Há muita insatisfação que se manifesta em todos os cantos da sociedade brasileira. Empresas com dificuldade de encontrar funcionários dentro de um perfil desejado; analistas destacando a falta de mão-de-obra especializada; jovens que não se adaptam às exigências das empresas; concurseiros que pulam de galho em galho e não se fixam em nenhum órgão público ou estatal.

Tudo isso forma um quebra-cabeça em que as peças não se encaixam. Por que? Não é fácil encontrar respostas a esses fenômenos, mas podemos tomar algumas pistas que nos levem a pensar respostas. Entre elas o fato de que há toda uma nova geração que se formou tendo como parte de seu cotidiano a Rede Mundial de Computadores (internet).

A internet é a ferramenta que mais democratiza o acesso aos mais diversos campos do conhecimento humano e a uma infinidade de informações e novidades e experimentos. A velocidade com que as coisas circulam e os debates fluem horizontalmente no meio virtual é infinitamente superior a todas as possibilidades de adequação das instituições tradicionais da sociedade, cujas estruturas são verticais e obedecem a comandos superiores e à boa vontade dos que estão acima na cadeia de mando.

O fato é que a chamada Geração Y, de jovens de classe média, chega ao mercado de trabalho com uma bagagem impressionante de possibilidades a seguir, com a pressa e a impaciência dos inexperientes e esbarra em estruturas empresariais e institucionais lentas, burocráticas, baseadas na velha hierarquia fordista.

Ocorre que essas novas gerações, ao menos teoricamente, sabem encontrar atalhos muito mais rápidos e, no entanto, estão subordinadas a uma rotina modorrenta, pesada. Logo descobrem que ali não terão possibilidade de ascensão profissional e econômica. Por isso, não se prendem muito sequer à oferta de uma certa “estabilidade” em órgãos públicos e empresas estatais. Daí a geração de concurseiros, que se espalha cada vez mais.

Por outro lado, há na sociedade brasileira uma gama enorme de jovens com formação precária, sem escolaridade suficiente, sem conhecimento profissional e técnico exigido para atuar nas empresas. Esse fosso se amplia a cada ano, na medida em que o ensino público é tratado como depositário de crianças e adolescentes pobres, com professores mal remunerados e mal formados, em escolas e salas caindo aos pedaços, com metodologias muito mais ligadas ao passado do que ao presente e ao futuro.

Essa massa de jovens pobres se sente rejeitada, porque só consegue colocações sem grande relevância, com salários aviltantes e ainda enfrenta um cotidiano de longos deslocamentos, discriminação e violência nas favelas e periferias das grandes cidades.

Não por coincidência esses dois segmentos da juventude têm sido protagonistas das manifestações de rua, desde as jornadas de junho. Levaram para as avenidas e estradas o descontentamento com tudo que os impede de serem tratados como cidadãos, com a burocracia e o não funcionamento dos serviços públicos, com o descrédito nos políticos e seus partidos (de direita e de esquerda), igualmente organizados sob a lógica da hierarquia verticalizada.

O desespero dos setores de Recursos Humanos das grandes empresas em encontrar profissionais que se encaixem “no perfil desejado” vai continuar e não terá fim, se as cadeias de comando dessas empresas não forem totalmente redimensionadas. Afinal, vale mais à pena para a juventude que sai das universidades criar seus próprios negócios ou arriscar uma mudança de emprego, do que permanecer acorrentada a um grupo no qual não há grande perspectiva de ascensão social e econômica.

O desespero dos governantes com as manifestações de descontentamento vai aumentar, na medida em que cresce o desinteresse pelas velhas estruturas de poder, totalmente infiltradas e carcomidas pela corrupção e o poder econômico do grande capital financeiro. Delas fazem parte não só os partidos políticos, forjados para responder a uma democracia representativa indireta, além do aparato policial militar e a grande mídia. As velhas representações estudantis e sindicais também estão em xeque.

Em resumo, as atuais estruturas econômicas e de representação política verticalizadas não respondem mais aos anseios das novas gerações, forjadas sob a égide de uma participação interativa e horizontalizada. Não há como montar um quebra-cabeça quadradinho com peças que estão em constante movimento.

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Jovens voltam do enterro anunciando resposta ao assassinato de Douglas Rodrigues

As manifestações de 27 e 28 de outubro na Zona Norte de São Paulo, em protesto contra o assassinato do jovem Douglas Rodrigues por um policial militar, marcam um novo rumo nas manifestações populares.

Como escrevi em artigos anteriores, as manifestações massivas de junho foram o estopim, a tampa da panela de pressão que explodiu e jogou pelos ares a insatisfação popular, contida nos últimos anos.

As lutas populares que vêm ocorrendo de lá pra cá são conseqüências de junho. Primeiro porque não houve uma mudança contundente de rumo, por parte das elites brasileiras, na condução do país e dos serviços básicos. Segundo porque as classes dominantes fecharam os canais de diálogo, que antes poderiam servir de espaços de negociação entre manifestantes e governantes, transformando as casas legislativas em extensões do Poder Executivo, seja no plano municipal, estadual ou federal.

No Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e algumas outras grandes metrópoles várias manifestações de descontentamento se sucederam no centro das cidades, inclusive com ocupações das Câmaras municipais. Em sua maioria, capitaneadas por jovens de classe média, incluindo aí os Black Blocs.

Esse setor da população, ainda que revoltado e disposto a enfrentar a polícia, sabe que a violência policial tem limites quando se trata de protestos organizados pela classe média, porque a grande mídia os encara como manifestações de cunho político.

Já nas periferias e favelas das grandes cidades as manifestações têm um caráter nitidamente de revolta popular. Ali não existem códigos políticos clássicos, não há aviso prévio, convocação por escrito, carro de som, patrimônio público a ser preservado, parlamentares e jornalistas por perto.

A educação política da juventude proletária é outra. A revolta se manifesta em explosão, que pode degenerar facilmente em quebra-quebra, barricadas, depredações e incêndios. Nos últimos meses se generalizou a prática de interromper estradas e avenidas em manifestações dos setores mais populares.

Nestas manifestações, ora por moradia ora por transporte ou mesmo uma passarela, o povo está enfrentando as forças do Estado. Estes são os protestos que mais preocupam as elites e seus porta-vozes.

Na cobertura ao vivo da TV Record sobre as manifestações na Zona Norte de São Paulo, o apresentador Marcelo Resende cobrava das autoridades (Executivo e Judiciário) uma ação enérgica da polícia contra o que ele chamava de “criminosos”. É evidente que pouca ou quase nenhuma importância foi dada ao assassinato frio de um jovem de 17 anos, estopim da revolta.

De certa maneira as manifestações da Maré (em Julho), nas periferias de Belo Horizonte e São Paulo deixam claro que um novo ator está em cena: a juventude proletária, sem futuro e sem qualquer educação política. Eles não têm programa e nem projetos, mas não suportam mais serem tratados como escória, sem direito a nada e reprimidos com violência policial. É evidente que aí podem estar infiltrados agentes da malandragem, mas este não é o elemento central que determina as manifestações.

Contra essa força, que se movimenta de forma espontânea, capaz de se dispersar para mais adiante se juntar em questão de minutos, num território que só eles conhecem com a palma da mão, não há polícia que dê jeito.

Ou as classes dominantes mudam sua maneira de agir rapidamente, abrindo canais de diálogo e metas que alterem as condições de vida dessas comunidades, ou as revoltas populares correm o risco de se generalizar por todo o país. Porque o mais importante já se deu: diante da inércia e da falta de diálogo das elites o povo perdeu o medo.

 

Há alguns dias, Rafucko (videomaker, escritor e ativista) participou de um debate promovido pelo YouPix. O tema era: “Protestos e redes sociais – a mudança de poder da mídia”. No palco, além dele, Pedro Doria (editor executivo de plataformas digitais do Globo), Rodrigo de Almeida (editor do iG), Alexandre Inagaki (jornalista e blogueiro), e Felipe, da Mídia Ninja do Rio. A mediação era de David Butter (jornalista com passagens pela Globo e G1). Acompanhe o debate neste vídeo, a partir do minuto 10. A coisa esquenta lá pelo minuto 25.

Alguns nomes tradicionais da imprensa brasileira aderiram ao governo petista/base aliada. Publicam notícias e comentários sempre favoráveis aos projetos do Planalto, usando como justificativa a existência do que chamam de PIG (Partido da Imprensa Golpista).

O PIG sempre existiu. Mais um motivo para que colegas jornalistas reforcem a necessidade de uma imprensa realmente livre, plural e democrática. Ao contrário disso, Paulo Henrique Amorim, Fernando Brito e outros formam uma espécie de trincheira do Planalto, ao justificarem, em seus respectivos blogs, tudo que emana do governo do PT/Base Aliada.

Não sou ingênuo, jamais acreditei numa suposta “neutralidade” da imprensa. No entanto, aprendi que jornalismo se faz com fatos. Abstração do tipo “o Pré-sal vai gerar 87 milhões de empregos nos próximos 30 anos”, que se publica como informação não pode ser levada a sério, num país cujo mercado de trabalho formal gira em torno de 23 milhões de pessoas.

De que serve reproduzir na íntegra os discursos de Lula, Dilma e seus assessores, sem qualquer observação ou análise crítica?

Uma das ferramentas mais interessantes que se criou nas últimas décadas na imprensa foi o Tijolaço, matéria paga e assinada em jornais por Leonel Brizola. Era a forma que o ex-governador do Rio encontrou de combater as inverdades lançadas contra seu governo e debater idéias. Seu redator, meu amigo Fernando Brito, transformou o Tijolaço em blog após o falecimento de Brizola.

Recentemente, depois de um tempo fora do ar, o Tijolaço retornou à rede e, num editorial intitulado “Voltamos”, deixou explícito o objetivo do blog de ser porta-voz do governo. Isso se evidencia na reprodução da citação de Lula: “Quero parar de reclamar que os que não gostam de mim não dão espaço. Por que a gente não organiza o nosso espaço? Por que a gente não começa organizar a nossa mídia?

Não posso afirmar, porque não sou Mãe Diná, mas conhecendo bem as idéias que Leonel Brizola sempre defendeu, tenho quase a certeza de que não gostaria nada de ver o seu Tijolaço transformado em porta-voz do governo do PT/Base Aliada.

Já o colega Paulo Henrique Amorim faz do seu blog uma “Conversa Alinhada” ao Planalto, sempre disposto a combater os argumentos de oposição, venham de onde vierem. Seus alvos prediletos são o tucanato e as Organizações Globo, atuando como se fora o paladino da democratização da mídia.

Declarar guerra ao PIG não pode significar a defesa incondicional do governo PT/Base Aliada. Combater o jornalismo empresarial da grande mídia é uma necessidade não só profissional, como também em defesa da democracia. Mas enfrentar a Imprensa Golpista com uma Imprensa Governista é igualmente trágico. Ambos são um desserviço ao jornalismo e, sobretudo, à sociedade.

Quem necessita de uma imprensa livre e independente é o cidadão brasileiro. Se, de fato, os governos petistas tivessem interesse em fortalecer a imprensa alternativa, teriam revisto as atuais concessões de Rádio e TV e deixariam de perseguir as emissoras comunitárias de Rádio e TV.

Mais do que isso, o que revelaria o interesse dos governos PT/Base Aliada pela democratização da mídia no país seria reverter parte considerável dos recursos de publicidade oficial para outros meios, que não as Organizações Globo, a Record e as grandes cadeias que monopolizam a comunicação no país.

Vale a pena acompanhar e disseminar este vídeo, em que Sauer trata da estratégia de exploração do petróleo pelos governos dos EUA e da China, o papel das reservas de petróleo do Brasil e a política do governo Dilma.

Depois de ter desenvolvido toda a tecnologia de exploração em águas profundas e na lâmina do Pré-sal, a Petrobras entrou de sócia minoritária (com 10%) num consórcio que inclui a Shell (holandesa, com 20%), a Total (francesa, com mais 20%) e duas companhias estatais chinesas (outros 20%) para explorar o Campo de Libra, na Bacia de Santos.

Algo em torno de R$ 15 bilhões foi o preço pago pelos 12 bilhões de barris de petróleo fino, que atualmente corresponderiam a cerca de 2 trilhões de reais, aos preços praticados no mercado internacional.

Para justificar o leilão o governo anunciou que o percentual da União seria de, no mínimo, 41,65% do “excedente em óleo”. Porém, observando-se o Edital do leilão (páginas 40 e 41), verifica-se que, a este valor ofertado pelas petroleiras, serão aplicados redutores de até 31,72%, fazendo com que a parcela da União possa cair para ínfimos 9,93%, como ressalta o economista Rodrigo Ávila.

O intrigante é que a Petrobras ainda entra no consórcio com 10%. Por que? Provavelmente por exigência por parte dos sócios, visto que as empresas privadas devem pedir garantias no negócio, sobretudo no que diz respeito a investimentos mais pesados para que os poços possam produzir. Ou alguém acredita que capitalista dá ponto sem nó?

Ora, como a Petrobras hoje é uma empresa dividida entre governo brasileiro e investidores privados, metade do que ela arrecadar caberá aos investidores privados. Portanto, restará ao governo a outra metade para “investimentos sociais”, através do rendimento dessas aplicações financeiras.

E os royalties? Bem, esses só depois que os poços começarem a produzir, ou seja, depois de 2019.

O Brasil é o único pais do mundo em que o governo se associa a grupos privados e estatais estrangeiros para comprar o que é patrimônio público. A Petrobras deixa de ser dona do Campo de Libra para se tornar sócia minoritária. E ainda tem gente comemorando este feito…  

Multiplicam-se na grande mídia os comentários, matérias e editoriais a favor do leilão do petróleo do Campo de Libra. O novo argumento é que o modelo de partilha (privatização mudou de nome), com 30% do petróleo garantidos à Petrobras, é moderno, dinâmico e conveniente. Alguns chegam a afirmar que, a depender do grupo vencedor, o país terá lucro com o leilão de Libra, o maior campo já descoberto na camada do Pré-sal, na Bacia de Santos.

Só para lembrar, estamos tratando de uma reserva já confirmada de 12 bilhões de barris de óleo fino, só em Libra. Isso corresponde a mais do que todas as reservas do México e do Equador, dois tradicionais produtores de petróleo. Se acrescentarmos mais 15 bilhões de barris das demais reservas do Brasil, chegaremos ao montante de 27 bilhões de barris de petróleo, o que coloca o país a frente do Catar, da China e de Angola.

Um certo comentarista do caos – o rebelde a favor – chegou a afirmar em seu comentário na Globo, que o que permitiu descobrir e avançar na tecnologia do Pré-sal foi justamente a parceria com grupos privados. Ora, este brincalhão irresponsável dissemina besteiras e afirmações tão duvidosas quanto as que esgrimiu logo após as primeiras manifestações da jornada de junho. Uma delas é que, daqui a vinte anos o petróleo estará defasado enquanto fonte de energia.

O leilão de Libra não é apenas um crime de lesa-pátria, já que as reservas ali estocadas podem gerar recursos suficientes para um salto na Educação e da Saúde públicas brasileiras (algo estimado em 2 a 3 trilhões de reais). É uma traição ao eleitorado, que nas últimas eleições viu a atual presidente fazendo campanha na TV, garantindo que não haveria privatização e acusando os tucanos do PSDB de defenderem a privatização do petróleo e do Pré-sal.

A entrega do Campo de Libra a grupos privados, mesmo que em sociedade com a Petrobras, é uma adesão declarada do governo petista ao já decadente projeto neoliberal. E o pior é que já se fala num modelo menos engessado para os próximos leilões, ou seja, mais atraente para as grandes companhias privadas de petróleo. Como se vê, o Planalto e os demais governantes insistem em dar as costas para as ruas.

Nos anos de 2011 e 2012 o governador Sérgio Cabral, o prefeito Paes, o senador Lindberg Farias e até o desafeto de todos, Antony Garotinho, uniram forças e convocaram manifestações contra o projeto que prevê a redistribuição dos royalties do petróleo.

Juntos denunciaram o prejuízo aos cofres dos municípios e estados produtores, entre eles o maior, o Rio de Janeiro. Nada mais justo que assegurar o cumprimento de regras já estabelecidas, para que não sejam alteradas no meio do jogo e os royalties dos poços já em operação continuem sendo revertidos para os estados produtores.

Para pressionar os outros estados, o governo federal e o Supremo, milhares de ônibus levaram para as ruas do Centro do Rio dezenas de milhares de pessoas. Muitas foram arrebanhadas, sabe-se lá de que maneira, para participar das manifestações contra o “roubo”, na base do passeio e do lanche. Servidores públicos estaduais e municipais tiveram ponto liberado para engrossar o caldo.

À época não só me recusei a fazer parte do circo montado com estrutura de governos, como denunciei aqui e no Programa Boca Livre a demagogia dos patrocinadores da campanha. Afinal, os mesmos que levantaram a bandeira da luta contra o “roubo”, nunca prestaram contas do uso dos recursos dos royalties do petróleo pelo estado e pelas cidades fluminenses.

Hoje, às vésperas do leilão do Campo de Libra, o maior já descoberto pela Petrobras na camada do Pré-sal, nenhum dos que denunciaram o “roubo” do Rio levanta a voz para criticar a entrega do petróleo brasileiro a grupos estrangeiros. Ao contrário, PM e Guarda Municipal do Rio de Janeiro estarão ao lado da Força Nacional e tropas do Exército, mobilizadas pelo governo Dilma, para garantir que a entrega do Campo de Libra, num hotel da Barra da Tijuca, se dê sem problemas.

Estima-se que Libra tenha capacidade para 10 a 15 bilhões de barris de um óleo fino, portanto de melhor qualidade. Trata-se de algo entre dois a três trilhões de reais, dinheiro suficiente para assegurar uma Educação de qualidade e uma Saúde pública de primeiro mundo aos brasileiros.

A pequenez dessa turma é patente. Contentam-se em ficar com as migalhas dos royalties, enquanto o bolo do Pré-sal escoa inteirinho para as mãos de grupos privados multinacionais. E a “organização criminosa” é aquela formada por jovens que atiram pedras e enfrentam a polícia…

Reproduzo, acima, um vídeo de campanha da Presidente Dilma, criticando a oposição por defender a privatização da Petrobras e do petróleo do Pré-Sal. O leilão do Campo de Libra, o maior já encontrado pela Petrobras e que equivale a 15 bilhões de barris, está marcado para 21 de outubro. O governo Dilma está mobilizando até tropas das Forças Armadas para “garantir” o leilão.

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Foto: Alexandre Brum (O Dia)

Sou pressionado a descer o pau na garotada black bloc. Antigos colegas da imprensa, amigos e até companheiros de outras caminhadas adotaram um tom liberal-conservador para tratar do tema. Já não bastam as bombas e cassetetes da PM?

Agora a culpa pelo espetáculo de repressão nas ruas do Rio, protagonizado pela velha e conhecida Polícia Militar, é desses garotos vestidos de preto, que atiram pedras, arrancam placas, fazem fogueiras, quebram bancos e queimam ônibus.

Se depender de mim vão esperar sentados. E digo mais: sou capaz de arriscar que muitos dos que hoje criticam e pedem repressão aos blocs, certamente estariam de rosto tapado e arremessando pedras em sua juventude.

Em textos anteriores já externei que não tenho concordância com a tática ingênua desses grupos, que se confundem com anarquistas e autonomistas. Quebrar bancos e queimar ônibus não faz nem cosquinha no sistema, porque tudo isso é pago pelo seguro.

Acho mesmo que as manifestações populares devem demarcar suas reivindicações e roteiros, para que não haja confusão com os grupos black blocs. Mas daí a fazer coro com a grande mídia e justificar a repressão policial vai uma enorme diferença.

Como tudo na vida há aspectos contraditórios no imaginário popular quando se trata de manifestações violentas. Os mais conservadores pedem repressão implacável contra os “vândalos” e “baderneiros”, que perturbam a ordem de seu dia-a-dia. Os progressistas temem que a atuação dos blocs recrudesça a repressão, uma consideração justa.

Mas há um setor da população que nada mais tem a perder e vê com simpatia a reação corajosa da garotada mascarada, que se enfrenta nas ruas com a PM. Isso está expresso na enquete de O Dia Online (16 de outubro de 2013), um dia após os confrontos no Centro do Rio, em que a grande maioria aprova a ação dos blocs.

Afinal, a PM já é uma instituição muito mal vista pela maioria e ainda aparece para bater e prender manifestantes que protestam contra os desmandos da dupla Cabral e Paes. É bom lembrar que nenhum (nenhum mesmo!) policial militar foi punido pelo uso excessivo da força nas manifestações, desde junho.

No Dia do Professor a PM deu mais algumas aulas de incivilidade: policiais retiraram a força um motorista de ônibus do volante, alegando “desacato à autoridade”. A cena, revoltante, foi gravada num celular de um passageiro. Durante o confronto com os blocs foram ouvidos disparos de armas de fogo, um rapaz levou tiros no braço e cápsulas de balas foram encontradas no chão.

E ainda querem que eu perca tempo condenando uma parcela da juventude que não encontra respostas aos seus anseios de liberdade? Vamos acordar!? Se as coisas chegaram ao ponto em que estão é porque cada um de nós deu ou deixou de dar sua contribuição. Fazer coro com a grande mídia não ajuda a entender nada e confunde alhos e bugalhos.

Os blocs acabam aparecendo aos olhos de parcela do nosso povo como um grupo de “justiceiros”, que faz o que muita gente tem vontade, mas não tem a coragem de fazer. São décadas aturando desmandos, prisões arbitrárias, pé na porta do barraco, esculachos, torturas e assassinatos nas favelas e periferias.

Ao relegar ao parlamento um papel meramente decorativo no exercício da administração política da sociedade de classes, as elites brasileiras destruíram os poucos canais de negociação com a grande massa. A única saída que essa minoria oferece são cassetetes e bombas. É o que se vê desde junho.

Assim, a reação dos blocs acaba encontrando eco nas massas, ainda que elas não se sintam encorajadas a usar da força bruta contra as agressões cotidianas perpetradas pelas classes dominantes.

O enfrentamento, via pedras e bombas, não vai forjar uma saída para a crise de representação política na sociedade brasileira contemporânea. Mas pode forçar a todos pensar uma saída que não nos remeta ao passado de ditadura e nem ao presente de uma democracia formal, apartada da realidade popular.