O secretário das concessionárias de transportes deu entrevista coletiva para tentar justificar o injustificável sobre o incidente com o Bonde 10, que matou cinco pessoas e feriu dezenas de passageiros em Santa Teresa. Para arrematar ainda deixou no ar, de forma maliciosa, uma acusação velada sobre a atitude “suspeita” do motorneiro Nelson, uma das vítimas fatais.

O covarde é aquele que não assume suas responsabilidades e ainda levanta suspeitas sobre alguém que não pode sequer se defender. Mais uma vez querem fazer a corda arrebentar do lado mais fraco. Pelo que deu a entender o senhor secretário a culpa seria do motorneiro, que deveria ter recolhido o bonde à garagem.

É… Vai ver que num acesso de loucura o motorneiro decidiu, sozinho, dar uma voltinha com um bonde avariado. Deve ter sido para dar um susto na turistada ou mais emoção àquela tarde monótona de sábado… Será que ele tinha tendência suicida? Se bobear vão pedir teste de sanidade mental da ficha funcional do falecido.

Difícil mesmo é admitir que apenas 7% do orçamento anual reservado à manutenção do sistema de bondes vêm sendo utilizados pelo governo de 2007 para cá. Mais difícil é assumir que o contrato com a TTrans (R$14 milhões para reformar 14 bondes) era viciado, conforme atesta o TCE. Mais difícil ainda é chamar a responsabilidade para si sobre a sentença judicial de 2009, que o Governo estadual não cumpre.

Enquanto o motorneiro Nelson morreu tentando frear o Bonde 10, gritando aos passageiros para que saltassem e se protegessem, com a dignidade de quem jamais abandona a responsabilidade do posto de comando, o secretário vive fugindo da sua. E foge de helicóptero e carro oficial, porque certamente ele não sabe o que é a dureza de enfrentar um transporte coletivo no Rio de Janeiro.

A Diretoria da AMAST lamenta profundamente o acidente ocorrido na tarde de hoje e se solidariza com a família das vítimas fatais e dos feridos. Nós, moradores de Santa Teresa, estamos profundamente abalados com a notícia e com a perda irreparável do motorneiro Nelson.

Nesse momento de dor e indignação, temos a dizer à imprensa, à sociedade civil e aos poderes constituídos que não aceitamos, em hipótese alguma, a classificação desse acidente como fatalidade. Trata-se de uma tragédia anunciada; mais uma, como foram a morte da Profa. Andréa de Jesus e, recentemente, do turista Francês Charles Damien.

Qualquer que seja o motivo apontado pela perícia, é certo que o Estado do Rio de Janeiro, na pessoa de seu Governador Sérgio Cabral e, principalmente, na pessoa do Secretário de Transportes Júlio Lopes, omite-se de forma vil e dolosa há anos, tratando o sistema de bondes de Santa Teresa com descaso.

Mais do que o abandono de um bem tombado, que, quando convém, tem a imagem utilizada para ilustrar interesses politiqueiros de divulgação da cidade, estamos diante de uma situação criminosa, na medida em que pessoas morrem ou sofrem lesões corporais de natureza grave, que certamente poderiam ser evitadas se o Governador e o Secretário cumprissem a decisão judicial que, há mais de 2 (dois) anos ordenou a recuperação integral do sistema de bondes, com a devolução dos 14 bondes tradicionais em perfeitas condições de operação.

A superlotação, alegada pelo Secretário à imprensa, é fruto do número reduzido de bondes em operação. A verba que deveria ter sido utilizada para restabelecer a operação dos 14 bondes foi aplicada indevidamente em uma tentativa fracassada de modernização dos bondes, verdadeira aventura tecnológica que resultou em pseudo-VLT’s com aparência de bondes, os quais seguem apresentando problemas de freio, poluição sonora e instabilidade nas curvas. Em paralelo, os poucos bondes tradicionais que não sofreram desmantelamento, foram relegados ao abandono, à falta de manutenção preventiva e seguiram operando em condições totalmente precárias.

Estes fatos foram exaustivamente denunciados pela AMAST às autoridades competentes em âmbito administrativo e judicial, porém nada de concreto foi feito para reverter a situação.

O CREA, em relatório da CAPA (Comissão de Prevenção de Acidentes) divulgado publicamente, recomendou que os bondes modificados não fossem colocados em circulação devido à falha grave na localização do sistema de freios. A recomendação foi solenemente ignorada pelo Governo do Estado (Sérgio Cabral), Secretaria de Transportes (Júlio Lopes) e Central Logística (empresa que administra o sistema de bondes).

O Ministério Público Estadual, apesar de ter movido Ação Civil Pública na qual obteve liminar, sentença e decisão em recurso favoráveis à restauração completa do sistema de bondes, jamais fez qualquer pedido à justiça de execução provisória das referidas decisões.

O Tribunal de Contas do Estado julgou ilegal o contrato da T’TRANS com a Central Logística (empresa estadual que administra o sistema de bondes de Santa Teresa), o que, em tese, acarretaria a necessidade de punir os responsáveis pela negociata e reparação dos prejuízos causados ao erário, mas até o momento não se teve notícia de qualquer punição e muito menos de restituição da verba pública ilegalmente empregada.

A Comissão de Transportes da Câmara Municipal, após intensos trabalhos, propôs uma série de medidas e recomendações, além de apontar fatos merecedores de atenção e providências, relacionados à ordenação do trânsito em Santa Teresa. Contudo, a Prefeitura do Rio de Janeiro (Eduardo Paes), a CET Rio e a Secretaria Municipal de Transportes não moveram uma palha para alterar a triste e perigosa realidade em que nós, moradores de Santa Teresa, vivemos diariamente.

Pelas razões acima, e por todos os outros motivos que até as pedras centenárias das ladeiras de Santa Teresa conhecem, reputamos como principais culpados as autoridades aqui mencionadas, com especial destaque para:

1.O Governador Sérgio Cabral, que com sua habitual desfaçatez, suscitou à época do acidente que vitimou a Profa. Andréa de Jesus Rezende, uma possível municipalização dos bondes, com o único propósito de desviar o foco da imprensa quanto à raiz do problema, haja vista que nenhuma palavra voltou a ser dita sobre o assunto nos últimos 2 (dois) anos.

2.O Secretário Júlio Lopes, pela malversação da verba pública que deveria ter sido aplicada na recuperação dos 14 bondinhos tradicionais, e que foi aplicada na aventura tecnológica fracassada empreendida pela empresa T’TRANS, que resultou na criação de aberrações com aparência de bonde porém repletas de problemas de projeto que até hoje não foram superados;

3.O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, pela omissão em requerer à justiça a execução provisória das decisões que ordenaram a recuperação integral do sistema de bondes de Santa Teresa, mesmo após o esgotamento dos principais recursos em que o Estado saiu-se perdedor;

É difícil acreditar que os verdadeiros responsáveis pelas mortes, ferimentos, famílias e sonhos destruídos algum dia serão culpados, mas é esse o nosso desejo e nossa luta, pois temos a convicção de que somente a punição exemplar seria eficaz no sentido de reverter a situação crítica que tem sido imposta ao nosso bairro, ao nosso sistema de transporte e às nossas vidas.

Por fim, convocamos os moradores de Santa Teresa e a população do Rio de Janeiro para se juntarem a nós nessa luta hercúlea e contínua que constitui uma missão histórica da AMAST. Pedimos que continuem acompanhando e participem dos atos públicos e manifestações, virtuais e presenciais, programados pela associação, com destaque para o dia do aniversário do bonde, 01/09, cuja comemoração já seria substituída por protesto em forma de luto, agora com mais razão de ser em função desse lamentável acontecimento.

A Diretoria da AMAST (Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa)

27/8/2011

O Brasil é um país pacífico. Nada mais falso que esta afirmação. A violência está presente no quotidiano brasileiro de forma acintosa ao longo de nossa História. Os registros anuais de morte por armas de fogo são assustadores, dos maiores do mundo.

A violência contra os movimentos sociais chega ao ponto de produzir centenas de assassinatos de lideranças populares anualmente, sobretudo no campo, por ordem dos latifundiários.

Ao contrário do que retrata a História oficial, os poucos séculos de invasão colonial até os nossos dias deixaram um rastro de assassinatos e tortura. Sob a justificativa de que os indígenas tinham uma atitude “indolente” frente ao trabalho (escravo), as tropas coloniais dizimaram centenas de tribos, reduzindo a população nativa a algumas dezenas de milhares nos dias de hoje.

O seqüestro, açoite e a escravidão de levas de negros africanos impulsionaram a produção canavieira, a extração de ouro, do cacau e do café. Centenas de milhares morreram somente no trajeto da África para cá, nas masmorras dos navios negreiros. O massacre de Palmares foi um exemplo de como as elites jamais toleraram a saga pela liberdade e a igualdade em nosso país.

Mas a pior violência é a institucional, ou seja, pela via do Estado e seus agentes. A “pacificação” do período da Regência se deu a partir da intervenção militar do Império, sufocando revoltas regionais, estigmatizadas como movimentos separatistas, como a Cabanagem, no Pará.

O Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro, comandou algumas das mais sangrentas batalhas contra as revoltas populares no Brasil e foi figura destacada da Guerra do Paraguai, episódio que envergonha a qualquer pessoa mais atenta à História da América Latina. Nossa Polícia tem origem no Império, quando a principal missão era caçar “negro fujão”.

O século XX foi pontilhado de revoltas sufocadas pela mão de ferro do Estado brasileiro. A Revolta das Vacinas e a Revolta das Chibatas, levantes populares que ocorreram no Rio, são exemplos disso. Mas outras tantas pelo país afora, por motivos mais diversos, também sentiram o peso das armas, que transformaram o Brasil num banho de sangue. Entre elas a de Antonio Conselheiro, no interior da Bahia.

Durante a Ditadura Militar (1964/1985) as Forças Armadas e as polícias foram adaptadas para massacrar qualquer forma de resistência ao regime. Parte dessa estrutura foi treinada, com apoio financeiro de grupos empresariais (Operação Bandeiriantes) para se tornar uma das maiores máquinas de tortura e morte da América Latina, embora proporcionalmente o número de mortos e desaparecidos no Brasil pareça insignificante em relação às ditaduras da Argentina e do Chile. Aliás, toda a “tecnologia” dos torturadores brasileiros foi repassada para as ditaduras do Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile, no que ficou conhecido como Operação Condor.

O fim negociado da Ditadura no Brasil, que foi fruto do avanço das forças populares, por outro lado levou a um acordo que criou barreiras para a apuração dos crimes do Estado durante aquele Regime. Pior do que torturadores e assassinos que acabaram impunes foi a continuidade do modus operandi da Ditadura.

Tortura e assassinatos seguiram como práticas quotidianas das polícias. A maior expressão disso é o chamado “Auto de resistência”, em que se forja um combate, os feridos são socorridos pela própria polícia e sempre morrem a caminho do hospital. O tratamento desumano dentro das Forças Armadas é outra faceta dessa mesma prática.

O problema é que isso foi assimilado como cultura, passou a ser aceito sob a justificativa de combate enérgico ao crime, e se tornou prática corrente da repressão policial nos bairros populares e favelas. Ou seja, de uma política voltada para combater grupos minoritários de dissidentes e guerrilhas, a violência do Estado se alastrou, atingindo todo e qualquer cidadão, sobretudo nas regiões mais pobres. O jovem negro das favelas e periferias é o alvo preferido.

A má formação, a baixa escolaridade e os baixos salários e soldos da Policía e das Forças Armadas no Brasil não são coincidências infelizes. Elas formam um perfil dos policiais e soldados, que se somam a processos de treinamento que visam a massacrar os recrutas, como se atesta pelos relatos de casos de mortes e internações de policiais e soldados das diversas tropas em todas as regiões. As “tropas de elite” nada mais são do máquinas de extermínio, com carta branca para matar.

O treinamento desumano é justificado pelo argumento de que essas tropas devem encarar situações de risco até o limite de suas forças, para que estejam preparadas a enfrentar o inimigo em qualquer circunstância.Na verdade esse treinamento de fascínoras tem dois objetivos: 1) Impor pela força a hierarquia e a disciplina militar; 2) Tornar soldados e policiais bestas feras, dispostas a reproduzir contra os “inimigos” estas mesmas práticas desumanas.

Mas quem são os “inimigos”? Os inimigos somos nós, cidadãos civis que pagam impostos e sustentam essa máquina de corrupção, tortura e morte. A prova disso pode ser atestada todos os dias no noticiário policial de jornais, rádios e TVs. Nele estão sempre presentes crimes cometidos por policiais fardados ou de folga, que fazem bicos como seguranças nas cidades e jagunços no campo. Muitos formam bandos de criminosos que achacam cidadãos nas periferias e favelas, antes justiceiros ao estilo Esquadrão da Morte, hoje conhecidos como milícias.

Portanto, é enganosa a noção de que existe uma “banda podre” nas policias. O que se vê é uma empresa sustentada para dar segurança aos ricos e poderosos e reprimir violentamente a maioria da população. Quando muito resta uma “banda boa” da polícia.

O assassinato de uma juíza corajosa, que colocava na cadeia policiais-bandidos, e a internação de dezenas de cadetes de um treinamento da Marinha são partes deste mesmo problema. Levantar a tampa da caixa-preta da repressão policial-mililtar é passar o Brasil a limpo e colocar o dedo na ferida das elites e seu Estado.

Daí a importância de abrir processos contra os agentes da ditadura, mandantes e torturadores, que continuam impunes. Não apenas pelos crimes que cometeram contra a humanidade, mas também pela cultura de violência que persiste até hoje no aparato policial-militar e que se alastrou para toda a sociedade. Sem isso as elites brasileiras e seus jagunços continuarão praticando as barbaridades a que assistimos todos os dias neste país.

O Brasil se tornou o país das máfias. Elas estão incrustadas no aparelho de Estado, como todas as outras de que se tem notícia no mundo. No entanto, pela especificidade do nosso país, elas tomaram conta do pedaço. Como diz o povão “tá tudo dominado”. Antes a marginália era coadjuvante menor, apenas executava os crimes sujos encomendados pelas elites. Hoje, cansadas desse papel secundário, as máfias decidiram subir degraus e abocanhar fatias cada vez maiores de poder.

O assassinato da juíza Patricia Acioli é um exemplo disso. São Gonçalo, município com a segunda maior população do Estado do Rio de Janeiro, é uma verdadeira terra de ninguém, submetida ao atraso e aos desmandos de uma elite tacanha. Prefeitos e vereadores que se sucedem no poder vivem da exploração de promessas. Na maioria dos bairros/favelas não há ruas asfaltadas, iluminação decente, água e esgoto canalizados, o transporte coletivo é precário. O resultado disso é que várias pequenas máfias ocupam espaços no que deveria ser a atuação do poder público. Uma delas é a dos transportes alternativos, as vans, que de alternativo não tem mais nada.

Controlado por grupos que exploram a necessidade popular de locomoção, o transporte de vans envolve policiais, políticos e corruptos de todo tipo. A juíza colocou o dedo na ferida e mandou uma meia-dúzia deles ver o sol nascer quadrado. Patrícia Acioli só determinava o cumprimento da Lei e a detenção dos que a descumpriam. Paradoxalmente sua vida pessoal parecia conturbada, justamente por se envolver com policiais e um agente penitenciário.

O assassinato de Patrícia Acioli é uma prova de como é arriscado fazer cumprir a Lei no Brasil. A ausência do poder de Estado no que ele tem de fundamental, oferecendo condições mínimas e dignas a todos, cede campo ilimitado aos mafiosos de toda sorte. Eles agora são parte importante desse Estado ausente, da sociedade entre elites e marginália, e dele também se beneficiam. Quem os desafia corre o risco de morte. É esse o recado dado com o assassinato da juíza.

O crime brutal ao menos serve de alerta aos senhores magistrados brasileiros sobre as listas de condenados que existem por todo o país. Delas constam líderes sem-terra, sem-teto, lideranças comunitárias do campo e da cidade, padres e até juízes. Centenas deles foram executados Brasil afora nas últimas décadas, mas os assassinos e seus mandantes continuam impunes. Talvez agora, quando a baixa atingiu o “andar de cima”, quem sabe os juízes comecem a enxergar o óbvio que acontece todos os dias no “andar de baixo”.

Há 107 anos nascia o Botafogo de Futebol, a partir de um bilhete em que FlávioRamos convidava Emanuel Sodré a fundar um clube no Largo dos Leões. É bom que se diga que o Botafogo de regatas já existia desde o século XIX, conquistando títulos nas praias da Baía de Guanabara.

Clube que mais cedeu jogadores a uma seleção em todo o século XX, considerado pela FIFA entre os doze de maior expressão mundial, o Botafogo é amado ou odiado. Já nasceu prejudicado por falcatruas, quando em 1907 uma armação deu o título de campeão carioca (que só recentemente foi reconhecido também para o BFR) ao Fluminense.

Cercado de superstições e de situações dramáticas o clube carrega, entre outras máximas, a frase: “Há coisas que só acontecem ao Botafogo”. A fusão, que redundou no Botafogo de Futebol e Regatas, aconteceu em 1942, quando um jogador de basquete do Botafogo de Regatas faleceu em plena partida contra o basquete do Botafogo de Futebol. O jogo foi interrompido e dali nasceu o novo clube.

Não tive a felicidade de acompanhar o Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos, Amarildo e Quarentinha, mas ainda garoto, pude assistir às primeiras partidas no Maracanã daquela verdadeira seleção, com Jairzinho, Gerson, Roberto e Paulo César.

E para quem teima em minimizar a contribuição do Botafogo para a História do futebol brasileiro, não custa lembrar: 1958 – Didi e Garrincha; 1962 – Garrincha e Amarildo; 1970 – Gerson e Jairzinho. Sem eles, com certeza o Brasil não teria levantado as três primeiras Copas do Mundo das cinco que possui.

Alvinegro convicto, sofri com a desorganização e roubalheira que esfarelaram o patrimônio do clube nas gestões que comandaram o Botafogo durante a ditadura militar. Eram anos de tempo nublado, que ofuscavam a nossa estrela. Amarguei 21 anos de jejum de títulos, assim mesmo lembro de alguns gênios da bola daquele período, como Marinho Chagas, Mendonça e Alemão.

Em 89, finalmente, o BFR voltou a levantar taças, justamente contra o Flamengo de Zico, que tanto nos castigara nos anos anteriores. E eu fui testemunha daqueles momentos delirantes no Maracanã. Também estava lá, no Pacaembu, quando conquistamos o Brasileiro de 1995, quebrando a empáfia dos que nos colocavam como meros coadjuvantes na decisão do campeonato.

De lá pra cá, seguimos nossa sina de conquistas dramáticas e prejuízos provocados por arbitragens desastrosas. Mas o que mais me faz sentir orgulho do Botafogo é ver que sua estrela brilha por todo o país. Onde quer que vá, de norte a sul, de leste a oeste, sempre encontro botafoguenses de todos os sotaques.

E como todo botafoguense aguardo com ansiedade a volta de Túlio Maravilha – o artilheiro do Brasil – para tocar a bola para as redes adversárias em seu milésimo gol, vestindo a camisa 7 alvinegra. Sou tão agradecido a ele que meu filho mais velho receberia seu nome, não fosse a objeção de sua mãe. Mas nem isso o impediu, assim como a todos da família, de ser Botafogo.

Por isso, no dia 12 de agosto, presto essa singela homenagem ao clube cujo símbolo sempre brilha e emociona milhões de brasileiros por todo o território nacional. Obrigado, Botafogo de Futebol e Regatas. Glória eterna aos apaixonados corações alvinegros.

O episódio do ônibus da Viação Jurema, em plena PresidenteVargas, é mais um dos tantos casos de despreparo da nossa Polícia Militar. Seis feridos, um em estado grave, 14 disparos de fora do coletivo para dentro, num cerco cinematográfico.

Todas as pessoas ouvidas pela delegada que apura o caso declararam que não houve disparos de dentro do ônibus para fora. Ou seja, a briosa corporação policial militar do Estado do Rio de Janeiro expôs vítimas civis a um risco desnecessário.

Se o motorista conseguiu escapar e avisou à polícia seria simples monitorar o veículo, sem qualquer pressa, com um cerco bem feito, em local mais adequado. Mas pra que? Quem se incomoda com os passageiros? O importante é “largar o dedo”.

Pior que a ação desastrosa dos policiais foi a declaração do comandante da PM, Mário Sérgio, que classificou a operação como um sucesso. Depois, em entrevista coletiva, admitiu possíveis falhas, mas não deixou de exaltar a atuação de seus comandados.

Já o vice-governador elogiou a operação, que classificou de “satisfatória” e uma “evolução da polícia”. O que dizer dessas declarações?

Salários baixos, baixa escolaridade, falta de treinamento adequado, corrupção, ausência de uma política investigativa. Esse é o quadro da polícia militar que, a rigor, nem devia existir mais. O resultado não poderia ser outro. Às vezes dá muita vergonha de ser brasileiro…

Quem lê, ouve ou vê o noticiário dos últimos dias tem dificuldade de entender o que se passa. Crise internacional de novo? Mas não tivemos uma crise em 2008 e 2009? Difícil para um leigo, cidadão comum entender o que se passa.

Em primeiro lugar é bom dizer que essa é apenas um desdobramento da crise de 2008/2009, que atingiu em cheio o coração do sistema capitalista, os Estados Unidos da América do Norte.

Na época, bancos e financeiras descobriram que não tinham como receber os empréstimos que disponibilizaram para a compra da casa própria do cidadão estadonidense. Daí a quebradeira que teve repercussão mundial, mais ainda na Inglaterra, país com grandes investimentos e parcerias nos EUA.

No ano passado estourou a crise na Grécia. O governo social-democrata não tinha como cumprir os compromissos com os credores do país. A saída seria decretar moratória ou garfar a população, com mais impostos e menos investimentos públicos. A primeira opção sacrificaria bancos alemães e franceses – credores dos títulos do governo grego – o que colocaria em risco a União Européia. Recentemente o governo grego adotou a segunda opção.

Mas a coisa também ficou complicada em Portugal, na Irlanda e na Espanha, com a dificuldade daqueles governos em saldar os compromissos de suas respectivas dívidas com os bancos credores. Todos adotaram medidas draconianas, que vão da privatização de empresas estatais, até o congelamento de salários e aposentadorias. E apesar das teses privatistas, o grosso do investimento que gera trabalho e renda sempre partiu de iniciativas estatais.

O perigo disso é que a esquerda socialista está esfacelada e sem bandeira, enquanto a esquerda social-democrata aderiu ao neoliberalismo. Por outro lado, cresce a simpatia pelo discurso fascistóide contra os imigrantes, que se tornam o bode expiatório para justificar a falta de emprego e o aumento da violência na Europa.

O que hoje aparece como repercussão da crise da dívida dos EUA é a queda generalizada das bolsas de valores em todo o mundo. Para ter como sustentar os gastos anuais que precisa fazer – inclusive a dívida norte-americana – o governo Obama queria aumentar o limite possível de endividamento para 2,5 trilhões de dólares.

Mesmo com o acordo com os republicanos, que sacrifica o contribuinte comum estadonidense, ficou evidente que a economia norte-americana não dá sinais de recuperação. Por sua vez, o Banco Central Europeu deixou claro que não vai ser fiador da dívida italiana. Resultado: quebradeira geral nas bolsas. Por que? Porque as bolsas são a ponta do iceberg de uma cadeia global de especulação.

Essa cadeia começa quando um governo emite bônus para vender e captar recursos. Esses bônus pagam um determinado juro e podem ser resgatados pelo credor depois de alguns anos. Se o governo não tem como honrar com o pagamento desses bônus, quem tem os papéis fica com o prejuízo. Para evitar a quebradeira dos seus credores os governantes capitalistas adotam planos que cortam investimentos públicos em seus respectivos países.

Acontece que os grandes credores desses bônus são bancos privados, que também são sócios e financiadores de grandes empresas que, por sua vez, colocam suas ações em bolsas, alimentando a roda especulativa. Em verdade, as empresas e seus proprietários não perdem, apenas deixam de ganhar. Quem perde são os “otários” que têm ações dessas empresas.

A verdadeira face da crise mundial está pelas ruas e praças da Europa, da Espanha à Grécia, nas manifestações espontâneas nas ruas de Londres. Jovens e imigrantes, sem perspectiva de emprego e de vida.

No Brasil a presidente Dilma sinaliza que deve manter a política de estímulo ao consumo no mercado interno. Mas seu pedido de cautela ao falar sobre o assunto demonstra que o momento é outro. A renda do brasileiro não cresceu o suficiente nos últimos anos para que ele siga consumindo e dois terços da população já está endividada. Por sua vez o governo deve usar a crise internacional como chantagem para cortar ainda mais os investimentos públicos, inclusive possíveis reajustes salariais dos servidores.

Importante lembrar que o Brasil é o quarto país detentor de títulos da dívida dos EUA. Portanto, a desvalorização dos bônus do governo norte-americano representa mais um prejuízo que nós bancamos.  Como se vê lá como aqui quem vai pagar pela crise capitalista é o povão.

Nuzman e Guerra, irmanados, deram mais um presente à Cidade Maravilhosa. Trata-se do Centro de Lazer dos atletas olímpicos, inaugurado no Recreio com pompa e circunstância, como primeira obra entregue para as Olimpíadas de 2016. Um investimento de R$ 37 milhões, bancado com o nosso dinheiro.

No dia da inauguração as reportagens das TVs mostraram jovens promessas de diversos esportes se exercitando no local. Na verdade a obra nem está pronta, mas já foi entregue, como de hábito. Aqui pedra fundamental de obra é notícia.

O que mais chama a atenção deste jornalista é que, em meio ao oba-oba da entrega da obra em tempo recorde, um detalhe importante foi revelado: o local também será utilizado pelos organizadores do Rock in Rio, que acontece ainda este ano.

Vamos entender? O Comitê Olímpico, que deveria estar mais preocupado com o andamento das obras que estão diretamente sob sua responsabilidade, inaugurou agora – em 2011 – um tal Centro de Lazer para os atletas que chegarão à cidade em 2016. Vá contar essa lá em Londres!

Quem vai usar esse espaço até lá? Eu, você, nossos atletas? Os organizadores do Rock in Rio agradecem sensibilizados a iniciativa do COL e da Prefeitura. Afinal, vão usufruir da infraestrutura do Parque nas edições deste ano, 2013 e 2015.

Sete milhões em Teresópolis, dez milhões em Friburgo. Esse é o montante de verbas repassadas pelo governo federal para as obras de reconstrução das duas cidades da Região Serrana do Rio, devastadas por uma tromba d´água em janeiro deste ano.

Quando estive lá para fazer a cobertura do ocorrido comentei, ao vivo, no Programa BOCA LIVRE, da Rádio Tropical, que o decreto do governador que reconhecia a calamidade pública por 180 dias na Região seria um maná para governantes e empreiteiras. Isso porque as obras poderiam ser contratadas sem licitação, um sinal verde para corruptos e corruptores. Não deu outra…

Agora, passados alguns meses, o que se vê? Regiões inteiras dos dois municípios continuam destruídas, sem qualquer sinal de intervenção das administrações municipais. Ainda existem milhares de famílias acomodadas em casas de parentes, boa parte sequer recebe o tal aluguel social prometido. E o pior: corrupção da grossa, com sérios indícios de desvio de verbas.

O Prefeito de Teresópolis, Jorge Mário, foi o primeiro a ser afastado. Mas isso não basta. É preciso que se abram as contas da Prefeitura para a sociedade civil organizada, a fim de tornar transparente o uso do dinheiro público. O mesmo pode e deve acontecer em Friburgo.

É bom que se diga que é a sociedade organizada em seus sindicatos e associações de moradores que pressiona pelo fim dos esquemas de corrupção e o afastamento dos responsáveis. Provavelmente ainda teremos outros capítulos desta novela.

A banalização da ignorância e do atraso é o pior sintoma do que se passa na sociedade brasileira. Com todas as suas limitações ainda é o ensino público a via mais democrática para o saber.

O negócio da educação privada cresceu a partir dos anos 80. Até então eram as escolas públicas municipais, estaduais e federais que formavam gerações de brasileiros. Alguns deles se destacaram nas artes, nas ciências, nas áreas de Humanas e de Exatas.

Nas salas de aulas uma mescla de alunos das mais variadas origens sociais, meninos e meninas pobres, de favelas, de classe média baixa, conviviam com colegas de classe média e classe média alta. Os mais abastados sempre se mantiveram apartados deste convívio, estudando em escolas privadas.

Aquela mistura saudável, ao contrário de representar um choque para alguém, dava a exata medida da necessidade de convivência, de troca e compreensão das diversas realidades do país. Os meninos do morro jogavam bola no asfalto e os do asfalto iam às favelas jogar nos campinhos de terra. As meninas podiam brincar e estudar juntas, sob o olhar da doméstica que cuidava de sua filha e da filha da patroa.

Livros, lápis e cadernos eram financiados pelo MEC e, por mais limitado que fosse o conteúdo das grades escolares, raros eram os que saíam dos bancos da escola pública sem estar minimamente preparados para os desafios da vida.

Sempre que convidado para falar em algum ambiente público faço questão de defender o ensino público, onde pude aprender com professores a educação das letras e com colegas a educação da vida e um pouco da realidade de nosso povo.

O descaso, o relaxamento e a tirania com que governantes conduzem a Educação pública nas esferas federal, estadual e municipal são criminosos. Sua omissão proposital condena milhões de brasileirinhos às trevas, em escolas sem conservação, mal equipadas, com professores mal remunerados e desestimulados, dezenas de alunos amontoados em salas impróprias.

A greve de profissionais de ensino no Rio é mais um episódio de ousadia dos educadores. Não se trata de uma questão meramente salarial, embora este seja o mote de sua luta. Eles pedem socorro à sociedade, antes que a irresponsabilidade governamental jogue de vez a educação pública num abismo irrecuperável.