Como tudo na vida, a política também é feita de cálculos e escolhas. É consenso entre os setores progressistas e de esquerda que o governo Bolsonaro representa um grande retrocesso e está levando o país ao caos em todos os sentidos.

Diante de um projeto de extrema direita, seja ele qualificado como fascista, neofascista ou herança da linha dura da ditadura, é necessário a conformação de uma Frente Ampla de resistência e luta.

A base dessa Frente só pode ser formada pela unidade de ação dos diversos movimentos populares de moradia, luta pela terra, ambientalista, juventude, sindical, cultural, etc. É com isso que se pode fazer o cimento fundamental para qualquer processo que combata o ultraliberalismo econômico e o avanço do conservadorismo miliciano.

Essa base precisa se expressar nacionalmente e ampliar seus tentáculos a setores das camadas médias, intelectualidade, pequenos empresários e todos que estejam em contradição com Bolsonaro e seus aliados.

No entanto, o que se vê é um tiroteio entre Ciro Gomes e a cúpula do PT, criando obstáculos à unidade no campo das oposições. O PT insiste em colocar como foco de sua atenção a campanha “Lula livre”. É certo que a liberdade de Lula precisa e deve ser defendida publicamente, mas o PT está transformando essa bandeira em “Lula presidente”, antecipando a disputa eleitoral de 2022.

Já Ciro Gomes contra-ataca publicamente, dirigindo suas baterias contra o PT, o que não contribui em nada para o surgimento de um projeto unitário das oposições democráticas e de esquerda no próximo período.

O cálculo tanto da cúpula petista quanto dos ciristas é acumular forças para ter a candidatura presidencial em 2022. Ora, mal sabemos o que virá pela frente até lá. Correto seria que esses setores abrissem uma rodada de diálogo público, iniciando pela autocrítica necessária sobre os equívocos políticos cometidos ao longo dos últimos anos, que propiciaram a Bolsonaro e seus aliados chegarem ao Palácio do Planalto.

O próximo processo eleitoral presidencial está previsto para 2022, mas até lá não se sabe sequer se teremos ou não eleições. E muito menos se Ciro e Lula estarão vivos ou em condições de disputá-lo. É o cúmulo da miopia e falta de grandeza política seguir com essa pancadaria de baixo nível entre setores fundamentais das oposições.

Para deter os retrocessos a que a sociedade brasileira está exposta é preciso fazer política como estadista. Por isso, ou é FRENTE AMPLA ou é nada. Talvez a saída para superar esse impasse seja a construção de um ENCONTRO NACIONAL DE BASE por uma Frente Ampla, visando debater eixos centrais de um programa para ação.

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Desde a eleição venho me questionando sobre a conjunção de fatores que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Li, assisti e continuo acompanhando os discursos das mais variadas correntes de opinião, que classificam o fenômeno como fascista ou neofascista. Há até os que insistem em apontar para as manifestações de 2013 como embriões do bolsonarismo.

Temos uma esquerda que vive em sua bolha, que critica as camadas médias, mas que é fruto delas e que, portanto, tem enorme dificuldade em compreender a realidade popular e suas contradições. Esquerda formada a partir de uma cultura eurocêntrica, que desconhece a América Latina e pouco liga para as raízes históricas de nosso próprio país.

Nos últimos tempos defendo com convicção de que o governo Bolsonaro é um fenômeno tipicamente latino americano, das sociedades de caudilhos, que nasceu e se afirmou em meio à tragédia colonial e cruzou séculos até a sociedade contemporânea, arrastando a marca da violência como instrumento de dominação de classe.

Trata-se de um governo formado por diversos atores, uma espécie de frente ampla de tudo que há de mais retrógrado na sociedade brasileira. Paulo Guedes e sua trupe de economistas do mercado, seitas neopentecostais, discípulos de Olavo de Carvalho, oficiais das FFAA e o grupo de amigos e familiares do próprio Presidente, intimamente ligados a milícias e milicianos.

Se quisermos ordenar este governo pelos objetivos estratégicos, sem dúvida vamos apontar o grupo de Paulo Guedes como o mais importante, por comandar as reformas ultraneoliberais e os processos de desmonte do que restou do Estado e a privatização das estatais. Para isso, contam com o avalista do sistema financeiro, o presidente da Câmara e provável presidenciável Rodrigo Maia. No entanto, quem dá a sustentação política para isso é Bolsonaro e sua gente. Portanto, é preciso entender o que estamos enfrentando.

Bolsonaro e seu governo só puderam se afirmar enquanto alternativa política porque o Brasil jamais acertou contas com seu passado escravocrata e, mais recentemente, com a ditadura militar-empresarial que se instaurou em 1964 e perdurou por 21 anos. Ao contrário de todas as nações que enfrentaram ditaduras que se instalaram na América Latina nos anos 60, 70 e 80, em meio à Guerra Fria, a sociedade brasileira não prendeu, não julgou e nem condenou seus algozes, torturadores, mandantes e financiadores.

Esse talvez seja o maior e mais grosseiro erro da esquerda e dos democratas, desde a restauração da vida democrática no país. O máximo que se fez foi a Comissão da Verdade, que tomou depoimentos e elencou elementos suficientes para que os governantes tomassem a iniciativa de romper o silêncio e destampar o bueiro fétido do autoritarismo, para sepultá-lo.

 

As teses eurocêntricas

Os dois principais aspectos que identificam o fascismo clássico são o nacionalismo no plano econômico e a xenofobia, no plano ideológico. O nacionalismo já não é mais um discurso sustentável, visto que a mundialização da economia o tornou obsoleto. Restam o racismo e a xenofobia como instrumentos de mobilização, hoje apresentados em nova roupagem pelo neofascismo europeu, no combate às correntes migratórias.

Portanto, apesar de seu conteúdo ultrarreacionário e de um discurso escancaradamente anticomunista, o bolsonarismo não pode adotar o nacionalismo e muito menos o racismo como bandeiras para sua afirmação, ainda mais num país de população majoritariamente negra e mestiça.

Sequer o chamado “Brasil grande”, jargão da ditadura de 1964/85, é resgatado por Bolsonaro. Ao contrário, sempre que pode o Presidente reafirma o alinhamento com os EUA no plano econômico e político internacional. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” torna-se apenas um apelo de marketing político, já que não tem consequências práticas nas iniciativas econômicas, políticas e sociais deste governo. Assim, a tese de que estamos vivenciando um neofascismo é apenas retórica, é insuficiente e não se sustenta para explicar o bolsonarismo.

 

Soldado de direita

Bolsonaro se interessou pelo Exército aos 15 anos, quando ele e amigos forneceram dicas para os militares sobre possíveis esconderijos de Carlos Lamarca, que havia montado um campo em Vale do Ribeira (SP) para treinar guerrilheiros contra a ditadura militar.

Já no quartel, quando fora processado por uma corte militar por suas declarações à Revista Veja consideradas como insubordinação, Bolsonaro foi apontado por um dos juízes do tribunal como um sujeito desequilibrado, pouco inteligente e mentiroso.

Segundo seu superior na época, o coronel Carlos Alfredo Pellegrino, Bolsonaro “tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

Ao assinar uma carta em que dizia que os “salários estão baixos”, ainda como oficial da ativa, Bolsonaro recebeu a solidariedade de Newton Cruz e outros, aparentemente todos da chamada linha dura da ditadura. Mesmo tendo lhe custado o fim da carreira militar, aquele gesto o identificou com os setores mais empedernidos da tropa, que viam no fim da ditadura e na redemocratização a responsabilidade por um certo desprestígio das Forças Armadas.

A Operação Beco Sem Saída, que pretendia explodir bombas dentro de unidades militares e na Adutora do Rio Guandu, foi investigada e confirmada pelo Comando das FFAA. Bolsonaro foi condenado, mas o STM o absolveu, por falta de provas conclusivas, argumentos um tanto questionáveis, a partir de uma perícia realizada pela Polícia do Exército.

 

Sempre próximo às milícias

Assim, Bolsonaro saiu do quartel e entrou para a vida política como defensor dos militares. Passou 28 anos entre mandatos de vereador e deputado federal, colocando em seu rastro os três filhos mais velhos e até a ex-esposa. Nenhum deles teve qualquer expressão como parlamentar, a não ser para defender (nos poucos discursos proferidos e homenagens concedidas) a banda podre das Forças Armadas e das polícias.

Além de parentes diretos e indiretos (da família das esposas), os gabinetes dos Bolsonaro abrigaram dezenas de pessoas suspeitas, ligadas a milícias e milicianos. O próprio Bolsonaro fez discursos em defesa das milícias como algo positivo na ausência da força do Estado.

Surgidas a partir dos anos 90 no Rio de Janeiro, as milícias apareceram como forças que expulsavam facções de traficantes varejistas das favelas e comunidades carentes. No início seu negócio resumia-se à extorsão de comerciantes. Hoje, seus tentáculos se estendem a operação de transportes alternativos, distribuição e venda de gás, venda de internet e TV a cabo, venda de terrenos e prédios, assim como a associação com algumas facções criminosas do tráfico de drogas (TCP, ADA, etc), na arrecadação de parte do que é negociado e venda de armas.

O caso mais marcante é de Fabrício Queiroz (que teve sete integrantes da família nos gabinetes), espécie de tesoureiro de Flávio Bolsonaro, que recolhia dinheiro dos demais funcionários e fazia depósitos em pequenos valores, num total que superou R$ 1 milhão em um ano

Seria apenas um caso comum, não fosse pelas ligações de Queiroz com milicianos e que Bolsonaro o conheceu ainda no quartel (1984), como informou o Presidente em entrevista à Veja (5/6/2019). Outros milicianos importantes do chamado Escritório do Crime, como o foragido Adriano Magalhães da Nóbrega (ex-BOPE), tiveram parentes lotados nos gabinetes dos Bolsonaro, como Ronnie Lessa, preso e acusado de participar do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Ronnie, conhecido por sua frieza e profissionalismo, foi sargento do 9º BPM, de Irajá, um dos mais temidos pelas ações violentas e chacinas, foi também segurança de um dos filhos do falecido Castor de Andrade, mesmo roteiro de outros torturadores da linha dura da ditadura.

Foi no 9º BPM que surgiu o “Cavalos Corredores”, grupo de matadores formado por policiais e ex-policiais envolvidos em diversos crimes. O mais famoso foi a chacina de Vigário Geral, em agosto de 1993, que ceifou a vida de 21 pessoas. Outro episódio marcante envolvendo os Cavalos Corredores foi a Chacina de Acari, quando 11 jovens foram sequestrados, sofreram tentativa de extorsão e assassinados (1990). Seus corpos jamais foram encontrados, mas duas das “Mães de Acari” também acabaram assassinadas.

De acordo com a denúncia, o crime teria sido ordenado pelo coronel reformado da Polícia Militar Emir Campos Laranjeira, que chegou a exercer um mandato de deputado estadual (1991/1995). Além dele, também foram arrolados como réus os policiais militares Eduardo José Rocha Creazola, o “Rambo”, Arlindo Maginário Filho, Adilson Saraiva Hora, o “Tula” e Irapuã Ferreira; o ex-PM Pedro Flávio Costa e o servidor municipal Luiz Cláudio de Souza, o “Mamãe” ou “Badi”. A denúncia aponta ainda a participação de uma oitava pessoa, o agente penitenciário Washington Luiz Ferreira dos Santos, cujo processo foi desmembrado do principal e está na fase de produção de provas.

Ronnie Lessa foi membro do Esquadrão da Morte e tinha carteirinha do mesmo bando de policiais assassinos que atuou durante a ditadura. Coincidentemente, Ronnie Lessa tem residência no mesmo condomínio de Jair Bolsonaro, na Barra da Tijuca/RJ.

No documentário “Pastor Cláudio” (2017), o ex-delegado e torturador confesso dos tempos da ditadura militar, Cláudio Guerra, descreve sua participação em assassinatos e no desaparecimento de corpos de presos políticos. Ao final ele chama a atenção para alguns pontos: muitos dos que ficaram sem serviço com o fim da ditadura foram trabalhar para bicheiros e abriram empresas privadas de segurança. Entre eles Paulo Malhães, Freddie Perdigão, Camarão e Sivuca. O próprio Capitão Guimarães, ex-oficial torturador do Exército, virou grande bicheiro.

Cláudio acrescentou que o mesmo grupo de empresários e pessoas influentes da linha dura do regime militar continuava articulado, alguns com ligação e força na Maçonaria. Quando Cláudio gravou seu depoimento (2017), as milícias já tinham a força que assumiram no Rio de Janeiro. Hoje, elas ocupam cerca de 60 por cento dos territórios conflagrados e avançam para outras regiões da capital, Baixada Fluminense e interior do estado, contando com o apoio velado do governo Witzel, que se esmera em jogar a polícia no combate ao Comando Vermelho.

 

A banda militar do Haiti (*)

Dos onze oficiais brasileiros que comandaram as tropas da Missão de Paz da ONU no Haiti cinco ocupam postos no governo Bolsonaro. O vice de Bolsonaro é o general Hamilton Mourão, também formado pela AMAN e membro da Maçonaria, que apesar de não ter servido no Haiti, destaca-se por suas posições políticas abertamente reacionárias.

Foi no Haiti que se deu um dos maiores massacres por tropas da ONU, em Cité Solei (2005), uma comunidade semelhante às favelas brasileiras. Quem comandava era o general Augusto Heleno, hoje o todo poderoso de Bolsonaro para assuntos institucionais. O levantamento de baixas dá conta que mais de 60 pessoas foram mortas e 30 feridas, num confronto com mais de 22 mil balas disparadas.

A ação foi objeto de denúncia na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), baseada em depoimentos de moradores e em relatório elaborado pelo Centro de Justiça Global e da Universidade Harvard (EUA).

Uma grande ofensiva de segurança foi realizada pelas FFAA em algumas favelas do Rio antes da Olimpíada de 2016 e mais recentemente uma intervenção militar no conjunto de 16 favelas da Maré (2017). As mortes violentas aumentaram 1,3 por cento durante os primeiros nove meses da ocupação quando comparados ao mesmo período do ano passado, e o número de pessoas mortas por forças de segurança aumentou mais de 40 por cento — cerca de quatro morrem diariamente.

Muitos dos soldados usados na Maré vieram do Sul, boa parte com experiência no Haiti. Dos 37 mil soldados que passaram pelo Haiti, cerca de dez mil eram do Rio G. do Sul. “Estamos em guerra. O Haiti também estava em guerra”, declarou Bolsonaro em uma entrevista recente à televisão. “(No Haiti) a regra era: você encontra um elemento com uma arma, você atira, e depois vê o que aconteceu. Você resolve o problema”.

 

As seitas neopentecostais

Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), Pastor Everaldo Pereira (Pres. PSC), membro da Assembleia de Deus Ministério Madureira, Edir Macedo (IURD), Robson Rodovalho, líder da Sara Nossa Terra, Cláudio Duarte – que está no canal Foco em Cristo, Hidekazu Takayama (PSC-PR), deputado e pastor da Assembleia de Deus Cristo Vive e ligada ao Ministério do Belém, o mais tradicional, Presidente da Assembléia Parlamentar Evangélica, uma das maiores e mais influentes bancadas do Congresso Nacional, Waldemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus).Todos esses ofereceram seus púlpitos a Bolsonaro, fazendo campanha eleitoral escancarada dentro das igrejas neopentecostais.

O interesse dessa gente está na política que isenta as igrejas de pagamento de impostos, o que permite a movimentação de quantias vultosas de doações de fiéis. O manuseio de recursos em espécie é também uma forma interessante para a chamada lavagem de dinheiro, à medida que não há qualquer controle e nem prestação de contas à sociedade e ao estado brasileiro.

O Brasil tinha 6,6% de evangélicos em 1980. Passou para 9% em 1990; 15,6%, em 2000; 22%, em 2010; terminará a década, segundo projeções, com 30% (dados do IBGE). Pelo ritmo do avanço, teremos mais evangélicos que católicos no país a partir de 2040.

A participação de líderes neopentecostais na política cresceu proporcionalmente à influência que essas seitas religiosas alcançaram na sociedade. Nas eleições de 2018 as denominações neopentecostais elegeram 91 deputados federais, a esmagadora maioria por partidos conservadores. Se consideradas todas as denominações, a bancada da Frente Parlamentar Evangélica conta com cerca de 180 parlamentares. Mas a ambição dos líderes neopentecostais não para por aí. Antes mesmo do segundo turno eles apresentaram um “Plano de Governo”, abordando diversos pontos em 60 páginas.

“Agora, ao invés de segurar a pauta da esquerda, nós vamos é pautar nossos assuntos. A esquerda que trate de obstruir para segurar os nossos projetos. O jogo se inverteu”, afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante, um dos parlamentares mais próximos do líder da Assembleia de Deus Silas Malafaia

 

Fenômeno tipicamente latino americano

Como se vê, o governo Bolsonaro é tipicamente um fenômeno político e social latino americano. Ele se forma a partir de uma conjunção de fatores. O mais importante, sem dúvida, foi a anistia a mandantes e torturadores da ditadura militar, que seguiram atuantes em suas carreiras. Esse é o fio da meada para entender o clã Bolsonaro e a base que o sustenta.

Muitos deles se envolveram com o jogo do bicho, mas o mais importante foi a migração das técnicas de tortura e morte dos porões da ditadura para a chamada banda podre da polícia civil e militar. Os autos de resistência, sequestros, tortura e desaparecimento de cadáveres de opositores do regime passaram a fazer parte do cotidiano das polícias do Rio. As incursões em favelas, que até hoje redundam em mortes e assassinatos, inclusive de inocentes pelas “balas perdidas”, são frutos disso.

Essa banda podre, que em muitos casos passou a ditar as regras em delegacias e batalhões da PM, teve diversos porta-vozes na política, entre eles o ex-delegado da civil, Sivuca, também membro fundador do Esquadrão da Morte durante a ditadura, que usava o bordão “bandido bom é bandido morto”. Sivuca foi eleito e reeleito deputado estadual, entre 1990 e 1998.

Cabe destacar que durante todos os anos que sucederam o fim do regime militar os comandantes das Forças Armadas fizeram questão de continuar com a mesma doutrina, a mesma formação das tropas e até a comemoração do aniversário do golpe de 1964, sem que nenhum presidente eleito tenha sequer questionado ou censurado o que se passava nos quartéis e escolas militares.

Apesar de não expressar social e politicamente um segmento numeroso da sociedade, os viúvos da ditadura militar se mantiveram durante décadas nas estruturas do Estado, nos aparelhos de repressão policial e na cúpula das Forças Armadas. Sem nenhum controle da sociedade, as polícias e as Forças Armadas mantiveram-se apartadas, com normas e funcionamento próprios, onde impera a cultura da violência e, sobretudo, conserva-se a ideologia da segurança nacional, cuja sustentação é a lógica de combater o “inimigo interno”, ou seja, a sociedade civil.

Mas a base social que dá sustentação ao governo Bolsonaro é bem superior aos segmentos ideologicamente de direita. Um dos setores decisivos é o dos fiéis das diversas denominações neopentecostais, entre os quais Bolsonaro conquistou mais de 70% de eleitores.

A aliança desses setores com parte da classe média conservadora/anticomunista foi fundamental para consolidar a eleição de Bolsonaro e formar um governo apoiado às cegas pelo sistema financeiro e os segmentos mais reacionários das elites brasileiras. O que uniu todos esses setores em torno de Bolsonaro foi o antipetismo e a ausência de candidaturas sólidas entre os partidos políticos mais tradicionais da direita e do centro-direita.

Com um programa econômico de reformas ultraneoliberias, que acaba com direitos dos trabalhadores e preconiza a privatização do Estado, o governo Bolsonaro se isola no cenário político internacional, fechando as portas até mesmo para grandes parceiros comerciais, em função de seu anticomunismo hidrófobo e da anunciada subserviência à política externa dos EUA.

No plano interno, Bolsonaro já é o governo que mais rapidamente perdeu apoio popular. No entanto, apesar da resistência da juventude, a falta de unidade entre esquerda e centro-esquerda dificulta o combate à política do governo e a construção de uma plataforma simples unificada para uma nova ofensiva democrática.

 

Consequências

A leitura dos interesses e grupos políticos que se articulam em torno do governo Bolsonaro é fundamental para a compreensão de seus objetivos estratégicos, bem como de suas formas de atuação. Bolsonaro pretende manter o estado de tensão permanente com a esquerda (ou o que ele identifica como esquerda) para justificar a necessidade de sua política ultrarreacionária.

Essa tensão permanente é a única forma de justificar o apoio ao aparato repressivo, necessário para conter qualquer reação de massa ao seu governo, motivada pela política econômica que só agrada ao sistema financeiro, gerando desemprego, reformas ultraneoliberais e destroçando o que restou de importante do Estado brasileiro.

A consequência disso é que todo e qualquer membro das FFAA e das polícias se sente autorizado a fazer justiça com as próprias mãos. Isso já se faz sentir no aumento da letalidade das operações policiais e no atrevimento como as polícias agem, desrespeitando abertamente leis e protocolos que limitam o abuso de autoridade.

No plano da Justiça, o governo Bolsonaro deverá manter e avançar na tentativa de criminalizar os partidos de esquerda, os movimentos populares e sindicatos, que ainda são ferramentas capazes de propor a resistência. Para isso deve se servir de Sergio Moro e de uma maioria do STF.

O grande problema deste governo é que sua plataforma econômica é um desastre para a grande massa pobre da população. Essa gente, à margem das organizações de resistência e das instituições, tenderá a se manifestar através de explosões espontâneas e violentas.

Nem mesmo a burguesia e o sistema financeiro emprestarão sua fidelidade a qualquer custo a Bolsonaro. A destruição da indústria, os problemas criados ao agronegócio e outras barbaridades deverão assustar os setores mais lúcidos das elites, que, a depender das circunstâncias, em última instância poderão propor o impedimento do Presidente.

 

Atuar na base, agir em rede

Portanto, ao contrário de rusgas e querelas institucionais comuns entre governo e oposição em épocas de normalidade democrática, a tendência do próximo de período é de confrontações violentas, abertas e permanentes de todo o tipo: ideológicas, através das declarações cotidianas de Bolsonaro, e concretas, com o crescimento do descontentamento popular com as medidas de seu governo.

A ideia da “clandestinidade”, tentadora para parte da esquerda, não se aplica a uma sociedade com o grau sofisticado de ferramentas de vigilância cotidiana. Isso não exclui a necessidade de medidas básicas de segurança, como orientar as pessoas a manter redes de apoio, andar em áreas sempre movimentadas e sempre em grupo, por exemplo.

Em situações como a que se apresenta será preciso combater em diversas frentes, articuladas em rede horizontal. Não há chefes e grandes lideranças de oposição, não há partidos políticos sólidos, não há movimentos populares que abarquem o todo, não há como confiar no Judiciário e muito menos nas cadeias de comunicação.

A prioridade é construir a unidade dos movimentos de resistência, de maneira sólida, concreta e perene. A solidariedade é mais que uma bandeira, é uma necessidade vital. Disputar a consciência de setores descartados pelo grande capital é fundamental, a partir de ações concretas de luta, solidariedade, comunicação e acolhimento. Um segmento determinante é a juventude estudantil de camadas médias e, sobretudo, a das favelas e periferias.

Enfim, é mais do que a defesa da democracia, com todas as suas limitações e imperfeições. O que está em jogo é a civilização, é a capacidade de se construir uma sociedade minimamente articulada para defender os menos favorecidos com direito à moradia e uma educação de qualidade; defender os trabalhadores, com leis básicas de proteção e direitos respeitados; assegurar às mulheres a igualdade de direitos e o respeito; aos idosos uma velhice digna.

 

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(*) Ex-comandantes das tropas internacionais da Minustah:

Augusto Heleno (2004-2005) – Ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional)

Carlos Alberto dos Santos Cruz (2007-2009) – o ministro da Secretaria de Governo

Floriano Peixoto Vieira Neto (2009-2010) – Deve ser um dos principais publicitários do governo, na Secretaria Geral da Presidência (não confirmado oficialmente)

Edson Leal Pujol (2013-2014) – Será comandante do Exército Brasileiro

Ajax Porto Pinheiro (2015-2017) – Será assessor especial do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Dias Toffoli

 

Outros ex-chefes que atuaram na missão de paz:

Fernando Azevedo e Silva (2004-2005) – Chefe de operações do contingente brasileiro no Haiti, será ministro da Defesa

Tarcísio Gomes de Freitas (2005-2006) – Chefe da equipe técnica da Companhia Brasileira de Engenharia de Energia

Sob o risco de cometer erros e omissões em minha análise, tentarei resumir neste texto os aspectos que julgo mais consistentes para entender o Brasil de hoje. Vamos lá:

 

Por que Dilma foi derrubada?

Na certa não foi pelas “pedaladas fiscais”, que Miriam Leitão e Merval Pereira cansaram de invocar para justificar a interrupção do segundo mandato da ex-Presidente. Tampouco foi por ser um governo “comunista”, que enfrentou os poderosos, apesar de algumas medidas compensatórias das administrações petistas, como crédito popular, reajustes do salário mínimo e programas sociais, como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida.

A crise que derrubou Dilma foi gestada também pelo próprio PT, ao alimentar de isenções de impostos e incentivos fiscais os grandes grupos econômicos, que não aplicaram praticamente nada na produção. A pá de cal veio com a nomeação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda, que anunciou uma série de medidas recessivas e manteve elevada a taxa de juros.

Daí em diante a economia, que já não ia bem, foi ladeira abaixo. Os investimentos na produção caíram ainda mais, o desemprego cresceu a um nível que não se via desde o final da década de 90 e o apoio popular ao governo despencou, bombardeado pelas denúncias de corrupção da Operação Lava-Jato e as manifestações da parcela mais reacionária da classe média, apoiadas pela mídia empresarial (Globo e outras).

A perda de apoio popular teve repercussão no Congresso e o Centrão se descolou definitivamente do governo, submetido cada vez mais à chantagem do parlamento. Por sua vez, o “mercado” exigia novas medidas drásticas de contenção de investimentos públicos, programa que o PT não teria condições de impor ao país, porque significaria seu suicídio político.

 

Temer, o governo jeca do mercado

Com a destituição de Dilma, restava ao seu vice, Michel Temer, governar por dois anos e meio, tempo suficiente para impor ao país a PEC da contenção de gastos e a reforma trabalhista, previstos no programa Uma Ponte para o Futuro (Fiesp). Essas medidas desorganizaram o mercado de trabalho, deixando o trabalhador sem benefícios básicos, e levaram ao congelamento dos investimentos públicos por 20 anos.

Apesar da ínfima popularidade do governo golpista, o baixo clero do PMDB e dos partidos do Centrão conseguiu levar Temer até o final de seu mandato ilegítimo. Mas a crise, ao contrário de estancar, só fez crescer e as oposições e os movimentos populares não tiveram força para impor resistência.

Por sua vez o PT não foi capaz de fazer uma autocrítica dos equívocos que cometeu e Temer passou a ser identificado como um resquício da era PT. Os demais partidos políticos não ofereceram alternativas ao país e nem novas lideranças capazes de ganhar confiança e popularidade para as eleições de 2018.

 

A escalada de Bolsonaro

Um conjunto de fatores somou para a eleição de Jair Bolsonaro. A crise econômica, a desesperança, a falta de lideranças políticas que tivessem crédito e inspirassem confiança e, sobretudo, a cruzada antipetista alimentada pela Lava-Jato, que reuniu parte da classe média mais reacionária e as seitas neopentecostais.

A prisão de Lula e a proibição de sua candidatura tiraram de cena o único candidato capaz de impor uma derrota à direita. É importante ressaltar que a mídia empresarial (Org. Globo) e o PSDB consideraram essa a maior vitória da Operação Lava-Jato.

Adicione-se a isso o bombardeio de notícias falsas e calúnias moralistas, a partir dos disparos pelo Whatsapp, dirigidos a um público ultraconservador. Se Bolsonaro já tinha uma maioria ampla no primeiro turno (46%), acabou por açambarcar parcela expressiva do eleitorado conservador no segundo turno, a partir da demonização do PT e da ameaça de seu retorno ao governo.

 

Quem compõe e o que quer o governo Bolsonaro

Mais do que qualquer projeto fascista clássico ou neofascista, o governo Bolsonaro é um somatório de forças destrutivas. O grupo de economistas ultraconservadores em torno de Paulo Guedes, o setor neopentecostal, os discípulos de Olavo de Carvalho, militares ressentidos com o fim da ditadura e um grupo de familiares e amigos do próprio Presidente.

Seu programa de governo tem dois objetivos básicos e vai ficando evidente a cada semana: impor as reformas ultraneoliberais, por exigência do “mercado” (Previdência, Fiscal, etc) e, ao mesmo tempo, destruir o que restou das conquistas sociais e instituições públicas e empresas estatais.

Para conter resistências a essas medidas, o governo Bolsonaro deve lançar mão de dois expedientes: o clássico aparelho repressivo do Estado, com reequipamento das polícias, voltando-as para reprimir manifestações populares, além de perseguir os movimentos sociais com o uso de falsos expedientes através da Justiça, como a criminalização e prisão de lideranças.

A eles se soma o mais grave e imprevisível: como não tem projeto e nem ferramentas clássicas de construção de um projeto fascista (ideologia, partido sólido, projeto ultranacionalista, política segregacionista, etc), o governo Bolsonaro libera o território para o domínio de grupos milicianos paramilitares, com seus pequenos negócios, sobretudo nas áreas mais pobres, o que, aliado à pregação neopentecostal, cria uma contenção social pela resignação ou pela violência armada cotidiana. É o que chamo de “mexicanização”.

 

Prognóstico

No plano econômico a aprovação das reformas e a privatização em massa, ao contrário de criar um novo “ambiente favorável de negócios”, como repetem os papagaios do mercado financeiro, terão como resultado uma verdadeira terra arrasada. A desvalorização do trabalho no Brasil tem raízes no escravismo colonial e pode ser constatada até hoje pelo valor do salário mínimo e o percentual de pessoas que recebem menos de 1 sm (50% da PEA), enquanto 80% da mão de obra do país recebem até 2 sm/mês.

A manutenção da política de pagamento de juros/amortizações da dívida pública (o que não foi repactuado sequer nos governos petistas), espreme a arrecadação pública, forçando os governos a adotarem a clássica “contenção de gastos” para arcar com os compromissos com o mercado financeiro. O país é refém de um sistema perverso de rolagem das dívidas, que se transformou numa esponja dos orçamentos dos governos federal, estadual e municipal.

Com as reformas trabalhista e previdenciária restará uma massa superexplorada, sobrevivendo para dar conta do consumo e dos gastos imediatos (alimentos, moradia, transporte), sem direitos e benefícios. O Brasil reafirmará sua dependência de maneira cabal, sem investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia de ponta. Restará a produção intensiva e predatória do agronegócio, voltado para a exportação de produtos primários, cada vez mais desvalorizados no mercado internacional.

 

Para além da resistência

Para dar conta de enfrentar essa avalanche será preciso um diagnóstico preciso das forças populares, sobretudo por parte da esquerda marxista. Para o momento, é necessário combinar um projeto de medidas democráticas e populares, em aliança com democratas e progressistas. Se é verdade que o projeto reformista/conciliador do PT já não consegue responder no campo econômico e político, também é verdade que a esquerda brasileira está esfacelada e sem projeto.

Não basta “resistir”, será preciso construir uma alternativa palpável, com base social de massa. Isso não exclui a necessidade e a importância das alianças até mesmo com setores liberais, que se veem acossados pelo governo Bolsonaro. Ou seja, não dá para ficar apenas na denúncia cotidiana dos absurdos deste governo sem forjar um projeto alternativo concreto para as questões que mais afligem os trabalhadores, os desempregados, a juventude e todo o povo.

No ritmo em que as medidas estão sendo tomadas – destruir é mais fácil que construir – a tendência é que surjam explosões populares, saques e outras manifestações espontâneas pela sobrevivência. É nesse caldeirão do desespero e da resistência popular que poderá surgir nova energia para enfrentar e derrotar o tenebroso inverno que vivemos. Uma pista: retomar as reformas de base, de João Goulart, com uma roupagem atualizada.

Nas entrevistas e no depoimento que prestou aos parlamentares, na Câmara dos Deputados, o colega Glenn Greenwald deu verdadeiras aulas de jornalismo. A base de tudo é a independência do nosso trabalho e o compromisso em informar assuntos de interesse da sociedade, sobretudo aqueles que atinjam os poderosos, que escondem seus atividades escusas nas sombras.

O papel do jornalismo é jogar luz sobre os fatos e as suas diferentes versões, oferecendo ao leitor, ouvinte, telespectador ou interespectador elementos suficientes para que ele próprio tire suas conclusões, doa a quem doer.

Checar a informação, ouvir o maior número de versões possível, extrair o que de mais importante e contraditório exista sobre os acontecimentos é o trabalho do jornalista.

Foi nas aulas do mestre Nilson Lage, na Escola de Comunicação da UFRJ, que entendi nosso papel e compreendi que o jornalismo, em certa medida, segue a lógica do materialismo dialético de Marx e Engels. Por isso o que produzimos é “matéria”, baseada em fatos concretos.

No entanto, apesar de concreto, o fato pode ser interpretado de diferentes formas, nos obrigando a ouvir os relatos e versões de testemunhas e analistas, quase sempre com leituras de mundo diferentes ou opostas. O que para um representa X, para outro representa Y.

O conflito entre as versões para um mesmo FATO gera o que vulgarmente se pode resumir na equação VERSÃO 1 X VERSÃO 2 = CONCLUSÃO. Esta equação tem semelhança evidente com a da TESE X ANTÍTESE = SÍNTESE, uma simplificação da filosofia marxista.

 

O jornalismo chapa branca é sempre medíocre

Ao usar o método da apuração independente o jornalista ajuda a sociedade a compreender os acontecimentos e a se posicionar sobre eles. Ou seja, o jornalismo é uma mola propulsora do debate e, portanto, da democracia. Só uma sociedade informada pode tomar decisões maduras.

Por isso, em geral as elites e os governantes odeiam o jornalismo, como enfatizou Glenn na Câmara dos Deputados. Para isso contribui decisivamente o sigilo sobre a fonte das informações, assegurado no Artigo 5, Inciso XIV da Constituição brasileira.

Mas não só as classes dominantes olham com desconfiança o trabalho do jornalista e da imprensa independente. Também na esquerda há os que, contrariando a dialética marxista, preferem um jornalismo de um lado só, arvorando-se ao papel de porta-vozes dos “fracos e oprimidos”.

Sem debate, sem polêmica, sem choque de ideais, sem dar voz aos diversos segmentos da sociedade não há jornalismo. Muitos dos que hoje aplaudem Glenn Greenwald e o trabalho de sua equipe sempre preferiram a passividades dos blogs dos amigos do poder e jamais questionaram a farta distribuição de verbas publicitárias para a mídia empresarial, sem enfrentá-la, durante os governos do PT.

As experiências de socialismo de caserna levaram a tentativas de manter povos sob a orientação de um partido, o que representa o congelamento da circulação da informação, uma ameaça à democracia e ao debate de ideias, questões fundamentais para o avanço civilizatório da humanidade. Uma sociedade superior ao “capitalismo financeirizado” só poderá prosperar com mais democracia, porque nesta etapa a democracia é uma ameaça ao próprio sistema.

 

Por que o sistema se choca com o Intercept Brasil?

Com o advento das Organizações Globo, a partir da ditadura de 1964, o jornalismo brasileiro passou a ser propositalmente confundido com espetáculo. O trabalho da reportagem deixou de ser o mais importante, atropelado pelas opiniões, piadinhas e considerações dos “âncoras”. Os fatos são jogados, não apurados. Não há versões e nem opiniões diferentes em debate, mas a exclusão escandalosa dos que de alguma forma contestam a ordem e o sistema.

Foi o que assistimos durante a Operação Lava-Jato, na qual a Globo – porta-voz das classes dominantes – foi parte integrante de um esquema de justiçamento seletivo, a partir de denúncias de corrupção todos os dias estampadas em manchetes sensacionalistas.

Como máquina de propaganda que cobre o território nacional e entra todos os dias nos lares dos brasileiros, as Organizações Globo agora tentam, desesperadamente, desqualificar o trabalho dos colegas do pequeno e corajoso Intercept Brasil. Numa tática inteligente, Glenn e seus colegas buscam parcerias na própria mídia empresarial para ampliar o raio de alcance de suas reportagens, sobre o conluio produzido por procuradores e o juiz da Lava-Jato.

 

É só jornalismo

É evidente que a cumplicidade de promotores públicos e juiz – “com o STF, com tudo” – foi parte de um projeto das classes dominantes de surrupiar o governo para a implantação de reformas mais duras, que o PT e seus aliados não pretendiam impor de forma integral à sociedade. O resultado foi a mediocridade do governo Temer e a truculência desvairada do governo Bolsonaro, cujo objetivo é desmontar o que restou do Estado brasileiro e impor a reforma da Previdência.

Só o que já foi publicado é suficiente para desmontar o esquema da Lava-Jato, propositalmente confundida com “combate à corrupção”. Na verdade, uma operação seletiva, que teve como propósito retirar o ex-presidente Lula do cenário político, condenando-o a chefe de uma “organização criminosa”.

Muitos criticam Glenn e sua equipe por estarem criando um sistema de informações em conta-gotas, que deixaria o país refém de suas publicações. Na verdade, o que o Intercept Brasil está fazendo é apenas o trabalho de apuração profissional do material recebido, o que a maioria da mídia empresarial despreza. É só jornalismo, algo vital para o exercício da democracia.

As revelações das conversas entre juiz e promotores pelo sitio de notícias Intercept Brasil, via Telegram, colocam em xeque o papel da mídia e do profissional de imprensa em nosso país. Nos últimos anos nos acostumamos a consumir um jornalismo de espetáculo, baseado em versões e disputa de narrativas.

O jornalismo foi rebaixado à condição de promotor de espetáculos e os jornalistas a comentaristas, via de regra a serviço da linha editorial do órgão para os quais trabalham. Inverteu-se por completo a função da imprensa, qual seja a de noticiar fatos de interesse geral da sociedade, narrando os acontecimentos e ouvindo as diversas partes envolvidas.

Em vez disso passamos a ter muita manchetes, fotos, imagens e infográficos, e poucos fatos que serviriam de ponto de partida para as matérias. Sim, matéria, porque o fundamental do jornalismo é a materialidade dos fatos e não o que o repórter ou editor pensam deles.

A coisa é tão escandalosa que temos repórteres que se arvoram a economistas, juristas, analistas internacionais e até a paladinos da justiça, esgrimindo teses e considerações a respeito de acontecimentos. Alguém precisa explicar a essas figuras patéticas que é justamente para isso que os veículos de comunicação contam com seus editorialistas.

Para alimentar o debate sobre os temas noticiados podem ser ouvidos analistas devidamente capacitados a fazê-lo, com versões contraditórias, e não os chamados “especialistas” de rabo preso, pinçados a dedo para confirmar o que pensa a direção da emissora, omitindo-se o currículo e os interesses dessas figuras.

Os colegas do Intercept Brasil não são paladinos de nada, nem porta-vozes de ninguém. Eles estão apenas exercendo o trabalho do jornalista, qual seja o de levar à sociedade fatos que chegaram ao seu conhecimento e que são de interesse público.

Para isso firmaram um compromisso ético que é próprio da profissão, o de preservar as conversas sobre assuntos estritamente pessoais entre os interlocutores, ainda que seja estranha a existência de qualquer diálogo entre promotor e juiz.

Aos que condenam a preservação da fonte que repassou os diálogos entre o senhor Sérgio Moro e os procuradores do MPF ao Intercept Brasil, cabe lembrar que ela está prevista na Constituição brasileira (Artigo 5º, parágrafo XIV).

Ao jornalista cabe reportar um acontecimento ao público (daí a expressão repórter), seja ele um atropelamento, um assassinato, uma votação no parlamento, uma manifestação popular. Para ilustrar a matéria é seu dever ouvir as partes em conflito e suas justificativas, deixando ao leitor, ouvinte, telespectador ou interespectador o papel de tirar suas conclusões sobre o ocorrido.

Via de regra diversos jornalistas – e eu me incluo aí – são alçados à condição de debatedores convidados em programas de rádio, TV e na internet. É evidente que nesta função podem e devem opinar, mas ainda assim devem fazê-lo sempre procurando se ater aos fatos que vão debater.

Quando o profissional de imprensa passa a subordinar o exercício da profissão ao que seu patrão deseja, deixa de ser jornalista e de fazer jornalismo, passando ao papel de porta-voz de opiniões ou bajulador de plantão. E isso se torna mais grave quando as fontes oficiais e poderosas (governantes, empresários, economistas do “mercado”, etc) passam a ser as únicas a serem consultadas ou levadas em consideração.

O caso dos diálogos entre membros da Operação Lava-Jato, publicados pelo Intercept Brasil, revelam a falta de credibilidade da mídia empresarial brasileira. Não por acaso a fonte que repassou os diálogos impróprios e ilegais de Sérgio Moro e os promotores do MPF, escolheu um sítio independente e o colega Glenn Grennwald para entregar o conteúdo das trocas de mensagens.

Seja por terem adotado uma linha editorial francamente favorável aos paladinos da Justiça da Lava-Jato, obtendo informações e gravações de grampos ilegais, seja pelos interesses políticos e econômicos inconfessáveis, a mídia empresarial brasileira está contra a parede. Sua resposta: tentar desacreditar a fonte e até o veículo que está publicando os diálogos que desmontam a pretensa imparcialidade da Justiça no caso Lula.

A mídia empresarial brasileira – com exceções que só confirmam a regra – abandonou o jornalismo para se dedicar a defender interesses privados, aos quais ela está ligada ou subordinada. A isso se pode chamar de jornalixo e aos que tomam parte deste espetáculo de porta-vozes da ilusão. Não espanta que estejam perdendo audiência e credibilidade a cada dia que passa.

O Atlas da Violência no Brasil (Ipea/FBSP – versão 2019) traz dados estarrecedores, referentes ao ano de 2017, que dão a dimensão da tragédia e o custo social dos erros e omissões que as elites cometeram e teimam em seguir cometendo. Foram 65.602 homicídios, três mil a mais que em 2016, numa escalada crescente desde 1979.

São números que impressionam, só pelo fato de o Brasil ter se tornado o campeão mundial de homicídios, a grande maioria por arma de fogo. Aqui morre mais gente que em territórios com guerras e conflitos internos, como no Iraque, Afeganistão ou Síria.

As maiores vítimas: 91% são homens, na maioria jovens (55% entre 15 a 29 anos) mestiços (64,6%) e negros (8,5%). Cabe destacar que 76,9% dos homicídios ocorrem por armas de fogo. De acordo com o Atlas, esse índice poderia ser até 12% maior, não fosse o Estatuto do Desarmamento.

Outro fato a observar é a crescente onda de violência e assassinatos contra a mulher, praticada por maridos, companheiros, namorados e ex, que se arvoram a tirar as vidas de suas parceiras simplesmente por ciúmes, na maioria das vezes. Dos 8% de homicídios praticados conta mulheres, cerca de 40% aconteceram dentro das residências das próprias vítimas, o que dá entender que a taxa de feminicídio é elevada.

O interessante é que os dados da pesquisa reafirmam a nossa pirâmide social desde os tempos do Brasil colônia:

1 – No topo estão homens brancos e ricos que exploram, desprezam e que usam da força bruta – através do destacamento policial – contra homens negros, além de praticar a violência sexual contra as mulheres negras e oprimir suas esposas brancas.

2 – Mulheres brancas vêm abaixo, igualmente desprezando os homens negros, explorando e maltratando as mulheres negras. Sua frustração com a opressão que sempre sofreram de seus pares são descarregadas em forma de ódio, preconceito e uma ponta de ciúmes sobre as “criadas”, muitas vezes assediadas pelos seus maridos.

3 – Ainda mais abaixo estão os homens negros, que também maltratam e violentam as mulheres negras. Com formação escolar baixíssima, se ocupam de atividades profissionais que muitas vezes exigem mais a força do que capacidade intelectual. Ganham em média menos que as mulheres brancas.

4 – Abaixo de todos estão as mulheres negras, a maioria sem instrução suficiente, mães solteiras que também são “pais”, que cuidam da casa e dos filhos, com subempregos e que ocupam os postos mais mal remunerados.

Como essa pirâmide não foi abalada e nem invertida ao longo de cinco séculos, mesmo com a abolição da escravatura (a última que aconteceu no mundo), os resultados da violência não poderiam ser diferentes. O mais grave é que esses números mostram o comprometimento da juventude, preço muito alto para qualquer sociedade.

Os números da violência no Brasil de 2017 mostram um país mergulhado na barbárie, tomado por inúmeros focos e organizações criminosas, incapaz de resolver suas diferenças no diálogo e na construção de códigos aceitos e respeitados por todos.

Das discussões em botequins aos bate-bocas entre vizinhos, dos problemas no trânsito aos ciúmes entre casais, das briguinhas entre colegiais às questões mais banais, tudo se “resolve” pela força bruta, pelo enfrentamento físico (Cerca de 20% dos homicídios decorrem dessas desavenças banais). Uma demonstração de que aqui prevalece a lei do mais forte.

Esse é o resultado de duas vertentes: 1 – A incapacidade das classes dominantes em ceder e oferecer mínimas condições para as massas populares empobrecidas viverem com dignidade. Aqui nem o Estado de Bem-Estar Social foi alcançado; 2 – Uma sociedade sem Educação, em casa e nas escolas, onde o exemplo é a ignorância, a violência, o machismo e o abandono da juventude.

É evidente que a desigualdade, a ignorância e a exclusão social são combustíveis que alimentam o fogaréu da violência e das elevadas taxas de homicídios no Brasil. Seguir com políticas econômicas excludentes, com desemprego em massa e baixíssimos salários, e ainda incentivar o porte e a posse de armas é atirar mais lenha nessa fogueira.

Confira a íntegra do estudo:

http://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/

Jogar futebol profissional no Brasil sempre foi um meio de fugir da pobreza, é certo. No entanto, há algo que o destino cobra, mais cedo ou mais tarde: formação. O problema de Neymar Junior não está no futebol, ao contrário, mas na incapacidade de lidar com o mundo e com a imagem de figura pública ou pop star.

Isso certamente ele herdou do exemplo que teve em casa. Desde que foi negociado com o Barcelona, depois de se destacar no Santos aos 17 anos, Neymar esteve envolvido em inúmeras passagens que provam a completa falta de noção (ou de Educação, como queiram) do atleta.

Na ocasião descobriu-se um esquema envolvendo o senhor Neymar pai, na prática o empresário do jogador. A venda fora anunciada por 57 milhões de euros, mas na verdade chegou a 95 milhões de euros. A empresa N&N, controlada pelo pai do atleta, recebeu 40 milhões de euros do Barcelona, sem ser a detentora de direitos econômicos do jogador, enquanto o Santos, clube que o projetou e que detinha os direitos contratuais, recebeu apenas 17 milhões de euros, isso sem falar dos bônus recebidos por fora por Neymar pai e Neimar JR pela transação.

Na Espanha o Presidente do Barcelona caiu, porque não conseguiu explicar a origem e o destino da grana da compra de Neymar Jr. Aqui ficou tudo por isso mesmo, apesar de se saber que Neymar pai foi o atravessador da negociata. O Santos acabou prejudicado.

E apesar da negociação fechada, Neymar ainda foi escalado para jogar contra o próprio clube que adquiriu os direitos sobre o atleta, na decisão da Copa Toyota em 2014, numa demonstração de completa falta de ética para com o torcedor, que ainda não sabia da transação.

Logo descobriu-se um esquema de sonegação fiscal envolvendo Neymar e seu pai. Neymar teria utilizado as empresas controladas por seu pai – Neymar Sport e Marketing, N&N Consultoria e N&N Administração de Bens – para não pagar pelo menos R$ 63,6 milhões de impostos entre 2012 e 2014.

Ao chegar a Espanha, Neymar Jr sentiu o peso de sua falta de educação. Recebeu críticas de torcedores e da imprensa esportiva pelo mau hábito que adquiriu no Brasil de cair em campo por qualquer coisa, o famoso “cai-cai”. Com Messi e Suarez dividindo as atenções e as glórias de seu clube, Neymar Jr foi transferido para o Paris Saint Germain, onde teria mais chances de brilhar sozinho.

Os encantos de Paris enchem os olhos de qualquer um, para o bem e para o mau. A estrela de Neymar ainda brilhava dentro dos gramados, mas seu excesso de individualismo continuou pesando na hora de reclamar das arbitragens e dos adversários. Com Neymar o PSG seguiu vencendo o fraco campeonato francês, mas não foi longe na pretensão de vencer competições europeias. Outros craques surgiram e já se fala abertamente na transferência de Neymar para outro clube.

Na seleção da CBF Neymar usou e abusou da individualidade e ainda chegou a ser premiado com a braçadeira de capitão, posto para o qual jamais esteve preparado. O fracasso da Copa no Brasil fez com que o jogador aumentasse o tom de suas querelas, tanto com árbitros com adversários. A seleção era e continua sendo Neymar e mais dez. Foi expulso contra a Colômbia numa Copa América e a seleção não prosperou.

Recentemente agrediu um torcedor que o provocou, demonstrando que aos 26 anos continua com os nervos fora de controle. Agora, em plena preparação para a Copa América, se vê envolvido em mais um problema, desta vez com uma mulher que o acusa de estupro.

Dadas as circunstâncias nebulosas que envolvem o caso, Neymar tratou de se defender cometendo o erro de expor imagens e conversas que teria tido pela internet com a suposta vítima, o que só depõe contra ele. Isso mostra mais uma vez o destempero e o despreparo de Neymar.

Ninguém discute o futebol e o valor de Neymar JR dentro de campo. No entanto, sua carreira se transformou num problema para técnicos, empresários e empresas que associam seus produtos a ele.

Se o Brasil fosse um país em que houvesse noção clara de limites e de justiça, Neymar JR seria afastado da seleção nacional até que se esclarecesse a questão. Muitos dirão que não, que isso é problema dele fora de campo. Acontece que o futebol se transformou num grande negócio e a imagem de Neymar também está associada ao da própria seleção de seu país, dada a importância que ele assumiu no esporte.

Enfim, Neymar é a expressão do chamado novo rico, que ganha muito dinheiro mas parece não ter um pingo de educação e não está nem aí para nada. Sua imagem acaba sendo associada ao que há de pior na sociedade brasileira, o malandro espaçoso, personagem insuportável por onde passa.

Quem melhor alertou sobre a carreira de Neymar JR foi o experiente treinador Renê Simões, ainda em 2010: “Eu poucas vezes vi alguém tão mal educado quanto esse rapaz Neymar. Está na hora de alguém educar este rapaz ou nós vamos criar um monstro no futebol brasileiro. Ele é o senhor todo poderoso dentro de campo e ninguém está fazendo absolutamente nada”. Renê só não poderia imaginar que o monstro sairia de dentro dos gramados para agir da mesma forma fora dele.

Um artigo recente de um antigo companheiro me inspirou a abordar questões que reputo da maior importância para a esquerda brasileira e internacional. Já se vão quase 30 anos da queda da URSS e o início do desmonte do bloco do socialismo real. Foi tempo suficiente para a esquerda fazer um balanço aprofundado daquela experiência, o que foi válido e o que precisa ser superado, para propor um novo projeto revolucionário no século XXI.

Sem isso, sem estratégia, sem clareza de a que porto se quer chegar, vamos continuar reféns dos acontecimentos, no campo da resistência aos ataques do inimigo de classe, ao sabor dos ventos, a reboque de táticas para remediar os males produzidos pelo capitalismo contemporâneo.

Seria uma estupidez negar a importância das revoluções russa, chinesa e cubana, as principais revoltas proletárias e camponesas de massas do século XX. Em todos os terrenos elas foram fundamentais para os avanços experimentados pela humanidade.

Das melhorias sociais e econômicas produzidas no plano nacional naqueles países, a partir da nacionalização da terra e estatização da propriedade industrial, que retiraram milhões de seres humanos da miséria, da ignorância e da morte, até o equilíbrio de forças que elas asseguraram no cenário internacional no século passado. Tudo isso apenas demonstrou o potencial existente na construção de sociedades não baseadas no lucro e na ganância de uma minoria.

Mas as experiências de sociedades não capitalistas não conseguiram produzir um novo paradigma de produção, gestão, consumo e, consequentemente, de participação criativa daqueles povos para um novo sistema de poder político: uma democracia de massas. Esse parece ser o grande desafio da esquerda marxista, sem o qual repetirá e reproduzirá sempre a velha fórmula fracassada da vanguarda como representante indireta e, portanto, acima dos trabalhadores no poder.

Deriva dessa confusão e dessa substituição do poder popular por um poder de partido de vanguarda toda a degeneração que condenou aquelas revoluções à estagnação e a derrocada, com sua consequente paralisia, rendição ou substituição pela velha ordem do capital. O que originalmente se pretendia poder popular passou a ser o poder de um partido, posteriormente da sua direção e mais adiante de uns poucos ou subordinado a chefes.

No entanto, o capitalismo contemporâneo, revestido de modernidade e reduzido a um “mercado” para poucos, se assemelha a um zumbi, um morto vivo receitando o mesmo remédio antipopular para os povos, uma sombra da pujança do capitalismo que se afirmou pela produção e o consumo de massa na segunda metade do século passado, sobretudo na Europa ocidental.

É bom que se diga que o chamado Estado de Bem Estar Social, que assegurou benefícios importantes aos trabalhadores e hoje é alvo de ataques do Capital, só foi possível pela imposição dos povos que resistiram de armas em punho ao nazi-fascismo, com destaque para as guerrilhas organizadas pelos partidos de esquerda.

A especulação financeira é o último reduto ao qual se apega uma ínfima minoria para preservar seus privilégios. Por isso mesmo, o sistema transformou-se num entrave para o desenvolvimento das inúmeras forças produtivas que se vislumbra, a partir da entrada em cena da virtualidade e das tantas possibilidades tecnológicas de ponta.

Em vez de propiciar melhorias aos seres humanos, o Capital no século XXI esmaga os sonhos e as potencialidades de prazer, fartura e cultura da humanidade, com seu sistema injusto, que preserva os ganhos dos super ricos, desregula o mercado de trabalho, leva homens e mulheres a jornadas de trabalho exaustivas, impõe privatizações e conduz as sociedades a quebradeiras.

Não cabe mais à esquerda marxista seguir a reboque das velhas palavras de ordem e estruturas de poder, ditadas pelo dilema entre resistir aos ataques do capital financeiro especulativo e as tímidas reformas da social democracia. Isso não a desobriga de manter-se na luta cotidiana dos trabalhadores, em defesa de seus direitos. No entanto, é preciso dizer:

. Que sociedade propõem os marxistas no plano geral e na gestão cotidiana de órgãos públicos, empresas, poder local, etc?

. Como se organizará a produção e o consumo nessa sociedade?

. Qual será o sujeito dessa nova sociedade?

. Como se exercerá o poder nessa sociedade?

. Que papel caberá à iniciativa privada nessa sociedade?

. Que papel caberá aos centros de pesquisas de ponta no enfrentamento dos principais desafios da humanidade?

. Que papel terão e como funcionarão os meios de comunicação nesta sociedade?

. Qual será o papel das culturas originárias, atropeladas e esmagadas pelo colonialismo e capital?

. Como se pretende harmonizar os avanços produtivos/tecnológicos com o respeito à Natureza?

É pensando nesses e noutros aspectos estratégicos para uma nova ordem econômica, social e política para a humanidade que a esquerda marxista deve se apresentar. Não é mais possível repetir as posturas alienantes que separam os objetivos anunciados das práticas cotidianas.

Neste sentido as manifestações de 2013 no Brasil foram didáticas têm muito a ensinar. De lá para cá ninguém mais liga para os intermináveis discursos de palanques, do alto dos carros de som, a ditar regras com a pretensão de dirigir as “massas” aqui em baixo. O menosprezo, o desconforto e a desconfiança causados pelos conchavos e arranjos de cúpula são visíveis, porque ao fim e ao cabo as redes sociais desnudaram os corredores da vida política, transpuseram os muros e acabaram com os segredos.

E então? Vamos aceitar os desafios estratégicos que podem recolocar os marxistas na ofensiva ou seguir apenas na mediocridade da administração de problemas insolúveis dentro deste sistema?

Mais uma vez a juventude brasileira assume papel de destaque no cenário político nacional. Basta acompanhar as ondas de protestos urbanos no Brasil, desde a campanha pelo fim da escravatura, para entender a importância dos jovens na luta política brasileira. Felizmente, com uma posição sempre progressista, contra o atraso e ao lado da maioria do povo.

A campanha contra o nazi-fascismo teve na juventude estudantil brasileira sua força motriz, assim como a luta pela redemocratização, no pós-guerra. O mesmo aconteceu na campanha do “Petróleo é nosso”, que redundou no monopólio estatal de exploração de petróleo e na criação da Petrobras. O combate contra a ditadura militar também contou com a juventude estudantil sua vanguarda, da mesma forma que as lutas pelas “Diretas, Já!” e o “Fora Collor”.

Ao cortar verbas para as Instituições Federais de Educação, o governo Bolsonaro mexeu justamente com o segmento mais combativo e independente da juventude brasileira. Isso denota a completa incapacidade deste governo para qualquer coisa, a partir da ausência de um núcleo de pensamento estratégico que o oriente.

As manifestações multitudinárias de 15 de maio ainda não são a derrocada do governo Bolsonaro. Mas foram um xeque ao rei no xadrez da política nacional. Por que? Há alguns elementos que indicam um acelerado desgaste deste governo e sua incapacidade de governar. São eles:

. Não há programa de governo – O tempo da campanha eleitoral ficou para trás e não há muito espaço para seguir “culpando o PT” pela situação do país. Nem mesmo as fake News sustentam isso. Cresce o desemprego, a economia está paralisada e o governo só tem como bandeira a reforma da Previdência, que enfrenta muita desconfiança e resistência por parte da opinião pública. Agora, decide cortar recursos públicos em áreas sociais.

. Incapacidade para formar maioria no Congresso Nacional – Está evidente que os parlamentares eleitos no rastro do fenômeno Bolsonaro não são profissionais da política e não têm capacidade de articular a defesa do governo e de seus objetivos (?) no Congresso. A melhor demonstração disso foi a aprovação, por mais de 300 votos, da convocação do ministro da Educação para dar explicações na Câmara dos Deputados.

. Incapacidade de diálogo com a mídia – As declarações desastradas e o direcionamento de verbas, priorizando aparições no SBT, Record e Band, abriram um conflito com a maior cadeia de comunicação do país, que ainda procura poupar Bolsonaro em função da sua bandeira de reforma da Previdência. Não fosse isso, já estaria completamente frito.

. O desgaste é acelerado e vai para as ruas – As manifestações gigantescas de 15 de maio, em cerca de 200 cidades do país, demonstram que o governo está perdendo a opinião pública e as ruas. Os bolsominions sumiram das redes sociais e nem os robôs da internet conseguem alimentar com argumentos sólidos a defesa deste governo. Boa parte do eleitorado de Bolsonaro se recolheu, está sem coragem de defende-lo publicamente.

. Isolamento internacional – Até mesmo nos EUA, seu ideal de sociedade, Bolsonaro é desprezado. Nem mesmo políticos conservadores desejam associar sua imagem ao tipo tosco do Presidente do Brasil. A política externa é desastrosa, conduzida por um anticomunismo grotesco, que só traz prejuízos à imagem e aos negócios do país.

Restará ao governo eleito no final de 2018 duas alternativas:

1 – Se articular com o MDB, o PSDB e os partidos do Centrão para refazer o ministério e os postos-chave em Brasília, visando construir maioria no Congresso e aprovar as reformas que interessam à burguesia. O problema é que isso enfrentaria resistência e desgaste na própria base que elegeu Bolsonaro, sob a promessa de varrer a “velha política”.

2 – Aceitar sua incapacidade e renunciar, abrindo caminho para um governo preponderantemente dirigido por militares, com o general Mourão à frente, disposto a cumprir o programa de reformas que interessa às classes dominantes, com apoio da mídia empresarial.

Seja como for, parece que a tese de um projeto fascista ou neofascista, que parte da esquerda comprou e tentou associar a Bolsonaro, não condiz com a absoluta incapacidade deste governo de apresentar um projeto e de se sustentar.

O maior desafio da esquerda brasileira é recompor sua força popular em novas bases. Está evidente que as tradicionais representações estudantis e sindicais, verticalizadas e aparelhadas por correntes e partidos, não têm legitimidade para canalizar o descontentamento popular. Muito menos os partidos políticos de esquerda, hoje muito mais agarrados à luta institucional e seus mandatos parlamentares do que à organização popular de base.

A Previdência Social é uma expressão que delimita o sistema de pagamento de aposentadorias e pensões aos trabalhadores que concluem sua vida laboral, por tempo de serviço, tempo de contribuição ou invalidez. Até 1988 este sistema era financiado pelas contribuições regulares de trabalhadores (descontados em seus contracheques), patrões e/ou governos.

A Constituição de 1988 estabeleceu a Seguridade Social (Título VIII, Capítulo II, Artº 194 e 195), que engloba Previdência, Saúde Pública e Assistência Social. Este sistema é solidário, ou seja, uma geração de trabalhadores sustenta a outra com suas contribuições, sucessivamente. Suas fontes de financiamento vão além das contribuições de trabalhadores, patrões e/ou governos, contando com Contribuição Sobre Lucro Líquido (CSLL), Cofins e parcela da arrecadação das loterias.

Essa informação é vital para entender que não há rombo na Previdência. O que há é que os sucessivos governos deixam de contribuir com sua parte e ainda utilizam o artifício da Desvinculação das Receitas da União (DRU), que retira entre 20% a 30% de toda a arrecadação anual da União para uso indiscriminado.

A sobra de recursos da Seguridade Social foi de R$72,7 bilhões em 2005; R$ 53,9 bilhões em 2010; R$ 76,1 bilhões em 2011; R$ 82,8 bilhões em 2012; R$ 76,4 bilhões em 2013; R$ 55,7 bilhões em 2014, e R$11,7 bilhões em 2015 (dados da Associação Nacional dos Fiscais da Previdência). E isso tem a ver com o crescimento da economia, que gera produção, empregos, consumo e incide diretamente sobre a arrecadação da Seguridade Social.

 

O Brasil vai quebrar?

O argumento dos defensores da PEC 06/2019 (Nova Previdência) é que se não for feita a reforma, o país vai quebrar e não haverá novos investimentos e empregos no país.

Ora, as reservas em dólar do governo brasileiro estão em cerca de US$393 bilhões (maio/2019). A dívida pública em relação ao PIB% (hoje em torno de 80%), apesar de absurda, chega a 3% ao ano, se financiada em 30 anos, enquanto em países como os EUA ela vai a 360% do PIB, ou 7,5% ao ano.

Ou seja, não há nenhuma relação direta entre a reforma da Previdência e uma recuperação econômica do Brasil. Isso tudo se inscreve na chantagem das classes dominantes, que elegeram as reformas ultraliberais como forma de abocanhar o que restou do Estado brasileiro.

 

Acabar com privilégios?

A grande massa dos beneficiários do Regime Geral da Previdência Social no Brasil é de trabalhadores que recebem entre 1 e 2 salários mínimos/mês. Portanto, não há privilégios a cortar na Seguridade Social brasileira. Mesmo entre os servidores públicos – que possuem um regime próprio de Previdência e são acusados de “privilegiados” – menos de 10% dos beneficiados pertencem a uma elite da sociedade, formada por uma minoria de servidores com altos salários nos poderes Judiciário, no Ministério Público e no Legislativo.

“No ano de 2017, a Previdência Social concedeu aproximadamente 5,0 milhões de benefícios, dos quais 89,06% eram previdenciários, 6,52% assistenciais e 4,42% acidentários. Os benefícios concedidos à clientela urbana atingiram 82,16% e os concedidos à clientela rural somaram 17,84% do total. As espécies mais concedidas foram o auxílio-doença previdenciário, a aposentadoria por idade e o salário-maternidade, com, respectivamente, 39,8%, 14,39% e 12,63% do total. O valor total dos benefícios concedidos em 2017 atingiu R$ 6,8 bilhões.

“Em 2017, 99,01% dos benefícios concedidos à clientela rural apresentavam valor de até um piso previdenciário, enquanto que os benefícios da clientela urbana dessa faixa corresponderam a 43,86% do total. O valor médio dos benefícios apresentou um crescimento de 4,94%, passando de R$ 1.305,42 em 2016 para R$ 1.369,91 em 2017. O valor médio dos benefícios urbanos foi 55,87% maior que o dos benefícios rurais, respectivamente, R$ 1.463,48 e R$ 938,94” (Dados do Portal da Previdência Social, ano 2017 – Ministério da Economia).

 

O que propõe o senhor Guedes?

A proposta do governo Bolsonaro, apresentada pelo senhor Paulo Guedes, acaba com o atual sistema de Previdência (solidária e pública), para criar uma Previdência privada. Em resumo ela impõe:

. Fim da Seguridade Social e criação de um sistema de Capitalização individual;

. Aumento do tempo mínimo necessário de contribuição para o trabalhador se aposentar para 40 anos;

. Aumento da idade mínima de 55 para 60 anos (mulher) e 60 para 65 anos (homem);

. Redução do valor do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que atende a 1,3 milhão de beneficiários, dos atuais R$900,00 para R$400,00. O BPC tem o valor de um salário mínimo e é pago mensalmente a idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência que possuem renda familiar de até R$ 238;

. Contribuição exclusiva do trabalhador (sem participação de patrão e/ou governos) para uma conta poupança individual em banco, sem que se estabeleça com antecedência quanto ele terá direito a receber quando se aposentar;

. Redução dos valores das pensões, de acordo com o número de dependentes.

. Os servidores públicos terão que aumentar sua contribuição (atualmente em 11%) de seus vencimentos brutos. A previsão é que o percentual pule, inicialmente, para 14%, podendo crescer ainda mais.

 

Dinheiro para Saúde e Educação?

O senhor Guedes insiste que o governo economizará cerca de R$1 trilhão em dez anos, mas não apresenta dados concretos que justifiquem isso. Recentemente, em audiência pública na Câmara dos Deputados, Guedes informou que esse tal R$ 1 trilhão não será um recurso a ser investido em outras áreas, como Saúde e Educação, como se propagava até então.

 

Vale a pena aplicar em previdência privada?

“Desde o começo de 2017, o total de dinheiro investido nesse tipo de aplicação no país aumentou 18%, chegando a R$ 757,5 bilhões em maio de 2018, segundo os dados mais recentes da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

“Um levantamento com base nos dados de mercado feito pela Monetus, startup de gestão de investimentos digital, estima que 70% dos fundos de previdência privada renderam nos últimos 12 meses menos do que o CDI ou que a Selic, duas taxas de referência que andam juntas e que, em um ano até junho, acumularam alta na faixa de 7,3%.

“A grande maioria dos fundos de previdência privada é pós-fixada, o que significa que o rendimento varia mês a mês e não é possível saber, de antemão, quanto ele vai aumentar no futuro. Todas as operadoras cobram uma taxa de administração anual, geralmente de 1,5% a 4% ao ano sobre o valor total aplicado e uma taxa de carregamento que pode ser cobrada na entrada ou na saída”.

E se a seguradora quebrar? “A previdência privada não tem o amparo do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), um fundo formado pelos bancos que restitui até R$ 250 mil aos investidores caso a instituição onde está seu investimento quebre. O FGC é válido para aplicações como poupança, CDB e letras de crédito” (Matéria de Juliana Elias – Portal UOL – 2/8/2018).

Ou seja, além de não ter segurança você só sabe com quanto vai contribuir, mas não tem condição de saber quanto vai receber e nem por quanto tempo vai receber a aposentadoria.

 

O que está por trás da proposta de privatização da Previdência?

A Seguridade Social representa 24% dos gastos da União por ano, só perdendo para o que o governo gasta para pagar juros e amortização da dívida pública. Enquanto cresce de forma abusiva e ilegal (através da cobrança de juros sobre juros – anatocismo) a parcela do orçamento federal destinada a cobrir gastos com a dívida pública, cujos títulos estão nas mãos de grandes bancos/financeiras, diminui a cada ano o investimento do governo federal nas áreas sociais.

O que está em disputa, portanto, é o Orçamento ou as prioridades de investimentos. Vamos seguir alimentando a juros extorsivos o sistema financeiro ou vamos aplicar os impostos pagos pela população na Saúde, Educação, Transportes de massa, saneamento básico, cultura, segurança, lazer, etc?

O sistema de Seguridade Social, tal como é hoje, beneficia diretamente a cerca de 30 milhões de pessoas e indiretamente a muito mais brasileiros, sobretudo aos mais pobres e em cidades pequenas, cuja economia e arrecadação dependem diretamente das aposentadorias e pensões dos idosos que sustentam suas famílias.

Ou seja, trata-se de uma escolha: ou vamos assegurar uma velhice minimamente digna para os trabalhadores ou vamos entregar suas contribuições para um grupo seleto de banqueiros e financistas ganhar rios de dinheiro.