Orgulho do preto*

14/11/2017

É preto, é coisa de preto

O samba de Cartola, Paulinho e Clementina

A engenharia dos irmãos Rebouças

O futebol de Leônidas, Didi e Pelé

 

É preto, é coisa de preto

O maior espetáculo da Terra

A literatura de Machado e Carolina de Jesus

A prosa de João do Rio e a crônica de Lima Barreto

 

É preto, é coisa de preto

O sax de Pixinguinha

O piano de Chiquinha

A elegância harmoniosa de Aniceto

 

É preto, é coisa de preto

O cinema de Pitanga e Ruth

A farofa dos terreiros

A feijoada de todos os brasileiros

 

É preto, é coisa de preto

A gargalhada de Grande Otelo

A determinação de Marighella

A palavra sábia de Milton Santos

 

É preto, é coisa de preto

São Jorge virado em Ogum

O amor declarado de Oxum

E a padroeira de Aparecida

 

É preto, é coisa de preto

A liberdade conquistada

a ferro e fogo

Sob a liderança de Zumbi e Dandara

 

É preto, é coisa de preto

O verso cortante de Cruz e Sousa

O martelo desconcertante do Aleijadinho

O pastoreio dos pampas do Negrinho

 

É preto, é coisa de preto

A dignidade de Luísa Mahin

A destreza de João Cândido

A tenacidade de Abdias do Nascimento

 

É preto, é coisa de preto

O que de melhor esse país produziu

E quem não gostou ou não entendeu

Que tome outro rumo

Ou, como diz aquele samba, “Vá pra longe do Brasil”.

 

* Com base no artigo de Aydano André Motta para o Projeto Colabora

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Está instaurado um conflito nas camadas médias no Brasil, que divide as pessoas por uma série de questões. Este confronto tem apenas uma aparência de conflito de gerações, ainda que ele esteja presente. Os nascidos a partir da década de 80 do século passado não viveram as crises mais graves de inflação, desemprego e baixo consumo.

São pessoas que cresceram sob a égide de uma sociedade que se abriu ao “mercado”, que não sabem o que é censura, que foram educadas num ambiente de extrema permissividade e com facilidade para acessar o mercado de trabalho.

Grande parte dessa turma de 20 a 30 anos de idade conviveu com certa estabilidade no emprego, cursos de pós-graduação e concursos públicos, programas de crédito que lhes permitiram dar entrada na casa própria, trocar de carro a cada cinco anos e fazer viagens ao exterior.

Além disso, são gerações que adiaram a formação da família e a chegada de filhos, esticaram a permanência nas casas dos pais, sem um gasto pessoal tão grande e com uma renda própria razoável.

Para essas pessoas o discurso da meritocracia cai como uma luva. Afinal, elas não têm noção de que as melhores escolas e universidades que frequentaram foram fruto de uma luta enorme de resistência de outras gerações de estudantes, professores e funcionários.

Tampouco sabem que a certa estabilidade econômica, de crédito, de emprego e de consumo que experimentaram foi fruto de toda uma luta contra o modelo neoliberal, que sucedeu à ditadura militar, implantado até o final da década de 90.

Queiramos ou não, o modelo econômico implantado pelos governos do PT, voltado para o mercado interno, foi a expressão máxima das reivindicações e das lutas dos trabalhadores das décadas de 70 e 80, justamente a geração que combateu a ditadura militar. Diga-se de passagem, boa parte desta política foi elaborada por intelectuais que emergiram da mesma classe média brasileira.

Muitos dos que hoje chegam ao serviço público e às empresas estatais não têm a menor ideia de que os direitos e benefícios que recebem não foram dádivas de nenhum governo, mas resultado de muitas lutas e greves. Boa parte despreza ou considera os sindicatos ultrapassados, mas não tem noção da importância que teve a organização sindical para uma série de conquistas que hoje parecem turvas em seus contracheques.

Este conflito, que opõe artificialmente os mais novos aos mais velhos, também é resultado de um sistema educacional que privilegiou o ensino privado. A grande maioria dos filhos da classe média urbana brasileira passou a frequentar as escolas particulares, não se misturou aos filhos dos mais pobres, comprou a falsa ideia de menosprezar as cadeiras de História, Geografia, Filosofia e tudo que tenha a ver com a memória do país.

A geração dos “concurseiros” decorou frases e um método de ensino que visava prepara-los para encarar provas de múltipla escolha. Os livros didáticos e romances foram substituídos pela mecânica da indústria de apostilas, que não estimula o raciocínio e a tomada de decisões a partir da interpretação crítica dos fenômenos.

Isso se reflete no que se posta e se escreve nas redes sociais. Há uma ignorância absurda sobre temas simples, como por exemplo: o nazismo é de esquerda ou de direita? O racismo é uma chaga a ser reparada na sociedade brasileira ou um “vitimismo”? A exibição da nudez pode ser encarada como natural no contexto artístico ou é um atentado ao pudor e pedofilia? Os governos do PT e seus aliados eram comunistas? A ditadura militar foi um dano ao país ou um mal necessário?

Este conflito exige um debate paciente e didático por quem pretende encará-lo. A primeira coisa a fazer é abandonar o palavrório, o xingamento e os adjetivos que visam a desqualificar os que divergem ou ignoram. A segunda é demonstrar que a classe média também será tragada pela ganância do grande capital, que a utiliza como bucha de canhão para seus propósitos reacionários.

Será preciso retomar o costume de fazer as pessoas pensarem, refletirem sobre o que fazem em todas as áreas do conhecimento. Um dos problemas do PT, dentre tantos outros, foi acreditar que seria possível elevar o nível de consciência da sociedade a partir da inclusão pelo consumo. Ora, o neoliberalismo aposta justamente nisso: convencer aos pobres e remediados que sua salvação se dará pelo consumo, sem reflexão, sem encarar as contradições.

Ao contrário da histeria de Marilena Chauí e seus discípulos, o caminho para neutralizar o pensamento reacionário que emerge de parte considerável das camadas médias é ampliar o debate, não é acabar com ele na base dos impropérios. Aliás, este é justamente o campo que agrada aos ideólogos dos grupos de direita.

Não se sabe se o ministro da Justiça resistirá à crise que provocou com suas declarações. Torquato Jardim só disse o que alguns sabem e o que muita gente pensa no Rio de Janeiro. Há conivência e parceria entre a cúpula da segurança pública e a bandidagem.

Como explicar que o tráfico varejista de drogas continue agindo nas barbas da polícia, mesmo nas favelas em que existem UPP? Como explicar que nas áreas controladas por milícias – comandadas por policiais, bombeiros e ex-policiais – não haja uma UPP?

Alguém bota fé – a não ser a grande mídia empresarial, que virou papagaio das fontes oficiais – na versão de que o comandante do batalhão da PM do Meier foi vítima de um arrastão? E o “deputado” ao qual o ministro se referiu, que faz parte do acerto para comandar a polícia: quem seria essa personagem?

Existe alguém mais bem informado sobre a segurança pública neste país do que o ministro da Justiça? O que levou Jardim a chutar o balde dos senhores Pezão e Roberto Sá? Que razão têm os comandantes da PM para se indignar, diante das declarações do ministro?

A impressão que qualquer leigo tem é que o governo estadual perdeu o controle sobre a segurança pública no Rio. Temos a polícia que mais mata e a que mais morre em todo o país, em números absolutos. Ainda assim, o tráfico varejista de drogas continua a todo vapor, abastecido de mercadoria e de armas. Sinal de que esta política não resolve e que alguém está se beneficiando dela.

Vira e mexe a mídia empresarial pede a presença de tropas das Forças Armadas nas comunidades, para ajudar na velha e surrada política de contenção social. O Exército vem, as coisas “esfriam” e quando as tropas saem tudo volta ao normal: tiroteios, assassinatos e a tradicional violência de traficantes e policiais, que coloca grande parte da população do Rio sob Estado de Sítio. Jardim já deve estar de saco cheio de enxugar gelo.

Mais da metade das chamadas áreas conflagradas, que nada mais são do que regiões abandonadas pelo Estado, estão sob o controle de milícias, formadas por policiais e ex-policiais. Nessas áreas a PM faz vistas grossas e não coloca os pés.

A segurança pública, quando feita para defender e garantir a liberdade dos cidadãos, é sempre bem vinda e não precisa ostentar armas. O seu oposto é a segurança imposta, na base da extorsão, que explora justamente a ausência do Estado e serviços básicos. Nesses casos, ela rende muito dinheiro aos “justiceiros” de plantão e a quem está por trás deles.

Torquato Jardim só colocou o dedo na ferida exposta. Ou a sociedade fluminense e brasileira exige uma mudança na estrutura da segurança pública, com o fim da PM e a formação de uma polícia civil técnica, ou vamos continuar alimentando o monstro que gera lucros a corruptos, justiceiros de araque e graves prejuízos à população, sobretudo ao povo pobre das favelas e periferias.

A crise política espanhola, exposta a partir do plebiscito de 1 de outubro na Catalunha, desperta muitas paixões. Há quem vá à História da formação do país, há séculos atrás, para justificar o sentimento nacionalista do povo catalão. Outros ficam nos episódios que marcam a ditadura fascista de Francisco Franco para defender a independência da Catalunha.

Certamente tudo contribui para o debate, menos o apelo demagógico dos “nacionalistas” dos dois lados. Sim, porque os que são contra a independência da Catalunha o fazem sob o discurso de defesa da nação espanhola, que correria sério risco de se desmantelar caso os catalães abandonem o país. Já os nacionalistas catalães também defendem sua independência em nome da formação da sua própria nação.

Afinal, o que todo este “nacionalismo” traduz e esconde? O nacionalismo é uma expressão da identidade que une determinado povo de determinada região, forjado a partir de costumes, língua, tradições. Mas este mesmo nacionalismo sempre procurou ocultar algo fundamental: os catalães ricos têm muito mais em comum com os madrilenhos ricos do que os dois com seus respectivos povos.

O que os catalães ricos querem é o direito de ampliar, expandir e avançar em seu direito de fazer negócios e obter mais riquezas, sem dar muita satisfação à Madri. E o fazem a partir da velha exploração dos catalães trabalhadores, por mais que falem a mesma língua, que torçam pelo mesmo clube (não esqueçamos que lá também existe o Español), que tenham os mesmos costumes. Ou será que o senhor Puidgemont vive os mesmos problemas da maioria do povo catalão?

E o que querem os espanhóis ricos, aliados do senhor Rajoy e seu PP? Garantir que os trabalhadores da Catalunha continuem a produzir e a contribuir com seus impostos, para assegurar os interesses das velhas elites madrilenas.

Portanto, travado sob o signo do nacionalismo, este embate só produz uma falsa polêmica, escondendo interesses de classe inconfessáveis. É evidente que é direito do povo catalão ir às urnas e dizer se quer ou não pertencer à Espanha. Também é claro que não se pode tolerar a proibição de um plebiscito e o uso da violência policial contra os que foram às urnas em 1 de outubro.

Mas é uma falácia considerar que a maioria dos catalães quer a independência, sabendo-se que somente 42% dos eleitores foram às urnas e que a esmagadora maioria dos que são contra sequer foram votar. Além de se desconhecer o fato de que todas as pesquisas de opinião concluem que a população da Catalunha sempre esteve dividida a respeito deste tema.

Puidgemont já deixou claro que está disposto a um novo acordo entre o governo central de Madri e a Catalunha, mesmo depois de tudo que se passou após o 1 de outubro. E ele sabe que uma independência, neste caso, não será acolhida pelos demais países da União Européia, também sob a ameaça de movimentos independentistas.

Rajoy, por sua vez, sabe que se esticar demais a corda pode ser até defenestrado de sua condição de primeiro-ministro, sob a acusação de não ter capacidade de gerenciar a unidade da Espanha. Ambos terão que encontrar uma saída. Pelo histórico e o interesse de classes que os dois defendem certamente não será um acordo positivo para o povo espanhol e nem para o povo catalão.

Como se vê, o problema é complexo, não se trata de um Fla X Flu e muito menos de um Real Madri X Barcelona.

Há dias assisto às entradas ao vivo de repórteres das principais redes de TV aberta, “direto da Rocinha”, como anunciam os âncoras do noticiário. Mentira, eles não passam da Via Apia. Para quem não sabe, trata-se de uma das principais entradas da favela, beirando o asfalto de quem sai do Túnel Zuzu Angel.

De lá ou de outro ponto das redondezas da Rocinha, às vezes da passarela que liga a comunidade ao outro lado da rua (Autoestrada Lagoa-Barra), rapazes e moças paramentados com coletes e, às vezes, capacetes com a inscrição “Imprensa”, repetem comunicados oficiais ou o óbvio: “Há pouco ouvimos um tiroteio”.

Não há nada mais artificial e rasteiro do que pretender informar à sociedade sobre o que se passa em um lugar sem ao menos estar naquele lugar. Que dirá sem conhecer o lugar. É assim que assisto, perplexo, ao noticiário sobre a “guerra na Rocinha”, como se houvesse “mocinhos e bandidos”, numa fábula hollywoodiana. Assim as coisas são tratadas, o que justifica a histeria pela intervenção militar, hoje no Rio, amanhã em todo o país. Por que não?

É assim que todos os dias nos acostumamos com a narrativa superficial na telinha sobre o que acontece no Mundo, no Brasil e na nossa cidade. Poucos repórteres e equipes de reportagem, pouca investigação, muito comentário e achismo, pouco fato, pouco substantivo e muito adjetivo, sem contar as lições de moral e as caras e bocas de apresentadores.

Melhor consultar o site da BBC Brasil ou o El País digital, que reservam reportagens e entrevistas com moradores e personagens que vivem o dia-a-dia da Rocinha. Para descobrir os meandros da briga de facções (CV X TCA com apoio do PCC) o jeito é acompanhar o canal da TV Coyote, ancorado por um jovem paulistano no Youtube.

O repórter que mais conhece a Rocinha é um inglês, que se mudou e morou três meses na favela, gravou 28 horas de conversas com o Nem e publicou o livro “O dono do morro”. Misha Glenny estudou o tráfico de drogas por quatro anos e, em entrevista à Globonews, ainda confessou conhecer pouco do assunto.

No Rio já perdemos o Correio da Manhã, a Última Hora, o Jornal do Brasil, a Tribuna da Imprensa e a Luta Democrática. Nas bancas estamos limitados a ler as manchetes de dois grupos empresariais de comunicação: O Globo (Extra e Meia Hora) e O Dia (Expresso).

Cercada de uma mídia empresarial medíocre, mais atenta à venda de produtos do que ao papel de informar, a sociedade fluminense e brasileira assiste todos os dias a um noticiário faz-de-conta. Uns mais outros menos sensacionalistas, uns mais outros menos apelativos, mas todos, absolutamente todos superficiais. O Brasil de verdade não encontra lugar nas páginas dos jornais, nas reportagens de rádios e TV e nos sites dos grandes grupos de comunicação.

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Braço importante da violência urbana e da extorsão de moradores das áreas mais pobres do Rio e Grande Rio, as milícias ocupam hoje (2017) mais da metade das regiões governadas pela criminalidade. Formadas inicialmente em nome do combate à violência das facções criminosas, as milícias, comandadas por policiais e ex-policiais e bombeiros, passaram a adotar as mesmas práticas da bandidagem.

Primeiro ofereciam proteção armada a comerciantes e moradores de favelas e bairros populares, depois entravam com outros serviços, como a venda de TV a cabo, internet, transporte alternativo, venda de gás em botijão, etc. Hoje esses grupos fazem acordos com setores da bandidagem para explorar pontos de camelôs, caça-níqueis e até prostituição. Mais recentemente somou-se a essas áreas de arrecadação o próprio tráfico de drogas, com o recrutamento de ex-traficantes.

O crescimento das milícias está associado à percepção de que o Estado não cumpre o papel de prover as comunidades carentes do mínimo necessário nas áreas sociais, e que elas estão largadas à sua própria sorte e ao domínio da bandidagem. Essa percepção fez crescer os olhos de policiais e ex-policiais que residem ou atuam nessas regiões, muitas vezes chamados por comerciantes a intervir para “limpar a área” de marginais.

No entanto, foi nos anos 90 que essa atuação informal se transformou em organização criminosa. A maior das milícias de que se tem notícia no Rio atende pela alcunha de Liga da Justiça, em função de dois policiais que agiam na Zona Oeste, apelidados de Batman e Robin. Aos poucos, sua atuação se estendeu por toda a Zona Oeste do Rio.

Em 2008 o deputado Marcelo Freixo comandou a CPI das milícias, na Assembleia Legislativa do Rio. 226 pessoas foram apontadas como membros das milícias, incluindo vereadores, deputados e até um ex-secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, e um ex-chefe de polícia, Álvaro Lins. Alguns dos acusados foram presos posteriormente, inclusive Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman.

Entre os milicianos destacavam-se o deputado estadual Natalino José Guimarães, o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras (DEM), o vereador André Ferreira da Silva, o Deco (PR), o vereador por São Gonçalo Geiso Pereira Turques, o Geiso do Castelo (PDT), e o vereador por Duque de Caxias Sebastião Ferreira da Silva, o Chiquinho Grandão (PTB), além dos vereadores eleitos Carmen Glória Venâncio Guimarães, a Carminha Jerominho (PT do B), e Cristiano Girão (PMN). Também foi indiciado o ex-deputado estadual e ex-chefe da Polícia Civil do Rio Álvaro Lins.

Observe-se que a atuação de milicianos organizados se expandiu para a Baixada Fluminense e São Gonçalo, áreas mais pobres e densamente povoadas do Grande Rio.

Dados do Ministério Público mostram que desde 2007 até o primeiro semestre de 2017 foram 1.276 prisões de milicianos, sendo 235 de PM. Nos últimos dez anos, no entanto, o perfil dos envolvidos mudou, com destaque para ex-policiais, assim como o seu modus operandi. Os policiais da ativa passaram a agir por trás desses grupos, mas não aparecem diretamente nas ações os grupos milicianos.

Antes prevalecia o assassinato e exposição dos mortos, como forma de mandar recado. Agora, os milicianos somem com os corpos de suas vítimas. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o Rio tem mais de 33 mil desaparecidos, desde 2002. Desse total, as delegacias da Zona Oeste lideram o ranking no estado, com destaque para Campo Grande (3.088) e Santa Cruz (2.365).

O poderio das milícias, que já controlam mais da metade das áreas conflagradas, supera em muito os grupos do tráfico varejista de drogas. Elas têm contato direto e gente trabalhando nos órgãos de segurança do Estado, o que facilita sua atuação e camuflagem. Sua influência política se manifesta na eleição de prefeitos, deputados e vereadores, o que as torna uma força política poderosa em todo o Rio e Grande Rio.

O crescimento do tráfico de drogas e de armas é um fenômeno mundial, na medida em que o consumo de entorpecentes se tornou um negócio extremamente rentável, com um mercado internacional, e sempre foi combatido com apelos morais e pouco racionais.

No Brasil a primeira organização criminosa que lançou mão do tráfico de drogas foi a Falange Vermelha. Ao final da década de 70, depois de conviver nos presídios do Rio e perceber como os presos políticos se organizavam para construir uma rede de solidariedade externa, parte da bandidagem decidiu criar uma espécie de irmandade para defender os presos comuns e suas famílias, completamente desamparadas pelo Estado.

As primeiras ações foram assaltos a bancos, o que rendeu bons resultados, mas desencadeou uma perseguição implacável da polícia. Muitas lideranças foram mortas ou presas. Foi então que se desenvolveu uma lógica de conquista e domínio de territórios, a partir das favelas, espaços urbanos em que o Estado estava ausente e de difícil acesso para a polícia. A partir daí, o financiamento do grupo passou a ser feito com a venda de maconha e, mais tarde, a cocaína. Nos anos 80 uma nova geração assume e passa a adotar o nome de Comando Vermelho (CV).

Criado a partir de um grupo de lideranças que foram removidas do Carandiru, após o massacre de 1992, o Primeiro Comando da Capital (PCC) também surgiu dentro da cadeia (Taubaté-SP), com a finalidade de organizar a massa carcerária contra os maus tratos e más condições nos presídios.

Aos poucos, por contar com líderes articulados e a fama de práticas sanguinárias – como cortar as cabeças dos adversários – o PCC cresceu e organizou uma rede de solidariedade e ações criminosas fora das cadeias. Sua atuação se expandiu por todo o estado de São Paulo.

Com a permissividade do Estado, incapaz de oferecer alternativas de sobrevivência e ascensão social aos setores mais desfavorecidos da juventude, essas duas facções criminosas cresceram e se expandiram, fazendo alianças com outros grupos regionais em todo o país.

Para o crescimento do tráfico de drogas e armas muito colaborou a corrupção policial e a falta de interesse das classes dominantes em compreender e atacar o problema. Grande parte da polícia usa sua prerrogativa de corpo armado do Estado para extorquir e vender armas para traficantes.

Já os grupos políticos dominantes toleram o tráfico, desde que este não mexa com seus negócios. Partidos e líderes políticos das elites fazem um discurso demagógico contra a bandidagem, mas realizam acordos com as facções criminosas quando se trata de buscar votos nas comunidades dominadas por elas.

O chamado “crime organizado” atua em todo o Brasil, recebendo drogas de países vizinhos produtores de maconha e cocaína, além de armas, através do contrabando do Paraguai e dos EUA, nações em que o controle de venda de armamentos é limitado.

O PCC e o Comando Vermelho não são, propriamente, organizações que comandam o tráfico internacional de entorpecentes, mas redes fundamentais para a venda no mercado brasileiro e no escoamento de drogas para os mercados da Europa.

Até o final de 2016 o PCC e o CV mantinham relações de colaboração, dividindo espaços e alianças pelo país. O PCC é uma organização mais sofisticada e começou numa época em que o mercado consumidor demandava a cocaína e o crack. Sua ação envolve um esquema empresarial de lavagem do dinheiro que arrecada. Já o CV começou com a maconha e depois a cocaína. Sua organização é menos sofisticada, limitando-se a recolocar os recursos que arrecada no próprio negócio do tráfico.

Aparentemente as operações mais sofisticadas e organizadas (compra e contatos nos países produtores de drogas e contrabando de armas) são executadas pelo PCC. Já o CV tem sua atuação mais focada na rede de abastecimento de drogas no mercado interno, em aliança com outros grupos no Rio e no Brasil.

Os principais líderes vivos do PCC são Marcola, Gegê do Mangue, Paca e Edilson Mirosca. A eles se juntou o Fantasma, que ficou responsável por recrutar membros e organizar o PCC no Rio. Já no CV os líderes mais influentes são Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco e Marcinho VP, todos presos.

No início de 2017 estouraram conflitos dentro das penitenciárias no Norte e no Nordeste do país, que originaram dezenas de mortes. Foi o anúncio do rompimento oficial entre CV e PCC. No Rio, dois grupos com alguma força – o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Amigos Dos Amigos (ADA) – decidiram se fundir, no que hoje se denomina de Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

A disputa pelo comando da Rocinha é parte desta guerra entre os principais grupos organizados do tráfico de drogas. O PCC decidiu se aliar ao TCA, para enfraquecer o CV e seus aliados. Não se pode dizer que Rogério 157, ex-preposto de Nem, esteja incorporado ao CV, mas sabe-se que ele não acompanhou Nem e seus comandados na aliança com o PCC.

Há uma grande parcela do povo brasileiro que vive a expectativa de que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, uma salvação virá para nos redimir de nossos problemas. É assim nos clubes de futebol (à procura de um grande craque), na religião (em busca de um messias), com a saúde (receitas milagrosas) e até na sorte (um grande prêmio na loteria).

Enquanto esse fetiche da “salvação da pátria” se resume às questões pessoais, crenças e desejos, tudo bem. Mas quando isso passa para o plano da política as coisas se complicam. É a tentativa de projetar no outro tudo que gostaríamos de ser e fazer e que não podemos ou não temos a coragem.

“Se fulano vencer vai ser f…”. “Se beltrano assumir tudo vai mudar”. “Se cicrano souber disso a cobra vai fumar”. São expressões comuns, repetidas aos quatro ventos pelas pessoas, que reforçam esse fetiche do semideus, o todo poderoso que vai dar um jeito nas coisas que julgam erradas.

Na esquerda o fetiche é com Lula, ainda que nem de esquerda ele possa ser classificado. Ou por acaso Lula anda defendendo o socialismo, a expropriação do grande capital e um regime baseado em conselhos populares por aí? Mas os que o julgam de esquerda não querem saber e sentenciam: “O Lula vai voltar e aí vocês vão ver…”.

Ver o que? O que foi que se viu em oito anos de Lula na Presidência? Muito menos ousadia do que os três anos incompletos de João Goulart e suas reformas de base, acusado de comunista e derrubado por um golpe militar. Nem aos pés dos menos de três anos de Allende e seu governo da Unidade Popular, no Chile. E muito menos do que representou Hugo Chaves e seu socialismo do século XXI para a Venezuela.

No campo oposto, o da direita, o fetiche está em Jair Bolsonaro. De repente, um ex-oficial do Exército, afastado das Forças Armadas por atos de indisciplina, virou o exemplo a ser venerado, ao ponto de muitos o chamarem de “mito”. “Se o Bolsonaro chegar à Presidência vai acabar essa pouca vergonha”, sentenciam por aí.

Será que essas pessoas já pararam para observar as palavras e atitudes destemperadas de seu ídolo? Será que não entenderam que Bolsonaro vive num teatro, que faz de sua atuação a representação de uma personagem em busca de um filão eleitoral ultraconservador? Será que não enxergam que seu “mito” fez disso um meio de vida para se eleger por vários mandatos?

Pior que isso só os que usam a decepção política da maioria dos brasileiros para pregar o velho receituário do regime militar. “No tempo dos militares não tinha corrupção, vivia-se em paz”, decretam. Isso só reforça a necessidade de uma revisão histórica completa acerca dos 21 anos da ditadura militar brasileira.

Ou seja, grande parte dos brasileiros adultos parece não ter saído da infância, busca em algo ou em alguém, tal qual uma criança que espera por um milagre ou um herói, a redenção do país. Como se a solução dos nossos problemas não fosse da responsabilidade de todos, em vez de ser delegada a um salvador que virá, não se sabe de onde, para curar-nos de todos os nossos males.

Talvez esse comportamento infantil explique a guerra nas redes sociais, em que imperam os adjetivos e xingamentos de lado a lado. Essa personificação da disputa política deixa de lado o debate sobre as engrenagens do sistema, às quais estamos presos, enquanto se discute o “Fla X Flu” despolitizado de lulistas e bolsonaristas.

Faz tempo não arrisco palpites sobre a situação política do país. Também pudera: não encontro ninguém que tenha certeza do que pode acontecer no dia seguinte. A impressão que se tem é que a Operação Lava-Jato destampou um bueiro do qual estão saindo coisas cada vez piores.

Os próprios procuradores do Ministério Público Federal e o juiz Moro, que tinham como meta inicial não deixar pedra sobre pedra do PT, há muito já perderam o controle das coisas. Há denúncias no âmbito da Procuradoria Geral da República, outras que devem ser analisadas e julgadas pelo STF, além de operações com ramificações no Rio, Brasília e em outras capitais, com o dedo gordo da Polícia Federal. Aliás, PF que também tem suas alas e interesses.

Ou seja, o bueiro destampado em Curitiba abriu o caminho para inúmeras operações e investigações, que alcançaram todos os grandes partidos políticos, ministros e ex-ministros, deputados, governadores e senadores, Temer, Lula e Aécio, grandes grupos empresariais, como a JBF e a Odebrecht, além dos senhores ministros do STF.

O golpe parlamentar-empresarial de 2016 produziu resultados pífios, para não dizer desastrosos, no campo da economia. A receita de aprofundar a recessão e ampliar os cortes de investimentos públicos, iniciada no final do governo Dilma, gerou desemprego gigantesco, queda na produção, redução da arrecadação de impostos e redução do consumo das famílias. Tudo resultado da “Ponte para o Futuro”, programa redigido pela FIESP, com o apoio da banca, que prometia a retomada do crescimento a partir da retirada de Dilma do Planalto.

A impressão que se tem é que se instaurou um verdadeiro pomba-rolou, um bangue-bangue entre grupos de interesses que antes se acomodavam nos palácios, palanques e ministérios. A partir de denúncias, com base no benefício da “delação premiada”, ninguém está a salvo de ver seu nome e seus interesses atirados ao fogo, em meio ao tiroteio em que se transformou a política nacional.

Nesse clima de vale-tudo, as Organizações Globo e os estrategistas do sistema procuram preservar as tais reformas milagrosas, que salvariam o país de todos os males: trabalhista (já aprovada), previdenciária (prejudicada pela falta de acordo) e política (deturpada pelos interesses dos próprios parlamentares). Ocorre que mesmo para aprovar essas medidas seria necessário um mínimo de unidade e tranquilidade política, coisa que hoje parece impossível.

Assim, sem lideranças políticas sólidas e respeitáveis e com resultados econômicos sofríveis, as classes dominantes não conseguem tocar o barco a um porto sólido, tendo Temer como timoneiro. Por sua vez, a grande massa da população assiste ao noticiário político como se acompanhasse a uma novela de terror, cheia de fortes emoções. A impressão que se tem é que a sabedoria popular vai sendo confirmada a cada capítulo, cada mala de dinheiro, cada gravação, cada delação, cada votação.

Também sem líderes confiáveis e sem organização, a grande massa do povo brasileiro se atém à tarefa de tentar sobreviver, em meio ao desemprego e as contas para pagar. Isso até que uma fagulha atinja esse verdadeiro palheiro seco em que se transformou o Brasil, prestes a arder em grandes labaredas.

Da última vez que estive nestas duas cidades (Julho/2017) pude perceber como o poder de compra do brasileiro caiu ainda mais nos últimos anos, diante do custo de vida das duas capitais. A começar pelo fato de que nossa moeda segue desvalorizada: 1 Euro valia R$3,80 e 1 Libra em torno de R$4,20. Assim, se você é de classe média no Brasil, e ganhou uma passagem à Europa como eu, prepare-se para se conformar com a condição de pobre remediado por lá.

O salário mínimo na Inglaterra pode ser calculado a partir da hora trabalhada, que custa em torno de 7,5 libras. Quem trabalha 40 horas/semana recebe 1.200 libras ao final do mês. Na França o mínimo vale 1.430 euros. Pela conversão é possível ter uma noção da defasagem entre o mínimo no Brasil, na Inglaterra e na Franca.

O problema é que o custo de vida nestas duas capitais tem pesos distintos. Gasta-se muito com aluguel e transporte, sobretudo em Londres, onde boa parte do sistema é privatizado. Daí porque o brasileiro duro não pode escapar dos cartões de integração Oyster (Londres) e Navigô (Paris), para aliviar o peso do custo do transporte nas duas cidades. Sem eles você vai gastar muito mais para se locomover.

Para a estadia você precisa pesar alguns aspectos: qualquer hotel razoável próximo do centro não sai por menos de R$180,00/dia. A hospedagem inclui café da manhã? Apesar da distância do centro da cidade o transporte é rápido e o tempo de viagem compensa? Desta vez apelei e o resultado foi bom: 1) Easyhotel, em Londres (East Croydon), ao lado da estação de trem urbano. De trem gastava 15 minutos até a Estação Victoria, bem no Centro; 2) Ibis Porte de Pantin, em Paris, próximo da estação Hoche (linha 5 do metrô). Custo baixo (cerca de R$ 1.200,00 em Londres e R$ 1.100,00 em Paris por semana) e quartos limpos, sem qualquer luxo, mas com higiene.

No quesito alimentação o problema é o mesmo. Em Londres e Paris a saída é apelar na hora do almoço para a rede de comida rápida Prêt-a-Manger (apesar do nome em francês trata-se de uma cadeia britânica), que você encontra em qualquer ponto das duas capitais. São saladas misturadas com uma proteína (frango, peixe). Acrescente um suco ou um refrigerante da própria casa. Se você não for um glutão, com sete libras ou euros dá para se satisfazer. Muita fome? Apele aos fast food orientais, como o Misso, em Londres: um balde de macarrão, que da para dois, por cinco libras. Em Paris ainda existe a opção da rede francesa Paul, com sanduíches e doces. Também é bom e barato.

À noite o melhor é gastar uns trocados (até quatro euros ou libras) adquirindo sucos e sanduíches nos mercados, que baixam os preços conforme a hora avança. Outra boa possibilidade é comprar pratos congelados e esquentá-los no Hotel (no Ibis havia forno de micro-ondas disponível). Aproveite e compre também no mercado os ingredientes para o seu café da manhã seguinte: queijo, presunto, pão, leite ou suco de caixa. Com cinco libras ou euros você começa o dia bem. De quebra você pode encontrar chocolates Lindt a preços módicos (1,50 a 2,00 euros ou libras). Se gosta de bons vinhos pode compra-los a preços baixos (3 a 6 euros) nas prateleiras dos mercados, em Paris.

Passeios? Há algumas linhas de ônibus urbanos em Londres e Paris que circulam pelas regiões mais interessantes do centro das duas cidades. São espaçosos e confortáveis. Com o passe semanal de transporte você pode rodar e ter uma ideia do que há de mais legal nas duas capitais. 

Ambas são cortadas por rios, que também merecem ser visitados. Em Paris você pode tomar o batobus, uma espécie de ônibus que circula pelo Sena a um custo de 13 euros. Ele para em pontos estratégicos e com o passe diário é possível descer e voltar a toma-lo no mesmo dia.

Em Londres vale a pena visitar os grandes museus: Britânico, História Natural e o das Ciências, todos com entrada franca. Leve um lanche porque é tanta coisa para ver que vai dar fome. Em Paris vá ao Louvre (17 euros) e ao Museu da História Medieval (8 euros), que é menos badalado, mas tem um acervo belíssimo. Mas não arrisque comprar lembranças nas lojinhas dos museus.

Em vez de roda gigante da Coca-Cola, por que não visitar a Tower Bridge em Londres? Você tem uma bela vista do Tâmisa, se diverte, conhece a Torre de Londres (ao lado) e paga muito menos: 11 libras por pessoa. Em Londres existe também a opção dos parques, já que a cidade oferece muitas áreas publicas de lazer.

Em Paris vale uma visita à Montmartre e à Catedral da região. Dali você tem uma bela vista da cidade, e de quebra pode conhecer os trabalhos dos pintores e artesãos que expõem na praça. Outra boa pedida e a Catedral de Notre Dame e arredores, sem precisar entrar e pagar. A visita à Torre Eiffel sai por 11 euros, mas se você tiver disposição pode subir a pé por 7 euros. E não deixe de ir ao Mercado das Pulgas, onde você encontra de tudo um pouco.

Compras? Se estiver dentro de seus planos e você não for muito exigente, dá para trazer algumas coisas legais. Em Londres e Paris não deixe de ir à Primark, loja de departamento de origem irlandesa. Como em todo o mundo os produtos são chineses, indianos e de todos os países onde a mão de obra é baratíssima. Já os preços são bem camaradas.

Na capital britânica visite as lojas da Sportdirect, que vendem material esportivo. Com 30 a 50 libras você pode arrematar um bom tênis, que custaria muito mais aqui. Em Paris é possível comprar sapatos por 16 euros e tênis em lojas de rua (comprei um por 30 euros), além de bolsas e malas de viagem mais em conta. Lá também você encontra a Tati (espécie de Lojas Americanas), com ofertas variadas e preços baixos.

Nesta época do ano (Verão) as liquidações estão por toda parte, inclusive nas lojas mais badaladas. Se garimpar você consegue alguns produtos por preços bem em conta.

Bem, acho que dei um panorama geral. Aproveite as dicas e vá na fé.