Alguns analistas insistem em definir como “fascista” ou “neofascista” o projeto alavancado por Jair Bolsonaro, que o conduziu à Presidência da República do Brasil em 2019. Tenho alertado que essa definição “eurocêntrica” não serve para entender o fenômeno Bolsonaro e pode levar a esquerda e as oposições a adotar políticas equivocadas para combate-lo.

O que é o fascismo? É a radicalização do projeto dos grandes grupos econômicos capitalistas, quando já não conseguem mais manter a ordem burguesa, diante do descontentamento popular ou da ausência de credibilidade dos partidos de “centro”. Ou seja, o capitalismo e os capitalistas não têm qualquer problema em lançar mão de regimes autoritários, desde que estes preservem o que lhes interessa: manter e ampliar as margens de lucros do grande capital.

O fascismo clássico, que se implantou na Europa nos anos 30, tem algumas características básicas: 1) É um regime fechado, composto de corpos especiais de repressão (do Estado e fora dele); 2) Todas as experiências fascistas tiveram como fio condutor teoria e práticas emanadas de partidos políticos organizados; 3) Todas as experiências fascistas tinham no Estado um instrumento de implantação de uma política de colaboração entre as classes; 4) Todas as experiências fascistas redundaram em guerras expansionistas, seja a guerra generalizada na Europa ou nas colônias, visando a disputa de mercados e alimentar a indústria bélica.

Já o neofascismo ou fascismo do pós-guerra na Europa perde a característica de regime estatal. Ao contrário, o neofascismo abraça com facilidade o discurso neoliberal. Ainda assim, o neofascismo necessita de partidos sólidos para alicerçar suas políticas, dar sustentação teórica e base para suas lideranças emergentes. O aspecto beligerante e militar perde a força, apesar do discurso anti-imigração ser o carro-chefe dessa política.

Já alertei que o problema do fascismo ou do neofascismo na América Latina é que não encontram eco em suas teorias racistas e segregacionistas, base da atual política anti-imigração em toda a Europa. O país que mais próximo esteve de um projeto fascista na América Latina foi justamente a Argentina, que chegou a ter praticamente a metade de sua população formada de imigrantes.

Se não é fascista ou neofascista, o que é o projeto Bolsonaro?

Por incrível que pareça, o projeto político que sustenta Jair Bolsonaro e seu governo é mais insano que o fascismo clássico ou o neofascismo. Vejamos:

. O governo não tem um programa, pelo menos não anunciado. A base econômica está na privatização de estatais e esvaziamento dos serviços públicos, além de reformas ultra neoliberais;

. No plano político há uma forte componente militar, com oficiais e ex-oficiais das Forças Armadas no governo. No entanto, isso nada tem a ver com o velho projeto de desenvolvimento nacional experimentado na ditadura militar, muito menos com o antigo setor militar nacionalista, dizimado durante a ditadura;

. Bolsonaro não tem um partido sólido, com um programa definido, práticas consolidadas e lideranças regionais de peso. Trata-se de um amontoado de fanfarrões de toda espécie, sem nenhuma capacidade de apresentar e construir política. É o que explica a falta de quadros do PSL para a disputa da Câmara e do Senado. Ou será que alguém acredita em Olavo de Carvalho como o “guru” dessa turma?

. O que dá base de apoio de massa ao projeto Bolsonaro é o discurso contra a violência urbana, que pretende ser combatido com mais violência estatal e paraestatal, como atesta o projeto de Sérgio Moro. Seguindo o exemplo do Rio, a ideia é estimular grupos paraestatais de autodefesa, as chamadas “milícias”, valendo-se da prática do terror coletivo e do extermínio de todos que as ameacem;

. Outro aspecto importante de sustentacao do governo Bolsonaro e’ o apoio de seitas neopentecostais, que ja’ congregam em torno de 20% da população, com grande influencia entre os mais pobres e ramificação nos bairros de periferia e favelas. Mas este namoro pode se manter enquanto os interesses do governo não se chocarem com a base social dessas seitas.

. Portanto, estamos muito mais próximos de um projeto semelhante ao que se viu durante décadas na Colômbia – justificável graças ao combate às guerrilhas de esquerda – e até recentemente no México, com o domínio do território disputado por bandos armados de paramilitares e narcotraficantes. Aquilo está longe de poder ser definido como fascismo ou neofascismo.

Esses grupos armados têm interesses próprios, de pequena monta: transporte alternativo; gás de cozinha; internet, drogas e TV a cabo. Recentemente começaram a entrar no ramo da construção civil, mas nas áreas pobres que dominam. São atividades que fogem ao controle do grande capital, que não tem interesse e não concentra suas atividades nisso.

Portanto, trata-se de uma aliança tácita entre o capital monopolista (mercado), que apoia qualquer projeto disposto a assegurar seus interesses, grupos paramilitares e seitas neopentecostais, cuja meta é consolidar e ampliar seus negócios e seu poder. Algo muito mais complexo, que deve exigir atenção redobrada dos movimentos populares e da esquerda brasileira.

Todo o discurso ultrarreacionário que pretende dar base de sustentação a Bolsonaro e seus seguidores, é apenas expressão dos preconceitos que herdamos do colonialismo e sempre esteve latente em parte da sociedade brasileira.

A falta de unidade dos diversos setores que compõem o governo Bolsonaro/Mourão é o grande adversário inicial para sua manutenção. Enquanto for fiador dos interesses do grande capital terá apoio das grandes corporações, sobretudo da mídia empresarial. Caso não consiga emplacar os projetos de interesse do “mercado”, poderá naufragar, como tantos outros na história do Brasil.

O combate ao governo Bolsonaro/Mourão terá que ser construído em diversas frentes, inclusive parlamentar, mas, sobretudo, com a reconstrução do movimento popular de base e forte resistência da juventude, tradicional segmento progressista que historicamente luta pela democracia e sempre defendeu o progresso no Brasil.

 

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