Só mesmo os sociólogos podem explicar expressões no mínimo intrigantes utilizadas pelo IBGE para definir aspectos da realidade brasileira. Depois das “áreas subnormais”, termos usados para as favelas, agora surgiu uma tal de “insegurança alimentar”.

Esta curiosa expressão, que pode ser compreendida como fome, aparece na apresentação dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE. Ela ainda acomete os lares brasileiros em três versões: leve, moderada e grave.

Os dados da PNAD 2009, comparados aos de 2004, apontam uma diminuição do número de brasileiros que de alguma forma têm dificuldade para se alimentar. Agora temos 30,2% dos lares com a tal insegurança alimentar, o que quer dizer que 65,6 milhões de pessoas residentes em 17,7 milhões de domicílios de alguma forma passam fome no Brasil.

O óbvio, mas que só o IBGE pode constatar com suas pesquisas, é que os domicílios com o maior número de pessoas residentes (sete ou mais). Da mesma forma nos lares sustentados por mulheres e negros e nos domicílios cuja média da renda mensal é de meio salário mínimo a proporção de brasileiros que passam fome é maior.

Então, ficamos assim: favela virou área subnormal e fome agora é insegurança alimentar. O que vão inventar para definir a morte?

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Entre a perplexidade e a tristeza assisto pela TV às imagens, ao vivo, da operação da polícia na Vila Cruzeiro. O Iraque é aqui… Imediatamente associo o que vejo ao espetáculo da transmissão da CNN sobre a Guerra do Iraque. Repórteres de coletes transmitindo a “guerra”, sempre do lado oficial.

Faz algumas semanas o Governador foi reeleito com o mote de seu programa de segurança pública, baseado nas UPPs. Sabe-se que não há vontade política de ocupar 700 favelas no Grande Rio, mas a propaganda fala mais alto e Cabral recebeu cerca de 60% dos votos.

Há dias grupos do comércio varejista de drogas incendeiam automóveis e caminhões em diversos pontos do Grande Rio. A polícia aparece para dar respostas, tal como barata tonta. Está evidente que não há planejamento, inteligência para prever e se antecipar à bandidagem varejista.

Duas empresas se enfrentam: a empresa do negócio varejista de drogas contra a empresa do negócio da política. A primeira, comandada de dentro de presídios por gerentes, que cresceram por sua liderança local, subordinados a um acordo com atacadistas do fornecimento de drogas e armas. A segunda, conduzida por um mitônomo, que faz do marketing político seu instrumento para tentar provar à sociedade que está combatendo o crime.

A empresa da droga nasceu, cresceu e se fortaleceu no território de ninguém, justamente onde o Estado nunca se fez presente. É um braço do comércio atacadista, que faz do Rio o porto de saída para o mercado europeu. Ali impera a lei da força, das armas, aliciando jovens sem futuro, impondo o medo e o terror. Assim, ocupam o território onde reside cerca de 1/3 da população do Grande Rio.

Já Cabral tem suas metas: fazer da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Rio trampolins para sua candidatura à Presidência da República. Sua empresa tem que garantir tranqüilidade à mídia, aos turistas e realizadores destes dois mega-espetáculos. Daí, certamente, sairão os recursos para o fundo de campanha.

Cabral insiste com as UPPs como forma de conter a criminalidade ostensiva, embora todo mundo saiba que o tráfico de drogas continua a existir mesmo nas comunidades “pacificadas”. O que não existe é educação, saúde, saneamento básico, etc.

Embora Cabral diga que não fará – como todos os governadores também disseram – sabe-se que a bandidagem quer um acordo que preserve territórios para seguir com seus negócios. O governador certamente quer garantir “tranqüilidade” nos corredores de acesso da cidade, na Zona Sul, Tijuca, algumas áreas do mapa turístico e dos jogos de 2016.

Assim, é possível prever que breve a bandidagem deve recuar e o governador vá a público comemorar a vitória sobre o tráfico de drogas. Será o sinal de que o acordo foi selado. E nós, simples mortais, seguiremos nossas vidinhas até que o próximo conflito de interesses se instaure. O problema é que a maioria não se dá conta de que financia esta “guerra”. Afinal, o espetáculo tem que continuar…

Os economistas costumam fazer suas leituras a partir do economês, linguagem cheia de expressões rebuscadas que só eles entendem. Agora a expressão da moda é uma tal “Guerra Cambial”, que seria provocada pela emissão de 600 bilhões de dólares pelo governo dos EUA.

Na verdade o que o Governo Obama pretende é se safar do fiasco político das últimas eleições – com a fragorosa derrota do Partido Democrata –, provocado pela crise econômica e suas conseqüências para a população norte-americana. O cidadão médio estadonidense está desconfiado, não quer gastar o pouco que recebe e o desemprego aberto já atingiu a barreira dos 10%. Assim, emitindo mais dólares, Obama pretende estimular ainda mais o crédito de massa nos EUA.

Ocorre que essa medida provoca uma desvalorização do próprio dólar, moeda corrente em todas as transações econômicas e financeiras internacionais. Esse é o xis da questão. Vamos recapitular a origem da crise e suas conseqüências.

A crise foi detonada em 2008, quando financeiras e bancos sediados nos EUA que emprestavam dinheiro a rodo para a compra da casa própria começaram a quebrar, porque o cidadão norte-americano médio não tinha como saudar suas dívidas. Ora, como financeiras e bancos operam num mercado multinacional, inúmeras instituições financeiras européias associadas a grupos norte-americanos foram atingidas e também quebraram.

Qual o remédio adotado por todos os governos da Europa, nos EUA e até no Brasil? Repassar dinheiro público, arrecadado dos impostos pagos pela população, para socorrer bancos e financeiras quebradas. Até hoje, passados mais de dois anos, apenas 25% dos créditos concedidos às empresas falidas foram devolvidos aos cofres públicos. Resultado: os governos estão com suas contas no vermelho.

Além do mais, a crise provoca uma retenção do consumo, o que também se reflete na queda das vendas e da produção. A conseqüência é a redução do emprego.

A solução que os governantes de plantão encontraram não é nada original: repassar a conta para os trabalhadores e aposentados pagarem. Na Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, França, Inglaterra e demais países da Europa os governos anunciaram pacotes de cortes de gastos públicos, o que vem provocando greves e manifestações dos trabalhadores e da juventude.

A inundação de dólares provocada pelo Governo dos EUA desvaloriza a moeda de transação internacional. Com isso todos os demais países perdem por diversos motivos: 1) Quem exporta muito vai contabilizar seus custos de produção na sua moeda local e vai vender em dólar, perdendo dinheiro nessas transações; 2) Cresce o consumo de produtos importados, que ficam ainda mais baratos, reduzindo a produção; 3) Quem tem dívida interna elevada (como o Brasil, com cerca de R$1 trilhão) também perde porque os títulos são negociados em dólar, mas seu valor é pago em reais; 4) Quem oferece altas taxas de juros no mercado financeiro (como o Brasil) corre o risco de sofrer um ataque especulativo, como o que vitimou a economia russa há alguns anos, porque a possibilidade de realização de lucros de curto prazo é muito maior para os especuladores que investirem nesses mercados.

A tentativa do governo Obama de isolar e jogar a culpa da crise na China na reunião do G20 foi uma cortina de fumaça. A China não provocou a crise, ela apenas se locupleta da fragilidade econômica de diversos países que importam seus produtos a preços irrisórios. Seu segredo é produção em massa, a custos baixíssimos (inclusive de mão de obra), o que torna impossível a competição de produtores de outros países em seus próprios mercados internos, mesmo com a alta taxação de produtos importados.

A Alemanha, por exemplo, recebe da China grande parte do que vende a outros países. Isso se dá pela importação de máquinas, peças e equipamentos que os alemães compram dos chineses e beneficiam para exportar.

A situação é delicada porque em tempos de crise vigora o ditado “Farinha pouca meu pirão primeiro”. Portanto, não se trata de uma Guerra Cambial, mas de um conflito de interesses para determinar quem e como vai ser paga a conta da crise provocada pela bolha financeira norte-americana. Isso levanta, inclusive, a dúvida se o dólar ainda pode ser considerado a moeda de transação internacional.

Países como o Brasil podem ver o ciclo de expansão de seus mercados e de crescimento interrompido. Se isso se confirmar, o Governo Dilma não hesitará em aplicar o velho receituário do arrocho salarial e do corte de gastos públicos. Até porque ninguém fala em questionar a dívida pública (interna e externa) e os governos que se sucedem continuam queimando 1/3 do Orçamento da União no pagamento de juros e amortizações da dívida.

Trabalhadores, aposentados e servidores públicos devem colocar as barbas de molho. O alerta dado pelo ministro Paulo Bernardo sinaliza claramente que o Governo já deu o que tinha que dar e que o governo Dilma deve fechar as torneiras que ainda vazavam gotas de pequenos reajustes das gratificações.

No Brasil não muito que cortar dos chamados gastos públicos. O Orçamento Geral da União é uma denúncia das prioridades, demonstrando que saúde, educação, saneamento, cultura e todos os investimentos necessários para elevar o padrão de vida do povo representam percentuais irrisórios do bolo que o Governo gasta.

Daí porque já se fala no retorno da CPMF (imposto sobre o cheque), aprovação de projetos que arrocham os salários dos servidores e que entregam a gestão da Saúde pública a grupos privados.

Um verdadeiro estelionato foi cometido contra a população do Rio de Janeiro. Sob a alegação de colocar em prática o bilhete único para duas viagens de ônibus municipais no intervalo de duas horas, a Prefeitura fez uma licitação para a exploração por vinte anos das linhas de ônibus que é um acinte.

Com a desculpa da implantação do bilhete único, o prefeito Eduardo Guerra enviou e conseguiu aprovar na Câmara Municipal a redução do ISS cobrado às empresas de 2% para 0,01%. Empresas que eram devedoras de impostos se associaram a outras e conseguiram ser aceitas no processo licitatório.

Coincidentemente os quatro consórcios vencedores são de grupos que já operavam o sistema como permissionárias. Até então, sua permissão podia ser cassada a qualquer hora e o governo poderia intervir a qualquer momento para garantir a boa operação do sistema. Agora, como concessionárias, estas mesmas empresas gozam de status diferenciado e qualquer medida governamental pode ser alvo de questionamento judicial.

A Prefeitura adiou para 6 de novembro a implantação do novo sistema, cuja base é a formação de quatro áreas de operação: Zona Oeste, Zona Sul e Centro, Zona Norte e Zona da Leopoldina/Auxiliar. Os ônibus, aqueles mesmos já conhecidos da população carioca – com chassis de caminhão, sem refrigeração e sem qualquer conforto – começariam a rodar com as novas cores das quatro regiões. O que se viu? Nada!

No primeiro dia útil do “novo sistema” o passageiro só encontrou mesmo o novo preço da passagem, aumentada de R$2,35 para R$2,40. Ou seja, quem não usa o bilhete único vai pagar o mesmo valor de quem usa.

O processo licitatório, que poderia exigir inúmeras melhorias do sistema de ônibus municipais, como a renovação da frota, bancos mais confortáveis, pontos de ônibus decentes, vias expressas, integração com outras modais, etc, só serviu mesmo para encher ainda mais as burras dos empresários.

E para demonstrar a grandeza de sua obra, o Prefeito Eduardo Guerra viajou do Alto da Boa Vista ao Recreio, num sábado pela manhã, para inaugurar o sistema de Bilhete Único. Guerra zombou da cara do trabalhador, que pega ônibus lotado todo dia para chegar esfalfado ao trabalho.

A Prefeitura do Rio segue dando presentinhos aos ricos e repassando a conta aos mais pobres. Depois de liberar as empresas de ônibus do pagamento do ISS, reajustando as passagens de ônibus municipais para R$2,40, agora o alcaide Eduardo Guerra decidiu perdoar as dívidas de IPTU de toda a rede hoteleira da cidade.

A mamata consiste numa mega operação, conhecida como “Pacote Olímpico”, que anistia os devedores e ainda concede isenção para quem construir hotéis até 2019.

Na mesma semana a Prefeitura do Rio anuncia a meta de ampliar a arrecadação com multas dos pardais de tränsito em 2011, que este ano chegou a cerca de R$111 milhões, para algo em torno de R$ 150 milhões. As empresas que instalam os pardais ficam com 30% deste total.

Ou seja, o cidadão comum, cumpridor dos seus compromissos, será penalizado para que empresários de ônibus e de hotéis encham ainda mais as burras de dinheiro.

Como se vê, no Rio o grande capital não enfrenta riscos de qualquer espécie. Ainda mais com um Prefeito a seu serviço e uma Cämara de Vereadores que, salvo exceções, envergonha o povo da Cidade Maravilhosa.