Camelódromos, quiosques, favelas, muquiços, cabeças-de-porco, pés-sujos, nada do que tem a cara verdadeira do povo carioca parece agradar aos organizadores do Rio 2016. Mesmo sem declarar, parece que acataram a sugestão daquele antigo vereador que propunha a criação da secretaria da eugenia, para promover uma limpeza étnica da cidade.

Muito preto, muito pobre, muito pivete, muito lixo, mau cheiro e muita sujeira pelas ruas. Heranças da nossa História, da Colônia, do Império e da República dos desiguais. O Rio dos nossos dias é tão somente o que poderia ser, acumulando contrastes e dívidas sociais que se arrastam ao longo de séculos de existência do Brasil.

As parasitas da Corte não poderiam passar sem ter quem penteasse os cabelos das damas, as mucamas, hoje as nossas domésticas. E como os casais de nobres poderiam passear pela cidade sem sujar seus belos sapatos? Daí os carregadores de liteiras. Como admitir que os barões não tivessem suas aventuras sexuais? Tudo isso teve seu preço e deixou marcas.

Já o Império necessitava de um exército que lhe fosse fiel para aplacar as revoltas país afora e acalmar as fronteiras. Foi assim que os negros “voluntários da Pátria”, ao retornarem das campanhas do Paraguai e de Canudos, aportaram na capital. A eles restaram as encostas dos morros.

O monarquista – porém abolicionista – Joaquim Nabuco, em sua campanha pelo fim da escravatura no final do século XIX, alertava que ela só seria bem sucedida se duas medidas básicas fossem assumidas pelo Estado: a adoção do ensino universal e a distribuição de terras. Seus conselhos foram em vão.

Os mesmos portos que abriam horizontes e traziam novidades do velho continente para o Rio também eram portas de entrada de marinheiros. Com os marinheiros vinham as prostitutas e, com elas, malandros e cafetões.

As favelas cresceram, tomaram as encostas da cidade. Os antigos casarões do Império decadente deram lugar às casas de cômodos e depois às cabeças-de-porco. Nelas se abrigaram trabalhadores, carroceiros, biscateiros, ambulantes de toda espécie. Logo floresceu uma cultura miscigenada, sempre discriminada e repudiada pelas elites locais.

Sambistas e capoeiras formavam a ralé das ruas, a mesma gente que apeou do poder o governo da antiga capital durante uma semana, no episódio que se convencionou chamar de Revolta das Vacinas (1904). Na verdade a campanha de vacinação de Oswaldo Cruz contra a febre amarela virou um pretexto para a reforma urbana de Pereira Passos (o bota-abaixo), que expulsou os pobres do Centro da cidade, transformando-a numa avenida central para os financistas.

Foi aqui também, em plena Baía de Guanabara, que negros forçados a ingressar na Marinha do Brasil tomaram o comando de navios e exigiram respeito do Governo Republicano, apontando canhões contra o Palácio do Catete, em 1910. A Revolta das Chibatas foi mais um alerta dos desvalidos, como que a avisar aos poderosos para que tivessem juízo e tratassem seu povo com dignidade.

Mas nada disso sensibilizou as classes dominantes e o resto é apenas a continuação de uma história que redundou no Rio que hoje conhecemos, belo, mas destroçado.

Agora, as elites querem esquecer a verdadeira cidade, passar uma borracha na história de séculos de desmandos cometidos por elas mesmas contra a maioria esmagadora de nosso povo. Para os nossos governantes basta dar uma nova embalagem ao produto Rio de Janeiro. E apagar as marcas da “sujeira” que provocaram durante séculos de dominação.

Não por acaso o mapa da “ordem urbana”, traçado pelo atual alcaide da cidade, em conjunto com o senhor governador, prevê a implantação de UPPs nas favelas da Zona Sul, Centro e região da Tijuca. Os antigos quiosques da praia foram substituídos por restaurantes de grife. As enchentes e desabrigados formam o estopim do novo “bota-abaixo” das favelas. Os incêndios de antigos casarões e do camelódromo da Central do Brasil servem para fazer a limpa no Centro.

As elites têm mesmo é vergonha do nosso povo. Ele não combina com Jogos Panamericanos, Copa do Mundo, aviõezinhos do Red Bull ou Olimpíadas 2016. Quando muito servirá de pano de fundo para os grandes contratos de publicidade e os negócios em torno dos mega-eventos.

O Rio foi palco de mais um mega-evento. Desta vez no dia 21 de abril, logo no feriado de Tiradentes. Joaquim José da Silva Xavier teve seu dia ofuscado por um festival de desrespeito e despreparo, no chamado dia D da Igreja Universal. Uma multidão de 1 milhão de crentes, transportados em 4 mil ônibus de todos os pontos do Estado, tomou a Praia de Botafogo e deixou um rastro de destruição.

O trânsito deu um nó em todos os principais acessos da cidade, incluindo os túneis Rebouças e Santa Bárbara. O reflexo da confusão se fez sentir até na Ponte Rio-Niterói. O engarrafamento monstro tornou o feriado dos cariocas e fluminenses uma visão do inferno.

Não foi por falta de aviso. Em reunião realizada com representantes da IURD, da Prefeitura e das Associações de Moradores da Zona Sul, pastores juraram que não haveria mais do que 250 mil pessoas, além de falarem em 1.500 ônibus. Tudo foi contestado pelos moradores, escaldados por outros eventos.

A confusão foi tamanha que os banheiros químicos (cerca de 300) não deram vazão e os banheiros do comércio e do shopping da região tinham filas intermináveis. Sobrou um rastro de lixo e mau cheiro, piores que o do Carnaval.

E a Guarda Municipal? Ninguém sabe ninguém viu. Dos 4 mil ônibus que foram estacionados em qualquer canto, somente 4 foram multados. Pressionado, o Prefeito Eduardo Guerra pediu desculpas. Mais uma prova de despreparo e de entrega da cidade à exploração de grupos privados.

Novidade? Não. Afinal, na visão dos administradores “modernos” a cidade deve ser tratada como uma fonte de captação de recursos. Além do que não convém brigar ou enfrentar a IURD, uma máquina de dinheiro e de votos.

Paralelo interessante pode ser traçado pela atitude do poder público no Brasil, em se tratando de lidar com pobres e ricos. Quando uma fazenda é considerada desapropriável para fins de reforma agrária seus proprietários recorrem à Justiça, prorrogam ao máximo sua saída e ainda são indenizados com títulos da dívida agrária.

Para os moradores de favelas a demolição da casa ou barraco é imediata e, muitas vezes, sem critério. As máquinas e picaretas da Prefeitura do Rio entram em nove favelas e começam o “bota abaixo”, enquanto os moradores são cadastrados para receberem R$ 400,00 de “aluguel social” durante um ano. Ninguém liga se ali foi feito o investimento de uma vida inteira de sacrifício, quanto se gastou de material de construção e de mão-de-obra.

No caso do fazendeiro o INCRA realiza todo um estudo para comprovar as benfeitorias realizadas pelo proprietário, que na maioria das vezes ocupou terra pública de forma irregular. Deste estudo é feito um cálculo que redunda no valor da indenização com dinheiro público.

É indefensável a permanência de quem quer que seja em áreas de risco de desabamento. Mas é preciso lembrar que nenhum dos milhões de moradores de favelas no Brasil vai para morros, alagados e periferias porque quer ou acha bonito. Estão ali por ausência de uma política habitacional, num país carente de cerca de 8 milhões de moradias.

Ao contrário de “remover” as pessoas como lixo, dando uns trocados, a Prefeitura do Rio deveria avaliar e pagar por estes imóveis, ao mesmo tempo em que planeja a construção de residências, com a infra-estrutura necessária (transporte, escola, posto de saúde, água e esgoto encanadas, iluminação pública, etc).

O efeito midiático da remoção dá a impressão de que as autoridades estão fazendo sua parte. O prefeito e o governador jogam nas costas das próprias vítimas a responsabilidade pelas mortes das enchentes de abril. E ainda acusam de “demagogos” os que são contrários à remoção.

Ora, demagogo é quem foi presidente da Assembléia Legislativa por dois mandatos e jamais fez um projeto de moradia digna para o povo do Estado do Rio de Janeiro. Demagogo é quem foi subprefeito de César Maia e jamais se empenhou na urbanização das áreas de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca.

A remoção de moradores de nove favelas do Rio vai causar impactos. O maior deles será o deslocamento desses moradores para outras favelas. Já o problema social, que tem a ver com a divisão da cidade entre bairros de ricos e áreas marginalizadas, vai continuar sendo empurrado com a barriga. Até que uma nova enchente aconteça.

Há uma tese muito em voga, usada por governantes nos últimos tempos para justificar sua omissão. Trata-se de culpar a população pelos problemas comuns, ou seja, os problemas que cabem ao poder público, aos governos resolver. Assim, dividindo com outros suas obrigações, os malandrinhos encontram mais uma saída para se esquivarem de suas responsabilidades.

No caso do temporal que alagou o Rio, Niterói e adjacências dias 5 e 6 de abril de 2010, e deixou um saldo trágico de mais de 100 mortes, mais uma vez assistimos aos discursos sorrateiros, às esquivas de sempre e nada a respeito de planos e projetos de moradias populares, drenagem do solo urbano e dragagem de rios e canais.

Governador e prefeito do Rio repetiram as surradas frases feitas e apelos, culpando a população pela ocupação desordenada de encostas. Mas o próprio alcaide admitiu que existem em torno de dez mil pontos críticos na cidade do Rio, enquanto dispõe de um efetivo de três mil bombeiros em dias “atípicos”, como vimos na mais recente chuvarada. Uma conta que não fecha.

Alertados ou não com a devida ênfase pela meteorologia a respeito do temporal, o fato é que nem Prefeitura nem governo do Estado prepararam a população para o perigo iminente. Até o final da noite de 5 de abril, horas depois do início da chuvarada, não se avistava nas ruas um guarda municipal, um policial militar, sequer alguém da CET Rio para orientar o trânsito, prova que os governantes não se prepararam para enfrentar a ameaça de enchente.

O papel do cidadão é fazer a sua parte. Pagar impostos, cuidar da sua casa, não jogar lixo na rua ou em espaços comuns, cobrar das autoridades. O papel do Estado é arrecadar impostos e transformá-los em serviços públicos em quantidade e qualidade para todos. Para isso, dispõe de um corpo de funcionários e de órgãos e empresas especialmente criadas para estudar, propor e tomar iniciativas em prol do bem comum.

Isso tudo, é claro, em tese, porque os governantes modernos estão sempre preocupados em “cortar gastos”, não para economizar em favor da coletividade, mas para pagar juros e amortizações de dívidas que seus antecessores e eles mesmos contraem em nosso nome, com bancos e empresas, que depois financiam suas campanhas eleitorais milionárias.

Cabralzinho e Guerra são dessa linha predatória, usando a estrutura do Estado para obter benesses em suas carreiras políticas e enriquecer. Por isso, não têm planos de médio e longo prazos em favor do cidadão comum, da coletividade. Por que não sentaram até hoje com os departamentos das universidades públicas do Rio (UFRJ, UFF e UERJ) para planejar um sistema eficiente de drenagem da cidade? A última grande obra de drenagem no Rio foi o Canal do Mangue, ainda nos tempos do Brasil Império.

Estão muito mais preocupados com a realização de mega-eventos (Jogos Panamericanos, Copa do Mundo, Olimpíadas), em usar o espaço urbano da cidade e do Estado para dar repercussão midiática às suas administrações. Eles não pegam Metrô ou Trem da Central, você não os vê regularmente andando de ônibus. Seus filhos não frequentam as salas de aulas das escolas públicas do Estado ou do município. Suas patroas não se consultam e nem fazem cirurgias plásticas nos postos e hospitais públicos.

Mas em uma coisa sou obrigado a concordar com eles: culpados somos nós que ainda os elegemos…