Uma criança pobre, que enfrentava muitas dificuldades, passou sua infância largada nas ruas fazendo o que não devia. A certa altura de sua vida surgiu uma luz no fim do túnel e parecia que havia uma esperança. Mas quando tudo apontava para um novo futuro, a criança sofreu um duro golpe e aquele sonho se tornou um trágico pesadelo.

O trauma de infância é algo que carregamos pelo resto de nossas vidas. A única forma de superá-lo é encarar os fatos, investigar suas causas e conseqüências e colocar o mal para fora. Enquanto carregarmos as marcas e mágoas deste trauma não haverá sossego.

Assim é a História do Brasil. A invasão do colonizador, a escravidão de indígenas e negros, a Guerra do Paraguai, a repressão aos movimentos populares, uma República forjada na base da quartelada, a ditadura do Estado Novo, até o ano de 1964.

Naqueles primeiros três meses o país discutia seu destino. De um lado os mesmos setores conservadores, apegados aos seus privilégios, espalhando calúnias e boatos infundados, com o apoio irrestrito do irmão do norte. De outro a proposta das reformas de base, que surgiam como um passo para o futuro, para limpar hábitos e costumes dos poderosos e abrir um novo horizonte para a maioria.

Difícil dizer se João Goulart se acovardou e não enfrentou os golpistas. O fato é que rapidamente eles tomaram o poder, com a 4ª frota norte-americana pronta nas costas brasileiras e pronta a agir. O que veio depois foram medidas retrógradas que afetaram toda a sociedade e não apenas algumas centenas de mortos, desaparecidos e seus familiares. A censura à imprensa e às artes, a truculência policial, a degradação do ensino público, uma dívida pública monstruosa, o fechamento do Congresso e o AI-5 foram algumas marcas deixadas até hoje e incomodam as atuais gerações.

Essas feridas abertas – incluindo a desconfiança que ainda paira sobre as Forças Armadas – precisam ser tratadas, limpas e cicatrizar. As declarações do torturador e assassino confesso, Paulo Malhães, sobre como os agentes do Estado prendiam, forjavam confrontos, torturavam, matavam e desapareciam com os corpos dos presos políticos é a confissão de que houve, sim, crimes contra a humanidade.

Por sua vez, a revelação de que o general Figueiredo – ex-presidente da ditadura – soube, um mês antes, do atentado à bomba no Riocentro, e nada fez para evitá-lo, é a prova de que os crimes contra a humanidade tinham um centro de comando político no núcleo de poder.

Não se trata de vingança, porque se assim o fosse os mandantes, financiadores, torturadores e assassinos pagariam na mesma moeda pelos crimes que cometeram. E quem denuncia e repudia a tortura e a morte jamais usará destes mesmos expedientes, mesmo que para fazer justiça.

Trata-se de reconhecer o que aconteceu, de jogar luz sobre os porões da ditadura e explicar o que somos hoje. Sim, porque ninguém é o que é sem ter vivido um passado que explique porque é do jeito que é.

O Brasil é o país da América Latina mais atrasado no que diz respeito à investigação do que ocorreu durante a sua ditadura militar, que durou 21 anos. No entanto, foi a matriz de todos os regimes ditatoriais que se seguiram naquele período em nuestra América. Fomos exportadores de tecnologia da tortura, através de oficiais que fizeram cursos na Escola das Américas, no Panamá, sob o patrocínio do governo dos EUA.

É inadmissível que o comando das Forças Armadas brasileiras, formado por servidores do Estado, até hoje se recuse a fazer autocrítica da atuação desastrosa dos militares nas três décadas em que a imperou o regime ditatorial. Ao agir desta forma não só mantém uma postura de desobediência à sociedade e conserva a ideologia da Segurança Nacional, pela qual o inimigo a ser combatido é o próprio povo e às Forças Armadas cabe o papel de vigilância e intervenção sempre que preciso.

Para que a nossa criança se torne um adolescente saudável, com um futuro garantido, livre de traumas e pronto a crescer de forma segura, ela terá que passar por uma análise. Esta análise, que demandará muitos depoimentos, confissões e condenações, é fundamental para que se possa chegar à fase adulta, consciente de seus desafios e possibilidades.

Assim é o nosso Brasil. De nada adianta tapar o sol com a peneira, sob a alegação de que a Lei de Anistia liberou a todos por igual, como se torturados e torturadores fossem todos iguais, como se os empresários financiadores e beneficiados e os generais que governaram nenhuma responsabilidade tivessem sobre as mazelas de hoje.

Caso contrário vamos continuar assistindo passivamente ao espetáculo da truculência cotidiana, com polícias militares corrompidas e violentíssimas e tropas das Forças Armadas no papel de “pacificadoras” de uma realidade social, na qual predomina a desigualdade entre os muito ricos e a maioria esmagadora de nosso povo.

De onde veio o transporte público precário que temos hoje? E o ensino público? Por que chegou a um nível tão baixo? O que levou a saúde pública ao caos em que se encontra? Por que temos sete milhões e meio de déficit em moradias e tanta gente ainda pagando aluguel? Por que pagamos tão caro por alimentos que poderíamos produzir melhor, mais barato e em abundância? O que aconteceu para que tenhamos no Brasil 16 das 50 cidades mais violentas do Mundo?

Basta lembrar do ex-presidente Washington Luis, que se orgulhava do transporte rodoviário. É dele aquela expressão “Governar é abrir estradas”. Juscelino foi outro que embarcou nessa e estimulou a indústria automobilística. Durante a Ditadura Militar as cidades brasileiras foram incentivadas a abolir os bondes, econômicos e práticos. O resultado está aí: trens e metrô insuficientes e cidades paralisadas pelo congestionamento de automóveis e ônibus.

É sabido que o ensino no Brasil teve início, como em outros países, a partir do ensino religioso, através da Igreja Católica. Mais tarde, com a República, o ensino passou a ser laico e obrigação do Estado, do básico à Universidade. Mesmo com as reconhecidas limitações da educação pública, praticamente todos os grandes líderes e nomes destacados do Brasil começaram sua vida acadêmica no banquinho do grupo escolar.

Até meados da década de 60 prevalecia na sociedade brasileira a escola pública como pilar da Educação. Com a Ditadura Militar e os acordos Mec-Usaid (Agência norte-americana) inverteu-se a ordem: o ensino público foi sendo abandonado pelos governos militares, professores tiveram seus salários congelados e as escolas sucateadas. Hoje mais de 75% das instituições de ensino superior são privadas, subsidiadas por programas escandalosos, como o Prouni.

Em todas as cidades do Brasil um dos problemas mais graves é o da moradia. A classe média se espreme em apertamentos cada vez menores e com aluguéis mais caros. O povão apela para as áreas abandonadas, aonde brotam as favelas. Ao mesmo tempo grandes imobiliárias e empreiteiras dividem o território nobre, construindo moradias de luxo para uma minoria rica. Por sua vez, o governo possui milhares de propriedades, uma forma de cobrar dos antigos proprietários caloteiros de impostos.

Outro vilão de nosso cotidiano é a inflação, marcada, entre outros aspectos, pelos elevados preços dos alimentos. O Brasil é um dos países com maior extensão territorial do Planeta: são 8,5 milhões de quilômetros quadrados de terra. No entanto, hoje, menos de 15% da nossa população reside no campo. A maior parte do que se produz no campo é de commodities (gado, soja, etc), que sequer é comercializado aqui. Cada vez produzimos menos alimentos e a venda desses produtos fica sob responsabilidade de grandes cadeias de hipermercados.

Em recente levantamento foi divulgado que 16 das 50 cidades mais violentas do mundo são brasileiras. O que comprova que a política de segurança pública, baseada no fortalecimento da repressão policial, não é remédio para o problema. Aliás, a polícia militarizada e usada no patrulhamento ostensivo – mais uma obra da Ditadura Militar a partir do AI5 – é um elemento que só faz crescer a violência e a corrupção no país.

Todas essas mazelas poderiam ter sido amenizadas ou evitadas se as Reformas de Base, preconizadas pelo ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar, fossem implementadas a partir de 1964.

Que reformas eram aquelas? Reforma Educacional, com reforço ao ensino público desde a base e o fim das castas que mandavam no ensino superior; Reforma Agrária, com o fim dos latifúndios e a distribuição de terras aos camponeses mais pobres para produzir e morar; Reforma Urbana, desapropriando as propriedades que só eram usadas para fins especulativos e novos programas de moradia nas cidades brasileiras; Reforma Tributária, que atingisse as heranças e a grande propriedade privada, utilizando os recursos arrecadados em prol do interesse público.

O que havia de anticapitalista nas Reformas de Base propostas por Jango? Absolutamente nada, eram apenas medidas que, se adotadas, poderiam abrir novos horizontes e melhorar a vida da maioria do povo brasileiro. Por isso mesmo foram demonizadas e tratadas como “coisa de comunista” pelas elites brasileiras.

Associadas ao que havia de mais conservador nas Forças Armadas e apoiadas pelo governo norte-americano, as classes dominantes interromperam a vida democrática com um golpe e impuseram uma Ditadura que manteve o Brasil sob a tutela de poucos, como vemos até hoje. Toda uma geração brilhante foi censurada e perseguida, o que contribuiu para o atraso do país. Sem falar nos que foram torturados e mortos.

Foi durante a Ditadura que a dívida pública (interna e externa) brasileira atingiu patamares jamais vistos, que carregamos como peso morto até hoje sem que se faça uma auditoria. Foi neste mesmo período que a economia brasileira tornou-se uma das mais concentradas do mundo, com alguns poucos oligopólios dominando todos os ramos da produção e do mercado. E foi também sob este mesmo regime que foi criado um monstrengo chamado Organizações Globo, a partir de um acordo com o grupo norte-americano Time-Life, gerando a empresa que domina o setor da comunicação no Brasil.

A tentativa de abrandar o caráter nocivo da Ditadura Militar no Brasil vem de setores da direita, travestidos de modernosos, cuja versão tem por objetivo dar um destaque menor àquele período na vida nacional. No fundo, os defensores envergonhados do regime militar o fazem para disfarçar sua tendência reacionária e elitista. São piores do que os que defendem a repressão de forma aberta, porque esses o fazem mais por ignorância política do que por convicção.

Não foi a Ditadura, que durou 21 anos, quem instituiu todos os problemas nacionais. Mas, sem dúvida, foi o regime militar que aprofundou esses problemas e nos trouxe até o fosso dos dias atuais, com tanta desigualdade e atraso social. Por isso é preciso recuperar a História contemporânea do Brasil, voltar à estaca zero e, finalmente, fazer as tais Reformas de Base.

UPP pela culatra

24/03/2014

Um dos pilares de qualquer política de segurança pública é a tal “sensação de segurança”. Essa expressão, utilizada pelos especialistas da matéria, nada mais é do que a impressão que a sociedade colhe ao se movimentar pelas ruas e praças, nos transportes públicos, na ida e vinda do trabalho e da escola, nos locais de grande concentração de pessoas e eventos.

Depois de inaugurar no final de 2010 a política de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas favelas mais próximas dos locais aonde ocorrerão os grandes eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), o governo estadual acreditou que conseguiria conter os conflitos armados no perímetro urbano do Rio.

Mas o próprio secretário de segurança alertava que não bastaria implantar as UPP e que aquele seria apenas um primeiro passo. Beltrame dizia claramente que o papel da polícia é limitado para as demandas das grandes comunidades de favelas. Três anos depois, com 38 UPP em funcionamento, o caldo começa a entornar.

Para dar conta da prioridade de contenção, visando a Copa e as Olimpíadas, o governo estadual teve que destacar grande parte do efetivo policial para as UPP, desguarnecendo as demais áreas da cidade. A sensação que fica para a classe média é de abandono.

Desalojado de suas áreas, parte do crime varejista migrou para Niterói, Baixada e interior do Estado, aumentando a criminalidade naquelas regiões e expandindo seus domínios. No entanto, o negócio da venda de drogas segue a todo vapor dentro das favelas, inclusive as “pacificadas”.

A falta de políticas públicas fez da PM a única representante legal do Estado nas favelas “pacificadas”, expondo policiais mal pagos e mal preparados no trato com a população. Ali, no dia a dia, o PM tem que ser juiz, testemunha, professor, médico e, inclusive, soldado. O resultado é o aumento das denúncias de abusos de autoridade, sequestros e mortes, que lembram a velha PM. Em resposta crescem os conflitos, nos quais a população das favelas coloca para fora sua revolta com a falta de condições dignas de vida, os desmandos e a repressão policial.

O que menos importa neste caso é se os traficantes apóiam ou não os confrontos entre moradores e a polícia. Nem precisariam, tal o tamanho das trapalhadas de uma polícia militarizada, formada para combate e não para o diálogo.

O fracasso da política de segurança pensada pelo governo Cabral é tamanho que, às vésperas da Copa do Mundo, temendo que algo pior aconteça e exponha o país a um vexame completo, governos estadual e federal planejam reforçar o policiamento da cidade com tropas das Forças Armadas e da Força Nacional.

A ocupação militar da cidade também causa prejuízos à imagem da cidade e do país. A imprensa internacional certamente estranhará a presença de efetivos militares numa cidade que receberá jogos da Copa do Mundo e será sede das Olimpíadas em 2016. Afinal, uma cidade ocupada por tropas não pode ser uma cidade “pacificada”.

Mais uma vez o improviso e a “esperteza” de políticos, interessados apenas em suas próprias carreiras e negócios, dá sinais de esgotamento. E num tempo cada vez mais breve.

Só quem não enxerga isso é quem acredita na propaganda com o ator Diogo Vilela, que se presta ao papel de garoto propaganda do governo Cabral. Ninguém sabe se aquilo é propaganda de verdade ou é uma nova edição do velho TV Pirata, programa de humor do qual ele participava nos idos dos anos 80. Não tem a menor graça…

Desde o ano 2000, 62 pessoas que cruzaram o caminho de dois dos três policiais militares envolvidos na morte de Claudia, no morro da Congonha, em Madureira, tiveram a mesma sorte que ela. Talvez não com os mesmos requintes de crueldade, mas perderam suas vidas. Muitos deles podem ter sido marginais, o que não diminui a gravidade do problema.

Os PMs pertencem ao 9º Batalhão, de Rocha Miranda, o mesmo que abrigava o núcleo central dos Cavalos Corredores, conhecido grupo de extermínio que agia em toda aquela região da Zona Norte do Rio. Em sua ficha corrida um deles tem 13 registros de mortes e outro três.

Claudia, Amarildo e tantos outros milhares de brasileiros são assassinados pelo Estado todos os anos. A desculpa é que “precisamos responder a altura a ousadia da bandidagem”. Ou seja, o Estado brasileiro se investe de poderes que não lhe são conferidos na lei, se iguala às práticas da bandidagem para supostamente combate-la. A polícia tem carta branca e até incentivo das autoridades governamentais para matar.

Para fazer este trabalho sujo, cujo resultado é nulo porque não interessa secar a fonte de recursos gerada pelo tráfico de drogas e armas, só uma polícia militarizada, mal organizada, mal paga e mal treinada. A conseqüência disso é conhecida: milhares de mortos, balas “perdidas”, tortura e assassinatos. São os herdeiros do Esquadrão da Morte, dos tempos da ditadura militar, em ação.

O que mais choca qualquer cidadão um pouco mais esclarecido é a demagogia do governador do Rio, que formalmente pede desculpas aos familiares pelo que ocorreu com Claudia. O que este sujeito, que governou o estado por mais de sete anos, fez de concreto para mudar o perfil da polícia? Suas UPPs, instaladas em contêineres, são o retrato do improviso. O despreparo da tropa é o retrato dos comandantes e a quem eles estão subordinados.

A sensação de insegurança da população fluminense não está apenas nas ameaças da bandidagem, a quem cumpre o papel nefasto de delinqüir para sobreviver. Está também no medo da polícia, que em tese deveria garantir a segurança da sociedade. Infelizmente a experiência cotidiana mostra o contrário.

Quando todo o país reflete sobre os 50 anos do golpe militar de 1964, uma questão óbvia parece despercebida: a violência do Estado. Pior que a prisão arbitrária, a tortura e os assassinatos cometidos pelos agentes da repressão, foi o legado que a violência deixou na estrutura policial.

Durante o período da ditadura alguns milhares foram presos, outros torturados e algumas centenas assassinados nas mãos do Estado. A ideologia do ódio aos civis, propagada pela Escola das Américas (Panamá), que treinou militares de toda a América Latina, justificou todo tipo de massacre prepetrado duante a ditadura. Isso criou uma cultura de violência e impunidade estatal.

Vejo alguns articulistas reclamarem da falta de consternação da sociedade e de seus porta-vozes com as mortes de policiais, algumas ocorridas em serviço. Qualquer morte deve ser lamentada. Mas será que não contaram a essas pessoas como a polícia militar atua, sobretudo nas favelas e periferias deste país?

A conversa é a mesma e nem carece de originalidade: a polícia é sempre recebida a bala quando chega a uma região de conflito, reage e, no confronto, fere os inimigos. Os feridos são recolhidos pela PM e socorridos nas viaturas policiais, mas sempre chegam mortos aos hospitais. Para dificultar a apuração dos fatos o local da ocorrência é sempre modificado. Este é exatamente o mesmo modus operandi usado durante a ditadura para justificar a morte de seus opositores.

Ocorre que desde o fim da ditadura milhares de inocentes pagam com suas vidas pela impunidade da violência do Estado. O caso de dona de casa Claudia Silva Ferreira, baleada e socorrida por PMs em Madureira, arrastada na caçamba de um camburão, é mais um dos tantos e tantos. Para ilustrar a impunidade basta lembrar que passados 22 anos não há ninguém condenado pelo massacre do presídio do Carandiru, quando 111 presos foram assassinados pela PM de São Paulo, a mando dos governantes da época.

Está evidente que a violência policial, alimentada por setores mais reacionários da sociedade e incentivada por parcela da mídia, jamais resolveu e resolverá a questão. Ao contrário, a escalada da violência policial gera mais violência por parte da bandidagem. Não se pretende enfrentar a fundo o tráfico de drogas e armas, porque ele é fonte de enriquecimento de alguns e justifica o aparelho repressor do Estado tal como ele age, inclusive nos casos das UPPs.

Isso nos remete à seguinte questão: queremos uma polícia técnica, profissional, formada, investigativa e bem remunerada ou a continuidade de uma polícia militarizada, uma tropa semelhante à capatazia dos senhores dos tempos da escravidão?

Curiosa a noção de democracia dos países ricos, notadamente dos EUA e da União Européia. Para seus porta-vozes a democracia está ameaçada na Criméia, região que faz fronteira com a Rússia. Mesmo depois de 96% dos habitantes votarem, em plebiscito, pela reincorporação de seu território aquele país. Para separar a região do Kosovo da antiga Iugoslávia o plesbiscito foi um recurso democrático, mas no caso da Criméia ele fere a democracia.

Em contrapartida, reconhecem como legítimo o governo que tomou o poder recentemente na Ucrânia, formado por ultranacionalistas e até neonazistas, passando por cima de um acordo que consagrara uma nova eleição no final de 2014.

O desmonte da URSS deixou como legado uma série de questões mal resolvidas, mas até então administradas, ainda que sob pressão, pela burocracia do PCUS. Um deles e talvez dos mais graves era o das nacionalidades. É sabido que para acomodar interesses regionais e controlar conflitos internos as cúpulas dos Partidos Comunistas tomaram diversas medidas.

No caso da Ucrânia, segunda maior república soviética em importância econômica e política da ex-URSS, foi concedida a região da Criméia, ainda sob o período de Nikita Krushov. O que importava e sempre importou à Moscou é o controle do Mar Negro, única porta de acesso da marinha russa ao Mar Mediterrâneo.

O Mediterrâneo, como se sabe, também é a ligação com o sul da Europa Ocidental e com o Norte da África, além de permitir a passagem para o Oceano Atlântico. Putin quer duas coisas: a garantia ao acesso ao Mediterrâneo e as armas da OTAN longe de suas fronteiras. Está na cara que com um governo hostil à Moscou, nem um nem outro objetivo será assegurado.

Alemanha e Estados Unidos podem gritar, estrilar e rebolar, mas Moscou não vai abrir mão do que quer. E tem toda a legitimidade histórica para suas exigências. Se não tivesse ainda lhe restaria um argumento bastante convincente, quando se trata de briga de cachorro grande na política internacional: é uma potência militar e nuclear.

Assim, Ângela Merkel e Obama vão apenas protestar, mas pouco terão a fazer para impedir as medidas de defesa adotadas pelo governo Putin. E elas ainda podem se estender a outras áreas do Leste da Ucrânia.

Nas últimas semanas o noticiário internacional deu destaque à situação da Venezuela. A cantilena é a mesma: depois de mais uma derrota eleitoral, no final do ano passado, a oposição – amplamente apoiada pela mídia privada local – abriu nova campanha para desestabilizar o governo bolivariano.

 Atendendo aos apelos ferozes de Leopoldo Lopes, e agora também de Henrique Caprilles, a classe média branca vai às ruas para protestar por liberdade, contra a alta da inflação e pela destituição de Maduro. Grupos de estudantes riquinhos, financiados por agências norte-americanas de fomento, tratam de enfrentar a polícia.

Donas de casa de fino trato batem panelas reclamando da falta de produtos e líderes da oposição criticam o governo. Uma tática que conhecemos bem na América Latina, quando um governo ousa desafia os interesses da alta burguesia e dos EUA.

Ora, se há desabastecimento, a responsabilidade é do “mercado”, visto que mais de 50% da economia venezuelana seguem nas mãos da iniciativa privada. O governo tem feito incursões para desbaratar quadrilhas que especulam com a escassez de alguns produtos, mas trata-se de uma iniciativa política de setores que usam sua influência econômica para provocar o caos. Já vimos este mesmo filme no Chile de Allende.

Quanto à liberdade, francamente não pode haver país mais democrático do que a Venezuela, na qual funcionam canais de TV e jornais que pregam abertamente o confronto com o governo. O problema é que a burguesia enche a boca para falar de democracia, mas nunca levou à prática o que prega quando está na oposição.

Não que o governo esteja acima de qualquer crítica, longe disso. É sabido que existe uma “boliburguesia”, formada por empresários e corruptos que estão colados às estruturas de poder. Os caminhos de um processo de transformação social são duros, com obstáculos e a questão da propriedade privada e das relações entre partido e organizações populares ainda é um espinho a ser encarado. Mas o grande mérito do processo venezuelano – ao contrário do que assistimos no Brasil – é que o movimento bolivariano não se acomodou aos limites do permitido pela burguesia.

É inegável que o regime bolivariano ainda tem a maioria da população ao seu lado, como demonstram os resultados eleitorais e as manifestações de apoio ao governo, mas a pressão é grande. Para completar, a central de golpes da América Latina, coordenada pela Sociedade Interamericana de Prensa (SIP), decidiu lançar em todos os países uma campanha como o título “Somos todos Venezuela”, reproduzindo artigos de diários daquele país em apoio à liberdade de imprensa. A parcialidade das matérias publicadas é a prova material da postura golpista e antidemocrática destes veículos, que seguem circulando livremente na Venezuela.

No Brasil, como não poderia deixar de ser, a ponta-de-lança desta campanha caluniosa é o jornal O Globo e as Organizações Globo. Está ou não na hora de regulamentar a grande mídia?

Por que diabos a grande mídia insiste em tornar superficial algo que é tão legítimo da personalidade carioca? O Carnaval do Rio é uma soma de elementos históricos e de contribuições variadas, que se encontram e representam a diversidade de manifestações culturais que convivem numa boa.

Desde que um português (Zé Pereira) decidiu transformar uma barrica num instrumento de percussão, arrastando atrás de si dezenas de pessoas pelas ruas do Rio, o Carnaval dava sinais de sua força. É bem verdade que os portugueses já tinham trazido a tradição do entrudo, com as batalhas de limões estragados.

Os ranchos e sociedades eram, por sua vez, manifestações de classe média e alta, que desfilavam em carros abertos pelas ruas do Rio, no período do Carnaval. Já os cordões, tidos como os precursores dos blocos de rua, tinham um caráter mais popular.

Aos pobres restava o samba, de origem africana, batido na palma da mão, entrecortado por versos improvisados, apresentados na região da Praça XI pelas primeiras agremiações das favelas, que enfrentavam o preconceito das autoridades e das elites cariocas. Sambista e capoeira eram encarados como malandros, perseguidos pela polícia.

O Carnaval passou a ser importante para os compositores de sambas e de marchinhas. Vários deles estouraram com suas composições popularizadas pelo Rádio, com concursos que polarizavam a cidade. Muitas dessas músicas invadiram os bailes, promovidos por clubes sociais, transformando-se em grandes sucessos.

Tudo muda e de fato muita coisa mudou de lá para cá. Algumas destas manifestações deixaram de existir, outras se transformaram. Mas por que o Carnaval carioca segue entre as maiores manifestações culturais populares do país e até do mundo?

A cada ano que passa os desfiles do sambódromo se tornam mais parecidos e já dão sinais evidentes de esgotamento. Os sambas são compostos por consórcios, cujo objetivo é penetrar no meio da indústria musical. O resultado é o pior possível: melodias pouco criativas, previsíveis e letras pobres, inclusive na composição dos versos e no vocabulário escasso. Ainda há exceções, mas elas também estão cada vez mais raras.

A chatice e mesmice das Escolas de Samba só interessam como espetáculo de uma indústria cultural em crise, dirigido por carnavalescos que teimam em enquadrar milhares de pessoas em suas idiotices mirabolantes que a maioria sequer entende. Por isso é preciso tanto comentarista e tanta explicação sobre enredos, alegorias e fantasias.  E tome de falar besteira…

A evolução das alas virou um exercício militar, com disciplina. As escolas não são mais identificadas com suas cores, mas com uma palheta de cores, uma necessidade da TV. Uma tal de “garra” foi introduzida nos desfiles, quase sempre quando um refrão pobre anuncia o amor pela escola. É a autoajuda das agremiações.

No entanto, nas ruas, as pessoas teimam em participar dos blocos. Em muitos deles, além do samba do ano, as baterias acompanham sambas e marchas já consagrados, conhecidos por todos e que levam os foliões ao delírio. É bem verdade que alguns blocos se agigantaram de tal maneira que não se pode mais frequentar.

Mas para a grande mídia, blocos e escolas de samba são mostrados somente como pano de fundo para a apresentação de figurões, atrizes e modelos. Um exibicionismo sem fim, artificial e tolo de uma gente que nada tem a acrescentar ao espetáculo, a não ser suas bundas, peitos e coxas saradas.

Fotos e comentários nos jornais e na TV enfocam detalhes que nada contribuem com a festa em si, como o tamanho da sandália de fulana, a fofoca no camarote da cerveja e toda sorte de futilidades. Os comentários dos desfiles das escolas de samba – com raríssimas exceções – são sofríveis, só suplantados em mediocridade pelas entrevistas na concentração e na dispersão. Que saudade do Pamplona…

A grande mídia não entende e nem quer entender o que se passa nas ruas do Rio no Carnaval. Lamentavelmente seu papel é pasteurizar tudo e lucrar com as manifestações populares, inclusive as culturais. Por isso somos obrigados a ver, ler e ouvir noticiários superficiais, que não retratam nem de longe a força do Carnaval carioca.

Quando a campeã dos desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio vence com um enredo sobre Airton Senna é porque a coisa vai mal, muito mal. O jeito é dar as costas para o espetáculo da Sapucahy e apostar na força das ruas.

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Se o cidadão carioca jogar um copo plástico ou uma ponta de cigarro no chão está arriscado a ser repreendido e levar multa. Cá entre nós, uma decisão dura para uma cidade que oferece poucas opções de depósito de lixo nas ruas.

Mas o que dizer do senhor prefeito¿ Em quatro dias de greve dos garis a cidade se transformou numa grande lixeira, com sujeira espalhada por todos os cantos. A Prefeitura não acreditou no alerta dos trabalhadores, que querem salário de R$ 1.200,00, melhores condições de trabalho e R$ 20,00 de tíquete-refeição.

O governo municipal preferiu negociar com um sindicato pelego, que dá as costas para os trabalhadores e acerta um acordo rebaixado em nome da categoria. O resultado é o que se vê nas ruas da cidade: um Carnaval de lixo!

A Justiça – comprometida com o poder econômico – determinou a ilegalidade do movimento e até multa diária para o sindicato, mostrando que seus reflexos são completamente tardios em relação aos fatos da vida real. No caso, o sindicato é contra a greve.

Para tentar esvaziar o movimento a Comlurb enviou cartas aos grevistas e ameaça com demissões. Por sua vez a Prefeitura decidiu colocar alguns grupos de garis para fazer a coleta. Ocorre que muitos deles estavam sem luvas, botas e até com vassouras quebradas. Um flagrante que só reforça a denúncia dos grevistas, que pedem também melhores condições de trabalho para uma atividade insalubre.

É justa a indignação da população com a sujeira em que o Rio está mergulhado. Não custa cobrar do governo municipal a mesma severidade com que os cidadãos são penalizados quando jogam lixo nas ruas. Afinal, quem vai multar a Prefeitura do Rio?