Da última vez que estive nestas duas cidades (Julho/2017) pude perceber como o poder de compra do brasileiro caiu ainda mais nos últimos anos, diante do custo de vida das duas capitais. A começar pelo fato de que nossa moeda segue desvalorizada: 1 Euro valia R$3,80 e 1 Libra em torno de R$4,20. Assim, se você é de classe média no Brasil, e ganhou uma passagem à Europa como eu, prepare-se para se conformar com a condição de pobre remediado por lá.

O salário mínimo na Inglaterra pode ser calculado a partir da hora trabalhada, que custa em torno de 7,5 libras. Quem trabalha 40 horas/semana recebe 1.200 libras ao final do mês. Na França o mínimo vale 1.430 euros. Pela conversão é possível ter uma noção da defasagem entre o mínimo no Brasil, na Inglaterra e na Franca.

O problema é que o custo de vida nestas duas capitais tem pesos distintos. Gasta-se muito com aluguel e transporte, sobretudo em Londres, onde boa parte do sistema é privatizado. Daí porque o brasileiro duro não pode escapar dos cartões de integração Oyster (Londres) e Navigô (Paris), para aliviar o peso do custo do transporte nas duas cidades. Sem eles você vai gastar muito mais para se locomover.

Para a estadia você precisa pesar alguns aspectos: qualquer hotel razoável próximo do centro não sai por menos de R$180,00/dia. A hospedagem inclui café da manhã? Apesar da distância do centro da cidade o transporte é rápido e o tempo de viagem compensa? Desta vez apelei e o resultado foi bom: 1) Easyhotel, em Londres (East Croydon), ao lado da estação de trem urbano. De trem gastava 15 minutos até a Estação Victoria, bem no Centro; 2) Ibis Porte de Pantin, em Paris, próximo da estação Hoche (linha 5 do metrô). Custo baixo (cerca de R$ 1.200,00 em Londres e R$ 1.100,00 em Paris por semana) e quartos limpos, sem qualquer luxo, mas com higiene.

No quesito alimentação o problema é o mesmo. Em Londres e Paris a saída é apelar na hora do almoço para a rede de comida rápida Prêt-a-Manger (apesar do nome em francês trata-se de uma cadeia britânica), que você encontra em qualquer ponto das duas capitais. São saladas misturadas com uma proteína (frango, peixe). Acrescente um suco ou um refrigerante da própria casa. Se você não for um glutão, com sete libras ou euros dá para se satisfazer. Muita fome? Apele aos fast food orientais, como o Misso, em Londres: um balde de macarrão, que da para dois, por cinco libras. Em Paris ainda existe a opção da rede francesa Paul, com sanduíches e doces. Também é bom e barato.

À noite o melhor é gastar uns trocados (até quatro euros ou libras) adquirindo sucos e sanduíches nos mercados, que baixam os preços conforme a hora avança. Outra boa possibilidade é comprar pratos congelados e esquentá-los no Hotel (no Ibis havia forno de micro-ondas disponível). Aproveite e compre também no mercado os ingredientes para o seu café da manhã seguinte: queijo, presunto, pão, leite ou suco de caixa. Com cinco libras ou euros você começa o dia bem. De quebra você pode encontrar chocolates Lindt a preços módicos (1,50 a 2,00 euros ou libras). Se gosta de bons vinhos pode compra-los a preços baixos (3 a 6 euros) nas prateleiras dos mercados, em Paris.

Passeios? Há algumas linhas de ônibus urbanos em Londres e Paris que circulam pelas regiões mais interessantes do centro das duas cidades. São espaçosos e confortáveis. Com o passe semanal de transporte você pode rodar e ter uma ideia do que há de mais legal nas duas capitais. 

Ambas são cortadas por rios, que também merecem ser visitados. Em Paris você pode tomar o batobus, uma espécie de ônibus que circula pelo Sena a um custo de 13 euros. Ele para em pontos estratégicos e com o passe diário é possível descer e voltar a toma-lo no mesmo dia.

Em Londres vale a pena visitar os grandes museus: Britânico, História Natural e o das Ciências, todos com entrada franca. Leve um lanche porque é tanta coisa para ver que vai dar fome. Em Paris vá ao Louvre (17 euros) e ao Museu da História Medieval (8 euros), que é menos badalado, mas tem um acervo belíssimo. Mas não arrisque comprar lembranças nas lojinhas dos museus.

Em vez de roda gigante da Coca-Cola, por que não visitar a Tower Bridge em Londres? Você tem uma bela vista do Tâmisa, se diverte, conhece a Torre de Londres (ao lado) e paga muito menos: 11 libras por pessoa. Em Londres existe também a opção dos parques, já que a cidade oferece muitas áreas publicas de lazer.

Em Paris vale uma visita à Montmartre e à Catedral da região. Dali você tem uma bela vista da cidade, e de quebra pode conhecer os trabalhos dos pintores e artesãos que expõem na praça. Outra boa pedida e a Catedral de Notre Dame e arredores, sem precisar entrar e pagar. A visita à Torre Eiffel sai por 11 euros, mas se você tiver disposição pode subir a pé por 7 euros. E não deixe de ir ao Mercado das Pulgas, onde você encontra de tudo um pouco.

Compras? Se estiver dentro de seus planos e você não for muito exigente, dá para trazer algumas coisas legais. Em Londres e Paris não deixe de ir à Primark, loja de departamento de origem irlandesa. Como em todo o mundo os produtos são chineses, indianos e de todos os países onde a mão de obra é baratíssima. Já os preços são bem camaradas.

Na capital britânica visite as lojas da Sportdirect, que vendem material esportivo. Com 30 a 50 libras você pode arrematar um bom tênis, que custaria muito mais aqui. Em Paris é possível comprar sapatos por 16 euros e tênis em lojas de rua (comprei um por 30 euros), além de bolsas e malas de viagem mais em conta. Lá também você encontra a Tati (espécie de Lojas Americanas), com ofertas variadas e preços baixos.

Nesta época do ano (Verão) as liquidações estão por toda parte, inclusive nas lojas mais badaladas. Se garimpar você consegue alguns produtos por preços bem em conta.

Bem, acho que dei um panorama geral. Aproveite as dicas e vá na fé.

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Vamos?

20/08/2017

Recebi de um amigo simpatizante do PT o texto de Zé Dirceu, intitulado “Lula-2018 não resolve tudo! Dialogar com os jovens!”, publicado em 15/8/2017. Confesso que fiquei surpreso com a leitura. Dirceu nem parece aquele sujeito arrogante, que anos atrás mandava e desmandava lá do Palácio do Planalto, como principal dirigente do PT e do governo Lula.

Pode ser que os anos de xilindró, devido ao Mensalão e à condenação pela Lava-Jato, tenham feito a velha raposa refletir sobre os caminhos que a esquerda brasileira terá que percorrer, principalmente depois do golpe de 2016. O texto levanta mais dúvidas e interrogações do que certezas, apesar de não ser um documento de autocrítica e de crítica aos graves equívocos dos 13 anos de governos petistas.

Talvez o afastamento do centro de comando do PT tenha feito bem a Dirceu, que sempre pensou e agiu como um estrategista. De certa forma, o texto de Dirceu deixa crer que o próprio advento do golpe de 2016 colocou a nu os objetivos das velhas oligarquias, dissipando qualquer ilusão de que seria possível insistir na tese de uma aliança estrategica com a burguesia para realizar transformacoes, ainda que parciais e pontuais.

Dirceu também chama a atenção para a resistência ao golpe e as limitações e fraquezas no campo popular e de esquerda no Brasil. A título de conclusão, Dirceu aponta que “devemos ter consciência que nossa vitória depende do crescimento de um amplo movimento de oposição pluralista, com total liberdade de iniciativas, mas com um centro e uma direção orgânica, para a luta e o combate, com um sentimento e um impulso de dialogar e debater…”

Ao final, Dirceu conclui que nossa maior vitória é que o golpe que conduziu Temer ao governo durou pouco tempo e que “mais de 95% da população exige eleições diretas e o fim das contra reformas”. Ao mesmo tempo, alerta: “Mas atenção: não significa apoio a nós ou às nossas propostas”, referindo-se claramente ao PT e a todos os setores e organizações que o cercam.

Muitos dos questionamentos que Dirceu apresenta são válidos e necessários. Pessoalmente não creio que as estruturas do PT, do sindicalismo cutista e da UNE sejam capazes de absorver, de braços abertos, o diálogo proposto. Não que estejam impossibilitados de participar destes debates, mas não podem impulsioná-lo, assim como os partidos da esquerda tradicional e as correntes políticas que se apresentam como revolucionárias. Sua forma de agir e pensar os impede de serem flexíveis o suficiente para participar (sem centralizar seus militantes) do debate, ter paciência e devolver as ideias em formas e conteúdos democráticos.

Hoje quem apresenta essa possibilidade é a Frente Povo Sem Medo (FPSM). Surgida de um movimento social, o MTST, a FPSM deu o pontapé inicial para arregimentar o que resta da esquerda, dos setores progressistas, da intelectualidade independente, para tratar dos assuntos relevantes que a realidade impõe ao nosso povo. E esses temas devem ser tratados à luz do dia, nas praças, nas ruas, nas escolas, faculdades, pelas redes sociais, com as donas de casa, os trabalhadores, os desempregados, os sem-teto, os sem-terra e os estudantes.

Essa é a proposta da série de debates que se inicia com o lançamento da plataforma “Vamos!”, idealizada pela Mídia Ninja e apresentada pela FPSM.

 

Um estudo do DIEESE*, com base em dados de 2014 do IBGE (PNAD), do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), traça um retrato da realidade do mercado de trabalho, da renda do trabalhador e, por conseguinte, dá elementos para a compreensão da fragilidade do mercado de consumo no Brasil.

Ele começa por demonstrar que a população com 14 anos ou mais, ou seja, em condições de trabalhar, somava a 162,8 milhões de brasileiros. No entanto, faziam parte da População Economicamente Ativa (PEA) 106,3 milhões de pessoas. Desses, 98,9 milhões estavam ocupados, dos quais apenas 48,1 milhões tinham carteira assinada e relações fixas de trabalho.

O estudo revela ainda que da parcela da população que estava ocupada em 2014, 38,5% não contribuíam para a Previdência Social. Já a movimentação dos empregos formais atingiu elevada rotatividade, com 27,8 milhões de admitidos e 26,5 desligados no ano de 2014.

Esse número se explica pelo fato de 21% dos empregados com carteira assinada permanecerem por até um ano no emprego; outros 16,5% dos empregados com carteira permanecem de um a dois anos no trabalho e 12,8% conseguem ficar no mesmo emprego entre dois e três anos.

Quando se trata do rendimento dos que possuem carteira assinada, o que se verifica é o retrato da exploração do trabalho no Brasil: somando as diferentes faixas salariais é possível concluir que 78,7% dos trabalhadores com relações formais de trabalho recebiam até 3 salários mínimos em 2014, sendo que a faixa de maior incidência era a de 1 a 2 SM, com 45,5% do total.

Ou seja, essa radiografia do mercado de trabalho de 2014, ano com taxa relativamente reduzida de desemprego (em torno de 7%), comprova que apesar da existência de uma rede de proteção, o trabalho e a renda no Brasil são partes de uma realidade social de pobreza. Isso para não falar da informalidade, que é uma chaga social.

 

Escravidão, semiescravidão e assalariados

O trabalho sob o regime do capital no Brasil não é, necessariamente, um prolongamento da sociedade escravocrata, que perdurou até 1888, quando foi formalmente decretado o fim da escravidão, com a Lei Áurea. Note-se que o Brasil foi o último país a abolir o regime escravocrata.

Na verdade, a imensa legião de escravos libertos se transformou em uma massa de deserdados, sem qualquer proteção social, perambulando de Norte a Sul do país. Os postos de trabalho menos qualificados, no campo e nas cidades, permaneceram reservados aos ex-escravos, em troca de um teto para dormir e um prato de comida. Esse contingente é precursor do trabalho semiescravo, informal ou dos ocupados sem carteira assinada, notadamente no campo, na construção civil e no trabalho doméstico.

A mão-de-obra fabril passou a ser importada de países da Europa, notadamente portugueses, espanhois e italianos. O Brasil só adotou uma legislação que reconhecia os direitos dos trabalhadores a partir de 1943, com a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) pelo governo Getúlio Vargas.

Tanto o patronato quanto os seus representantes em sucessivos governos sempre trataram o trabalho com o mesmo olhar do antigo fazendeiro. Nas fábricas era e é comum a existência de “capatazes” para controlar os trabalhadores. Os salários ainda são encarados como um favor (com a folha de pagamento representando em torno de 10% a 15% dos gastos), e os direitos e benefícios até hoje são considerados como uma parte elevada do chamado “custo Brasil”. É importante lembrar que a carga de impostos dos produtos é sempre repassada ao consumidor final, prática vergonhosa abertamente admitida pelas empresas.

 

Como isso se reflete no consumo?

Um estudo sobre o mercado de consumo no Brasil, realizado pelo Grupo Elo**, revelou que em 2014 as chamadas classes A e B, com renda familiar acima de R$4.808,00, alcançou 31 milhões de brasileiros. Já a classe C, com renda familiar de R$1.115,00 a R$ 4.808,00, englobava 113 milhões de brasileiros. As classes D e E, de zero a R$ 1.115,00 de renda familiar mensal, totalizavam 56 milhões de brasileiros naquele mesmo ano. Note-se que se trata de um ano de pico da economia, ainda refletindo os números de 2013.

Ora, a chave que impulsionou a economia brasileira e incorporou milhões de pessoas ao consumo de massas e ao trabalho naquele período foi a adoção do crédito popular. É evidente que apenas com a renda do trabalho, seria impossível ampliar a base do mercado interno.

No entanto, mesmo com resultados imediatos importantes e os prognósticos otimistas de então, o crédito popular logo trouxe o endividamento em massa e a retração do consumo. Em 2016, o endividamento das famílias chegou a 58,2%, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Num mercado refém dos juros altos o vilão do consumidor é o cartão de crédito, com taxas elevadíssimas de juros praticadas (486,8% ao ano em janeiro/2017).

Portanto, há dois fatores que explicam o atrofiamento do mercado interno no Brasil: 1) O arrocho salarial, que limita o acesso da grande massa de trabalhadores aos bens de consumo para a sobrevivência imediata; 2) Os juros elevados, que impedem ou dificultam que parte da classe trabalhadora possa comprometer parcela de sua renda no consumo de bens duráveis. Esses dois fatores são estruturais para o empresariado (de viés exportador) e do mercado financeiro no Brasil, que retiram parte de suas estrondosas taxas de lucros dessas práticas parasitárias.

  

*Anuário do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda (2015)

** Mercado e consumo no Brasil – Elo Gestão de Negócios