Nunca fui a Cuba, desconheço detalhes da realidade daquele país. O que sei  foi a partir de leitura, sobretudo do livro “A Ilha”, de Fernando Moraes, no qual o autor descreve o processo revolucionário e as dificuldades daquele país, que vive sob o maior embargo econômico que a humanidade já conheceu. O que tive de mais próximo foi um boné do Movimento 26 de Julho, que meu pai trouxe de lá.

Não sou cubanófilo e nem fidelista. Não credito em caudilhos e grandes pais da pátria, que fazem tudo de bom para os seus filhos. Aliás, o mito da guerrilha que desceu a Sierra Maestra desconhece o fato de que o povo cubano já construía nas cidades toda uma resistência urbana ao regime de Fulgêncio Batista.

Entendo que os líderes são apenas porta-vozes de seus povos, em determinados momentos históricos. Foi assim com Sepé Tiaraju, Zumbi, Garibaldi, João Cândido e Getúlio Vargas, só para citar alguns na História do Brasil.

Não desconheço, pelas informações que disponho, as distorções e equívocos cometidos no processo revolucionário cubano. Entre eles a postura sectária do governo com a Igreja Católica e a forma absurda como eram tratados os homossexuais, como se fossem doentes a serem curados pelo Estado.

O desmoronamento da URSS deu a Cuba e aos cubanos a oportunidade de encarar suas dificuldades e buscar seus caminhos, sem depender de petróleo e comércio com outro país, ainda que essa tenha sido sempre uma relação econômica muito vantajosa para a Ilha.

O período “especial” não foi apenas um momento de crise econômica, mas também de rediscussão de valores da própria Revolução. No entanto, apesar dos que afirmavam que Cuba seria tragada pela onda de restauração capitalista que varreu o Leste Europeu, não foi o que se viu.

Fidel e a cúpula do Partido Comunista Cubano reviram suas posições quanto aos homossexuais e a Igreja e fizeram autocrítica na prática. Para isso foi de muita valia a aproximação com Frei Beto.

Pelas informações que circulam houve 17 a 18 mil cubanos que preferiram ir atrás do canto da sereia estadunidense, os chamados “balseros”. Esses se juntaram aos gusanos de Miami, que além de nutrirem ódio pela Revolução de 1959, engrossam o eleitorado de Donald Trump.

Fidel e Che encarnaram um sentimento de luta contra a ditadura militar de Fulgêncio Batista (apoiada e financiada pelo governo dos EUA), que oprimia e desgraçava o povo cubano. Por isso são respeitados, não só em Cuba, mas em toda a América Latina, inclusive pelo staff do governo dos EUA.

O que os dois representam? Para os revolucionários são exemplos de combatentes pela causa do socialismo. Para outros – os mesmos que veneram Caxias e condenam Bolívar – são ditadores sanguinários. Para os povos são líderes que fizeram de suas vidas exemplos de conduta (mesmo com seus equívocos), apesar da revista Forbes insistir em publicar que Fidel faria parte de uma casta de milionários, o que nunca foi provado.

Revoluções não são isentas de problemas, cheirosas, higiênicas. Não é possível controlar o ímpeto revolucionário das massas, quando resolvem fazer justiça. Os tribunais populares e fuzilamentos que se seguiram à Revolução cubana expressam isso. Ao menos os acusados tiveram direito de defesa em público, o que não ocorreu em muitos outros processos mundo afora, inclusive em revoluções e guerras do chamado Primeiro Mundo. A minoria de contrarrevolucionários fugiu e foi gastar suas fortunas em Miami.

Fala-se em milhares de presos políticos e tortura em Cuba. No entanto, não há informações concretas e de fontes isentas a este respeito.  O que temos é uma blogueira que critica o regime e difunde os valores da sociedade de consumo, um pequeno movimento de mulheres que se vestem de branco e meia dúzia de porta-vozes de uma oposição.

Com os avanços que conquistou nas áreas sociais, principalmente na Educação e na Saúde pública, Cuba provou, como outros países que experimentaram viver sob experiências não-capitalistas, que é possível construir uma sociedade com outros valores, com destaque para a solidariedade, a cultura e uma justiça que não está subordinada aos privilégios de uma minoria.

O exemplo disso foi o envio de tropas cubanas a Angola (1987/89), quando os sul-africanos e grupos pró-EUA tentavam impedir que o MPLA assumisse o governo daquele país, após a retirada dos portugueses e a declaração da independência. Foi graças ao apoio político e militar de Cuba e seus filhos que a humanidade começou a derrotar o apartheid na África do Sul e Namíbia, países que contavam com o apoio dos EUA.

Outro exemplo é o programa de apoio de médicos cubanos, que no Brasil tomam parte do “Mais médicos”, mas que se estende a experiências semelhantes em muitos outros países.

É provável que a morte de Fidel e a aposentadoria de Raul (prevista para 2018) simbolize o fim da Era da velha guarda de Sierra Maestra. Uma nova geração deve assumir o comando da Ilha e não se sabe que caminhos serão trilhados. É evidente que existem conflitos de interesses geracionais, que envolvem os que nasceram antes da Revolução e quem veio bem depois.

Imagino que para uma parcela privilegiada de brasileiros, com os problemas básicos da vida já solucionados, Cuba seja mesmo um país de apertos e chatice. Afinal, por lá ainda não existem shoppings centers, concessionárias de automóveis, celulares e smartphones de última geração, grandes supermercados e outras catedrais do consumo.

No entanto, com certeza para a grande maioria dos brasileiros, que vende o almoço para comprar o jantar todos os dias, provavelmente a vida em Cuba seja bem melhor do que o cotidiano nas favelas e periferias.

O grande desafio para a humanidade continua a ser a horizontalização do poder, a efetiva participação popular nos destinos dos povos e nações, o que não é exclusividade de Cuba, país que ainda não foi capturado pelo sistema financeiro internacional.

Duas personagens centrais da política fluminense estão sob fogo cruzado: Garotinho (prisão domiciliar) e Sérgio Cabral (detido em Bangu 8) são a expressão da degeneração da vida política brasileira, reproduzindo esquemas de corrupção as mais comuns e alimentando uma cadeia de correligionários e apaniguados de seus respectivos clãs.

É verdade que corrupção não é novidade e também que ela se reproduz, da mesma maneira, de Norte a Sul do país. Continuamos vivendo sob o regime de capitanias hereditárias, onde oligarquias disputam espaços, carregando poderes e desafetos por gerações. São os nossos coronéis urbanos. Mas o caso do Rio merece destaque, por se tratar de um dos estados mais importantes econômica e politicamente, além de abrigar a antiga capital do país.

Os Cabral e os Garotinho nem sempre foram desafetos. Ao contrário, depois de dois mandatos dos Garotinho, em que Sérgio Cabral Filho foi Presidente da ALERJ e Eduardo Cunha líder do governo na Assembléia, ficou acertado que Cabral sucederia Rosinha no Palácio Guanabara. Com o apoio do clã Picciani e de outros políticos tradicionais abrigados sob a legenda do PMDB, Serginho foi eleito e depois reeleito.

No meio do mandato de Cabral, Garotinho (então deputado federal) abriu fogo e rompeu relações com o governador. Por sua vez, Sergio atraiu desafetos de Cesar Maia, entre eles Eduardo Paes, que veio a ser eleito para a Prefeitura do Rio, pela mesma legenda do PMDB.

O governo Cabral e Pezão apenas deu continuidade e amplificou a relação íntima entre a Delta Construções, empresa de matriz pernambucana de Fernando Cavendish, e o Estado do Rio. Na verdade a Delta surgiu no Rio durante o governo Garotinho no final dos anos 90 e na virada do século, com obras de menor monta. A empreiteira foi se firmando e se tornou uma das que mais contratos firmava com o Estado e a prefeitura da capital, então sob o comando de César Maia.

Durante a gestão de Garotinho o Rio teve secretário estadual de saúde com mandado de prisão expedido por algumas vezes, em função de improbidade administrativa, e o chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, preso por corrupção e formação de quadrilha. Lins foi acusado e preso por comandar a lavagem dinheiro de bicheiros, que também controlavam o jogo de caça-níquel.

Parte do dinheiro lavado seria usado em enriquecimento dos membros da quadrilha e para campanha eleitoral. Lins já fora investigado anos antes por ter seu nome numa lista de policiais militares encontrada no bunker do bicheiro Castor de Andrade. Era, então, oficial PM.

Unidos pelo “ideal de defesa do Rio”, os Cabral e os Garotinho deram uma trégua para convocar manifestações (2011 e 2012) contra a nova divisão dos valores dos royalties do petróleo. Servidores públicos tiveram ponto facultativo, as empresas de ônibus liberaram coletivos para o transporte de manifestantes. Rosinha trouxe caravana de Campos e outras cidades do litoral Norte Fluminense, diretamente atingidas pela diminuição de arrecadação que a medida provocaria. Todos estavam preocupados com o rombo que ficaria, porque usaram os royalties como garantia na negociação de dívidas do estado e até para o pagamento dos servidores.

O atual governador, Luiz Fernando Pezão, surge nesse jogo apenas como mais uma peça. Foi secretário de obras de Cabral e tocou o governo até onde pode. Foi acionado para assumir o governo depois da crise de 2013, quando Cabral decidiu sair de cena. Hoje tem no colo um governo endividado, que isentou R$ 138 bilhões de impostos as grandes empresas em cinco anos (2008 a 2013), terceirizou e encareceu as despesas do estado com serviços que deveriam ser públicos.

O resultado de toda esta bandalheira foi o atraso no pagamento de servidores e fornecedores, fechamento de serviços como os restaurantes populares e o anúncio de um pacote de maldades contra o funcionalismo (transformado em bode expiatório da crise), que Pezão pretende aprovar na Assembléia Legislativa.

Incursões e UPP: duas políticas de insegurança pública

Na gestão de sua esposa, Garotinho foi secretário de segurança, sem alterar o modus operandi da PM. O costume era fazer incursões nas favelas, nas quais ocorriam combates com traficantes e varejistas e logo depois a retirada das tropas, deixando um rastro de pouca eficiência contra a criminalidade, além de mortos e feridos, muitos deles inocentes. Foi na época de Garotinho que surgiram as milícias, disputando territórios com os comandos do tráfico varejista de drogas.

Já no governo Cabral, além da caixinha de 5% de “compromisso” e de 1% de “taxa de oxigenação”, pagos pelas empreiteiras, surgiu a chamada Unidade de Polícia Pacificadora. Era uma espécie de modelo de UPA transplantado para a segurança pública, com grupos de patrulhamento fixo da PM em algumas favelas. Em muitas as instalações eram iguais às da saúde, em containers, o que demonstra a provisoriedade do projeto.

Apesar dos inúmeros alertas do ex-secretário de segurança de Cabral e Pezão, José Mariano Beltrame, de que aquele modelo só serviria se viesse acompanhado de políticas públicas para a população das comunidades, pouco ou quase nada foi feito para acompanhar o trabalho policial. No entanto, sabe-se que a implantação das UPP ganhou apoio e até recursos financeiros de milionários, como Eike Batista.

O resultado é o que se vê hoje: desmoralização das UPP, a partir do despreparo dos policiais em lidar com a população e a retomada de territórios por grupos de traficantes varejistas. Só que agora em disputa com as milícias, que crescem em toda a capital e região metropolitana, inclusive com influência política e representantes nas câmaras de vereadores.

Depois do pedido de demissão de José Mariano Beltrame, diante da crise escancarada do modelo das UPP, em 2016, a política de segurança voltou à estaca zero. O governo estadual retomou a política de enfrentamento nas favelas. E o maior exemplo disso, até aqui, foi a chacina na Cidade de Deus, depois que a mídia divulgou a queda de um helicóptero da PM nas proximidades da comunidade.

Numa disputa por territórios, Comando Vermelho e milícia disputam a área de Jacarepaguá. A mídia insufla o sentimento de revanche na tropa, anunciando a derrubada de um helicóptero da PM que sobrevoava a região, em meio a tiroteios.

Na madrugada de sábado para domingo, o BOPE faz o trabalho sujo numa região de mata. No dia seguinte, sete corpos são resgatados pelos familiares. Outros tantos são atendidos nos hospitais da região. Oficialmente esses são os números da incursão policial, mas nas redes sociais policiais falam de 18 mortos e 14 feridos. Nenhum policial alvejado.

Horas mais tarde o secretário de segurança informa que a perícia preliminar não encontrou perfurações por projéteis de balas nem na carcaça do helicóptero nem nos corpos dos quatro policiais mortos. Barbárie pura, alimentada pela insanidade de parcela da classe média e insuflada por uma mídia irresponsável e parcial.

Como se pode constatar, os Garotinho e os Cabral nunca foram flores que se cheire, inclusive seus sucessores que estão prestes a dar prosseguimento às obras dos dois clãs, No máximo são adversários, mas não inimigos. Os interesses que nasceram e cresceram nos governos dos Garotinho apenas se firmaram e foram multiplicados nos governos Cabral.

Viver ou desgastar?

16/11/2016

A complexidade da vida contemporânea, com sua enorme gama de problemas a resolver na sociedade de consumo, faz do ser humano uma espécie em eterno sofrer (sufferre, em latim = sob ferros).

Sofremos quando crianças, quando somos alvo do assédio de adultos que projetam suas frustrações e expectativas não realizadas em nós. Na escola sofremos quando não somos convidados a participar, mas apenas tomar parte de um plano preestabelecido para nós.

Sofremos quando adolescentes, quando surge o dilema “estudar ou trabalhar”, e não temos opções para desenvolver nossas sensibilidades e despertar vocações.  Também sofremos quando descobrimos o amor e que não somos donos de ninguém, que ao contrário da publicidade e a moral vigente, trata-se de um sentimento complexo, a exigir um jogo de cintura que nem sempre temos ou estamos maduros para ter.

Sofremos quando entramos no mercado de trabalho, geralmente para fazer o que não queremos, mas porque só tem reconhecimento social quem tem emprego. Sofremos se somos de família pobre, porque precisamos estudar para ter diploma de doutor; se somos de família remediada temos que estudar para ser doutor e levar uma vida melhor que a de nossos pais.

Esse sofrimento aumenta quando finalmente conseguimos uma vaga definitiva no mercado de trabalho, mesmo para ganhar pouco e sabendo que a maior parte do nosso tempo laboral será consumidos com coisas e tarefas que nos entediam e não nos realizam.

Sofremos muito quando nos deparamos com a morte de alguém próximo, algo para o qual nunca fomos preparados, que se transforma em choque e perda irreparável, ainda mais quando ocorre por acidente ou repentinamente.

Sofremos também quando somos pais ou mães, pela necessidade constante e a preocupação permanente de sustentar e acompanhar outras vidas, dependentes de nós por um longo tempo.

Voltamos a sofrer quando encaramos a dura realidade do desemprego, porque a sociedade capitalista não tolera os que não estão encaixados no sistema. Somos levados até a ter dores de consciência, como se fôssemos os responsáveis por esta “tragédia”.

Sofremos quando nos omitimos frente às injustiças (e são tantas…), porque sabemos que elas existem, estão escancaradas na nossa frente, mas muitas vezes preferimos seguir a manada a levantar a voz e lutar.

Também sofremos quando esperamos ansiosos pelo reconhecimento dos nossos filhos, sem entender que eles têm suas vidas e planos, independente das nossas vontades e projetos.

O sofrimento humano também aparece quando ansiamos pelo reconhecimento no trabalho, já que não somos recompensados pelos filhos. Nos iludimos porque os patrões e os chefes têm suas metas e, no fundo, somos apenas mais um na engrenagem dos planos empresariais.

Sofremos quando vemos os outros com equipamentos modernosos, embora os nossos ainda funcionem bem. Não podemos parecer desatualizados, necessidade artificialmente criada para estimular o consumo em massa.

Sofremos quando descobrimos que nossas carências e frustrações transformaram-se em vícios e está na hora de encontrar forças para abandoná-los ou controlá-los, caso contrário eles tomarão conta das nossas vidas.

Sofremos quando encaramos exercícios e dietas, porque nunca lembramos que consumimos porcarias todos os dias, do açúcar refinado a gordura hidrogenada. E também sofremos em academias, em ritmo de música Techno e vitaminas milagrosas, porque nos impingem o entendimento da velhice como algo vergonhoso, parasitário e desmoralizante, quando ela é apenas mais uma etapa da vida.

O sofrimento aumenta quando chegamos à reta final da vida e o valor da aposentadoria mal dá para pagarmos as contas e os remédios, que dirá aquela viagem sonhada. E sofremos mais ainda quando lembramos tudo que deixamos de fazer quando tínhamos mais saúde, recursos e menos tempo.

Mas o risco de sofrimento é ainda maior quando finalmente descobrimos que não demos atenção e não fomos capazes de reparar nas belezas à nossa volta. Sofremos tanto, mas tanto, por coisas e realizações apenas superficiais e momentâneas. No final, muito do que queríamos fazer não fizemos, esperando o momento “certo” que nunca chegou.

Não há coisa mais preciosa do que a vida. Vencemos uma corrida com bilhões de concorrentes e depois de um esforço de nove meses somos paridos, sempre com muito esforço e sofrimento. Por isso, vida é para ser vivida intensamente em todos os momentos, não é para ser desgastada, mas para ser desfrutada.

  • A palavra “desgastar” vem da combinação de des (intenso) e vastare (tornar deserto), em Latim.

Tomei conhecimento pelas redes sociais da existência de um movimento por prévias eleitorais para o lançamento de uma candidatura unitária das esquerdas em 2018. Como sou um entusiasta da necessidade da unidade popular para o a construção de uma nova esquerda marxista, livre dos dogmas e de regrinhas que jamais existiram, mas foram cultuadas como fórmulas mágicas para se alcançar o socialismo, procurei me informar a respeito do queroprevias2018.

Ao contrário de algumas críticas que li a respeito, entendi que o propósito deste movimento, lançado por intelectuais de diversas matizes da esquerda brasileira, é justamente impulsionar o debate sobre uma plataforma que unifique a esquerda, para dar vazão às demandas reprimidas dos anseios populares e dos movimentos sociais organizados em todo o país, visando as eleições de 2018.

Alguns podem objetar que se trata de um movimento única e exclusivamente preocupado com as eleições ou pela via eleitoral. Certamente entre os signatários do manifesto do movimento existem pessoas que entendem que a disputa política no próximo período deve se concentrar no processo eleitoral presidencial de 2018.

No entanto, ainda que parcela dos que estão aderindo e propagandeando este movimento tenham esta visão, o mais importante é assegurar que os debates sobre programa serão amplos (em forma e conteúdo) e que, caso haja a possibilidade de lançamento de uma candidatura única de esquerda em 2018, esta candidatura se paute por uma plataforma popular, amplamente debatida em todo o país.

Isso está expressamente dito no Manifesto e nas “perguntas e respostas” que constam do portal do movimento queroprevias2018. O mais importante é que este tipo de iniciativa esteja livre das amarras partidárias e de vícios como os “acertos políticos prévios”, que delimitem o raio de participação popular e, ao mesmo tempo, prendam os participantes a um compromisso político eleitoral, caso discordem de seu resultado final. Tão importante quanto isso é incentivar o surgimento de fóruns gerais e específicos de debate sobre diversos temas fundamentais para a sociedade brasileira.

Chegamos ao fundo do poço da luta política, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Isso se dá porque as instituições democrático-burguesas (governos, partidos, parlamentos, etc) estão subordinados ao poder econômico internacional, que dita regras de funcionamento dos governos e a distribuição dos orçamentos dos países, financia campanhas e promove golpes, como verificamos recentemente no Brasil.

Mas, ao contrário do que se imagina, é evidente que a saída é a política. Política num novo patamar, política sem amarras e sem compromissos que atrelem os atores, as ações de classe ou subordinem as lutas sociais a um limite “suportável” pelas instituições do Estado e os grandes grupos empresariais.

É evidente que será preciso incluir os partidos da esquerda neste debate, se eles assim o desejarem. No entanto, é importante que os partidos, suas correntes internas, parlamentares, governantes e lideranças estejam cientes de que o debate das prévias não poderá ser determinado por uma lógica meramente eleitoral, ou seja, pelo velho modelo de medir forças nas urnas. Até porque, mais importante que o voto dos que aderirem a este movimento, é o compromisso de todos com a tentativa de forjar uma plataforma unificada, com propostas gerais para o país e específicas em cada frente de luta e debate.

Ainda que defenda uma plataforma socialista, claramente discutida e construída em debates, necessitamos de uma plataforma popular, um programa mínimo imediato, que faça avançar a sociedade brasileira para as reivindicações mais sentidas pela maioria de nosso povo, a partir das conquistas que acumulamos na luta pela redemocratização do país.

Não se pode aceitar retrocessos, ao contrário, trata-se de avançar e colocar na mesa, às claras para todo o país, as medidas que precisam ser adotadas para que 80% da população brasileira sejam alvo e parte das profundas transformações que estamos devendo desde 1964, quando o golpe civil e militar interrompeu o início da implantação das reformas de base, protagonizadas pelo governo João Goulart.

Aliás, como já defendi em matérias anteriores, as Reformas de Base do governo Jango podem ser o fio da meada que precisamos retomar neste debate para as prévias.

Ele não é marqueteiro, não é analista de pesquisas, não pertence ao “mercado”. Sua profissão o obriga a enxergar coisas que nem sempre estão nos esqueminhas dos grupos de influência na sociedade. Foi o cineasta Michael Moore quem afirmou, em meados deste ano num texto que reproduzo abaixo, que Donald Trump venceria a eleição presidencial nos EUA. Confira porque:

5 motivos pelos quais Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos

Amigo:

Sinto muito por ser o portador de más notícias, mas fui direto com vocês no ano passado quando disse que Donald Trump seria o candidato republicano à Presidência. E agora trago notícias ainda mais terríveis e deprimentes: Donald J. Trump vai ganhar a eleição de novembro.

Esse palhaço desprezível, ignorante e perigoso, esse sociopata será o próximo presidente dos Estados Unidos. Presidente Trump. Pode começar a treinar, porque você vai dizer essas palavras pelos próximos quatro anos: “Presidente Trump”. Nunca na minha vida quis estar tão errado como agora.

Vejo o que você está fazendo agora. Está sacudindo a cabeça loucamente – “Não, Mike, isso não vai acontecer!”. Infelizmente, você está vivendo numa bolha anexa a uma câmara de eco, onde você e seus amigos vivem convencidos de que o povo americano não vai eleger um idiota como presidente.

Você alterna entre o choque e a risada por causa dos últimos comentários malucos que ele fez, ou então por causa do narcisismo vergonhoso de Trump em relação a tudo, afinal de contas tudo tem a ver com ele. E aí você ouve Hillary e enxerga a primeira mulher presidente, respeitada pelo mundo, inteligente, preocupada com as crianças, alguém que vai continuar o legado de Obama porque isso é obviamente o que o povo americano quer! Sim! Outros quatro anos disso!

Você tem de sair dessa bolha imediatamente. Precisa parar de viver em negação e encarar a verdade que sabe que é muito, muito real. Tentar se acalmar com fatos – “77% do eleitorado é composto por mulheres, negros, jovens adultos de menos de 35 anos; Trump não tem como ganhar a maioria dos votos de nenhum desses grupos!” – ou com a lógica – “as pessoas não vão votar num bufão, ou contra seus próprios interesses!” – é a maneira que seu cérebro encontra para te proteger do trauma. Como quando você ouve um estampido na rua e pensa “foi um pneu que estourou” ou “quem está soltando fogos?”, porque não quer pensar que acabou de ouvir alguém sendo baleado. É a mesma razão pela qual todas as primeiras notícias e relatos de testemunhas sobre o 11 de setembro diziam que “um avião pequeno se chocou acidentalmente contra o World Trade Center”.

Queremos – precisamos – esperar pelo melhor porque, honestamente, a vida já é uma merda, e é difícil sobreviver mês a mês. Não temos como aguentar mais notícias ruins. Então nosso estado mental entra no automático quando alguma coisa assustadora está realmente acontecendo. As primeiras pessoas atingidas pelo caminhão em Nice passaram seus últimos momentos na Terra acenando para o motorista; elas acreditavam que ele tinha simplesmente perdido o controle e subido na calçada. “Cuidado!”, elas gritaram. “Tem gente na calçada!”

Bem, pessoal, não se trata de um acidente. Está acontecendo. E, se você acredita que Hillary Clinton vai derrotar Trump com fatos e inteligência e lógica, obviamente passou batido pelo último ano e pelas primárias, em que 16 candidatos republicanos tentaram de tudo, mas nada foi capaz de parar essa força irresistível. Hoje, do jeito que as coisas estão, acho que vai acontecer – e, para lidar com isso, primeiro preciso que você aceite a realidade e depois talvez, só talvez, a gente encontre uma saída para essa encrenca.

Não me entenda mal. Tenho grandes esperanças em relação ao meu país. As coisas estão melhores. A esquerda ganhou a guerra cultural. Gays e lésbicas podem se casar. A maioria dos americanos têm uma posição liberal em relação a quase todas as questões: salários iguais para as mulheres; aborto legalizado; leis mais duras em defesa do meio ambiente; mais controle de armas; legalização da maconha. Uma enorme mudança aconteceu – basta perguntar ao socialista que ganhou as primárias em 22 Estados. E não tenho dúvidas de que, se as pessoas pudessem votar do sofá de casa pelo Xbox ou Playstation, Hillary ganharia de lavada.

Mas as coisas não funcionam assim nos Estados Unidos. As pessoas têm de sair de casa e pegar fila para votar. E, se moram em bairros pobres, negros ou hispânicos, não só enfrentam filas maiores como têm de superar todo tipo de obstáculo para votar. Então, na maioria das eleições é difícil conseguir que pelo menos metade dos eleitores compareça às urnas.

E aí está o problema de novembro — quem vai ter os eleitores mais motivados e mais inspirados? Você sabe a resposta. Quem é o candidato com os apoiadores mais ferozes? Cujos fãs vão estar na rua das 5h até a hora do fechamento da última urna, garantindo que todo Tom, Dick e Harry (e Bob e Joe e Billy Joe e Billy Bob Joe) tenham votado? Isso mesmo. Este é o perigo que estamos correndo. E não se iluda. Não importa quantos anúncios de TV Hillary fizer, quão melhor ela se portar nos debates, quantos votos os libertários roubarem de Trump — nada disso vai ser capaz de detê-lo.

Você precisa parar de viver em negação e encarar a verdade que sabe que é muito, muito real. Eis as 5 razões pelas quais Trump vai ganhar:

1. A matemática do Meio-Oeste, ou bem-vindo ao Brexit do Cinturão Industrial. Acredito que Trump vá concentrar muito da sua atenção em quatro Estados tradicionalmente democratas do cinturão industrial dos Grandes Lagos — Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. Estes quatro Estados elegeram governadores republicano desde 2010 (só a Pensilvânia finalmente elegeu um democrata). Nas primárias de Michigan, em março, mais eleitores votaram nos republicanos (1,32 milhão) que nos democratas (1,19 milhão). Trump está na frente de Hillary nas últimas pesquisas na Pensilvânia e empatado com ela em Ohio. Empatado? Como a disputa pode estar tão apertada depois de tudo o que Trump tem dito? Bem, talvez porque ele tenha dito (corretamente) que o apoio de Clinton ao Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte) ajudou a destruir os Estados industriais do Meio-Oeste.

Trump vai bater em Clinton neste tema, e também no tema da Parceria Trans-Pacífica (TPP) e outras políticas comerciais que ferraram as populações desses quatro Estados. Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan. Quando ele ameaçou a Apple da mesma maneira, dizendo que vai forçar a empresa a parar de produzir seus iPhones na China e trazer as fábricas para solo americano, os corações se derreteram, e Trump saiu de cena com uma vitória que deveria ser de John Kasich, governador do vizinho Estado de Ohio.

De Green Bay a Pittsburgh, isso, meus amigos, é o meio da Inglaterra: quebrado, deprimido, lutando. As chaminés são a carcaça do que costumávamos chamar de classe média. Trabalhadores nervosos e amargurados, que ouviram mentiras de Ronald Reagan e foram abandonados pelos democratas. Estes últimos ainda tentam falar as coisas certas, mas na verdade estão mais interessados em ouvir os lobistas do Goldman Sachs, que na saída vão deixar um cheque de gordas contribuições.

O que aconteceu no Reino Unido com a Brexit vai acontecer aqui. Elmer Gantry é o nosso Boris Johnson e diz a merda que for necessária para convencer a massa de que essa é a sua chance! Vamos mostrar para TODOS eles, todos os que destruíram o Sonho Americano! E agora o Forasteiro, Donald Trump, chegou para dar um jeito em tudo! Você não precisa concordar com ele! Você nem precisa gostar dele! Ele é seu coquetel molotov pessoal para ser arremessado na cara dos filhos da mãe que fizeram isso com você! DÊ O RECADO! TRUMP É SEU MENSAGEIRO!

E aqui entra a matemática. Em 2012, Mitt Romney perdeu por 64 votos no colégio eleitoral. Some os votos de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. A conta dá 64. Tudo o que Trump precisa para vencer é levar os Estados tradicionalmente republicanos de Idaho à Geórgia (Estados que jamais votarão em Hillary Clinton) e esses quatro do cinturão industrial. Ele não precisa do Colorado ou da Virgínia. Só de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. E isso será suficiente. É isso o que vai acontecer em novembro.

2. O último bastião do homem branco e nervoso. Nosso domínio masculino de 240 anos sobre os Estados Unidos está chegando ao fim. Uma mulher está prestes a assumir o poder! Como isso aconteceu?! Diante da nosso nariz! Havia sinais, mas os ignoramos. Nixon, o traidor do gênero, nos impôs a regra que disse que as meninas da escola têm de ter chances igual de jogar esportes. Depois deixaram que elas pilotassem aviões de carreira. Quando mal percebemos, Beyoncé invadiu o campo no Super Bowl deste ano (nosso jogo!) com um exército de Mulheres Negras, punhos erguidos, declarando que nossa dominação estava terminada. Meu Deus!

Este é apenas um olhar de relance no que se passa na cabeça do Homem Branco Ameaçado. A sensação é que o poder se lhes escapou por entre as mãos, que sua maneira de fazer as coisas ficou antiquada. Esse monstro, a “feminazi”, que, como diz Trump, “sangra pelos olhos ou por onde quer que sangre”, nos conquistou — e agora, depois de aturar oito anos de um negro nos dizendo o que fazer, temos de ficar quietos e aguentar oito anos ouvindo ordens de uma mulher? Depois disso serão oito anos dos gays na Casa Branca! E aí os transgêneros! Você já entendeu onde isso vai parar. Os animais vão ter direitos humanos e uma porra de um hamster vai governar o país. Isso tem de acabar!

3. O problema Hillary. Podemos falar sinceramente, só entre nós? E, antes disso, permita-me dizer que gosto de Hillary — muito — e acho que ela tem uma reputação que não merece. Mas ela apoiou a guerra no Iraque, e depois disso prometi que jamais votaria nela de novo. Mantive essa promessa até hoje. Para evitar que um protofascista se torne nosso comandante-chefe, vou quebrar essa promessa. Infelizmente acredito que Hillary vá dar um jeito de nos enfiar em algum tipo de ação militar. Ela está à direita de Obama. Mas o dedo do psicopata Trump vai estar No Botão, e isso é o suficiente. Voto em Hillary.

Vamos admitir: nosso maior problema aqui não é Trump — é Hillary. Ela é extremamente impopular — quase 70% dos eleitores a consideram pouco confiável e desonesta. Ela representa a política de antigamente: faz de tudo para ser eleita. É por isso que ela é contra o casamento gay num momento e no outro está celebrando o matrimônio de dois homens. As mulheres jovens são suas maiores detratoras, o que deve magoar, considerando os sacrifícios e batalhas que Hillary e outras mulheres da sua geração tiveram de enfrentar para que a geração atual não tivesse de ouvir as Barbara Bushes do mundo dizendo que elas têm de ficar quietas e bater um bolo.

Mas a garotada também não gosta dela, e não passa um dia sem que um millennial me diga que não vai votar em Hillary. Nenhum democrata, e seguramente nenhum independente, vai acordar em 8 de novembro para votar em Hillary com a mesma empolgação que votou em Obama ou em Bernie Sanders. Não vejo o mesmo entusiasmo. Como essa eleição vai ser decidida por um único fator — quem vai conseguir arrastar mais gente pra fora de casa e para as seções eleitorais –, Trump é o favorito.

4. O eleitor deprimido de Sanders. Pare de reclamar que os apoiadores de Bernie não vão votar em Clinton — eles vão votar! As pesquisas já mostram que um número maior de eleitores de Sanders vai votar em Hillary este ano do que o de eleitores de Hillary que votaram em Obama em 2008. Não é esse o problema. O alarme de incêndio que deveria estar soando é que, embora o apoiador médio de Sanders vá se arrastar até as urnas para votar em Hillary, ele vai ser o chamado “eleitor deprimido” — ou seja, não vai trazer consigo outras cinco pessoas. Ele não vai trabalhar dez horas como voluntário no último mês da campanha.

Ele nunca vai se empolgar falando de Hillary. O eleitor deprimido. Porque, quando você é jovem, não tem tolerância nenhuma para enganadores ou embusteiros. Voltar à era Clinton/Bush para eles é como ter de pagar para ouvir música ou usar o MySpace ou andar por aí com um celular gigante. Eles não vão votar em Trump; alguns vão votar em candidatos independentes, mas muitos vão ficar em casa. Hillary Clinton vai ter de fazer alguma coisa para que eles tenham uma razão para apoiá-la — e escolher um velho branco sem sal como vice não é o tipo de decisão arriscada que diz para os millennials que seu voto é importante. Duas mulheres na chapa — isso era uma ideia boa. Mas aí Hillary ficou com medo e decidiu optar pelo caminho mais seguro. É só mais um exemplo de como ela está matando o voto jovem.

5. O efeito Jesse Ventura. Finalmente, não desconte a capacidade do eleitorado de ser brincalhão nem subestime quantos milhões de pessoas se consideram anarquistas enrustidos. A cabine de votação é um dos últimos lugares remanescentes em que não há câmeras de segurança, escutas, mulheres, maridos, crianças, chefes, polícia. Não tem nem sequer limite de tempo. Você pode demorar o tempo que for para votar, e ninguém pode fazer nada. Você pode votar no partido, ou pode escrever Mickey Mouse e Pato Donald. Não há regras, E, por isso, a raiva que muitos sentem pelo sistema político falido vai se traduzir em votos em Trump. Não porque as pessoas concordem necessariamente com ele, não porque gostem de sua intolerância ou de seu ego, mas só porque podem.

Só porque um voto em Trump significa chutar o pau da barraca. Assim como você se pergunta por um instante como seria se jogar das cataratas do Niágara, muita gente vai gostar de estar no papel de titereiro, votando em Trump só para ver o que acontece. Lembra nos anos 1990, quando a população de Minnesota elegeu um lutador de luta livre para governador? Elas não o fizeram porque são burras ou porque Jesse Ventura é um estadista ou intelectual político. Elas o fizeram porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente com um senso de humor distorcido — e votar em Ventura foi sua versão de uma pegadinha no sistema político. Vai acontecer o mesmo com Trump.

Voltando para o hotel depois de participar de um programa da HBO sobre a convenção republicana, um homem me parou. “Mike”, ele disse, “temos de votar em Trump. TEMOS que dar uma chacoalhada as coisas”. Foi isso. Era o suficiente para ele. “Dar uma chacoalhada nas coisas”. O presidente Trump certamente faria isso, e uma boa parcela do eleitorado gostaria de sentar na plateia e assistir o show.