Kleber

Foi preciso a confluência de uma série de interesses para que os bastidores das negociatas do futebol internacional viessem à tona, em forma de escândalo. Sete dirigentes de confederações, entre eles o ex-presidente da CBF, o senhor Marin, foram detidos às vésperas do Congresso da FIFA, em Zurique.

Até então a certeza de impunidade fazia se avolumar uma série de negócios suspeitos, que vão desde a venda das transmissões de competições até a vergonhosa transação de ingressos por grupos de cambistas, que agiram na Copa de 2014, no Brasil. Neste meio estão as transferências de jogadores, o uso de clubes por empresários para negociar atletas, etc.

Ocorre que em 2011 a FIFA contratou um ex-procurador de Justiça dos EUA para realizar uma auditoria. No entanto, a cúpula do futebol mundial não deu importância ao trabalho desenvolvido e o contratado se afastou. Não por acaso foi a Justiça norte-americana que fez toda a investigação que levou à detenção de sete cartolas da América do Sul, América Central e Caribe.

É bem provável que as investigações tenham sido levadas adiante porque os EUA perderam a indicação para sediar a Copa de 2022 para o Qatar, país que além de não ter nenhuma tradição de futebol não oferece condições climáticas para a realização da competição no meio do ano, já que as temperaturas naquele país chegam a 50 graus centígrados.

Pior para a máfia do futebol, porque qualquer cidadão que movimente contas bancárias nos EUA sem pagar impostos ou sem justificar a origem do dinheiro está sujeito a ser pego pela Justiça. Foi o caso dos implicados, denunciados por ninguém menos que o senhor J. Hawilla, ex-repórter da Globo, dono da TV TEM (afiliada da rede Globo) e da empresa Traffic, que faz a intermediação de negócios no futebol.

Hawilla fez uma espécie de delação premiada na Justiça dos EUA, na qual se compromete a devolver o que não pagou de impostos em transações bancárias milionárias. De quebra entregou seus parceiros diretos, entre eles o próprio ex-presidente da CBF, já denunciado por receber propinas milionárias desde que substituiu o senhor Ricardo Teixeira, também suspeito de participar de negócios escusos no meio do futebol.

Basta dar uma olhada na página da Traffic na internet e na de sua concorrente, a Klefer, do ex-jornalista Kleber Leite, para observar que se trata de empresas de intermediação de negócios. Estes negócios vão desde a participação no passe de jogadores a partir de clubes de investimentos, à venda do direito de transmissão de competições nacionais e internacionais envolvendo o futebol.

No sítio da Klefer a coisa vai mais adiante, já que estão lá os clientes da empresa, quase todas grandes empresas patrocinadoras da Copa de 2014 e de outros torneios. Também é possível observar entre os parceiros da Klefer as Organizações Globo.

O intermediário está sempre presente no Brasil como forma de conciliar interesses escusos nas transações entre empresas. No caso do futebol esses grupos montam consórcios de interessados em patrocinar os produtos da CBF e de outras confederações e negociam valores com as empresas de mídia para transmitir os eventos. É aí que acontecem as negociações por fora, que geram as propinas não contabilizadas na negociação oficial.

Em resumo, Traffic e Klefer são como piratas dos nossos tempos, que levam parte da carga saqueada. Mas o fenômeno da intermediação de negócios está presente de cabo a rabo na sociedade brasileira. É o caso das gatas, empresas subcontratadas pelas grandes construtoras para arregimentar mão de obra para trabalhar em grandes empreendimentos.

Seja como for e que interesses estejam por trás das iniciativas da Justiça norte-americana, a simples instalação de uma CPI que apure as transações da CBF desde os tempos do senhor Ricardo Teixeira, herdeiro político e hoje desafeto de João Havelange, pode trazer à tona todas as negociatas que envolvem os bastidores do futebol brasileiro.

Talvez assim seja possível entender o papel de cartolas da CBF, das federações e dos grandes clubes, dos empresários, dos parlamentares da bancada da bola, dos clubes de investimento, da Rede Globo e até porque sujeitos de pouco talento conseguem contratos milionários para atuar em grandes equipes, o que prejudica cada vez mais o próprio futebol brasileiro. Afinal, a nossa paixão não precisa de intermediários.

Como fundador de primeira hora do PSOL, sinto-me cada vez mais distante da política daquele partido. O mais recente episódio, envolvendo a expulsão de Benevenuto Daciolo, é a expressão do rumo que o PSOL vem tomando nos últimos anos.

Daciolo surgiu no cenário da vida política do Rio e do Brasil como a maior liderança dos bombeiros, que ocuparam o quartel central durante a greve da categoria, no início de 2012? Trata-se de um homem rude, de fortes convicções religiosas que enfrentou de peito aberto, junto com seus companheiros, toda sorte de punições – inclusive a expulsão da corporação – por ter ousado desafiar a hierarquia e o então governador Sérgio Cabral.

Era evidente que seu destino seria representar policiais e bombeiros num plano político mais elevado. Filiou-se ao PSOL justamente por julgar que contaria com o apoio do partido para as lutas de seus companheiros, mas já durante a campanha eleitoral foi isolado e tratado como um vírus pela direção do Rio.

A ele não foi dado sequer um segundo da propaganda na TV e no Rádio para ao menos informar à opinião pública que era candidato. Apesar de tudo, foi eleito com cerca de 50 mil votos em 2014, superando candidaturas nas quais a direção do PSOL/RJ apostou e nutria expectativas eleitorais.

É certo que Daciolo tomou iniciativas isoladas, fez pronunciamentos confusos e até propostas que não são típicas das tradicionais apostilas da esquerda, mas nada que não pudesse ser contornado na base do diálogo. Ora, caberia a um partido sério travar conversas com Dacciolo, ajudá-lo em seu crescimento como quadro político e parlamentar, já que não o fez quando deveria, antes do processo eleitoral.

Ao contrário, a Direção do PSOL tratou de puni-lo, suspendê-lo e, de forma precipitada, decidiu por sua expulsão. A experiência com Daciolo apenas revela o quanto o PSOL está distante da realidade social de nosso povo. Daciolo é apenas e tão somente um lutador honesto que, contra tudo e todos, conquistou uma cadeira no parlamento.

Pergunto aos senhores dirigentes do PSOL: de que povo os senhores esperam que venham os futuros integrantes de suas fileiras? Do verdadeiro povo brasileiro, forjado em suas mazelas, contradições e generosidade ou de uma meia dúzia de filhos da classe média radicalizada?

A impaciência e a determinação de afastar Daciolo do partido poucos meses após sua posse demonstra que as direções do PSOL – assim como de outros partidos de esquerda – estão cada vez mais fechadas, agindo como grupos cheios de dogmas, usados convenientemente para justificar suas decisões. O discurso da democracia e da liberdade que serve para enquadrar os de fora não serve para dentro.

Daciolo não é santo e nem demônio, é apenas um homem do povo que assumiu a responsabilidade de liderar trabalhadores de uma categoria de origem social humilde, que também enfrenta graves problemas. Sua linguagem e suas crenças foram forjadas no dia a dia, travando combates que exigem muito mais coragem do que imaginam os dirigentes do PSOL e sua vã filosofia.

A atitude da direção do PSOL entristece aos que se mantêm de pé na luta pela transformação da sociedade. Os equívocos de Daciolo são muito mais por desconhecimento, falta de maturidade e formação política do que por posições que contrariam os interesses populares.

Alegar que Daciolo tirou foto com Bolsonaro ou que tenha proposto a alteração da cláusula republicano-burguesa da Constituição, que afirma que “todo poder emana do povo” para “todo o poder emana de Deus” é uma grande hipocrisia. Dizer que a expulsão se justifica porque Daciolo pediu respeito aos soldados PM do Caso Amarildo, que estariam presos em condições sub-humanas é o mesmo que dizer que, a depender do crime cometido, o indivíduo merece apodrecer na masmorra.

Ao contrário do que nos quer fazer crer, a decisão adotada só demonstra a fragilidade de convicções dos dirigentes daquele partido. Além disso, aprofunda a certeza de que os partidos políticos, como instituições do século XX, estão cada vez mais afastados da realidade e das necessidades da maioria da população, fechados que estão em pequenos círculos que pretendem se impor não pelo diálogo, mas por uma suposta autoridade dos que se enxergam ou se auto intitulam como vanguarda da sociedade.

Para alguns que foram tão perseguidos, isolados e expulsos do PT esta seria uma oportunidade de demonstrar que é possível tratar divergências e superar dificuldades num clima democrático e de convívio com as diferenças. Ao contrário, optaram pelas velhas fórmulas simplistas, intolerantes e autoritárias.

Por isso, se faz urgente a necessidade de reorganização popular com base em outras formas de luta e de construção, que aliem a teoria revolucionária a uma prática transformadora, com instrumentos e instâncias democráticas, vivas, arejadas, que não sejam apenas a reprodução de intermináveis disputas internas por pequenos grupos.

No momento em que escrevo essas linhas já são 12 o número de mortos em uma semana de conflitos nos morros da Coroa e São Carlos, na região do Catumbi e Estácio, no Rio. A polícia alega que se trata da disputa entre facções criminosas, pelo domínio dos pontos de venda de drogas nessas comunidades.

O que chama a atenção é que na região conflagrada existem Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), o que indica que há algo de muito errado nesta política, considerada a pérola da segurança pública pelo governo do Estado.

As imagens mostradas na subida do São Carlos evidenciam o descontentamento de parte dos moradores com a atitude da polícia. Moradores vaiam os policiais, pedem justiça e acusam as forças policiais de provocarem tumultos diariamente.

Além de desrespeitosa e agressiva, a PM é acusada de aterrorizar os moradores cotidianamente com tiroteios e esculachos. Há denúncias de parentes de que dois dos mortos no São Carlos foram assassinados a facadas pelo BOPE.

O assunto é complexo e exige uma reflexão que envolve vários fatores. A falta de uma reforma agrária fez concentrar a população do país nos grandes metrópoles. No Rio, em particular, a geografia é propícia à concentração populacional em áreas de morros em todas as regiões da cidade. Na região em análise existem mais de 130 mil moradores, de acordo com o IBGE.

Por sua vez, essas comunidades são desprovidas de quaisquer serviços essenciais, criando uma população marginalizada, sem formação, com baixíssima renda familiar e sem perspectiva de melhora em curto e médio prazo.

Foi aí, em meio a uma concentração enorme de barracos, entre becos e vielas, que o tráfico varejista de drogas se estabeleceu, desde o final da década de 70. Para prosperar o tráfico varejista encontra um enorme contingente de jovens sem formação e sem futuro, vasta mão de obra a serviço do seu empreendimento.

Como resposta, o Estado só oferece a violência da polícia, que além de mal formada e sanguinária – tanto quanto o tráfico – está corrompida e comprometida com a manutenção desta situação, porque ganha com a extorsão dos traficantes (arrego) e a venda de armas.

Nada disso é novidade, uma realidade exposta há décadas no caso do Rio de Janeiro, cidade que concentra mais de 700 comunidades de favelas, hoje disputadas entre facções do tráfico varejista e milícias, fenômeno mais recente e que avança a passos largos.

Não é preciso ser sociólogo ou antropólogo para adivinhar que a política de instalação de bases militares em comunidades de civis só poderia gerar mais conflitos. Ainda mais porque são poucas e frágeis as iniciativas do Estado em relação às demandas e necessidades dessas comunidades. Soldado armado é tropa que precisa ser conduzida dentro de uma hierarquia militar apartada do contato com a população, por mais que haja tentativas de aproximação de parte a parte.

O episódio dos conflitos no São Carlos e na Coroa só comprova que, mais dia menos dia, a política das UPP vai se mostrar cada vez mais frágil. Tão frágil que permite uma guerra entre grupos de traficantes, mesmo em comunidades ditas “pacificadas”.

Não tenho me animado muito a escrever nas últimas semanas. Talvez seja um certo ceticismo que tenha tomado conta deste escriba. Seja como for o Brasil da mídia empresarial está muito chato, sem graça, desestimulante.

Todos os dias morre gente por uma tal de “bala perdida”, a maior criminosa do país. No entanto, ninguém encontra a meliante, apesar das evidências de que ela sempre aparece nos confrontos entre traficantes varejistas e a PM, sobretudo nas favelas e periferias.

No Rio um destacamento da Guarda Municipal age com truculência contra um grupo de jovens que acampa em frente à área do campo de golfe das Olimpíadas, para denunciar a falcatrua entre Prefeitura e empreiteira, o que vai causar prejuízos ao meio-ambiente. E ainda tem que ouvir que estão “desacatando” a autoridade.

Ao mesmo tempo, um biólogo escracha a situação de praias, da Baía e das lagoas da cidade, mas nenhuma autoridade constituída se sente constrangida a reagir com medidas de maior fôlego. Um gaiato travestido de secretário de meio-ambiente ainda dá um mergulhinho para provar que a água está boa. Por onde anda o Ministério Público?

Professores em greve para evitar a tunga de sua aposentadoria são recebidos com porrada e bomba pela PM do governo do Paraná. Sobrou até para um coleguinha da TV, mordido por um dos cãezinhos adestrados da polícia. Um retrato da nossa “Pátria Educadora”.

O candidato a ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é sabatinado por 12 horas no Senado, faz juras de amor à Constituição e ainda aparece parlamentar perguntando sobre o que ele pensa da Zona Franca de Manaus. Francamente…

Na CPI da Petrobras a ex de um doleiro cantarola “Amada, amante”. Par não perder o embalo a senhora mostra aos deputados presentes que não carregava dólares na calcinha, mas no bolso traseiro da calça. Será que dá para transportar 200 mil em verdinhas no cofrinho?

Agora querem impor aos 33 milhões de trabalhadores que gozam dos minguados direitos trabalhistas da Era Vargas a precarização total, aprovando um projeto que libera a terceirização que infelicita outros 12 milhões de trabalhadores. Em pleno avanço do desemprego o Congresso Nacional aprova projeto que dificulta o acesso do trabalhador ao seguro desemprego.

Há quem jure que a Lei Áurea, assinada há 127 anos, teria validade de 100 anos. Talvez seja este o motivo de tanto retrocesso no campo dos direitos e da seguridade social.

O grande exemplo para a pátria é o sujeito que faz acordo de delação premiada. Quer dizer, o sujeito se mete em falcatrua, desvia verbas, arrecada e superfatura obras, e depois ganha prêmio se entregar toda a jogada. Esses tipos são hoje tratados como fontes confiáveis pela mídia empresarial.

E o achacador continua mandando na Câmara dos Deputados. Aguenta coração!

Foto-Historica-Sovieticos-Berlim

Já se vão 70 anos. Parece que foi ontem que o mundo viu encerrada a maior guerra de que se ouviu falar nos tempos modernos. Para nós, aqui no Ocidente, o que se destaca na Segunda Grande Guerra é a resistência dos britânicos e a façanha do Dia D, na costa da Normandia, quando as tropas aliadas iniciaram a ofensiva contra as tropas alemãs.

No entanto, subestimamos ou pouco sabemos da guerra do lado leste da Europa, onde a grande ofensiva das tropas do Exército Vermelho, que libertou todos os países da Europa Oriental. Foram 27 milhões de soviéticos mortos, a esmagadora maioria de civis (cujas cidades foram bombardeadas), queimados, por fuzilamentos, enforcamentos e tantas outras práticas bárbaras das tropas nazi-fascistas, além da fome causada pela guerra.

Não por acaso os russos se referem à guerra de 1939-1945 como a Grande Guerra Patriótica. Para enfrentar e derrotar os nazistas a antiga URSS teve que fazer um esforço gigantesco, transferindo fábricas para o centro e até o leste de seu território, mobilizando a população civil para o esforço de guerra.

Entre as passagens mais impressionantes da II Guerra está o cerco das tropas alemãs a Stalingrado, que durou 200 dias (abril 1941 a janeiro 1942) e representou a virada da guerra no front oriental, no início de 1943. Só naquela batalha estima-se que morreram dois milhões de civis e soldados dos dois lados.

Sem dúvida a resistência inglesa, impedindo que os nazistas ocupassem a Grã Bretanha e o norte da África, foi fundamental. Da mesma forma foi importante o papel das tropas norte-americanas na Ásia e Oceania, contendo o avanço dos exércitos nipônicos, o que não apaga o lançamento criminoso das bombas atômicas sobre o Japão. Mas é inegável que a ofensiva soviética pôs fim ao regime comandado por Hitler e ao martírio dos povos sob o nazi-fascismo.

Menção honrosa deve ser feita aos heróicos guerrilheiros (partigiani, partisans e maquis), além da resistência armada no Gueto de Varsóvia e tantos outros, todos de inspiração comunista, socialista e popular, que com suas ações perpetraram pesadas baixas aos exércitos alemão e italiano por toda a Europa.

A revolução russa de 1917, com seu lema “Pão, Paz e Terra”, acabou com os planos de expansão do tzarismo e propôs o acordo que levou ao encerramento da Primeira Guerra e ao sofrimento dos povos de toda a Europa. Décadas depois, o país dos soviets colocou por terra os sonhos imperialistas de expansão nazi-fascistas, que impuseram terror e sofrimento a toda a humanidade.

Não se trata de idolatrar o regime stalinista, que de resto cometeu erros grosseiros também durante a guerra. Mas de ressaltar que o povo soviético de então superou suas dificuldades e foi decisivo para colocar fim à opressão.  Por isso, as comemorações dos 70 anos do fim da Grande Guerra Patriótica, em 9 de maio, representam tanto para os russos e povos vizinhos.

Hoje, quando uma certa direita histérica e ignorante brada chavões anticomunistas pelo Brasil afora, é fundamental resgatar as páginas heróicas do país dos soviets. A humanidade tem uma dívida de gratidão com o povo soviético e seu Exército Vermelho. A maior delas, e que causa maior ódio dos reacionários, é ter derrotado política e militarmente os regimes nazi-fascistas, espelhos do mundo com que sonhou a velha direita e com que sonha a nova direita.

Para lembrar passagens da tomada de Berlim, sugiro as imagens do documentário “A rendição de Berlim” (https://youtu.be/V_2Z04ier7c).