O PT falhou e o povo vai pagar a conta

12/05/2016

Em meio ao golpe institucional que apeou do Palácio do Planalto a Presidente Dilma, algumas questões cruciais ficaram expostas. Vale a pena abordá-las, ainda que de maneira sucinta, para evitar a tentativa de vitimização do PT. Isso não impede que se reconheça os avanços nas áreas sociais alcançados nestes 13 anos de governos petistas, o que foi absolutamente insuficiente para assegurar uma resistência popular de massas ao golpe.

O partido e suas lideranças, por suas políticas equivocadas e por suas omissões, foram corresponsáveis pela virada de mesa protagonizada pelo seu principal ex-aliado e os partidos da oposição conservadora, que assumem o governo com Temer, o usurpador.

Muita gente avalia que o governo golpista será de crise e terá dificuldades para se impor. A meu ver Temer só terá contra si as disputas internas de partidos e grupos da burguesia pelas fatias de poder. Não creio numa vigorosa reação popular de massas num primeiro momento, o que não deve ser confundido com manifestações de rua promovidas por movimentos populares e sindicais.

Afinal, quais foram os principais e graves erros cometidos pelo PT e seus governos?

1 – Governar sem a pressão das ruas, optando por uma composição de governo que acomodou forças reacionárias

Um governo que cria a expectativa de mexer com privilégios das minorias não pode se limitar a vencer eleições e conquistar apenas parte do poder executivo (Presidência) e do legislativo (Congresso Nacional). Não se trata de discutir se era possível ou governar sem alianças, mas de construir uma base de apoio popular nas ruas. Ao abrir mão da pressão popular o PT ficou refém da própria aliança que fez com o PMDB e outros partidos da burguesia, que hoje lhes dão as costas e tomam o governo tão facilmente quanto tirar doce da boca de uma criança;

2 – Adotar a mesma política de arrecadação para campanhas eleitorais, a partir de negociatas nas estatais e nos fundos de pensão

Ao optar por um governo que acomodava gregos e troianos, o PT não só satisfez parte das classes dominantes como passou a participar da velha política predatória do Estado, usando seus dirigentes nas empresas estatais e fundos de pensão para influenciar na arrecadação de finanças para suas campanhas eleitorais e até o enriquecimento ilícito de alguns de seus quadros. Isso deu munição pesada aos que queriam desmontar o projeto petista de governo, como se viu com a Operação Lava Jato, independente de sua condução parcial. Ao contrário disso, correto seria democratizar a máquina pública nas estatais e nos serviços públicos, com eleições diretas dos dirigentes e transparência em sua gestão.

3 – Jamais ter apresentado uma política de comunicação de massas que forjasse uma alternativa concreta ao monopólio das Organizações Globo

Não seria preciso investir contra ou abrir uma guerra declarada contra as Organizações Globo para construir uma política alternativa de comunicação direta com amplas massas. Bastaria ter um projeto de fortalecimento estratégico da TV Brasil. Como? Comprando as transmissões de futebol e carnaval, além de levar para a TV pública artistas de ponta e grandes jornalistas, produzindo o que há de melhor em telenovelas e telejornais. Ou seja, usar as verbas públicas para fortalecer um canal público de TV, com uma programação robusta e atrativa, em vez de seguir distribuindo verbas de publicidade para as emissoras privadas, que hoje se mostram patrocinadoras diretas do golpe institucional;

4 – Apresentar um projeto – hoje lei – que aprofunda a criminalização dos movimentos sociais e favorece a repressão militar

Pior do que não se apoiar nas ruas, o governo Dilma sacramentou a criminalização dos movimentos sociais. Isso começou em 2013, quando a cúpula petista não fez a leitura correta das manifestações populares, protagonizadas pela juventude. A nova lei que trata do tema amplia os poderes da repressão policial sobre as ações de massas, sob a justificativa de garantias para a realização de megaeventos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Este arcabouço legal servirá e poderá ser ampliado pelos futuros governos, na tentativa de aplacar a resistência a medidas impopulares;

5 – Adotar uma política econômica recessiva a partir do segundo mandato de Dilma

Depois de uma eleição apertada a cúpula do PT que cercava a presidente Dilma, e seus aliados do PMDB, decidiram dar as costas para tudo que se pregou na campanha, aceitando a chantagem da mídia empresarial. Colocaram o banqueiro Joaquim Levy (Bradesco) no comando da economia, com sua receita neoliberal e recessiva. Levy Cortou investimentos públicos, elevou a taxa de juros, manteve o pagamento integral de juros e amortizações da dívida pública, a partir do superávit primário. Resultado: em questão de meses o país mergulhou em recessão, inflação e desemprego. Essa política devastadora foi aplicada de forma violenta o suficiente para derrubar todos os indicadores econômicos e jogar o país em profunda crise econômica. Levy saiu do governo como a vítima que tentou aplicar o remédio correto que não foi aceito, e a conta caiu nas costas do povo, fazendo disparar a impopularidade de Dilma.

Estes cinco pontos que elenquei, longe de serem os únicos, são cruciais e marcam as diferenças da experiência dos governos reformistas/conservadores do PT no Brasil para outros governos reformistas/revolucionários de nuestra América, como o da Venezuela, Bolívia e até Argentina.

O que menos importa agora é o que será do PT. Afinal, não foram poucos os alertas de intelectuais e até ex-petistas sobre as opções do partido e os rumos que seus governos tomaram. Infelizmente, não será o PT a grande vítima de seus próprios erros e da ganância golpista de seus ex-aliados. Quem arcará com as consequências dos equívocos desta experiência será o povo brasileiro. Vem chumbo grosso por aí.

As avaliações deste período não devem servir para enxovalhar o PT nem para embarcar no discurso de sua vitimização. Podem servir, sim, para que outras experiências de governo ligadas aos interesses populares aprofundem os aspectos positivos e não repitam os graves erros cometidos.

Quem sabe uma nova esquerda possa surgir do processo de resistência, nas ruas, capaz de dialogar com a maioria de nosso povo, com um discurso e uma prática coerente, antenada com os anseios da juventude, democrática e transparente?

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2 Respostas to “O PT falhou e o povo vai pagar a conta”

  1. Graciela Costa said

    Muito boa reflexão!

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