Enxugando gelo

31/03/2015

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados acaba de aprovar a constitucionalidade da redução da maioridade penal. Com isso, está aberto o caminho para que a proposta de reduzir de 18 para 16 anos a responsabilização criminal seja votada no Congresso Nacional. Ainda cabe o recurso da decisão da Comissão ao STF.

É preciso localizar o assunto, para tratá-lo com a devida seriedade. Afinal, em que sociedade vivemos (int) Como funciona o sistema penal no Brasil (int) Por que cada vez mais jovens estão sendo empurrados para os braços da criminalidade (int)

A histeria que toma conta da população leva a reações que propõem que a sociedade livre-se do problema. A paralisia dos governantes, por sua vez, só faz o problema crescer. No entanto, os dados oficiais apontam que menos de 5% dos crimes bárbaros são cometidos por menores, mas quando ocorrem ganham repercussão desproporcional na mídia empresarial.

Muitos acusam as quadrilhas de arregimentar menores para assumirem a responsabilidade de crimes mais graves (assassinato, etc), já que a pena máxima é de três anos de internação, com seis meses de reavaliação que podem levar à soltura. Ocorre que se a idade penal for reduzida para 16 anos a bandidagem vai recrutar garotos ainda mais jovens para assumir crimes.

O sistema penal brasileiro está falido faz tempo e não recupera ninguém. É tão vergonhoso que o Brasil é permanentemente exposto a condenações das instituições internacionais. Cerca de 80% dos apenados reincidem quando saem das penitenciárias. Isso sem falar dos horrores que enfrentam todos os dias, como a superlotação, violência do Estado e dos próprios internos, cadeias imundas, promiscuidade, doenças, etc.

Uma solução paliativa talvez fosse tornar mais duras as punições previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, quando se tratar de crimes graves. Mas o centro da questão é evitar que as novas gerações sejam atraídas para o mundo do crime. Para isso é determinante melhorar as condições de vida e trabalho da população mais pobre e implantar um sistema de ensino em tempo integral.

O resto é enxugar gelo.

Anúncios

Ouço, leio e vejo matérias de que numa reunião de seu Diretório Nacional o Partido dos Trabalhadores decidiu contra atacar a oposição conservadora, convocando a militância e os movimentos sociais para a rua, em defesa da democracia e da Petrobras.

O melhor que o PT teria a fazer neste momento seria governar para a maioria do nosso povo, coisa que não fez desde que assumiu o governo, com alguns breves momentos de lucidez, sobretudo na política externa. Mas a decisão do governo é de insistir com o tal “ajuste fiscal”, que contraria 99% da população e só satisfaz os banqueiros, credores da dívida pública brasileira.

Pergunto: com essa política econômica que acelera a recessão e o desemprego o que o PT vai fazer nas ruas (int) Em que mundo essa gente está vivendo (int) Que movimentos sociais vão conseguir mobilizar suas bases para defender um governo com esta política (int)

Parece que ao contrário de mudar sua política, este governo pretende aprofundar a subserviência que sempre o caracterizou. Colocou um representante do seu setor mais moderado para ocupar a pasta da Comunicação, sinalizando que vai estender a mão e se render à grande mídia empresarial. Na presidência do Conselho da Petrobras propõe um sujeito que preside a Vale. Só está faltando Dilma convocar o lobo para tomar conta do galinheiro.

Enquanto isso, no Congresso Nacional o PMDB segue todo poderoso, rejeitando projetos do Executivo e impondo a política do cinismo e da chantagem. Agora mesmo o achacador colocou na Pauta da Câmara o Projeto de Lei 4330/04, de sua autoria, que libera a prática da terceirização em atividades fim, escancarando a exploração de mão de obra em todos os setores da economia. Os líderes do PMDB já falam abertamente em articular candidatura própria para 2018 e o nome do Prefeito do Rio já é cogitado nos bastidores.

A explicação do chicago boy, Joaquim Levy, para o PIB fraquinho de 2014 é hilária. De acordo com o sinistro da Fazenda as empresas paralisaram seus negócios no período da Copa do Mundo e isso teve consequência para toda a economia.

Quer dizer que todo aquele lero-lero de que a Copa traria dividendos para o Brasil era mesmo conversa mole para boi dormir… Só quem se deu bem mesmo foi a FIFA, que faturou R$ 16 bi, enquanto o governo queimou R$ 30 bi dos cofres públicos em elefantes brancos. A FIFA e a Alemanha.

Enquanto a turma do Planalto tenta entender como sair da enrascada em que se meteu e o PT atira para todo lado, alguns grupelhos fascistóides, inspirados na ideologia do Tea Party (setor mais reacionário do Partido Republicano dos EUA), convocam pelas redes sociais novas manifestações contra o governo para 12 de abril.

A oposição conservadora e a grande mídia apoiam a iniciativa, enquanto a esquerda segue recuada e dividida. O problema é que esses grupelhos trabalham com uma caracterização absolutamente ideológica, de combate ao bolivarianismo, associando o governo do PT ao “comunismo”.

É evidente que existe gente bem intencionada e até inocente que adere a esse chamado, mas o que assusta é que do outro lado, do lado da esquerda, não haja nenhuma iniciativa política. Em 31 de março ou 1de abril lembra-se mais um aniversário do golpe militar de 1964. Não seria uma data preciosa para marcar campo e botar uma campanha na rua(int)

Talvez uma campanha que combata a corrupção e o golpismo exigindo mais democracia e mais  transparência. O que não se pode é esperar a banda fascista passar sem colocar o bloco na rua.

O quadro político do país indica um processo acelerado de desgaste do governo Dilma II. Este desgaste está intimamente associado à própria imagem da Presidente da República. Isto se deve a dois motivos básicos: 1) O avanço das investigações do escândalo do petrolão, que desmoraliza o governo e os partidos de sua base; 2) A adoção de uma política econômica de arrocho nas contas públicas, que só fez acelerar a crise econômica, com sinais evidentes de crescimento da inflação e  de volta do desemprego, provocando apreensão e descontentamento.

Para piorar a situação deste governo, é público e notório que o Planalto está nas mãos do velho PMDB e sua política do toma lá dá cá. Ou seja, Dilma não tem maioria e nem um bloco parlamentar sólido que a sustente no Congresso Nacional. Por sua vez, a crise política e econômica expôs as diferenças internas no PT, dividido entre o grupo de Mercadante/Rosseto (hoje em torno de Dilma) e o grupo de Lula.

Os organizadores das manifestações de 15 de março sinalizam para uma nova data unificada de protestos em meados de abril, que poderão contar com adesão ainda maior, não só de setores da classe média mais conservadora, mas também daqueles que se sentem traídos pelo voto de confiança que deram ao PT no segundo turno de 2014.

O PT e os movimentos que apoiam aberta ou timidamente o governo (CUT, UNE e MST) não têm força política para encher as ruas e praças em defesa de Dilma. Seria a única forma de equilibrar a luta política e dar fôlego a este governo. A esquerda socialista e os movimentos populares independentes também são incipientes e divididos para oferecer uma resistência ao avanço da bandeira do Impeachment.

A oposição conservadora, capitaneada pelo PSDB/DEM, não tem cacife para dirigir politicamente a classe média conservadora, mas pode se juntar ao chamamento das novas manifestações e até aderir à ideia do impedimento de Dilma. A grande mídia não dá força para ideias golpistas que quebrem a ordem constitucional, mas não pode evitar que se discuta a ideia do impedimento como forma de interromper o governo Dilma II.

No jogo de xadrez da política os diversos atores começam a se movimentar, em função do agravamento da crise. Se o cenário político não acalmar e o governo não conseguir uma recomposição parlamentar, será muito desgastante sangrar até 2018 e depois entregar o governo a um membro da oposição conservadora.

Caso as manifestações se mantenham com força, talvez a melhor solução para o PT seja a renúncia de Dilma, com uma saída política ou com a desculpa de que a Presidente precisa sair de cena para tratar da saúde. Neste caso, o partido poderia tentar uma recomposição interna, preservar Lula para 2018 e empurrar a bomba para o colo do PMDB, do vice-presidente Michel Temer .

Para o PMDB também não haveria muita vantagem em governar um país em convulsão política, apenas para cumprir tabela até 2018. Neste caso, a solução seria jogar o problema para o presidente do STF, a quem caberia convocar novas eleições presidenciais ainda para este ano.

Para o PSDB/DEM esta situação criaria um cenário de grande possibilidade eleitoral, mas também o problema de ter que enfrentar grande parte da população, que se acostumou com um padrão de vida razoável nos últimos 12 anos, mesmo a custa de grande endividamento, e que vai continuar cobrando.

Outro ator que precisa ser considerado é Marina Silva, embora tenha se fragilizado pela campanha de difamação que sofreu no primeiro turno de 2014 e pelo apoio a Aécio no segundo. Isso a deixaria com dificuldades para apresentar novamente seu nome, inclusive porque talvez não consiga nem legalizar sua Rede a tempo.

Um nome que não pode ser descartado para ocupar o espaço do eleitorado do PT é o de Ciro Gomes, do PROS. Político bem articulado e excelente debatedor, Gomes poderia ser uma pedra no sapato dos tucanos e galvanizar parte do sentimento popular com um discurso forte e independente.

Num cenário como este não haveria nenhum problema para os partidos majoritários em firmar um acordo para preservar a política já traçada pelo banqueiro Joaquim Levy, que une a todos numa solução econômica neoliberal. Ao mesmo tempo não seria de todo absurdo que PT, PMDB e PSDB fechassem um pacto para esvaziar a CPI do petrolão, reforçando a investigação técnica do MPF e da PF.

Não se pode também menosprezar novas forças políticas que devem correr por fora, como a nova direita conservadora e a esquerda socialista, provavelmente representada pelo PSOL.

Mas é claro que tudo vai depender do termômetro das ruas, porque em Brasília o governo Dilma II parece completamente perdido.

Governo e oposição conservadora se digladiam, sob os holofotes da mídia empresarial. Diariamente novas batalhas vão sendo travadas entre o PT e PSDB, com a corrosão da credibilidade política na sociedade. O PMDB permanece como fiel da balança, tirando proveito da crise.

Novas denúncias na Operação Lava-Jato levam à empresa de lobbie de José Dirceu, que teria recebido por serviços prestados a empreiteiras cerca de R$ 8 milhões, de 2006 a 2013.

O desgaste do governo Dilma II é evidente, mesmo considerando que a pesquisa DataFolha  indicando uma rejeição de 72% foi realizada logo após as manifestações de 15 de março. Mas isso não alivia a situação do PSDB e dos demais partidos, inclusive o PMDB.

A demissão de Cid Gomes, até então ministro da Educação, comprova o grau de crise político institucional. Gomes foi à Câmara dos Deputados e reafirmou que o PMDB atua no governo como se fosse de oposição, operando um esquema de achaque sobre o Executivo, apontando o dedo diretamente para o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Mas o que salta aos olhos em meio a toda esta pantomima política, em que todos acusam uns aos outros e têm razão, é a unanimidade entre governo, mídia e oposição conservadora em torno do “ajuste fiscal” do ministro Levy, expressão fantasiosa para designar o arrocho promovido pelo próprio governo.

O resultado desta política é a volta do desemprego, a alta da inflação, os aumentos abusivos de tarifas públicas (energia e combustíveis), a taxa de juros mais elevada do mundo, a dificuldade dos demitidos em obter o seguro desemprego.

Ao mesmo tempo em que a mídia dá destaque às verbas para o fundo partidário, que triplicou, o Orçamento da União de 2015, aprovado pelo parlamento, reserva cerca de 45% dos 2,7 trilhões para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, razão de todo o arrocho promovido pelo governo. Para a Educação restará algo em torno de R$100 bilhões, mesma quantia reservada à Saúde.

Dilma e seu chicago boy querem fazer um superávit primário de R$111 bilhões em 2015. Dinheiro que ajudará a engordar os cofres dos credores do país. E todos aplaudem, como um ajuste necessário que a maioria da população não entende, mas é obrigada a pagar.

O Brasil é um dos poucos países do mundo que continua fazendo superávit primário. Qualquer cidadão do mundo sabe que pode renegociar suas dívidas em valores mais baixos, que ao banqueiro interessa receber alguma coisa que não receber nada. Qualquer empresa pode renegociar suas dívidas, só o governo brasileiro segue submetendo a população a essa sangria desatada, pagando uma dívida que sequer foi auditada, apesar disso estar previsto na Constituição.

Enquanto aguarda-se o próximo episódio da sangria desatada do governo Dilma, a oposição conservadora e a direita fascistóide já articulam novas manifestações para abril. E o que fará a esquerda socialista e os movimentos populares independentes (int) Vão continuar assistindo a tudo assustadas, emitindo suas notas inócuas como observadores da luta política (int)

De que adianta lamentar ou criticar a parte da classe média que foi às ruas em 15 de março, com suas soluções retrógradas e conservadoras? Essa turma tem todo o direito de se manifestar, por mais estapafúrdias que sejam as suas posições e o exagero dos analistas da Rede Globo a respeito da dimensão das manifestações.

Este setor que não faz parte da elite, mas que pensa como as elites, pode ser a base social para um novo projeto da direita, que ainda não tem direção e programa claro. Para eles o governo Dilma e o PT são comunistas, querem um regime bolivariano ou aos moldes de Cuba no Brasil. O problema do país é a falta de “ordem”. Daí a solução ser o impedimento de Dilma e, para uma parte, até o retorno do regime militar.

No entanto, é um equívoco fazer coro com a senhora Marilena Chauí, que decretou o caráter “fascista” da classe média. É dos filhos desta classe média que saem os elementos mais esclarecidos da sociedade, que geralmente abraçam projetos políticos e de vida progressistas.

A pior saída para evitar o crescimento deste pensamento elitista e retrógrado é eleger esta parte da classe média como o principal inimigo a combater. De nada servem os adjetivos como “coxinhas” e outros, que só fecham o diálogo político.

O grande inimigo a ser combatido no Brasil é a classe dominante, formada por financistas, o agronegócio, grandes empreiteiros, grandes proprietários de terras, das grandes cadeias de supermercados e lojas atacadistas, donos de concessionárias de serviços públicos e as oligarquias políticas.

Essa é a turma que tem contas de milhões de dólares no HSBC da Suíça e nos paraísos fiscais, que se beneficia dos esquemas de corrupção, da especulação com imóveis, moeda estrangeira e preços, do sangrento pagamento de juros e amortizações da dívida pública (via títulos da dívida).

Do PT e de seus governos pouco ou nada mais se pode esperar. Afinal, foram 12 anos patinando, fazendo cena, batendo palma para maluco dançar. Fragilizado e acuado, o governo Dilma II parece não ter força para reagir. Dilma e sua equipe palaciana estão de pés e mãos atados ao PMDB e são incapazes de conceber uma solução política que não passe pelo toma lá da cá do Congresso Nacional.

Grande parte do eleitorado que deu um voto de confiança no PT nas eleições de 2014 recebeu um balde de água fria já na formação do ministério e nas primeiras medidas do governo Dilma II. Ao contrário do que afirmam seus porta-vozes, as medidas do governo aceleram e aprofundam a crise econômica, porque são voltadas para arrochar os mais pobres e manter o pagamento de juros e amortizações da dívida pública.

A tentativa das direções da CUT, UNE e MST de construir um movimento de rua esbarra em dois problemas: 1) Depois das medidas adotadas (aumentos da luz, da gasolina e da inflação; corte de investimentos nos serviços públicos; ataques ao seguro-desemprego, etc), não há quem tenha ânimo para sair às ruas defender este governo ou até mesmo o processo democrático; 2) O simples fato de que todas as suas lideranças se subordinam ao governo que sustentam.

É preciso que as forças de esquerda abandonem seus manuais e projetos particulares. É fundamental que os movimentos populares e sindicais independentes, a juventude mais esclarecida, os intelectuais comprometidos com as causas populares deem passos concretos, no sentido da formação de uma alternativa profundamente democrática e socialista.

Um novo projeto político, que resgate as reformas de base e que proponha atacar os privilégios da minoria exploradora, que resgate a História de luta e resistência do povo brasileiro, que levante um programa antenado com as questões do nosso tempo, precisa e pode empalmar os anseios da maioria de nosso povo, assim como de parcela das camadas médias e da juventude.

É hora de ar um passo adiante, à esquerda.

Véspera de final de semana e o clima de ansiedade aumenta no noticiário e nas ruas. Há quem enxergue semelhanças entre o momento atual e o pré-golpe de 1964. Duas manifestações estão programadas para 13 e 15 de março: uma por setores que apoiam aberta ou envergonhadamente o governo Dilma, outra por setores conservadores e de direita, que querem desgastar ou interromper o governo reeleito.

O golpe de 64 foi dado porque a grande burguesia brasileira, associada aos interesses dos EUA, difundiu que o país caminhava para uma república sindical, assemelhada aos regimes de esquerda, como o de Cuba. Era um tempo de guerra fria, de divisão entre blocos então capitaneados pelos EUA e a URSS.

Todo aquele alarde anticomunista teve eco nas camadas médias das cidades, com apoio da cúpula da Igreja Católica e de lideranças expressivas da direita. Para justificar a campanha golpista os reacionários brandiam as reformas de base, do governo do trabalhista João Goulart, como se fossem medidas anticapitalistas ou revolucionárias.

Goulart propunha apenas reformas que alavancassem a massificação do capitalismo no Brasil, com a inclusão de parcela das massas que estavam fora do mercado de consumo. Daí a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma educacional, a reforma do judiciário e algumas outras medidas, que democratizariam o acesso dos mais pobres a uma vida digna.

Nos dias de hoje por que a grande burguesia e a mídia empresarial proporiam a interrupção do mandato de Dilma? Nunca antes neste país se fez menos desapropriações de terras; nunca antes as ocupações urbanas foram tão atacadas; nunca antes os banqueiros ganharam tanto, com juros elevados e um governo que honra cada centavo da absurda dívida pública; nunca a grande mídia empresarial teve tanta propaganda oficial para seguir com seu noticiário tendencioso e sua programação rasteira; nunca antes as empreiteiras tiveram vida tão fácil, elevados que foram a grandes multinacionais de capital nacional, sustentadas pelos financiamentos do BNDES e da Caixa Econômica Federal.

Tudo bem que a burguesia sempre vai preferir um dos seus filhos cheirosos para administrar o Estado, mas na falta de alguém melhor o Lula serve. Afinal, o que Lula e Dilma fizeram que impede o crescimento dos negócios e lucros da grande burguesia? Que ameaça o governo do PT e seus aliados representa ao grande capital? Fora o fato de que o governo norte-americano não tolera qualquer atitude minimamente independente de outros países na política externa, o PT se mostrou um excelente administrador do Estado.

Portanto, não espero grande adesão às manifestações de 15 de março, convocados pelas redes sociais por grupos fascistóides e com apoio da oposição conservadora. O máximo que podem reunir são alguns milhares de filhos de ricos e da classe média alta dos bairros chiques. Da sua parte o PSDB não quer o impeachment de Dilma, prefere que ela sangre no desgaste da crise econômica e política, tendo como pano de fundo o escândalo de corrupção na Petrobras.

Já as manifestações de 13 de março, que terão como carro chefe o MST e a CUT, não devem se desvencilhar da pecha de movimento chapa branca, governista. Lá certamente estarão militantes e ativistas de movimentos sociais e os simpatizantes do PT. Timidamente estas organizações, que sobrevivem de benesses do governo, deverão colocar para fora algumas bandeiras progressistas, reforçando a crença de que serão ouvidos por Dilma e o PT.

No meio dessa falsa polarização ficará a grande massa do povo brasileiro. Traído por um governo que prometeu na campanha eleitoral o contrário do que faz e descrente das alternativas mais conservadoras, o povo não dará seu aval e nem emprestará seu grito espontâneo a nenhuma dessas manifestações.

E talvez essa grande massa tenha mesmo razões para desconfiar dos dois lados, visto que não se descarta para o futuro um acordo de governabilidade que reúna todos os atores que fazem parte dessa pantomima.

O cenário político do país aponta para um processo de acirramento, que iniciou com as eleições de 2014. O governo social-liberal do PT/Base Aliada venceu, mas saiu das urnas um tanto dividido e frágil. O bloco conservador, formado por PSDB/DEM, percebeu essa fragilidade e procura extrair dividendos das divisões internas do governo Dilma 2, agravada pela crise econômica e a opção de jogar a conta nas costas dos trabalhadores.

Esta opção neoliberal até a medula, que tem como figura de ponta o banqueiro Joaquim Levy, foi um balde água fria nos que imaginavam que Dilma se agarraria aos movimentos populares e ao apoio dos mais pobres, em seu segundo mandato. Além de cortar os gastos públicos, o governo autoriza aumentos brutais das tarifas de luz, além do aumento da gasolina, o que provoca a elevação do custo de vida do trabalhador.

Junte-se a isso a crise da corrupção na Petrobras, que vai fazer o governo e seus aliados diretos sangrarem pelos próximos anos, enfraquecendo a imagem da empresa que é responsável por 1/3 de todos os investimentos e negócios no país. É o preço que o país vai pagar pela aliança do PT com as velhas raposas corruptas do PMDB.

A direita mais conservadora, representada pelos tucanos e seus aliados, surfa nesta onda com o apoio integral da grande mídia empresarial (Organizações Globo, Band, Grupo Folha e outras). No entanto, nenhum de seus dirigentes tem representatividade para liderar um movimento capaz de inviabilizar e encurtar o segundo mandato de Dilma.

Assim, a melhor saída para o bloco PSDB/DEM e também o PMDB é isolar Dilma e o PT – já num processo de desgaste – e preparar as bases para retomar a mesma aliança que sustentou o governo FHC. Não se deve esquecer que a Base Aliada do PT nada mais era do que o chamado Centrão nos anos 90. Trata-se da representação das oligarquias, formadas por grupos políticos e econômicos de todas as regiões do país, que comandam o Brasil há séculos.

Por isso, os setores mais lúcidos e independentes dos movimentos populares, da juventude e da intelectualidade não devem aderir à manifestação chapa branca de 13 de março (convocada pelo PT e aliados) e nem à manifestação golpista de 15 de março, chamada por setores da oposição conservadora. Esta falsa polarização aponta para uma disputa entre quem pretende comandar o barco sem mudar o rumo, mantendo os privilégios das elites, dos credores internacionais e dos corruptos.

A saída está fora e longe destes dois blocos políticos, que disputam apenas o botim do Estado brasileiro. É hora de acumular forças pela construção de uma nova proposta econômica e política, efetivamente comprometida com a maioria de nosso povo e dos setores médios. O desafio está lançado, será preciso sabedoria e sensibilidade para ocupar os espaços deixados pelos dois projetos que arrastaram o país para o beco sem saída.

Vergonhosa a série de “reportagens” sobre a situação política na Venezuela, apresentada por Sandro Barboza no Jornal da Band. Em todas elas as fontes e declarações são de setores da oposição, não há qualquer abordagem e investigação sobre a versão do governo para os fatos. Das duas uma: ou o sujeito foi ao país vizinho a convite de algum grupo oposicionista, ou aceitou ser pautado de forma completamente parcial pela direção da emissora.

Seja como for, a série apresentada por Barboza foge completamente às mais elementares normas do jornalismo e se assemelha muito mais a uma peça de publicidade. Seria de bom tom que as entidades de jornalistas se manifestassem a respeito, exigindo que a emissora que explora uma concessão do Estado aja com um mínimo de isenção na abordagem de problemas vividos em outro país. E ainda chamam a isso de “liberdade de expressão”!?

Quis o destino que há 55 anos eu nascesse na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E poderia muito bem ser filho de outras bandas, talvez do Rio Grande do Sul ou das Minas Gerais, terras de meus pais e avós. De família de classe média, com quatro irmãos, cedo fui criando raízes por aqui e aprendendo a gostar de ser carioca.

Fundada como uma resposta do colonizador português ao assédio dos invasores franceses, o Rio é formado por um conjunto de acidentes naturais. A Mata Atlântica revestia suas montanhas, cheias de córregos e rios que desaguavam numa baía aconchegante e de águas calmas. As praias maravilhosas que cercam toda a cidade dão até a impressão que ela é uma ilha. E ainda temos lagoas e regiões pantanosas.

A vocação do Rio era mesmo de ser porta de entrada de um novo continente, desbravado e cobiçado pelos colonizadores europeus. Uma espécie de prêmio para qualquer um que ousasse superar as marés do Atlântico e viesse aportar deste lado do Planeta.

Aqui, por ordem da corte de Portugal e mais tarde do Imperador Dom Pedro, foram fincadas as bandeiras do reino e de capital do Império. Um porto aberto, mas também uma fortaleza bem defendida, segura para as pretensões dos estrangeiros. Os filhos da terra, iludidos e depois escravizados, preferiram se rebelar que viver subjugados pela tirania. Tanto que foi preciso trazer mão de obra escravizada em África para dar conta das tarefas da produção e de casa.

O Rio, por sua vocação cosmopolita, sempre acolheu bem a todos. Talvez a tal antropofagia, a que se referiam os modernistas de 1922, tenha experimentado no Rio a mais profunda experiência de sua concretude. Foi por aqui que todos os estilos musicais nacionais e importados apareceram e tiveram vez, do xaxado ao rock, do baião ao funk, do samba ao tango.

A expressão dessa salada mista é o Carnaval carioca. De uma barrica um português fez um bumbo e saiu arrastando foliões, em meio à velha guerra de limões do entrudo. Ranchos, blocos e grandes sociedades passaram a colorir de graça e animação as ruas da velha cidade, a partir do início do século XX. Mais tarde surgiram as Escolas de Samba, expressão da cultura até então marginalizada das favelas.

Favelas que só poderiam surgir numa cidade cercada de morros, nos quais ninguém se aventurava, a não ser os combatentes sem-teto alforriados ao fim da Guerra do Paraguai e a partir da libertação dos escravos, no final do século XIX. Capital da República velha, a Baía de Guanabara foi o pano de fundo da revolta das Chibatas, episódio marcante da luta dos pobres e negros contra a opressão das elites brancas.

O Rio que conheci na minha infância e juventude era uma cidade movimentada, cheia de contradições. A escola era pública, com a mistura saudável dos filhos da classe média e dos trabalhadores. O leite era de garrafa e entregue na porta. Ainda havia tintureiro, lavadeira e amolador de facas pelas ruas. O transporte era um misto de ônibus, troller bus e bondes. Ainda era o tempo de muitos burrinhos sem rabo, transitando pela cidade, cheios de caixotes e móveis de mudanças.

As praias eram limpas até em Paquetá e na Ilha do Governador, se pegava Tatuí na areia. Passear no Cristo ou no Pão de Açucar eram programas comuns, não exigiam nenhum grande gasto extra. O desfile das escolas de samba não tinha cronometragem, todo mundo queria conhecer os sambas e marchinhas de Carnaval. Havia cinemas por toda a cidade, inclusive na Zona Norte e Leopoldina. O Maracanã era o templo do futebol, programa barato e acessível a todos.

Como capital política e cultural o Rio se levantou contra a ditadura militar, elegendo os primeiros governantes que não pertenciam à famigerada Arena. Aqui nasceu o Pasquim, com humor contagiante que desafiou os gorilas e fazia rir até os censores. Foi também por aqui que surgiram as primeiras grandes passeatas pelo fim do regime militar. Para o Rio vieram os grandes artistas, pintores, cantores, compositores de todos os gêneros e cantos do país.

Aliás, o botequim era a casa do carioca, onde ele se sentia à vontade, tomando chopp gelado para espantar o calor insuportável no Verão. Nos bares e botecos as conversas varavam a madrugada, se discutia política, paquerava, surgiam versos e canções, muitas esquecidas no dia seguinte. As noites não tinham hora.

Os tempos mudaram, é claro. E o Rio também. Deixou de ser capital federal, deixou de ser Guanabara e passou a ser capital do Estado do Rio de Janeiro. Mal cuidamos dos nossos e como vamos cuidar dos outros (int) Infelizmente não foi a visão cosmopolita do Rio que iluminou os quatro cantos do país, mas um misto de política mesquinha, bandidagem, parasitismo e gente sem princípios, que só pensa em enriquecer da noite para o dia, viver da exploração alheia, se fixar na Barra da Tijuca e depois migrar para Miami.

As favelas, até então redutos de gente humilde e marginalizada, mas altiva e trabalhadora, viraram territórios de disputa entre grupos de traficantes varejistas e bandos de policiais, atrás do botim da venda de drogas e prestação de serviços diversos. No meio deles a população, que de tempos em tempos explode em revolta contra as “balas perdidas” e “autos de resistência” que não poupam nem jovens e crianças.

Os antigos malandros, que se equilibravam na corda bamba todos os dias para sobreviver, foram aposentados, como cantou Chico Buarque. Hoje a cidade virou território de grandes negócios, disputado por mega empreendedores e seus eventos, que se apropriam do espaço público urbano. É o caso do Rock in Rio, do Porto Maravilha, do novo campo de Golfe, das arenas esportivas, da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

Nos seus 450 anos de fundação o Rio perdeu o brilho e um pouco da espontaneidade do carioca, ganhou mais problemas e obstáculos. Mas apesar disso tudo, ainda tenho um sentimento bom quando estou voltando para casa, mesmo que seja pelo engarrafamento da Avenida Brasil ou da Linha Vermelha.