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Dois episódios mostram a que ponto o acirramento das manifestações de rua levam ao descompasso entre os “de cima” e os “de baixo”. Refiro-me exclusivamente à manifestação de 27 de junho, com cerca de 20 mil pessoas, que fechou mais uma vez a Avenida Rio Branco, no Centro do Rio.

Quando a multidão chegou à Cinelândia, os dois carros-de-som que impulsionavam as palavras de ordem da passeata viraram palcos do desentendimento entre pessoas do “comando” da manifestação. Até então nenhuma delas contara com comandos, ou pelo menos com grupos que de fato fossem reconhecidos como tal.

Depois de cerca de meia hora de falatório e disse-me-disse, sindicalistas, líderes estudantis e de outros movimentos chegaram à conclusão de que não haveria mais caminhada até a sede da Federação das Empresas de Transporte (Fetranspor), na Rua da Assembléia, como havia sido previamente acertado.

A decisão, tomada entre os “comandantes”, foi apenas comunicada aos manifestantes pelos carros-de-som, o que gerou uma sonora vaia da maioria dos presentes. Decidiram entre eles e “esqueceram” de perguntar ao povo.

Depois da vaia as pessoas deram as costas para o “comando” e seguiram em caminhada, sem carro-de-som, até a Fetranspor, na sugestiva Rua da Assembléia. Ainda na Rua Araújo Porto Alegre ouvia-se o coro: “Sem comando, sem comando”. Os “comandantes” e alguns pequenos grupos de “comandados” permaneceram na Cinelândia.

Quando a multidão chegou frente à sede da Fetranspor, se deparou com duas filas de soldados da PM, que ocupavam toda a calçada do prédio. Na calçada oposta da mesma rua outra fila de policiais militares estava postada. O que me chamou a atenção foi que, além das escopetas de balas de borracha, alguns policiais portavam fuzis. Isso mesmo, fuzis! Armas de fogo de combate.

No entanto, ao contrário de intimidar a multidão, o aparato policial causou mais espanto e indignação. Os manifestantes então decidiram desfilar pela Rua da Assembléia, de volta até a Avenida Rio Branco, prometendo mais gente para o dia da decisão da Copa das Confederações.

Parece que tanto as autoridades – no caso o governador Cabral e companhia – quanto os “comandantes” da manifestação vivem dias de anacronismo absoluto. Uns, com sua empáfia habitual, tratam manifestações populares como caso de polícia, e outros por tratarem seres pensantes como massa disforme, sem vontade e sem capacidade de decidir o que deseja. Seja como for, ambos estão vivendo o ocaso da representação indireta. Será que eles já se deram conta disso?

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Como escrevi aqui no blog, no início das manifestações de rua, em poucas semanas a luta da juventude brasileira abriu alas para um movimento muito maior, que está sacudindo o país e mexendo com velhas estruturas. Mesmo quem não participa, por descrença ou medo, já percebe que o comportamento dos governantes e parlamentares mudou. Antes sonolentos e inertes, eles agora têm pressa.

Dilma recebe organizações populares, anuncia medidas e diz que está ouvindo as ruas para encontrar saídas. A Câmara dos Deputados derruba a PEC 37, que excluía o poder de apuração do Ministério Público. Renan Calheiros, quem diria, fala em aprovar o Projeto que transforma em hediondo o crime de corrupção. A Assembléia Legislativa de Goiás vota o subsídio para o passe livre de estudantes carentes. Pela primeira vez o STF manda prender deputado condenado desde 2010.

Por sua vez, o governador Alckmin, depois de voltar atrás no aumento das passagens dos transportes, agora desiste de autorizar novo aumento dos pedágios das estradas privatizadas do Estado de São Paulo. O prefeito Haddad suspende a licitação para a escolha das empresas de ônibus na capital paulista. Até a Câmara de Vereadores do Rio, totalmente submissa à Rio Ônibus e ao prefeito Paes, já tem as assinaturas suficientes para convocar uma CPI do transporte urbano da cidade.

O melhor é que, apesar das medidas já aprovadas e anunciadas, a massa não dá sinais de cansaço e quer mais. As grandes concentrações nas capitais e centros das cidades, que reuniam mais os setores da juventude e da classe média, se desdobraram em manifestações de rua nas cidades menores e, agora, nas periferias e favelas.

O movimento Resistência Urbana, que unifica diversos grupos de luta pela moradia de todo o país, realizou manifestações em bairros da periferia de São Paulo. Em Minas, grupos de moradores da Grande Belo Horizonte fecharam rodovias. No Rio, moradores da Rocinha e do Vidigal se juntaram em passeata e caminharam até a porta da residência de Sérgio Cabral. No mesmo dia moradores da Nova Holanda, no conjunto de favelas da Maré, protestaram contra o massacre do BOPE, que deixou um saldo de 9 mortos.

Nada como um banho de povo nas ruas para provocar mudanças. Não é uma revolução, ainda. É um alerta de que o povo brasileiro exige direitos básicos e pretende lutar pela aplicação justa dos recursos bilionários que paga em impostos todos os anos.

Mesmo que os resultados deste movimento de rua não sejam os esperados, inevitavelmente ela já produziu fraturas e mudanças profundas de consciência, que devem ter conseqüências políticas de médio e longo prazo.

Tenho lido e ouvido algumas críticas ao movimento das ruas. São críticas de pessoas de esquerda e merecem ser debatidas. Os comentários de gente de direita desqualificam o debate e são feitos misturando ódio e preconceitos, não merecem nem resposta.

Vamos as mais comuns:

OS MANIFESTANTES NÃO SABEM O QUE QUEREM – Pode ser, mas sabem muito bem o que não querem, fruto da experiência política que a maioria da população sofreu nas últimas décadas de uma democracia representativa indireta, sem transparência. Mas, por si só, o movimento das ruas já coloca para debate alguns temas caros à sociedade brasileira: as instituições governamentais, os partidos políticos, o papel da polícia e da mídia.

NÃO TEM PROJETO DE PODER E NEM LIDERANÇAS – Verdade, mas rejeitam o atual projeto de poder, que transformou a frágil democracia brasileira numa caricatura, num convescote entre grandes grupos empresariais e governantes, verdadeiros administradores do interesse do grande capital. Se não há lideranças é porque a própria esquerda brasileira não as produziu, mais preocupada que anda em negar o novo e justificar o antigo.

É UMA CLASSE MÉDIA INSATISFEITA – Quem puxa as manifestações é uma juventude de classe média, sobretudo uma juventude universitária e secundarista. A juventude brasileira sempre protagonizou as viradas históricas neste país (Luta pelo fim da escravidão, Fim da neutralidade e entrada na II Guerra contra o Eixo nazi-fascista, O Petróleo é Nosso, contra a Ditadura Militar, Diretas-Já, Fora Collor). Aliás, é dos filhos mais esclarecidos desta classe média que surgiram grandes quadros da esquerda brasileira.

SÃO ANTI-PARTIDOS – Trata-se de uma leitura torta, equivocada. A juventude que está nas ruas não vê com bons olhos a maioria dos partidos políticos, por conta de práticas pouco saudáveis e nada transparentes destas organizações. Em relação aos partidos de esquerda (fora uma meia dúzia de fascistas), a grande massa não quer que suas manifestações sejam usadas como instrumento de propaganda.

SÃO FACILMENTE MANIPULADOS E PODEM LEVAR A UMA SOLUÇÃO GOLPISTA – Uma das principais bandeiras dos manifestantes que estão nas ruas é acabar com a manipulação da grande mídia, sobretudo a Rede Globo, reconhecida como inimiga número um do povo brasileiro. As pessoas estão atentas a qualquer tentativa de manipulação, embora haja muita confusão.

NACIONALISMO PODE DESCAMBAR PARA O FASCISMO – Verdade, mas no caso brasileiro, salvo algumas exceções da História, o sentimento nacionalista sempre esteve associado às lutas populares e democráticas.

Em tempo: enquanto escrevia essas linhas a Presidente fazia pronunciamento em Brasília, apresentando cinco pontos a serem enfrentados: plano de estabilidade fiscal (não ficou claro); reforma política, através de um plebiscito; R$ 50 bilhões para financiar os transportes sobre trilhos (falou em Metrô); plano para a Saúde, com a contratação de médicos (brasileiros e se sobrar estrangeiros); e recursos do Petróleo para financiar a Educação. Seja qual fora a avaliação que se faça disso, uma coisa é certa: FOI O POVO NAS RUAS QUE FORÇOU O GOVERNO A SE MEXER.

Agora é a vez dos movimentos populares: recuperação salarial; reformas agrária e urbana; fim do monopólio da comunicação e uma nova lei de mídia; desmilitarização da Polícia. A luta apenas começou. As praças, avenidas e estradas estão aí para serem ocupadas, agora também pelo povo pobre. 

Está na cara que a grande mídia brasileira, nas mãos de seis famílias, quer padronizar, domesticar e transformar as manifestações de rua deste junho em coisa palatável e cheirosa. Enquanto o povo está nas ruas, os governantes se escondem e nenhuma rede de TV faz plantão na porta de governadores, prefeitos e da Presidente.

Para a grande mídia o que importa é dizer que as manifestações estão se transformando em “baderna”, impor um clima de terror sobre a maioria que vai às ruas. Usam provocadores e inconseqüentes para justificar a repressão generalizada. As tropas de choque das PMs reprimem de forma indiscriminada as pessoas, partindo com bombas e cavalos para cima do povo. O terror oficial é mostrado como uma resposta às agressões sofridas.

Da parte do grupo que controla as estruturas de governo o que interessa é ganhar tempo, apostar no esvaziamento da mobilização popular e retomar as pautas de seu interesse. Dilma fez um discurso que não responde em nada aos anseios das ruas. Reuniões com os mesmos que nunca fizeram nada é apenas um teatro mambembe, para dar uma satisfação à opinião pública. Não deverão produzir nada de concreto.

Entre os setores da esquerda há que se fazer diferenciações. O PT e seus aliados no governo (PCdoB e PSB) querem mesmo é desmobilizar as manifestações, usando todo tipo de acusações e desculpas. “O movimento é de classe média e não sabe o que quer”, são duas acusações muito usadas por esse grupo e difundidas nas redes sociais. Como se a manifestação dos 100 mil, em 1968, e os movimentos de resistência à ditadura tivessem outro perfil… A base social e os dirigentes desses partidos são todos filhos da classe média.

Mas os partidos de esquerda que estão fora do governo não podem cair na cantilena de que os protestos mudaram, que estão descambando para isso ou aquilo. Ao contrário, o que se vê é que as pessoas seguem dispostas a lutar. E embora suas bandeiras de luta não sejam revolucionárias, são extremamente progressistas e em nada entram em contradição com as reivindicações populares.

Não há no horizonte qualquer proposição de enfrentar e derrubar os governantes e o regime. As bandeiras e cartazes levantados nas manifestações dizem respeito a questões concretas e imediatas: Educação, Transporte e Saúde públicas de qualidade, nenhum tipo de impunidade, fim dos recursos públicos para os megaeventos (Copas e Olimpíadas) e, sobretudo, canais de participação popular (aprofundamento da democracia formal).

A essas bandeiras é possível agregar outras, como: reforma urbana e reforma agrária, uma nova legislação para por fim ao monopólio da mídia, criação de uma polícia única civil, etc. Portanto, ao contrário do que pregam alguns, chegou a hora das organizações populares e de esquerda entrarem em ação. O que menos importa agora é fazer propaganda de suas próprias bandeiras, mas propostas de ação e organização que ajudem a dar conseqüência ao movimento das ruas.

Perdidos no espaço

21/06/2013

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Durante as últimas duas décadas em que a democracia formal se firmou no Brasil, após a luta democrática e popular pelo fim da ditadura militar, uma espécie surgiu e se consolidou: o político profissional, que faz carreira. Esse tipo tem resposta para tudo, propostas as mais mirabolantes possíveis e promessas de todo tipo.

Assim, pela via do voto, os governos foram se sucedendo: Collor (derrubado nas ruas), Itamar Franco, Fernando Henrique (dois mandatos), Lula (dois mandatos) e agora Dilma Roussef.

Todos, uns mais outros menos, anunciaram mudanças. Iam mudar tudo. Lula, então, foi o ápice da expectativa popular. No entanto, quem segue mandando de verdade são as velhas oligarquias. Elas foram identificadas nos governos FHC com o nome de “Centrão” e nos governos Lula ficaram conhecidas como “Base Aliada”.

Trazem consigo o velho conservadorismo dos coronéis, que passaram de avô para pai e de pai para filho. Hoje são coronéis urbanos, sem fazendas, mas com grandes empreendimentos ligados ao grande capital. Para manter tudo como está ocupam postos-chave nos governos estaduais e na Câmara dos Deputados.

Ocorre que nos últimos anos – particularmente depois que começaram as obras para os megaeventos e com o advento da crise – os descalabros cresceram numa escalada incontrolável. Ao mesmo tempo, os serviços públicos e privatizados foram se deteriorando cada vez mais, a um custo absurdo em tarifas e impostos.

Hoje, uma massa de jovens (em sua maioria de classe média), toma as ruas com seus cartazes e as mais distintas reivindicações. De onde eles vieram? Suas práticas são de direita? Bobagem. Mesmo sem saber suas bandeiras são no mínimo progressistas, poderiam constar de qualquer plataforma de um partido de esquerda.

Eles não têm líderes porque as velhas organizações estudantis e sindicais estão falidas. Sua ferramenta de convocação são as redes sociais, via internet. Essa juventude não tem os mesmos códigos e formas de organização tradicionais, da representação indireta, nas quais se elegem uns poucos que vão liderá-los e representa-los junto aos poderes constituídos. Essa turminha não é afeita a conchavos, quer as coisas transparentes, pão-pão, queijo-queijo. Ela está dando os primeiros passos e não tem obrigação de conhecer o que é ser de esquerda ou de direita.

Por isso mesmo, este movimento surpreende e confunde tanto as elites e seus governos quanto a esquerda tradicional. Os porta-vozes dos governos e dos partidos reafirmam que não há democracia sem partidos políticos. Pode ser, mas com esses partidos? Os partidos que viraram cartórios de negócios e candidaturas? Partidos que não debatem idéias, que não firmam propostas e que se coligam ao sabor das oportunidades? Partidos que vivem de ocupar cargos e postos de mando, de costas para a população e seus reclames? Ou os partidos mudam rápida e radicalmente ou vão para a lata do lixo.

Não é que os manifestantes repudiem a esquerda (pelo menos a maioria), simplesmente não querem que uma velha prática de partidos de esquerda se repita: o aparelhamento da sua luta.

Alguns oportunistas de direita, infiltrados no movimento, querem transformar este receio legítimo em arma para expulsar ou calar os partidos de esquerda. Mas não se deve confundir esses elementos com a maioria. No entanto, insisto, cabe aos partidos de esquerda analisar a antipatia da massa com suas práticas. Se não o fizerem vão perder definitivamente o bonde e se afastar ainda mais da realidade. Mais paciência, menos preconceito, é o que pode ajudar nessa hora.

Enquanto a imprensa internacional destaca a crise política no Brasil, provocada pelas manifestações de rua, o descontentamento com o desperdício de dinheiro público, os péssimos serviços públicos, a grande mídia caipira dá importância aos confrontos, provocados pela polícia, procurando criminalizar o movimento.

Em todas as manifestações, das grandes metrópoles às cidades pequenas, a população se dirigiu aos prédios em que reinam os governantes. Esses prédios simbolizam exatamente o que o povo repudia nas ruas: as falcatruas que beneficiam interesses privados, os desmandos, o poder apartado das ruas, as negociatas.

O que a polícia, mas exatamente as tropas de choque das PMs, fizeram? Elas não estavam ali para dar proteção aos manifestantes, garantir o direito de ir e vir e outras balelas do discurso oficial, mas para dispersar as manifestações. Por isso, qualquer fagulha, cuspe ou fogo de artifício foi usado para desencadear a violenta repressão policial que ocorreu em todo o país no dia 20 de junho.

Se os manifestantes mais exaltados são parte de uma ínfima minoria, por que a polícia investiu contra tudo e contra todos? Se a polícia estivesse ali para proteger a maioria, como dizem em seus discursos cínicos, poderia facilmente identificar os mais radicalizados e detê-los já no percurso das passeatas. No Rio jogaram bombas, caveirão e até cavalaria contra a multidão.

Aliás, nada disso é novidade. Afinal, qual “autoridade” deste país transita sem segurança pública ou particular? Você conhece alguma? É claro que eles precisam ser escoltados, porque se andassem pelas ruas seriam hostilizados pelo povo.

A insatisfação de boa parte dos manifestantes contra os partidos de esquerda se explica por alguns motivos: despolitização de uma parte e o medo que as manifestações sejam utilizadas politicamente por esses partidos. Esses comportamentos são compreensíveis, mas não justificam a postura dos mais exaltados, que querem impedir os militantes de partidos de esquerda de participar das manifestações com suas faixas e cartazes.

No entanto, cabe a esses partidos fazer reflexões profundas sobre seus propósitos e métodos. A maioria também não entendeu o recado das ruas e procura se justificar com um discurso de que o antipartidarismo é igual a fascismo. Por aí vão continuar na sua insignificância, apesar da luta de rua ter um caráter nitidamente progressista e de esquerda.

Já os governantes estão atônitos. Não sabem como e nem porque as manifestações começaram, porque cresceram e como responder às demandas do povo que está nas ruas. O problema dessa gente é que ela está tão distante da realidade popular que não enxerga o óbvio: as pessoas querem ser respeitadas, terem serviços decentes a preços compatíveis e, sobretudo, terem canais para serem ouvidas e suas opiniões serem acatadas.

Depois de condenarem e até criminalizarem as manifestações de rua, que estouraram em todo o país nas últimas semanas, governantes, parlamentares e a grande mídia passaram a tratar o movimento com um cinismo absurdo.

O problema é que no plano das emoções é muito difícil enganar alguém. Adolescentes e jovens estão despejando nas ruas uma revolta contida justamente contra este cinismo, revestido de “bons modos”, das autoridades. Agora vem a público cortar alguns centavos das passagens de ônibus que eles mesmos aumentaram, ou seja, apresentam a prova do próprio crime, são réus confessos.

Durante décadas esta elite deu as costas para o nosso povo. Seu sonho de consumo foi enriquecer o mais rápido possível, a custa de todo tipo de irregularidade e falcatrua. Promessas não cumpridas, contratos superfaturados para tirar percentuais, obras interrompidas e a ostentação da riqueza sem qualquer disfarce.

Até o momento em que os desmandos dos poderes públicos tinham conseqüências entre os setores populares das periferias e favelas a situação parecia sob controle. Era só construir uma rede de clientelismo, mesclado com a violência de policiais e milícias.  Quando a corrupção, a precariedade dos serviços públicos e o custo de vida atingiram a classe média a coisa começou a mudar de figura.

O otimismo dos anos Lula começou a dar lugar à incerteza da crise internacional e suas repercussões no Brasil. Gulosos e sem freios, governantes e parlamentares aproveitaram os mega-eventos não para melhorar a infraestrutura do país e das cidades, como prometeram, mas para engordar as contas de empreiteiras e se locupletar política e financeiramente.

Não é por 20 centavos, dizem hoje os manifestantes. É verdade, há muito mais por trás da insatisfação despejada hoje nas ruas. As escolas despreparadas e sem estrutura, o descaso com a saúde pública e a enganação dos planos de saúde, o transporte caro e ruim, o trânsito que dá nó e irrita o cidadão todos os dias, o lixo e a sujeira sem fim. Tudo isso é a demonstração cabal de que o brasileiro paga imposto demais para ter serviços públicos e privados de péssima qualidade.

Talvez o estopim de tudo seja mesmo o descalabro dos bilhões queimados com elefantes brancos (as chamadas arenas) para dois ou três jogos da Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Obras hiper faturadas, jogadas na cara das pessoas como um tapa.

Hoje, depois de despejarem bombas e cassetetes contra os manifestantes, todos correm para dizer que reconhecem a importância das manifestações. “Fazem parte do jogo democrático”, dizem. Ou então “é preciso ouvir as vozes das ruas”, alertam. Todos se apressam agora a dizer que estão abertos ao diálogo e às negociações. Pura demagogia, puro cinismo que qualquer menino de 14 anos é capaz de identificar.

Nossos governantes, empresários, parlamentares e comentaristas midiáticos, atônitos, são como pais ausentes, que nunca tiveram diálogo ou entenderam o que seus filhos quiseram dizer. Quando seus filhos quiseram carinho e reconhecimento, viraram as costas porque tinham coisa mais importante a fazer. Quando os jovens precisaram de limites eles estavam ausentes. Quando os meninos se rebelaram foram tratados com violência. Agora, segurem os meninos!

A maioria quer reconhecimento, dizer que existe, que é gente, que merece coisa melhor do que pão e circo. Seguem pelas ruas, praças e avenidas do país em manifestações, sem carros-de-som e sem lideranças formais, distantes. Eles não querem e não precisam dos “porta-vozes” dos “líderes”. Eles estão fartos de ser desrespeitados, querem apenas seus direitos e decidir os rumos das coisas.

Alguns colegas jornalistas seguem reproduzindo em matérias e textos para jornais, rádios, TV e internet expressões que servem para criminalizar os movimentos sociais. Às vezes, mesmo sem ter consciência disso, acabam por fortalecer o velho maniqueísmo que divide o mundo entre os cidadãos do “bem” e os do “mal”.

“Invasão” serve para definir a tomada de prédios e terras pelos sem-teto e sem-terra, mas a polícia “ocupa” as favelas.

“Vândalos” é a palavra-chave para definir manifestantes mais exaltados, que acabam se envolvendo em confrontos com a polícia ou que fazem “arruaças” e “depredações”.

“Quebra-quebra” é a expressão comumente usada para as revoltas espontâneas. Já a polícia usa tratores e caminhões para “remover” móveis e eletrodomésticos de áreas invadidas, em que é garantida a reintegração de posse.

“Baderna” é a classificação dada a manifestações que fogem ao controle. A polícia “restabelece a ordem”.

Quando baixam o pau em manifestantes os policiais agem “com rigor”, talvez com “rigor excessivo” ou, quando muito, com “força desproporcional”.

Nas greves os piquetes “impedem” o direito de ir e vir e a polícia “garante” o direito dos que querem trabalhar.

“Patrimônio público” é tudo aquilo que precisa ser preservado pelos manifestantes, mas quando se trata de argumentar sobre a “ineficiência do Estado” pode ser privatizado.

Policiais usam equipamentos especiais para o confronto, cobrindo o rosto, o corpo e às vezes até mesmo sua identificação. Os que protestam e cobrem o rosto com camisetas são os “mascarados”.

Manifestantes atiram paus e pedras, já os policiais disparam armas “não letais”.

A criminalização dos que protestam e lutam por melhores condições de vida também passa pelas palavras e expressões que usamos, quando narramos fatos ou escrevemos matérias. O jornalista pode escolher se aceita o jogo preconceituoso das empresas de comunicação, sempre a favor do Estado e da propriedade, ou se deve exercer sua profissão com o mínimo de dignidade e independência.

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Como jornalista devo sempre me ater aos acontecimentos. É o que pretendo fazer em mais este texto, muito embora se saiba que o ordenamento dos fatos e a narrativa embutem sempre uma interpretação do mundo. Ou seja, o jornalismo vive dos fatos, mas não é neutro, como de resto nada na sociedade.

Preocupado que estava com meu filho mais novo, depois de receber ligações que confirmavam que ele ainda não chegara em casa e notícias de que havia confusão na Assembléia Legislativa, deixei a manifestação que tomava a Cinelândia por volta das 20h e parti para a Assembléia Legislativa, nas imediações da Praça X, no Centro do Rio. Eu e um grupo de alguns milhares de manifestantes.

Quando me aproximei da ALERJ já havia uma massa de gente que assistia a um grupo de pessoas atirando objetos contra as portas do prédio. Os portões haviam sido fechados e as luzes apagadas. De dentro só o que se via era o uso bombas de gás e extintores de incêndio contra os que conseguiam se aproximar do lado de fora.

Ao contrário do que divulgaram os noticiários das Organizações Globo, ninguém invadiu ou tentou invadir a ALERJ. Os vidros quebrados e depredações do lado de dentro ocorreram justamente porque a PM tentava impedir a ocupação das escadarias, formando barricadas para se proteger no saguão de entrada. Se os manifestantes quisessem invadir a ALERJ, como noticiou a Globo, o teriam feito até com facilidade. Ao contrário, a multidão ficou do lado de fora.

Minutos antes um cordão de policiais bloqueara a calçada em frente à escadaria, provavelmente com a orientação de impedir que os manifestantes tomassem a entrada do prédio, como fizeram na passeata de 13 de junho. Ocorre que o propósito da turma era justamente ocupar a escadaria da ALERJ. Quando perceberam que não se tratava de um grupo pequeno, mas de uma massa de umas dez mil pessoas, os policiais recuaram e foram para dentro do prédio.

Do lado de fora, na Praça XV, se ouvia estampidos de bombas e até de tiros, mas a multidão, concentrada na Rua Primeiro de Março, não arredava pé. Ao lado do prédio da Assembléia um carro oficial dava sopa, quase solitário. Logo uma turma virou o veículo e tocou fogo. Em frente à escadaria outro grupo recolheu e queimou lixo, alimentando uma fogueira e criando uma roda de manifestantes que circulava as chamas pulando e dançando.

Outro grupo de PMs investiu pela Rua São José, atirando bombas. Eram uns vinte, mas a massa não dispersou. O revide de pedras, paus e garrafas de água não demorou e foi inevitável. Acuados, depois de uns dez minutos de confronto, os policiais bateram em retirada. Foi o suficiente para que um grupo grande de manifestantes avançasse sobre a São José. No meio alguns, mais exaltados, partiram para quebrar as vidraças de uma agência bancária, os vidros de um cartório e de um bar.

Por volta das 21 horas chegaram alguns carros de bombeiros. A multidão abriu caminho pacificamente para os veículos. Eles apagaram alguns focos de incêndio, fizeram seu trabalho normalmente e em momento algum foram hostilizados. Isso foi o que eu presenciei entre 20h e 21h nas imediações da ALERJ.

Ninguém “invadiu” a ALERJ, que sempre foi tratada como “a casa do povo”. Os parlamentos e palácios de governantes estão sendo alvos das manifestações em todo o país e não sem razão. Afinal, são os senhores parlamentares, prefeitos e governadores os responsáveis pelo mar de podridão que se instaurou neste país. Ou alguém tem dúvida?

Juventude abre alas

14/06/2013

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As manifestações ocorridas em várias capitais do país contra os aumentos das tarifas de ônibus demonstram, mais uma vez, que a juventude sempre esteve a frente de seu tempo. E ainda bem que é assim.

Foi assim entre os palmarinos, na luta abolicionista, nos levantes populares em todo o Brasil, na campanha do Petróleo é nosso, na resistência à Ditadura, na luta pela Anistia e o fim da Ditadura, nas Diretas Já, pelo impeachment de Collor de Mello.

Com seu ímpeto, rebeldia, ousadia e até sua testosterona aguçada a moçada que está indo às ruas para protestar quebra o silencio de vários anos da sociedade brasileira.

O estopim é o alto preço das passagens, mas muitos outros questões estão em xeque pelas manifestações: o modelo rodoviarista, que todos os dias dá nó no trânsito das grandes cidades; as relações promíscuas entre empresários de ônibus e governantes; a herança militarista da PM; a superação das velhas e tradicionais organizações, como UNE e CUT, hoje totalmente atreladas ao governo; os limites (se é que existem) para protestar.

Muitos que estão nas manifestações talvez não tenham a dimensão da importância de sua atitude. Num país que permaneceu calado durante anos, sob a tutela dos governos do PT/PMDB/Base Aliada, ir para as ruas significa romper este cerco de inércia. Ainda mais às vésperas de tantos megaeventos, para os quais todo tipo de descalabro tem sido cometido, no conluio entre FIFA, COI, grandes empresas e governantes.

O Movimento Passe Livre e todos que a ele se agregam estão desafiando a ordem e o status quo. Os outrora “radicais” do PT, hoje transformados em administradores dos negócios do Capital, estão atônitos, de cabelo em pé.

Na contramão disso tramita no Congresso um Projeto de Lei “contra o terrorismo”, que pretende enquadrar todo tipo de manifestação e movimento popular, lembrando a vergonhosa Lei de Segurança Nacional dos tempos da Ditadura.

Tão importantes quanto as reivindicações em si são as formas que este movimento adota para agregar as pessoas. As velhas organizações estudantis e sindicais estão comprometidas por estruturas pesadas, burocráticas, verticais e autoritárias. Um novo movimento popular parece despontar, sem amarras, horizontalizado, desprovido de ambições eleitoreiras e de direções infalíveis.

Tudo isso mostra a riqueza das mobilizações da juventude que vem tomando as ruas das capitais brasileiras. Começou no início do ano, em Porto Alegre, obrigando os governos e empresários a voltarem atrás no aumento das passagens. Agora se espalhou para São Paulo, Rio, Goiânia, Natal, Maceió, Curitiba e outras.

Mesmo que esta onda de manifestações se encerre sem vitórias expressivas, já terá cumprido o papel de detonar a pasmaceira que tomou conta do país nos últimos anos. E nenhum partido político ou grupo organizado pode se dizer dono ou dirigente deste movimento. A História do Brasil mostra que a juventude abre alas e que, logo atrás, irrompem as lutas dos mais necessitados.