Reproduzo, a seguir, o texto de encerramento do Programa radiofônico BOCA LIVRE, do qual tive a honra de ser um dos idealizadores e apresentadores durante mais de 17 anos, primeiro na Rádio Bandeirantes e depois, na Rádio Tropical do Rio.

 

Amigos ouvintes,

Depois de 17 anos no ar o Programa Boca Livre chega ao fim, nesta quinta-feira, 26 de setembro de 2013. É triste reconhecer isso, mas a máxima da evolução das espécies também cabe para nós: as coisas nascem, crescem, se desenvolvem e morrem.

Durante algum tempo vai ser muito chato para nós, da equipe do Programa, saber que neste horário, de 13h às 14h, quando normalmente estaríamos com vocês, já não vamos mais entrar em suas casas e locais de trabalho, pelo velho e bom rádio de cabeceira, o radinho de pilha ou pela internet.

Para nós foi mais do que um projeto profissional, até porque, se dependêssemos do que o Programa nos rendia financeiramente já teríamos abandonado o Boca Livre.

Nestes anos de convívio com vocês, desde o tempo da Bandeirantes até estes sete anos aqui na Tropical, só procuramos fazer jornalismo, de maneira adequada ao que pediam o formato e o horário do Programa.

A carência de recursos e de pessoal nunca nos impediu de fazer um programa valente, antenado com as principais questões em discussão no Brasil e no Mundo. A informação, o debate e a polêmica, principalmente nos últimos anos, se tornaram marcas do Boca Livre. E foi isso que nos conferiu o respeito de muitos colegas e a credibilidade da sua audiência.

O que hoje alguns apresentadores e analistas de rádio fazem com entusiasmo – criticando de forma aberta os governantes, cobrando coerência das autoridades, mostrando as contradições que gritam na nossa sociedade – foi o que nos motivou a lançar o Boca Livre há dezessete anos atrás. Quando começamos éramos considerados ousados demais.

Os motivos que nos levam a encerrar o Programa são dois: o primeiro e básico é a absoluta falta de condições financeiras para cobrir as despesas com o horário e a equipe; o segundo, é a convicção de que as coisas têm seu tempo e seria necessário repensar o formato e o espaço do nosso Boca Livre, adequando-o às exigências de uma nova realidade.

Ao longo de todos esses anos fizemos e alimentamos uma legião de amigos e colaboradores. Não cabe aqui citar um a um, porque são tantos que poderíamos cometer injustiças. Mas temos a convicção de que o que nos moveu durante todo este tempo foi a grande legião de ouvintes que colecionamos.

O que sempre nos moveu ao longo de todos estes anos foi a necessidade de um jornalismo direto, sem rodeios, independente. Cada entrevista que colocamos no ar, cada convidado que trouxemos ao estúdio, cada polêmica apaixonada que alimentamos tiveram por objetivo provocar o debate, o choque de idéias, para que vocês, ouvintes, pudessem formar – por sua conta e vontade – suas opiniões próprias.

Assim também ajudamos a formar novos profissionais. Muitas de nossas estagiárias hoje são colegas, atuando com desenvoltura nas mais diversas áreas do jornalismo.

É uma pena que este ciclo se feche justamente quando mais a sociedade brasileira clama pela democratização dos meios de comunicação, quando todas as máscaras caíram, principalmente a da chamada “grande mídia” e seu formato pasteurizado e elitista.

Infelizmente aqueles que poderiam ou deveriam apostar numa mídia democrática, estão mais preocupados com a missão mesquinha de assegurar suas posições e pequenos espaços.

Certamente outras portas e microfones se abrirão para nós, como profissionais, e para vocês também, como ouvintes. Tenham certeza que, por onde passarmos e aonde nos encontrarmos, a marca desta experiência será sempre uma referência presente.

Nos despedimos por aqui, com a certeza de que fizemos o melhor, dentro do que estava ao nosso alcance, como profissionais que somos do jornalismo e do Rádio. A todos os ouvintes e amigos do Programa Boca Livre nosso eterno abraço e gratidão. 

Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2013.

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Uma das coisas que se aprende na vida é que não se deve dar atenção ao que é desprezível. Isso se aplica a tudo, ainda mais na vida pública. A pior coisa que se faz com um certo personagem decadente da política é morder suas iscas.

Foi o que se viu mais uma vez na visita das comissões estadual e nacional da Verdade ao Batalhão da PM da Tijuca, um dos maiores centros de tortura da época do regime militar. O que era para ser um acontecimento de denúncia do regime e resgate das vítimas da ditadura, se transformou num bate-boca com um joão ninguém.

Em vez de ignorar as provocações daquela triste figura, o senador Randolphe Rodrigues e os que o acompanhavam caíram na bobagem de tentar barra-lo na entrada do quartel da PM. Resultado: a visita ao Batalhão da PE foi maculada, se transformou num circo e o intruso no palhaço que tomou a cena.

De algoz a vítima o fanfarrão, que usa a mídia para cativar o eleitorado mais reacionário do país, rodou sua baiana e conseguiu o que quis: mandar o recado ao setor conservador de que ele ainda é o guardião do anticomunismo e detém todos os direitos autorais da ditadura. E olhe que durante o regime militar este personagem sequer teve qualquer papel de destaque.

Será que ninguém percebeu que esta mísera figura só consegue notoriedade e votos justamente porque dão a ele tanta importância? E ainda vão processá-lo!? Para que? Para dar a esta coisa os holofotes que ele precisa para manter sua carreira parlamentar? É tudo que ele quer! É nova reeleição na certa!

É preciso tratar as coisas com mais seriedade, sobretudo as que dizem respeito à História recente do Brasil e suas feridas abertas. Não será batendo boca com um oportunista de menor importância que se vai atingir o objetivo de jogar luz sobre as trevas da ditadura, seus mandantes, financiadores, torturadores e assassinos.

O melhor que se faz com este tipo de personagem desprezível é ignora-lo, deixar que ele fale e grite sozinho como um bêbado ou um alucinado.

UPP da milícia!?

23/09/2013

Tanto faz se os chefes da milícia da região da Praça Seca e Jacarepaguá estão detidos. O que importa é que o negócio continue rentável. E para isso, nada melhor que plagiar ou pegar uma carona no programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), dando um ar solene a atuação dos milicianos.

Não é que os caras aderiram mesmo à idéia!? Montaram uma “UPP” na Chacrinha, comunidade da região que engloba cerca de treze favelas. Cobram de R$ 20,00 a R$ 50,00 por gato net, transporte alternativo e segurança privada a cada morador.

Se essa moda pega vai ficar cada vez mais evidente que o modelito oficial pode ser um exemplo a ser seguido por milicianos. Que o diga o sargento Ronald Força, do Batalhão de Choque da PM. A administração da milícia funciona numa casa de sua propriedade, com direito a inscrição da sigla “UPP” numa das paredes do imóvel, sugestivamente pintado de azul e branco…

 

Baile de máscaras no Palácio

Para homenagear nosso querido governador, os freqüentadores das rodas de música da Praça São Salvador (entre Largo do Machado e Laranjeiras), decidiram cair na folia e promover um Baile de Máscaras.

Não satisfeitos em animar a festa com instrumentos de metal e dar abraços coletivos nos guardas municipais, os foliões decidiram seguir até o Palácio Guanabara para levar as boas novas à sede oficial do governo do Estado.

Lá chegando, com suas máscaras e o bom humor bem carioca, entoaram cânticos carnavalescos na entrada do Palácio, sem esquecer das paródias que lembram o nome do próprio governador. Nada foi quebrado ou danificado.

A administração estadual, sempre mal humorada, decidiu processar os promotores do evento. Qual será a acusação? Vandalismo? Ocupação irregular de prédio público? Decididamente o governador tropeça em suas próprias pernas. Sendo filho de quem é, pelo menos poderia sobrar ao Cabral filho o espírito carnavalesco do seu pai.

Embargos indecentes

18/09/2013

O mais grave de toda essa história do Mensalão não é propriamente o fato, chamado de compra de votos por uns e de caixa dois por outros. Nem tão pouco os tais “embargos infringentes”, recurso de luxo que dá ao réu engravatado a possibilidade de recorrer quando consegue quatro votos favoráveis dos onze votos do STF.

O pior de tudo é a corte mais elevada da República ter os seus membros indicados pelo presidente de plantão e terem que demonstrar “notório saber”. Ora, que saber notório pode-se atribuir a Marco Aurélio de Mello? O fato de ser primo de Collor de Mello? É certo que não se deve generalizar, mas é evidente que o STF é um tribunal que se move por interesses políticos, sobretudo das forças que indicam seus membros.

O ministro Celso de Mello falou mais de uma hora para se justificar. Um falatório pseudo-técnico, que procurou ocultar o verdadeiro objetivo político de seu voto: oferecer aos réus do Mensalão um novo julgamento. Nem precisava porque estava na cara que votaria a favor do recurso, considerando-se suas manifestações anteriores a respeito do assunto.

O que pouco se fala é que, caso um novo julgamento não se conclua rapidamente – o que dificilmente ocorrerá – o crime de formação de quadrilha pode prescrever. Ou seja, é evidente que ao aprovar os “embargos indecentes”, o Plenário do STF, automaticamente, pode ter reduzido as penas dos mensaleiros, notadamente os doze do “Núcleo político”.

Fica claro que a Justiça só é dura com os trabalhadores e os pobres, mas sempre flexível com os mais abastados. Mesmo que sejam obrigados a pagar as penas pelos crimes que cometeram, os mensaleiros vão, no máximo, dormir na Papuda ou em outros presídios especiais para pessoal de nível superior.

Cabe lembrar que depois da votação do Mensalão a composição do STF foi alterada e dois novos membros, indicados pelo atual governo, assumiram as cadeiras de dois ministros que se aposentaram e votaram pela condenação dos mensaleiros. Em resumo, somos todos otários. O crime de colarinho branco compensa mesmo.

A briosa corporação Policial Militar do Rio de Janeiro acaba de cometer mais uma pixotada, desta vez em Paty do Alferes, cidade do interior. Decidida a coibir o tráfego (não é tráfico) de veículos por motoristas sem habilitação, a PM resolveu montar um blitz na cidade.

É bom lembrar que a expressão blitz é de origem alemã e foi muito usada durante a Segunda Guerra, reducionismo de blitzkrieg, uma espécie de “guerra relâmpago” que surpreende o inimigo com a concentração de tropas num mesmo ponto.

Seja como for, o resultado da empreitada foi desastroso em todos os sentidos. Uma motoqueira de 30 anos avistou a barreira policial e decidiu retornar. Foi perseguida por patrulhas da PM e, ao cruzar um quebra-molas – provavelmente em velocidade elevada – perdeu o capacete, desequilibrou-se e deu de cabeça no chão, falecendo na hora.

Um grupo de moradores, revoltado, decidiu partir para a ignorância e promover um quebra-quebra, incendiando a delegacia da cidade e veículos da PM.

A pergunta que fica é: Qual a eficácia deste tipo de atividade? Desde que me entendo por gente passo e às vezes sou parado em blitzen. O mais intrigante é que em nenhuma delas consegui avistar reboques, o que seria mais do que lógico, já que o objetivo é multar e rebocar os infratores.

Em verdade, salvo raras exceções, as blitzen da PM são instrumentos de achaque do motorista, uma forma oficializada de reforçar a caixinha. Muitas sequer possuem qualquer legalidade, porque não são comandadas por um oficial.

Se o cidadão que dirige sem habilitação e infringe a lei está errado e deve ser punido, mais errado ainda é promover achaque em vias públicas sob a alegação de fazer cumprir a lei. O episódio de Paty do Alferes só serve para provar mais uma vez que blitz não melhora em nada o trânsito e, em muitos casos ainda piora, provocando engarrafamentos e retenções.

A deputada estadual Janira Rocha, do Psol, vem sendo execrada pelas Organizações Globo em todos os seus veículos de comunicação. A razão: ter cometido crimes eleitorais, notadamente a cotização de funcionários do seu gabinete e o uso de recursos do Sindsprev/RJ em sua campanha eleitoral. O objetivo: jogar o Psol na vala comum de descrédito dos demais partidos políticos.

A cotização de funcionários é prática corrente nos gabinetes parlamentares de todas as siglas partidárias, certamente o que muda é a forma e a finalidade deste tipo de arrecadação. Se a cotização não é obrigatória e se limita aos militantes do partido – como é o caso do gabinete de Janira – não há o que condenar, desde que haja transparência no uso desse fundo.

A utilização de recursos de um Sindicato em apoio a um partido e seus candidatos também é uma prática corrente na esquerda. Apesar disso, neste caso não houve desvio de dinheiro público, porque o Sindsprev/RJ, ao contrário da maioria dos sindicatos, não recolhe Imposto Sindical e nem recebe dinheiro do FAT.

Particularmente sempre defendi contra isso, não por razões moralistas, mas porque essa política fere a autonomia das organizações dos trabalhadores frente aos partidos. O argumento de que as entidades empresariais contribuem para as candidaturas e partidos conservadores só reforça a tese de que esta é uma prática equivocada.

Mas o problema é que, pela legislação eleitoral vigente, é vedado a sindicatos contribuir financeiramente com candidaturas.

Coisa bem diferente e totalmente válida é pedir aos trabalhadores presentes a uma assembléia que contribuam espontaneamente com determinadas candidaturas, através de livros de ouro, rifas ou qualquer outra forma de doação.

Na esquerda há dois blocos com opiniões distintas sobre a situação de Janira Rocha: 1) Os que consideram essas práticas legítimas e até necessárias para o financiamento de partidos e mandatos, e não vêem nada de errado nisso; 2) Os que querem se livrar do “problema”, que se dizem surpresos, incomodados e exigem uma apuração dos fatos.

Sinceramente, discordo das duas posições. A primeira, porque não aceita debater o tema e apela para o fantasma de posturas do passado, que engessam a esquerda. A segunda, porque é hipócrita, foge do debate para se “preservar” e entrega a deputada Janira Rocha aos leões.

Do meu ponto de vista Janira Rocha errou em duas questões políticas básicas:

. Errou quando fez do Sindicato uma extensão de sua organização partidária, beneficiando financeiramente não só sua campanha, como a campanha de muitos outros candidatos do PSOL. Eis um dos motivos que explica a atual situação de bancarrota financeira do Sindsprev/RJ. E todos os “incomodados” de hoje sabiam disso. 

. Errou porque se afastou de companheiros que sempre defenderam idéias e jamais lutaram por cargos ou dinheiro. E também porque se cercou de pretensos “combatentes” das lutas populares, cuja verdadeira intenção para dela se aproximar era usufruir de benesses do Sindicato e de seu mandato.

Estes erros, graves, deixaram um rastro que vinha sendo maldosamente seguido por seus inimigos de classe. Na primeira oportunidade que surgiu, através dos métodos mais sórdidos, seus antigos “assessores” tiraram as máscaras e se mostraram como crápulas que são. Portanto, estas questões devem ser debatidas de forma clara, com a profundidade que elas demandam no Sindsprev e no Psol.

As Organizações Globo, o PMDB e o governador Cabral Filho querem a cabeça da deputada Janira Rocha. É obrigação dos que combatem por boas causas no Rio de Janeiro e no Brasil a defesa de seu mandato. Não para justificar os erros cometidos – que precisam ser debatidos – mas para assegurar que continuaremos a ter uma voz ativa em favor dos trabalhadores e do povo do Rio, uma trincheira de luta na Assembléia Legislativa.

Depois de cobrar explicações formais do governo Obama a respeito das denúncias de espionagem da Agência de Informações NSA sobre o governo brasileiro, a Presidente Dilma Roussef terá mais trabalho.

Agora, através de Edward Snowden, o Programa Fantástico revela que a Petrobras está na lista de empresas espionadas pela rede norte-americana. Portanto, a desculpa de que se trata de um sistema que monitora possíveis ações terroristas e trata da segurança preventiva dos EUA, se mostrou completamente esfarrapada.

O que de fato interessa ao governo dos EUA são informações privilegiadas sobre o potencial das reservas do Brasil, com a descoberta de petróleo nas camadas do pré-sal. As denúncias ocorrem semanas antes da realização da nova rodada de leilões de petróleo, comandados pelo governo Dilma, e nas vésperas de uma visita da Presidente aos EUA.

Na matéria exibida na TV, Roberto Villa, ex-diretor da Petrobras, declara que “se alguém dispõe dessa informação, ele vai numa posição muito melhor no leilão. Ele sabe onde carregar mais e onde nem carregar. É um segredinho bom”.

A Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET) e o Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro vêm denunciando o desperdício que envolve a privatização do petróleo nacional, cujos recursos podem representar uma alavanca fundamental para a superação de problemas estruturais do país, como a Saúde e a Educação.

Diante das evidências de espionagem desavergonhada por parte do governo Obama seria mais do que justo que todo o sistema de leilões de petróleo brasileiro fosse suspenso. É inegável que a lisura do processo – se é que se pode falar nisto – está comprometida. 

Há certas coisas em Sucupira que me dão muita vergonha. Uma delas é a truculência policial, herança de tempos mais obscuros. Foi o que se viu no 7 de setembro, nas principais capitais do país.

Qualquer pessoa com mochila, roupa preta ou que simplesmente se aproximasse dos desfiles oficiais foi tratada com desconfiança, autoritarismo e violência por parte da nossa briosa corporação policial militar. 

A preocupação das autoridades era tanta com as manifestações programadas no Dia da Independência, que deram carta branca para os meganhas. O saldo do 7 de setembro foi de 335 manifestantes detidos, algo que não se via desde a finada ditadura militar.

Diante do cenário dantesco que se viu durante o 7 de setembro só pude concluir que o Planeta dos Macacos é aqui. O regime adotado em Sucupira pós-ditadura lembra em muito o sistema retratado no filme de Hollywood. Ali os macacos, seres mais evoluídos, exerciam o poder político e aos gorilas – seus subordinados – cabiam a repressão e as demais atividades de combate aos humanos, então escravizados e aprisionados.

A situação chegou a tal ponto que, questionado sobre porque teria disparado spray de pimenta sobre manifestantes, um oficial da tropa de choque da PM de Brasília não teve dúvidas em responder: “Porque eu quis. Pode ir lá denunciar, ta bom? Capitão Bruno, BP Choque”.

A democracia sucupirana adquiriu características peculiares desde as manifestações de junho de 2013. Antes, atordoadas, as autoridades constituídas não sabiam como reagir às mobilizações populares. Agora afinaram o discurso. Todas repetem: “Manifestação é um direito de todos, mas…” Depois do “mas” aparecem dezenas de pré-requisitos para que uma manifestação popular seja admitida.

A resposta do policial da capital federal é um alerta aos governantes e juízes de Sucupira. Hoje eles riem, disparam balas de borracha, bombas de gás, avançam de cavalo, escudos, cassetetes e blindados contra os que estão nas ruas. Mas é bom lembrar o ditado popular: “Pau que dá em Chico dá em Francisco”. Ou seja, eles vão querer mais…

O modelo político adotado em Sucupira é uma ditadura civil-militar, que sustenta os privilégios de uma minoria reprimindo os seres humanos.

Um novo escândalo de razoáveis proporções está prestes a eclodir no meio da esquerda, desta vez envolvendo o mandato de uma parlamentar do PSOL, mas com repercussões em todos os partidos de esquerda. Trata-se de uma tentativa de extorsão, através de um dossier, por parte de ex-assessores.

A pedra já vinha sendo cantada, com ameaças até mesmo nas redes sociais. Uma das denúncias – que me parece a mais grave – envolve o uso de recursos financeiros de um sindicato para financiar um partido e campanhas eleitorais de seus candidatos.

Este processo, que já era de amplo conhecimento entre militantes, dirigentes e funcionários daquela entidade, foi parcialmente abafado pela aprovação das contas da atual e de direções passadas, em assembléia viciada, convocada para desautorizar o relatório do Conselho Fiscal, que dava conta de uma série de irregularidades.

Independente da credibilidade dos elementos que detonaram as denúncias, através de um dossier que pretendiam vender a uma desafeta da parlamentar do PSOL, o fato é que esta questão nos remete a um ponto que é sensível para a esquerda e os trabalhadores.

O sindicato em questão, um dos maiores e outrora mais combativos do Estado do Rio de Janeiro, é hoje um corpo enfermo, tomado de dívidas (cerca de R$ 9 milhões), transformado em cabide de emprego de parentes e amigos de dirigentes e gastos com a casta que o comanda.

E por que? Alguns grupos mais sectários prontamente responderão : “Porque faltou política!” Certamente estarão se referindo à política que julgam a mais acertada, que no fundo remete às mesmas práticas que predominaram nos últimos anos naquela entidade. É o que se verifica em tantos outros sindicatos dirigidos pelos mais distintos grupos e partidos da esquerda. Outros dirão: “Meteram a mão no dinheiro do trabalhador. Esquerda e direita, são todos iguais.”

Nem o canto da sereia esquerdista nem o moralismo conservador da direita vão responder ao problema.

Toda a esquerda brasileira está impregnada de uma visão fartamente difundida de que o partido político seria o depositário de toda a política e a razão. Assim sendo, tudo mais se torna secundário, inclusive o respeito à autonomia e independência dos sindicatos de trabalhadores e organizações populares.

Ao subordinar as organizações dos trabalhadores – que são de todos os seus associados – à vontade dos partidos e correntes partidárias, estes grupos não só substituem a vontade dos trabalhadores e do povo, como adotam a prática de fazer dos sindicatos “correias de transmissão” de suas siglas partidárias.

Este grave erro, que esteve na base da lógica do socialismo soviético, que sufocou a vontade popular e se transformou em ditadura do partido, se torna ainda mais grave quando as metas do partido se confundem com as finanças do sindicato. É isso que está na raiz do uso de recursos de um sindicato – ainda que chancelado por assembléias ou reuniões – para a construção de um partido e para campanhas eleitorais de seus candidatos.

Alguém poderá argumentar: “Fazemos nos sindicatos o mesmo que a burguesia faz em suas associações de classe para financiar seus candidatos e partidos.”

É justamente aí que reside o problema: a moral das classes dominantes é uma falsa moral, que condena publicamente os corruptos, mas financia estes mesmos corruptos para fazer nos governos e parlamentos o jogo que interessa às elites.

Se os partidos de esquerda pretendem se firmar e defender, de forma legítima, suas propostas, precisam encontrar formas profissionais de gerenciar os recursos que arrecadam de seus militantes e colaboradores. Isso se estende também à escolha de assessores nos gabinetes de seus parlamentares.

Esta lógica utilitarista, de “correia de transmissão”, cresce ainda mais quando o ambiente resvala para a despolitização e o vale-tudo pela disputa do controle da máquina sindical. 

O aparato sindicato passa a comportar práticas que se assemelham à vida parlamentar: antes o militante/dirigente tomava ônibus para visitar os locais de trabalho, hoje tem carro com motorista à disposição; antes o militante/dirigente cumpria horário em seu local de trabalho, hoje chega a hora que quer no sindicato; antes sofria a pressão do chefe ou do patrão, como qualquer outro trabalhador, hoje é ele o chefe que dá ordens a funcionários do sindicato; o salário que antes mal dava para chegar ao final do mês, hoje é complementado por “ajudas de custo”, diárias e mordomias.

Em vez de tratar dos assuntos de interesse dos associados e da classe trabalhadora, grande parte dos dirigentes se dedica a disputas internas por espaços na máquina sindical e a administrar a burocracia do sindicato.

A esta crise de despolitização se agrega à construção de todo um aparato desproporcional e inchado, que inclui gastos com sub-sedes, veículos e a contratação de funcionários, geralmente parentes e amigos de diretores. A situação chega ao absurdo de incluir desvios de recursos da previdência descontados dos próprios funcionários. Em alguns casos chega-se ao cúmulo de franquear empréstimos pessoais aos dirigentes com recursos do sindicato.

Definitivamente, os fins não podem justificar quaisquer meios. Assim fosse, seria perfeitamente aceitável a argumentação dos mensaleiros do PT de que não levaram nenhum tostão das negociatas, ainda que o dinheiro usado na compra de votos no Congresso Nacional se tratasse “apenas” de caixa-dois de campanha eleitoral.

Os meios e os métodos que utilizamos no dia-a-dia indicam aonde queremos chegar e o que pretendemos. Os meios indicam os fins. Pelo jeito, boa parte da esquerda brasileira não entende desta maneira. Por isso, também não entendeu a rejeição de seus partidos nas manifestações de rua de junho e prefere colocar a culpa em elementos de direita. Será que a direita é tão expressiva assim?

Há análises um tanto pessimistas e outras simplistas a respeito dos efeitos da jornada de manifestações de rua de junho na sociedade brasileira. Me permito discordar da maioria das que li, vi e ouvi até agora. Alguns comentaristas acreditam que tudo se perdeu porque o movimento descambou para a violência. Outros falam da falta de objetividade das manifestações, que acabaram caindo no vazio e não produziram resultados concretos.

Creio que há um certo conservadorismo também na forma de analisar os fatos. O mais importante das jornadas de junho não é propriamente o que se conquistou de lá pra cá. Acho mesmo que quase nada mudou, apenas se evitou que coisas piores acontecessem, como o aumento das passagens dos ônibus, o reajuste de pedágios nas estradas privatizadas, ou a retirada da pauta do Congresso Nacional da PEC que limitava os poderes do Ministério Público.

O que ficou das grandes mobilizações de rua foi algo mais importante: O REI ESTÁ NU. Houve um desaguar de frustrações, denúncias, inquietações que andavam tímidos, reprimidos pelos cantos, que encontrou eco e cresceu vertiginosamente em questão de semanas. Além da politicagem medíocre, não há canto deste país em que a violência policial e o monopólio da comunicação não estejam sendo questionadas todos os dias.

O que se conquistou foi uma consciência nacional de que o Brasil não pode continuar como está. É evidente que ainda não há um caminho, um projeto que empalme tantas ansiedades e necessidades. Mas ninguém mais vai poder ousar criticar o povo brasileiro por aceitar pacificamente a esculhambação em que as classes dominantes transformaram o país, particularmente nas últimas décadas.

E não fica por aí: novas manifestações, menores, porém com alvos claros, surgiram e se multiplicaram. Hoje é comum a ocupação de câmaras municipais por manifestantes em capitais e cidades do interior, para questionar projetos e exigir providências. Estas novas manifestações são produtos da jornada de mobilizações de junho, ainda que de forma localizada.

Generalizou-se a realização de manifestações de rua ou o fechamento de estradas sem a “autorização” de ninguém. Em diversas comunidades do Rio os moradores passaram a denunciar a repressão policial e a não aceitar o domínio da violência do tráfico, das milícias ou do Estado.

Como afirmei em um artigo aqui mesmo no blog, a jornada de junho cumpriu o papel de destampar a panela de pressão. Agora, cabe aos diversos atores e movimentos populares colher os frutos daquilo que foi o pontapé para a retomada das lutas sociais no Brasil.

Enganam-se os que pensam que as coisas voltaram ou vão voltar ao que eram antes de junho no Brasil. Não sabemos bem o que queremos e nem aonde chegaremos, mas já sabemos perfeitamente o que não queremos. E isso já é um grande passo na História.