De nada adianta a postura de grilo falante, dos que pensam em repetir agora o conhecido “Eu avisei!”, como resposta a um provável desencanto com o candidato vencedor da eleição 2018. Pior ainda a postura dos que rotulam a todos de “fascistas”, o que rompe qualquer possibilidade de diálogo, sobretudo com os setores populares. A grande massa do eleitorado que votou em Bolsonaro o fez pela rejeição ao PT e por preconceitos, reforçados pela avalanche de notícias falsas difundidas pelo whatsapp.

Cabe à esquerda e ao centro-esquerda analisar seus equívocos e traçar novos planos para enfrentar o que se avizinha com o novo governo, a partir de janeiro. Esse esforço de crítica e autocrítica pode e deve ser feito publicamente e de coração aberto. Naturalmente caberá ao PT e seus aliados até aqui (PCdoB e PSB) – até porque foram governo por 13 anos – um processo mais amplo, que os obrigará a alterar o curso de suas políticas. Mas isso não exclui os demais partidos (maiores ou menores), como o PSOL, de suas responsabilidades.

Sobre o processo eleitoral deste ano, propriamente dito, há indícios muito claros dos equívocos cometidos pelo campo de centro-esquerda e esquerda:

  • Não seria uma eleição como outra qualquer, a partir de um golpe que apeou do poder a Presidente Dilma, no qual o Judiciário jogou um papel decisivo. Além do que, o principal líder popular e candidato natural com grande chance de vitória seria excluído do processo. E todo mundo sabia disso;
  • Todas as pesquisas indicavam, desde o início do ano, que Jair Bolsonaro era o segundo colocado (disparado), sempre na casa dos 15% a 20%, atrás apenas de Lula, que seria impedido de concorrer. Pela quantidade de candidatos qualquer candidato que alcançasse 20% estaria no segundo turno;
  • As pesquisas também evidenciavam o desgaste do PT, diferente da popularidade de Lula, o que faria do antipetismo um elemento decisivo na eleição;
  • Até o final de julho as mesmas pesquisas demonstravam também a fragilidade das demais candidaturas de “centro” e centro-direita, incluindo Alckmin e Marina.

Ou seja, estava evidente que o candidato da extrema-direita carrearia o descontentamento com a política e com o PT. Não por acaso, chegou a haver conversas de bastidores, que agora se confirmam, entre dirigentes do PT e Ciro Gomes, para que este assumisse o lugar de vice de Lula. O que não se sabe é se o PT bancaria a cabeça da chapa para Ciro, a se confirmar a impossibilidade de Lula se candidatar.

Era perfeitamente possível construir uma frente eleitoral de centro/centro-esquerda/esquerda, a partir de um processo de conversas e eventos de base, visando debater um programa mínimo comum e simples para o eleitorado.

A engenharia para a construção das candidaturas unitárias estaduais também poderia ser costurada, bastando para isso um pouco de bom-senso e a referência nos resultados eleitorais de cada partido nas últimas eleições. O PT certamente teria a maioria dos candidatos a governador, com destaque para SP e a Bahia; o PSB em Minas e Pernambuco; o PDT no RG do Sul; o Psol no Rio. Enfim, esse desenho poderia ser feito, respeitando as forças regionais dos partidos.

Infelizmente prevaleceram os cálculos eleitorais dos pré-candidatos e partidos. O PT com sua necessidade de se afirmar como partido hegemônico no campo da esquerda/centro-esquerda e os demais partidos preocupados com a sua sobrevivência, visando escapar da cláusula de barreira.

A posição defendida por Lula de esticar a corda até o fim, referendada pela maioria da direção do PT, prejudicou sensivelmente a candidatura Haddad. No primeiro turno o candidato do PT pegou o bonde andando, não participou dos primeiros debates e quando entrou na campanha gastou tempo para reverenciar Lula, tanto em sua propaganda quanto nas visitas às segundas-feiras ao cárcere da PF, em Curitiba.

O resultado do primeiro turno apontou com clareza o reflexo desses erros: 1) Bolsonaro se consolidou junto ao eleitorado mais conservador; 2) As demais candidaturas de centro e direita caíram e seus eleitores migraram para a extrema-direita; 3) A interlocução direta com os chefes das seitas neopentecostais foi o tiro de misericórdia para o resultado expressivo (46% dos votos válidos).

Do lado oposto a campanha começou a mudar de rumo quando o Movimento suprapartidário #Elenão cresceu nas redes sociais, foi atacado pelos bolsonaristas e assumiu o tom de denúncia em grandes manifestações de rua.

No segundo turno a campanha de Haddad foi obrigada a mudar de tom. Deixou de ser uma candidatura petista para se transformar em algo mais amplo, do conjunto dos que rejeitavam a extrema-direita. Nas últimas semanas de campanha amplos setores antibolsonaristas foram sensibilizados pelas ameaças do próprio candidato e seu filho, com ameaças diretas às oposições e até ao STF. Inúmeras foram as declarações de personalidades e diversas matizes ideológicas em favor de Haddad.

Mas já era tarde. O antipetismo e o conservadorismo de parcela da sociedade consagraram Bolsonaro nas urnas. Ainda assim a diferença de 11 milhões de votos (10% dos votos válidos) não foi acachapante. Isso demonstrou que só uma candidatura unitária, ampla, abraçada por diversos setores da sociedade, poderia triunfar, se apresentada no início da campanha, desde o primeiro turno.

Agora, caberá aos dirigentes políticos e dos movimentos populares uma avaliação generosa do que ocorreu e apontar caminhos: o das posições isoladas com acusações públicas uns aos outros ou a constituição de uma frente ampla, em defesa da democracia e dos direitos do povo. É o que pretendo analisar num próximo artigo.

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Vamos em frente

29/10/2018

Acabaram-se as eleições. Renovam-se as esperanças para parte do povo que votou nos candidatos vencedores, tanto para Presidente quanto para governadores. Para outra parte, resta a esperança de reconstruir seus sonhos e superar a derrota.

Foi um processo pesado demais, que dividiu famílias e desfez amizades. Na verdade, muitos não se conheciam bem ou não conheciam mais a fundo seus parentes e amigos.

Por ter envolvido uma candidatura de extrema direita, a eleição deste ano trouxe à tona uma série de conceitos e frustrações que pareciam sepultados, mas apenas hibernavam. Tudo isso foi estimulado e potencializado por uma rede de comunicação direta, alimentada por imagens e mensagens no mínimo duvidosas. Mas, é preciso admitir, ninguém replicou o que recebeu sem estar predisposto a concordar com o seu conteúdo.

Isso prova que o fim da ditadura militar (1964/1985) deixou verdadeiras caixas-pretas que precisam ser abertas pela sociedade brasileira: o aparato repressivo das Forças Armadas, polícias militares e milícias; a mídia empresarial altamente concentrada e tendenciosa; e a exploração da fé, que tem tentáculos na política e no submundo da lavagem de dinheiro. Sem contar os desafios educacionais, é evidente.

De minha parte pretendo conviver da mesma forma com todas as pessoas que conheço e das quais gosto, independentemente de suas posições políticas e ideológicas. Espero que elas tenham essa mesma compreensão. Nossas diferenças de pensamento não vão acabar, certamente seguirão existindo. Mas já aprendi que se deve esperar das pessoas apenas o que cada uma delas tem condições de oferecer, nada mais. Além disso, todos podem mudar de opinião, inclusive eu.

É fundamental que os cabeças do novo governo e das oposições contenham os ânimos dos seus apoiadores desde já, para que o confronto de ideias não transborde para confrontos, agressões e até tragédias, como ocorreu logo após o anúncio do resultado.

O que espero do próximo governo? Nada. Por alguns motivos: 1) Não acredito na ignorância, em preconceitos e na força bruta como soluções para o que quer que seja; 2) Não acredito na mentira como método de persuasão das pessoas; 3) Não acredito em projetos elitistas num país de 210 milhões de habitantes, com tantos problemas básicos a resolver.

Uma nação tem dois pilares básicos de sustentação, além da sua língua (às vezes com dialetos e sotaques, como é a nossa): I – Território: quem anuncia privatização de empresas e pretende incentivar a concentração da terra (no campo e nas cidades) em poucas mãos está reforçando os interesses de poucos, em detrimento da maioria; II – Povo: somos um povo cuja maioria é formada de negros e mestiços, sobrevivendo em condições precárias desde o colonialismo e historicamente tratado com desdém pelas nossas elites.

As classes dominantes nunca tiveram um projeto nacional para o Brasil, que abarque o povo brasileiro, tampouco têm raízes sólidas em nossa terra. Sempre foram a reboque dos acontecimentos, buscando um atalho para preservar seus privilégios mesquinhos. Sempre sonharam em amealhar o máximo possível, no menor tempo possível, e gozar a vida em outras paragens. É assim até hoje e, pela cultura da rapina permanente a que se acostumaram, não será diferente agora.

Caberá ao nosso povo, a seu tempo e com sua sabedoria, construir um projeto de sociedade em bases justas, democráticas, plurais e igualitárias. Talvez tenhamos que enfrentar um inverno rigoroso, como já aconteceu antes, mas o sol sempre voltará a brilhar aqui nos trópicos.

Resta desejar ao novo Presidente e ao grupo que o cerca um governo exitoso, que traga frutos positivos para o país, ainda que eu não acredite nessa possibilidade. Com o tempo serão obrigados a deixar de lado a pauta negativa, cujo verbo que mais se ouve é “acabar” com isso e com aquilo, e a apresentar serviço.

É bom que se tenha em conta que a vitória não foi acachapante, conquistada com os votos de pouco mais de um terço do eleitorado. Ninguém está disposto a abrir mão de suas conquistas para preservar os lucros e ambições de uma minoria. Ou seja, haverá resistência e luta.

Seguirei na minha função de analisar os fatos e tentar decifrar as metas e objetivos dos diversos atores na sociedade. Pretendo continuar exigente, principalmente com aqueles que professam a necessidade de transformações, como eu. Em breve vou publicar algumas análises deste processo, visando contribuir para o debate.

A esquerda brasileira – na qual me incluo – precisa urgente iniciar um processo profundo de crítica e autocrítica, visando superar os erros já cometidos e traçar novos planos para agora e o futuro. A luta de classes seguirá seu curso e a vida não vai esperar.

Como diz aquele ditado (variante de um provérbio latino), “palavras bastam, exemplos arrastam”.

Caros(as) leitores(as),

Me dirijo a vocês, de todos os cantos do Brasil e do exterior, em especial às mulheres brasileiras, aos negros, negras e mestiços, aos descendentes dos nossos ancestrais, aos sem-terra, aos sem-teto, aos jovens, aos homossexuais e a todos os homens e mulheres trabalhadores da nossa terra.

Me dirijo aos colegas que estudaram e que conviveram comigo, do primário, ginasial, do ensino médio e da Universidade. Me dirijo aos que tiverem paciência de chegar ao final deste texto, para que se sintam à vontade, inclusive, de criticá-la.

Nem sempre concordamos, às vezes nos estranhamos na família, na escola, na condução, no trabalho. Não há seres humanos perfeitos, não há decisões infalíveis. Da mesma forma não há seres escolhidos, raças superiores.

Restam alguns dias para o Brasil decidir seu destino para os próximos quatro anos. Quem lê meus textos, acompanha minhas postagens na Internet e meus comentários no Rádio sabe o quanto critiquei e critico a política dos governos Lula e Dilma, muito mais pelo que deixaram de fazer do que pelo que fizeram.

É verdade que nos governos de Lula e Dilma foram ampliados e criados programas sociais importantes, que beneficiaram parcela considerável dos menos favorecidos de nossa sociedade. Também foi ampliado o acesso ao consumo de bens duráveis, através do estímulo ao crédito popular. Mas não se pode negar que esses governos cometeram muitos erros.

Erraram ao não propor uma nova política de ensino, com base na escola pública em horário integral. Erraram ao fazer aliança com o velho MDB e o Centrão, o que propiciou o loteamento do Estado e perpetuou as práticas de corrupção. Erraram ao não apresentar uma política de comunicação de massas democrática, capaz de se contrapor ao modelo concentrador capitaneado pelas organizações Globo.  Erraram ao não inaugurar um novo tempo para os que precisam de terra para plantar e teto para morar.

Erraram, sim, ao não mexer na estrutura das Forças Armadas e das polícias e não expor à toda a sociedade os vícios de autoritarismo inaceitáveis herdados da ditadura militar. Erraram ao compactuar com a lógica do “mercado”, oferecendo isenções de impostos e incentivos fiscais aos grandes grupos econômicos privados, além de não abrir a caixa preta da dívida pública, que suga vultosos recursos de nosso orçamento federal.

Erraram também ao indicar sujeitos de vocação duvidosa no trato dos interesses do povo para ocupar postos estratégicos na cúpula do Poder Judiciário. E erraram mais, ao não coibirem a exploração da fé de nosso povo, num mercado infernal que promete o paraíso no céu e justifica as injustiças na Terra.

Isso tudo propiciou aos inimigos do progresso se rearticularem e darem um golpe, inspirado num programa de reformas contra os trabalhadores e o povo (trabalhista, previdenciária, terceirização geral, privatizações em massa, etc), ao qual batizaram de “Uma ponte para o futuro”.

Nos últimos meses um clima pesado de acusações, agressões e denúncias infundadas tomou conta do cenário político. Mas nem mesmo todos os erros dos governos Lula e Dilma podem justificar a ameaça de retorno ao passado de trevas que o Brasil experimentou por 21 anos.

Não há nacionalismo nos que querem privatizar em massa as nossas empresas estatais e permitir a exploração desenfreada da nossa Amazônia. Não há um pingo de justiça nos que querem condenar uns e absolver outros, acusados pelos mesmos crimes. Não há nada de humanidade nos que pregam a violência, a morte, o porte de armas generalizado e até a tortura como soluções para os graves problemas sociais que enfrentamos. Não há vestígio de solidariedade nos que pretendem tratar mulheres, negros, nordestinos e homossexuais com preconceito, assim como varrer do país todos os seus opositores, em especial os ativistas da esquerda.

Por isso, amigos leitores, o que estará em jogo no dia 28 de outubro de 2018 não é a condenação de um partido, os erros que cometeu ou a insistência em negá-los. O que está em jogo é o futuro da da nossa democracia, já carregada de limitações, problemas e desigualdades.

Se você não concorda com o PT, assim como eu, procure enxergar o que pode representar a vitória de um candidato alucinado, cujas palavras estão cheias de ódio e vingança, que na verdade são a expressão de seus preconceitos bestiais contra todo o nosso povo.

Ainda há tempo de reverter esse quadro e, pelo menos, assegurar o pouco que restou de nossa frágil democracia. Só ela nos permitirá seguir fazendo as críticas que julgamos acertadas à esquerda e à direita. Só a frágil democracia que conquistamos vai nos permitir debater e ampliar os direitos dos trabalhadores e do povo, justamente com novas medidas ainda mais democráticas que coíbam o autoritarismo, a desigualdade e a corrupção.

No dia 28 de outubro de 2018 vá à urna com a consciência de que temos muito que lutar se Haddad sair vencedor, mas que nós, nossos filhos e netos terão muito a perder se o vencedor for o senhor Jair Bolsonaro.

 

Henrique Acker

Jornalista e radialista

O discurso do capitão para sua plateia no domingo, 21 de outubro, acende um sinal de alerta para todos os que lutaram pela redemocratização e lutam pelo aprofundamento da democracia no Brasil.

Ele afirmou com todas as letras que pretende fazer uma “faxina muito mais ampla” e “varrer esses marginais vermelhos”, citando nominalmente os “bandidos do MST e os bandidos do MTST”, cujas ações “serão tipificadas como terrorismo”. De acordo com o candidato “será uma limpeza nunca vista na história do Brasil”

Não por acaso, Bolsonaro agora se sente em condições de dizer essas barbaridades em público. Depois de passar a campanha em casa, gravando e distribuindo filmes via whatsapp, o candidato da extrema direita – que corre dos debates – decidiu dar a senha para a barbárie que pretende perpetrar contra todos os seus opositores.

Até mesmo a Folha de S. Paulo, que publicou matéria sobre o esquema de Caixa2 de sua campanha, o que coloca na ordem do dia também a defesa da liberdade de imprensa.

Ainda que sejam torpes seus argumentos e toscos seus correligionários mais próximos, a campanha do capitão avança, contando com o beneplácito do Tribunal Superior Eleitoral. Depois que as denúncias de Caixa2 vieram à tona, num esquemão para influenciar o eleitorado mais conservador via fake news, ficou evidente que todo o processo está comprometido.

As imagens de filmes dos senhores Hang e Gazin (empresários de Santa Catarina que apoiam Bolsonaro) difundidas pela internet são reveladoras. Num deles dizem que estão investindo para o candidato vencer já no primeiro turno, “pra não ter que gastar mais dinheiro”. No outro o próprio Bolsonaro aparece, enquanto Hang diz que vai fazer “filminhos” para enviar pela internet. Ocorre que nenhum dos dois consta como doador de campanha no portal do TSE, o que configura Caixa2.

De acordo com informações da FSP, cada contrato de pacote de disparos de notícias falsas na semana que antecedeu ao primeiro turno custou R$ 12 milhões.

Isso sem contar as ameaças explícitas e a desmoralização pública do STF pelo filho do candidato, que em vídeo deste ano afirma que o Supremo e seus juízes estariam desmoralizados, bastando “um cabo e um soldado” para fechar o STF.

Enquanto os tribunais se mantêm calados diante dos abusos e das ilegalidades flagrantes, cometidas pela campanha do capitão, até mesmo o whatsapp tomou providências, suspendendo o envio de mensagens de empresas já identificadas, envolvidas no esquema.

O que chama a atenção é que a esquerda brasileira, que passou as últimas três décadas mais preocupada com sindicatos, centros acadêmicos e disputando nacos de legendas eleitorais, parece não se dar conta da gravidade do momento.

Seja qual for o resultado das urnas, em 28 de outubro, o país deverá entrar num clima de acirramento e convulsão política, provocada pelas mágoas e crimes de campanha. Vencedor e perdedor não vão desistir de seus propósitos e a crise econômica não dará sinais de ceder.

No governo, a extrema direita deverá criar um clima de provocações e justiçamentos, contando com a estrutura de grupos de milicianos que já atuam e dominam parte do território das grandes cidades.

Isso coloca para a esquerda brasileira uma nova etapa de luta política em defesa da democracia, que só se sustentará com apoio e mobilização de massas. E isso independe do resultado das urnas.

Se a militância de esquerda, a juventude, as mulheres, o movimento sindical e popular não se preparar para a resistência popular desde agora, as medidas antipopulares e de repressão serão aceleradas, correndo o risco de serem implantadas antes mesmo da posse de Bolsonaro, caso este confirme seu favoritismo nas urnas.

Ainda que Haddad surpreenda e vença, será necessário manter o povo mobilizado, porque a extrema direita já avisou que não aceitará o resultado. Portanto, mobilizar e organizar o povo pela base, a partir de seus locais de moradia, de trabalho e de estudo é tarefa para já.

Num tempo em que parte do nosso povo deposita suas esperanças nas mãos de um ex-capitão do Exército, que defende o porte de armas e todo tipo de preconceito, escondendo um programa econômico que preconiza a iniciativa privada como dogma, vale lembrar que tivemos grandes militares que depositaram suas esperanças na democracia e numa sociedade mais justa no Brasil.

O primeiro de que se tem notícia foi Abreu e Lima (1794-1869), que esteve ao lado de Simon Bolívar durante dez anos, nas campanhas de libertação de países da América Latina (Venezuela, Colômbia Bolívia e Equador). Naquela campanha alcançou o posto de chefe do Estado-Maior do Exército Libertador. Foi militar, ativista, jornalista, escritor, participou da Revolução Pernambucana e apoiou a Revolução Praieira (popular).

Um dos mais destacados militares brasileiros foi João Cândido, marinheiro que comandou a Revolta das Chibatas, levante dos marinheiros de 1910 contra os castigos impostos por oficiais brancos aos marujos, em sua maioria negros, pobres e recrutados no interior do país. Depois de tomarem a esquadra na baía de Guanabara e ameaçarem bombardear a sede do governo, no Rio, os marinheiros conseguiram um acordo, mas foram traídos, presos e mortos nas masmorras. Cândido sobreviveu, mas nunca teve seus direitos reconhecidos e restabelecidos pela Marinha.

Outro militar conhecido foi Gregório Bezerra, sargento que liderou o levante da Aliança Nacional Libertadora, em 1935, em um dos quartéis de Recife. Filiado ao Partido Comunista, Gregório dedicou sua vida à luta pela libertação do povo brasileiro, foi detido quatro vezes, num total de 22 anos de prisão. Foi o deputado mais votado em Pernambuco pelo PCB, em 1945 e teve seu mandato cassado em 1948. Organizou os camponeses para lutar por seus direitos. Preso, arrastado pelas ruas do Recife em 1964, Gregório dedicou sua vida a defender o socialismo. Morreu em 1983.

Apolonio de Carvalho foi cadete da Escola Militar, em Realengo e logo se tornou oficial do Exercito. Dois anos mais tarde engajou-se na Alianca Nacional Libertadora (ALN). Por sua adesao ao levante de 1935 foi preso no primeiro governo Vargas e expulso do Exercito. Em 1937 filia-se ao PCB e recebe a missao de combater como militante internacionalista na Guerra Civil Espanhola, contra as tropas fascistas. Esteve tambem na Resistencia Francesa contra a ocupacao nazista. Foi um dos fundadores do PCBR e mais tarde do PT, do qual foi um dos dirigentes ate 1987. Faleceu em 2005.

O mais renomado militar brasileiro do século XX foi Luiz Carlos Prestes. Até hoje é o aluno com as melhores notas e médias do Colégio Militar, no Rio. Tenente, liderou a revolta e a coluna que percorreu milhares de quilômetros por todo o país nos anos 20 e 30, que herdou seu nome e jamais foi derrotada em combate. Prestes filiou-se ao antigo PCB e foi seu secretário-geral até 1980. Faleceu em 1990.

Outro grande militar que se opôs ao golpe de 1964 foi o tenente-brigadeiro do ar, Ruy Moreira Lima. Piloto de 94 missões como piloto de caça da Força Aérea Brasileira durante a II Guerra mundial, Lima foi cassado e torturado por agentes da ditadura. Herói de Guerra, Ruy escreveu o livro Senta a pua!, sobre a campanha da Itália, e faleceu em 2013.

Integrante do esquadrão paraquedista de resgate Para-Sar, o capitão Sérgio R.M de Carvalho, conhecido como Sérgio Macaco, recusou-se a cumprir a missão dada pelo brigadeiro Burnier, que o designara para bombardear o Gasômetro, no Rio de Janeiro, em 1968. A missão, que certamente resultaria em muitas mortes, visava responsabilizar os comunistas e justificar nova onda de perseguições e prisões contra os que combatiam a ditadura militar. Por sua atitude foi cassado, perdeu a patente e o soldo. Faleceu em 1994.

O capitão Carlos Lamarca foi outro militar que se destacou na luta contra a ditadura militar. Formado na AMAN, servia num batalhão em Osasco (SP) quando despontou nas missões de tiro. Em 1969 deserta do Exército e passa a organizar a luta armada contra o regime militar. Em 1971 é emboscado e morto por uma patrulha do Exército com sete tiros, no interior da Bahia.

O fenômeno Bolsonaro é resultado de inúmeros fatores. Sempre existiu no Brasil, como em outros países, uma parcela importante da população que tem hábitos e costumes conservadores. Esse segmento ficou órfão quando o governo Temer e seus aliados (PSDB, DEM, etc) caíram em desgraça. A expectativa da saída de Dilma e a posse de um novo governo se frustrou rapidamente, com propostas impopulares e métodos tradicionais, como a corrupção e a troca de favores.

A construção da candidatura da extrema direita obedeceu a alguns critérios básicos: 1) Atrair esse setor da sociedade, aproveitando-se da desmoralização do governo Temer; 2) Montar um esquema de comunicação direta profissional, nas redes sociais, visando atingir e sensibilizar os mais conservadores com peças publicitárias bem montadas, sobretudo na área do moral e dos costumes. Isso virou febre no Facebook e, principalmente, no Whatsap, via grupos familiares.

Esse foi o setor do eleitorado que deu a base inicial, quando Bolsonaro alcançou 20%. Na reta final da campanha prevaleceu a polarização que interessava à extrema direita: enfrentar o PT. Por que? Porque as candidaturas de centro-direita e centro, que interessavam disputar, não conseguiriam ter forças para resistir e responder à polarização. Seu eleitorado sucumbiu ao apelo da extrema direita e migrou para Bolsonaro, pelo apelo anti-petista e a rejeição ao PT.

Para isso também foi importante a decisão dos dirigentes de diversas seitas neopentecostais, antes ligadas à campanha de Alckmin, que se bandearam junto com os partidos do Centrão para a candidatura Bolsonaro. Os cultos que precederam ao dia da eleição foram verdadeiros festivais de apelos dos pastores, uma gigantesca boca de urna, que misturou mentiras, preconceitos e fé.

No entanto, mesmo conquistando 46% dos votos válidos do eleitorado no primeiro turno, a extrema direita não derrotou a esquerda e o centro-esquerda, representados pelo PSOL, PT, PCdoB PDT e PSB. Os números dos mapas eleitorais indicam que esses partidos tiveram poucas perdas ou até cresceram na Câmara Federal, apesar da eleição ao Senado ter outra característica. Quem perdeu, de fato, foram MDB, PSDB e DEM, partidos mais identificados com o governo Temer.

Um aspecto que chamou a atenção desde antes da eleição foi a desconfiança lançada por Bolsonaro quanto à possibilidade de fraude. Isso se verificou no esquema montado pela campanha para “receber denúncias” dos eleitores. A esmagadora maioria delas não tinha procedência, foi desmascarada pela Justiça Eleitoral, mas foi o caldo para justificar a existência de um segundo turno.

O esquema profissional da campanha do candidato do PSL teve semelhanças com a campanha de Donald Trump, nos EUA. O uso das redes sociais, das Fake News e todo tipo de boato e mentira, para manter o eleitorado mais conservador apavorado e em alerta, insuflando ódio contra outros candidatos e seus eleitores.

Se há algo importante na campanha de Bolsonaro foi que ela serviu para o Brasil se enxergar. Foi como se um grande espelho cobrisse o país, mostrando a todos como somos, como vivemos, o que cultuamos e como pensamos. Provavelmente não haverá uma grande mudança da campanha de Bolsonaro para o segundo turno, talvez uma certa moderação, o que não combina com sua personalidade.

Já a campanha de Haddad terá que se transformar numa ampla frente política. Apesar do pouco tempo, terá que trabalhar com paciência, ouvindo e dialogando com as pessoas. É preciso valorizar o contato com as amizades e familiares, seja pessoalmente seja pelas redes sociais. Não se pode incorrer no erro de afrontar costumes e o falso moralismo dos que se escondem atrás da indústria da fé, muito menos apelar ao “nacionalismo petista”. É uma campanha da democracia e da liberdade contra o autoritarismo e os ataques aos direitos do povo.

Ainda há espaço para atrair eleitores, tanto uma parte dos que votaram em Bolsonaro no primeiro turno, quanto dos que se abstiveram, anularam ou votaram em branco (cerca de 30% do eleitorado). A sociedade brasileira está cansada de uma falsa polarização. Ao contrário do núcleo de extrema direita que comanda a campanha,  a esmagadora maioria dos que votaram em Bolsonaro não são fascistas, assim como o PT está longe de ser um partido comunista.

Meus companheiros e amigos,

Anunciei aqui meu voto no Guilherme Boulos para Presidente. Em todos os debates confirmei que se trata do candidato que expressa melhor e com mais clareza uma proposta popular, de viés socialista. Não tenho ilusão quanto a programas de campanhas eleitorais, nas quais a maioria dos candidatos diz o que quer. O que expressa melhor o projeto de algum líder político é sua trajetória de vida, e nisso Boulos também é admirável.

Mas esta é uma eleição diferente das que tivemos nos últimos anos, na qual o maior líder popular do país foi impedido de participar, por uma prisão injusta, em meio a um golpe parlamentar (2016), desferido contra o povo e seus direitos mais elementares. Estamos na iminência de enfrentar um candidato que representa um retrocesso para o nosso país, ainda que a maioria de seu eleitorado ignore os verdadeiros objetivos de sua candidatura.

Em torno do senhor Bolsonaro está o que há de pior na sociedade brasileira: o sistema financeiro já deixou claro sua preferência, quando as bolsas subiram e o dólar baixou diante das últimas pesquisas eleitorais; os grandes grupos de mídia já admitem conviver com uma ditadura de “baixa intensidade”; o Centrão também, quando migrou de Alckmin para o Bozo; parcela do empresariado, que chantageia seus trabalhadores com ameaças; grande parte da cúpula das seitas neo-pentecostais e seus pastores charlatães; a indústria da bala e as milícias; os contraventores; e o MDB de Temer, Cabral e Pezão, confirmado pelo apoio de Eduardo Cunha e sua filha a Bolsonaro.

Infelizmente nesses dois anos o PT não apresentou à sociedade um balanço de seus erros e acertos e, na ânsia de ampliar suas chances, insiste em fazer alianças eleitorais até com gente que deu o golpe contra o povo brasileiro. Por isso, o anti-petismo rasteiro é a argamassa que pode colar mais votos de outras candidaturas em Bolsonaro no segundo turno. Seria uma tragédia que colocaria em risco o pouco que restou de nossa frágil democracia, que custou sangue, suor e lágrimas de muitos brasileiros.

Assim sendo, sinto-me no dever de declarar que votarei em CIRO GOMES 12, no dia 7 de outubro. Que fique claro, não é um voto ideológico, nem é um voto útil. Longe de ser um chavão, estou cada vez mais convencido de que é a luta do povo organizado que pode mudar alguma coisa. É um voto de defesa para evitar algo muito pior para o Brasil e a América Latina.

Manterei meus votos para o Senado (Chico Alencar 500), deputado federal (Paulo Eduardo 5001) e estadual (Prof. André Barroso 50501) em candidatos do PSOL. Confesso que me entusiasma a candidatura de TARCÍSIO MOTTA 50 ao governo do Rio, que talvez ainda tenha chances de chegar ao segundo turno na reta final da campanha.

Meu respeito a todos que divirjam da opção que fui levado a fazer. No segundo turno (se houver) votarei e farei campanha para o candidato que enfrentar o Bozo. Espero que os companheiros e amigos entendam essa escolha que, sinceramente, não me empolga, mas é a que considero melhor para o momento. Seja qual for o resultado destas eleições, continuaremos na luta pelo aprofundamento da democracia, dos direitos dos trabalhadores e do povo e pela reorganização da esquerda brasileira.

Que fenômeno explica a mudança nos vetores da pesquisa Ibope de 1 de outubro, uma semana antes do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018? Como Haddad, que vinha crescendo, estagnou e como Bolsonaro, que estava estável entre 26% a 28%, saltou para 31%, dando uma diferença de 10% entre os dois?

Há algumas explicações que têm a ver com metodologia de pesquisa. O estudioso Alberto Carlos apontou incoerência na metodologia desta pesquisa em relação às anteriores. Outro aspecto é que o levantamento encomendado pela Record TV (Real Time Big Data) apresentou um resultado mais coerente com os vetores anteriores, dando 29% a Bolsonaro e 24% a Haddad, portanto, 5% de diferença, metade do que apresentou o Ibope.

Há também o avanço da candidatura Bolsonaro entre as seitas neopentecostais, com o apoio explícito da IURD, que antes pedia votos para Alckmin. Isso reforça o descolamento dos partidos do Centrão da candidatura tucana. Provavelmente esse fenômeno tenha dado maior fôlego ao candidato da extrema direita.

O importante a destacar em todas as pesquisas é a espantosa rejeição dos dois candidatos que lideram as intenções de votos. Tanto Bolsonaro (mais de 40%) quanto Haddad (mais de 30%) chegam a uma semana do primeiro turno com uma rejeição nunca antes vista em processos eleitorais presidenciais. O que isso indica?

. Muito provavelmente a eleição se decidirá em segundo turno, num grau de polarização que impedirá o debate dos grandes temas nacionais: como tratar da dívida pública, as taxas de juros, a retomada do crescimento econômico, o desemprego, os salários, os direitos dos trabalhadores e a Previdência.

. Ainda há uma grande quantidade de indecisos, pessoas dispostas a mudar seu voto e nulos e brancos a disputar. E num contexto de grande polarização (ainda que mais emocional do que política) isso deve ter efeito considerável sobre o resultado do primeiro turno.

. As candidaturas mais ao centro e centro-direita mostram-se frágeis para se impor, num quadro de polarização política que prima pela emoção e pouca razão. Além do que, todas elas soam ao eleitor como a “velha política”, de partidos e candidatos que nunca fizeram nada.

. A polarização que vivemos é parte de um jogo de luzes e espelhos, de uma sociedade que trata os fenômenos com tremenda superficialidade, ainda mais no campo da política. Nem Bolsonaro representa um movimento neofascista organizado, nem o PT seria comunista ou levaria o Brasil a ser “uma Venezuela”, como repetem os mais reacionários. Mas isso é o que está nas cabeças (inclusive algumas que se dizem pensantes) de conservadores e progressistas.

. O movimento Mulheres Unidas contra Bolsonaro cumpriu papel fundamental para expor a indignação do setor mais progressista da sociedade com as bravatas conservadoras daquele candidato. As manifestações de 29 de setembro saíram das regras eleitorais, unindo eleitores de diversas candidaturas. Mas ainda estão restritas a um setor mais politizado da sociedade.

. O efeito da delação premiada do ex-ministro petista, Antônio Palocci, não deve fazer grande estrago na candidatura Haddad. Até porque carece de provas e o eleitorado já está um tanto calejado das pegadinhas de última hora. Será mais importante o comportamento dos candidatos no último debate antes do primeiro turno. Até porque, na ânsia de dar uma virada de última hora, podem atacar Haddad e deixar Bolsonaro mais à vontade. Isso certamente teria efeitos sobre o eleitorado de centro, também no segundo turno.

. Não há como prever ainda o comportamento do eleitor derrotado no primeiro turno. No andar da carruagem veremos a definição do voto muito mais pela emoção do que pela razão. Teremos a polarização “qualquer um menos Bolsonaro” contra “tudo, menos o PT”.

. Um governo presidido por qualquer um dos dois terá enormes dificuldades de impor uma agenda e aprova-la, num Congresso que se avizinha ainda mais pulverizado em número de parlamentares dos diversos partidos. Nenhuma bancada deve superar os 60 deputados.

. Isso interessa aos grandes grupos do “mercado”, que querem uma agenda conservadora, que dê continuidade às reformas já aprovadas e por aprovar, como a da Previdência. A depender do resultado das urnas ela pode ser “empurrada” ainda na atual legislatura. Ou seja, um Presidente fraco estará sujeito a todo tipo de lobbie e pressão de bastidores, sob a chantagem permanente das bancadas de grupos econômicos no Congresso.

O momento para unificar a esquerda e o centro-esquerda numa candidatura única passou. Era dever e responsabilidade dessas forças e partidos convocar um amplo debate nacional, que culminasse com a apresentação de um programa mínimo, enxuto e objetivo, com uma candidatura que expressasse todo esse campo. Agora é aguardar o segundo turno.

O crescimento da candidatura da extrema direita nas eleições presidenciais de 2018 traz à tona algo fundamental, pouco comum na sociedade brasileira: a polarização eleitoral escancarou as portas da nossa sociedade. Ele vai da política à moral, passando pelos direitos sociais, os costumes e a cultura.

A tradição da História do Brasil é empurrar as nossas “vergonhas” para debaixo de um imenso tapete de 8,5 milhões de km2, como se bastasse varrê-las para lá. Acontece que poeira acumula e, depois de um tempo, nem o tapete consegue conter tanta sujeira. Esse é o resultado dos velhos pactos das elites, que se antecipam às revoltas populares para mudar tudo, sem mudar nada.

Debaixo desse nosso enorme tapete tem sangue pisado de muitos séculos, do massacre dos nossos povos originários (em nome de um cristianismo colonialista), dos escravos negros, dos que se rebelaram contra a coroa lusitana, dos que lutaram por justiça e contra os privilégios das classes dominantes.

Debaixo desse tapete também tem muito preconceito racial, que não se resolveu com a Lei Áurea, e que acabou por manter mais de 50% da sociedade brasileira largada ao “Deus dará” das periferias, favelas, cortiços e palafitas, sobrevivendo de bicos, com salários irrisórios, enquanto a Casa Grande esbanja riqueza material, fruto da exploração brutal do nosso povo.

Debaixo do nosso imenso tapete tem machismo, que dá ao homem não só salários e funções melhores, mas reconhece o direito de tratar a mulher como seu objeto e até de espancá-la e matá-la por “amor”.

Debaixo do tapete brasileiro tem desprezo e nojo aos homossexuais, ridicularizados e espancados, como se fossem doentes incuráveis, tratados como escória, muitas vezes por aqueles que são mal resolvidos em sua sexualidade.

Debaixo desse tapete tem preconceito regional, que divide o país entre Sudeste/Sul moderno, de um lado, e Norte/Nordeste atrasado de outro.

Debaixo do nosso tapete tem muita ignorância, revelada pelos baixos índices de leitura, conhecimento, cultura, mais uma prova inconteste do nosso apartheid, disfarçado de democracia.

Debaixo do tapete escondemos nossos cultos afro-brasileiros, seus batuques e rezas, seus orixás inspirados nas forças da Natureza, coisas do “demônio” para os colonizadores de ontem e de hoje.

Debaixo do tapete chamado Brasil temos a velha capatazia, que antes corria atrás de “negro fujão” e hoje entra nas favelas e periferias com os pés nas portas dos barracos, atirando, torturando e assassinando negros jovens. Estão ali para lembrar que lugar de pobre é na senzala e que se houver confusão o “couro vai cantar”.

Debaixo do nosso tapete verde e amarelo existe uma cerca, comandada por algumas poucas famílias, que dirigem os meios de comunicação. Antes eles produziam manchetes escandalosas, hoje estão aí a reproduzir a ideologia dos ricos, com seu moralismo hipócrita a esconder os interesses milionários de seus sócios e anunciantes.

Debaixo do tapete deste país existe um Judiciário formado pelos filhos das elites dominantes, que não perdoa ou não releva os pequenos delitos dos pobres, mas prorroga prazos e concede liberdade aos seus amigos ricos, corruptos e larápios de alto escalão.

Debaixo do tapete brasileiro persistem as velhas Forças Armadas, cujo patrono é, ao mesmo tempo, “pacificador” de rebeliões e chefe de um dos exércitos mais sanguinários das Américas. Forças Armadas que não limparam e nem permitem limpar as mãos de muitos se seus membros, que prenderam, torturaram e mataram brasileiros que lutaram contra o autoritarismo e por um país mais justo.

Se há um ponto positivo na polarização política tresloucada que atravessa o país é que ela levantou o nosso tapete. O Brasil, com todos os seus traumas de cinco séculos de História, se revela aos olhos de todos como uma grande nuvem de poeira. Temos, a partir de agora, a chance de escolher: se vamos varrer nossas “vergonhas” de novo para debaixo do tapete ou se vamos encará-las, debate-las de peito aberto e enfrentá-las de vez.

 

Afinal, quem são os brasileiros? De acordo com o antropólogo Darcy Ribeiro, somos uma mistura dos povos originários – vulgarmente conhecidos como indígenas – com negros trazidos durante séculos para servir de escravos, e uma minoria de brancos que aqui chegaram para a empreitada colonial lusitana.

De 1.500 para cá, quando começa esse processo de mistura – forçada, é verdade – fomos o povo do pau brasil, do ouro das Minas Gerais, da cana de açúcar, do café. Atravessamos séculos de escravidão, opressão colonial, racial, sexual, de submissão das mulheres. Até que as mudanças do sistema capitalista mundial nos forçaram, tardiamente, a acabar com a escravismo. Apesar dos castigos, dos grilhões, do trabalho forçado, dos estupros, ninguém foi julgado, ninguém foi punido.

Chegamos ao século XX com muitas contas a acertar. Milhões e milhões de pobres e miseráveis, secas, doenças que dizimaram milhares. Mas as elites brasileiras, sempre tão submissas aos seus pares estrangeiros, fizeram questão de continuar reprimindo nosso povo. Ninguém foi julgado, ninguém foi punido. Quando não encontravam saída, faziam seus acordos para mudar tudo sem mexer em nada.

O tempo passou, atravessamos guerras e conflitos mundiais, assistimos povos irmãos lutarem de armas nas mãos por sua liberdade. Até que o país foi mergulhado em 21 anos de ditadura, sob a qual se praticava a censura, a prisão ilegal, a tortura e assassinatos. Viramos o país das montadoras, das empreiteiras, da caderneta de poupança e do bolo que crescia, mas do qual o povo só comia migalhas.

Até que a ditadura não tinha mais sentido de existir. Foi quando, mais uma vez, as elites fizeram um pacto para conter o povo, que nas ruas pedia liberdade e o fim de todas as mazelas. No entanto, ninguém foi julgado, ninguém foi punido.

Depois de séculos de tentativas, parecia que finalmente teríamos um novo país. Houve avanços, é verdade, mas não se mexeu nas estruturas. Os capatazes continuaram perseguindo e matando, os sanguessugas do “mercado” continuaram ganhando rios de dinheiro em forma de juros e o plim-plim a fazer as cabecinhas.

Aos poucos, a luz forte do fim do túnel foi cedendo, se apagando e se tornou uma lamparina tão fraca, que uma lufada de vento a derrubou. Outra vez ninguém disse nada, preferindo o orgulho dos sabichões a assumir as responsabilidades. Sob os auspícios de juízes, parlamentares e a vista grossa da cúpula das Forças Armadas, nova quadrilha de larápios se aboletou no poder, cortando direitos e benefícios conquistados com tanto sacrifício.

Agora, em pleno século XXI, eis que nos encontramos à beira de um momento decisivo. E como não houve processo, ninguém foi julgado e ninguém foi punido, não sabemos sequer identificar nossos algozes. Corremos o risco de atirar o país inteiro num precipício, sob a ameaça de um punhado de trogloditas e entreguistas. E o pior, apoiados por grande parcela do nosso povo negro, mestiço e pobre, que mais uma vez será sacrificado no banquete das elites.

Onde falhamos? Em muitas coisas, mas principalmente em empurrar nossa sujeira e nossas vergonhas para debaixo do tapete, fazendo de conta que ali elas se acomodariam ou sumiriam sem ser percebidas. Convivemos com o elevador de serviço, a entrada dos funcionários, o quartinho de empregada, com ditados como “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.

Em vez de encarar nossas mazelas, reforçamos nossos preconceitos com piadinhas de mau gosto contra os negros, tratando nossas mulheres como seres inferiores e com covardia, desdenhando de homossexuais e dos mais pobres. Em vez de encarar os de cima, aceitamos com naturalidade a punição cotidiana dos de baixo.

Agora chegou a hora de passar a limpo a nossa História. Não em forma de vingança, mas de sabedoria. Precisamos assumir e ensinar pacientemente às novas gerações quem somos, de onde viemos e como chegamos até aqui. Seja para enfrentar o precipício ou para evitar que voltemos a nos aproximar dele, se ainda houver tempo para isso.