Há dias assisto às entradas ao vivo de repórteres das principais redes de TV aberta, “direto da Rocinha”, como anunciam os âncoras do noticiário. Mentira, eles não passam da Via Apia. Para quem não sabe, trata-se de uma das principais entradas da favela, beirando o asfalto de quem sai do Túnel Zuzu Angel.

De lá ou de outro ponto das redondezas da Rocinha, às vezes da passarela que liga a comunidade ao outro lado da rua (Autoestrada Lagoa-Barra), rapazes e moças paramentados com coletes e, às vezes, capacetes com a inscrição “Imprensa”, repetem comunicados oficiais ou o óbvio: “Há pouco ouvimos um tiroteio”.

Não há nada mais artificial e rasteiro do que pretender informar à sociedade sobre o que se passa em um lugar sem ao menos estar naquele lugar. Que dirá sem conhecer o lugar. É assim que assisto, perplexo, ao noticiário sobre a “guerra na Rocinha”, como se houvesse “mocinhos e bandidos”, numa fábula hollywoodiana. Assim as coisas são tratadas, o que justifica a histeria pela intervenção militar, hoje no Rio, amanhã em todo o país. Por que não?

É assim que todos os dias nos acostumamos com a narrativa superficial na telinha sobre o que acontece no Mundo, no Brasil e na nossa cidade. Poucos repórteres e equipes de reportagem, pouca investigação, muito comentário e achismo, pouco fato, pouco substantivo e muito adjetivo, sem contar as lições de moral e as caras e bocas de apresentadores.

Melhor consultar o site da BBC Brasil ou o El País digital, que reservam reportagens e entrevistas com moradores e personagens que vivem o dia-a-dia da Rocinha. Para descobrir os meandros da briga de facções (CV X TCA com apoio do PCC) o jeito é acompanhar o canal da TV Coyote, ancorado por um jovem paulistano no Youtube.

O repórter que mais conhece a Rocinha é um inglês, que se mudou e morou três meses na favela, gravou 28 horas de conversas com o Nem e publicou o livro “O dono do morro”. Misha Glenny estudou o tráfico de drogas por quatro anos e, em entrevista à Globonews, ainda confessou conhecer pouco do assunto.

No Rio já perdemos o Correio da Manhã, a Última Hora, o Jornal do Brasil, a Tribuna da Imprensa e a Luta Democrática. Nas bancas estamos limitados a ler as manchetes de dois grupos empresariais de comunicação: O Globo (Extra e Meia Hora) e O Dia (Expresso).

Cercada de uma mídia empresarial medíocre, mais atenta à venda de produtos do que ao papel de informar, a sociedade fluminense e brasileira assiste todos os dias a um noticiário faz-de-conta. Uns mais outros menos sensacionalistas, uns mais outros menos apelativos, mas todos, absolutamente todos superficiais. O Brasil de verdade não encontra lugar nas páginas dos jornais, nas reportagens de rádios e TV e nos sites dos grandes grupos de comunicação.

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Braço importante da violência urbana e da extorsão de moradores das áreas mais pobres do Rio e Grande Rio, as milícias ocupam hoje (2017) mais da metade das regiões governadas pela criminalidade. Formadas inicialmente em nome do combate à violência das facções criminosas, as milícias, comandadas por policiais e ex-policiais e bombeiros, passaram a adotar as mesmas práticas da bandidagem.

Primeiro ofereciam proteção armada a comerciantes e moradores de favelas e bairros populares, depois entravam com outros serviços, como a venda de TV a cabo, internet, transporte alternativo, venda de gás em botijão, etc. Hoje esses grupos fazem acordos com setores da bandidagem para explorar pontos de camelôs, caça-níqueis e até prostituição. Mais recentemente somou-se a essas áreas de arrecadação o próprio tráfico de drogas, com o recrutamento de ex-traficantes.

O crescimento das milícias está associado à percepção de que o Estado não cumpre o papel de prover as comunidades carentes do mínimo necessário nas áreas sociais, e que elas estão largadas à sua própria sorte e ao domínio da bandidagem. Essa percepção fez crescer os olhos de policiais e ex-policiais que residem ou atuam nessas regiões, muitas vezes chamados por comerciantes a intervir para “limpar a área” de marginais.

No entanto, foi nos anos 90 que essa atuação informal se transformou em organização criminosa. A maior das milícias de que se tem notícia no Rio atende pela alcunha de Liga da Justiça, em função de dois policiais que agiam na Zona Oeste, apelidados de Batman e Robin. Aos poucos, sua atuação se estendeu por toda a Zona Oeste do Rio.

Em 2008 o deputado Marcelo Freixo comandou a CPI das milícias, na Assembleia Legislativa do Rio. 226 pessoas foram apontadas como membros das milícias, incluindo vereadores, deputados e até um ex-secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, e um ex-chefe de polícia, Álvaro Lins. Alguns dos acusados foram presos posteriormente, inclusive Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman.

Entre os milicianos destacavam-se o deputado estadual Natalino José Guimarães, o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras (DEM), o vereador André Ferreira da Silva, o Deco (PR), o vereador por São Gonçalo Geiso Pereira Turques, o Geiso do Castelo (PDT), e o vereador por Duque de Caxias Sebastião Ferreira da Silva, o Chiquinho Grandão (PTB), além dos vereadores eleitos Carmen Glória Venâncio Guimarães, a Carminha Jerominho (PT do B), e Cristiano Girão (PMN). Também foi indiciado o ex-deputado estadual e ex-chefe da Polícia Civil do Rio Álvaro Lins.

Observe-se que a atuação de milicianos organizados se expandiu para a Baixada Fluminense e São Gonçalo, áreas mais pobres e densamente povoadas do Grande Rio.

Dados do Ministério Público mostram que desde 2007 até o primeiro semestre de 2017 foram 1.276 prisões de milicianos, sendo 235 de PM. Nos últimos dez anos, no entanto, o perfil dos envolvidos mudou, com destaque para ex-policiais, assim como o seu modus operandi. Os policiais da ativa passaram a agir por trás desses grupos, mas não aparecem diretamente nas ações os grupos milicianos.

Antes prevalecia o assassinato e exposição dos mortos, como forma de mandar recado. Agora, os milicianos somem com os corpos de suas vítimas. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o Rio tem mais de 33 mil desaparecidos, desde 2002. Desse total, as delegacias da Zona Oeste lideram o ranking no estado, com destaque para Campo Grande (3.088) e Santa Cruz (2.365).

O poderio das milícias, que já controlam mais da metade das áreas conflagradas, supera em muito os grupos do tráfico varejista de drogas. Elas têm contato direto e gente trabalhando nos órgãos de segurança do Estado, o que facilita sua atuação e camuflagem. Sua influência política se manifesta na eleição de prefeitos, deputados e vereadores, o que as torna uma força política poderosa em todo o Rio e Grande Rio.

O crescimento do tráfico de drogas e de armas é um fenômeno mundial, na medida em que o consumo de entorpecentes se tornou um negócio extremamente rentável, com um mercado internacional, e sempre foi combatido com apelos morais e pouco racionais.

No Brasil a primeira organização criminosa que lançou mão do tráfico de drogas foi a Falange Vermelha. Ao final da década de 70, depois de conviver nos presídios do Rio e perceber como os presos políticos se organizavam para construir uma rede de solidariedade externa, parte da bandidagem decidiu criar uma espécie de irmandade para defender os presos comuns e suas famílias, completamente desamparadas pelo Estado.

As primeiras ações foram assaltos a bancos, o que rendeu bons resultados, mas desencadeou uma perseguição implacável da polícia. Muitas lideranças foram mortas ou presas. Foi então que se desenvolveu uma lógica de conquista e domínio de territórios, a partir das favelas, espaços urbanos em que o Estado estava ausente e de difícil acesso para a polícia. A partir daí, o financiamento do grupo passou a ser feito com a venda de maconha e, mais tarde, a cocaína. Nos anos 80 uma nova geração assume e passa a adotar o nome de Comando Vermelho (CV).

Criado a partir de um grupo de lideranças que foram removidas do Carandiru, após o massacre de 1992, o Primeiro Comando da Capital (PCC) também surgiu dentro da cadeia (Taubaté-SP), com a finalidade de organizar a massa carcerária contra os maus tratos e más condições nos presídios.

Aos poucos, por contar com líderes articulados e a fama de práticas sanguinárias – como cortar as cabeças dos adversários – o PCC cresceu e organizou uma rede de solidariedade e ações criminosas fora das cadeias. Sua atuação se expandiu por todo o estado de São Paulo.

Com a permissividade do Estado, incapaz de oferecer alternativas de sobrevivência e ascensão social aos setores mais desfavorecidos da juventude, essas duas facções criminosas cresceram e se expandiram, fazendo alianças com outros grupos regionais em todo o país.

Para o crescimento do tráfico de drogas e armas muito colaborou a corrupção policial e a falta de interesse das classes dominantes em compreender e atacar o problema. Grande parte da polícia usa sua prerrogativa de corpo armado do Estado para extorquir e vender armas para traficantes.

Já os grupos políticos dominantes toleram o tráfico, desde que este não mexa com seus negócios. Partidos e líderes políticos das elites fazem um discurso demagógico contra a bandidagem, mas realizam acordos com as facções criminosas quando se trata de buscar votos nas comunidades dominadas por elas.

O chamado “crime organizado” atua em todo o Brasil, recebendo drogas de países vizinhos produtores de maconha e cocaína, além de armas, através do contrabando do Paraguai e dos EUA, nações em que o controle de venda de armamentos é limitado.

O PCC e o Comando Vermelho não são, propriamente, organizações que comandam o tráfico internacional de entorpecentes, mas redes fundamentais para a venda no mercado brasileiro e no escoamento de drogas para os mercados da Europa.

Até o final de 2016 o PCC e o CV mantinham relações de colaboração, dividindo espaços e alianças pelo país. O PCC é uma organização mais sofisticada e começou numa época em que o mercado consumidor demandava a cocaína e o crack. Sua ação envolve um esquema empresarial de lavagem do dinheiro que arrecada. Já o CV começou com a maconha e depois a cocaína. Sua organização é menos sofisticada, limitando-se a recolocar os recursos que arrecada no próprio negócio do tráfico.

Aparentemente as operações mais sofisticadas e organizadas (compra e contatos nos países produtores de drogas e contrabando de armas) são executadas pelo PCC. Já o CV tem sua atuação mais focada na rede de abastecimento de drogas no mercado interno, em aliança com outros grupos no Rio e no Brasil.

Os principais líderes vivos do PCC são Marcola, Gegê do Mangue, Paca e Edilson Mirosca. A eles se juntou o Fantasma, que ficou responsável por recrutar membros e organizar o PCC no Rio. Já no CV os líderes mais influentes são Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco e Marcinho VP, todos presos.

No início de 2017 estouraram conflitos dentro das penitenciárias no Norte e no Nordeste do país, que originaram dezenas de mortes. Foi o anúncio do rompimento oficial entre CV e PCC. No Rio, dois grupos com alguma força – o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Amigos Dos Amigos (ADA) – decidiram se fundir, no que hoje se denomina de Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

A disputa pelo comando da Rocinha é parte desta guerra entre os principais grupos organizados do tráfico de drogas. O PCC decidiu se aliar ao TCA, para enfraquecer o CV e seus aliados. Não se pode dizer que Rogério 157, ex-preposto de Nem, esteja incorporado ao CV, mas sabe-se que ele não acompanhou Nem e seus comandados na aliança com o PCC.

Há uma grande parcela do povo brasileiro que vive a expectativa de que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, uma salvação virá para nos redimir de nossos problemas. É assim nos clubes de futebol (à procura de um grande craque), na religião (em busca de um messias), com a saúde (receitas milagrosas) e até na sorte (um grande prêmio na loteria).

Enquanto esse fetiche da “salvação da pátria” se resume às questões pessoais, crenças e desejos, tudo bem. Mas quando isso passa para o plano da política as coisas se complicam. É a tentativa de projetar no outro tudo que gostaríamos de ser e fazer e que não podemos ou não temos a coragem.

“Se fulano vencer vai ser f…”. “Se beltrano assumir tudo vai mudar”. “Se cicrano souber disso a cobra vai fumar”. São expressões comuns, repetidas aos quatro ventos pelas pessoas, que reforçam esse fetiche do semideus, o todo poderoso que vai dar um jeito nas coisas que julgam erradas.

Na esquerda o fetiche é com Lula, ainda que nem de esquerda ele possa ser classificado. Ou por acaso Lula anda defendendo o socialismo, a expropriação do grande capital e um regime baseado em conselhos populares por aí? Mas os que o julgam de esquerda não querem saber e sentenciam: “O Lula vai voltar e aí vocês vão ver…”.

Ver o que? O que foi que se viu em oito anos de Lula na Presidência? Muito menos ousadia do que os três anos incompletos de João Goulart e suas reformas de base, acusado de comunista e derrubado por um golpe militar. Nem aos pés dos menos de três anos de Allende e seu governo da Unidade Popular, no Chile. E muito menos do que representou Hugo Chaves e seu socialismo do século XXI para a Venezuela.

No campo oposto, o da direita, o fetiche está em Jair Bolsonaro. De repente, um ex-oficial do Exército, afastado das Forças Armadas por atos de indisciplina, virou o exemplo a ser venerado, ao ponto de muitos o chamarem de “mito”. “Se o Bolsonaro chegar à Presidência vai acabar essa pouca vergonha”, sentenciam por aí.

Será que essas pessoas já pararam para observar as palavras e atitudes destemperadas de seu ídolo? Será que não entenderam que Bolsonaro vive num teatro, que faz de sua atuação a representação de uma personagem em busca de um filão eleitoral ultraconservador? Será que não enxergam que seu “mito” fez disso um meio de vida para se eleger por vários mandatos?

Pior que isso só os que usam a decepção política da maioria dos brasileiros para pregar o velho receituário do regime militar. “No tempo dos militares não tinha corrupção, vivia-se em paz”, decretam. Isso só reforça a necessidade de uma revisão histórica completa acerca dos 21 anos da ditadura militar brasileira.

Ou seja, grande parte dos brasileiros adultos parece não ter saído da infância, busca em algo ou em alguém, tal qual uma criança que espera por um milagre ou um herói, a redenção do país. Como se a solução dos nossos problemas não fosse da responsabilidade de todos, em vez de ser delegada a um salvador que virá, não se sabe de onde, para curar-nos de todos os nossos males.

Talvez esse comportamento infantil explique a guerra nas redes sociais, em que imperam os adjetivos e xingamentos de lado a lado. Essa personificação da disputa política deixa de lado o debate sobre as engrenagens do sistema, às quais estamos presos, enquanto se discute o “Fla X Flu” despolitizado de lulistas e bolsonaristas.

Faz tempo não arrisco palpites sobre a situação política do país. Também pudera: não encontro ninguém que tenha certeza do que pode acontecer no dia seguinte. A impressão que se tem é que a Operação Lava-Jato destampou um bueiro do qual estão saindo coisas cada vez piores.

Os próprios procuradores do Ministério Público Federal e o juiz Moro, que tinham como meta inicial não deixar pedra sobre pedra do PT, há muito já perderam o controle das coisas. Há denúncias no âmbito da Procuradoria Geral da República, outras que devem ser analisadas e julgadas pelo STF, além de operações com ramificações no Rio, Brasília e em outras capitais, com o dedo gordo da Polícia Federal. Aliás, PF que também tem suas alas e interesses.

Ou seja, o bueiro destampado em Curitiba abriu o caminho para inúmeras operações e investigações, que alcançaram todos os grandes partidos políticos, ministros e ex-ministros, deputados, governadores e senadores, Temer, Lula e Aécio, grandes grupos empresariais, como a JBF e a Odebrecht, além dos senhores ministros do STF.

O golpe parlamentar-empresarial de 2016 produziu resultados pífios, para não dizer desastrosos, no campo da economia. A receita de aprofundar a recessão e ampliar os cortes de investimentos públicos, iniciada no final do governo Dilma, gerou desemprego gigantesco, queda na produção, redução da arrecadação de impostos e redução do consumo das famílias. Tudo resultado da “Ponte para o Futuro”, programa redigido pela FIESP, com o apoio da banca, que prometia a retomada do crescimento a partir da retirada de Dilma do Planalto.

A impressão que se tem é que se instaurou um verdadeiro pomba-rolou, um bangue-bangue entre grupos de interesses que antes se acomodavam nos palácios, palanques e ministérios. A partir de denúncias, com base no benefício da “delação premiada”, ninguém está a salvo de ver seu nome e seus interesses atirados ao fogo, em meio ao tiroteio em que se transformou a política nacional.

Nesse clima de vale-tudo, as Organizações Globo e os estrategistas do sistema procuram preservar as tais reformas milagrosas, que salvariam o país de todos os males: trabalhista (já aprovada), previdenciária (prejudicada pela falta de acordo) e política (deturpada pelos interesses dos próprios parlamentares). Ocorre que mesmo para aprovar essas medidas seria necessário um mínimo de unidade e tranquilidade política, coisa que hoje parece impossível.

Assim, sem lideranças políticas sólidas e respeitáveis e com resultados econômicos sofríveis, as classes dominantes não conseguem tocar o barco a um porto sólido, tendo Temer como timoneiro. Por sua vez, a grande massa da população assiste ao noticiário político como se acompanhasse a uma novela de terror, cheia de fortes emoções. A impressão que se tem é que a sabedoria popular vai sendo confirmada a cada capítulo, cada mala de dinheiro, cada gravação, cada delação, cada votação.

Também sem líderes confiáveis e sem organização, a grande massa do povo brasileiro se atém à tarefa de tentar sobreviver, em meio ao desemprego e as contas para pagar. Isso até que uma fagulha atinja esse verdadeiro palheiro seco em que se transformou o Brasil, prestes a arder em grandes labaredas.