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Acompanho, estarrecido, a programação dos 50 anos das Organizações Globo. Isso porque a história do jornal O Globo – matriz do sistema Globo – nem está sendo levada em conta. No caso do jornalismo velhas figurinhas carimbadas são reunidas em uma mesa redonda, durante o JN, para relembrar suas “façanhas”.

O problema é que tudo é apresentado com um roteiro de Willian Bonner, que omite as coincidências entre a formação das Organizações Globo e a ditadura militar no país, a quem O Globo apoiou desde o início em matérias tendenciosas e editoriais.

Muito já se falou da operação entre o grupo Time-Life e Roberto Marinho, acobertada e incentivada no início do regime militar, para formar a maior rede de TV do país. Marinho tinha ambições empresariais e os militares a ambição de construir um canal forte, capaz de difundir os valores do regime com a abrangência nacional.

Em 1969, início dos anos mais duros da ditadura, entrava no ar o Jornal Nacional, “integrando todo o país via satélite”. O detalhe não contado é que o satélite era da Embratel, até então empresa estatal, que operava para facilitar as atividades da Rede Globo de Televisão.

O “mago” da Globo era o senhor Walter Clark, junto com José Bonifácio Sobrinho (Boni) e Armando Nogueira, que operavam a programação do que denominavam “Padrão Globo de qualidade”. Era um negócio rentável com o apoio do regime militar, com a ideologia e o discurso do sistema. Contradizendo a experiência de tantos outros veículos de comunicação, na Rede Globo e em nenhum outro braço do jornalismo da Globo houve censor dentro das redações. Por que será?

O jornal O Globo, matriz do grupo que hoje forma o Sistema Globo (TV, Rádio, portais na internet, produção de filmes, etc), sempre se caracterizou por defender posições conservadoras e antinacionais. Dentre elas destacam-se a oposição à Consolidação das Leis do Trabalho, à formação da Petrobras e a defesa ostensiva da derrubada do segundo governo de Getúlio Vargas.

Mas foi com a ditadura militar que as Organizações Globo se consolidaram, chegando hoje ao posto de quarto maior conglomerado de TV do mundo. Isso não se deu por acaso. Além de defender as façanhas do governo militar, a Globo emprestou sua criatividade para impulsionar as campanhas publicitárias do regime, como “Esse é um país que vai pra frente”, Olimpíadas do Exército”, “Brasil, ame-o ou deixe-o” e até o “Povo desenvolvido é povo limpo”, com o personagem sugismundo.

Entre as figuras execráveis que se destacavam na programação da Globo destaca-se a de Amaral Neto (O repórter), que apresentava os milagres do “desbravamento da Amazônia”, em plena construção da estrada Transamazônica. O Jornal Nacional era a expressão maior do jornalismo comportado, que jamais ousou apresentar qualquer reportagem significativa sobre os problemas econômicos, políticos e sociais durante a ditadura.

Momentos marcantes da vida política do país, já no período de decadência do regime militar, foram simplesmente omitidos, como a luta pela Anistia dos presos políticos. Quando noticiadas as greves eram apresentadas como movimentos que perturbavam a ordem e a última palavra era sempre das “autoridades”.

O episódio da bomba no Riocentro, em que se comemorava com um show musical o 1º de Maio, não encontrou na Globo nenhuma outra versão que não a apresentada pelo regime, que procurou jogar a responsabilidade num ataque “terrorista” de esquerda. Hoje se sabe que tudo não passou de uma artimanha de setores do próprio governo militar, que pretendiam endurecer ainda mais o regime.

Em 1982, quando se realizavam as primeiras eleições pluripartidárias para governadores de estados desde 1964, a Globo passou a divulgar a apuração do Rio a partir de boletins computados por uma empresa privada, a Proconsult, que jogava votos nulos e brancos para a candidatura de Moreira Franco, candidato do partido da ditadura (PDS). Este caso foi denunciado como “escândalo da Proconsult”.

Em 1983 surge o movimento por eleições “Diretas Já”, com manifestações de rua que levariam multidões às praças de todo o país. No entanto, as Organizações Globo resistiram até o fim em noticiar o movimento. Só no final, quando não se podia mais ignorar o clamor das ruas, a Globo passou a mostrar os comícios. Por várias oportunidades seus veículos foram atacados e seus jornalistas hostilizados nas ruas. Dali surgiu o slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

Outro episódio que marcou a trajetória das Organizações Globo foi o último debate entre Collor e Lula, na eleição presidencial de 1989. Os dois estavam empatados nas pesquisas e a cúpula da Globo editou de forma tendenciosa o debate, para noticiar uma vitória de Collor no confronto, às vésperas da votação. É evidente que a manipulação ajudou Collor a vencer.

Hoje, com a TV aberta e a cabo, o jornalismo da Globo continua fazendo das suas. Agora para ilustrar matérias sobre economia e política, a Globo entrevista o que chama de “especialistas”, que via de regra são ex-ministros e ex-dirigentes de governos tucanos.

Manifestações que contrariam os interesses das Organizações Globo são mostradas como confusas e seus participantes tratados como “vândalos”, o que justifica a atuação sempre violenta da polícia. Já as manifestações de rua que interessam a Globo aparecem como movimentos cívicos, pacíficos, com a participação das famílias, nas quais os manifestantes contam com a simpatia e até se confraternizam com a polícia.

Não se trata de corrigir erros ou possíveis falhas de percurso, como quer nos fazer crer Willian Bonner. As Organizações Globo, tal como são, só existem como um subproduto do autoritarismo e de uma história de conservadorismo, arrogância e o monopólio das comunicações. As repetidoras da Globo de norte a sul em todo o país se alicerçaram em aliança com oligarquias regionais.

Como profissional de imprensa sou obrigado a reconhecer o trabalho e empenho de tantos e tantos jornalistas que passaram e ainda estão a serviço das Organizações Globo. Nada contra todos vocês, ao contrário.

No entanto, nestes 50 anos que a emissora procura dourar no Jornal Nacional, em forma de encontro com os repórteres de então, o que há de mais importante a refletir é a própria existência e o papel nefasto que cumpriram e vem cumprindo até hoje as Organizações Globo para o Brasil.

Dois dos quatro grandes clubes do futebol carioca se rebelaram contra a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) e ameaçam formar uma liga independente. Dirigentes de Flamengo e Fluminense não se cansam de levantar dúvidas sobre a lisura do Campeonato Carioca 2015.

Primeiro houve questionamento sobre os preços de ingressos praticados no Maracanã,já que o consórcio privado que administra a “arena” fechou contratos com Fla e Flu em que fica com 40% do lucro da renda, sem falar nos custos de cada partida. Evidente que os dois clubes ambicionavam ingressos mais caros para não ficarem no prejuízo, mas sempre coube à Federação determinar os preços das entradas.

Durante a competição os velhos erros de arbitragens se fizeram notar, coincidentemente sempre contra os clubes de menor expressão. Vasco e Flamengo foram beneficiados, com pênaltis inexistentes (Vasco) e gols estranhos (Flamengo). Já Fluminense e Botafogo não tiveram vida boa. O Flu foi prejudicado em penalidades não marcadas e o Botafogo com dois gols legítimos contra o V. Redonda, que lhe custaram dois pontos na fase de classificação.

Antes do Fla x Flu da última rodada o treinador do Flamengo havia dado declarações que insinuavam a interferência da FERJ na proibição de escalar jogadores dos juniores, já que o clube estava sem atletas profissionais suficientes no elenco. Luxa foi punido pelas suas declarações, mas ninguém no Fla avisou que o clube aceitou o regulamento do Campeonato. Aliás, isso ocorreu muito mais pela pressão da TV Globo, que temia um estadual esvaziado, como no ano passado.

Durante o Fla x Flu, Fred foi derrubado e o árbitro entendeu que ele simulou o tombo, dando falta para o adversário e expulsando o jogador. Na saída de campo desandou a dizer que o Campeonato Carioca não tinha que ser mais disputado. Como ficou de fora do jogo contra o Madureira Fred pode jogar a primeira partida da semifinal contra o Bota e, inclusive, fez os dois gols da vitória tricolor. Mas para não escapar às tradições de virar a mesa a direção do Fluminense tentou um “efeito suspensivo” para que o jogador, já punido injustamente pela FERJ, pudesse entrar em campo na segunda semifinal.

Luxemburgo e Fred foram punidos pelo que disseram, o que configura o autoritarismo do Tribunal de Justiça Desportiva e da direção da FERJ. E o que disseram não representa nenhum absurdo, são apenas opiniões que devem ser respeitadas.

Os erros de arbitragens nas semifinais continuaram gritantes. No primeiro jogo entre Fla e Vasco o juiz deu só cartão amarelo para Jonas (Flamengo), que deu uma tesoura voadora no jogador adversário. No segundo jogo o árbitro deu pênalti inexistente a favor do Vasco.

Nos jogos entre Flu e Bota os erros também existiram. Mais uma vez uma recomendação (não é regra) foi cumprida à risca por um juiz, que entendeu que o lateral do Botafogo cortou a bola com a mão dentro da área, dando pênalti a favor do Flu. No segundo jogo o auxiliar não assinalou impedimento do atacante do Bota, em jogada que originou o primeiro gol da partida. No entanto, se o objetivo era tirar o Flu da final do Carioca 2015, por que os árbitros das duas semifinais assinalaram dois pênaltis a favor do clube das Laranjeiras (int)

Mas como tudo para Fla e Flu é motivo para detonar o Campeonato, seus dirigentes desandaram a reclamar. Até a realização do segundo jogo no Niltão (Engenhão) foi motivo para questionamento por parte da direção do Fluminense, mesmo com renda superior a da primeira partida.

Pode ser que as arbitragens dos jogos das finais falhem e interfiram diretamente nos resultados. Pela falta de profissionalização juízes e seus auxiliares são muito mais suscetíveis a pressões de todo tipo.

O problema não é o que o que os cartolas dizem, mas justamente o que eles não dizem: que o Campeonato está nas mãos da emissora de TV, que determina jogos em horários estapafúrdios para o torcedor e que são bons apenas para os seus anunciantes. Também não assumem sua omissão na hora de decidir o regulamento da competição ou conivência com a direção da FERJ quando lhes interessa.

Os euricos e rubinhos são criaturas da estrutura decadente dos clubes e federações de futebol. A saída não é apontar o dedo para os outros, mas dar o exemplo a partir da mudança dos próprios clubes, a começar pela democratização de seus estatutos.

O Campeonato Carioca só é bom para Flamengo e Fluminense quando seus interesses estão garantidos. Toda essa indignação e ameaça de criar uma liga independente não são novas e não passam de bravatas para sensibilizar os ingênuos. Afinal, apaixonado pelo seu clube só mesmo o torcedor.

O governo gastou muito e agora o país está quebrado. Para desvendar o que está por trás desta frase, que ouço e leio nos noticiários todos os dias, que me debrucei sobre dados para conferir. Das 150 empresas que mais receberam recursos do BNDES em 2013, pode-se dar um desconto à Petrobras e outras empresas públicas. Do mesmo jeito pode-se entender o empréstimo de recursos públicos a empresas envolvidas em projetos que, em tese, teriam interesse social.

Mas o que dizer de empréstimos do BNDES para a TIM, Volkswagen, Fiat, Supervia, Brasken, Gerdau, Totus, Mercedes-Benz, Lojas Riachuelo, Klabin, Jari, Riomar Shopping, Votorantim, Light, Ipiranga, Libbs, Novamed, Nardini, CBA, Shopping Cidade Jardim, Tigre e Locaweb? São exemplos de grandes grupos econômicos privados que foram agraciados com o mínimo de R$ 40 milhões em empréstimos com recursos públicos, só no ano de 2013. Essa farra de liberação de empréstimos a juros camaradas para grandes empresas representou 2/3 do orçamento do BNDES naquele ano.

De 2011 a 3013 o governo Dilma baixou uma série de medidas em relação aos negócios de diversos setores da economia, conhecidas como desoneração, que redundaram numa renúncia fiscal (na arrecadação de impostos) de cerca de R$ 40 bilhões.

Isso ocorreu, em boa parte, porque o governo estendeu alguns benefícios e prorrogou outros, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), reduzido para o setor automotivo. Os R$ 40 bilhões também se referem a: corte de IPI para outro setores; reajuste da tabela do IR; isenção de IR para a venda de ações por pessoas físicas; incentivos para o mercado de capitais; benefícios à indústria de semicondutores; redução de IOF para investimentos estrangeiros com prazo mínimo de 180 dias; ampliação da lista de medicamentos com crédito presumido; volta do Reintegra (crédito a exportadores); dispensa de recolhimentos de alguns impostos nas compras governamentais de passagens aéreas; e eliminação de IOF no crédito sobre as operações contratadas pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

No que se refere ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública brasileira (interna e externa) o governo Dilma também tem sido generoso, como de resto todos os governos que a antecederam, inclusive os de FHC. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, do Orçamento Geral da União de 2013 que foi executado, 40,3% foram destinados ao pagamento dos serviços da dívida, enquanto em 2014 este pagamento representou 45,1% de todo o orçamento executado. Esta mesma operação representará R$ 1,135 trilhão só no exercício de 2015, ou seja, 47,4% do Orçamento da União.

De acordo com o site Carta Maior (matéria de agosto de 2011), no fim do primeiro semestre daquele ano o governo devia ao “mercado” R$ 1,7 trilhão em títulos negociados dentro do país. Instituições financeiras – bancos na grande maioria – seriam donas de 31% (R$ 548 bilhões). Os fundos de investimentos controlavam 25% (R$ 432 bilhões). Entidades de previdência, 15% (R$ 264 bilhões). Estrangeiros, 11% (R$ 192 bilhões). Governos (órgãos públicos também buscam lucro com a dívida), 9% (R$ 166 bilhões). E seguradoras, 4% (R$ 70 bilhões). O resto está disperso por segmentos menos expressivos e por pessoas comuns.

Mas quanto o governo Dilma tem destinado a outros setores? No setor da Educação, por exemplo, o Orçamento da União executado em 2013 e 2014 foi de 3,7%. Na área da Saúde o investimento executado no Orçamento de 2013 foi de 4,3% e 4% em 2014. Será que o governo está gastando tanto assim com a folha de pagamento do funcionalismo?

Em 2015 a folha representará 4,1% do Produto Interno Bruto do país (coma de tudo que se produz e se comercializa no país no período de um ano). De acordo com o site Contas Abertas, os governos federal, estaduais e municipais gastaram R$ 241 bilhões com salários e encargos trabalhistas com os cerca de 10 milhões de servidores públicos em 2014. Isso corresponde a uma média de R$ 24.100,00 por ano com cada servidor, ou seja, uma média de R$ 2 mil mensal para cada servidor.

O tão badalado programa Bolsa Família consome algo em torno de R$ 25 bilhões (0,5% do PIB) por ano dos cofres públicos. Já o FIES, fundo do governo que financia a faculdade paga por cerca de 1,9 milhões de estudantes universitários em todo o Brasil, custa em média R$ 17,6 bilhões por ano. No caso do Programa Minha Casa Minha Vida são investidos 0,35% do PIB. Considerando-se que o PIB brasileiro em 2013 foi de R$ 2,246 trilhões, dá para entender que os chamados gastos com programas sociais correspondem a mixarias.

Para que o governo tenha como gastar é preciso arrecadar. Então vamos aos dados sobre arrecadação de impostos no Brasil, hoje (2014) correspondendo a mais de R$ 1 trilhão/ano. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), 79% da população brasileira que recebe até 3 salários mínimos por mês contribuem com 53% de toda a arrecadação tributária do país. A camada remediada da classe trabalhadora (3 a 10 salários mínimos) contribui com 29,28% do total arrecadado pelo governo, enquanto a chamada classe média (10 a 20 mínimos) repassa 9,63% do total dos impostos. Já os que recebem mais de 20 salários mínimos contribuem com apenas 7,30% do total da arrecadação federal.

Portanto, uma rápida leitura do orçamento, da arrecadação de impostos, dos principais gastos e investimentos indica que o governo continua priorizando uma política econômica voltada para assegurar os interesses e negócios de grandes grupos econômicos, sobretudo os do setor financeiro, detentores do grosso dos títulos da dívida pública brasileira.

Se é verdade que o choro é livre, também é verdade que o choro das classes dominantes no Brasil é uma farsa. Pagam pouco imposto, suas fortunas não são taxadas, recebem empréstimos e financiamento público com taxas de juros baixas, a perder de vista, e ainda reclamam que o Estado gasta muito. Mas, como diz o ditado popular, quem não chora não mama…

Os argumentos dos petistas contra a Operação Lava-jato vão dos mais pueris aos mais cínicos. O maior de todos – o de que a corrupção não começou com o PT – é também o mais grave. Ou seja, todo mundo rouba, não é só o PT.

A emenda fica pior que o soneto quando se afirma que “escândalos sempre houve, mas só no governo do PT eles são apurados”. Pode ser, mas isso não se deve simplesmente ao PT e seus governos, mas acima de tudo a uma postura mais firme e independente do Ministério Público e da Polícia Federal, com quadros novos e menos contaminados por práticas irregulares.

Como saída para a crise de credibilidade que atinge os partidos e os governantes, o PT aponta a necessidade de uma reforma política. Tudo bem, pode ser. Mas quem vai realizar esta reforma? Este Congresso Nacional que está aí? Por qual motivo? Interessa a essa turma mudar substancialmente alguma coisa?

O fato é que um partido que teve a ousadia de sacudir o país e bradar pela “ética na política” não pode ter dois tesoureiros detidos por envolvimento em escândalos, que revelam a compra de votos de parlamentares e o financiamento de campanhas políticas por empresas privadas.

É verdade, não é só o PT. Tampouco são só governantes e parlamentares petistas os beneficiados com dinheiro movimentado em esquemas irregulares. Pode ser que a maioria dos petistas envolvidos não participe destes esquemas para enriquecimento ilícito. Mas um partido com a responsabilidade histórica que o PT assumiu não tem o direito de frustrar a sociedade, reproduzindo e compactuando com velhos esquemas de desvio de recursos e de conduta.

Seria uma tolice reduzir a questão a um problema moral ou ético. Todo esse envolvimento no caso do mensalão, e agora da Petrobras, prova que a política do Partido dos Trabalhadores foi totalmente contaminada por um pragmatismo reacionário, no qual os fins justificariam os meios.

Não se pode defender um projeto político que inclui o bom convívio com grandes empresas capitalistas sem experimentar e participar de práticas que refletem a “ética” (ou os princípios) da burguesia, ou seja, a propina, a corrupção, o desvio de recursos, o enriquecimento ilícito, a compra de votos, o toma lá dá cá, etc.

No Brasil dos coronéis, do agronegócio, das campanhas milionárias, do caixa-dois, das falcatruas do sistema financeiro e das bandalheiras de todo tipo é comum as pessoas ainda se sentirem ofendidas quando alguém pede que se preste contas de algo. Isso se chama transparência, compromisso com o bom uso dos recursos públicos.

Em meio à crise que desmoraliza o PT a esquerda brasileira tem obrigação de refazer coisas básicas, como os pilares da transparência como prática política de seu cotidiano. Não se trata de clamar por “ética na política”, mas de demonstrar, na prática e com atitudes concretas, que é possível e necessário fazer política somente para disputar idéias e projetos na sociedade.

(*) Frase atribuída a Jesus de Nazareth, no Livro de Marcos.

Em seu Palácio, em Brasília, despacha a presidente Dilma Rousseff. Mas se atravessarmos a Praça dos Três Poderes daremos de cara com o Congresso Nacional, comandado pelos senhores Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Já na sede do mais importante braço do Poder Judiciário, o STF, quem manda é o doutor Lewandowski.

Tudo normal, não fosse pelo fato de que os três poderes em equilíbrio viraram mera formalidade. Com a perda de credibilidade, logo após sua eleição e a divulgação dos nomes dos envolvidos no escândalo da Petrobras, a Presidente nem esperou a aprovação final do PL 4330/04 – que libera a terceirização para todos os setores da economia – e terceirizou seu governo.

Entregou a condução da política econômica às mãos do banqueiro Joachim Levy, ativista da Escola de Chicago (EUA) e do neoliberalismo, cuja mola mestra é a redução da presença do Estado na economia. Na política passou toda a articulação ao vice-presidente, Michel Temer, velha raposa felpuda do PMDB.

Em resumo, Dilma hoje governa tanto quanto a rainha da Inglaterra. Todo mundo faz de conta que ela manda, mas sabe que a palavra final não é dela. Até então o que existia era um governo do PT, apoiado pela “base aliada”, formada por gatos e sapatos. Hoje o que impera é o governo da “base aliada” e o PT é apenas um coadjuvante de menor expressão, que ninguém quer.

Não assusta que setores da direita mais raivosa encontrem eco em suas proposições entre parcela expressiva das camadas médias, como o impedimento da Presidente ou mesmo uma intervenção militar. Também não assusta que as pesquisas de opinião sobre o governo Dilma II indiquem as mais elevadas taxas de rejeição dos últimos tempos.

Nos últimos anos de governos social-liberais o PT e seus aliados se preocuparam em criar e fortalecer grandes consórcios de empreiteiras, as “multinacionais brasileiras”. Usaram como alavancas o BNDES, o BB e a Caixa (emprestando fortunas a juros baixos para grandes grupos empresariais), a política de juros altos para favorecer os grandes bancos, a desoneração da folha de pagamento das grandes empresas.

Por outro lado os governos petistas ampliaram os chamados programas sociais, tendo a frente o Bolsa-família (que consome em média minguados R$ 20 bilhões/ano do Orçamento da União), beneficiando cerca de 40 milhões de brasileiros. O crédito fácil foi liberado, ampliando o consumo de massa, a produção e o emprego, ainda que com salários baixos. Os governos Lula e Dilma também alimentaram o sonho de milhares de brasileiros de chegar à Universidade, através do Prouni e o FIES, que virou a menina dos olhos dos empresários da educação.

No entanto, toda essa quimera de um “Brasil para todos” se revelou pesadelo, quando as condições econômicas deste modelito mostraram esgotamento. Os cofres públicos foram à lona de tanto financiar a farra do grande empresariado. Agora, o jeito é desdizer tudo que foi dito e impor o tal de “ajuste fiscal”, que nada mais é do que a velha política de fazer superávit primário (cortando investimentos sociais) para pagar juros e amortizações da dívida externa e interna.

O que mobiliza a direita e parte da classe média é o discurso contra a corrupção (que não é novo) e a assombração comunista, o que não tem qualquer justificativa quando se trata do PT e seus aliados. Mas o que poderia sensibilizar o povo na defesa de seus direitos e interesses virou pó, porque a própria rainha que lhe prometeu o Paraíso já abriu a porta do Inferno.

Em meio à polêmica sobre a aprovação do Projeto de Lei que libera a terceirização em todos os ramos e setores da economia, inclusive a administração pública, ficam algumas observações.

O deputado Paulinho da Força (Sindical) só queria emendar o texto original, assegurando a fidelidade dos terceirizados ao sindicato dos demais trabalhadores do mesmo ramo. Já o ministro Levy, preocupado com o “ajuste fiscal”, tratou de assegurar junto ao relator do Projeto que os impostos devidos pelas terceirizadas serão cobertos pelas empresas contratantes.

Os parlamentares do PT – alguns com sinceridade – fizeram um tremendo escarcéu na Câmara. Mas será que ignoram que seu próprio governo também terceiriza e contrata temporários? Para dar só um exemplo cito o IBGE, em que os temporários são quase a metade dos servidores. Na Petrobras a relação é de três terceirizados para um efetivo.

Já os entusiastas deste “modelo” de contratação de mão-de-obra alegam que se trata de serviços especializados, que tudo virá para o avanço do país. O empresariado brasileiro, setor mais entusiasmado com o PL 4330/04, sempre se queixou do “custo Brasil”, representado, entre outras coisas, pelo excesso de direitos dos trabalhadores.

Além de representar uma exploração ainda maior do trabalhador (trabalha mais, recebe menos, adoece mais, possui menos benefícios, permanece menos tempo no emprego, etc), a terceirização costuma sair mais cara para a administração pública do que a contratação via concursos públicos.

O Projeto ainda deve passar por modificações na Câmara e seguir para apreciação no Senado. Se o Projeto for aprovado pelo Congresso, caberá à Presidente Dilma dar o veredito: sim ou não à semiescravidão?

Se este segundo mandato não servir para mais nada, pelo menos a Presidente poderá dar um exemplo de dignidade e vetar o PL 4330. Caso contrário, será cúmplice da condenação das atuais e futuras gerações de brasileiros ao desalento do trabalho precário e mal remunerado.

EM VEZ DE ELEVAR AS CONDIÇÕES DE TRABALHO DE 12 MILHÕES DE TERCEIRIZADOS, PROIBINDO ESTA FORMA VERGONHOSA DE SUPEREXPLORAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA, O EMPRESARIADO BRASILEIRO QUER REBAIXAR A CONDIÇÃO DOS 40 MILHÕES DE TRABALHADORES, QUE JÁ SOFREM COM BAIXOS SALÁRIOS MAS AINDA GOZAM DE ALGUNS DIREITOS, APROVANDO O PL 4330/04, QUE LIBERA A TERCEIRIZAÇÃO EM TODAS AS ÁREAS DA PRODUÇÃO. PARA ILUSTRAR O QUE É A VIDA DE UM TERCEIRIZADO VEJAM O DOCUMENTÁRIO ABAIXO, DO GRUPO DE PESQUISA TRABALHO E CAPITAL, DA USP, COORDENADO PELO JUIZ DO TRABALHO E PROFESSOR JORGE SOUTO MAIOR.

Identidade Nacional

03/04/2015

Instigado pela proposta de uma redação escolar, me vi obrigado a conversar a respeito da identidade nacional brasileira com um de meus filhos. Falamos sobre língua, futebol, música, comida, cultura, enfim, raízes da formação do nosso povo e de nosso país.

Esse conjunto de valores que não se pode quantificar, se acumulou ao longo de alguns poucos séculos e é oriundo da mistura e influências dos que por aqui nasceram, passaram, foram e ficaram, forjou essa identidade ainda difusa. No entanto, o que mais sintetiza a ligação de um povo com seu país sem dúvida é a saudade, a falta que sentimos de nossa terra natal quando estamos longe dela.

A saudade é carregada de símbolos, de gostos, de toques, de melodias, de ritmos, de cores, de luzes, de cheiros, de flores, de paisagens e lugares que marcam nossa existência, nossas raízes.

O Brasil rural atravessou três séculos, da colônia ao Império. Era um país em que a cobiça pelas riquezas naturais e pelas grandes extensões de terras determinava o ritmo da vida. A escravidão de nativos e negros africanos marcou esta época e ainda guarda feridas abertas. Um ritmo lento, nas rodas do carro-de-boi, de poucas mudanças, de gerações de escravos, colonos, posseiros. Esse Brasil rural se manifestava em cerimônias típicas, como a Cavalhada, a Congada, o Jongo, a Folia de Reis, o Bumba-meu-boi e a festa de São João, na qual os pobres do campo faziam caricatura dos senhores.

Vale a pena lembrar que as contribuições culturais para esse território que hoje se chama Brasil foram muitas, dependendo da presença, maior ou menor, de brancos, negros e nativos nas diversas regiões do país.

A escravidão negra registrou a vinda de cerca de seis milhões de africanos para cá, teve presença marcante em toda a extensão de terras em que predominou a produção de açúcar, café, cacau e algodão, além dos territórios de minas de ouro. Nessas áreas são evidentes os traços africanos na culinária, na religião, nas ferramentas e nas manifestações culturais.

Já a presença dos europeus teve influências variadas com a presença de portugueses, holandeses e franceses no Brasil Colônia. Depois do Império e, mais recentemente na República, outras migrações europeias fincaram raízes em nosso território, como a de italianos, espanhóis e alemães, sobretudo no Sudeste e Sul do país.

Dos nativos, erroneamente conhecidos como “índios”, herdamos um certo amor à natureza, a necessidade de migrar quando a vida pede e a capacidade de lidar de forma mais aberta com o corpo e a sexualidade. Tudo isso com uma forte dose de repressão ocidental-cristã, imposta pelos dogmas moralistas da Igreja Católica.

O Brasil Império, liberto de Portugal, atravessou inúmeras crises, mas também mudou a cara do país. Aos poucos foi se formando a administração pública, com responsabilidades do Estado e o recrutamento de servidores para a arrecadação fiscal, a repressão e a defesa. Como a escravidão só foi abolida no final do século XIX, desde antes as cidades também foram povoadas por escravos negros para serviços caseiros e de movimentação de carga nos portos.

Aos poucos foi se erguendo um Brasil urbano, que reconhecemos hoje com mais força, até porque seus registros históricos são mais palpáveis a partir do início do século XX. Esse novo Brasil, não menos contraditório e efervescente na vida política, econômica, social e cultural, se revela como um país mestiço, miscigenado, com caras, cores, línguas e formas totalmente originais, com variações as mais distintas de região para região.

Ao contrário do que se difunde e é voz corrente, o povo brasileiro não é e nunca foi pacífico e ordeiro. Foram inúmeros os levantes, guerras e batalhas contra a opressão do colonizador, como  a confederação do equador, os quilombos, as lutas do período regencial e as revoltas populares  no Império e na República.

Se tomarmos a língua como ponto central da identidade nacional, veremos que no caso do Brasil existem vários sotaques e até diversas formas de falar o português/brasileiro. O gauchês do extremo sul, influenciado pelo casteliano da fronteira, pouco tem a ver com o catarinês da Ilha de Florianópolis, com forte presença de lusitanos da Ilha da Madeira.

Já o paulistês, carregado de influência italiana, é totalmente diferente do carioquês, eivado dos erres e esses puxados dos portugueses. O baianês, cheio de malemolência africana, é bem diferente do cearês e do pernambuquês. O mineirês não se assemelha em nada ao português falado nos estados do Norte.

No entanto, todos formam um mosaico das diversas influências sofridas pelo idioma que predominou nos distintos espaços do território nacional. No Rio, em particular, era tamanha a presença de africanos que até o início do século passado há registro de uma língua de origem banto, conhecida como quimbundo, falada nos redutos da negritude. Diversas palavras assimiladas ao português falado no Brasil tem origem africana, particularmente dos povos de Angola.

Diferente da China, por exemplo, que possui dezenas de idiomas regionais convivendo dentro de um mesmo território, ou como no caso da Espanha, que ainda convive com cinco idiomas.

A tal identidade nacional é uma construção que ainda pode levar séculos, mas, sem dúvida já podemos afirmar que nosso código genético é dos mais ricos do mundo, visto que somos um país mestiço, por isso diferente.

O manifesto modernista de 1922 detecta esta característica de forma precisa, quando aponta a antropofagia dos nossos ancestrais como uma forma de lidar com outras culturas, cuspindo fora o que não nos convém, digerindo o que nos atrai e assimilando o que nos interessa de forma original, adaptado às nossas raízes.

Por isso, o Brasil, cuja identidade ainda está em construção, é uma mescla de costumes, valores e manifestações que só a cultura popular pode proporcionar. Um país em que uma pianista e compositora misturou modinhas e polcas com lundu e transformou em maxixe; em que um maestro de escola erudita e genial frequentava casas de choro e pesquisava cantigas de roda; onde um instrumentista negro inventou um jeito diferente de tocar saxofone; onde cantores e compositores populares se transformaram nos maiores ídolos da música.

Esse país mestiço, contraditório, confuso para os letrados, sem saída para os desesperançados, atrasado para os elitistas, sobrevive à teimosia das velhas oligarquias, que insistem em saqueá-lo todos os dias, de forma hipócrita criminalizar os pobres e ainda clamar por justiça. Essa mesma elite, que em tempos não tão longínquos tinha planos de embranquecer sua população. Infelizmente, para eles, o sol sempre volta a brilhar e a dar esperanças ao povo.

Essa minoria, que autointitula “classe produtora”, nasce em berço esplêndido, se cria em ambientes refinados tal como seus ascendentes que aspiravam viver em Paris, amadurece sonhando em conhecer a Disney e morar em Miami, faria um favor se largasse o osso e partisse para realizar seus sonhos. Não antes sem pagar pelos crimes horrendos que cometeu e comete para justificar seus privilégios, tendo o Estado como sócio e financiador de negócios espúrios.