Era uma eleição muito difícil. Mesmo assim, a chegada de candidatos do Psol ao segundo turno das eleições municipais no Rio e Belém foi um ponto fora da curva, como gostam de dizer os analistas. Não tenho os dados e nem conhecimento suficiente da situação da capital paraense, mas no Rio quatro elementos ficaram evidentes para a chegada de Marcelo Freixo e a vitória do bispo Crivella:

1 – A escolha de um candidato marcado pela pecha de agressor de mulheres e sem expressão alguma, por critérios pessoais do atual Prefeito, não só tirou o PMDB da disputa como dividiu a base do governo, que gerou outros dois candidatos: Indio da Costa e Roberto Osório. Essa divisão de votos proporcionou a condição para que Freixo chegasse ao segundo turno;

2 – A existência de uma massa considerável de evangélicos neopentecostais de diversas igrejas (cerca de 30% da população), que desta vez se uniram em torno do candidato da Igreja Universal, Marcelo Crivella. Esse aspecto local não deve ser desprezado. Foi ele que determinou a chegada de Crivella em todas as eleições passadas e o colocou no Senado desde 2002;

3 – A esquerda não tem política e não realiza um trabalho voltado para as regiões mais pobres e mais massivas da capital: a Zona da Leopoldina, Zona Auxiliar e a Zona Oeste, que formam mais de 70% da população/eleitorado. A leitura do mapa eleitoral deixa claro que a esquerda carioca continua a ser um fenômeno restrito às regiões da Tijuca, Centro e Zona Sul, locais de classe média. Isso proporciona mandatos parlamentares na Câmara de Vereadores e na Assembleia Legislativa, mas não para a conquista da Prefeitura;

4 – Finalmente o aspecto mais importante da conjuntura: a derrota de Freixo ocorre porque há um avanço do conservadorismo na sociedade, que encontra eco na desintegração política e ética do PT, associando toda a esquerda à corrupção. Os projetos de esquerda que procuram nova base teórica e social ainda são frágeis. Estes fatores também explicam a migração da maior parte do eleitorado de centro (Índio da Costa, Roberto Osório e Pedro Paulo) para a direita e a vitória de Crivella.

Ao alcançar cerca de 40% dos votos válidos no segundo turno do Rio, Marcelo Freixo projeta o Psol para disputas eleitorais futuras e o seu próprio nome em nível nacional. Na contramão disso vão as correntes esquerdistas no interior do partido, cujas principais lideranças foram derrotadas, como Luciana Genro, que sequer foi ao segundo turno em Porto Alegre, e Babá, que não conquistou nem a cadeira de vereador.

Abre-se a possibilidade de um rearranjo político partidário na esquerda brasileira. Setores organizados e lideranças que estão insatisfeitas com os rumos do PT, certamente passarão a olhar para o Psol como uma alternativa política mais madura e consolidada. O PT tende a se fechar cada vez mais em torno de Lula, numa linha mais social democrata, visando às eleições de 2018. Já o PCdoB envereda pela consolidação do oportunismo eleitoral, do vale tudo para sobreviver, mas tende a se manter como linha auxiliar do PT.

Por fora de todo esse enrosco político-partidário está uma juventude combativa, que ocupa escolas e universidades, que não está sob a batuta de nenhum partido ou organização da esquerda tradicional, que procura se manifestar e se organizar de maneira horizontalizada, que não nega a política, mas que busca uma nova identidade. Parte deste fenômeno já se manifestara nas jornadas de junho de 2013, mas não foi compreendido em sua amplitude pela esquerda tradicional.

Findo o processo político eleitoral de 2016, todas as atenções se voltarão novamente para os desdobramentos da operação Lava-Jato, com as delações premiadas dos executivos da empreiteira Odebrecht, que podem respingar em figuras expressivas do PMDB e do PSDB, além das medidas draconianas prometidas pelo governo Temer.

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26/10/2016

 

Quando menos se esperava, quando todos se preparavam para o dilúvio e as inundações, eis que surge novamente nas ruas a juventude brasileira, empunhando seus cantos, cartazes e faixas para dizer NÃO ao projeto de emenda constitucional da morte.

Suas manifestações são convocadas em rede, não tem chefes e nem carros de som. Suas palavras de ordem são engraçadas, sua coragem impressiona e emociona. Há quem os critique porque não têm um programa, mas não é o programa escrito que interessa. Quando negam a violência e o monopólio da mídia e exigem ensino de qualidade já estão empunhando um programa.

Não liguem para os críticos de plantão. São os velhacos da esquerda petrificada, os que se acham donos da verdade, os que gostam de chefes, que precisam de palanques, microfones e alto-falantes. Não liguem para os que sempre encontram desculpas e dizem que suas ações atrapalham seus candidatos e suas siglas.

Não liguem para os que os condenarem como “vândalos”. São os porta-vozes do “mercado”, os cínicos da mídia empresarial, que trocaram o jornalismo dos fatos pelo conto do vigário das versões.

É do frescor das suas vozes, da praticidade de seus métodos democráticos, das suas idéias libertárias e socialistas, da simplicidade das suas roupas e símbolos, da firmeza de suas convicções que pode surgir uma nova vanguarda, uma nova esquerda e, quem sabe, um novo Brasil.

  • Este pequeno texto foi escrito em 18 de outubro de 2016 para o meu facebook, dias depois das primeiras grandes manifestações da juventude contra a PEC 241 (a PEC que impõe teto aos investimentos públicos) no Rio, São Paulo e Belo Horizonte.

Li o artigo de Wanderley Guilherme dos Santos intitulado O QUE FAZER COM A REDE GLOBO DE COMUNICAÇÕES? É uma abordagem ampla do tema mas, francamente, não acrescenta muito ao que já se sabe sobre os tentáculos e o poder alcançado pelas Organizações Globo no Brasil.

Não se pode tratar do tema a partir de conclusões exclusivamente político-ideológicas, embora seja válido fazê-lo. Ocorre que o fenômeno da comunicação de massas no Brasil tem a ver com alguns fatores, que acabaram se somando para a construção dessa verdadeira anomalia mega midiática em que se transformou a Globo.

Fatores que favoreceram o império da Globo

O primeiro fator tem raízes exclusivamente políticas: a ditadura militar teve papel decisivo, não só na associação entre Globo e Time-Life, para formação da Rede Globo de Televisão, como na construção da infraestrutura necessária para fazer a TV chegar aos quatro cantos do país, via Embratel, com satélite e torres de transmissão.

O slogan “Integrar para não entregar”, era o prenúncio de que a Rede Globo teria papel determinante na comunicação de massa e propaganda do regime. E assim foi. Não por acaso a Globo se tornou o maior grupo de mídia da América Latina e uma das maiores do mundo.

Outro fator que determina o poderio político-midiático das Organizações Globo é a distribuição de recursos de publicidade governamental. De acordo com o Coletivo Intervozes, a Rede Globo de TV recebeu cerca de R$ 6,2 bilhões durante os governos Lula e Dilma, sem contar o total de recursos investidos pelo governo federal no Jornal O Globo e demais publicações do grupo neste mesmo período. A Globo fatura mais do que as mais fortes concorrentes juntas (Record, SBT e Bandeirantes).

Receita global

Mas a receita “milagrosa” das Organizações Globo tem a ver com a identificação do telespectador brasileiro em suas diversas faixas de interesse. E isso é feito a partir de pesquisas qualitativas e quantitativas, não há nada no chute.

Os três pilares da Globo até hoje são o Jornal Nacional, as telenovelas e o futebol. São programações que atendem a públicos distintos, mas que abrangem uma quantidade imensa de brasileiros em todo o país.

As telenovelas se dirigem majoritariamente ao público feminino, mas também respingam no masculino. Sua receita é alcançar o aspecto emocional, através do folhetim, com texto simples e até simplório, de fácil identificação e decodificação, cercado de fortes emoções (suspense, romance, traição, ambição, etc), o que estimula o imaginário popular.

Ao mesmo tempo a produção de novelas a partir da realidade da classe média alta do Rio e de São Paulo ajuda a ditar comportamentos, moda, costumes, etc, que vão alimentar a captação de anunciantes nos grandes centros urbanos do país.

O futebol está dirigido ao telespectador masculino, misturando o desafio da vitória e a fidelidade do torcedor com a comodidade de assistir o jogo de seu time em ambiente familiar ou com amigos, em casa ou num botequim, cercado de cerveja e bate-papo. Nada mais agradável para o brasileiro…

O Jornal Nacional é mais abrangente, visando a “família” em horário nobre, justamente aquele em que se supõe que o brasileiro médio está jantando na sala, com a TV ligada. Seu segredo consiste em selecionar assuntos e produzir reportagens que conduzam o telespectador, em doses homeopáticas e de maneira repetida, sempre a conclusões que favoreçam ao sistema em que vivemos, apelando ao conservadorismo na escolha de assuntos, na edição de imagens e na seleção de entrevistados/especialistas que vão “opinar” sobre os assuntos abordados.

Portanto, as Organizações Globo se constituíram como um fator determinante para a vida, os valores e muitas vezes as escolhas da população brasileira, sem que ela se dê conta disso. Com uma pitada de competência e marketing, a Globo é, sem dúvida, um dos grandes nós para a democracia no Brasil.

Quais são os desafios?

O primeiro deles é bem objetivo: é preciso formular um projeto de lei semelhante ao que está em vigor na Argentina, que impeça a qualquer grupo privado de mídia atingir com sua programação todo o território nacional, fator que deve ser exclusivo de emissoras públicas. Junto a isso deve ser instituído um órgão de controle e fiscalização da sociedade sobre as organizações de mídia, tal como existe em outros países.

O segundo é equilibrar as verbas de publicidade oficial entre as emissoras, deixando de lado, definitivamente, o critério de audiência, usado inclusive durante os governos Lula e Dilma, para repassar fortunas para as Organizações Globo.

O terceiro é fortalecer as organizações de mídia públicas, tal como existem em outros países: BBC, RAI, RTP, FT, etc. O maior passo para isso é aprender com a experiência da própria Globo, fortalecendo com os melhores profissionais o setor do jornalismo, criar núcleos de telenovelas e seriados para TV e oferecer aos clubes de futebol um contrato de exclusividade com a rede pública de mídia. Neste aspecto é preciso distinguir claramente a TV pública da TV estatal.

O desmonte do monstro em que se transformaram as Organizações Globo deve se dar exatamente pelo discurso da concorrência e do mercado. E só quem pode fazê-lo no Brasil, por mais paradoxal que seja, é o Estado brasileiro. Portanto, a democratização da mídia no Brasil passa pela possibilidade de um governo que tenha força no Executivo, expressão no Legislativo e respeito no Judiciário, mas, acima de tudo, respaldo nas ruas.

Toda rodada do Campeonato Brasileiro os comentaristas globais usam a expressão “lance polêmico”. É uma forma elegante ou cínica de dizer que houve erro de arbitragem, geralmente em lances que definem jogos. Imediatamente torcedores, repórteres, treinadores, árbitros, “especialistas” e um monte de gente se envolve na discussão que, via-de-regra, não gera qualquer modificação no sistema de arbitral do futebol.

O interessante é observar que desde que se instituiu o campeonato por pontos corridos a renda e o público do campeonato passou a cair, até porque as competições passaram a durar o ano todo, como ocorre com o Brasileirão e a Copa do Brasil. É verdade que a transmissão ao vivo pela TV aberta ou a cabo roubou boa parte do público dos estádios, hoje transformados em “arenas”.

O grande problema dessa fórmula dos pontos corridos é que ela não favorece à lógica comercial, porque se um ou dois clubes dispararem na ponta do campeonato as torcidas das outras agremiações perdem o interesse de acompanhar os jogos.
Para compensar esse “perigo”, que na verdade deveria servir para estimular o crescimento dos demais clubes, usa-se de diversos meios. O mais importante deles é dividir a competição de 20 clubes em três torneios: 1) os que disputam a liderança; 2) os que disputam as vagas para a Taça Libertadores da América (que agora serão seis); 3) os que disputam para não cair para a série B.

No entanto, existem outras formas de assegurar os interesses da emissora de TV que detém a exclusividade de exploração e comerciais das imagens do Campeonato Brasileiro. Uma delas é garantir que os clubes mais populares estejam sempre disputando a liderança dos torneios, incluindo a Copa do Brasil. E para isso vale fazer vista grossa ou pressão indireta sobre o trabalho da arbitragem.

Os árbitros são sugestionados a entender que Flamengo e Corínthians, os dois clubes de maior torcida, não podem ser prejudicados em qualquer circunstância. Erros que prejudiquem esses clubes não são tolerados pela comissão de arbitragem da CBF, que serve de sócia dos interesses da Rede Globo, e coloca os juízes na “geladeira”. E não há qualquer contradição entre promover os dois maiores em torcida do Rio e São Paulo, porque os torcedores dos clubes rivais certamente acompanham seus jogos. Afinal, a rivalidade não tem fim e também rende boa audiência.

Não há provas, mas há inúmeras evidências disso. Só no atual campeonato houve erros capitais, que definiram o resultado de partidas a favor do Flamengo em mais de cinco jogos. No entanto, caso a arbitragem fosse imparcial nessas partidas, o Flamengo estaria distante demais da ponta do campeonato, copada pelo Palmeiras, o que se refletiria na queda de audiência e de arrecadação junto aos patrocinadores. No caso do Corínthians, que está mal no Campeonato Brasileiro, o que explica os erros crassos de arbitragem no jogo com o Fluminense pela Copa do Brasil?

O futebol, como de resto tudo que se promove na sociedade capitalista, é um grande negócio, que movimenta fábulas de dinheiro. No entanto, os que mais perdem com essa fórmula-negócio são os clubes, os torcedores e os próprios jogadores. Quem mais ganha com isso é a empresa que detém os direitos de transmissão e imagem, os patrocinadores, os empresários de atletas e os cartolas.

Em outros países todos esses problemas estão presentes, uns mais outros menos, dependendo das circunstâncias. Ocorre que no Brasil há um porém: a principal emissora de TV é dona do espetáculo. Para provar isso basta ver o que diz o documento da CBF, que comunica a antecipação do jogo entre Santa Cruz e Botafogo de 22 de outubro (sábado) para 19 de outubro (quarta-feira), cujo conteúdo reproduzo abaixo:

INFORMAÇÃO DE MODIFICAÇÃO DE TABELA DATA: 10/10/16
Às Federações e Clubes:
Comunicamos a modificação abaixo assinalada, com relação à tabela original do Campeonato Brasileiro Série A/2016:
Jogo 312: Santa Cruz/PE x Botafogo/RJ
Modificação:
De: 22/10, sábado, às 17h0
Para: 19/10, quarta-feira, às 21h45
Local: Estádio do Arruda, no Recife/PE (mantido)
Solicitante: Rede Globo de Televisão
Motivo: Atender a grade de programação da Rede Globo.
Para: Feds.: PE / RJ
GLO / STV / PRE / POT / OUV
Manoel Flores
Diretor de Competições

O conteúdo dá bem a ideia de como funciona a coisa. No boletim da CBF não há sequer a preocupação de informar se os dois clubes foram consultados e se estão de acordo, além da administração do Estádio do Arruda. Oficialmente os dirigentes dos clubes em questão não manifestaram qualquer desagrado em relação à mudança de data do jogo, que encurtará o tempo de descanso e preparação de seus atletas para a partida.

Fica evidente que a Confederação Brasileira de Futebol é parceira e faz as vontades da Rede Globo. Isso pode nos remeter ao raciocínio lógico de que tudo que se passa nos bastidores do futebol brasileiro é de conhecimento da empresa. E também que a Globo tem mais do que uma parceria com a CBF, inclusive no que diz respeito à captação de patrocínios que envolvem a própria seleção brasileira de futebol.

Ou seja, os interesses econômicos e financeiros que envolvem o futebol brasileiro passaram a determinar as tabelas, a forma e o local do espetáculo e, em última instância, que clubes são interessantes privilegiar nas disputas, visando garantir o retorno de audiência da TV e os negócios de patrocinadores. Coisa semelhante aconteceu com os desfiles das escolas de samba, transformados no “maior espetáculo da Terra”, segundo a Rede Globo.

Há quem afirme que tudo isso não passa de “teoria da conspiração”. Particularmente detesto essa conduta, que coloca tudo e todos sob permanente suspeita, muito comum quando não se tem provas ou evidências consistentes sobre os interesses que movem os conflitos na sociedade. Como não sou adepto dela, vou colecionando evidências que me convencem, cada vez mais, que os únicos ingênuos no futebol brasileiro somos nós, os seus apaixonados torcedores.

É forçoso reconhecer que o maior vitorioso nas eleições municipais de 2016 foi o PSDB, não só pelo número de prefeituras que conquistou, mas pela expressão que seus candidatos tiveram em grandes centros, regiões metropolitanas e principais capitais do país. O PMDB, como sempre, manteve sua expressão eleitoral e também obteve resultado satisfatório. O PSB e o PDT cresceram por um viés de direita e algumas legendas menores também avançaram. Mas em meio a uma crise de legitimidade dos partidos, sobressaem as lideranças regionais, acima das legendas.

O grande derrotado, é óbvio, foi o PT. Não que o partido esteja morto ou condenado definitivamente ao ostracismo. O envolvimento do setor que comanda o PT não é menor na Lava-Jato que o PMDB, o PP e mesmo o PSDB, caso o grupo midiático-judicial não tivesse interesses tão evidentes na condução dos escândalos e tratasse o caso de forma equilibrada. No entanto, a exposição negativa do PT e a impopularidade da Presidente Dilma contribuíram decisivamente para o resultado eleitoral pífio nessas eleições.

Isso se deve às escolhas políticas que o próprio PT fez nos últimos anos, que o isolou de um campo da esquerda e forneceu aos partidos conservadores a força necessária para desalojá-lo da Presidência, através de um golpe parlamentar. O próximo passo, sem dúvida, será tornar Lula inelegível, apagando as esperanças de ressurgimento do partido nas eleições de 2018. A saída para esse partido será realizar uma profunda autocrítica, renovar sua direção e mudar sua orientação política para a esquerda. O desgaste do grupo encabeçado por Lula, Zé Dirceu e Palocci é evidente.

O problema é que a derrocada petista respingou em toda a esquerda, que praticamente ficou estacionada em sua mediocridade eleitoral. É verdade que o PSOL avançou em algumas das principais capitais, como Rio, Belém e Porto Alegre, tendo resultados honrosos em algumas outras, como Natal e Florianópolis, mas ainda muito calcado no destaque de algumas de suas lideranças locais e não como projeto político em si. O PSTU e o PCO mais uma vez se consolidaram como esquerda marginal, invisível no processo político.

Se houve um grande derrotado fora das hostes governamentais foi, sem dúvida, a Rede Sustentabilidade de Marina Silva. Seus candidatos obtiveram resultados inexpressivos em praticamente todas as capitais, com exceção de Macapá e Rio Branco. Logo após o primeiro turno, um grupo de intelectuais decidiu lançar manifesto rompendo com o partido.

Essa espécie de “terceira via”, que buscava se afirmar entre a polarização PT X PSDB, apresentando-se como uma alternativa no plano das ideias ambientalistas e com métodos horizontais em sua construção partidária, não suportou duas eleições. O que era para ser o pilar de sustentação daquele projeto, a figura de Marina Silva, acabou sendo justamente o ponto de discórdia que causou o rápido desgaste da legenda.

A ladeira abaixo começou no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando Marina decidiu apoiar Aécio Neves (PSDB) contra Dilma Rousseff (PT). Seria compreensível se Marina desse um apoio crítico a Dilma e talvez o melhor fosse mesmo não assumir qualquer compromisso naquele momento. Mas sua opção à direita decepcionou a muitos na esquerda e no campo progressista, que viam seu projeto partidário com expectativas. Não seria de espantar se aquela decisão tenha sido tomada a partir de um cálculo político de quem pretende cobrar o apoio dos tucanos num eventual segundo turno, em 2018.

O segundo desastre para a Rede se deu quando da mudez de sua principal liderança diante da crise política que culminou com o golpe parlamentar de 2016. Recentemente Marina deu entrevista ao Estadão, afirmando que a reforma política já começou com a operação Lava-Jato. Agora, no primeiro turno das eleições municipais, Marina e sua Rede conseguiram fazer alianças como a de Porto Alegre, com o PMDB, além de Niterói (RJ), em torno de um candidato que saiu do PT e tem fortes ligações com o PMDB regional e a máfia das empreiteiras.

Ainda assim, em pleno segundo turno, Marina sequer manifestou seu apoio a candidatos como Freixo (Rio) ou Edmilson (Belém), contra candidatos que representam o que há de mais atrasado na política nacional. Aliás, a mesma postura de Ciro Gomes (PDT), que vem se preparando para ser a alternativa eleitoral em 2018 junto ao eleitorado de esquerda ou progressista. Os dois sabem que não podem reforçar o PSOL, mas Marina foi mais além, provavelmente vislumbrando um apoio do eleitorado evangélico à sua candidatura presidencial daqui a dois anos.

Não lamento por Marina, que historicamente sempre teve posturas mais moderadas que a do grupo dirigente do PT, mas por uma série de amigos e companheiros que caíram em sua Rede. A começar por Heloísa Helena, figura cuja trajetória de luta nada tem a ver com a de Marina, seu ambientalismo ongueiro e seu personalismo messiânico. A política dá muitas voltas e pode ser que este prognóstico se desfaça até 2018, mas será muito difícil a Marina atrair novamente gente séria em torno de sua liderança e sua candidatura presidencial.

A chegada de Marcelo Freixo ao segundo turno das eleições municipais, no Rio, com o bispo Crivella tem inúmeras facetas a serem consideradas. É a afirmação de uma esquerda não petista, que procurou defender a democracia contra a ruptura institucional, patrocinada pelos golpistas. É a afirmação de uma esquerda que tem apelo na juventude e em suas bandeiras libertárias. É a afirmação de uma esquerda que rejeita compromissos com o poder econômico e os grandes financiadores de campanha.

Isso tudo e muitos outros argumentos somam para explicar os 18% de Freixo no primeiro turno e sua ida ao segundo turno, inclusive aspectos de ordem subjetiva, como a empatia do candidato. Mas há outro aspecto fundamental que não pode ficar de fora da análise do resultado do primeiro turno: o governo Paes se apresentou com uma candidatura frágil, facilmente atacável e que dividiu sua própria base.

Paes colocou questões pessoais acima da política

A escolha de Pedro Paulo como seu sucessor foi muito mais uma determinação pessoal de Eduardo Paes do que um cálculo político racional. Talvez o Prefeito acreditasse que Pepa fosse uma espécie de Dilma, quando Lula a lançou a Presidência, ou seja, um poste. Talvez achasse que sua obra a frente da Prefeitura garantiria votos o suficiente a quem quer que por ele fosse indicado. Talvez desconfie das pretensões em carreira-solo tanto de Índio da Costa quanto de Osório. Mas a verdade é que a candidatura de Pepa era um tremendo telhado de vidro, pelas questões que o fragilizavam pessoalmente, além de não unificar a base governista.

O resultado do primeiro turno indica claramente que a soma dos votos de Pedro Paulo (16,12%), Índio da Costa (8,99%) e Roberto Osório (8,62%), todos originários da equipe de Paes (total de 33,73), alcançaria percentual suficiente para levar um candidato do governo Paes ao segundo turno. Pode-se argumentar, com razão, que política não se mede apenas somando votos. É verdade, mas certamente uma candidatura forte, que unificasse o campo governista, teria votos para chegar ao segundo turno com chances de vencer.

Segundo turno é outra eleição

Dito isso, é fundamental que em pouco tempo de campanha a candidatura de Freixo fuja das armadilhas eleitorais e consiga crescer, sobretudo nos bairros populares e favelas. Para isso deve evitar polêmicas no campo religioso, conter o ímpeto de parcela da militância que coloca como bandeira central de campanha as questões ligadas aos costumes, numa sociedade majoritariamente conservadora. Crivella tentará pegá-lo por esses aspectos, ligando sua candidatura a uma consequência imprevisível caso seja vitoriosa, uma espécie de “aventura”.

Freixo tem um ponto muito positivo a seu favor: o tom didático de sua oratória. Isso precisa e pode ser melhor explorado agora, no segundo turno da campanha, quando os candidatos terão tempo igual de campanha na TV e no Rádio. Foi algo que o ajudou muito no embate com Pedro Paulo, nos debates do primeiro turno. Agora o confronto é com um candidato mais maduro, sereno, astuto, com boa penetração e que sabe falar com os setores populares.

Disputa em aberto

No entanto, a disputa está em aberto. Mesmo a grande massa de eleitores que se absteve, votou nulo ou em branco (cerca de 40%), sofrerá pressão muito maior no segundo turno eleitoral, quando o voto será decisivo. Como nenhum dos candidatos conseguiu maioria expressiva no primeiro escrutínio, é de se supor que a luta pelo voto será mais acirrada.

Estão em disputa os votos dos demais candidatos, majoritariamente conservadores. O apoio pessoal e partidário de algum deles pode não ter muita influência sobre o eleitor, diante de uma escolha por exclusão, o “mal menor”. O que pode pesar nessa definição é justamente a posição de Freixo e do Psol em relação ao impeachment da Presidente Dilma, diametralmente oposta a de Crivella.

Crivella tem a vantagem de largar na frente, mas também encontra muita rejeição nas camadas médias em função de seu vínculo umbilical com a Igreja Universal, do bispo Macedo. Freixo precisa avançar para a Zona Oeste e a Leopoldina, duas áreas em que sua votação foi muito baixa e nas quais Crivella saiu vitorioso no primeiro turno. Nessas áreas populares o voto a ser disputado é, sobretudo, do eleitor que votou em Pedro Paulo, um voto governista.

Firmeza e diálogo com o eleitorado

A polarização política do país pode ser um fator diferencial neste segundo turno, diferente de outras eleições. Crivella tentará vincular Freixo ao PT, inclusive porque Freixo foi do PT e o Psol foi contra o impeachment de Dilma. No entanto, Crivella foi ministro de Dilma e só pulou fora do barco quando ele já estava afundando.

Como se vê, o xadrez político da eleição à Prefeitura do Rio neste segundo turno é mais complicado do que parece. O desafio de Freixo é enorme num quadro que é extremamente desfavorável para a esquerda, em função da desmoralização do PT, através da operação jurídico-policial-midiática conhecida como “Lava-Jato”.  Mas não é impossível, diante das fragilidades de seu adversário.

Será necessária uma postura firme, mas de diálogo tanto com os mais pobres quanto com setores da classe média, sem abrir mão de apresentar propostas factíveis, que coloquem uma alternativa de gestão ao poder dos grupos monopolistas, que mandam e desmandam no Rio. Será preciso franqueza com o eleitor nas ruas e nos debates.

NÓS ERRAMOS

03/10/2016

betto

Reproduzo, abaixo, texto do frei Betto* sobre acertos e erros do PT em seus 13 anos de governo federal e de administrações municipais e estaduais. Pode ser um ponto de partida para a reflexão de petistas e não petistas, sobretudo aqueles que não perderam a convicção de que é possível fazer política de esquerda com um horizonte mais amplo e, ao mesmo, com os pés no chão.

Continuo a fazer coro com o “Fora Temer” e a denunciar, aqui na Europa, onde me encontro a trabalho, a usurpação do vice de Dilma como golpe parlamentar. Porém, as forças políticas progressistas, que deram vitória ao PT em quatro eleições presidenciais, devem fazer autocrítica.

Não resta dúvida, exceto para o segmento míope da oposição, que os 13 anos do governo do PT foram os melhores de nossa história republicana. Não para o FMI, que mereceu cartão vermelho; não para os grandes corruptores, atingidos pela autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal; nem para os interesses dos EUA, afetados por uma política externa independente; nem para os que defendem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; nem para os invasores de terras indígenas e quilombolas.

Os últimos 13 anos foram melhores para 45 milhões de brasileiros que, beneficiados pelos programas sociais, saíram da miséria; para quem recebe salário mínimo, anualmente corrigido acima da inflação; para os que tiveram acesso à universidade, graças ao sistema de cotas, ao ProUni e ao Fies; para o mercado interno, fortalecido pelo combate à inflação; para milhões de famílias beneficiadas pelo programas Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida; e para todos os pacientes atendidos pelo programa Mais Médicos.

No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros. Em 13 anos, não promovemos a alfabetização política da população. Não tratamos de organizar as bases populares. Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia. Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno.

Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas. Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como a agrária, a tributária e a previdenciária. Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política.

Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela óptica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé?

Por que abandonamos as periferias; tratamos os movimentos sociais como menos importantes; e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes?

Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários; usufruímos de suas mordomias; fizemos do poder um trampolim para a ascensão social.

Trocamos um projeto de Brasil por um projeto de poder. Ganhar eleições se tornou mais importante que promover mudanças através da mobilização dos movimentos sociais. Iludidos, acatamos uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite.

Agora chegou a fatura dos erros cometidos. Nas ruas do país, a reação ao golpe não teve força para evitá-lo.

Deixemos, porém, o pessimismo para dias melhores. É hora de fazer autocrítica na prática e organizar a esperança.

*Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.