Diferentemente do pensamento liberal conservador, a direita fascista costuma deturpar fatos, distorcer acontecimentos e produz análises sem consistência para defender seus argumentos. O conservadorismo tem por objetivo a explicação e a justificativa da realidade para a manutenção do status quo predominante na sociedade. Sua missão é combater o avanço das ideias revolucionárias, que levam ao caminho das transformações sociais.

A direita mais tacanha transforma o conservadorismo em propaganda, agitando todo tipo de preconceito para confundir e assustar as pessoas. Seu instrumento mais eficaz não é propriamente seu ideário fascista, mas o senso comum, um conjunto de ideias e costumes arraigados na sociedade por gerações.

É o que têm feito algumas figurinhas carimbadas que, nos últimos tempos, procuram ocupar espaço deixado pela direita conservadora. Esses proto-fascistas, alguns disfarçados de defensores da Nação, da ética e dos bons costumes, têm divulgado com algum sucesso suas ideias, em meio ao mar de atraso cultural e político que prevalece no país.

Por exemplo: difundem como verdade que Lula e Dilma seriam comunistas, que o Forum de São Paulo é uma instituição que reúne esquerdistas e guerrilheiros assassinos. Para eles o PT sempre foi e é de esquerda e está levando o país para o caos, caminho para uma ditadura socialista.

Para isso usam diversas táticas: como não podem expressar claramente sua visão racista, preferem combater as cotas nas universidades públicas; como não conseguem atacar as ideias, rebaixam o debate a ataques pessoais e morais, acusando dirigentes e lideranças de envolvimento com roubalheira; como não podem negar a injustiça da realidade fundiária e urbana no Brasil, condenam os movimentos de sem-terra e de sem-teto como “violentos”; como não podem bradar seu ódio contra os homossexuais, denunciam qualquer medida contra a discriminação como destruição da família e dos valores cristãos; como não podem negar sua gênese fascista, atacam os direitos humanos e incentivam a violência policial do Estado contra as comunidades mais pobres, sob o pretexto de combater a bandidagem.

É o que temos assistido nos últimos tempos nas redes sociais, particularmente no Facebook, que atinge em torno de 54 milhões de brasileiros. Suspeita-se que algumas destas figuras e seus “movimentos” são financiados por instituições internacionais de direita. Pode ser, pode não ser. Alguns são tão desqualificados que talvez não mereçam apoio, porque acabam desmoralizando as ideias que defendem, como Carla Zambelli e Matheus Lacombe.

Outros se escudam em movimentos, como o Brasil Livre, Vem pra Rua e até o Instituto Liberal. Mas há também os que se aventuram como “intelectuais”, para dar peso às ideias reacionárias que defendem. É o caso do historiador Marco Antonio Villa (UFSCar) e do jornalista Leandro Narloch (Veja). Ou como os senhores Luiz Felipe Pondé (filósofo) e Demétrio Magnoli (sociólogo e geógrafo), Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, que difundem suas teorias reacionárias em veículos de comunicação, como a Folha S. Paulo, Veja e a Globonews. Essas figuras procuram dar alguma sofisticação e uma nova roupagem – por vezes até engraçadinha – ao discurso da direita, alcançando algum prestigio entre setores da classe média.

No entanto, inegavelmente as lideranças que fazem mais estragos em termos de difusão dos ideais de direita são as neopentecostais, como os senhores Silas Malafaia, Magno Malta e Marco Feliciano. Estes falam diretamente com a grande massa evangélica, que já abrange 25% da população brasileira. Entraram na vida política para preservar seus interesses imediatos. Precisam incentivar o obscurantismo porque ele faz parte da sua engrenagem de exploração religiosa.

Partem do senso comum, associando em suas pregações a adoração a Deus com a austeridade e o conservadorismo, enquanto vinculam, de maneira ardilosa, à esquerda ao ateísmo, a imoralidade e à destruição da família. É a disseminação da ideologia da prosperidade, a serviço do sistema.

Estão em tramitação na Câmara dos Deputados uma série de projetos – alguns de iniciativa da bancada evangélica, já votados e aguardando aprovação do Senado – que representam retrocessos em termos de direitos e costumes. Entre eles, a pena de morte, a terceirização ampla geral e irrestrita, a redução da maioridade penal, a proibição de aborto em caso de estupro, a redução da idade mínima para trabalhar (14 para 10 anos), dentre tantos outros.

Quando a pregação neopentecostal se mantém nos limites da religiosidade causa um atraso no plano social. Mas quando essa pregação reacionária se desloca para a política, pode representar um prejuízo para toda a sociedade. Sua lógica reside na necessidade de convencer as massas de que não há salvação na Terra e, portanto, ela é essencialmente reacionária.

A tolerância para com o uso dos meios de comunicação, a ausência de impostos e de controle da circulação de dinheiro por estas seitas acabou por conceder a seus pastores privilégios que só se preservam dentro do sistema. Daí porque eles são os mais interessados e os mais incisivos na preservação da sociedade de classes e na manutenção das injustiças sociais.

A Era do improviso

20/10/2015

Não faz tanto tempo assim um prédio inteiro desabou no Centro do Rio. Motivo: a reforma num dos andares atingiu uma das pilastras centrais de sustentação da construção. Nem condomínio nem Prefeitura fizeram um acompanhamento da obra. Saldo de dezenas de mortos e desaparecidos.

Em 2010 foi a vez de um restaurante em andar térreo na Praça Tiradentes, também no Centro. Uma explosão de botijões de gás destruiu o estabelecimento e atingiu vários andares do prédio. Quatro mortos e alguns feridos, fora o prejuízo para os proprietários dos imóveis, alguns desativados até hoje.

Agora um quarteirão inteiro vem abaixo em São Cristóvão, numa zona mista residencial e comercial. Os vizinhos sentiam cheiro de gás de uma pizzaria e um deles, comerciante, já havia feito denúncias aos órgãos competentes, a saber: corpo de bombeiros, administração regional e defesa civil. Ninguém deu bola e nada de fiscalização. A força da explosão foi tamanha que vidros quebraram há mais de cem metros. Sete feridos e prejuízo para quem perdeu o pouco que tinha.

O super prefeito se apressou em aparecer com cara de consternado, levando seu candidato à tira colo. Logo apareceram tratores, guindastes, guarda municipal, bombeiros e defesa civil. Um festival de eficiência depois que o caldo derramou. Onde estão os laudos técnicos sobre o uso e manipulação de botijões de gás pelo estabelecimento comercial? Se existem quem assinou? Há pessoal e equipes em número suficiente para fazer vistorias dos imóveis?

Pelo visto continuamos na era do improviso, com um verniz de modernidade. Não há uma calçada desta cidade com o piso regular, livre do estacionamento irregular. Não há um programa de plantio de árvores, sobretudo nas áreas mais afetadas pela urbanização tresloucada das últimas décadas, como a Leopoldina e a Zona Oeste.

O calor infernal toma conta desta mistura de concreto e asfalto em que se transformou o Rio, embalado pela poeirada das obras. E quando o verão chegar de verdade, com temperaturas insuportáveis, o carioca mais uma vez vai ser obrigado a amargar aquela sensação de bafo quente na pele, cozinhando nos trens, metrô, nos ônibus e nos engarrafamentos da cidade. Foi nisso que transformamos nossa Cidade Maravilhosa?

Tá bom, se querem crucificar a Dilma que o façam pelo que seu governo tem de pior ou deixa de fazer. Não me venham com demagogia sobre corrupção, porque não há porta-voz da moralidade de plantão que não tenha um processo por desvio de verbas, compra de votos ou improbidade administrativa. Chega de afirmações ridículas sobre o PT e sua opção de esquerda, porque o PT nunca foi comunista e atualmente nem de esquerda é. Então vamos tratar do que interessa, certo (int)

Já que ninguém está satisfeito com a situação da Petrobras, então vamos mudar sua gestão: a maior empresa do país deixará de ser alvo de indicações políticas e do mercado para passar a ser gerida por um conselho eleito pelos próprios petroleiros e estudiosos da matéria. Com certeza eles terão competência e transparência na gestão da coisa pública, muito mais do que políticos e seus apaniguados. Esse mesmo modelo de administração pode ser implantado em outras estatais e nos serviços públicos.

Já que ninguém suporta pagar tanto imposto, vamos taxar as grandes fortunas, os juros e dividendos das operações financeiras. E, para completar o serviço, vamos exigir que o Congresso Nacional convoque uma Auditoria  independente da Dívida Pública (externa e interna) do país, para saber se o que estamos pagando com recursos públicos (45% do orçamento anual da União) é devido ou é pura agiotagem do sistema financeiro.

Já que ninguém quer mais cidades inchadas, engarrafamentos monstruosos e desgaste de horas para chegar e voltar do trabalho, vamos começar pelas reformas agrária e urbana. Assim, certamente boa parte da população terá motivos para voltar para o campo ou morar mais perto de seu local de trabalho, levando uma vida com dignidade. Por sua vez, vamos diminuir o número de carros nas ruas, através de um plano de expansão dos transportes coletivos sobre trilhos e fluviais (metrô, trens e barcas). Assim, poderemos alterar também o fluxo de mercadorias por estradas de rodagem, barateando o transporte e combatendo o desperdício.

Já que ninguém aguenta mais tanta corrupção e desmandos no Congresso Nacional, vamos acabar com o financiamento privado de campanhas. Ah! E o tempo de campanha será igual para todos, para que todos os partidos digam a que vieram. E mais: todo candidato terá que registrar um termo responsabilidade em cartório, jurando fidelidade às propostas que defender na campanha. Caso contrário, perderá o mandato.

Já que ninguém tolera mais tanta ignorância, vamos instituir o ensino público em horário integral, com professores bem remunerados, salas com o máximo de 20 alunos, escolas bem equipadas (incluindo biblioteca, refrigeração nas salas, ginásio de esportes e piscina).

Já que todo mundo diz que quer saúde de qualidade, vamos começar por fechar as torneiras da poluição dos rios e do ar, punindo severamente as empresas poluidoras. Além disso, um plano de expansão do tratamento de esgotos e de recuperação da rede hospitalar pública do SUS, limitando a ação dos planos de saúde ao papel de serviços complementares.

Já que ninguém mais se engana com as Organizações Globo, seria de bom tom rever as concessões de canais de TV e Rádio, delimitando seu alcance ao espectro regional. Por outro lado, fortalecer a rede pública de comunicação, passando a transmitir os grandes espetáculos e o futebol, com a contratação de mais profissionais e a construção de uma rede nacional de comunicação de rádio e TV, como nos países mais avançados da Europa.

Já que ninguém atura mais tanta violência, vamos meter o dedo na ferida das nossas polícias. Vamos acabar com as policias militares e instituir uma polícia única, civil, com servidores com formação superior, salários dignos e com papel preponderantemente investigativo. Já os presídios serão prisões-escolas, visando recuperar os detentos para a sociedade, qualificando-os para quando cumprirem suas penas.

Já que somos todos pela defesa do meio ambiente, vamos exigir a retirada de toda e qualquer madeireira e fazendas de gado da Amazônia, devolvendo as terras aos povos originários, que sabem conviver com a natureza e cuidar das florestas.

Já que todo mundo tem consciência da situação de penúria dos nossos aposentados, vamos fazer da terceira idade uma etapa para o gozo da vida. Aposentadorias e pensões serão reajustadas anualmente, de forma que não percam seu valor para a inflação. Remédios de uso contínuo serão permanentemente subsidiados e os idosos terão preferência no atendimento público, como também gratuidade nos transportes e em todos os espetáculos.

Se a maioria dos que querem o fim do governo Dilma estiver de acordo com essas medidas, então me somarei a eles nas ruas. Caso contrário, parem de encher o saco e assumam sua condição de elitistas e conservadores, embalados pelo falso moralismo de plantão.

temerDilmaChoro5

Tudo acertado, cerimônia com pompa e circunstância, novos ministros, uma nova etapa para o governo Dilma. Apesar da redução de 39 para 31 ministérios, o PMDB cresceu no Executivo, subindo de seis para sete pastas, incluindo o ministério da Saúde.

Dias depois, quando o governo precisa dos deputados de sua própria “base”, não se consegue sequer o quórum mínimo no Congresso para aprovar os vetos de Dilma. Duas sessões abertas e encerradas sem que os próprios parlamentares do PMDB comparecessem, pelo menos para justificar a nova composição ministerial.

Esqueceram-se dos partidos nanicos da “base” no novo ministério e eles agora decidem anunciar sua independência frente ao Executivo. Leozinho Picciani demonstrou habilidade e voracidade para defender os interesses do PMDB, mas deixou os aliados de lado.

No TCU o governo levou de goleada. Apesar da eloquência de Luis Inácio Adams, advogado geral da União, todos os membros do Tribunal seguiram a recomendação do ministro Nardes, que indicou a rejeição das contas de 2014 de Dilma.

Cabe ressaltar que a esmagadora maioria dos atuais ministros daquele tribunal foram indicados nos governos de Lula e Dilma, inclusive o próprio Nardes. Mesmo que a posição do TCU não tenha qualquer efeito para uma condenação do Executivo, ela coloca mais lenha na fogueira do governo para a votação de suas contas no Congresso.

Enganam-se os que olham para os demo-tucanos como os inimigos do governo Dilma e da “governabilidade”. Não, eles não têm força para derrotar Dilma. Quem pode levar Dilma e seu governo à bancarrota são seus próprios “aliados”.

Cientes da fragilidade do governo, os caciques do PMDB fazem um jogo de dissimulação. De dia fazem juras de amor a Dilma, de noite tramam novas cartadas para jogar o governo aos leões.

Eduardo Cunha, odiado e temido pelos petistas, sabe que nas atuais circunstâncias, quando o governo não consegue maioria na Câmara, sua liderança é fundamental para impedir que se paute um pedido de Impeachment no parlamento. Queira ou não o Palácio do Planalto, Cunha é o grande interlocutor do baixo clero e quem quiser aprovar ou rejeitar alguma coisa na Câmara terá que negociar com ele.

Por incrível que pareça, Cunha pode até vir a ser aliado de Dilma no jogo da governabilidade. Evangélico, o presidente da Câmara não é bem visto pelas Organizações Globo, principal partido de oposição em atividade. A Globo começa a intensificar o cerco a Cunha, dando grande repercussão ao escândalo de suas contas secretas na Suíça. Prova disso é que Cunha já sinalizou que não deve colocar as contas da Presidente na pauta de votações para este ano.

Em resumo: Dilma virou refém de sua própria política. Agradou aos banqueiros, aplicou uma política econômica recessiva, cedeu mais espaço ao PMDB e continua sem força para governar. Por outro lado, se isolou de sua própria base de apoio, porque a recessão e o conservadorismo de seu governo impedem até mesmo aos poucos que querem defendê-la encontrar argumentos.

Numa situação como essa quem precisa de oposição?