Quando se fala de lixo as pessoas associam a coisa ruim, rejeitos, coisas que não prestam e devem ser descartadas. Trata-se de um grave equívoco, o qual se pode atribuir à ignorância da grande massa da população. O lixo é altamente rentável em todos os sentidos. Num país em que imperam relações econômicas imediatistas, ainda estamos longe de tirar lucro social do lixo.

O grosso da coleta de lixo no Brasil é feita de maneira primitiva. O dever de coletar o lixo é de competência dos municípios. Portanto, cabe às prefeituras prestar este serviço à população, que paga seus impostos também para isso. Ganham muito dinheiro com ela as empresas coletoras/transportadoras e os proprietários dos terrenos em que o lixo é depositado.

Justamente por ser uma operação altamente rentável existe uma guerra surda em todas as prefeituras do país pela coleta do lixo. A transição de governos acaba se tornando um momento em que os serviços públicos ficam vulneráveis, exatamente porque os contratos entre prefeituras e empresas privadas estão encerrando, não só na área da coleta de lixo, como também na prestação de serviços nas áreas de saúde, educação e todas as outras em que existe a terceirização. E tudo isso atinge a população usuária dos serviços públicos.

Os casos de Caxias e Belford Roxo (Rio), Natal (RN), Ferraz de Vasconcelos e Várzea Paulista (SP), em que o lixo não vem sendo coletado são a expressão deste problema. Em final de mandato, por diversos motivos, muitos prefeitos deixam de cumprir os contratos e pagar as empresas que, por sua vez, deixam de prestar os serviços para os quais são contratadas.

Está mais do que evidente que por trás do descaso e do rastro de sujeira deixados pela falta do serviço existem interesses particulares. Os interesses de prefeitos irresponsáveis, que assinam contratos sem transparência com empresas privadas. Os interesses dessas empresas, que além dos milhões arrecadados mensalmente passam a ter um poder de barganha muito forte contra o poder público. E os interesses dos proprietários dos terrenos para onde são levadas e depositadas todos os dias toneladas de lixo. Os únicos interesses que não são respeitados são os da população.

Separar o lixo orgânico (restos de alimentos, papel higiênico, etc) do lixo inorgânico (garrafas e copos plásticos, latas, papel e papelão, metais, vidros, etc) é o ponto de partida para um processo mais civilizado e lucrativo para a sociedade. O lixo orgânico pode ser reaproveitado em forma de adubo e gás, para isso precisa ser tratado em usinas de compostagem.

Já o lixo inorgânico é reciclável, pode ser reutilizado em prol da sociedade, evitando desperdícios de matérias primas como: areia, carvão mineral, árvores, etc. Este reaproveitamento também pode gerar milhares de postos de trabalho para pessoas com menor qualificação profissional.

Tudo isso esbarra na ganância dos governantes e dos empresários sanguessugas, que vivem reclamando do Estado, mas não sobrevivem sem as benesses de seus contratos com o poder público.

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Nivelando por baixo

12/12/2012

Aos meus amigos petistas, envergonhados ou assumidos, tenho dito que, para justificar a meia-sola dos governos do PT, sempre usam como comparação os desgovernos dos tucanos do PSDB. Esquecem que bem aqui ao lado, em nuestra América, existem outros governos aos quais seria mais honesto ter como critério de comparação.

É fácil desmoralizar os tucanos e a direita, tomando como base o desemprego aberto, as privatizações e o consumo reprimido. Bolsa Família, reajustes do salário mínimo, crédito farto e moradia popular são instrumentos perfeitamente cabíveis numa sociedade capitalista. O PT fez o que a burguesia mais tacanha não quis fazer: incorporou parte dos remediados ao consumo de massa, através do crediário de massa.

Difícil é explicar porque grandes bancos, empreiteiras, agronegócio e outros setores abastados das elites nacionais ganharam tanto nos governos Lula e Dilma. Difícil é explicar que o PT forme no Congresso Nacional e nos estados uma “base aliada” tão conservadora para se sustentar no governo.

Mais difícil ainda é explicar porque em vez de adotar um reformismo conservador – que alguns sociólogos chamam de social liberalismo – o PT se negou a enfrentar a grande mídia e os grandes grupos monopolistas, que fazem da economia brasileira uma das mais concentradas e cartelizadas do Planeta.

Se for para comparar será melhor olhar para a Venezuela, de Chavez, o Equador, de Rafael Correia e a Bolívia, de Evo Morales. E se bobear até mesmo a Argentina, dos Kirschner. Nestes países, uns mais que outros, se pratica um “reformismo revolucionário”, com governos que não se propõem a acabar com a propriedade privada, mas ao menos ousam limitar os poderes e privilégios que o grande capital sempre gozou, em detrimento dos interesses da maioria de seus povos.

Uns mais outros menos, todos, como os governos petistas, também aplicam políticas compensatórias para incorporar as massas a uma vida mais digna. A diferença na Venezuela, por exemplo, é que o governo Chavez não se limita a dar o peixe, mas vai muito além, ensinando o povo a “pescar”. Por isso seu governo e seu “estilo” é veementemente combatido pela mídia privada venezuelana e latino-americana. Por isso a polarização política é profunda.

O principal calcanhar de Aquiles de todos estes governos foi e continua sendo o enfrentamento com a grande mídia reacionária, porta-voz do que há de mais atrasado nas Américas. Mas até aqui nenhum deles arredou pé de tratar com rigor essa gente encastelada nos grandes conglomerados de comunicação. A Lei de Meios, que ora se debate na Argentina, só pretende pulverizar a cartelização da comunicação de massas no país. Cristina, com todas as suas limitações, está disposta a quebrar a espinha dorsal do monopólio do grupo Clarin.

E no Brasil, ao que assistimos? Não houve qualquer iniciativa por parte de Lula ou de Dilma de enfrentar a grande mídia. Ao contrário, os governos petistas continuam anunciando nos jornais, rádios e TVs destes grupos e desprezando as mídias alternativas. Dessa forma o PT – e não as oposições conservadoras – poderá ser o grande responsável pelo retorno das elites ao governo central. Ao governo, porque do poder elas nunca saíram.

Não sei quem disse, mas se disse o fez corretamente: os tolos discutem coisas, objetos; os medianos discutem problemas, pessoas; os bons discutem idéias. Esse de fato é o papel deles: discutir idéias. Já os imprescindíveis não só debatem, mas transformam idéias em ações que mudam a História da humanidade. Por suas convicções e carisma conseguem despertar a paixão e mobilizar milhões de pessoas para travar os bons combates.

Dos homens do nosso tempo se pode extrair alguns exemplos. Todos eles têm seus defeitos e qualidades, mas não se pode criticá-los por omissão ou ambição pessoal. Lenine, o grande líder da Revolução Russa de 1917; a brilhante polaca-judia revolucionária Rosa Luxemburgo; Mao-Tse-Tung, comandante da Revolução chinesa; Nelson Mandela, líder negro sul-africano; Patrice Lumumba, que incendiou o Congo na luta por sua libertação; Agostinho Neto e Samora Machel, líderes dos povos de Angola e Moçambique.

Simon Bolívar, o grande libertador da América; Solano Lopez, que de forma distorcida e proposital conhecemos como o “ditador” do Paraguai; Emiliano Zapata e Pancho Villa, heróis da Revolução Mexicana; Fidel Castro, o eterno comandante que resiste aos tempos; Che Guevara, que largou a medicina para clinicar de fuzil na mão em defesa humanidade; Salvador Allende, que não se rendeu aos golpistas chilenos.

Da mesma forma outros tantos imprescindíveis têm seu valor reverenciado na História das artes, das ciências e de todas as áreas do conhecimento humano. Geralmente são obstinados, amadurecem cedo, compreendem a humanidade com uma interpretação ampla e ao mesmo tempo simples de sua complexidade e das suas contradições.

Para essas personalidades a vida é um desafio permanente. Vieram para liderar, tomar a frente, ser a vanguarda. Muitas vezes cometeram erros, pagaram caro e sequer puderam avaliar ou se autocriticar. Um bom exemplo contemporâneo deste tipo de homem é Hugo Chavez.

No Brasil tivemos alguns grandes exemplos deste tipo de homem imprescindível, todos se bateram contra a ordem estabelecida: Zumbi, Joaquim Nabuco, Frei Caneca, Anita Garibaldi, Abreu Lima, Eduardo Angelim, Antônio Conselheiro, João Cândido, Luis Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Carlos Marighela; Leonel Brizola, Darcy Ribeiro.

São estes tipos que em determinadas circunstâncias históricas encarnam as esperanças de seus pares, sintetizam em palavras e atitudes concretas e corajosas as ações necessárias para deflagrar movimentos que mudam a História ou que marcam a história de um povo e de seu país.

Como seres humanos todos tiveram ou têm defeitos. Mas são esses “doidos”, obstinados, que lideram os movimentos que mudaram e mudam a História. Sem eles a humanidade seria medíocre e a vida uma chatice.

Se é verdade ou não ninguém pode afirmar. Mas valia uma acareação, dessas que se faz na Justiça comum quando se quer apontar possíveis contradições entre dois envolvidos em algum crime. Seria a palavra de Marcos Valério contra a do ex-presidente Lula.

Certamente preocupado com o tamanho da condenação que deve lhe custar alguns anos de xilindró, o publicitário do esquema do Mensalão se apresentou ao Ministério Público Federal, em 24 de setembro, para narrar novos fatos do caso e pedir a chamada delação premiada, concedida aos que decidem colaborar com investigações criminais. Em troca queria proteção e redução de pena.

Além de citar o aval do então Presidente Lula para as operações do Mensalão, Valério afirmou que o PT paga as despesas de sua defesa na Justiça. De acordo com Valério, Lula deu um “ok” em reunião numa sala dentro do Palácio do Planalto com ele, José Dirceu e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. Este “ok” seria para que Valério pegasse empréstimos com os bancos Rural e BMG, visando o financiamento de votos no Congresso Nacional.

Valério também afirmou no depoimento que depositou R$ 100 mil na conta da empresa Caso, do ex-assessor da Presidência Freud Godoy. A grana seria para pagar “despesas pessoais” de Lula.

No mesmo depoimento, Marcos Valério relatou que teria sofrido ameaças de morte de Paulo Okamoto, amigo pessoal do ex-presidente e atualmente na presidência do Instituto Lula. “Tem gente no PT que acha que a gente devia matar você” e “Ou você se comporta, ou você morre”, são as frases citadas no depoimento de Valério e atribuídas a Okamoto.

Apesar da gravidade das afirmações de Valério, que até então sempre negou o envolvimento pessoal de Lula no caso do Mensalão, o Ministério Público não aceitou as declarações como uma delação. Nem o Procurador Geral da República e nem o relator do processo do Mensalão, ministro Joaquim Barbosa, acrescentaram os fatos relatos por Valério ao julgamento em andamento no Supremo Tribunal Federal. Os dois admitem que, caso o fizessem, o processo poderia ser paralisado.

Se a idéia de Valério e seus advogados era criar confusão e dificultar o andamento do julgamento não se sabe. Mas as afirmações de Valério, em seu novo depoimento, são de extrema gravidade e confirmam o que já se comentava em todas as conversas sobre política no país desde que o escândalo veio à tona: se não sabia de nada Lula seria o “marido traído”, algo difícil de acreditar em se tratando de um político tão experiente; se sabia também deveria estar no banco dos réus.

A reportagem de O Estado de São Paulo sobre o depoimento de Marcos Valério é mais um capítulo da novela do Mensalão, que já se aproxima do final. Justamente quando tudo se encaminhava para um desfecho judicial com idas e vindas naturais de qualquer processo, eis que um dos réus decide colocar a boca no trombone. O problema é: quem vai ter a coragem de reabrir a ferida e apontar o dedo para Lula?

Hoje todos lembram da genialidade e do estilo arquitetônico arrojado de Oscar Niemeyer. Mesmo para um leigo não é difícil identificar um prédio ou um memorial que saiu da sua caneta preta. Sua vasta obra está espalhada pelo Planeta, moldando em curvas arrojadas o concreto de igrejas, prédios comerciais, prédios públicos, universidades, escolas e museus.

Mas o que poucos falam é do homem Oscar Niemeyer. Poderia ter vivido como pop star, ter assessor de imprensa com agenda cheia de homenagens para o resto da vida. Poderia ter escolhido viver em Paris pelo resto da vida, ao lado da suntuosidade cultural da Cidade Luz.

Niemeyer não queira saber de nada disso. Preferiu seguir no seu Rio de Janeiro, trabalhando até o fim de seus dias. Era um homem simples, sempre solidário aos companheiros, que fazia do seu trabalho e da sua obra a expressão de sua vida: o ser revolucionário. Não viu o capitalismo ruir, embora tenha se batido contra ele durante seus 104 anos de vida, mas seus traços desprezaram a caretice das linhas retas dos conservadores.

Como ele mesmo dizia a arquitetura não tem a menor importância, o importante é a humanidade, a passagem tão curta pela vida que nos faz insignificante diante do Universo. Ignorar Niemeyer é impossível, mesmo aos mais retrógrados e reacionários. Muitos o homenageiam justamente como ele não gostava, pelo brilhantismo de sua obra.

Os que como ele vivem para ser solidários, pensando e lutando por um mundo melhor onde se possa passar pela vida em comunhão, para projetar progresso e beleza para a humanidade, sabem que suas obras geniais e seu conceito de arquitetura só poderiam sair das entranhas de um homem que fez de seu trabalho o espelho de suas idéias revolucionárias.

Sem dúvida que é possível reverenciar a obra de Niemeyer, mas é um crime separá-la do ser humano que a criou. O que mais importa não é a beleza de sua arquitetura, objeto de prêmios e elogios infindáveis, mas o exemplo de homem brilhante e ao mesmo tempo simples e coerente que foi OSCAR NIEMEYER.

Setenta mandados de prisão, mais de 50 policiais presos e a maioria do 15º Batalhão, de Duque de Caxias. Muitos são reincidentes, haviam sido presos anos atrás e soltos depois, com direito a comemoração e fogos na frente do presídio. Todos acusados de envolvimento com extorsão e colaboração com o tráfico de drogas.

Paralelamente corre o julgamento dos acusados de assassinar a juíza Patrícia Acioly, em agosto de 2011. O então comandante do batalhão está de fora e foi até convidado para ser secretário municipal de segurança em Niterói. Os réus são todos policiais, lotados no batalhão de São Gonçalo. A juíza foi sentenciada a morte por uma quadrilha fardada, que agia como grupo de extermínio na região.

Esses e tantos outros fatos evidenciam a falência do modelo de polícia militarizada que foi adotado no Brasil. Por mais que se deva enaltecer o mérito do Ministério Público, que comanda, de forma corajosa, diversas investigações sobre atividades contra a lei praticadas por quem deveria defendê-la, o fato é que o que está em jogo é a própria existência de uma tropa militar para o policiamento.

A hierarquia e o modus operandi de tropas militarizadas são “apropriados” ao confronto armado. É inadmissível que a sociedade conviva com a lógica de que estamos “numa guerra” entre o “bem” e o “mal”, quanto mais se sabe que a banda podre continua agindo dentro da PM.

A guerra que existe é particular, entre grande parte da polícia e os traficantes varejistas, para dividir o botim do tráfico de drogas. Nesta guerra vale tudo, menos defender os interesses da população. Essa situação se agrava quando a exigência de escolaridade (ensino médio) e os salários são muito baixos para ingressar na PM.

Um Estado que impõe ao cidadão uma polícia que não é respeitada, mas temida, é um Estado que pretende se impor pela força, a corrupção e o medo. Isso se agravou ainda mais durante os 21 anos de ditadura militar, quando a PM era diretamente subordinada às Forças Armadas.

Acabar com a polícia militarizada é um passo na tentativa de erguer uma nova ordem democrática. É preciso uma polícia única, civil, investigativa, ágil, bem formada e bem remunerada. Cabe à sociedade dizer se prefere comemorar mais uma detenção de “maus policiais” ou se pretende cortar o mal pela raiz.