O assassinato da vereadora Marielle Franco suscita uma série de hipóteses para o crime e debates importantes para o país. Não é comum a execução de um membro do Poder Legislativo de uma capital da importância do Rio, mulher mais votada em 2016, socialista, lutadora contra o racismo e defensora dos direitos humanos.

Só por esses aspectos já se pode compreender a importância que este caso assume, diferentemente de um crime comum e da morte de tantos e tantos outros brasileiros, por mais que todos sejam igualmente chocantes. Um inquérito policial, imagina-se, não pode descartar qualquer hipótese.

Crime passional? Dificilmente um assassino nessas circunstâncias contrataria mais de duas pessoas e dois veículos para eliminar alguém. Em situações como essa o próprio desafeto costuma ser o autor do crime. Neste caso, os depoimentos de pessoas mais próximas, parentes e amigos levaria a uma elucidação relativamente simples e rápida.

Dívidas? Basta à polícia solicitar a quebra do sigilo bancário da vítima e tomar o depoimento de familiares e do círculo de amizades. Não consta que a vereadora estivesse com este tipo de problema, mas também não seria difícil identificar e localizar possíveis credores. No entanto, mesmo admitindo essa hipótese, seria um exagero que agiotas dessem fim a alguém que tem fonte de renda fixa e ganhos razoáveis, comparados aos dos demais brasileiros.

Acerto de contas do tráfico? Circulou nas redes sociais uma versão de que Marielle teria sido eleita com apoio de traficantes varejistas ligados ao CV, que controlam a Maré. De acordo com esta mesma versão, traficantes estariam descontentes com sua atuação. O mapa eleitoral desmente esta hipótese, porque Marielle fazia parte dos chamados candidatos de opinião, que recebem votos de eleitores de diversas regiões, justamente por ter posições políticas conhecidas e uma atuação marcante. Na região da Maré ela recebeu cerca de dois mil votos, num total de 46 mil de toda a cidade.

Ambição do suplente imediato de seu mandato? Já aconteceu do envolvimento de suplentes na eliminação de titulares de mandatos parlamentares. Às vezes por acertos políticos anteriores, às vezes por mera ambição política. Mas quem conhece o presente e o passado de João Batista Babá, por mais que possa discordar de suas posições políticas, não pode crer nesta versão.

Restaria a hipótese de crime político, em resposta às atividades do mandato, o que poderia der investigado por duas vertentes principais: 1) As denúncias que Marielle fez sobre as atividades violentas promovidas por alguns policiais do 41º BPM na Favela do Acari, o que atinge os interesses de grupos de extermínio dentro da polícia; 2) O fato de Marielle ter se pronunciado publicamente contra a intervenção federal/militar no Rio e de ser uma das relatoras da comissão parlamentar formada para acompanhar as atividades promovidas pelos interventores.

Mexicanização?

Até agora as imagens recuperadas que antecedem ao crime mostram que dois veículos seguiram o carro em que a vereadora e seu motorista estavam e foram executados. Ou seja, havia pelo menos três pessoas envolvidas na ação. A arma e a precisão do atirador demonstram que não se tratou de um serviço de amador, visto que três tiros acertaram a cabeça de Marielle.

O grande problema é que, se confirmada a hipótese mais provável de eliminação política, o caso se transforma num crime contra o regime e suas instituições. E não se trata apenas de mais um dos membros do Poder Legislativo, como já ocorreu com parlamentares de municípios do Grande Rio com histórico de execuções de políticos por envolvimento com grupos de poder local, como os da Baixada e São Gonçalo. Trata-se de uma vereadora eleita na defesa de uma série de bandeiras políticas claras, todas elas polêmicas e que dividem opiniões.

Se, ao contrário do anunciado, as autoridades apresentarem uma versão pouco convincente ou uma apuração pela metade, estará dado o sinal verde para que novas execuções levem o país a uma escalada de assassinatos, contaminando de vez a vida política brasileira, como ocorreu em outros países, como o México. Vale lembrar que a morte de Teori Szavaski, no início de 2017, em circunstâncias pouco comuns, ainda paira como algo nebuloso para a opinião pública.

Essa prática mafiosa poderá atingir não só gente da esquerda, mas também qualquer pessoa que ouse confrontar os interesses desses grupos. Por isso, reveste-se de especial importância o acompanhamento das apurações por parte de uma comissão independente, tal como pediu a ONU, com a participação de parentes e companheiros de trajetória política de Marielle.

Desvendar este crime bárbaro pode ser determinante para puxar o fio da meada de uma série de estruturas de poder econômico e político que ser formaram no Rio e no país ao longo das últimas décadas, com ramificações dentro e fora do Estado brasileiro. Será também a oportunidade de demonstrar que, mais importante do que uma intervenção com tropas das Forças Armadas, com custos elevados e pouca eficácia, é preciso limpar os porões da vida política, enlameados de negócios escusos e cumplicidade entre as oligarquias e grupos mafiosos.

Resta saber se os responsáveis pela apuração terão a independência suficiente para chegar aos assassinos e, principalmente, aos mandantes do crime.

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Assistimos a mais uma luta política no seio da esquerda brasileira, desta vez envolvendo a disputa pela candidatura presidencial do Psol. A controvérsia em torno da candidatura de Guilherme Boulos permite uma vasta analise dos diversos problemas que a esquerda brasileira carrega. Rapidamente vou me deter em alguns deles.

1 – Autoritarismo – Esta e’ uma herança da qual a esquerda mundial e brasileira não consegue se desvencilhar, e nos remete `a dificuldade de dialogo entre “maiorias” e “minorias” (entre aspas porque elas se alternam). A atual maioria do partido, investida de poder, arroga para si a determinação de impor a candidatura, sem previas eleitorais, o que expressa a tradicional atitude autoritária no trato com as diferenças. A minoria, que ja’ foi maioria, por sua vez, no fundo não questiona o método de imposição da candidatura, porque dele ja’ se utilizou em tempos passados, mas o que a candidatura representa. No caso, uma suposta rendição ao “lulopetismo”. Tanto isso e’ verdade que nenhuma tese ao congresso do Psol expressou claramente um método amplo de consulta, sequer a militância, para decidir sobre a candidatura presidencial.

2 – Deturpação da candidatura – Duas posições se afirmam na filiação do candidato ao Psol. A maioria exibe a ficha de Boulos como se a cerimonia de filiação fosse uma prova de adesão ao partido. Ora, formalmente isso e’ verdadeiro mas, na realidade, Boulos se faz candidato pelo Psol por uma exigência da legislação eleitoral e não por uma adesão ao partido, ainda que possa ter simpatias por ele. Ja’ a minoria, que cobrou o cumprimento do prazo de inscrição de candidaturas, quer impingir a Boulos a pecha de infiltrado do PT, que estaria deturpando os princípios e objetivos do Psol. Ora, nem Boulos e’ do Psol e nem o Psol nasceu com a missão pequena de combater o PT.

A candidatura de Boulos e’ positiva justamente por trazer consigo a marca dos movimentos sociais, que seguem lutando por melhores condições de vida para os mais pobres com o método da ação direta, nas ruas. Portanto, trata-se de uma aliança saudável entre um movimento popular e um partido de esquerda. E’ isso deveria ser celebrado, e não disfarçado como uma “adesão” de Boulos ao Psol, ate’ porque, passadas as eleições, provavelmente sem vitoria, ele seguira’ sua atividade como dirigente do movimento.

A trajetória do MTST descola do PT e se afirma por via própria, com uma critica pela esquerda, a partir da necessidade do MTST de enfrentar a especulação imobiliária, o que não teve eco nos governos petistas, levando o movimento a construir uma via de enfrentamento direto com a propriedade privada, tudo que o PT não queria. Portanto, atribuir a Boulos o papel de porta-voz do PT dentro do Psol e’ uma critica pesada e desonesta.

3 – A condução da luta política – Em vez de tratar o debate na política, construindo canais de dialogo entre as correntes internas do Psol (maioria e minorias), as lideranças jogam lenha na fogueira, o que possibilita um tratamento jocoso e de deturpação do fato pela grande mídia empresarial e outras forcas políticas. Isso começa a ter repercussão fora do partido, dando aos adversários ferramentas para enfraquecer a candidatura e sua importância em seu nascedouro. Ou seja, o resultado de praticas políticas deseducativas expõe as heranças das quais a esquerda brasileira não se desvencilhou. Boulos corre o risco de usar boa parte da campanha eleitoral para se explicar, negando que seja porta-voz de Lula e que sua escolha tenha ocorrido de forma autoritária.

4 – Previas como a sinalização de uma nova política – Não ha’ duvidas de que o nome de Guilherme Boulos e’ uma novidade para a disputa eleitoral que se aproxima. Tanto pelo que ele representa quanto pela sua habilidade política, forjada na fusão entre a teoria e a pratica da luta de massas. Qualquer que fosse o instrumento de aferição para decidir o nome do Psol para a eleição presidencial, provavelmente teria como resultado a vitoria de Boulos. Não para comprovar o viés autoritário da atual maioria do partido ou para espezinhar o infantilismo sectário das atuais minorias.

As eleições previas não serviriam para dar uma satisfação a luta interna ou “pacificar” momentaneamente o Psol, ate’ porque essa luta seguira’. Seu papel fundamental seria o de sinalizar `a sociedade brasileira que esta candidatura se propõe a um dialogo mais amplo, submetendo-se ao crivo de militantes, simpatizantes e a todos que anseiam por mudanças, para levantar ideais que se contrapõem ao conservadorismo das elites e superam os limites reformistas do PT. Essa seria uma oportunidade para demonstrar, na pratica, que o Psol, com todas as suas limitações, propõe uma nova política, com princípios, sim, mas profundamente democrática em sua construção e sustentação.

Infelizmente a maioria da esquerda brasileira carece, pela teoria e a pratica, de uma profunda autocrítica sobre os caminhos trilhados no século XX. Os revolucionários estão devendo explicações sobre praticas autoritárias, modelos dogmáticos de pensamento e organização partidária, ausência ou limites de formação, incapacidade de escutar e respeitar as organizações populares, dificuldade em dar respostas aos problemas concretos da sociedade e, sobretudo, a necessidade de construir um novo socialismo, profundamente humanista e democratico, desapegado de valores tipicamente pequeno-burgueses.

Nada disso pode prosperar a partir de correntes de pensamento e ação que se limitam a beber na fonte do socialismo do século XX. Isso não tem a ver com o desprezo pela importância da ação da esquerda revolucionaria do século passado, a qual a humanidade deve uma serie de avanços e conquistas. Talvez ainda estejamos longe da construção de ferramentas de transformação social baseadas em uma postura de defesa de princípios (e não dogmas) comunistas, em consonância com os movimentos populares, dialogando intensamente com a sociedade, recebendo criticas e assimilando-as como algo saudável para a afirmação de uma nova sociedade, mais justa, fraterna, profundamente democrática e participativa.

Apesar dos pesares, a candidatura Boulos representa o que a esquerda brasileira pode produzir de melhor neste momento. Resta saber se terá maturidade e sabedoria para construir um programa de forma ampla e democrática, dialogar com a maioria de nosso povo e as camadas medias progressistas, visando reunir forcas e enfrentar os principais problemas nacionais.

Queiramos ou não estamos em um ano importante para o país. Desde 2014 os resultados da economia colocam o Brasil na esteira das republiquetas, com desemprego em alta, recessão e queda vertiginosa da qualidade de vida. Muitos que tinham trabalho perderam e os que não perderam aceitam o que for possível. A sangria desatada desde o segundo governo Dilma e impulsionada pela quadrilha golpista atinge trabalhadores, jovens e setores da classe média.

Um país com mais de 200 milhões de habitantes, com tantas demandas e possibilidades não aguentará mais quatro anos de recessão, corrupção, desmandos e esquemas que privilegiam uma ínfima minoria. Portanto, chegou a hora das forças populares, ainda dispersas, somarem energias. Não basta aguardar o lançamento de candidaturas (por mais bem intencionadas que sejam) para debater uma aliança para mudança, a partir de situações já dadas.

O caminho que pode pavimentar este processo passa por baixo, por um diálogo construído pelos movimentos populares de todos os matizes. Movimentos de luta pela moradia, pela terra, indígenas, quilombolas, lgbts, sindicalistas, povos da floresta, gente das favelas e periferias, artistas, juventude, etc.

Quem sabe a construção de um grande encontro de base, que misture essa gente e elabore um programa mínimo de reformas populares? Com base na riqueza desse tipo de experiência será possível entregar o resultado de todo esse diálogo aos candidatos comprometidos com as lutas populares e criar as condições para uma aliança político-eleitoral.

Com todo respeito aos partidos da esquerda socialista, infelizmente o momento não é para uma saída revolucionária. Será fundamental que o povo brasileiro tenha uma alternativa popular, para evitar o pior: que uma candidatura urdida e financiada pelo “mercado” vença as eleições de 2018 e que tenhamos mais quatro anos de arrocho, desemprego, destruição dos serviços públicos e da frágil democracia que sobrevive aos trancos e barrancos.

O que menos importa hoje é o lançamento de candidaturas, embora haja prazos e exigências burocráticas a cumprir. O mais importante é construir esse diálogo por uma alternativa popular, a partir de um programa construído por baixo, compromissos claros e um método de fazer política efetivamente horizontalizado, ensinando e aprendendo todos os dias.