Há uma grande parcela do povo brasileiro que vive a expectativa de que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, uma salvação virá para nos redimir de nossos problemas. É assim nos clubes de futebol (à procura de um grande craque), na religião (em busca de um messias), com a saúde (receitas milagrosas) e até na sorte (um grande prêmio na loteria).

Enquanto esse fetiche da “salvação da pátria” se resume às questões pessoais, crenças e desejos, tudo bem. Mas quando isso passa para o plano da política as coisas se complicam. É a tentativa de projetar no outro tudo que gostaríamos de ser e fazer e que não podemos ou não temos a coragem.

“Se fulano vencer vai ser f…”. “Se beltrano assumir tudo vai mudar”. “Se cicrano souber disso a cobra vai fumar”. São expressões comuns, repetidas aos quatro ventos pelas pessoas, que reforçam esse fetiche do semideus, o todo poderoso que vai dar um jeito nas coisas que julgam erradas.

Na esquerda o fetiche é com Lula, ainda que nem de esquerda ele possa ser classificado. Ou por acaso Lula anda defendendo o socialismo, a expropriação do grande capital e um regime baseado em conselhos populares por aí? Mas os que o julgam de esquerda não querem saber e sentenciam: “O Lula vai voltar e aí vocês vão ver…”.

Ver o que? O que foi que se viu em oito anos de Lula na Presidência? Muito menos ousadia do que os três anos incompletos de João Goulart e suas reformas de base, acusado de comunista e derrubado por um golpe militar. Nem aos pés dos menos de três anos de Allende e seu governo da Unidade Popular, no Chile. E muito menos do que representou Hugo Chaves e seu socialismo do século XXI para a Venezuela.

No campo oposto, o da direita, o fetiche está em Jair Bolsonaro. De repente, um ex-oficial do Exército, afastado das Forças Armadas por atos de indisciplina, virou o exemplo a ser venerado, ao ponto de muitos o chamarem de “mito”. “Se o Bolsonaro chegar à Presidência vai acabar essa pouca vergonha”, sentenciam por aí.

Será que essas pessoas já pararam para observar as palavras e atitudes destemperadas de seu ídolo? Será que não entenderam que Bolsonaro vive num teatro, que faz de sua atuação a representação de uma personagem em busca de um filão eleitoral ultraconservador? Será que não enxergam que seu “mito” fez disso um meio de vida para se eleger por vários mandatos?

Pior que isso só os que usam a decepção política da maioria dos brasileiros para pregar o velho receituário do regime militar. “No tempo dos militares não tinha corrupção, vivia-se em paz”, decretam. Isso só reforça a necessidade de uma revisão histórica completa acerca dos 21 anos da ditadura militar brasileira.

Ou seja, grande parte dos brasileiros adultos parece não ter saído da infância, busca em algo ou em alguém, tal qual uma criança que espera por um milagre ou um herói, a redenção do país. Como se a solução dos nossos problemas não fosse da responsabilidade de todos, em vez de ser delegada a um salvador que virá, não se sabe de onde, para curar-nos de todos os nossos males.

Talvez esse comportamento infantil explique a guerra nas redes sociais, em que imperam os adjetivos e xingamentos de lado a lado. Essa personificação da disputa política deixa de lado o debate sobre as engrenagens do sistema, às quais estamos presos, enquanto se discute o “Fla X Flu” despolitizado de lulistas e bolsonaristas.

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Faz tempo não arrisco palpites sobre a situação política do país. Também pudera: não encontro ninguém que tenha certeza do que pode acontecer no dia seguinte. A impressão que se tem é que a Operação Lava-Jato destampou um bueiro do qual estão saindo coisas cada vez piores.

Os próprios procuradores do Ministério Público Federal e o juiz Moro, que tinham como meta inicial não deixar pedra sobre pedra do PT, há muito já perderam o controle das coisas. Há denúncias no âmbito da Procuradoria Geral da República, outras que devem ser analisadas e julgadas pelo STF, além de operações com ramificações no Rio, Brasília e em outras capitais, com o dedo gordo da Polícia Federal. Aliás, PF que também tem suas alas e interesses.

Ou seja, o bueiro destampado em Curitiba abriu o caminho para inúmeras operações e investigações, que alcançaram todos os grandes partidos políticos, ministros e ex-ministros, deputados, governadores e senadores, Temer, Lula e Aécio, grandes grupos empresariais, como a JBF e a Odebrecht, além dos senhores ministros do STF.

O golpe parlamentar-empresarial de 2016 produziu resultados pífios, para não dizer desastrosos, no campo da economia. A receita de aprofundar a recessão e ampliar os cortes de investimentos públicos, iniciada no final do governo Dilma, gerou desemprego gigantesco, queda na produção, redução da arrecadação de impostos e redução do consumo das famílias. Tudo resultado da “Ponte para o Futuro”, programa redigido pela FIESP, com o apoio da banca, que prometia a retomada do crescimento a partir da retirada de Dilma do Planalto.

A impressão que se tem é que se instaurou um verdadeiro pomba-rolou, um bangue-bangue entre grupos de interesses que antes se acomodavam nos palácios, palanques e ministérios. A partir de denúncias, com base no benefício da “delação premiada”, ninguém está a salvo de ver seu nome e seus interesses atirados ao fogo, em meio ao tiroteio em que se transformou a política nacional.

Nesse clima de vale-tudo, as Organizações Globo e os estrategistas do sistema procuram preservar as tais reformas milagrosas, que salvariam o país de todos os males: trabalhista (já aprovada), previdenciária (prejudicada pela falta de acordo) e política (deturpada pelos interesses dos próprios parlamentares). Ocorre que mesmo para aprovar essas medidas seria necessário um mínimo de unidade e tranquilidade política, coisa que hoje parece impossível.

Assim, sem lideranças políticas sólidas e respeitáveis e com resultados econômicos sofríveis, as classes dominantes não conseguem tocar o barco a um porto sólido, tendo Temer como timoneiro. Por sua vez, a grande massa da população assiste ao noticiário político como se acompanhasse a uma novela de terror, cheia de fortes emoções. A impressão que se tem é que a sabedoria popular vai sendo confirmada a cada capítulo, cada mala de dinheiro, cada gravação, cada delação, cada votação.

Também sem líderes confiáveis e sem organização, a grande massa do povo brasileiro se atém à tarefa de tentar sobreviver, em meio ao desemprego e as contas para pagar. Isso até que uma fagulha atinja esse verdadeiro palheiro seco em que se transformou o Brasil, prestes a arder em grandes labaredas.

Da última vez que estive nestas duas cidades (Julho/2017) pude perceber como o poder de compra do brasileiro caiu ainda mais nos últimos anos, diante do custo de vida das duas capitais. A começar pelo fato de que nossa moeda segue desvalorizada: 1 Euro valia R$3,80 e 1 Libra em torno de R$4,20. Assim, se você é de classe média no Brasil, e ganhou uma passagem à Europa como eu, prepare-se para se conformar com a condição de pobre remediado por lá.

O salário mínimo na Inglaterra pode ser calculado a partir da hora trabalhada, que custa em torno de 7,5 libras. Quem trabalha 40 horas/semana recebe 1.200 libras ao final do mês. Na França o mínimo vale 1.430 euros. Pela conversão é possível ter uma noção da defasagem entre o mínimo no Brasil, na Inglaterra e na Franca.

O problema é que o custo de vida nestas duas capitais tem pesos distintos. Gasta-se muito com aluguel e transporte, sobretudo em Londres, onde boa parte do sistema é privatizado. Daí porque o brasileiro duro não pode escapar dos cartões de integração Oyster (Londres) e Navigô (Paris), para aliviar o peso do custo do transporte nas duas cidades. Sem eles você vai gastar muito mais para se locomover.

Para a estadia você precisa pesar alguns aspectos: qualquer hotel razoável próximo do centro não sai por menos de R$180,00/dia. A hospedagem inclui café da manhã? Apesar da distância do centro da cidade o transporte é rápido e o tempo de viagem compensa? Desta vez apelei e o resultado foi bom: 1) Easyhotel, em Londres (East Croydon), ao lado da estação de trem urbano. De trem gastava 15 minutos até a Estação Victoria, bem no Centro; 2) Ibis Porte de Pantin, em Paris, próximo da estação Hoche (linha 5 do metrô). Custo baixo (cerca de R$ 1.200,00 em Londres e R$ 1.100,00 em Paris por semana) e quartos limpos, sem qualquer luxo, mas com higiene.

No quesito alimentação o problema é o mesmo. Em Londres e Paris a saída é apelar na hora do almoço para a rede de comida rápida Prêt-a-Manger (apesar do nome em francês trata-se de uma cadeia britânica), que você encontra em qualquer ponto das duas capitais. São saladas misturadas com uma proteína (frango, peixe). Acrescente um suco ou um refrigerante da própria casa. Se você não for um glutão, com sete libras ou euros dá para se satisfazer. Muita fome? Apele aos fast food orientais, como o Misso, em Londres: um balde de macarrão, que da para dois, por cinco libras. Em Paris ainda existe a opção da rede francesa Paul, com sanduíches e doces. Também é bom e barato.

À noite o melhor é gastar uns trocados (até quatro euros ou libras) adquirindo sucos e sanduíches nos mercados, que baixam os preços conforme a hora avança. Outra boa possibilidade é comprar pratos congelados e esquentá-los no Hotel (no Ibis havia forno de micro-ondas disponível). Aproveite e compre também no mercado os ingredientes para o seu café da manhã seguinte: queijo, presunto, pão, leite ou suco de caixa. Com cinco libras ou euros você começa o dia bem. De quebra você pode encontrar chocolates Lindt a preços módicos (1,50 a 2,00 euros ou libras). Se gosta de bons vinhos pode compra-los a preços baixos (3 a 6 euros) nas prateleiras dos mercados, em Paris.

Passeios? Há algumas linhas de ônibus urbanos em Londres e Paris que circulam pelas regiões mais interessantes do centro das duas cidades. São espaçosos e confortáveis. Com o passe semanal de transporte você pode rodar e ter uma ideia do que há de mais legal nas duas capitais. 

Ambas são cortadas por rios, que também merecem ser visitados. Em Paris você pode tomar o batobus, uma espécie de ônibus que circula pelo Sena a um custo de 13 euros. Ele para em pontos estratégicos e com o passe diário é possível descer e voltar a toma-lo no mesmo dia.

Em Londres vale a pena visitar os grandes museus: Britânico, História Natural e o das Ciências, todos com entrada franca. Leve um lanche porque é tanta coisa para ver que vai dar fome. Em Paris vá ao Louvre (17 euros) e ao Museu da História Medieval (8 euros), que é menos badalado, mas tem um acervo belíssimo. Mas não arrisque comprar lembranças nas lojinhas dos museus.

Em vez de roda gigante da Coca-Cola, por que não visitar a Tower Bridge em Londres? Você tem uma bela vista do Tâmisa, se diverte, conhece a Torre de Londres (ao lado) e paga muito menos: 11 libras por pessoa. Em Londres existe também a opção dos parques, já que a cidade oferece muitas áreas publicas de lazer.

Em Paris vale uma visita à Montmartre e à Catedral da região. Dali você tem uma bela vista da cidade, e de quebra pode conhecer os trabalhos dos pintores e artesãos que expõem na praça. Outra boa pedida e a Catedral de Notre Dame e arredores, sem precisar entrar e pagar. A visita à Torre Eiffel sai por 11 euros, mas se você tiver disposição pode subir a pé por 7 euros. E não deixe de ir ao Mercado das Pulgas, onde você encontra de tudo um pouco.

Compras? Se estiver dentro de seus planos e você não for muito exigente, dá para trazer algumas coisas legais. Em Londres e Paris não deixe de ir à Primark, loja de departamento de origem irlandesa. Como em todo o mundo os produtos são chineses, indianos e de todos os países onde a mão de obra é baratíssima. Já os preços são bem camaradas.

Na capital britânica visite as lojas da Sportdirect, que vendem material esportivo. Com 30 a 50 libras você pode arrematar um bom tênis, que custaria muito mais aqui. Em Paris é possível comprar sapatos por 16 euros e tênis em lojas de rua (comprei um por 30 euros), além de bolsas e malas de viagem mais em conta. Lá também você encontra a Tati (espécie de Lojas Americanas), com ofertas variadas e preços baixos.

Nesta época do ano (Verão) as liquidações estão por toda parte, inclusive nas lojas mais badaladas. Se garimpar você consegue alguns produtos por preços bem em conta.

Bem, acho que dei um panorama geral. Aproveite as dicas e vá na fé.

Vamos?

20/08/2017

Recebi de um amigo simpatizante do PT o texto de Zé Dirceu, intitulado “Lula-2018 não resolve tudo! Dialogar com os jovens!”, publicado em 15/8/2017. Confesso que fiquei surpreso com a leitura. Dirceu nem parece aquele sujeito arrogante, que anos atrás mandava e desmandava lá do Palácio do Planalto, como principal dirigente do PT e do governo Lula.

Pode ser que os anos de xilindró, devido ao Mensalão e à condenação pela Lava-Jato, tenham feito a velha raposa refletir sobre os caminhos que a esquerda brasileira terá que percorrer, principalmente depois do golpe de 2016. O texto levanta mais dúvidas e interrogações do que certezas, apesar de não ser um documento de autocrítica e de crítica aos graves equívocos dos 13 anos de governos petistas.

Talvez o afastamento do centro de comando do PT tenha feito bem a Dirceu, que sempre pensou e agiu como um estrategista. De certa forma, o texto de Dirceu deixa crer que o próprio advento do golpe de 2016 colocou a nu os objetivos das velhas oligarquias, dissipando qualquer ilusão de que seria possível insistir na tese de uma aliança estrategica com a burguesia para realizar transformacoes, ainda que parciais e pontuais.

Dirceu também chama a atenção para a resistência ao golpe e as limitações e fraquezas no campo popular e de esquerda no Brasil. A título de conclusão, Dirceu aponta que “devemos ter consciência que nossa vitória depende do crescimento de um amplo movimento de oposição pluralista, com total liberdade de iniciativas, mas com um centro e uma direção orgânica, para a luta e o combate, com um sentimento e um impulso de dialogar e debater…”

Ao final, Dirceu conclui que nossa maior vitória é que o golpe que conduziu Temer ao governo durou pouco tempo e que “mais de 95% da população exige eleições diretas e o fim das contra reformas”. Ao mesmo tempo, alerta: “Mas atenção: não significa apoio a nós ou às nossas propostas”, referindo-se claramente ao PT e a todos os setores e organizações que o cercam.

Muitos dos questionamentos que Dirceu apresenta são válidos e necessários. Pessoalmente não creio que as estruturas do PT, do sindicalismo cutista e da UNE sejam capazes de absorver, de braços abertos, o diálogo proposto. Não que estejam impossibilitados de participar destes debates, mas não podem impulsioná-lo, assim como os partidos da esquerda tradicional e as correntes políticas que se apresentam como revolucionárias. Sua forma de agir e pensar os impede de serem flexíveis o suficiente para participar (sem centralizar seus militantes) do debate, ter paciência e devolver as ideias em formas e conteúdos democráticos.

Hoje quem apresenta essa possibilidade é a Frente Povo Sem Medo (FPSM). Surgida de um movimento social, o MTST, a FPSM deu o pontapé inicial para arregimentar o que resta da esquerda, dos setores progressistas, da intelectualidade independente, para tratar dos assuntos relevantes que a realidade impõe ao nosso povo. E esses temas devem ser tratados à luz do dia, nas praças, nas ruas, nas escolas, faculdades, pelas redes sociais, com as donas de casa, os trabalhadores, os desempregados, os sem-teto, os sem-terra e os estudantes.

Essa é a proposta da série de debates que se inicia com o lançamento da plataforma “Vamos!”, idealizada pela Mídia Ninja e apresentada pela FPSM.

 

Um estudo do DIEESE*, com base em dados de 2014 do IBGE (PNAD), do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), traça um retrato da realidade do mercado de trabalho, da renda do trabalhador e, por conseguinte, dá elementos para a compreensão da fragilidade do mercado de consumo no Brasil.

Ele começa por demonstrar que a população com 14 anos ou mais, ou seja, em condições de trabalhar, somava a 162,8 milhões de brasileiros. No entanto, faziam parte da População Economicamente Ativa (PEA) 106,3 milhões de pessoas. Desses, 98,9 milhões estavam ocupados, dos quais apenas 48,1 milhões tinham carteira assinada e relações fixas de trabalho.

O estudo revela ainda que da parcela da população que estava ocupada em 2014, 38,5% não contribuíam para a Previdência Social. Já a movimentação dos empregos formais atingiu elevada rotatividade, com 27,8 milhões de admitidos e 26,5 desligados no ano de 2014.

Esse número se explica pelo fato de 21% dos empregados com carteira assinada permanecerem por até um ano no emprego; outros 16,5% dos empregados com carteira permanecem de um a dois anos no trabalho e 12,8% conseguem ficar no mesmo emprego entre dois e três anos.

Quando se trata do rendimento dos que possuem carteira assinada, o que se verifica é o retrato da exploração do trabalho no Brasil: somando as diferentes faixas salariais é possível concluir que 78,7% dos trabalhadores com relações formais de trabalho recebiam até 3 salários mínimos em 2014, sendo que a faixa de maior incidência era a de 1 a 2 SM, com 45,5% do total.

Ou seja, essa radiografia do mercado de trabalho de 2014, ano com taxa relativamente reduzida de desemprego (em torno de 7%), comprova que apesar da existência de uma rede de proteção, o trabalho e a renda no Brasil são partes de uma realidade social de pobreza. Isso para não falar da informalidade, que é uma chaga social.

 

Escravidão, semiescravidão e assalariados

O trabalho sob o regime do capital no Brasil não é, necessariamente, um prolongamento da sociedade escravocrata, que perdurou até 1888, quando foi formalmente decretado o fim da escravidão, com a Lei Áurea. Note-se que o Brasil foi o último país a abolir o regime escravocrata.

Na verdade, a imensa legião de escravos libertos se transformou em uma massa de deserdados, sem qualquer proteção social, perambulando de Norte a Sul do país. Os postos de trabalho menos qualificados, no campo e nas cidades, permaneceram reservados aos ex-escravos, em troca de um teto para dormir e um prato de comida. Esse contingente é precursor do trabalho semiescravo, informal ou dos ocupados sem carteira assinada, notadamente no campo, na construção civil e no trabalho doméstico.

A mão-de-obra fabril passou a ser importada de países da Europa, notadamente portugueses, espanhois e italianos. O Brasil só adotou uma legislação que reconhecia os direitos dos trabalhadores a partir de 1943, com a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) pelo governo Getúlio Vargas.

Tanto o patronato quanto os seus representantes em sucessivos governos sempre trataram o trabalho com o mesmo olhar do antigo fazendeiro. Nas fábricas era e é comum a existência de “capatazes” para controlar os trabalhadores. Os salários ainda são encarados como um favor (com a folha de pagamento representando em torno de 10% a 15% dos gastos), e os direitos e benefícios até hoje são considerados como uma parte elevada do chamado “custo Brasil”. É importante lembrar que a carga de impostos dos produtos é sempre repassada ao consumidor final, prática vergonhosa abertamente admitida pelas empresas.

 

Como isso se reflete no consumo?

Um estudo sobre o mercado de consumo no Brasil, realizado pelo Grupo Elo**, revelou que em 2014 as chamadas classes A e B, com renda familiar acima de R$4.808,00, alcançou 31 milhões de brasileiros. Já a classe C, com renda familiar de R$1.115,00 a R$ 4.808,00, englobava 113 milhões de brasileiros. As classes D e E, de zero a R$ 1.115,00 de renda familiar mensal, totalizavam 56 milhões de brasileiros naquele mesmo ano. Note-se que se trata de um ano de pico da economia, ainda refletindo os números de 2013.

Ora, a chave que impulsionou a economia brasileira e incorporou milhões de pessoas ao consumo de massas e ao trabalho naquele período foi a adoção do crédito popular. É evidente que apenas com a renda do trabalho, seria impossível ampliar a base do mercado interno.

No entanto, mesmo com resultados imediatos importantes e os prognósticos otimistas de então, o crédito popular logo trouxe o endividamento em massa e a retração do consumo. Em 2016, o endividamento das famílias chegou a 58,2%, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Num mercado refém dos juros altos o vilão do consumidor é o cartão de crédito, com taxas elevadíssimas de juros praticadas (486,8% ao ano em janeiro/2017).

Portanto, há dois fatores que explicam o atrofiamento do mercado interno no Brasil: 1) O arrocho salarial, que limita o acesso da grande massa de trabalhadores aos bens de consumo para a sobrevivência imediata; 2) Os juros elevados, que impedem ou dificultam que parte da classe trabalhadora possa comprometer parcela de sua renda no consumo de bens duráveis. Esses dois fatores são estruturais para o empresariado (de viés exportador) e do mercado financeiro no Brasil, que retiram parte de suas estrondosas taxas de lucros dessas práticas parasitárias.

  

*Anuário do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda (2015)

** Mercado e consumo no Brasil – Elo Gestão de Negócios

Chegamos à metade do ano de 2017, com um ano de governo Temer e a confusão política continua. Difícil encontrar uma saída para os descaminhos do país, conduzido aos trancos e barrancos por uma organização criminosa que se aboletou no Planalto.

Os empresários da FIESP e os líderes de grandes grupos empresariais, todos beneficiados por dinheiro público e envolvidos em escândalos, tratam de procurar salvar suas peles, na base da delação premiada. Por enquanto só estão implicados os donos das grandes empreiteiras e da J&F, mas pelo andar da carruagem vai sobrar para muita gente. Banqueiros e industriais ainda estão calados.

O PMDB segue mais sujo que pau de galinheiro e alguns ratos ou raposas mais espertas já pulam do navio de Temer, como Renan Calheiros. O barco das reformas da Previdência e trabalhista está fazendo água, em meio a uma crise econômica e política que não dá sinais de ceder.

É bem verdade que o PMDB nunca se fez de rogado quando o assunto é eleição. Mesmo que não tenha candidato em 2018 certamente estará no próximo governo, seja do PT, do PSDB ou da PQP. Enquanto houver uma porta de ministério aberta, um orçamento gordo para gastar e alguns cargos para ocupar em direções de empresas estatais o PMDB estará no governo.

Já os tucanos se meteram num grande enrosco. Seu Presidente e ex-candidato foi flagrado em conversas pouco republicanas e agora corre para qualquer canto em busca de socorro e troca de apoio. Mas parece sem força até mesmo no PSDB, dividido entre caciques que não têm muitos índios por trás. Na falta de coisa melhor, pode ser até que o partido embarque numa candidatura do aventureiro João Dólar, com o apoio do governador de São Paulo.

Na extrema direita cresce o nome de outro outsider da política, o ex-oficial das Forças Armadas, Jair Bolsonaro. No entanto, apesar de toda a encenação como porta-voz dos saudosos da ditadura militar, Bolsonaro não tem cintura e cabeça para enfrentar um debate político de maior fôlego. Seu forte é gritaria e bravatas. Assim cativa seu eleitorado e mantém sua vaga e as de seus filhos no Legislativo.

Já o PT se prepara para mais uma candidatura Lula. Parece que não existe mesmo Plano B, no máximo um governo com mais programas sociais. Líder em todas as pesquisas, Luis Inácio já inicia conversas de bastidores para montar a nova “base aliada” de um possível governo a partir de 2018. E nessas conversas a mesma arenga: “é preciso ter maioria no Congresso para governar”.

Será? O que os últimos anos têm demonstrado é que é preciso ter as ruas para governar.

A crise é tão profunda que atinge todos os poderes. O Legislativo e o Executivo já estavam na vitrine, mas o Judiciário também entrou na dança do esculacho popular. Gilmar Mendes encabeça a lista dos mais desacreditados do país e continua fazendo das suas. Quer por que quer arrumar um jeito de inocentar a quadrilha, batendo de frente com o Procurador-Geral e o relator da Lava Jato no STF. As investidas desta dupla retiraram os holofotes da República de Curitiba, o que causa ciúmes e ameaça a parcialidade com que o juiz Moro vem conduzindo as investigações.

Aos que pedem uma intervenção militar parece que essa “solução” não é bem recebida pelas próprias Forças Armadas. O fiasco da ditadura de 1964/1985 deixou os militares mais preocupados com a caserna. Os civis que montaram este circo que resolvam quem vai segurar a lona de pé. O próprio general Villas Boas, comandante do Exército, andou dando declarações contra o uso de tropas no patrulhamento urbano, para desespero dos facistóides de plantão.

Nem mesmo a grande Vênus Platinada dos Marinho parece enxergar uma saída que tenha crédito. Os próprios comentaristas da Rede Globo, que defendem a saída de Temer e a eleição indireta de um boi-de-piranha que toque as reformas trabalhista e previdenciária, foram surpreendidos com a adesão de FHC à convocação de eleições diretas, já. O ex-presidente quer salvar seu partido (que não sai de cima do muro) e tirá-lo da inércia, “antes que um aventureiro lance mão”.

Por outro lado, cresce entre as lideranças mais lúcidas da esquerda e de movimentos populares a necessidade de uma alternativa programática que atenda às aspirações da população do campo e da cidade. Algumas iniciativas e conversas preliminares aparecem no noticiário. Nada contra, muito ao contrário.

É evidente que qualquer que seja o programa socialista para o próximo período precisa do crivo da participação popular. E esse debate tem que ganhar as ruas, as praças, as escolas, o chão das fábricas. Fora disso será apenas mais uma declaração de intenções.

Do ponto de vista das forças populares o mais importante é manter a mobilização nas ruas e nas redes sociais, criando uma espécie de vigilância permanente sobre os atores políticos e suas movimentações. Essa brasa tem que ser mantida sempre acesa, pronta a se transformar em chamas sempre que preciso. É na luta de classes que as crises são decididas. E não dá mais para ignorar a vontade popular.

Toda vez que acontece um quebra-quebra, agências bancárias depredadas e outras escaramuças que descambam em formas violentas de protesto, volta à tona o debate sobre a infiltração de provocadores, visando à criminalização das manifestações e dos movimentos populares. Isso esteve muito em voga a partir de 2013, com o emprego da chamada tática black bloc nas manifestações de rua, por parte de grupos de jovens.

Alguns atribuem o uso das táticas bloc a anarquistas, outros a autonomistas. Temo que este debate esteja se sofisticando ou tomando tempo demais, quando o foco de nossas atenções deveria estar voltado para coisas bem mais importantes. Mas, já que o assunto voltou à pauta, vamos a ele.

Como até hoje ninguém conseguiu oferecer um estudo mais profundo a respeito ou sequer uma reportagem confiável que mostre esses grupos por dentro, pretendo apenas dar alguns pitacos.

1 – Infiltrados – Depois que recebi cópia de documento de um órgão de segurança em que constava meu nome e de um companheiro, com o relato de uma reunião ocorrida em São Paulo, durante os anos 90, no qual havia detalhes de tudo que fora discutido, cheguei à conclusão óbvia que o aparelho de repressão continua intacto, anos depois do final da ditadura militar. Portanto, certamente até hoje há infiltrados e provocadores em todas as organizações de esquerda e movimentos populares;

2 – Provocadores – Certamente há uma divisão de tarefas entre os agentes da repressão: alguns compilam dados e outros agem nas atividades de rua, os chamados provocadores. Eles existem para estimular o conflito violento com a polícia e a depredação generalizada. Assim, é possível construir e “provar” o discurso de que a luta popular é, por si só, violenta;

3 – Violentos – Se observarmos as lutas populares em todo o Planeta veremos que elas possuem características semelhantes. As manifestações de rua, por princípio, são sempre pacíficas e reivindicam algo concreto ou expressam um sentimento de repúdio a algo ou alguém (políticos, governos, etc). No entanto, as classes dominantes usam da violência institucional – autorizada ou não – para forjar o confronto e criminalizar as lutas e os movimentos insurgentes. São inúmeros os exemplos de experiências de luta em que há grupos que enfrentam a polícia: na Coréia usam escudos, capacetes e até porretes; na França são constantes os confrontos de rua nas recentes lutas contra as reformas neoliberais. Mas esses mesmos recursos muitas vezes são usados pela direita, como na Venezuela, muito mais violentos;

4 – Baderneiros – Outra característica do discurso midiático empresarial é taxar os que lutam de “baderneiros” e de baderna todos os protestos que denunciam os interesses do sistema. Assim, ao classificar a todos os manifestantes de “baderneiros”, a mídia pretende desqualificar as manifestações e as reivindicações populares;

5 – Vândalos – O mais recente adjetivo usado para classificar quem protesta é “vândalo”. Ao pé da letra “vândalo” é um povo de origem germânica, que por isso mesmo foi tratado de “bárbaro” pelo Império Romano, que então dominava a Europa e grande parte da África e Oriente Médio. No imaginário popular o “vandalismo” é confundido com atitude dos que danificam, deliberadamente, bens públicos ou privados ou, de forma mais objetiva, selvageria. Mas quem eram os “bárbaros”? Nada mais do que povos que foram massacrados durante séculos pelos civilizados romanos e decidiram se levantar para defender seu direito a existir livremente, enfrentando o Império.

6 – Depredação de patrimônio – Quando se trata de agências bancárias, ônibus urbanos e lojas de departamentos é bom lembrar que tudo isso está coberto por seguro. Portanto, os “prejuízos” são cobertos e a vida continua. Há coisas que fogem ao controle, como o quebra-quebra de prédios públicos, o que, de fato, constitui prejuízo para a sociedade. No entanto, os prejuízos alegados nestes casos são ínfimos, comparado ao prejuízo perpetrado por agentes públicos e corruptores, que assaltam cotidianamente o erário público.

A violência policial contra manifestações tem a ver com a velha forma das elites brasileiras em tratar os movimentos reivindicatórios como “caso de polícia”. Enquanto as classes dominantes encararem protestos de rua como “baderna” o tratamento que darão será o mesmo: porrada e bomba.

No caso do Brasil é preciso observar que a polícia militarizada é usada em larga escala nas incursões que redundam em feridos e mortos nas favelas e periferias. Só recentemente setores da classe média que participam de protestos estão sentindo na pele aquilo que já é regra para o povão.

Particularmente nunca fui dado a me apaixonar por táticas de luta que incluam qualquer tipo de violência. Encaro uma passeata como momento de protesto político. Não me preocupo com táticas de rotas de fuga, uso de pedras, paus, escudos, etc. Mas não condeno os que se enfrentam com a repressão, quando são atacados por de policiais em manifestações públicas.

As táticas black bloc se assemelham, de certa forma, ao ludismo, movimento nascido entre as primeiras levas de operários que, sem conhecer formas de organização e luta mais evoluídas, voltavam-se contra os patrões procurando dar-lhes prejuízo pela via da obstrução ou quebra proposital das máquinas. Obviamente, essa forma de agir se mostrou insuficiente e logo foi superada pela organização sindical.

Os que se incomodam ou têm receio de serem confundidos com infiltrados, provocadores, violentos, vândalos ou baderneiros devem ficar em casa ou, no máximo, assistir a tudo pela TV do botequim. Também podem adotar o protesto virtual como saída, assim ninguém se machuca. Para o sistema, estamos todos rotulados, sejam as nossas intenções as mais pacíficas ou não.

É corrente na esquerda um discurso de que agora não é hora de criticar Lula, Dilma e o PT, porque seria o momento de combater o inimigo comum, o golpe e os golpistas. Tenho sido um feroz opositor do golpe que levou Temer à Presidência desde antes de sua confirmação e seguirei combatendo com todas as minhas forças. Não é possível ceder um milímetro aos que justificam a ruptura institucional, sob a alegação de que o Brasil estava um caos e Dilma não tinha mais força para governar.

Bastou um ano de governo golpista para comprovar que as tais “pedaladas” não passavam de uma desculpa fajuta, uma armação fiscal patética, uma ilegalidade forjada para interromper o mandato de Dilma Rousseff. Pior: todas as medidas adotadas pelo governo Temer vão no sentido de restringir os poucos avanços sociais conquistados nos governos petistas e, o pior, retroceder em relação a conquistas históricas dos trabalhadores e do povo, no campo dos deveres do Estado, do trabalho e da Previdência. São medidas que visam aprofundar o abismo social e econômico entre as classes dominantes e a maioria de nosso povo.

No entanto, o papel da intelectualidade não é se limitar ao óbvio. Ao contrário, cabe aos pensadores estimular novas idéias, buscar as raízes dos problemas, apontar possibilidades e usar a crítica como instrumento de superação dos problemas.

Lula, Dilma e o PT são corresponsáveis pelo desfecho político que levou Temer à Presidência. Não pelo que fizeram em treze anos de governos, mas justamente pelo que deixaram de fazer. O discurso corrente na esquerda é que não se podia fazer mais, porque não havia uma correlação de forças favorável às mudanças desejadas no Congresso Nacional. É um argumento forte, não fosse pelo fato de que não temos um regime parlamentarista.

Hoje os correligionários de Lula e Dilma denunciam o Congresso Nacional, o STF e a mídia golpista. Na verdade reclamam de três poderes (inclui-se a imprensa como um quarto poder informal), mas o que foi feito nos treze anos de governos petistas para modificar ou, pelo menos, melhorar a qualidade desses poderes?

O que foi e o que não foi feito em treze anos

Ao contrário de firmar um programa mínimo de mudanças e exigir um compromisso com este programa da chamada “base aliada”, o PT preferiu centrar fogo nas vitórias eleitorais, embalado pelas peças publicitárias de marqueteiros, aceitando ao seu lado gatos, ratos e sapatos. Em vez de restringir o toma lá dá cá de verbas e cargos públicos, o PT manteve a mesma política dos governos anteriores e ainda se lambuzou com gente da laia de Delcídio do Amaral e André Vargas.

Ao contrário de nomear juristas progressistas para o STF, o que fez o PT? Colocou lá uma série de figuras que se revelaram mais reacionárias dos que lá já estavam. Nenhum sequer com uma postura independente, capaz de agir em defesa da legalidade.

Ao contrário de abrir um debate sobre o papel da mídia com a sociedade e de apresentar um projeto de reforma dos meios de comunicação de Rádio e TV (que são concessões públicas), engavetou o projeto tímido de Franklin Martins e seguiu enchendo as burras das grandes cadeias de comunicação privadas com propaganda oficial, as mesmas que apoiaram o golpe e fazem campanha aberta pelas reformas neoliberais do governo Temer.

Sequer uma auditoria da dívida pública (interna e externa), como prevê a Constituição, foi realizada. Não houve nenhuma iniciativa dos governos petistas em levantar a origem da dívida e a necessidade de sua renegociação, o que hoje custa um preço altíssimo ao país, comprometendo mais de 40% do Orçamento da União anualmente.

Mais do que isso: não houve a tentativa de aplicar reformas populares, que abrissem nova perspectiva social e econômica para o povo e o país. O PT optou por fortalecer os velhos grupos monopolistas brasileiros, do agronegócio, dos bancos privados, das empreiteiras, das comunicações, das montadoras de automóveis, do comércio atacadista, oferecendo subsídios e depois isenções fiscais a esses grupos.

As razões do golpe que conduziram Temer à Presidência

O que derrubou Dilma não foram os programas sociais ou o preconceito de parte da classe média, ainda que isso tenha certa importância, mas o fato de que seria necessário um governo disposto a assegurar os interesses do capital financeiro, em plena crise internacional do capitalismo, com reformas draconianas em curto prazo.

Depois de se refestelar com altos ganhos durante os governos petistas, em tempos de vacas magras o capital rentista exigiu, com sua “Ponte para o Futuro”, o fim dos investimentos públicos e a implantação de reformas que retirem e restrinjam os direitos dos trabalhadores.

O PT de Dilma, não podia cumprir este programa, pelo menos na dose cavalar desejada pelo capital, apesar de ter cedido além da conta com a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda e de aplicar um programa de medidas que levaram o país rapidamente à recessão, com queda da arrecadação e desemprego. Não podia porque não daria as costas ao seu eleitorado, mas boa parte das atuais reformas já estava em estudos e nos projetos do próprio governo Dilma, só que em doses homeopáticas.

Outro caminho era possível

Mas afinal, havia outro caminho senão o que foi adotado pelo comando petista nestes treze anos? Não existem fórmulas prontas, receitas infalíveis, mas um princípio poderia ser usado desde o início do primeiro governo Lula: fortalecer o papel da organização popular. Como? Dando aos movimentos sociais papel de protagonista em todas as frentes: da luta pelo meio ambiente à definição de uma política de plantio; da luta pela moradia ao papel de projetar e fiscalizar obras na construção de habitações; da luta pela democratização da mídia ao desenvolvimento de uma TV/Rádio públicas, com verba e programação criativa e popular; da luta pela fiscalização das concessionárias de serviços públicos, com transparência e prestação de contas; da democratização das empresas e órgãos públicos, com a eleição direta de seus dirigentes e transparência em sua gestão. Nada disso implica num programa socialista ou numa política idealista dentro de uma sociedade capitalista, mas num sistema de gestão que funcionaria a partir da participação popular, que levaria nosso povo a ter papel preponderante nas decisões de governo.

“Ah! Mas a burguesia não permitiria isso…”, podem retrucar. Talvez. Provavelmente outra forma de governar, mesmo sem significar um programa socialista, jogasse as forças reacionárias ferozmente contra o governo. Mas não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos, não se pode fazer política tentando ignorar os interesses opostos das classes sociais.

Seguirei aqui e em todos os espaços ao meu alcance combatendo o golpe que conduziu Temer à Presidência. Cumprirei meu dever de denunciar a farsa de processos viciados, que visam a penalizar Lula e Dilma por crimes que não cometeram. Mas me dou ao direito e me sinto no dever, desde já, de criticar o PT e seus líderes pelas opções que fizeram. E a opção que fizeram foi governar dentro dos estritos limites dos governos da burguesia, com suas instituições e métodos. O resultado está aí: poucos avanços que sequer arranharam as desigualdades.

A tão falada lista de Fachin, revelada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, tornou pública a existência de cerca de cem nomes de políticos de grande relevância no cenário nacional que estariam envolvidos em esquemas de financiamento de campanha e outros, de acordo com denúncias de executivos da empreiteira Norberto Odebrecht.

As gravações das delações de Marcelo e Emílio Odebrecht, além de outros dirigentes da empresa, mostram exatamente a promiscuidade das relações entre o poder econômico e o mundo político no Brasil. Como jogadores experientes, os dirigentes da Odebrecht cercavam por todos os lados para emplacar sua aposta na cabeça.

Não surpreende que ex-presidentes, ministros, senadores, deputados, governadores e prefeitos de partidos de direita se alimentem dessas relações, que desnudam o verdadeiro caráter de classe dos seus governos e mandatos: seus avós e pais estiveram e eles e seus filhos estão na vida política a serviço da conservação de um sistema que massacra os mais pobres e amplia os lucros dos mais ricos.

Mas é inaceitável que políticos historicamente ligados à esquerda estejam entre os acusados, seja em troca de pequenos favores seja por receberem dinheiro para financiamento de suas campanhas eleitorais. Não se trata de um problema moral, apesar deste elemento estar presente, mas de um compromisso de classe. Para se conquistar a frágil democracia que temos no Brasil algumas centenas de dirigentes e militantes de esquerda deram suas próprias vidas e alguns milhares foram presos e torturados.

Um dos motivos alegados pelos golpistas de 1964 para justificar a intervenção militar foi o combate à corrupção. Da lista dos que tiveram seus direitos políticos cassados figuravam, entre os primeiros, comunistas como Luís Carlos Prestes e Gregório Bezerra, trabalhistas como João Goulart e Leonel Brizola, e lideranças populares, como Francisco Julião. Todos tiveram suas vidas vasculhadas de cabo a rabo e nada foi encontrado que pudesse incriminá-los.

Gente de esquerda não aceita e nem procura financiamento de grandes empresas, simplesmente porque seu dever é lutar contra a ordem estabelecida, que dá a essas mesmas grandes empresas a liberdade de explorar seus trabalhadores, de atropelar o meio-ambiente, de realizar negócios em prejuízo do povo trabalhador, de sacrificar os interesses do país. Este é um princípio lógico, derivado de um compromisso de classe.

O PT não é o único partido no campo da esquerda que sofreu com este tipo de escândalo nos últimos tempos. A mesma coisa aconteceu com partidos social democratas da Europa, cujos dirigentes deram as costas para os trabalhadores e assumiram programas de reformas neoliberais. Depois foi possível apurar que alguns deles tinham relações mais do que amistosas com empresas e bancos.

No entanto, ainda resta ao Partido dos Trabalhadores uma saída honrosa, que poderia diferenciá-lo das demais gangues partidárias da direita. No momento em que todos os denunciados negam veementemente as acusações, caberia ao Diretório Nacional do PT aprovar uma resolução exigindo de todos que tiveram seus nomes citados nas delações de empreiteiras peçam licença dos respectivos cargos e mandatos que ocupam e que seus nomes sejam vetados de figurar entre os candidatos do partido nas próximas eleições, até que tudo seja esclarecido.

Diante deste gesto, mínimo a se esperar de um partido que diz ter compromissos com o povo brasileiro, seria possível pensar numa reorganização da esquerda brasileira. Até porque, direta ou indiretamente, as consequências de tudo isso respingam sobre toda a esquerda, dentro e fora do PT, em sua esmagadora maioria formada de gente que hipoteca sua vida à transformação da sociedade.

Faz tempo que apesar de depositar meu voto na urna em candidatos majoritários do PT (muito mais por falta de alternativas), tenho alertado para as posições conciliadoras desse partido e, sobretudo, de suas lideranças nacionais. Não faço isso para defender qualquer outra legenda, porque não estou ligado a nenhuma delas.

A ruptura institucional que levou Temer e caterva ao comando do Planalto serviu para deixar claras as intenções das classes dominantes e seus porta-vozes. Não há projeto de país, não há propósito de oferecer uma alternativa sólida para as futuras gerações, integrar os que estão à margem ou reduzir a distância entre os mais ricos e os mais pobres.

Ao contrário, a cada dia que passa o governo jeca de “mercado”, fruto de uma aliança do grande capital com as oligarquias regionais/baixo clero, empurra a sociedade brasileira para o abismo. Isso não parece novidade para ninguém e até os analistas mais conservadores já perceberam o desastre que este governo representa.

O que salta aos olhos dos mais atentos é a postura da cúpula do Partido dos Trabalhadores. Diante do escândalo da Petrobras, da corrupção deslavada das grandes empreiteiras e das práticas hediondas dos grandes frigoríficos, como responde o grupo dirigente deste partido?

Na tentativa de justificar a política que implantou nos 13 anos de seus governos, a direção do PT (com Lula na cabeça) sai em defesa dos “campeões nacionais” e dos “players internacionais”, representados por esses grupos econômicos.

O que se pode concluir da política que o PT faz hoje, para combater o governo Temer? No momento em que o partido teria que apresentar uma crítica e uma autocrítica de sua conduta, pelo menos para retomar o leme da luta popular, se presta ao papel de defensor do que há de mais nefasto do grande capital.

Isso tem consequências sérias na luta política. É sabido que Lula se prepara para concorrer à Presidência em 2018, o que é legítimo. O que se pergunta é: que política o PT e Lula pretendem para um próximo governo? A mesma dos governos anteriores? Seremos obrigados a ouvir a desculpa de que “não se governa sem alianças”, quando o problema não são as alianças, mas quais alianças, em torno do que e com quem? Vamos ver mais uma vez ministérios e empresas estatais dirigidas por velhas raposas, por indicação de corruptos?

Ora, em vez de Reforma Agrária vamos voltar a distribuir cestas básicas nos acampamentos de sem-terra e prestigiar o Agronegócio? Em vez de casas populares em regime de mutirão, com apoio material e técnico do governo, vamos retomar a construção de blocos de apartamentos do “Minha Casa Minha Vida” nas periferias, para agradar as grandes empreiteiras? Em vez de transparência na gestão da Petrobras, com a participação ativa dos petroleiros, vamos manter os cargos em confiança, indicados pelos partidos da “base aliada”? Em vez de debater um programa e metas a partir das organizações populares vamos centrar a luta política na figura de um candidato?

Não sejamos ingênuos. O Partido dos Trabalhadores nunca se propôs a ser um partido de ruptura com a ordem estabelecida, a não ser pequenos grupos em seu interior sem qualquer expressão popular.

Hoje, após 13 anos de governos, é possível afirmar que se trata de um partido social-democrata, portanto, uma agremiação política disposta apenas a pequenas reformas dentro do capitalismo, um partido de centro.

Não escrevo isso para ofender ou desmerecer quem quer que seja. A política não se faz pela cor das bandeiras, por discursos, pelos gritos de guerra ou palavras de ordem, mas pela prática, pelas medidas que se toma, pelas propostas que se apresenta e pelas alianças que se faz.

Portanto, cabe aos setores organizados, à juventude, os intelectuais e lideranças populares de esquerda se preparar para o embate político de 2018. Não que isso seja a prioridade do momento, até porque a esquerda socialista terá que trabalhar nas ruas e nas lutas contra o governo Temer, em aliança com o PT. Mas isso significa, desde já, levantar propostas concretas, dentro do possível num processo eleitoral.

Uma delas é exigir, seja qual for o candidato e o governo que saia das urnas de 2018, o compromisso de anular as medidas promovidas pelo governo Temer. Outra é retomar o debate das propostas populares para os grandes problemas nacionais: Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma Tributária, Reforma do Ensino, Reforma das Telecomunicações.