Um acordo selado entre o Governo do Estado e a concessionária Barcas SA, que administra o transporte marítimo na Baía de Guanabara, põe fim ao serviço da madrugada, entre meia-noite e 5 horas, na travessia Rio-Niterói. Generosamente o Estado entendeu a razão da concessionária, que alega não haver passageiros em número suficiente para manter o serviço naquele horário.

O Governo estadual ainda isentou de ICMS a Barcas SA, usando como argumento o fato de que as demais concessionárias de transportes (Metrô e Trens urbanos) também são isentas deste imposto. Em troca a concessionária promete investir os cerca de 300 milhões que economizará para melhorar o serviço. O secretário da Casa Civil do Governo Cabral também se comprometeu a dar aquela mãozinha aberta para a aquisição de novas embarcações.

Ou seja, o que importa não é se o serviço é prestado em quantidade e qualidade ao usuário, mas propiciar à concessionária todas as condições para auferir seus lucros. No caso das barcas é importante lembrar que se trata apenas de economia, já que a empresa que opera ônibus entre Rio e Niterói (1001) pertence ao mesmo grupo da Barcas SA.

Mais uma vez alheia ao interesse do passageiro, a Agetransp não pretende questionar o acordo firmado, sob a alegação de que se trata de um Termo Aditivo ao contrato entre Governo estadual e a empresa concessionária. Veja a Nota oficial da Agência:

25/03/2011 – Nota Agetransp -Horário de funcionamento de Barcas S/A
 
A Agetransp informa que foi publicado, hoje (25/03), no Diário Oficial do Poder Executivo, o Terceiro Termo Aditivo ao contrato de concessão de Barcas S/A suprimindo o funcionamento dos serviços das barcas entre 24hs e 5hs e, estabelecendo nova grade de horário. Cabe ressaltar que alteração nos contratos de concessão é de competência, exclusiva, do Poder Executivo.

Afinal, para que serve a Agetransp?

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Cinismo e demagogia

23/03/2011

Às vezes o que pode parecer simpatia em verdade é cinismo. Em seu discurso no teatro Municipal, dirigido “ao povo brasileiro”, Barack Obama falou que o Brasil não é mais um país do futuro, que o modelo de democracia brasileira é um exemplo para os países árabes, e até de futebol.

A simpatia de Obama contrasta com os bombardeios das tropas da OTAN contra Trípoli e outras regiões da Líbia, ordenado durante a sua visita ao Brasil. O que seria uma Zona de Exclusão Aérea se confirmou com uma carta branca para o massacre indiscriminado de civis (até o momento de postagem deste artigo já eram 90 mortos e centenas de feridos confirmados).

Ora, se Obama não sabe nós, brasileiros, bem sabemos como é a nossa “democracia”. Uma democracia que funciona nas urnas, mas que não tem grande eficácia para conter a concentração de capital, a corrupção e os desmandos dos poderosos. Se isso pode ser modelo para outros povos, só temos a lamentar.

Obama veio ao Brasil para fazer negócios com o pré-sal e as obras de infraestrutura para a Copa e as Olimpíadas de 2016. Visitar a América Latina também tem um tom eleitoral, afinal 47 milhões de residentes nos EUA vieram desses países e pesam muito nas eleições.

O resto é pirotecnia divulgada pela mídia brasileira, que gosta da superficialidade e de tratar política internacional como enredo de novela. Estranho… a mesma mídia que odeia a cara de pobre e nordestino de Lula, faz questão de elogiar Obama, negro preparado para ser Presidente da maior potência imperialista do Planeta. Por que será (int)

Um aparato desproporcional modifica a rotina do povo do Rio no final de semana da vinda de Barak Obama ao Brasil. Militares pelas ruas, carros blindados no Centro, 800 capangas – entre seguranças e comitiva – formam uma mobilização de guerra em torno do Presidente dos EUA.

O cancelamento do discurso previsto para a Cinelândia, provavelmente em função da já conhecida paranóia estadonidense, não altera o clima de capachice da mídia, seguida de declarações idiotas de figurões.

A mais torpe que vi foi de um ator global, que elegeu Obama como seu ídolo, sustentado que ele é um exemplo e um orgulho para as crianças negras. Será!? O que dirão as crianças do Afeganistão e do Iraque? Será que elas também têm orgulho de Obama?

Por sua vez, a nota oficial do Diretório Regional do PT é uma excrecência. Não só condena a participação dos seus filiados nas manifestações contra Obama, como exalta as boas relações entre o Governo brasileiro e o dos EUA como sinônimo de um tempo de progresso para a cidade e o Estado do Rio.

Obama pisa o solo brasileiro logo após a aprovação de resolução do Conselho de Segurança da ONU que autoriza o bombardeio aéreo da Líbia, por solicitação e pressão dos EUA, Inglaterra e França. Nada a favor de Kadafi, mas daí a concordar com o bombardeio aéreo de um país em nome da defesa dos civis indefesos, vai uma distância colossal.

O interessante é que este mesmo Conselho esqueceu o que os governantes “democráticos” do Bahreim e do Iêmen estão fazendo contra seus povos. Não houve condenação à intervenção militar da Arábia Saudita contra as rebeliões populares em países vizinhos e nem resolução, com ameaça de bombardeio contra a Arábia Saudita. Por que será?

Uma coisa é entender o papel que Obama jogou nas últimas eleições presidenciais para o público interno nos EUA. Outra bem diferente é compreender seu papel no cenário internacional, como representante da maior potência político-militar contemporânea, inimiga da paz e dos povos.

Não se sabe ao certo e ninguém no Governo Dilma veio a público para esclarecer o teor dos tratados que serão firmados com o governo estadonidense, por ocasião da visita de Barak Obama ao Brasil. É claro que o sujeito não vem aqui a passeio, nem para fazer discurso bonito.

Mas há indícios de que os norte-americanos estão bastante interessados nas reservas de petróleo da camada do pré-sal. Por sua vez o Governo Dilma precisa do apoio dos EUA para conquistar o tão sonhado assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU.

O que mais incomoda na visita de Obama, pelo menos a mim, é que um chefe de Estado da nação Imperialista deite falação na Cinelândia, praça mais democrática do Rio, palco de tantos e tantos comícios e mobilizações populares. Vão transformar a nossa praça de protestos em palco de cinismo. E tem gente que se dispõe a bater palmas pra maluco dançar…

Em qualquer país do mundo a realização de comício de um Presidente dos EUA em praça pública seria visto como uma afronta, uma provocação respondida com manifestações violentas de repúdio. Mas o Brasil se transformou num país em que qualquer um é recebido de braços abertos, seja ele o melhor dos homens ou o maior dos assassinos. O pior é que os gatos pingados que estão organizando protestos contra a presença de Obama no Brasil ainda são advertidos pelo Governo e o PT.

Tem gente que defende Obama como o que há de mais progressista na política dos EUA. Pode ser para o consumo interno deles, mas para o mundo inteiro o Presidente dos EUA será sempre aquele cara que mantém centros de tortura contra prisioneiros, intervém militarmente onde interessa ao seu país e sustenta a máquina de guerra da indústria armamentista do seu país, a quem ele representa.

Eu não vou aos protestos, mas torço para que eles incomodem. Afinal, só bobo acredita nas boas intenções do grande irmão do Norte. Seja ele branco, negro, homem ou mulher. O governo dos EUA continua sendo o maior inimigo da paz e dos povos em todo o Planeta.

Preço alto demais

15/03/2011

Numa entrevista de um professor da COPPE (UFRJ) a um canal de TV, depois de várias evidências de que o sistema de produção de energia nuclear pode ser falho, sobretudo na área de segurança, veio a conclusão: “Este é o preço que se paga”. E mais: “Não há sistema de produção de energia totalmente limpo ou seguro”.

Então tá… Quer dizer que a humanidade é obrigada a pagar um preço que pode sacrificá-la pela produção de energia? Para que e por que precisamos produzir tanta energia ? O consumo de energia aumenta na medida em que os hábitos da humanidade se modificam. Hábitos de consumo.

Produção em escala industrial, rede de comunicações sofisticada, diversos bens duráveis que trouxeram conforto em casa ou no trabalho, mas ao mesmo tempo adaptaram o ser humano à lógica perversa do mercado, são alguns dos itens a serem observados.

Ocupar menos o tempo em casa significa ter mais tempo fora de casa para produzir. E produzir para consumir mais, alimentando o crediário e o endividamento. Ou seja, menos tempo para o indivíduo e seus familiares e mais tempo para o trabalho. Mais trabalho para pagar dívidas e compromissos.

Quanto mais produção maior a riqueza e também sua parcela apropriada pelos donos do mercado. O mesmo mercado que faz crescer a demanda por energia. Mercado que não atende exatamente por uma racionalidade, mas pelos seus interesses de apropriação da riqueza produzida.

Este círculo vicioso enredou a humanidade numa teia da qual ela não parece encontrar saída. E tudo se justifica pela irracionalidade do tal “mercado”. Mas o que é o mercado ? Ao contrário do ser abstrato que aparenta ser, o mercado na verdade é um grupo seleto de grandes empresários de todos os ramos, que comandam a economia e a política mundial.

Ou seja, a irracionalidade da sociedade capitalista está levando a própria humanidade ao suicídio coletivo, sacrificando a Natureza, construindo um ambiente de correria, falta de tempo para o lazer, frustrações e desigualdade. E isso sem sequer a eclosão de um conflito mundial, como já tivemos no século XX. Tudo em nome dos interesses de um punhado de bilhionários.

O primeiro-ministro japonês, bobo da corte de plantão, foi a público tranqüilizar a todos e minimizar o vazamento de reatores nucleares. Dois dias depois teve que admitir a gravidade do problema. Como se vê, os representantes do mercado não têm sequer a coragem de admitir a verdade.

A crise japonesa, provocada por um terremoto que gerou uma tsunami e atingiu usinas nucleares, acendeu novamente o debate sobre os paradigmas da sociedade capitalista contemporânea. Para encará-la existem dois caminhos: 1) Debater as conseqüências e formas de melhorar a segurança do sistema; 2) Debater uma alternativa para esta sociedade irracional, que pode levar a um esgotamento do Planeta e ao sacrifício da humanidade.

O primeiro mantém tudo como está e ataca o problema na superfície. O segundo vai exigir um esforço muito mais profundo da humanidade para encontrar caminhos alternativos que garanta sua própria sobrevivência. Estamos dispostos a pagar o preço do “mercado” ?

Pois é, não sei se foi só comigo, mas confesso que não consegui chegar a alguns blocos neste Carnaval. Gente demais, espaço de menos e muita badalação midiática levaram alguns blocos a se tornarem programas proibitivos para quem gosta do Carnaval de rua.

No sábado bem que tentei chegar ao Céu na Terra, que desfila em Santa Teresa. Impossível alcançar a banda que leva as músicas e conduz os foliões. Voltei do meio do caminho. No domingo até que cheguei ao Cordão do Boitatá, na Praça XV, mas a quantidade de gente era tanta que mal dava pra dançar. Fiquei de teimoso por uma hora e desisti.

No domingo tomei coragem e fui atrás do Simpatia é quase Amor. Já no Metrô a confusão anunciava a dificuldade do folião. Os gênios do Metrô S.A. fecharam algumas saídas na Praça General Osório e formou-se o tumulto entre passageiros que queriam sair e que queriam entrar na estação. O desembarque na Praça não aliviou a sensação, que depois se confirmou como dura realidade. Era impossível ouvir sequer a bateria do bloco, que avançava lentamente pela orla de Ipanema.

Desisti e, resignado, voltei pela praia até Copacabana. Foi ali que percebi algo óbvio. Em vez de tentar conter e reduzir o número de blocos, a saída para o Carnaval de rua no Rio é a formação de cada vez mais blocos, para dar vazão e acomodar tantos foliões. Em Copa praticamente cada rua tem sua banda, que faz o Carnaval para o pessoal das redondezas e quem mais chegar. Assim não há grandes aglomerações e todo mundo brinca, inclusive crianças e idosos.

Pra não dizer que não vi coisas legais gostei muito do Volta, Alice, que este ano homenageou o seu Edgar, da Tasca, com um samba inteligente. Umas 3 a 5 mil pessoas (calculo) puderam brincar numa boa. O Aconteceu, em Santa Teresa, também fez um desfile bacaninha, sem tumulto e exagero de público. Gostei mais uma vez do Imprensa que eu Gamo, que sai 15 dias antes do Carnaval.

Os blocos mais badalados estão se tornando impraticáveis para os foliões que querem brincar. São um misto de trio elétrico com samba, cercados por multidões. Boa parte só quer saber de azaração, trocar bactérias, espalhar herpes e sapinho. Menos mal que isso aconteça no Carnaval de rua, mas deve haver espaço para todos.

Mais uma vez se comprovou a ineficácia dos banheiros químicos, superlotados e fedidos. A Prefeitura deveria repensar sua estratégia, porque não há como culpar os foliões pela sujeira se não oferece um serviço eficiente e em quantidade suficiente para dar vazão aos líquidos diuréticos consumidos pelas multidões.

Durante 360 dias do ano não se vê uma campanha institucional ou de mídia para coibir os “mijões” no Rio. É só chegar o Carnaval para baixar o falso moralismo de autoridades e Rede Globo. Juntos, formam o Cordão da Hipocrisia do Carnaval Carioca.

A Globo, que insiste em transmitir desfile das Escolas de São Paulo por duas noites (coisa que nem paulista agüenta), não tem qualquer pudor em receber publicidade pesada das cervejarias durante o Carnaval. A Prefeitura também não, aliás a “boa” comprou o Carnaval de rua, sendo a única a uniformizar e a fornecer cerveja aos ambulantes.

No entanto, os mesmos que fazem um pacto financeiro com uma empresa de cerveja, levantam as vozes para denunciar os foliões que fazem xixi nas ruas. Ninguém é favorável a essa prática, mas convenhamos que não há banheiros químicos que possam dar vazão a multidões que bebem sem parar. Ou a cerveja não é uma bebida diurética (int)

Por que a Globo não cobra da Prefeitura a instalação de banheiros públicos para uso regular, durante todo o ano (int) Não é o xixi do folião que estraga a festa, aliás nunca estragou no Rio ou em qualquer lugar do Brasil. O que soa ridículo é a campanha inócua e hipócrita que tenta reduzir os problemas do Carnaval carioca ao ato de urinar nas calçadas.

O mau hábito de urinar na rua existe desde os tempos da Côrte. Mas até hoje se o cidadão comum precisar aliviar sua bexiga no Centro da Cidade vai encontrar dificuldade. Há duas questões para serem avaliadas (dois pontos) 1) Educação que envolva noções básicas de higiene e respeito ao próximo, 2) A volta dos banheiros públicos em pontos estratégicos da cidade.

Sem isso, a campanha global e institucional se resume a um enredo mal resolvido e a um samba atravessado.

Por trás da crise da Líbia, marcada por semanas de conflitos, surge a sombra da intervenção militar com o aval da ONU. Kadafi, que traiu seu povo e o anunciado ideal “socialista” do início de sua revolução, mantém a fidelidade de tropas paramilitares e da Força Aérea. No desespero de assegurar o poder ordenou a distribuição de 700 dinares a cada cidadão líbio.

Desde 2003, ao perceber que ficaria ainda mais isolado frente às pressões da chamada Nova Ordem Mundial capitalista, Kadafi tratou de se bandear e assumiu compromissos com os EUA e os antigos colonizadores europeus. Desde 2005 a Líbia compra armamentos pesados no “mercado” internacional, inclusive de fabricantes brasileiros.

A Líbia está entre os dez maiores produtores mundiais de petróleo e seus oleodutos abastecem a Itália e outros países europeus. O país tem cerca de 6 milhões de habitantes, distribuídos pelas 130 tribos, sendo a Warfala a maior delas, com 1 milhão de membros.

As informações vindas da Líbia são desencontradas e pouco confiáveis, até porque a imprensa internacional sequer se faz presente naquele país. Mas o que se fala é que a revolta popular na Líbia não é conduzida por uma juventude rebelde e ansiosa por liberdade democracia, tal como no Egito. A bandeira do reinado volta a tremular nas manifestações, o que não é um sinal muito auspicioso para os amantes da democracia.

Longe de justificar qualquer apoio à Kadafi e seu clã, o que está em jogo na Líbia é o petróleo (hoje 90% em mãos do Estado) e o preço do barril no mercado internacional, que chegou a mais de 120 dólares por conta da crise naquele país.

Sob o pretexto de tentar impedir o massacre de civis, o governo Obama prepara a alternativa militar, com o deslocamento de tropas para o Mar Mediterrâneo. Logo os EUA, que bombardearam civis sem piedade no Iraque e no Afeganistão, se arvoram em defensores do povo líbio.

Definitivamente o povo da Líbia é quem deve decidir os rumos de seu país. Condenar atrocidades do regime de Kadafi é algo que deveria ter sido feito há tempos pela ONU, mas isso passou a não interessar desde que ele inseriu seu país no mercado internacional. Criar um clima de condenação de Kadafi para justificar uma intervenção dos marines dos EUA é tão absurdo quanto justificar a invasão do Iraque e do Afeganistão, que tanto infelicitou as populações daqueles países.