É impressionante o nível de manipulação descarada do noticiário por parte dos barões da mídia nacional. Leio em praticamente todos os jornais matérias reproduzidas das agências de notícias, anunciando uma derrota do PSUV e Hugo Chavez nas eleições parlamentares na Venezuela.

É certo que a meta do Governo bolivariano era alcançar 110 das 165 cadeiras do parlamento, obtendo os dois terços necessários para seguir implantando as reformas sociais no país sem depender das negociações parlamentares. Também é verdade que as oposições, juntas, obtiveram 50,9% dos votos válidos. No entanto, o que aponta o resultado eleitoral?

O PSUV, partido do Governo, deve obter 98 das vagas do Parlamento (58%), contra 67 das oposições (42%). É importante observar que neste bloco de “oposições”, o MUD, existem forças de esquerda que podem ser o fiel da balança no Parlamento. Provavelmente esses pequenos partidos deverão apoiar as medidas mais importantes das reformas sociais do Governo, deixando os pontos polêmicos em aberto.

Se Chavez não obteve o resultado que desejava, tão pouco a oposição conservadora conseguiu, mais uma vez, seu intento de derrotar o Governo bolivariano. Que este resultado sinalize um desgaste e até um alerta sobre a possibilidade de vitória da oposição de direita nas eleições presidenciais de 2012 na Venezuela, vá lá. Mas daí a afirmar categoricamente uma “derrota” de Chavez e do PSUV vai uma distância colossal.

Nada mais artificial e parcial do que as notícias produzidas pelas agências e reproduzidas em larga escala no noticiário da mídia brasileira. Faço este comentário como profissional de imprensa, sem entrar no mérito das intenções, acertos e erros do governo de Hugo Chavez.

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Faz algumas semanas o mundo inteiro tomou conhecimento, pelas Agências de Notícias globais, do caso de Sakineh, uma iraniana condenada à morte por apedrejamento pelos crimes de assassinato e adultério.

Rapidamente a notícia foi transformada em indignação e campanha internacional pelo perdão da ré. O próprio governo brasileiro tentou intermediar uma saída que evitasse a execução da sentença.

O que importava para a grande mídia nacional era fazer coro com a mídia imperialista, que teima em construir uma imagem do Irã no “Eixo do mal”, para justificar uma possível ofensiva militar dos EUA contra aquele país.

A poeira abaixou, Sakineh ainda não foi executada e seu caso parece depender do voto de uma instância superior da Justiça iraniana.

Agora, semanas depois de tanta indignação, o mundo inteiro toma conhecimento de que a norte-americana Teresa Lewis foi vítima de sentença de morte, no Estado da Virgínia, através de uma injeção letal, por ter tramado a morte de seu ex-marido e de seu enteado em 2002. E mais, que ela é a décima segunda mulher condenada e executada nos EUA nas últimas décadas.

Estranho… Onde estão as manchetes indignadas, as chamadas no noticiário de TV, a mobilização de diplomatas? Parece que no Irã a condenada seria vítima de perseguição do regime “ditatorial” e nos EUA a execução estaria dentro da “normalidade democrática”.

As Organizações Globo, assim como o Grupo Folha, teimam em tentar impor a pauta das eleições presidenciais, superfaturando pequenos escândalos, numa tentativa desesperada de atingir a candidata do Governo. Não se limitam a tratar dos assuntos através de editoriais, mas de manchetes de primeira página em letras garrafais e ampla “cobertura”.

Trata-se de manipulação tão evidente que vem irritando os próprios leitores e assinantes de mais bom-senso, mesmo aqueles que não votarão em Dilma. Ela, de fato, é um poste, que será eleito na esteira da popularidade de Lula. Mas daí a levar a campanha eleitoral para um processo insistente e parcial de denúncias para atingir a candidata, vai uma distância colossal.

A corrupção no Governo Lula não é maior do que foi a que envolveu a cúpula do PSDB, inclusive o senhor Eduardo Jorge, durante os dois mandatos de FHC. O mensalão foi a expressão maior disso. Mas será que alguém esqueceu do escândalo das privatizações do governo FHC, com destaque para as teles e a famosa “rataiada”? No entanto, a corrupção é tratada como centro de um processo eleitoral já definido. Por que?

Interessa à grande mídia, financiadores de campanhas e a todos que sonham com fatias do poder a definição das eleições num segundo turno. Levar o processo para novembro significa acirrar os debates e a chantagem sobre os vencedores, com o objetivo de assegurar cargos, influência, verbas publicitárias e postos de mando no arranjo do governo.

As Organizações Globo e o Grupo Folha cumprem tão somente o papel de porta-vozes dos que pretendem empurrar a definição presidencial para um segundo turno, garantindo assim a força empresarial e política da mídia frente ao próximo Governo. No entanto, neste caso, parece que não vai dar certo…