governo da “base aliada”? Tive a pachorra, como profissional de imprensa, de assistir ao Ato de apoio a Zé Dirceu e pela anulação do julgamento do Mensalão, convocado pela CUT do Rio, dia 30/1, na ABI.

Lá chegando, além de me deparar com um séqüito de petistas e sindicalistas, ouvi as palavras de palestrantes ilustres. O brilhante colega Raimundo Pereira, a Ildegard Angel e um advogado e professor, Dr Adriano. Todos expuseram argumentos consistentes contra a forma como foi conduzido o processo, que Ilde chamou de “Mentirão”.

Não sou jurista e certamente existem outras tantas considerações sobre o julgamento, em si. Creio mesmo que tratar Dirceu, Genoíno e companhia como “quadrilha” que cometeu crime de “lavagem de dinheiro” foi uma forçação de barra, uma injustiça incensada pela grande mídia. Eles apenas tentaram, via Caixa 2, repetir práticas políticas de partidos e governos que tanto condenaram. Eu, sinceramente, não acredito que tenham tirado proveito da grana que rolou naquela ocasião.

É evidente que existem setores tão conservadores e ingênuos na sociedade brasileira que ainda crêem que Dirceu e Pallocci – hoje consultores/lobistas de grandes empresas – ainda são comunistas perigosos. Mas culpar apenas grande mídia e as elites conservadoras pelo desastroso caso do “mensalão” é tapar o sol com a peneira. As Organizações Globo apenas cumpriram, mais uma vez, o seu papel histórico.

Dirceu e a cúpula do PT bem que poderiam aproveitar o resultado dessa pantomima do julgamento moralista a que foram submetidos, para alterar o rumo da política que traçaram nos últimos anos. A desculpa que ouço até hoje, passados dez anos de governos do PT/PMDB é que não se consegue governar sem maioria no Congresso. Pode ser, mas o mais importante é ter maioria nas ruas, contar com a força popular, comprar as boas brigas políticas publicamente.

No entanto, eles preferiram o “jeitinho”, juntando-se a crápulas do ex-Centrão de FHC, como Roberto Jefferson e sua turma desclassificada. Como Dirceu não quis segurar as negociatas do PTB nos Correios, Jefferson detonou o que apelidou de “Mensalão”. Daí em diante foi o que se viu. Um julgamento político de uma corte política, como é o STF. Aliás, é bom lembrar que vários dos juízes deste mesmo STF foram indicados e defendidos pelo PT.

E então, Zé? Que tal deixar de lado o pântano da “base aliada”, formada pelas oligarquias incrustadas no PMDB e outros partidecos menos cotados? Assim sobrariam mais verbas para a Educação e a Saúde pública… Que tal rasgar aquela empulhação da Carta aos Brasileiros, que não passou da Carta aos Banqueiros, assinada por Lula antes da eleição de 2002, que não passava de uma garantia de que o país seguiria pagando a famigerada dívida pública?

Que tal apresentar um projeto consistente que acabe com o monopólio da grande mídia, capitaneada em nosso país pelas Organizações Globo? Que tal um projeto firme de reforma educacional, que chame para o Estado a responsabilidade de formar novas gerações de brasileirinhos? Que tal um projeto de Reforma Urbana, confiscando os imóveis – residenciais e terrenos – em dívida com a União e abandonados nas cidades? Que tal uma Reforma Agrária, que chute o balde do agronegócio, que fixe o homem na terra e amplie a produção de alimentos a preços mais baratos para a mesa dos brasileiros?

Afinal, não eram essas as tais Reformas de Base que João Goulart anunciou em 1964 e que foi uma das justificativas para o golpe militar? Opa! Tem um porém: essas reformas atingem os interesses da própria “base aliada”, formada por oligarquias de todo o país.

Pois é… Parece que estamos 50 anos atrasados. E a esquerda brasileira continua tentando encontrar um “jeitinho” para aliviar sua consciência, em vez de quebrar os ovos para fazer a omelete. Dirceu, Lula, Dilma e companhia não querem dar um passo adiante da mediocridade do “jeitinho brasileiro” na política. Estão todos juntos e misturados com a mesma galera que manda no país há séculos.

A grande marca dos governos petistas da “base aliada” são os programas sociais, contra os quais ninguém pode ter nada. A não ser se esses programas perdurarem por décadas, o que demonstrará a absoluta insuficiência dos tais “avanços sociais” dos governos petistas/”base aliada” que se sucedem. Aliás, esses programas – como Bolsa Família e PAC – custam tão pouco aos cofres públicos, que são aplaudidos e podem ser perfeitamente encampados por outros governantes não petistas no futuro.

Diferente de governos vizinhos de outros países da América Latina, os governos da “base aliada” do PT dão peixe, mas não ensinam ninguém a pescar. Venezuela, Equador e Bolívia preferiram um reformismo revolucionário, enquanto aqui seguimos com um reformismo conservador e sonolento.

Dirceu e sua turma, vítimas de suas próprias opções políticas, vão derramar lágrimas na cama, que é o lugar quente para quem quer chorar, como diz a velha marchinha do Cordão da Bola Preta.

Uma conjunção de erros, omissões e facilitações levaram ao incêndio e à tragédia da boate Kiss, em Santa Maria. Como já se sabia o local não possuía sinalização em caso de emergência, os extintores de incêndio não funcionaram, havia uma só porta de entrada e saída, a lotação era superior ao permitido, o isolamento acústico de material altamente inflamável e os funcionários despreparados para situações de pânico.

Nem mesmo o luto oficial dos hipócritas consegue esconder as evidências que levaram à tragédia e morte, até agora, de mais de 230 pessoas. A leviandade é tamanha que os equipamentos de filmagem que poderiam ajudar nas investigações sumiram e os donos da boate afirmam que eles não funcionavam há dois meses.

É óbvio que não se pode isentar a banda, que se apresentava com shows de pirotecnia nos palcos. Músico é para compor, tocar e cantar, não é para soltar fogos de artifício em local fechado. Ainda mais com fogos de R$2,50.

Em meio às evidências que apontam para a responsabilidade direta da Prefeitura e do Corpo de Bombeiros, o enlutado Prefeito César Schirmer insiste na tese da “fatalidade”, jogando nas costas dos bombeiros e da polícia a conta da fiscalização mal feita.

Já o comandante do Corpo de Bombeiros afirmou que os itens mínimos de segurança estavam em dia. As declarações da direção dos Bombeiros parecem tão estapafúrdias que o governador – outro indiretamente implicado – deu ordem para que os membros da corporação parem de das entrevistas.

Para o delegado que investiga o caso está claro que o plano de segurança contra incêndio (de responsabilidade dos bombeiros) estava vencido desde 10 de agosto de 2012, e o plano sanitário, da prefeitura, desde 31 de março do ano passado.

Os empresários Kiko Spohr e Mauro Hoffmann eram pessoas conhecidas na cidade e seus estabelecimentos freqüentados não só pela juventude em geral, mas também por membros do poder executivo municipal e seus familiares. Isso aponta para a velha cumplicidade local, em que um suja a mão do outro.

Agora prefeitos, governadores de todo o país e até parlamentares em Brasília resolveram agir. Poderiam começar com concursos para técnicos e fiscais, já que sabe que o corpo de fiscalização das cidades de todo o país não é capaz de dar conta de vigiar e punir os estabelecimentos comerciais dos municípios. Já os governadores bem que poderiam prestar contas do que é feito com do Funesbom, a taxa de incêndio, paga pelos contribuintes aos cofres estaduais todo santo ano.

O Brasil e o Mundo esperam que a conclusão do inquérito aponte os responsáveis e que eles sejam punidos, assim como aconteceu na boate dos Estados Unidos e da Argentina. Caso contrário, o susto da sociedade e o luto oficial vão passar e a sociedade vai esquecer mais uma vez.

Prefeito, secretário, chefe dos bombeiros, fiscais, seguranças e os donos da boate estão todos de luto. Aparecem consternados em solidariedade aos parentes e amigos das vítimas do incêndio de Santa Maria. Até a imprensa se declara enlutada, pegando carona na comoção nacional provocada pela tragédia.

 

É esse luto hipócrita, disfarçado de religiosidade e respeito, que favorece o acobertamento dos graves absurdos, provocados por relações completamente irregulares entre os responsáveis pelo que aconteceu.

 

As “autoridades” e responsáveis diretas e indiretas se apressam a expressar seus sentimentos, a decretar luto oficial, a não medir esforços, a unir forças. Nunca fazem isso antes dos acontecimentos. Prevenção, manutenção e fiscalização são inimigas do lucro fácil e da corrupção.

 

Os repórteres de emissoras de rádio e TV, com algumas exceções, se mostram constrangidos com o luto oficial, quase pedindo desculpas por indagar as autoridades sobre suas responsabilidades. A quem interessa esse luto “oficial”? É justamente neste momento, quando toda a sociedade está atenta aos acontecimentos, que cabe à imprensa cumprir seu papel de forma fria e objetiva: questionar os responsáveis.

 

O que cabe a esses senhores? Vir a público esclarecer se o alvará de funcionamento da boate Kiss estava ou não em dia; se havia ou não recomendação expressa para que fossem abertas saídas de emergência; se isso implicaria ou não no funcionamento do estabelecimento; apresentar cópias dos laudos e notificações (se é que eles existem), com os respectivos nomes de fiscais e demais responsáveis dos bombeiros e da Prefeitura; confirmar se houve ou não inspeção nos extintores de incêndio e se estavam dentro do prazo de validade; revelar as identidades dos seguranças, como foram contratados e tipo de treinamento a que foram submetidos; informar sobre a capacidade de pessoas que o espaço da boate comporta e quantas havia no momento do incêndio.

 

Pode-se contar nos dedos de uma das mãos o número de pessoas implicadas nestes casos, sobretudo do poder público e empresários, que foram sentenciados e pagaram penas por estes crimes. Foi assim nos casos do Circo de Niterói (cerca de 400 mortos), Bateau Mouche, Edifício Andraus, Edifício Andorinha, Elevado Paulo de Frontin, Estádio da Fonte Nova, Edifícios da Av. Treze de Maio e tantos outros que se sucederam no Brasil nas últimas décadas.

 

Não é por falta de legislação, é por falta de punição que vivemos aos sobressaltos no Brasil, sempre preocupados com a próxima tragédia, que pode ser mais um acidente numa estrada ou um acontecimento de proporções gigantescas como esta.

 

Enquanto essas questões não forem tratadas como crimes hediondos e seus responsáveis não forem punidos exemplarmente, vamos engolir este misto de corrupção, irresponsabilidade e jogo de empurra que vitima milhares de pessoas por ano em nosso país.

Quando comecei a escrever este artigo já eram 248 mortos confirmados no incêndio de uma boate, em Santa Maria, cidade do Rio Grande do Sul. Mais um “acidente”, obra do divino espírito santo (int) Ou será que vamos continuar apelando a crendices para explicar as barbaridades que permitimos em nosso país (int)

Qualquer especialista em tragédias sabe que elas ocorrem porque uma série de fatores concorre para isso num determinado local e momento. As centenas de mortos de desmoronamentos, em enchentes, nas estradas e agora em incêndios são apenas e tão somente isso: falta de planejamento, prevenção e manutenção.

Agora as mesmas “autoridades” se apressam em dar suas condolências aos familiares das vítimas, prometem investigação rigorosa e punição dos responsáveis. Foi a mesma cantilena nos casos do desabamento do viaduto Paulo de Frontin, do Bateau Mouche, do desabamento do Morro do Bumba (Niterói) e da tromba d´água na Região Serrana do Rio.

Vamos aos fatos: 1) A boate Kiss – uma casa com capacidade para 2 mil pessoas – estava com seu alvará de funcionamento vencido, com a recomendação do Corpo de Bombeiros para construir saídas de emergência; 2) Um engraçadinho irresponsável, querendo aparecer, acende um sinalizador no palco; 3) O forro da boate é feito de material isolante e altamente inflamável; 4) Os seguranças não têm qualquer treinamento para o caso de evacuação instantânea do local, caso se faça necessário.

Algumas considerações óbvias: 1) Se o Corpo de Bombeiros sabia que o alvará da casa estava vencido e que não havia portas de emergência, o estabelecimento não poderia estar aberto ao público; 2) Uma casa noturna desta dimensão precisa de pessoas treinadas para cuidar da segurança dos frequentadores, ao menos um técnico que faça vistorias e cuide para que episódios como detonar um sinalizador no palco sejam imediatamente coibidos; 3) Os materiais utilizados neste tipo de estabelecimento devem ser compatíveis com a segurança do local; 4) Em vez de se preocupar apenas com a segurança do seu caixa e com brigas de jovens, o dono da boate deveria treinar seu pessoal para situações de emergência;

Algumas especulações possíveis: 1) A boate estava funcionando porque alguém molhou a mão da fiscalização ou porque alguns colegas policiais e bombeiros faziam bico de seguranças no local e aliviavam a situação; 2) Não havia ninguém responsável por cuidar da segurança do imóvel e de suas instalações, bem como ninguém para treinar seu pessoal para a evacuação segura do local, em caso de emergência.

Algumas conclusões necessárias: 1) Se queremos colocar um freio na loucura da ganância e da politicagem é preciso deter imediatamente o dono da boate, bem como os fiscais e seus superiores; 2) O prefeito da cidade deve explicar que critério usou para nomear os responsáveis da prefeitura pela fiscalização, ficando sujeito a Impeachment; 3) Os responsáveis por toda esta bandalha devem ressarcir os cofres públicos pelos prejuízos causados ao município; 4) Os mesmos responsáveis devem ressarcir os familiares das vítimas, no mínimo por danos morais. 5) Os governos federal, estadual e municipal devem assumir, publicamente, o compromisso de fazer uma varredura em todo o país, fechando todos os estabelecimentos públicos e privados que não estejam em condições de receber público.

Mais importante que declarações póstumas, luto oficial e outras papagaiadas que se repetem a cada tragédia, é que as autoridades finalmente tomem atitudes, doa a quem doer. Os interesses mesquinhos, a ganância desenfreada e a politicagem no Brasil deixaram de ser um problema de bastidores. Virou doença endêmica que causa tragédias graves e mata muita gente inocente.

Em uma semana não é possível conhecer uma cidade da grandeza histórica e territorial de Buenos Aires, mas dá pra ter algumas impressões boas e más. Antes de mais nada a viagem vale pela arquitetura imponente de suas construções, edifícios públicos e mansões. São o retrato de uma época de muita pujança, da acumulação de riqueza pelas elites portenhas, via exportação de gado, couro e trigo.

São construções que lembram muito a matriz espanhola na ex-colônia, dos prédios com janelas grandes e belas sacadas com suas grades que realçam a beleza dos imóveis. Outros, mesmo em estilo neoclássico, compõem um ambiente de certa harmonia, preservado quase na íntegra em algumas ruas e avenidas da cidade.

Mesmo carecendo de conservação e limpeza, Buenos Aires, com suas avenidas largas, é uma bela cidade. Por isso atrai tantos turistas, inclusive o turismo LGBT, já que a nova legislação argentina permite a união civil entre casais homossexuais. Dizem que a noite de Buenos Aires é um show à parte. Pode ser, como não sou muito da noite vou deixar o comentário para os experts do assunto. O que se percebe é a quantidade de teatros na Av. Corrientes, com opções de espetáculos para todos os gostos.

A vida na Argentina não anda muito fácil, já comentei aqui. Inflação, crescimento baixo e desvalorização frente ao dólar e ao real deixam a economia à mercê dos descaminhos do “mercado” e a vida mais cara para o cidadão argentino. Mesmo assim, para nós, brasileiros, é possível encontrar muitas coisas interessantes para visitar. A tão falada Feira de San Thelmo vale pela mistura de expositores (com trabalhos artesanais interessantes e bugigangas), mescladas com antiquários da Calle Defensa.

O convento da Nossa Senhora do Pilar, na Regoleta, chama a atenção para o trabalho e a influência dos jesuítas na Argentina, desde os tempos coloniais. Foram eles que criaram o primeiro centro universitário no país, nos idos de 1.600. Mesmo o tal Caminito pode ser observado por outro ângulo, fora da mesmice do turismo de consumo. Várias casas de gente pobre, feitas do mesmo latão (sem cores estravagantes) que se parece ao das portas de lojas de ruas, ainda estão por lá, escondendo a pobreza de boa parte dos habitantes do bairro da Boca.

Os cafés estão por toda a parte, dos mais tradicionais aos modernosos, e são ponto obrigatório dos que gostam de um bom papo ou mesmo de ler um jornal ou um livro. A maioria não possui TV para importunar os fregueses. Para os amantes dos esportes, Buenos Aires tem algumas boas opções. Praticamente todos os clubes de futebol têm seus estádios, melhores ou piores, e os torneios não param nem nas férias.

Passei em frente ao Hipódromo, que é um dos mais tradicionais e belos das Américas. Tem até espaço para os que preferem o polo equestre, com uma cancha para 15 mil espectadores. O rugbi também é parte do cardápio de esportes bem praticados e apreciados pelos portenhos. Praças também não faltam como opção de lazer.

Para quem não suporta a badalação da Calle Florida, pode pegar a Calle Lavalle, opção de compras populares. Uma boa livraria é a Atheneu, com razoável variedade de títulos para todos os públicos e gostos. Dá para ficar paquerando livros durante horas por lá, antes de escolher o que levar. Se achar caro pode recorrer aos diversos sebos do Centro, que também oferecem boas opções a preços mais em conta.

Dulces de Leche, helados e Alafajores de diversos tipos e marcas disputam o mercado das sobremesas argentinas. Os sorvetes artesanais são oferecidos em diversas lojas especializadas, mas costumam ser caros. A boa é recorrer à velha casquinha do Mc Donalds, que na capital argentina é encontrada no sabor doce-de-leite, bem mais barato e muito saboroso. As empanadas de diversos recheios também são uma boa opção para o lanche do final da tarde, para quem não gosta de encher a pança à noite. Cuidado para não passar das medidas…

Duas dicas para os leitores: 1) Monserrat Apart Hotel: fica em área do Centro, próxima à Avenida 9 de Julho, é bem mais barato que a maioria dos que são oferecidos na internet. Os quartos são amplos, bom banheiro, frigobar, ar condicionado, excelente café da manhã, boa roupa de cama e banho e os serviços de arrumação e limpeza muito bem executados, contando também com uma equipe de profissionais de recepção e cozinha atentos e simpáticos.

2) Armazém e Restaurante Suipacho: fica na rua de mesmo nome, na esquina da Av. Corrientes. Para quem não é de exagerar no almoço a pedida é Bife de Chorizo com acompanhamento variado. Além de muito bom, o prato servido à la Carte tem 30% de desconto para quem pagar em grana. O melhor para os brasileiros é que pode ser pago em reais, com boa cotação, ou dólares, para quem dispuser das verdinhas, também com excelente valor no câmbio gastronômico do estabelecimento. Dá para dois e sai pela bagatela de cerca de 35 reais, incluindo uma água mineral.

E se você tiver a curiosidade e não resistir a um show de tango dê preferência aos do Centro Cultural Jorge Luis Borges, na Galeria Pacífico. Pelo menos o espetáculo não é caricato e é executado por dançarinos e cantores profissionais. O ingresso varia de 130 a 159 pesos.

Ah! O Teatro Colón reabriu para visitas. Para quem não topa gastar muito com as tais visitas guiadas, vale admirar os quatro lados da construção e até a exposição permanente de fotos sobre a história do Colón, com direito a fundo musical e tudo, que fica numa praça em frente. Numa breve entrada na lateral do prédio é possível registrar a irresistível fragrância que uma empresa argentina produziu especialmente para o Teatro. Algo inesquecível.

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A copa desta árvore deslumbrante plantada em 1800 nas cercanias da Recoleta, na qual se destacam o convento e o cemitério, dá uma idéia da importância histórica da presença do Jesuítas na Argentina

Nas décadas de 80 e 90 era muito comum cruzar com argentinos pelas ruas do Rio e de outras cidades. A economia deles, se não era mais forte, permitia que a classe média portenha se aventurasse em nossos rincões, inclusive as praias do Nordeste. Búzios, por exemplo, era quase uma cidade dos hermanos e muitos se fixaram por lá. Isso sem falar das praias e cidades turísticas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que hoje é programa de férias de argentinos mais abastados.

A imagem que ficou, pelo menos para mim, foi de uma gente metida, de nariz em pé, com algum dinheiro e que se achava. Julgamos o povo argentino pela má impressão que uma parte da classe média deslumbrada e presunçosa deixou. Pareciam uns sabichões cheios de si, que só queriam consumir nossas belezas naturais e achavam que nossas mulheres eram todas prostitutas.

Pois bem, o mundo dá voltas e hoje o que se vê em Buenos Aires é mais ou menos o que se passou no Rio e outras cidades brasileiras, no tempo das vacas um pouco mais gordas para a classe média argentina. Com a crise de 2001, a desvalorização do peso e o crescimento fraco, a economia deles estacionou, enquanto a classe média brasileira descobriu a possibilidade de viajar, seja por pacotes mais em conta seja por guardar umas sobras.

O trágico é que boa parte, para não dizer a maioria dos turistas brasileiros, desconhece o país para o qual viajam. Muitos acreditam nas histórias da carochinha que envolvem o colorido artificial da maioria das casas (hoje transformadas em lojinhas de bugigangas) do Caminito, espaço turístico do bairro da Boca, na região portuária de Buenos Aires.

O tal Quinquela, artista argentino que idealizou o colorido das casas do Caminito, jamais poderia imaginar que por elas desfilassem turistas ávidos por consumir, sem se preocupar em nada com a História real do local.

Pior que isso só os comentários de brasileiros na Recoleta. Uma senhora confessa para outra que nem sabia que havia cemitério ali. De um grupo de jovens de crca de 20  anos um pergunta ao pai se o nome dela era “Eva ou Evita”, referindo-se a um dos nomes mais conhecidos e identificados com a História recente da Argentina, cujos restos mortais se encontra no cemitério.

Não é só a Petrobras que tem negócios por aqui. O Itaú aparece pelas ruas, não com a mesma pujança dos bancos espanhóis ou do Banco de La Nacion, mas está presente.

Mas o pior produto que exportamos para a Argentina certamente não está no sistema financeiro, no setor automobilístico ou petrolífero. É lamentável passar pela Calle Lavalle, no Centro de Buenos Aires, e encarar sedes grandes do que antes pareciam salas de cinema, das seitas do R.R. Soares e do Valdomiro 171. Os “pastores” nem sequer se deram ao trabalho de frequentar um cursinho rápido de espanhol, porque gritam e gesticulam como se estivessem em cultos, em plena Madureira.

Tomara que os hermanos compreendam que essa galera consumista que se despencou do Brasil para cá é parte do mesmo fenômeno que picou sua classe média nos idos de 80 e 90 do século que passou. Porque, no fundo, nossos povos são parecidos e têm os mesmos problemas e desafios a enfrentar.

 

A arquitetura da velha Buenos Aires é deslumbrante, mesmo mal tratada pelo tempo e afalta de conservção. Retrato de uma época de riqueza da burguesia, através do gado e do trigo

A arquitetura da velha Buenos Aires é deslumbrante, mesmo mal tratada pelo tempo e afalta de conservção. Retrato de uma época de riqueza da burguesia, através do gado e do trigo

Sigo minha aventura portenha pelo quinto dia. Cristina terminou seu giro pela Ásia no Vietnam, fazendo média e mídia. Apareceu no noticiário descendo num dos túneis subterrâneos construídos pela guerrilha vietnamita para se esconder das tropas invasoras yankies durante a guerra de libertação de seu povo. E ainda comparou Ho Chi Min, herói nacional vietnamita, a San Martin, herói da Argentina.

No mundo dos mortais fica evidende, dando um passeio pelo Centro de Buenos Aires, que existe um clima de certa tensão e desconforto, provocado pela pobreza. Uma massa de turistas brasileiros é abordada insistentemente por cambistas de moeda, distribuidores de panfletos de restaurantes e shows de tango. Aquele “orgulho” de algumas décadas se transformou em dura realidade, com uma economia debilitada e a desvalorização do Peso frente ao Real.

Uma nova camada miserável surgiu depois da crise de 2001 e mesmo com todos os programas sociais do governo argentino, não há crescimento econômico, emprego e oportunidades para esta gente. Junte-se a isso a migração de milhares de bolivianos e peruanos, que chegaram ao país em busca de sobrevivência.

Por isso tudo crescem as favelas (Villas misérias) na Grande Buenos Aires. Daí a presença do narcotráfico e o surgimento de uma marginalidade facilmente identificável nas ruas. Não é muito seguro a turistas transitar pelo Centro de Buenos Aires à noite. Um caso que ilustra isso é o assassinato de um padeiro de origem espanhola, na Região de Quilmes, que provocou manifestação furiosa da vizinhança em frente à delegacia de polícia local.

A passagem do Subte (Metrô) deve ir para 3,5 pesos, já que não houve acordo e sequer conversa entre o governo conservador de Macri (Prefeitura de Buenos Aires) e o governo federal. Quem se lasca é o povo. Aliás, desde o início de 2007, quando o governo central interveio no Indec (o IBGE daqui), não se sabe ao certo qual é o índice da inflação. O governo Cristina trabalha com cerca de 15% para 2012, enquanto outros institutos calculam algo em torno de 30%.

Em nova conversa com um taxista pude constatar que a tal classe média argentina não está satisfeita, mas resignada frente às políticas compensatórias do governo Cristina. Uma espécie de Bolsa Família daqui repassa um valor por cada criança das famílias mais pobres e o crédito popular também cresceu, remediando uma parcela considerável da população mais carente. Qualquer semelhança não é mera coincidência com o Brasil de Lula e Dilma.

Pelo menos o governo Cristina sustenta uma batalha na sociedade para desmembrar os grupos privados de comunicação, setor que sustenta uma oposição sistemática e ideológica contra os Kirschner. Eles são a voz das velhas elites conservadoras argentinas, cheia de preconceitos e prepotência. No Brasil, nem isso o governo do PT se propõe a fazer. Afinal, seus amigos da “base aliada” estão entre os donos de canais de TV que retransmitem as programações da Globo e outras.

Apesar das dificuldades, o salário mínimo argentino chegará em fevereiro a 2.875está em torno  pesos, cerca de 1.150 reais no oficial. Já o benefício mínimo pago a um aposentado na Argentina é de 3.973 pesos. E olha que eles reclamam muito, por conta da inflação. As centrais sindicais já levantam até a necessidade de dois reajustes salariais por ano.

Isso só comprova minha tese de que o valor do trabalho no Brasil é absurdamente baixo, fruto do fim tardio da escravidão. Um argentino de classe média gasta, de acordo com o taxista, uns 150 pesos para alimentar sua família por dia. No Brasil nosso mínimo (que é o que recebe quase a metade dos trabalhadores) chegou agora a R$ 670,00.

Por isso, não se iludam, o que se vê de turista nas ruas de Buenos Aires é da velha classe média brasileira, que agora pode viajar para uma país em que a nossa moeda vale 2,5 por 1 no oficial e 3 X 1 no paralelo. Aliás, uma classe média que faz o pior de todos os turismos: o turismo de consumo, sem grande preocupação cultural.

De minha parte procuro mesclar aqueles passeios mais comuns entre a turistada com a observação da realidade nas ruas e da mídia portenha. Sigo lendo História para entender esta confusão que se instaurou no Rio da Prata desde a invasão espanhola.

*Quando encerrava este texto a partida entre Rosário Central e Newell´s Old Boys foi suspensa. Confusões envolvendo os barrabravas das duas torcidas acabaram com um policial ferido e o jogo sequer foi iniciado.

ImageImagem da Praça do Obelisco de onde se tem a dimensão da Av. 9 de Julho

 

Pouco ou quase nada sabemos da História do Brasil, que dirá da trajetória de outros povos, mesmo que estejam do nosso lado, nossos vizinhos. Como todo brasileiro confesso minha total ignorância sobre a América Latina, incluindo a dos hermanos de Argentina.

Apesar disso, dá para perceber que muitas coisas da política e do cotidiano que acontecem aqui são parecidas ou lembram muito do que se passa na nossa terrinha. O táxi que tomamos no aeroporto de Ezeiza, por exemplo, era dirigido por um diarista.

Numa conversa inicial de reconhecimento do pedaço assuntei e descobri que a Grande Buenos Aires tem cerca de 8 milhões de pessoas e que os três milhões que moram nas cercanias, fora da época de férias, vão todos os dias trabalhar e inchar ainda mais a capital. No Verão a classe média migra para Mar del Plata, em busca do sol e das praias do Rio. Buenos fica bem mais vazia. Lembra um pouco aquele tempo em que o carioca abandonava o Rio para fazer quizumba nas cidades da Região dos Lagos.

Os clubes de futebol daqui – que coincidência – também estão todos endividados, apesar de todos os anos venderem seus craques cada vez mais precocemente. Para se fortalecerem apelam aos “jubilados”, os aposentados que retornam para encerrar suas carreiras no país.

Aqui como no Brasil os bancos não vivem só dos juros e outros negócios rentáveis, mas também tratam de carregar nos preços dos “serviços bancários”, as taxas que cobram dos correntistas, sobretudo os pequenos. Agora o governo tratou de regularizar a bagunça especulativa, decretando que as taxas só podem subir “até 10%” ao ano.

A grande ferramenta das oposições elitistas e retrógradas, como na Venezuela, Equador e de resto em toda a América Latina, é a mídia. Os canais de TV tentam criar um clima de tensão e pavor por qualquer motivo: de um assalto a um problema com os trens. É a velha tática de tocar o terror e colocar a classe média em pânico.

A contraposição é feita na TV Pública. No programa noturno 678, apresentador e comentaristas analisam e criticam a forma como as matérias são divulgadas pelos concorrentes, mostrando as incoerências das abordagens direcionadas das notícias. Cristina firmou acordos econômicos com a Indonésia, para fugir das barreiras que as empresas argentinas enfrentam nos EUA e na Europa, mas a mídia prefere comentar a expressão e a roupa da Presidente.

A esquerda socialista até que existe, mas permanece dispersa e muito pequena, com grupos que mais se parecem a seitas neopentecostais. Volta e meia se esbarra nas ruas com uma ou outra manifestação, com algumas dezenas de pessoas e muito barulho (levam bumbos e caixas para chamar a atenção). As pichações também estão pelas paredes.

Numa volta por alguns pontos da cidade é possível perceber claramente a influência do peronismo, a presença de grupos beneficentes e de organizações populares. De alguma forma isso explica as raízes do peronismo e suas bases de sustentação até hoje. Para entender um pouco mais este país e seu povo folheio jornais, vejo os telejornais e comprei livros de História. Vamos ver se as minhas impressões batem com a trajetória deste país.

Ah! Os argentinos também tem um rei de música povão, uma espécie de Roberto Carlos, só que com a cara amarrotada e cabelo acaju. Um canal de TV anuncia que ele voltou e vai ter show do sujeito no sábado, em pleno Obelisco, no coração da cidade. Por sorte ou bom senso aqui não adotaram o tal horário de verão, assim aproveito sempre uma hora a mais do dia. Alfajores pra cá empanadas pra lá, sigo minha viajem, com saudades dos filhos, é claro.Image

Viajar é sempre se surpreender, superar expectativas, abandonar preconceitos, conhecer novos ares. É o que se passa com qualquer brasileiro mais observador que vá a Buenos Aires. Fundada pelo espanhol-basco Juan de Garay entre a boca do Rio da Prata e o Atlântico Sul, a capital argentina é uma cidade rasgada por grandes avenidas, 48 bairros e quarteirões relativamente organizados.

O Centro, mais rico e próximo da margem do Rio, concentra escritórios, sedes de grandes bancos, magazines, cinemas, teatros e cafés, muitos cafés. Se todos os cafés de Buenos Aires ficassem lotados a produção brasileira estaria comprometida. A circulação de taxis é espantosa. Os veículos novos e velhos de cores amarela e preta estão por todas as partes, principalmente no Centro e cercanias, com um serviço relativamente barato.

Das grandes avenidas a estrela é a 9 de Julho, com quase 150 metros de largura e o obelisco encravado no meio. Aliás, a 9 de julho e até mesmo a Florida passam por obras que devem atazanar os buenoairenses por alguns meses mais. 

Passeando pela cidade como turistão, naquele ônibus sem teto, é fácil constatar que a atual Buenos Aires é marcada por alguns períodos históricos da vida argentina. A imponência das mansões, as largas avenidas, os palácios são a expressão de uma elite criolla, que viveu seu apogeu até o final dos anos 40 do século XX, usufruindo das benesses da carne e do couro do gado bovino e do trigo.

Ocorre que de lá pra cá veio a decadência e as coisas foram mudando. Nos anos 40 surge Perón e o justicialismo, que levantaram a moral do povão, com suas reformas trabalhistas e sua base na organização sindical. A burguesia portenha nunca engoliu o peronismo, que sucumbiu a golpes e derrotas políticas, mas segue de pé com os Kirschner.

Talvez por isso a maioria dos seis canais de TV aberta se limitem a uma programação superficial, que divide o noticiário com casos do cotidiano, sobretudo os que envolvem a violência. No Verão alguns programas transmitem direto de Mar del Plata (baldenário predileto dos argentinos) e até Córdoba, onde acontece um Carnaval com trios elétricos. A capital fica meio esvaziada.

Nestes tempos de polarização entre mídia e o governo de Cristina Kirschner, sobretudo por conta da lei de meios – aprovada desde 2009 e que ainda não conseguiu entrar em vigor – a grande discussão é a desvalorização da moeda argentina frente ao dólar. E no meio dela o dólar parece mais uma das grandes paixões atuais dos portenhos, junto com o futebol, os cafés e o dulce de leche. No paralelo se pode vender um dólar por sete pesos argentinos. E até o nosso real se dá bem, valendo 3,5 pesos.

Se me perguntarem pelo tal Puerto Madero, zona rica e moderna da cidade, responderei: lugar monótono de uma elite pretensiosa e sem imaginação, com uma arquitetura clean, retilíena e careta. Um deserto de criatividade para um espaço tão belo.

Dia de cão

15/01/2013

Como diz um amigo meu, tem dia que é melhor ser de noite. Parece que tudo estoura ao mesmo tempo e a gente tem que se desdobrar em quinze para resolver ou pelo menos dar conta dos rombos que aparecem.

Quando menos se espera surge um problemão: um espertinho consegue clonar o seu cartão de banco e sumir com o dinheiro que você contava para pagar contas e outros compromissos. Que surpresa agradável! E tome ligar para o banco para bloquear o maldito cartão. E corre para a delegacia para fazer a ocorrência, sem a qual o banco não abre o processo interno sobre o caso.

Mais duas horas de chá de cadeira para ser atendido no banco, aguardar todos os procedimentos burocráticos e receber a notícia de que o caso será resolvido dentro de dez dias e um novo cartão vai ser entregue em mais ou menos 15 dias.

Legal, mas não é o banco o responsável por guardar a grana que eu depositei lá? Não tenho culpa se inventaram o cartão e a bandidagem inventou o chupa-cabras para clonar cartões bancários. Tanta tecnologia para nada… Quem mandou ser pequeno correntista?

Essa burocracia toma um tempo enorme e acabo perdendo o compromisso diário na Rádio. Faltando meia hora para o programa ir ao ar sou informado pela produção que o titular e apresentador vai “se atrasar”, por conta de compromissos pessoais. Ah! E que um dos patrocinadores do Programa não tem mais interesse em continuar.

Legal. Chuto o balde e vou à luta…

Chego ao trabalho, abro minha caixa-postal e sou informado que a Cedae fechou a ligação de água do prédio em que moro, por atraso nas contas. Para completar, a escola não envia em tempo o boleto bancário que esperava para pagar a mensalidade escolar do meu filho. Lembro que não deu para almoçar e parto para enganar o estômago, enfrentando um sanduba com suco na padaria.

Isso tudo porque vou viajar no dia seguinte. Eu que devia estar animado para tirar uma semaninha de férias, estou em frangalhos depois de um dia de cão. Socorro!!!