Rafael Ribeiro, 15 anos, negro, morador da favela Mandela 3 (Manguinhos), estudante. Este é o perfil da mais nova vítima da política de segurança do Governo do Rio de Janeiro. Novidade? Não, mais um número para engrossar as estatísticas de crimes não solucionados, imputados a perigosos bandidos desconhecidos que nunca serão reconhecidos ou capturados.

Em mais uma incursão os policias do BOPE alegam ter sido recebidos à bala por marginais. Segundo a versão oficial a Polícia foi ao local para apurar uma denúncia de que ali próximo funcionaria um depósito de armas e drogas dos traficantes varejistas. As balas teriam partido de armas dos marginais. Importante: nada foi apreendido no local.

O rapaz era o mais velho de uma família com cinco filhos e, de acordo com a mãe, estudava para tentar uma vaga na Marinha. Seu pecado foi cruzar a alça de mira da polícia quando saiu de seu barraco para levar uma sacola para de lixo.

O mais revoltante, além da situação em si mesma e da evidência da participação direta ou indireta de policiais no crime, foi a declaração do Porta-voz da Polícia, capitão Ivan Blaz (também do BOPE). Em resumo, o oficial declarou em entrevista a um programa de reportagem da Rede Record que a Polícia vai investigar o fato, mas que já tem certeza de que o disparo partiu de marginais.

Resultado desta conhecida ópera carioca: as favelas são consideradas áreas dominadas pelo crime e todos que ali residem são suspeitos, portanto, possíveis alvos nas incursões policiais. Nada mais explícito que isso para justificar a matança perpetrada contra grande parte da população mais pobre da cidade e da região Metropolitana do Rio.

Esta é e tem sido a política de segurança pública adotada pelo atual e os governos anteriores. Inteligente, eficaz e de resultados. Um sucesso total…

Anúncios

É o que devem estar se perguntando as pessoas que tomaram conhecimento de que apenas 11% do orçamento da segurança pública do Estado foi gasto até setembro*. O pior disso tudo é que, de acordo com dados do próprio Governo do Estado, nenhum centavo – isso mesmo – nenhum centavo foi gasto este anos com o item “Informação e Inteligência”.

Das duas a uma: ou ninguém está nem aí para o trabalho de inteligência e tudo não passa de uma grande conversa fiada dos governantes ou a inteligência é tanta, mas tanta que não precisa nem gastar dinheiro com este item.

Fico imaginando como funciona todo o sofisticado serviço de inteligência da polícia do Rio quando assisto àqueles filmes e seriados policiais na TV. Equipamentos de última geração, pessoal exclusivo dedicado 24 horas ao dia, escuta telefônica imperceptível, mapas de rastreamento com sinal monitorado via satélite… Moleza pegar o suspeito em flagrante delito.

E depois de alguns dias no encalço de algum dos mais perigosos traficantes atacadistas todos poderiam ouvir aquela frase do detetive X: “Pegamos o homem!” Em quinze minutos o castelo do sujeito, na Barra da Tijuca, estaria cercado e ninguém de dentro da casa seria alertado. O detetive responsável daria a ordem de entrar no casarão pelo rádio exclusivo, os tiras pegariam os seguranças de surpresa e ninguém sairia ferido.

Mas isso é mesmo pra seriado de TV americano. Na nossa dura realidade subdesenvolvida estamos mais perto da Colômbia e de seu narcogoverno. Incursões, caveirões, helicópteros, armas de grosso calibre e… captura e morte de alguns bandidinhos pés-de-chinelo, apreensão de alguns pacotes de drogas e de armas que mais parecem de artesanato. Em contrapartida, milhares de inocentes mortos e feridos.

Este é o resultado da guerra contra o tráfico, que assistimos a duas décadas no Rio. Parece mesmo uma polícia muito inteligente essa do Governador e seu staff da segurança pública…   

* Reportagem da FSP de 22 de outubro de 2009

Caiu um helicóptero, abatido por uma arma de grosso calibre disparada por traficantes varejistas de uma favela do Rio. Saldo: três policiais mortos, um ferido e R$ 1 milhão de prejuízo (preço do modelo Esquilo). No mesmo dia a cúpula da segurança pública se reuniu e decretou: “Já sabemos quem foi, onde foi e como foi. É uma questão de tempo para pegarmos os criminosos”.

Dois mil policiais foram colocados de prontidão. Novas e infindáveis “incursões” são realizadas em algumas favelas. Tiroteios, pânico, terror, mais mortos e feridos. Essa é a rotina da população do Rio, principalmente dos quase dois milhões de moradores de favelas.

As autoridades falam de um tal “crime organizado”. Poderoso esse crime organizado, afinal é combatido há décadas e não pára de crescer. Talvez se tivessem implantado o ensino público em horário integral, melhorado as condições das escolas e os salários dos profissionais de Educação esse caldeirão tivesse ao menos esfriado. Quantos meninos poderiam ter conhecido outro rumo na vida…

Todos os anos milhares de crianças e adolescentes das favelas são recrutados pelo tráfico varejista de drogas. Quantos mais são mortos e detidos, tantos mais surgem para assumir seus lugares. A polícia desconhece o trabalho de inteligência, é “burra” de propósito. Seu papel é dar satisfação a um setor da sociedade que clama por sangue e operações espetaculosas, com a que vimos em 2007, no morro do Alemão e adjacências. Investigar pra que, se investigar vai sufocar facilmente a bandidagem varejista e acabar com o jogo de gato e rato? Um não pode viver sem o outro.

O que importa é pegar o “arrego” para cobrir a cota dos batalhões e dividir os lucros com os varejistas. Para onde vai essa grana? E os senhores do pó e das armas que abastecem os morros do Rio? Será novidade que o Rio é rota das drogas para os principais centros consumidores da Europa? É preciso vender o espetáculo, atribuir todo um esquema bilionário a bandidinhos pés-de-chinelo.

Espremida entre a opressão do tráfico varejista, a repressão da polícia e a extorsão das milícias, a população do Rio segue sua rotina de convívio com a violência. Até que um novo espetáculo de sangue tome os noticiários. O que nos conforta é que ninguém se conforma com isso.

Dizem que exercer a medicina é um sacerdócio. Pode ser, mas duro mesmo é ser professor. Nossa! A que ponto chegou a situação daquele que exerce, em minha opinião, a mais linda das profissões. Ainda mais no Brasil, onde o ensino público apesar de previsto como um direito do cidadão e um dever do Estado, é relegado a último plano pelas nossas “autoridades”.

Imagine receber a mixaria de R$ 560,00 líquidos, para uma carga semanal de 16 horas de trabalho… Isso sem falar das salas de aulas caindo aos pedaços, que acomodam em média 35 a 40 alunos. Meninos e meninas cheios de adrenalina e disposição, que na maioria das vezes conversam, discutem e até gritam nas salas de aula.

O estresse é ainda maior nas escolas em que algumas crianças seguem a cartilha da criminalidade ou do desvio de conduta, devido a relações familiares desagregadas, violência, alcoolismo, consumo e venda de drogas, falta de diálogo e más companhias. É comum se ouvir relatos de professores xingados e ameaçados por alunos.

É evidente que nenhum professor da rede pública de ensino pode sobreviver com esse salário e vai se candidatar a uma vaga em uma escola municipal ou de escola particular. Ao dar uma média de 30 aulas por semana um professor expõe suas cordas vocais a um esforço extremo, que pode gerar calos e até uma doença mais grave.

De qualquer jeito, ficam registrados os parabéns no seu dia “aos nossos mestres, com carinho”.

Diante do verdadeiro laissez-faire a que a população do Rio está submetida, fica fácil entender o pomba rolou que se instaurou nos transportes coletivos da Região Metropolitana. A começar pelo fato de que 80% da população tem no ônibus seu meio de transporte. Será que já avisaram às autoridades que transporte de massa nas grandes metrópoles é sobre trilhos? Pode ser sobre as águas também…

O secretário de transportes, Julio Lopes (o amigo camarada das concessionárias), jura que a culpa dos atrasos e problemas dos trens da Central nos últimos dias é de sabotadores, milicianos inconformados com o combate ao transporte alternativo de vans. Será que o secretário já andou de trem em horário de grande movimento? Pedras teriam o poder de interromper todo o sistema?

Julinho também se mostrou indignado com as inúmeras denúncias feitas por passageiros contra as empresas que operam as barcas Rio-Niterói. Até que uma CPI na ALERJ demonstrou que estava tudo errado no sistema. E o Metrô? Lotado e caro. Sob o pretexto de combater a ação de milícias, o Estado interveio para favorecer as empresas de ônibus.

O Governador, que nem deve saber o que é um trem, soltou o verbo e exigiu punição aos vândalos que depredaram a estação de Nilópolis. Quer dizer, o cara sai de casa crente que vai pegar o trem e chegar ao trabalho em paz. O trem pára, atrasa, fica na estação e as portas não abrem. Quando ele consegue sair não tem nem a garantia de que vai receber seu dinheiro de volta. Ninguém informa nada e o sujeito ainda tem que se conformar.

Depois de mais de uma década de privatização dos principais sistemas de transportes coletivos do Rio – barcas, trens e metrô – a constatação é óbvia: os governos não têm política de transportes de massas e nem instrumentos para intervir, é no mínimo estranha a relação de governantes e do poder público com as empresas de ônibus e a população vive num verdadeiro trem-da-mãe-joana.

As imagens de um trator derrubando uma fileira de laranjeiras na Fazenda Santo Henrique, em Borebi, interior de S. Paulo, chocaram a opinião pública brasileira. Do bispo ao empresário, do ambientalista ao articulista politicamente correto foi quase unânime o repúdio ao gesto de alguns sem-terra acampados na fazenda.

No dia seguinte à revelação das imagens pelas TVs, cerca de 200 policiais foram deslocados para a região para fazer cumprir a “reintegração de posse”, decretada pela Justiça. Mais uma vez, como fazem sempre diante dessas situações, os cerca de 250 sem-terra embarcaram em caçambas de caminhões improvisados e se retiraram da área.

Em Brasília as vozes indignadas de senadores e deputados da bancada do latifúndio se ergueram em defesa da abertura da CPI do MST. Kátia Abreu e outros parlamentares voltam a bater na mesma tecla, tentando criminalizar o MST e os movimentos de luta pela terra.

No Triângulo Mineiro e no Nordeste dois dirigentes do MTL e dois do MTL Social estão condenados. Seu crime: empunhar a bandeira da Reforma Agrária. Só o Brasil e países capitalistas mais atrasados ainda não fizeram Reforma Agrária, sob o fantasma de ser uma medida socializante. Mais uma demonstração do atraso das classes dominantes brasileiras.

O mais chocante não provocou escândalo na sociedade, apesar de parcela da mídia ter divulgado: os 30 mil hectares da região onde a multinacional Cutrale planta laranja para fabricar suco de exportação são terras devolutas, ou seja, terras da União, pertencem à nação. Outro fato grave é que esta mesma empresa foi a maior financiadora da campanha de Lula em 2006 (R$ 4 milhões).

Pouco importa, o que vale é salvar as laranjas e condenar os sem-terra.

(*) A esse respeito vale a pena estudar os dados do Censo Agropecuário 2006, recém-divulgados pelo IBGE.

Existem momentos na vida em que não há como remar contra a maré. O cinismo na sociedade brasileira é tamanho que uma espécie de filosofia do “corno manso” tomou conta do senso comum. E tem muita gente boa que já embarcou nessa.

No meio do esporte de competição, conhecido por esporte olímpico, a mesma gangue que comandou os preparativos e a realização do PAN 2007 continuará mamando nas tetas do erário público na organização dos Jogos de 2016.

Os mais céticos não acreditam que alguma coisa vá mudar. Os “cornos mansos” admitem a sacanagem, desde que o Ricardão deixe a geladeira abastecida e a cama quentinha… Ou seja, desde que haja uma compensação para quem vai pagar a conta, nós, contribuintes. É o tal do “legado”, que não compareceu no PAN 2007.

Nosso orçamento também é campeão, assim como foi a nossa delegação na Dinamarca. São 14,4 bilhões de dólares ou R$ 28,8 bilhões para bancar a farra das Olimpíadas 2016 no Rio, segundo os cálculos mais tímidos. Isso equivale a mais do dobro dos orçamentos apresentados pelas outras três concorrentes.

Também, pudera! Juntaram João Havelange, Serginho Cabral, Nuzman e Eduardo Paes num mesmo empreendimento… O bolo tem que ser grande, enorme mesmo. Afinal, os melhores pedaços vão mesmo para aquelas mesmas empreiteiras.

E já que o Prefeito Paes decidiu criar um sítio na internet para dar transparência à execução das obras olímpicas, me veio à cabeça uma idéia simples, para que a sociedade possa, de fato, pelo menos acompanhar a gastança: um COMITÊ DE TRANSPARÊNCIA OLÍMPICA.

Seria formado por representantes da OAB, ABI, Clube de Engenharia, Instituto dos Arquitetos do Brasil e Transparência Brasil. Assim, pelo menos a sociedade carioca, fluminense e brasileira teria um organismo capaz de controlar o oba-oba em que o circo olímpico vai transformar a nossa cidade maravilhosa…

Por que o senhor Carlos Artur Nuzman é eleito e reeleito há vários mandatos o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro? Quem divide com Nuzman a direção do COB? Qual é o orçamento regular do COB? De onde vem e como é gasto o dinheiro arrecadado anualmente pelo COB? Como, quando e onde o COB presta contas?

Por que o orçamento inicial do Pan 2007 acabou se multiplicando por dez?Por que a empresa da filha de Nuzman (Co-Rio) foi contratada sem licitação para gerenciar negócios ligados diretamente ao Pan 2007? Por que existem processos no Tribunal de Contas da União para apurar superfaturamento nas obras do Pan 2007? Por que as 16 obras de infra-estrutura para a cidade do Rio que constavam do projeto do PAn 2007 não foram realizadas?

Por que o Ministério dos Esportes, dirigido pelo PCdoB, tem relação tão estreita com o senhor Nuzman? Por que o ministro Orlando Silva não move uma palha ou não se interessa em acompanhar as denúncias e processos envolvendo o COB? Por que o relator do projeto do Ato Olímpico, que dá as garantias de R$ 28,8 bilhões do governo federal para a realização dos jogos olímpicos de 2016, foi o deputado Inácio Arruda do mesmo PCdoB?

Por que o orçamento do Rio (14,4 bilhões de dólares) corresponde a mais do que o dobro dos orçamentos das outras três cidades concorrentes a sediar os jogos olímpicos de 2016? Por que o Rio-2016, vinculado ao COB, recebeu sem licitação na última semana da escolha da sede dos jogos olímpicos de 2016 a quantia de R$ 3,5 milhões da Prefeitura do Rio para fazer lobby no exterior?

Por que o esporte olímpico brasileiro apresenta resultados tão pífios, apesar da dinheirama repassada pelos cofres públicos e contratos de patrocínio para o COB? Por que o Brasil não obteve sequer 1 medalha no último campeonato mundial de atletismo e no campeonato mundial de judô? Por que os atletas olímpicos das diversas modalidades reclamam do abandono e da falta de estrutura para a prática desportiva?

Será que essas perguntas não são suficientes para uma boa matéria nos órgãos da imprensa esportiva? Será que elas não seriam perfeitamente cabíveis numa CPI do Esporte Olímpico no Congresso Nacional?

Então, senhores deputados e senadores, o que está faltando para iniciar a coleta de assinaturas para a abertura de uma CPI?