Mais uma vez a juventude brasileira assume papel de destaque no cenário político nacional. Basta acompanhar as ondas de protestos urbanos no Brasil, desde a campanha pelo fim da escravatura, para entender a importância dos jovens na luta política brasileira. Felizmente, com uma posição sempre progressista, contra o atraso e ao lado da maioria do povo.

A campanha contra o nazi-fascismo teve na juventude estudantil brasileira sua força motriz, assim como a luta pela redemocratização, no pós-guerra. O mesmo aconteceu na campanha do “Petróleo é nosso”, que redundou no monopólio estatal de exploração de petróleo e na criação da Petrobras. O combate contra a ditadura militar também contou com a juventude estudantil sua vanguarda, da mesma forma que as lutas pelas “Diretas, Já!” e o “Fora Collor”.

Ao cortar verbas para as Instituições Federais de Educação, o governo Bolsonaro mexeu justamente com o segmento mais combativo e independente da juventude brasileira. Isso denota a completa incapacidade deste governo para qualquer coisa, a partir da ausência de um núcleo de pensamento estratégico que o oriente.

As manifestações multitudinárias de 15 de maio ainda não são a derrocada do governo Bolsonaro. Mas foram um xeque ao rei no xadrez da política nacional. Por que? Há alguns elementos que indicam um acelerado desgaste deste governo e sua incapacidade de governar. São eles:

. Não há programa de governo – O tempo da campanha eleitoral ficou para trás e não há muito espaço para seguir “culpando o PT” pela situação do país. Nem mesmo as fake News sustentam isso. Cresce o desemprego, a economia está paralisada e o governo só tem como bandeira a reforma da Previdência, que enfrenta muita desconfiança e resistência por parte da opinião pública. Agora, decide cortar recursos públicos em áreas sociais.

. Incapacidade para formar maioria no Congresso Nacional – Está evidente que os parlamentares eleitos no rastro do fenômeno Bolsonaro não são profissionais da política e não têm capacidade de articular a defesa do governo e de seus objetivos (?) no Congresso. A melhor demonstração disso foi a aprovação, por mais de 300 votos, da convocação do ministro da Educação para dar explicações na Câmara dos Deputados.

. Incapacidade de diálogo com a mídia – As declarações desastradas e o direcionamento de verbas, priorizando aparições no SBT, Record e Band, abriram um conflito com a maior cadeia de comunicação do país, que ainda procura poupar Bolsonaro em função da sua bandeira de reforma da Previdência. Não fosse isso, já estaria completamente frito.

. O desgaste é acelerado e vai para as ruas – As manifestações gigantescas de 15 de maio, em cerca de 200 cidades do país, demonstram que o governo está perdendo a opinião pública e as ruas. Os bolsominions sumiram das redes sociais e nem os robôs da internet conseguem alimentar com argumentos sólidos a defesa deste governo. Boa parte do eleitorado de Bolsonaro se recolheu, está sem coragem de defende-lo publicamente.

. Isolamento internacional – Até mesmo nos EUA, seu ideal de sociedade, Bolsonaro é desprezado. Nem mesmo políticos conservadores desejam associar sua imagem ao tipo tosco do Presidente do Brasil. A política externa é desastrosa, conduzida por um anticomunismo grotesco, que só traz prejuízos à imagem e aos negócios do país.

Restará ao governo eleito no final de 2018 duas alternativas:

1 – Se articular com o MDB, o PSDB e os partidos do Centrão para refazer o ministério e os postos-chave em Brasília, visando construir maioria no Congresso e aprovar as reformas que interessam à burguesia. O problema é que isso enfrentaria resistência e desgaste na própria base que elegeu Bolsonaro, sob a promessa de varrer a “velha política”.

2 – Aceitar sua incapacidade e renunciar, abrindo caminho para um governo preponderantemente dirigido por militares, com o general Mourão à frente, disposto a cumprir o programa de reformas que interessa às classes dominantes, com apoio da mídia empresarial.

Seja como for, parece que a tese de um projeto fascista ou neofascista, que parte da esquerda comprou e tentou associar a Bolsonaro, não condiz com a absoluta incapacidade deste governo de apresentar um projeto e de se sustentar.

O maior desafio da esquerda brasileira é recompor sua força popular em novas bases. Está evidente que as tradicionais representações estudantis e sindicais, verticalizadas e aparelhadas por correntes e partidos, não têm legitimidade para canalizar o descontentamento popular. Muito menos os partidos políticos de esquerda, hoje muito mais agarrados à luta institucional e seus mandatos parlamentares do que à organização popular de base.

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A Previdência Social é uma expressão que delimita o sistema de pagamento de aposentadorias e pensões aos trabalhadores que concluem sua vida laboral, por tempo de serviço, tempo de contribuição ou invalidez. Até 1988 este sistema era financiado pelas contribuições regulares de trabalhadores (descontados em seus contracheques), patrões e/ou governos.

A Constituição de 1988 estabeleceu a Seguridade Social (Título VIII, Capítulo II, Artº 194 e 195), que engloba Previdência, Saúde Pública e Assistência Social. Este sistema é solidário, ou seja, uma geração de trabalhadores sustenta a outra com suas contribuições, sucessivamente. Suas fontes de financiamento vão além das contribuições de trabalhadores, patrões e/ou governos, contando com Contribuição Sobre Lucro Líquido (CSLL), Cofins e parcela da arrecadação das loterias.

Essa informação é vital para entender que não há rombo na Previdência. O que há é que os sucessivos governos deixam de contribuir com sua parte e ainda utilizam o artifício da Desvinculação das Receitas da União (DRU), que retira entre 20% a 30% de toda a arrecadação anual da União para uso indiscriminado.

A sobra de recursos da Seguridade Social foi de R$72,7 bilhões em 2005; R$ 53,9 bilhões em 2010; R$ 76,1 bilhões em 2011; R$ 82,8 bilhões em 2012; R$ 76,4 bilhões em 2013; R$ 55,7 bilhões em 2014, e R$11,7 bilhões em 2015 (dados da Associação Nacional dos Fiscais da Previdência). E isso tem a ver com o crescimento da economia, que gera produção, empregos, consumo e incide diretamente sobre a arrecadação da Seguridade Social.

 

O Brasil vai quebrar?

O argumento dos defensores da PEC 06/2019 (Nova Previdência) é que se não for feita a reforma, o país vai quebrar e não haverá novos investimentos e empregos no país.

Ora, as reservas em dólar do governo brasileiro estão em cerca de US$393 bilhões (maio/2019). A dívida pública em relação ao PIB% (hoje em torno de 80%), apesar de absurda, chega a 3% ao ano, se financiada em 30 anos, enquanto em países como os EUA ela vai a 360% do PIB, ou 7,5% ao ano.

Ou seja, não há nenhuma relação direta entre a reforma da Previdência e uma recuperação econômica do Brasil. Isso tudo se inscreve na chantagem das classes dominantes, que elegeram as reformas ultraliberais como forma de abocanhar o que restou do Estado brasileiro.

 

Acabar com privilégios?

A grande massa dos beneficiários do Regime Geral da Previdência Social no Brasil é de trabalhadores que recebem entre 1 e 2 salários mínimos/mês. Portanto, não há privilégios a cortar na Seguridade Social brasileira. Mesmo entre os servidores públicos – que possuem um regime próprio de Previdência e são acusados de “privilegiados” – menos de 10% dos beneficiados pertencem a uma elite da sociedade, formada por uma minoria de servidores com altos salários nos poderes Judiciário, no Ministério Público e no Legislativo.

“No ano de 2017, a Previdência Social concedeu aproximadamente 5,0 milhões de benefícios, dos quais 89,06% eram previdenciários, 6,52% assistenciais e 4,42% acidentários. Os benefícios concedidos à clientela urbana atingiram 82,16% e os concedidos à clientela rural somaram 17,84% do total. As espécies mais concedidas foram o auxílio-doença previdenciário, a aposentadoria por idade e o salário-maternidade, com, respectivamente, 39,8%, 14,39% e 12,63% do total. O valor total dos benefícios concedidos em 2017 atingiu R$ 6,8 bilhões.

“Em 2017, 99,01% dos benefícios concedidos à clientela rural apresentavam valor de até um piso previdenciário, enquanto que os benefícios da clientela urbana dessa faixa corresponderam a 43,86% do total. O valor médio dos benefícios apresentou um crescimento de 4,94%, passando de R$ 1.305,42 em 2016 para R$ 1.369,91 em 2017. O valor médio dos benefícios urbanos foi 55,87% maior que o dos benefícios rurais, respectivamente, R$ 1.463,48 e R$ 938,94” (Dados do Portal da Previdência Social, ano 2017 – Ministério da Economia).

 

O que propõe o senhor Guedes?

A proposta do governo Bolsonaro, apresentada pelo senhor Paulo Guedes, acaba com o atual sistema de Previdência (solidária e pública), para criar uma Previdência privada. Em resumo ela impõe:

. Fim da Seguridade Social e criação de um sistema de Capitalização individual;

. Aumento do tempo mínimo necessário de contribuição para o trabalhador se aposentar para 40 anos;

. Aumento da idade mínima de 55 para 60 anos (mulher) e 60 para 65 anos (homem);

. Redução do valor do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que atende a 1,3 milhão de beneficiários, dos atuais R$900,00 para R$400,00. O BPC tem o valor de um salário mínimo e é pago mensalmente a idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência que possuem renda familiar de até R$ 238;

. Contribuição exclusiva do trabalhador (sem participação de patrão e/ou governos) para uma conta poupança individual em banco, sem que se estabeleça com antecedência quanto ele terá direito a receber quando se aposentar;

. Redução dos valores das pensões, de acordo com o número de dependentes.

. Os servidores públicos terão que aumentar sua contribuição (atualmente em 11%) de seus vencimentos brutos. A previsão é que o percentual pule, inicialmente, para 14%, podendo crescer ainda mais.

 

Dinheiro para Saúde e Educação?

O senhor Guedes insiste que o governo economizará cerca de R$1 trilhão em dez anos, mas não apresenta dados concretos que justifiquem isso. Recentemente, em audiência pública na Câmara dos Deputados, Guedes informou que esse tal R$ 1 trilhão não será um recurso a ser investido em outras áreas, como Saúde e Educação, como se propagava até então.

 

Vale a pena aplicar em previdência privada?

“Desde o começo de 2017, o total de dinheiro investido nesse tipo de aplicação no país aumentou 18%, chegando a R$ 757,5 bilhões em maio de 2018, segundo os dados mais recentes da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

“Um levantamento com base nos dados de mercado feito pela Monetus, startup de gestão de investimentos digital, estima que 70% dos fundos de previdência privada renderam nos últimos 12 meses menos do que o CDI ou que a Selic, duas taxas de referência que andam juntas e que, em um ano até junho, acumularam alta na faixa de 7,3%.

“A grande maioria dos fundos de previdência privada é pós-fixada, o que significa que o rendimento varia mês a mês e não é possível saber, de antemão, quanto ele vai aumentar no futuro. Todas as operadoras cobram uma taxa de administração anual, geralmente de 1,5% a 4% ao ano sobre o valor total aplicado e uma taxa de carregamento que pode ser cobrada na entrada ou na saída”.

E se a seguradora quebrar? “A previdência privada não tem o amparo do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), um fundo formado pelos bancos que restitui até R$ 250 mil aos investidores caso a instituição onde está seu investimento quebre. O FGC é válido para aplicações como poupança, CDB e letras de crédito” (Matéria de Juliana Elias – Portal UOL – 2/8/2018).

Ou seja, além de não ter segurança você só sabe com quanto vai contribuir, mas não tem condição de saber quanto vai receber e nem por quanto tempo vai receber a aposentadoria.

 

O que está por trás da proposta de privatização da Previdência?

A Seguridade Social representa 24% dos gastos da União por ano, só perdendo para o que o governo gasta para pagar juros e amortização da dívida pública. Enquanto cresce de forma abusiva e ilegal (através da cobrança de juros sobre juros – anatocismo) a parcela do orçamento federal destinada a cobrir gastos com a dívida pública, cujos títulos estão nas mãos de grandes bancos/financeiras, diminui a cada ano o investimento do governo federal nas áreas sociais.

O que está em disputa, portanto, é o Orçamento ou as prioridades de investimentos. Vamos seguir alimentando a juros extorsivos o sistema financeiro ou vamos aplicar os impostos pagos pela população na Saúde, Educação, Transportes de massa, saneamento básico, cultura, segurança, lazer, etc?

O sistema de Seguridade Social, tal como é hoje, beneficia diretamente a cerca de 30 milhões de pessoas e indiretamente a muito mais brasileiros, sobretudo aos mais pobres e em cidades pequenas, cuja economia e arrecadação dependem diretamente das aposentadorias e pensões dos idosos que sustentam suas famílias.

Ou seja, trata-se de uma escolha: ou vamos assegurar uma velhice minimamente digna para os trabalhadores ou vamos entregar suas contribuições para um grupo seleto de banqueiros e financistas ganhar rios de dinheiro.

A entrevista de Lula revela que o velho líder popular é hoje muito mais um cacique político do que um lutador das causas populares. E mais: subestima as lições que a História do Brasil cansou de dar ao longo de cinco séculos. Temos uma elite tão tacanha e mesquinha que um conciliador de classes é visto como um perigoso “comunista” a ser isolado e afastado, assim como fizeram com João Goulart.

Não se pode cobrar de Lula – que nunca afirmou ser de esquerda – uma posição política que não teve, não tem e não terá. Mas é possível cobrar, sim, um mínimo de coerência na análise dos fatos. Depois do golpe de 2016, quando a derrubada de Dilma serviu de pretexto para os que queriam as mesmas reformas que exigem hoje, ficou mais uma vez evidente que o sistema econômico implantado no Brasil – altamente oligopolizado – não dá margem para negociar sequer migalhas para o povo brasileiro.

Nada contra conversar, ouvir ou chamar as diferentes posições existentes na sociedade ao debate, mas a política está subordinada a interesses de classes. As medidas a serem adotadas em todos os campos da política e da economia terão consequências, tanto para a minoria rica e empresarial quanto para a grande maioria pobre e trabalhadora.

Nada pessoal contra Lula, que de resto continua a ser um cara generoso e bonachão, mas um alerta aos que ainda insistem em ver nele alguém que pode abrir caminho para uma mudança no curso da História no Brasil.

A campanha “Lula livre” toma como pressuposto a necessidade de reviver os “bons tempos” dos governos de Lula. É bom lembrar que nenhum interesse das classes dominantes no Brasil foi contrariado nos governos petistas, muito ao contrário, ainda que tenha havido avanços na incorporação de grande contingente do povo ao mercado de consumo.

Hoje, vítimas de sua própria política, Lula e a cúpula do PT se recusam a reconhecer os limites das opções que fizeram. Não se discute o dever de qualquer brasileiro sincero em repudiar a prisão e os processos contra Lula. Defender a liberdade de Lula é papel de todos que tenham um pingo de lucidez política e amor à democracia.

No entanto, independente das concordâncias ou divergências que se possa ter com o que Lula afirmou durante as duas horas de entrevista, o que fica evidente é que:

. Não há autocrítica política a fazer, porque fazer autocrítica significa questionar a política de conciliação de classes, materializada pelas alianças com o PMDB e o Centrão;

. Não há outro caminho a seguir, que não seja o de conciliar os interesses de classes antagônicas, de crescimento econômico com distribuição de renda, ou seja, a sociedade de mercado;

. O avanço da organização popular e da consciência de classes não faz parte das preocupações da cúpula do partido, o que se encaixa perfeitamente na crítica do líder da esquerda uruguaia, Pepe Mujica, que reconhece que essa política forma apenas consumidores e não cidadãos com capacidade crítica;

. O PT continua firme e forte, apesar dos dirigentes que passaram a agir como lobistas de grandes empresas privadas e alguns estarem envolvidos com esquemas de obtenção ilegal de recursos, seja para o partido ou para benefício pessoal;

. Lula pede autocrítica das elites e expressa confiança no Judiciário, revelando a mais pura incapacidade de compreensão de que a sociedade capitalista é marcada por classes com interesses opostos, e que as classes dominantes têm no Estado burguês uma ferramenta fundamental para manter sua dominação.

Isso só reforça a necessidade de se construir um novo projeto popular e socialista para o Brasil, livre do dogmatismo das tradicionais correntes da esquerda e do velho reformismo do PT. Um projeto que privilegie os interesses de nosso povo em todas as áreas, com profunda vocação democrática e de construção horizontal.

Este novo projeto só poderá emergir da luta contra os governos das classes dominantes e de suas políticas se for construído nas lutas e na resistência nas periferias e favelas, nas ruas, nas praças, nas escolas, nas repartições, no campo, nas fábricas e empresas.

Tive a pachorra de assistir a quase duas horas da entrevista que Lula concedeu a Monica Bérgamo e Florestan Fernandes Filho, em 26 de abril*. O ex-presidente continua eloquente e falador, mas há algo de novo no discurso de Lula: o personalismo dos velhos caciques políticos.

Por diversas vezes Lula falou na primeira pessoa para se referir a feitos e passagens dos dois governos que presidiu. E quando teve que criticar empurrou as responsabilidades para o PT, Dilma e outros companheiros de jornada. Autocrítica zero.

Em que pese ter rebatido com firmeza uma série de questões, como o possível envolvimento direto com corrupção e as acusações de seu ex-companheiro e ministro, Antonio Palocci, Lula segue convicto de que o melhor a fazer para governar o país é conciliar interesses, chamar todo mundo para conversar e encontrar saídas.

Fica evidente para quem quiser acompanhar a íntegra da entrevista que as decisões de Lula são pessoais, acima do seu partido e do séquito que o acompanha e venera. Quando perguntado por que não saiu do país ou não pediu asilo político e permaneceu em uma embaixada estrangeira no Brasil, Lula respondeu: “Quero desmascarar Moro e Dalagnol, quero provar a farsa montada”.

Ou seja, mais importante que seguir fazendo política parece ser a sua “honra” pessoal.

Outras questões que confirmam seu personalismo podem ser extraídas de diversas passagens da entrevista, como: “Quem recuperou a autoestima do país e do povo brasileiro?”. Ou ainda: “Estou mais preocupado com o que está acontecendo com o povo brasileiro. Porque eu posso brigar, o povo nem sempre pode”.

Questionado sobre o processo eleitoral e a cassação de sua pré-candidatura à Presidência, Lula respondeu que todos os advogados garantiam que ele poderia disputar a eleição de 2019. E ainda arrematou: “Eu tinha certeza que ia ganhar as eleições de dentro da cadeia”. Isso só confirma que o PT e Lula subestimaram os objetivos de sua prisão.

Ao ser perguntado sobre o resultado das urnas, Lula foi enfático: “O PT provou que é o único partido político no Brasil”. Sobre corrupção, limitou-se a dizer que “pode ter havido, mas é preciso que se apresente provas”.

Sobre o papel das Forças Armadas no governo Bolsonaro, Lula adotou o tom de crítica aos comandantes das três forças: “Qual é a razão do ódio que eles têm do PT? Quero perguntar aos chefes das Forças Armadas se teve governo que fez mais por eles do que eu fiz”.

Será que alguém contou à Lula o papel das FFAA na História do Brasil? Talvez seja por isso que, ao contrário de seus colegas da Argentina, do Uruguai e Chile, Lula nada fez para punir os mandantes e torturadores da ditadura militar.

Num raro momento em que falhou, Lula admitiu que errou ao não regulamentar os meios de comunicação, depois de uma conferência em 2010 que discutiu o tema. Assim mesmo dividiu a responsabilidade com sua sucessora. “Deixei para a Dilma”, afirmou.

Mas o que marca a opção política de Lula como um político conciliador de classes, é a sua avaliação sobre a eleição de Bolsonaro. De acordo com o ex-Presidente, a elite brasileira deveria fazer autocrítica. Para Lula essa elite devia pensar: “A gente ganhou tanto dinheiro no governo Lula e o povo pobre vivia tão bem”.

As principais definições de como pensa e age o ex-presidente ficaram por conta de suas frases. Ao se referir aos seus governos, Lula disse: “Ninguém mais vai ter neste país a dupla de sindicalista e empresário na Presidência (referindo-se ao seu vice, o empresário José de Alencar)”. Quanto à Dilma Rousseff, Lula afirmou: “Nem todo filho repete o sucesso do pai”.

(*) Acompanhe a íntegra da entrevista pelo link https://www.youtube.com/watch?v=zCzco42kRAg

Um dos cursos mais disputados no ENEM é o de Economia. Parece óbvio que a procura por uma vaga na universidade tem a ver com o prestígio que a profissão alcançou no Brasil. Economistas tornaram-se espécies de semideuses, sem os quais nenhum empresário ou investidor dá um passo em seus negócios. Na mídia empresarial são esses consultores do Olimpo que dizem o que deve e o que não deve ser feito para agradar ao “mercado” e o país “sair da crise”.

Não pretendo polemizar com os profissionais que vivem disso, em sua maioria cúmplices deste sistema, mas levar um alerta aos que ainda estão nos bancos das universidades ou pensando em seguir a carreira.

Assim, levanto alguns questionamentos:

1)      Para que serve a Economia?

A Economia, assim como qualquer outra área do conhecimento, deve servir para proporcionar bem-estar e melhor qualidade de vida à humanidade. Todo o estudo deve estar voltado para oferecer sugestões e soluções que levem a melhorar as relações sociais, visando à felicidade de todos os seres humanos.

 

2)      A quem deve servir a Economia?

Este dilema também está colocado na Economia, assim como nas demais áreas do conhecimento, numa sociedade de classes. Estuda-se Economia para satisfazer a uma meia-dúzia de especuladores, financistas, banqueiros e investidores, que constituem 0,0001 da população (o chamado “mercado”), ou ao conjunto da humanidade?

 

3)      Qual é o “mantra” do sistema financeiro?

Mesmo que restrita aos moldes da sociedade de classes – portando, numa sociedade capitalista – a Economia pode assumir diferentes caminhos. No Brasil o que temos é uma teoria vomitada na mídia, em forma de um pacote repetitivo desde os anos 90 do século passado: temos que agradar ao “mercado”. Para isso, reforça-se todos os dias o chamado “tripé macroeconômico”: meta de inflação, câmbio flutuante, meta fiscal. Além disso, a receita neoliberal inclui a privatização de empresas estatais. Será que só existe esta saída?

 

4)      De que economia estamos tratando (breve raio-x da economia brasileira)?

Em todos os ramos (bancos, construção civil, metalurgia, calçados, produção agrícola/agronegócio, mineradoras, distribuição de energia, telefonia, transportes de carga e passageiros, supermercados, comércio atacadista e varejista, etc) a economia brasileira está loteada por poucos e grandes grupos privados. Isso é resultado de um modelo concentrador, adotado durante a ditadura militar, que cria as condições ideais para os grandes capitalistas lotearem a sociedade, impondo preços elevados, combinados entre eles, e pressionando o Estado a lhes proporcionar condições absurdas para seus negócios.

 

5)      Aos bancos tudo?

Este sistema, aplicado pelos sucessivos governos brasileiros desde 1999, deveria proporcionar uma melhoria significativa nas engrenagens que movimentam a economia do país, de acordo com os “especialistas”. No entanto, continuamos reféns das taxas de juros impostas pelos bancos, seja para a pessoa física seja para movimentar toda a economia brasileira. Isso sem falar das taxas bancárias, outro maná sem qualquer controle ou fiscalização estatal.

 

6)      E a produção?

Ora, com juros elevados os empréstimos voltados para a produção – que gera mercadorias, empregos, salários e consumo – estão comprometidos. Ou seja, o modelo econômico aplicado no Brasil sacrifica o desenvolvimento industrial e valoriza a especulação financeira. De acordo com o IBGE, a produção industrial brasileira de 2018 chegou a menos de 10% do PIB, na mesma proporção dos anos 40 do século passado.

 

7)      Como funciona e a quem beneficia o sistema da dívida pública?

Além de arrecadar rios de dinheiro com as operações financeiras regulares, o sistema financeiro brasileiro (concentrado em 5 bancos) consome, todos os anos, cerca de 40% do Orçamento da União, a partir da remuneração dos títulos da dívida pública. Estes recursos são usados somente para pagar juros e amortizações, através de um mecanismo ilegal e condenado mundialmente, qual seja, a aplicação de juros sobre juros (juros compostos). No ano de 2018 os quatro maiores bancos de capital aberto no Brasil – Itaú, Bradesco, Santander e BB – somaram R$ 73 bilhões (12,3% a mais que em 2017), apesar de uma inflação de 3,75%.

 

8)      Que “reformas” e para quem?

Em princípio ninguém pode ser contra reformas ou mudanças. Tudo depende do ponto de vista e dos objetivos. Se eu vivo numa quitinete e vou para um sala e 2 quartos a mudança é positiva. Mas e o contrário? As reformas de base, propostas por João Goulart na década de 60, tinham por objetivo melhorar as condições de vida da população e ampliar o mercado interno de consumo. Já as reformas exigidas pelas elites no Brasil de hoje visam agradar a uma minoria, usando a chantagem de que, caso não sejam realizadas, os “investidores” não vão querer aplicar no país.

 

9)      Quais foram os efeitos da reforma trabalhista?

Depois que o governo Temer aprovou a reforma trabalhista – sob pressão do grande empresariado – o mercado de trabalho brasileiro sofreu enorme alteração. De acordo com o IBGE, 8 de cada 10 postos de trabalho preenchidos de lá para cá são sem carteira assinada, portando, sem direitos básicos de proteção ao trabalhador. E nem assim o desemprego caiu. Ao contrário, cresce o número de desalentados (desistem de procurar trabalho). Agora, querem por que querem a reforma da Previdência.

 

10)   E a reforma da Previdência?

A Previdência Social é parte de um sistema integrado, consagrado na Constituição de 1988, a Seguridade Social, formado pelos recursos arrecadados pelo INSS, PIS/Cofins e loterias. Ele devolve aos brasileiros as contribuições ao INSS, sob a forma de aposentadorias/pensões, além do atendimento público de saúde e os benefícios de assistência social. É um sistema solidário, no qual as gerações de hoje pagam pelas aposentadorias dos mais velhos, e assim sucessivamente.

A Seguridade Social tem a segunda maior destinação do Orçamento do país (cerca de 20%), por isso é tão cobiçada. A proposta do governo é criar um sistema de capitalização, uma espécie de caderneta de poupança, sem a contribuição patronal, o que beneficiará somente aos bancos. Além disso, o trabalhador terá que trabalhar mais tempo e receberá aposentadorias e pensões menores.

 

11)   Há outra saída?

Mesmo na sociedade capitalista – na qual tudo é mercadoria – é possível um modelo econômico mais digno para todos. Ao pensar um projeto de Nação (formada basicamente por povo, território e língua), os governantes podem adotar medidas que limitem a especulação e contenham o abismo que separa ricos de pobres. Estudos do economista francês Thomas Pikety (O Capital no século XXI – (1) demonstram que é possível conter a sanha da especulação, com medidas como a taxação da movimentação financeira e das grandes fortunas.

Basta uma breve visita a países considerados mais avançados do Ocidente para concluir que o Brasil está aprisionado por um modelo econômico concentrador e especulador. A melhor forma de entender isso é observar o cotidiano daquelas sociedades. Ao contrário do que se propaga por aqui, o Estado (seus agentes) está presente no dia a dia, há regras claras, competição e concorrência que dificultam preços abusivos e especulação.

Mas em países da dimensão do Brasil, com população (cerca de 200 milhões de habitantes) e território (8,5 milhões de km2) grande, a intervenção do Estado é necessária e determinante para o crescimento, não apenas em áreas sociais, mas também na economia. Todos os projetos de desenvolvimento do país tiveram e têm a mão do Estado: siderurgia (CSN, Usiminas, etc), mineração (Vale do Rio Doce), comunicações (Embratel), produção de energia elétrica (Eletrobras), pesquisa em tecnologia (universidades públicas), mapeamento e prospecção de petróleo (Petrobras), telefonia, portos e aeroportos, estradas, saneamento, transporte de massas, etc.

 

12)   Como funciona a economia no Brasil real?

Como não pode esperar nada dos governantes e do grande empresariado, a grande massa da população brasileira se vira como pode. Em 2010 os benefícios pagos pelo INSS respondiam por pelo menos 25% do PIB de 457 municípios. Para 228 cidades, representavam mais que 30% da economia local. De um total de 5.570 municípios, em 4.216 (74,08%) a receita com benefícios previdenciários era superior aos repasses do fundo em 2015. Em 2014, 4.026 municípios (72,28% do total) viviam essa realidade (2).

As comunidades de favelas e periferias das grandes cidades são servidas pelo pequeno e microcomércio locais, que vendem mercadorias desprezadas pelas grandes cadeias varejistas, muitas vezes a fiado e em pequenas quantidades.

São a pequena e a microempresa nas cidades e as pequenas propriedades no campo que geram grande parte dos empregos e, portanto, salários e consumo. De acordo com o Sebrae (3), elas são responsáveis por cerca de 25% do PIB. Cerca de 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros são plantados e colhidos pelos agricultores familiares.

No Comércio respondem por 53,4% do PIB deste setor. No PIB da Indústria, a participação das micro e pequenas (22,5%) já se aproxima das médias empresas (24,5%). E no setor de Serviços, mais de um terço da produção nacional (36,3%) têm origem nos pequenos negócios.

Juntas, elas são decisivas para a economia. Os pequenos negócios também empregam 50% da mão de obra formal no País e respondem por 40% da massa salarial brasileira.

É essa economia real, totalmente marginalizada pelos governos, que sustenta o cotidiano do país e do nosso povo.

 

13) Que tal inverter a lógica de estudar Economia?

Não tenho a pretensão de dar lições ou receitas, até porque não creio em mágicas. Justamente por isso, sugiro aos professores e estudantes brasileiros de Economia que dediquem mais tempo a estudar a realidade do povo brasileiro e, a partir dela e de suas demandas reais, apresentar novas análises e teses econômicas, capazes de dar conta das lacunas que o “mercado” não preenche.

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(1) Thomas Piketty inscreveu suas observações no campo dos salários, da renda e da riqueza: ele deseja erradicar as desigualdades extremas oferecendo – para pastichar o lema da funesta Primavera de Praga – um “capitalismo de rosto humano”. Já Marx se coloca no campo da mercadoria, do trabalho e da alienação: ele pretende abolir essas relações e transformar a sociedade.

https://diplomatique.org.br/thomas-piketty-e-a-aposta-em-um-capitalismo-humanizado/

(2)https://www.valor.com.br/brasil/4832362/beneficios-pagos-pelo-inss-representam-mais-de-25-do-pib-em-500-municipios

(3)http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ufs/mt/noticias/micro-e-pequenas-empresas-geram-27-do-pib-do-brasil,ad0fc70646467410VgnVCM2000003c74010aRCRD

 

Alguns analistas insistem em definir como “fascista” ou “neofascista” o projeto alavancado por Jair Bolsonaro, que o conduziu à Presidência da República do Brasil em 2019. Tenho alertado que essa definição “eurocêntrica” não serve para entender o fenômeno Bolsonaro e pode levar a esquerda e as oposições a adotar políticas equivocadas para combate-lo.

O que é o fascismo? É a radicalização do projeto dos grandes grupos econômicos capitalistas, quando já não conseguem mais manter a ordem burguesa, diante do descontentamento popular ou da ausência de credibilidade dos partidos de “centro”. Ou seja, o capitalismo e os capitalistas não têm qualquer problema em lançar mão de regimes autoritários, desde que estes preservem o que lhes interessa: manter e ampliar as margens de lucros do grande capital.

O fascismo clássico, que se implantou na Europa nos anos 30, tem algumas características básicas: 1) É um regime fechado, composto de corpos especiais de repressão (do Estado e fora dele); 2) Todas as experiências fascistas tiveram como fio condutor teoria e práticas emanadas de partidos políticos organizados; 3) Todas as experiências fascistas tinham no Estado um instrumento de implantação de uma política de colaboração entre as classes; 4) Todas as experiências fascistas redundaram em guerras expansionistas, seja a guerra generalizada na Europa ou nas colônias, visando a disputa de mercados e alimentar a indústria bélica.

Já o neofascismo ou fascismo do pós-guerra na Europa perde a característica de regime estatal. Ao contrário, o neofascismo abraça com facilidade o discurso neoliberal. Ainda assim, o neofascismo necessita de partidos sólidos para alicerçar suas políticas, dar sustentação teórica e base para suas lideranças emergentes. O aspecto beligerante e militar perde a força, apesar do discurso anti-imigração ser o carro-chefe dessa política.

Já alertei que o problema do fascismo ou do neofascismo na América Latina é que não encontram eco em suas teorias racistas e segregacionistas, base da atual política anti-imigração em toda a Europa. O país que mais próximo esteve de um projeto fascista na América Latina foi justamente a Argentina, que chegou a ter praticamente a metade de sua população formada de imigrantes.

Se não é fascista ou neofascista, o que é o projeto Bolsonaro?

Por incrível que pareça, o projeto político que sustenta Jair Bolsonaro e seu governo é mais insano que o fascismo clássico ou o neofascismo. Vejamos:

. O governo não tem um programa, pelo menos não anunciado. A base econômica está na privatização de estatais e esvaziamento dos serviços públicos, além de reformas ultra neoliberais;

. No plano político há uma forte componente militar, com oficiais e ex-oficiais das Forças Armadas no governo. No entanto, isso nada tem a ver com o velho projeto de desenvolvimento nacional experimentado na ditadura militar, muito menos com o antigo setor militar nacionalista, dizimado durante a ditadura;

. Bolsonaro não tem um partido sólido, com um programa definido, práticas consolidadas e lideranças regionais de peso. Trata-se de um amontoado de fanfarrões de toda espécie, sem nenhuma capacidade de apresentar e construir política. É o que explica a falta de quadros do PSL para a disputa da Câmara e do Senado. Ou será que alguém acredita em Olavo de Carvalho como o “guru” dessa turma?

. O que dá base de apoio de massa ao projeto Bolsonaro é o discurso contra a violência urbana, que pretende ser combatido com mais violência estatal e paraestatal, como atesta o projeto de Sérgio Moro. Seguindo o exemplo do Rio, a ideia é estimular grupos paraestatais de autodefesa, as chamadas “milícias”, valendo-se da prática do terror coletivo e do extermínio de todos que as ameacem;

. Outro aspecto importante de sustentacao do governo Bolsonaro e’ o apoio de seitas neopentecostais, que ja’ congregam em torno de 20% da população, com grande influencia entre os mais pobres e ramificação nos bairros de periferia e favelas. Mas este namoro pode se manter enquanto os interesses do governo não se chocarem com a base social dessas seitas.

. Portanto, estamos muito mais próximos de um projeto semelhante ao que se viu durante décadas na Colômbia – justificável graças ao combate às guerrilhas de esquerda – e até recentemente no México, com o domínio do território disputado por bandos armados de paramilitares e narcotraficantes. Aquilo está longe de poder ser definido como fascismo ou neofascismo.

Esses grupos armados têm interesses próprios, de pequena monta: transporte alternativo; gás de cozinha; internet, drogas e TV a cabo. Recentemente começaram a entrar no ramo da construção civil, mas nas áreas pobres que dominam. São atividades que fogem ao controle do grande capital, que não tem interesse e não concentra suas atividades nisso.

Portanto, trata-se de uma aliança tácita entre o capital monopolista (mercado), que apoia qualquer projeto disposto a assegurar seus interesses, grupos paramilitares e seitas neopentecostais, cuja meta é consolidar e ampliar seus negócios e seu poder. Algo muito mais complexo, que deve exigir atenção redobrada dos movimentos populares e da esquerda brasileira.

Todo o discurso ultrarreacionário que pretende dar base de sustentação a Bolsonaro e seus seguidores, é apenas expressão dos preconceitos que herdamos do colonialismo e sempre esteve latente em parte da sociedade brasileira.

A falta de unidade dos diversos setores que compõem o governo Bolsonaro/Mourão é o grande adversário inicial para sua manutenção. Enquanto for fiador dos interesses do grande capital terá apoio das grandes corporações, sobretudo da mídia empresarial. Caso não consiga emplacar os projetos de interesse do “mercado”, poderá naufragar, como tantos outros na história do Brasil.

O combate ao governo Bolsonaro/Mourão terá que ser construído em diversas frentes, inclusive parlamentar, mas, sobretudo, com a reconstrução do movimento popular de base e forte resistência da juventude, tradicional segmento progressista que historicamente luta pela democracia e sempre defendeu o progresso no Brasil.

 

Ainda durante as eleições o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) já tinha em mãos os dados sobre a movimentação atípica de dinheiro por parlamentares e seus assessores na Assembleia Legislativa do Rio. Entre eles o esquema do gabinete de Flávio Bolsonaro com seu assessor, Fabrício Queiroz.

O método não é novo, sempre envolvendo o repasse de parte dos salários de funcionários para o próprio parlamentar, uma forma de retribuir o emprego. Para os envolvidos uma forma de arrecadar uma graninha, até porque boa parte deles sequer aparece para trabalhar. O que estranha é que houvesse repasses de mais de 90% de parte dos salários.

No entanto, o escândalo não veio à tona durante as eleições, o que prejudicaria o futuro políticos dos acusados. Acontece que no caso de Flávio Bolsonaro o esquema envolve outras atividades suspeitas, inclusive a de milícias.

A venda de um imóvel foi usada como álibi para a movimentação de R$96 mil, divididos em depósitos de R$2 mil pelo deputado, hoje senador. Flávio arrumou até um possível comprador, que teria repassado parte do valor em dinheiro vivo. Ocorre que a data dos depósitos dos envelopes nos caixas da Alerj não coincide com a data do registro de venda do imóvel no Cartório.

O pior é que uma investigação do Ministério Público (Operação Intocáveis) chegou ao grupo de milicianos Escritório do Crime, ligada a Ecko, que atua na Zona Oeste do Rio. Este grupo é acusado de inúmeros crimes na Região, como a exploração de transporte clandestino, compra e venda de imóveis de forma irregular, cobrança de taxas e execuções.

Dois ex-oficiais da PM detidos já haviam sido homenageados, através de moções de louvor na Alerj, pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Pior ainda: a mãe e a esposa de um dos ex-PM preso trabalharam até o final de 2018 no gabinete do deputado.

Flávio também apareceu em foto de campanha com outros dois milicianos. Vale lembrar que a quadrilha de Ecko é suspeita de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, em março de 2018.

Todo o esforço das Organizações Globo para jogar sujeira no ventilador dos Bolsonaro tem um propósito, o mesmo de sempre: chantagear o governo de plantão para que assegure os negócios e, principalmente, as verbas publicitárias oficiais para as empresas dos Marinho. Como Bolsonaro sinalizou que pretendia endurecer com a Globo, os Marinho reagiram à altura. Na verdade, a Globo procura um interlocutor que a satisfaça junto ao novo governo.

Que Queiroz é miliciano e laranja todo o país já sabe. Mas a proximidade do clã Bolsonaro com as milícias era apenas uma suspeição, que vai se confirmando com os novos fatos. Isso só atesta que o grupo político do Presidente da República pertence ao baixíssimo clero, sendo incapaz de propor e apresentar qualquer projeto ao país. Quanto isso vai durar?

O que esperar de um governo que é uma colcha de retalhos? É assim que se apresenta até aqui o projeto de governo que tem Jair Bolsonaro na cabeça. Formado por quatro grandes núcleos, nenhum deles com origem no núcleo tradicional das classes dominantes e sem gente com experiência comprovada na política e na condução da máquina pública, a tendência é que a aventura bolsonarista enfrente crises gestadas a partir da falta de projeto e de sua absoluta incapacidade de acomodar interesses.

O núcleo da família Bolsonaro e seus chegados (Onix, Moro, etc) a cada dia demonstra mais fragilidade, com anúncios do Presidente desmentidos por ministros e assessores. A cada dia o núcleo familiar do governo gera mais problemas, simplesmente pela conduta eivada de irregularidade de seus próprios membros. Vide o caso da lavagem de dinheiro do gabinete na ALERJ, a partir das atividades do senhor Queiroz.

O capitão entende tanto de economia e educação quanto sua mulher entende de umbanda e candomblé. Isso torna o tal “mito” cada vez mais uma figura folclórica, frágil diante da dura realidade de comandar um país de 206 milhões de habitantes, uma economia que está entre as dez maiores do mundo e um território de 8,5 milhões de km2, com inúmeros problemas e desigualdades.

Agora as frases de efeito não geram consequências, como na campanha eleitoral. Ao contrário, o que se fala vira pedra contra a vidraça do governo. Trata-se de encarar problemas concretos, como o desemprego, a crise da segurança, da educação, da saúde, etc. Há também a crise das dívidas dos estados, que já se alastrou e se tornou um problema para praticamente todos os governadores, o que vai exigir uma resposta por parte do governo federal.

Já o grupo de economistas do senhor Paulo Guedes (conhecido como o “Posto Ipiranga”) também carece de credibilidade de gestão do setor público, justamente porque são figuras que sempre transitaram no baixo clero do ”mercado”, ou seja, do setor privado. Sua grande meta é leiloar o que for possível de empresas estatais, tocar uma reforma previdenciária que ainda não tem linhas básicas anunciadas e entregar o comando da infraestrutura do país a grupos privados.

Isso tudo esbarra em problemas de grande monta: os possíveis recursos obtidos com as privatizações não resolvem o problema econômico a médio e longo prazos; ao destruir o setor público compromete-se uma das principais alavancas do setor privado no país, via financiamentos e infraestrutura; ainda não se sabe bem qual a dimensão da reforma da Previdência que se pretende, como viabiliza-la e como aprova-la no Congresso Nacional.

O grupo dos oficiais da reserva das FFAA está mais ligado propriamente a questões de infraestrutura, logística e segurança. Não tem qualquer ambição de um projeto nacionalista, como ocorrera tempos atrás. O próprio Bolsonaro não goza de grande credibilidade na cúpula das FFAA, em função da forma como foi afastado dos quadros do Exército.

Há ainda o grupo neopentecostal, cuja pretensão está exposta no documento lançado no final do ano passado, no qual se funde um projeto privatista de país na economia com ideias retrógradas no que diz respeito à educação, aos costumes e à moral. Sua pretensão é elaborar uma plataforma de governo que aponte para a possibilidade futura de um projeto de evangelização do Brasil, com a chegada de um presidente ao Planalto, que seja fruto deste projeto.

O problema de todos esses grupos é a falta de quadros experimentados e sérios para pensar um projeto estratégico e como viabiliza-lo a frente da máquina de governo. Um exemplo claro disso é que o partido do Presidente eleito não tem quadros sequer para apresentar na disputa da Presidência da Câmara e do Senado, o que prova a fragilidade política dessa gente.

Todo esse enrosco pode gerar uma situação de anúncios, desmentidos, crises e dificuldades internas que o governo Bolsonaro, que nasce de uma crítica ultraconservadora à política dos partidos tradicionais, poderá recorrer às velhas raposas do MDB, PSDB, PP e outros, caso a situação fuja do controle. Mas aí já não será propriamente o governo eleito. De “mito” Bolsonaro passará a mero estafeta das elites que sempre mandaram no país.

De nada adianta a postura de grilo falante, dos que pensam em repetir agora o conhecido “Eu avisei!”, como resposta a um provável desencanto com o candidato vencedor da eleição 2018. Pior ainda a postura dos que rotulam a todos de “fascistas”, o que rompe qualquer possibilidade de diálogo, sobretudo com os setores populares. A grande massa do eleitorado que votou em Bolsonaro o fez pela rejeição ao PT e por preconceitos, reforçados pela avalanche de notícias falsas difundidas pelo whatsapp.

Cabe à esquerda e ao centro-esquerda analisar seus equívocos e traçar novos planos para enfrentar o que se avizinha com o novo governo, a partir de janeiro. Esse esforço de crítica e autocrítica pode e deve ser feito publicamente e de coração aberto. Naturalmente caberá ao PT e seus aliados até aqui (PCdoB e PSB) – até porque foram governo por 13 anos – um processo mais amplo, que os obrigará a alterar o curso de suas políticas. Mas isso não exclui os demais partidos (maiores ou menores), como o PSOL, de suas responsabilidades.

Sobre o processo eleitoral deste ano, propriamente dito, há indícios muito claros dos equívocos cometidos pelo campo de centro-esquerda e esquerda:

  • Não seria uma eleição como outra qualquer, a partir de um golpe que apeou do poder a Presidente Dilma, no qual o Judiciário jogou um papel decisivo. Além do que, o principal líder popular e candidato natural com grande chance de vitória seria excluído do processo. E todo mundo sabia disso;
  • Todas as pesquisas indicavam, desde o início do ano, que Jair Bolsonaro era o segundo colocado (disparado), sempre na casa dos 15% a 20%, atrás apenas de Lula, que seria impedido de concorrer. Pela quantidade de candidatos qualquer candidato que alcançasse 20% estaria no segundo turno;
  • As pesquisas também evidenciavam o desgaste do PT, diferente da popularidade de Lula, o que faria do antipetismo um elemento decisivo na eleição;
  • Até o final de julho as mesmas pesquisas demonstravam também a fragilidade das demais candidaturas de “centro” e centro-direita, incluindo Alckmin e Marina.

Ou seja, estava evidente que o candidato da extrema-direita carrearia o descontentamento com a política e com o PT. Não por acaso, chegou a haver conversas de bastidores, que agora se confirmam, entre dirigentes do PT e Ciro Gomes, para que este assumisse o lugar de vice de Lula. O que não se sabe é se o PT bancaria a cabeça da chapa para Ciro, a se confirmar a impossibilidade de Lula se candidatar.

Era perfeitamente possível construir uma frente eleitoral de centro/centro-esquerda/esquerda, a partir de um processo de conversas e eventos de base, visando debater um programa mínimo comum e simples para o eleitorado.

A engenharia para a construção das candidaturas unitárias estaduais também poderia ser costurada, bastando para isso um pouco de bom-senso e a referência nos resultados eleitorais de cada partido nas últimas eleições. O PT certamente teria a maioria dos candidatos a governador, com destaque para SP e a Bahia; o PSB em Minas e Pernambuco; o PDT no RG do Sul; o Psol no Rio. Enfim, esse desenho poderia ser feito, respeitando as forças regionais dos partidos.

Infelizmente prevaleceram os cálculos eleitorais dos pré-candidatos e partidos. O PT com sua necessidade de se afirmar como partido hegemônico no campo da esquerda/centro-esquerda e os demais partidos preocupados com a sua sobrevivência, visando escapar da cláusula de barreira.

A posição defendida por Lula de esticar a corda até o fim, referendada pela maioria da direção do PT, prejudicou sensivelmente a candidatura Haddad. No primeiro turno o candidato do PT pegou o bonde andando, não participou dos primeiros debates e quando entrou na campanha gastou tempo para reverenciar Lula, tanto em sua propaganda quanto nas visitas às segundas-feiras ao cárcere da PF, em Curitiba.

O resultado do primeiro turno apontou com clareza o reflexo desses erros: 1) Bolsonaro se consolidou junto ao eleitorado mais conservador; 2) As demais candidaturas de centro e direita caíram e seus eleitores migraram para a extrema-direita; 3) A interlocução direta com os chefes das seitas neopentecostais foi o tiro de misericórdia para o resultado expressivo (46% dos votos válidos).

Do lado oposto a campanha começou a mudar de rumo quando o Movimento suprapartidário #Elenão cresceu nas redes sociais, foi atacado pelos bolsonaristas e assumiu o tom de denúncia em grandes manifestações de rua.

No segundo turno a campanha de Haddad foi obrigada a mudar de tom. Deixou de ser uma candidatura petista para se transformar em algo mais amplo, do conjunto dos que rejeitavam a extrema-direita. Nas últimas semanas de campanha amplos setores antibolsonaristas foram sensibilizados pelas ameaças do próprio candidato e seu filho, com ameaças diretas às oposições e até ao STF. Inúmeras foram as declarações de personalidades e diversas matizes ideológicas em favor de Haddad.

Mas já era tarde. O antipetismo e o conservadorismo de parcela da sociedade consagraram Bolsonaro nas urnas. Ainda assim a diferença de 11 milhões de votos (10% dos votos válidos) não foi acachapante. Isso demonstrou que só uma candidatura unitária, ampla, abraçada por diversos setores da sociedade, poderia triunfar, se apresentada no início da campanha, desde o primeiro turno.

Agora, caberá aos dirigentes políticos e dos movimentos populares uma avaliação generosa do que ocorreu e apontar caminhos: o das posições isoladas com acusações públicas uns aos outros ou a constituição de uma frente ampla, em defesa da democracia e dos direitos do povo. É o que pretendo analisar num próximo artigo.

Vamos em frente

29/10/2018

Acabaram-se as eleições. Renovam-se as esperanças para parte do povo que votou nos candidatos vencedores, tanto para Presidente quanto para governadores. Para outra parte, resta a esperança de reconstruir seus sonhos e superar a derrota.

Foi um processo pesado demais, que dividiu famílias e desfez amizades. Na verdade, muitos não se conheciam bem ou não conheciam mais a fundo seus parentes e amigos.

Por ter envolvido uma candidatura de extrema direita, a eleição deste ano trouxe à tona uma série de conceitos e frustrações que pareciam sepultados, mas apenas hibernavam. Tudo isso foi estimulado e potencializado por uma rede de comunicação direta, alimentada por imagens e mensagens no mínimo duvidosas. Mas, é preciso admitir, ninguém replicou o que recebeu sem estar predisposto a concordar com o seu conteúdo.

Isso prova que o fim da ditadura militar (1964/1985) deixou verdadeiras caixas-pretas que precisam ser abertas pela sociedade brasileira: o aparato repressivo das Forças Armadas, polícias militares e milícias; a mídia empresarial altamente concentrada e tendenciosa; e a exploração da fé, que tem tentáculos na política e no submundo da lavagem de dinheiro. Sem contar os desafios educacionais, é evidente.

De minha parte pretendo conviver da mesma forma com todas as pessoas que conheço e das quais gosto, independentemente de suas posições políticas e ideológicas. Espero que elas tenham essa mesma compreensão. Nossas diferenças de pensamento não vão acabar, certamente seguirão existindo. Mas já aprendi que se deve esperar das pessoas apenas o que cada uma delas tem condições de oferecer, nada mais. Além disso, todos podem mudar de opinião, inclusive eu.

É fundamental que os cabeças do novo governo e das oposições contenham os ânimos dos seus apoiadores desde já, para que o confronto de ideias não transborde para confrontos, agressões e até tragédias, como ocorreu logo após o anúncio do resultado.

O que espero do próximo governo? Nada. Por alguns motivos: 1) Não acredito na ignorância, em preconceitos e na força bruta como soluções para o que quer que seja; 2) Não acredito na mentira como método de persuasão das pessoas; 3) Não acredito em projetos elitistas num país de 210 milhões de habitantes, com tantos problemas básicos a resolver.

Uma nação tem dois pilares básicos de sustentação, além da sua língua (às vezes com dialetos e sotaques, como é a nossa): I – Território: quem anuncia privatização de empresas e pretende incentivar a concentração da terra (no campo e nas cidades) em poucas mãos está reforçando os interesses de poucos, em detrimento da maioria; II – Povo: somos um povo cuja maioria é formada de negros e mestiços, sobrevivendo em condições precárias desde o colonialismo e historicamente tratado com desdém pelas nossas elites.

As classes dominantes nunca tiveram um projeto nacional para o Brasil, que abarque o povo brasileiro, tampouco têm raízes sólidas em nossa terra. Sempre foram a reboque dos acontecimentos, buscando um atalho para preservar seus privilégios mesquinhos. Sempre sonharam em amealhar o máximo possível, no menor tempo possível, e gozar a vida em outras paragens. É assim até hoje e, pela cultura da rapina permanente a que se acostumaram, não será diferente agora.

Caberá ao nosso povo, a seu tempo e com sua sabedoria, construir um projeto de sociedade em bases justas, democráticas, plurais e igualitárias. Talvez tenhamos que enfrentar um inverno rigoroso, como já aconteceu antes, mas o sol sempre voltará a brilhar aqui nos trópicos.

Resta desejar ao novo Presidente e ao grupo que o cerca um governo exitoso, que traga frutos positivos para o país, ainda que eu não acredite nessa possibilidade. Com o tempo serão obrigados a deixar de lado a pauta negativa, cujo verbo que mais se ouve é “acabar” com isso e com aquilo, e a apresentar serviço.

É bom que se tenha em conta que a vitória não foi acachapante, conquistada com os votos de pouco mais de um terço do eleitorado. Ninguém está disposto a abrir mão de suas conquistas para preservar os lucros e ambições de uma minoria. Ou seja, haverá resistência e luta.

Seguirei na minha função de analisar os fatos e tentar decifrar as metas e objetivos dos diversos atores na sociedade. Pretendo continuar exigente, principalmente com aqueles que professam a necessidade de transformações, como eu. Em breve vou publicar algumas análises deste processo, visando contribuir para o debate.

A esquerda brasileira – na qual me incluo – precisa urgente iniciar um processo profundo de crítica e autocrítica, visando superar os erros já cometidos e traçar novos planos para agora e o futuro. A luta de classes seguirá seu curso e a vida não vai esperar.

Como diz aquele ditado (variante de um provérbio latino), “palavras bastam, exemplos arrastam”.