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Enquanto Eduardo Paes e sua equipe de trapalhões, comandada por Rogério Onofre, se especializa em bagunçar o coreto dos cariocas, complicando ainda mais o trânsito, garis e guardas municipais ameaçam paralisar suas atividades durante o Carnaval.

As duas categorias já não suportam mais a dura realidade a que são submetidas pela administração municipal. O salário bruto de um gari na cidade olímpica é de R$ 800,00 e o valor do tíquete refeição está congelado há três anos. Além de melhores salários, os profissionais da limpeza urbana, que enfrentam sol e chuva, também querem protetor solar e capas para trabalhar.

Já os guardas municipais recebem salário de R$ 753,00 e a Prefeitura oferece 21% de reajuste (o que levaria o vencimento base para R$ 911,00), e um Plano de Carreira que prevê a passagem de um nível para outro em dez anos. A categoria reivindica piso salarial de R$ 1.800,00.

O Tribunal de Justiça do RJ se antecipou à possibilidade de uma paralisação dos guardas municipais e decretou ilegal a greve, com multa diária de R$ 100 mil para o Sindicato da categoria, caso o movimento seja deflagrado. A alegação da Justiça é que se trata de uma função essencial à sociedade. O Desembargador responsável pelo despacho deveria usar seu argumento para lembrar que uma função essencial deve ter uma remuneração digna.

Guardas e garis são profissionais indispensáveis ao Carnaval carioca, nas ruas e no Sambódromo. Mas este ano podem se juntar aos foliões em blocos de protesto no reinado de Momo. Se o fizerem, certamente contarão com o apoio da população.

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Mais uma esculhambação à vista! O governador anunciou, em tom severo, no início de fevereiro que as concessionárias das barcas, trens e metrô não teriam reajuste em suas tarifas este ano. Certamente porque estamos em ano eleitoral e o candidato de Cabral vai mal das pernas em todas as pesquisas.

Não era Primeiro de Abril, mas a promessa não foi cumprida. Depois de autorizar aumento de R$ 4,50 para R$ 4,80 (mais de 5%) nas tarifas das barcas, a Agencia Reguladora de Transportes (Agetransp) aprovou o reajuste das tarifas para os trens (março) e o Metrô (abril). Ainda não foi definido o percentual dos aumentos e a data a partir da qual eles vão vigorar.

Resta ao Governo do Estado argumentar que quem tem Bilhete Único não vai pagar pelos aumentos das tarifas. Não vai pagar pela via direta, na bilheteria, mas o contribuinte vai arcar com a brincadeira, via subsídios ao sistema, que hoje somam um total de R$ 500 milhões repassados pelo Estado às concessionárias.

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O mar vermelho do povo venezuelano contrasta com o branco da classe média reacionária

A classe média branca venezuelana vive inconformada. Afinal, são cerca de 15 anos sem sentir o gosto do poder, que sempre a favoreceu. Desde que Hugo Chavez venceu as eleições presidenciais de 1999 o país tomou outro rumo.

Chavez não se limitou a tratar as feridas do povo. Além de programas sociais de grande alcance, nas áreas da saúde e educação, seu governo deu passos importantes na economia, como a retomada da PDVSA para o controle estatal. Ao contrário do PT, no Brasil, Chavez não aceitou a chantagem das classes dominantes e decidiu colocar o dedo na ferida, enfrentando os interesses das elites.

Desde que Hugo Chavez e seu movimento bolivariano chegou ao governo, como expressão da luta popular contra os planos neoliberais na Venezuela, a grande mídia passou a atacá-lo até pessoalmente. Em 2002, como o apoio escancarado do governo Bush, a grande burguesia chegou a depor o presidente eleito com um golpe de Estado.

Infelizmente para as elites venezuelanas o povo voltou às ruas e exigiu o retorno de Chavez. Em vez de fechar o parlamento ou restringir as liberdades democráticas, o governo tratou de manter suas políticas nos planos social e econômico.

A burguesia então preferiu a abstenção e sequer lançou candidatos nas eleições parlamentares. A tática não deu certo e contribuiu ainda mais para o aprofundamento de uma nova estrutura do Estado venezuelano e a desmoralização dos antigos líderes de oposição.

Aos que insistem em reclamar da falta de liberdade de imprensa é sempre bom lembrar que os três maiores jornais de circulação nacional são francamente de oposição ao governo de Nicolas Maduro. Já dos quatro canais de TV com alcance nacional, três adotam uma linha claramente contrária ao governo.

Aliás, em todos estes anos em que Chavez e seus correligionários foram caluniados pela grande mídia, aconteceram quatro eleições presidenciais, onze eleições parlamentares e quatro plebiscitos nacionais, tudo com a supervisão da OEA. Nas mais recentes eleições (8 de dezembro/2013) o PSUV e seus aliados conquistaram 242 prefeitura, contra 75 da oposição.

Logo após as eleições do final do ano passado, Maduro chamou prefeitos de oposição para um diálogo em torno de questões como segurança pública e outras que também afligem os venezuelanos.

Os nomes que hoje aparecem no noticiário são de lideranças mais jovens. Capriles foi obrigado a recuar e a adotar um tom mais moderado, em função dos resultados eleitorais negativos que vem colhendo. Mas Leopoldo Lopez propõe abertamente a saída de Nicolas Maduro do governo e incita publicamente a organização de grupos de ação para enfrentar os chavistas. Lopez rouba a cena de Capriles e expõe ainda mais as divisões no bloco conservador.

Diante da postura desafiadora e golpista dos setores mais direitistas, não há outra posição admissível que não ser a de conter os excessos dos dois lados e desbaratar as quadrilhas fascistas.

Em entrevista concedida recentemente à Rádio CBN, o jurista Nilo Batista contestou de forma veemente a conclusão do inquérito da polícia civil, que deu como encerrada a investigação sobre a morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante manifestação de rua, no Rio.

Segundo Batista, os dois rapazes não tinham domínio do fato, ou seja, não tinham a intenção de matar ninguém e o artefato explosivo, de origem industrial, produz um trajeto errático, incapaz de ser previsto pela perícia. Assim, a conclusão de homicídio doloso e triplamente qualificado, com pena de até 35 anos de cadeia, se configuraria absurda.

Da mesma forma, Nilo Batista questionou a prisão preventiva dos dois rapazes, que se entregaram à polícia de forma espontânea. De acordo com ele, quem se apresenta não quer fugir. Portanto, não se justificaria a detenção dos dois numa penitenciária.

Para ilustrar sua opinião, o jurista dá como exemplo o uso de explosivos em jogos de futebol e conclui que ninguém até hoje foi detido ou acusado de crime intencional por detonar fogos no Maracanã.

A entrevista de Nilo Batista, que ainda pode ser ouvida pela internet, no Portal da Emissora, só corrobora a análise de alguns poucos articulistas independentes, de que o verdadeiro propósito de toda esta apuração relâmpago é mesmo criminalizar as manifestações populares.

Por mera coincidência fui um dos 645 entrevistados pelo DataFolha, em recente pesquisa com cidadãos cariocas sobre a violência nas manifestações de rua. Primeiro é preciso considerar que o universo de entrevistados é muito pequeno para uma população de mais de 6 milhões de pessoas. Segundo, que a enquete foi realizada no calor dos acontecimentos, o que dá um tom emocional às respostas.

Mas deixando de lado os considerandos, vamos aos finalmentes, como diria Odorico Paraguassu, personagem de O Bem Amado. No domingo, 16 de fevereiro, dois jornais de expressão nacional deram destaque à pesquisa: a Folha de São Paulo, por razões óbvias, publicou com chamada de capa; O Globo só publicou matéria, sem grande destaque, em um de seus cadernos.

O que espanta é a forma como os dois veículos abordam os resultados. A Folha estampa a chamada na primeira página: “Carioca aprova protesto, mas repudia máscaras”. Já a chama de O Globo é “Cariocas apóiam protestos, mas reprovam vandalismo, diz DataFolha”.

A pesquisa contou com pelo menos uma dezena de perguntas, algumas das quais exigiam algum grau de conhecimento sobre as manifestações e suas conseqüências. No entanto, se tomarmos as respostas – apenas 10% admitiram ter participado de protestos -, veremos que, apesar de toda a campanha da mídia, a maioria das pessoas entrevistadas tem acordo com as manifestações de rua (56%).

O uso de violência por manifestantes é reprovado por 95% dos entrevistados, que também repudiam a postura da polícia diante dos protestos, considerada pouco eficiente (49%) e nada eficiente (40%). E mais: em sua maioria os que responderam à enquete repudiaram o uso de balas de borracha (68%), bombas de gás (66%) ou efeito moral (59%).

Ou seja, junto com o apoio às manifestações, a condenação à violência é a tônica das respostas. Este é o centro do resultado da pesquisa. Por que, então, a chamada não foi “Cariocas aprovam protestos sem violência”?

Mais uma vez fica evidente a tentativa descarada de alguns órgãos da grande mídia em vincular manifestações de rua a atos de violência, mesmo quando as respostas da pesquisa indicam a condenação de todas as formas de violência, inclusive a da polícia. Com a palavra os senhores editores.

Um advogado surge do nada para defender os dois jovens acusados de detonarem o foguete que ocasionou a morte do repórter cinematográfico, Santiago Andrade. Coincidência ou não, o doutor Jonas Tadeu foi o advogado dos milicianos Natalino e Jerominho, aliados do governador Cabral e líderes de uma das milícias desmontadas por iniciativa das apurações da CPI da Assembléia Legislativa, então presidida pelo deputado Marcelo Freixo (Psol).

O mesmo advogado dá declaração a uma emissora de rádio que um estagiário seu teria a informação de que um funcionário do gabinete do deputado Marcelo Freixo defenderia pessoas presas em manifestações.

O próprio advogado comanda as tratativas para que os dois acusados se entreguem à polícia, que encerra as investigações em velocidade espantosa. No entanto, nas imagens de fotos e filmes o sujeito que aparece sempre de costas ou de lado é branco, alto, forte e cabelo médio, enquanto Caio Silva de Souza é negro, magro e tem cabelo curto.

Este mesmo advogado adota como linha de defesa dos rapazes o aliciamento e compra de jovens pobres por partidos e políticos para participarem de manifestações. Fala de transporte garantido e até de R$ 150,00 para cada manifestante. Ato contínuo, o chefe da Polícia Civil anuncia uma nova investigação, esta sim, que pretende ser mais demorada, visando levantar possíveis conexões entre práticas violentas em manifestações e partidos políticos.

A investigação é saudada pelo próprio governador do Rio, Sérgio Cabral, que faz coro com a tese do doutor Jonas Tadeu, afirmando que há partidos e organizações embutidas nos protestos violentos no Rio, e que os rapazes presos estariam “inseridos em um contexto maior”. Seu secretário de segurança se desloca a Brasília, para apresentar propostas que garantam o direito da polícia reprimir com mais rigor ainda os protestos e incriminar manifestantes.

Um dia depois da prisão de Caio de Souza, sou entrevistado pelo Data Folha. O assunto: violência nas manifestações. A maior parte das perguntas é dirigida para questionar o caráter “violento” das manifestações. Em momento algum uma pergunta sobre o caráter e os motivos dos protestos.

Que interesses estão por trás da conduta e das declarações do advogado, do chefe de polícia civil e do governador? Por que a grande mídia usa o cadáver de Santiago Andrade para exigir legislação mais rigorosa contra manifestantes e manifestações?

Combalido e sem forças para fazer seu sucessor no Rio, Cabral precisa enfraquecer Garotinho e Freixo, que aparecem bem melhor que seu candidato (Pezão) nas pesquisas para as eleições deste ano. Ao advogado bastam os holofotes da mídia, que ele alimenta com declarações vagas e dirigidas a reforçar sua tese. Já as Organizações Globo usam o episódio para fechar o cerco contra as manifestações prometidas para a época da Copa do Mundo, que se tornou o principal negócio de mídia deste ano.

E ainda tem gente insistindo em ver a culpa de tudo isso nos black blocs e manifestantes radicais. Este jogo não é para amadores e nem inocentes úteis, que fazem coro com a mídia. Tão pouco para garotos revoltados e com baixa cultura política. É briga de cachorro grande. Não gosto de teses que sugerem conspirações em cada esquina, mas há interesses bem maiores por trás disso.

Editoriais dos jornais, comentaristas de Rádio e TV clamam por providências mais enérgicas contra pessoas que portem qualquer artefato que possa ser identificado como explosivo durante manifestações de rua. É Lei Anti-terror sendo gestada, com apoio escancarado da grande mídia.

Em verdade ela já existe em forma de Projeto de Lei, tramitando no Congresso Nacional, por iniciativa do Governo petista. É uma reivindicação da FIFA e dos organizadores da Copa do Mundo. Com ela se cria um verdadeiro Estado de exceção no Brasil, exatamente para evitar manifestações e constrangimentos em meio aos jogos do mundial de seleções de futebol. O texto não se limita a condenar atos extremos e vai tornar legal atitudes absurdas da polícia no enfrentamento de mobilizações de rua.

A morte de Santiago Andrade apenas acelera e cria as condições políticas para a aprovação de mais este escárnio pelo Congresso Nacional. Alguns veículos de comunicação mais reacionários, como O Globo, insistem em fazer ligações entre o episódio, suas personagens e o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, numa manobra que evidencia os objetivos políticos de parte da grande mídia.

Uma análise fria do perfil dos dois responsáveis pelo disparo do foguete de São João que matou o repórter cinematográfico só confirma o despreparo políticos dos dois. Um deles, tatuador, e o outro um ex-funcionário de empresa terceirizada que prestava serviços no Hospital Rocha Faria, morador da Baixada Fluminense.

É evidente que esses dois rapazes não tinham a menor dimensão do que ocorreria após o disparo do foguete que causou a morte de Santiago. Pelo perfil dos dois é possível perceber que não são militantes, que não têm conhecimento de uma causa libertadora ou de obras literárias que as fundamentem. Estão mais para rapazes revoltados, talvez porque sejam excluídos das maravilhas do consumo capitalista, só permitido a uma minoria da juventude de classe média alta.

Certamente quem levou o artefato para a manifestação pretendia responder na mesma moeda às bombas lançadas pela PM, essas perfeitamente toleradas pela grande mídia. Estavam errados e vão pagar caro demais pelo seu equívoco.

Jamais apoiei atitudes violentas em manifestações, mas não existe nenhum manual que regulamente o que deve ou não deve ser feito quando há um enfrentamento entre manifestantes e policiais. O que aprendi em anos de protestos nas ruas é que a polícia infiltra gente para provocar tumultos, visando sempre justificar uma intervenção violenta, seja com bombas, cassetetes e prisões.

Não tenho acordo com métodos violentos, que nada têm a ver com violência revolucionária. Algumas das revoluções mais conhecidas do século XX, como a Russa de 197 e a Cubana de 1959, não produziram qualquer derramamento de sangue em seu auge.

Não condenei e não vou condenar jovens que não tiveram educação política e se arvoram a enfrentar a polícia com a cara dura e ferramentas toscas. Essa adrenalina é própria da juventude. Se são black blocs ou não, isso pouco importa. Nada disso invalida ou esvazia a justeza das jornadas de junho de 2013, como querem alguns analistas que fazem coro com o governo petista ou os reacionários de sempre.

Cabe, sim, à esquerda socialista no Brasil, realizar uma profunda autocrítica de suas atitudes e apontar, na prática, novos caminhos para as grandes transformações sociais, que consigam conquistar corações e mentes da nossa juventude, sobretudo a juventude pobre e das periferias das grandes cidades.

Pingos nos is

11/02/2014

Como jornalista, sinto-me entristecido pela morte de um colega de profissão, que estava trabalhando no momento em que foi atingido por um explosivo, durante uma manifestação de rua contra o aumento das passagens dos ônibus, no Rio.

Como jornalista, estou indignado pelo fato da empresa em que trabalhava o colega morto, Santiago Andrade, não ter a preocupação em exigir que ele portasse colete e capacete de segurança, mesmo quando é de conhecimento público que as manifestações de rua têm redundado em violência entre policiais e parte dos ativistas que delas participam.

Como jornalista, confesso minha preocupação com o tom dado aos acontecimentos por parte de algumas empresas de comunicação, que pretendem criminalizar as manifestações e os manifestantes e esvaziar as causas que os levam às ruas.

Como jornalista, sinto-me enojado com as ilações das Organizações Globo, procurando associar os responsáveis pelo explosivo que resultou na morte do nosso colega a um parlamentar, que foi presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia do Rio.

Como jornalista, sinto-me embasbacado com a empáfia de alguns veículos de comunicação, arvorando-se a defensores da “democracia”, a partir de um fato que comove toda a sociedade brasileira, num verdadeiro exercício de demagogia explícita.

Como jornalista, tenho a obrigação de lembrar fatos da história recente do nosso país, em que manifestantes arriscaram suas vidas nas ruas Brasil afora, enfrentando bombas, cassetetes e tortura, que levaram ao fim da censura e ao retorno da nossa frágil democracia.

Como jornalista, sinto-me ludibriado com o desenrolar dos acontecimentos e a narrativa de grande parte da mídia, que faz uma campanha histérica contra manifestantes e manifestações de rua e deixa de lado o aumento escandaloso da passagem dos ônibus urbanos do Rio, para a alegria do Prefeito e dos empresários de ônibus da cidade.

Como jornalista, sinto-me no dever de lembrar que nós, jornalistas, somos parte da sociedade brasileira, e não entes abstratos. Por isso, quando exercemos nossa profissão, também temos um lado e devemos, no mínimo, desconfiar das intenções dos nossos patrões e diretores quando publicam seus editoriais indignados. 

Como cidadão brasileiro não posso concordar com qualquer tipo de ação violenta – da polícia, de marginais ou mesmo de ativistas que lutem por qualquer causa – que redunde na morte de quem quer que seja. Por se tratar de um crime, cabe a apuração dos fatos e a condenação dos implicados, que agiram como criminosos, e não a condenação das manifestações e de todos os manifestantes.

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O Prefeito Pereira Passos e seu “bota abaixo”, que mudou a cara do Rio no início do século XX

Nos últimos dias me pus a questionar o porquê da desativação da circulação de veículos no Centro do Rio e as mudanças aparentemente malucas impostas pela Prefeitura. Foi então que recebi um folheto explicativo do Município e uma pulga começou a me coçar atrás da orelha.

Primeiro Eduardo Paes entregou a Região Portuária ao Consórcio Porto Novo, formado pela Norberto Odebrecht e OAS, entre outras, que batizaram o novo empreendimento de “Porto Maravilha”. Uma mamata financiada com dinheiro público, que transformará um pedaço da cidade em espaço particular, em que até os serviços essenciais serão administrados pelo grupo privado.

Depois a Prefeitura se apressa em derrubar o Elevado da Perimetral e a entregar a tal Via Binário do Porto. Nunca houve consenso a respeito da Perimetral, até porque ela descaracterizou grande parte da Região Portuária. Mas a mexida foi muito rápida e violenta para justificar algo que tivesse a ver com o bem-estar da população carioca.

Agora Paes anuncia o fechamento do Mergulhão da Praça XV e a implantação de mão dupla, com circulação somente para ônibus e táxis, na Avenida Rio Branco. Tudo isso em apenas quatro meses! E ainda anuncia como justificativa a “prioridade ao transporte público”, mas o infeliz que precisa de ônibus ainda tem que procurar os novos pontos das linhas na internet.

Ocorre que se juntarmos as peças deste quebra-cabeças, veremos que elas fazem muito sentido. É evidente que para assumir o desafio de investir e levantar prédios na Região Portuária do Rio o Consórcio Porto Novo impôs algumas condições. Ora, como ter certeza de que a cidade vai migrar para o Porto? Simples! Esvaziando a Rio Branco e do atual Centro financeiro da cidade.

O discurso é politicamente correto. O Prefeito se enche de razão ao propor o fim da circulação caótica de veículos pelo Centro. Ao mesmo tempo, pavimenta o caminho pelo qual o Consórcio Porto Novo encontrará as condições ideais para fazer da Região Portuária o novo point da especulação imobiliária, com grandes prédios de escritórios.

Tudo isso vai requerer mudanças na legislação e gabarito da área do Cais do Porto, o que deve movimentar a Câmara Municipal pelos próximos meses. A reforma realizada por Pereira passos, no início do século XX, deu ao Rio uma estrutura para a implantação de um novo centro financeiro, necessário às demandas do capital naquela época. Ou seja, a cidade a serviço dos negócios.

A reforma pretendida por Paes vai mais além. O capital não pretende apenas se apoderar dos espaços urbanos para realizar seus negócios, mas fazer da própria cidade mais um dos seus negócios rentáveis.

Como nestes casos uma mão sempre suja a outra, é provável que a candidatura Paes ao governo do Estado, em 2018, também esteja sendo pavimentada pelos beneficiários desta trama.

A falta de exemplos positivos e o desprezo como os brasileiros são tratados, somada a ausência de formação e educação, estão conduzindo o povo a reagir como pode e sabe. O Estado brasileiro se tornou, ao mesmo tempo, instrumento de injustiça e ferramenta para o acúmulo de riqueza para as elites.

É bem verdade que nunca tivemos um Estado de Bem-estar social, como predominou na Europa ocidental até a mais recente crise, mas ainda havia algumas questões básicas respeitadas. Até o final dos anos 70 a educação pública, os institutos de previdência e alguns serviços essenciais, ainda que precários, davam conta de algumas demandas de uma população dividida entre as cidades e o campo.

Hoje, com mais de 85% da população do país fixada em áreas urbanas e a maior parte dela em grandes metrópoles, predomina o caos e o desalento para a maioria dos brasileiros. Os serviços públicos não acompanharam o inchaço das grandes cidades e não há sequer a manutenção de escolas e hospitais. Os transportes são regidos pela lógica do lucro, sem capacidade para atender e dar conforto às multidões. Isso sem falar nas condições de moradia, com mais de 50% da população sem saneamento básico.

Para piorar o Estado é cúmplice e refém de grandes cartéis privados, que predominam em toda a economia, inclusive no setor de serviços essenciais. É o caso das empresas de ônibus, que são agraciadas com tarifas caras e sem qualquer fiscalização séria. A paciência dos cariocas e de todos os brasileiros com o setor de transportes chegou ao limite.

O que se viu nos últimos dias no metrô de São Paulo e nos trens do Rio é uma afronta aos direitos básicos de qualquer cidadão. Com o calor intenso do verão e a falta de preparo que gera apagões, o desrespeito se transforma em chacota. A bagunça é apenas a expressão do “deixa como está pra ver como é que fica”, verdadeira filosofia dos governantes e empresários quando se trata de lidar com as demandas da população.

As grandes metrópoles brasileiras são resultantes da ausência e negação de algo simples, que poderia ter evitado todo esse caos há décadas: Reforma Agrária. As elites brasileiras, atrasadas e auto-suficientes, expulsaram o trabalhador do campo e transformaram o setor agrário em exportador de commodities.

As explosões de insatisfação popular que vemos agora – muitas vezes resvalando para o confronto direto com a polícia – formam uma nova onda de descontentamento. Este sentimento que transborda até nas brigas entre vizinhos, cresce com o descalabro dos enormes gastos públicos para a Copa do Mundo.

As mais recentes escaramuças nas grandes cidades são produtos do não atendimento das reivindicações mais elementares, levantadas nas ruas durante as grandes manifestações de junho passado. Qual foi a resposta das elites encasteladas no poder público das três esferas – municipal, estadual e federal – até aqui? Nada! Continuam tocando o barco como se nada lhes fosse cobrado, loteando governos e beneficiando os cartéis.

O resultado vem em dois tipos de comportamento: 1) Salve-se quem puder, com as pessoas se fechando em seu medo e não se comprometendo com nada, mesmo sendo afetadas por tudo e até concordando com as manifestações; 2) Foda-se total, próprio de um setor mais consciente da juventude, que está de saco cheio do deboche oficial e disposto a radicalizar.