Em seus oito anos de dois mandatos o Presidente Lula cumpriu à risca uma pauta de interesse dos grandes grupos capitalistas no Brasil: abriu mão de recolher impostos dos bancos e das montadoras de automóveis; vem pagando regiamente, com o sacrifício de 1/3 do Orçamento da União, juros e amortizações da dívida pública; incentivou o agronegócio exportador de comodities; encheu as burras das grandes empreiteiras de grana (PAC); governou com as oligarquias regionais do PMDB.

A postura independente frente aos EUA, adotada no plano da política internacional, se justifica não pela simpatia com os governos de Chavez ou de Morales, mas pela disputa de uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU.

Portanto, trata-se de um governo social-liberal, subordinado ao joguete dos grupos empresariais e das oligarquias. Faz um discurso contra as privatizações, mas não abriu sequer uma auditoria sobre as privatizações realizadas no governo FHC. Não há como defender “conquistas” sociais neste governo, porque elas simplesmente não existiram. As reformas Agrária e Urbana não andaram.

Lula e o PT nada mais fizeram que incluir no mercado de consumo, através do crédito fácil e do salário mínimo, alguns milhões de brasileiros. Ou seja, sua política reforçou o mercado interno, instrumento que faz girar a moeda e a máquina do sistema capitalista. As Casas Bahia, C&A, Ricardo Eletro, Pão de Açucar e outras cadeias de consumo varejista agradeceram e se transformaram em verdadeiras financeiras, que oferecem produtos em diversas prestações para faturar alto com elevados juros embutidos.

A Bolsa Família é o que Gonzagão poderia cantar como “uma esmola a um homem que é são / ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Há os que querem defender o Governo Lula/PT/PMDB usando de chantagem, alegando que Serra/DEM preparam um governo fascista. Tudo bem que Serra conta com o apoio da Opus Dei, setor mais reacionário da Igreja Católica e suas carolas, mas nada mais tolo que isso. Entendo o desespero dos que pensam em seus cargos no governo e em preservar suas benesses ameaçadas.

Apesar do modelo econômico aplicado por PSDB e PT ser o mesmo, há nuances entre as duas alternativas. A eleição de um governo do PSDB/DEM seria um retrocesso ainda maior para o povo brasileiro e a América Latina, devido ao conteúdo explicitamente reacionário dos partidos que sustentam Serra. A única coisa que justifica o voto em Dilma no segundo turno é porque estamos diante do seguinte dilema: Bosta Fedida (PSDB/DEM) X Bosta Cheirosa (PT/PMDB/Base Aliada).

Diante deste dilema é preferível tapar o nariz, os olhos e os ouvidos, engolir (votar) a Bosta Cheirosa e, a partir do dia seguinte, construir uma oposição popular pela esquerda.

Tropa de Elite 2 muda por completo o foco do diretor José Padilha, que no primeiro filme se fixou na apresentação do BOPE e sua metodologia de ação fascistóide. Daí porque muita gente boa ter confundido o filme com a reação que ele provocou na maioria dos espectadores. Preocupante não é propriamente o filme ou seus personagens, mas a reação do público, que vibra com cenas de tortura e sadismo. Já Tropa 2 aborda o problema da segurança pública sob um olhar muito mais amplo e crítico.

A conclusão, nas palavras do próprio coronel Nascimento em depoimento a uma CPI na Assembléia Legislativa do Rio, é chocante para uns, mas óbvia para outros: “É preciso acabar com a polícia”.

Em Tropa 2 o diretor mantém o espectador sob intensa adrenalina, como fez em Tropa 1. Só que desta vez misturando cenas de extrema violência com os bastidores palacianos que fazem da segurança pública um instrumento do jogo político.

O filme escancara o que alguns especialistas no assunto temiam dizer. A expulsão de grupos do tráfico varejista de favelas favoreceu a formação de milícias, máfias que se apoderaram dos mesmos “serviços” dos traficantes e que são parte do joguete eleitoral no Estado.

Estão ali bem representados a cúpula da segurança pública, o apresentador sensacionalista do programa policial, o deputado dos direitos humanos, os parlamentares que são frutos da própria milícia e a corrupção que campeia na cúpula da PM.

A personagem principal e também narrador do filme conclui que todo o seu esforço por limpar a polícia foi em vão, porque ela está impregnada de interesses que conflitam com os dos cidadãos. E levanta a bola do debate sobre a segurança pública para que a sociedade o faça, desnudando as instituições e suas engrenagens.

Não sei se Padilha pretende chegar a um Tropa 3, mas os dois filmes ajudam em muito a sociedade carioca e brasileira enxergarem a si mesmas.