A vida nos prega peças que até os mais descrentes duvidam. A pior é a que envolve os sentimentos alheios. E pior ainda quando nos cabe tomar atitudes que não tomamos, esticando sofrimentos e postergando decisões. O preço quase sempre é alto e o prejuízo pode ser total.

Recentemente, numa dessas situações me vi dividido e não tive a coragem de tomar um rumo, fosse qual fosse. Medo, pena, indecisão são defeitos que não podem se manifestar nessas horas. Melhor ser duro, talvez até parecer insensível, do que perpetuar a incerteza e depois ser taxado de covarde e sem caráter.

Dividido entre dois corações – coisa rara, mas que pode acontecer – cabe decidir o que fazer. É certo que se vai perder algo ou alguém. O que não se pode é querer seguir ao sabor das ondas, esperando que o Espírito Santo tome a providência que se deve tomar.

E quando não se toma decisões o acaso pode se encarregar de resolver da pior maneira possível o que cabe a alguém fazer. Daí surgirem interpretações, mágoas, acusações, justamente das pessoas que mais queremos. Elas não estão erradas, simplesmente expressam o sofrimento dos que se vêem ludibriados, decepcionados.

Ah, como eu queria poder mover para trás a roda do tempo… Infelizmente ninguém tem esse poder. Como eu queria poder dizer a alguém que apesar de belo nosso caso era um equívoco, não teria futuro. Como eu queria poder dizer a alguém que a amava, que era ela que eu queria e preciso para seguir vivendo em paz.

Não cabe culpar ninguém, muito menos o acaso. Nós mesmos trilhamos nossos destinos, ora para um caminho correto ora para vias tortas. Estamos mal acostumados a encontrar desculpas para tudo e ao fim e ao cabo pedir perdão ao Divino. Não há o que desculpar ou o que perdoar quando se erra. Melhor reconhecer e seguir em frente, de cabeça erguida para provar que é possível superar o erro cometido.

Hoje, ainda que aliviado com o fim de uma situação de dualidade que me torturou por semanas, pago a conta dos meus erros. Sem caráter? Não creio que seja, apesar de reconhecer que nessa situação posso ser interpretado como alguém desprovido de caráter. Mentiroso? Se omitir fatos e inventar desculpas faz parte desse comportamento, confesso que menti. Egoísta? Também, na medida em que não admiti dar ao outro a possibilidade de encontrar sua felicidade. Covarde? Talvez, por não ter tido a capacidade e a frieza de tomar uma decisão. Então o que levou à indecisão? O medo de ferir alguém, que acabou ferindo a todos, inclusive a mim mesmo.

Entre perdas e danos a única certeza que restou foi do amor que sinto por alguém, embora talvez possa ser tarde demais. Não quero que esse alguém perdoe ou desculpe meus erros, mas que ouça com carinho seu coração. Ainda que soe como um chavão, só mesmo o amor tem a força para superar tudo, inclusive mágoas e desconfianças.

*Este texto é dedicado à pessoa mais bela que conheci nos últimos meses e a quem gostaria de entregar meu coração

Nada contra os roqueiros barulhentos, metaleiros, caretas ou zen. Afinal, todo mundo tem direito a ter preferências, ainda que só se possa preferir algo se você tem como conhecer as várias modalidades e escolher as suas. Mas o Rock in Rio é mais um exemplo de privatização da Cidade com dinheiro público.

O nome pomposo “Parque Olímpico Cidade do Rock” foi a fórmula encontrada pela Prefeitura e os organizadores para justificar um investimento milionário, com recursos dos cofres municipais. A Prefeitura fala que a conta ficou em R$ 37 milhões.

Só pelo terreno de 150 mil metros quadrados da Barra da Tijuca, às margens da Lagoa de Jacarepaguá, o Município pagou R$ 9 milhões. As obras de infraestrutura necessárias ficaram em torno de R$ 44 milhões (dados do blog do jornalista Sidney Rezende – 1/3/2011).

Para não pegar mal junto à opinião pública a Prefeitura, os Medina e Carlos Artur Nuzman fizeram um teatro para apresentar o local como um centro de lazer dos atletas olímpicos, a primeira obra entregue para os Jogos de 2016. Mobilizaram até jovens atletas para a apresentção do espaço à imprensa. Convenhamos, com cinco anos de antecedência!?

Os gulosos organizadores cobram R$190,00 por ingresso de cada noite e ainda contam com patrocinadores de peso, como Volkswagen, Claro, Coca-Cola e Correios (Sedex). Isso sem falar no direito de imagem de transmissão para outros países. O negócio ainda movimenta a Fetranspor, com uma estrutura de ônibus para conduzir o público até as proximidades do local do evento.

A exemplo de outros mega-eventos, o Rock in Rio faz parte de um urbanismo neoliberal que inverte os sinais da vida em sociedade. Em vez dos negócios se adaptarem à cidade como atividade complementar, a cidade é que vai sendo modelada para os negócios, atropelando as necessidades e escolhas dos seus cidadãos, que não são consultados a respeito e ainda estão sujeitos a transtornos. E quem banca essa farra somos nós.

É muito estranho observar as pessoas que passam aos montes por nós todos os dias nas ruas, na condução. A esmagadora maioria delas não veremos nunca mais. O velhinho que teima em sair de casa, apesar das suas pernas não mais o obedecerem fielmente; a secretária de tailler, compenetrada na próxima tarefa do escritório; o ambulante fixo jogando conversa fora com o colega da barraca ao lado; o cidadão gordo, de terno e gravata, que arrasa um sanduíche em 5 minutos na loja da cadeia de fastfood.

Afinal, o que procuram as pessoas? Estão sempre correndo, sempre muito ocupadas, sempre preocupadas com isso ou aquilo. É verdade que a maioria trabalha praticamente para pagar contas, como eu – portanto, somos eternos devedores – o que pode tornar as atividades do dia-a-dia muito chatas. Quem quiser sobreviver tem que executá-las, quase sempre com tarefas repetitivas.

Ao final do dia, depois de pegar o metrô cheio, aquela secretária assume seu papel de mãe, faz a janta dos filhos e ainda tem que arrumar tempo para agradar ao maridão. O velhinho vai pra casa assistir TV e certamente espera o telefonema de um filho ou de um neto que lembre dele, quem sabe um amigo convidando-o para um carteado. O camelô recolhe as mercadorias e a barraca no depósito, pega um coletivo ou um trem para chegar tarde em casa, bater um rango e acordar cedo para o dia seguinte. O engravatado, depois de sair da repartição, pega o automóvel, enfrenta o engarrafamento e se prepara para encarar a patroa.

Todos têm seus sonhos e desejos. A secretária quer a viagem com a família, o velhinho uma simples reunião de fim de ano com filhos e netos, o camelô abrir o seu próprio negócio e o engravatado o automóvel de último tipo. Todas associam seus desejos com felicidade e lutam como podem por eles. A impossibilidade de realizá-los leva a maioria à frustração. Outros acabam na resignação. Mas uma parcela das pessoas já entendeu que felicidade não necessariamente está associada a ter coisas e realizar desejos.

Sou desses. Não corro atrás de compromissos que outros marcam para mim sem me consultar, não perco tempo comprando bobagens, não faço dívidas e nem tomo empréstimos. E daí se a minha TV não é de LED ou a imagem não é em HD? Para que eu tenho que trocar de celular todo ano? Só porque o modelo mais novo tem acesso à internet? Por que preciso de um tablet se mal acabei de comprar um computador portátil que pode durar uns três anos? Nos empurram todos os meses tecnologia de ponta em doses cavalares, fazendo-nos crer que tudo que veio antes já estaria ultrapassado.

Ter ou não ter mais coisas ou coisas mais “modernas” não vai fazer ninguém mais feliz. Só se nos conformarmos com a mediocridade do cotidiano e o comportamento que a sociedade de consumo exige de nós. Comprar supérfluos nos leva a uma satisfação tola, momentânea. É como um pico na veia do viciado: depois da sensação de bem-estar vem a conta a pagar e ela é quase sempre alta demais.

Contrair dívidas nos leva a alimentar a agiotagem oficial de bancos e financeiras, uma espécie de forca que empurra a maioria dos cidadãos comuns para o desespero e a correria deste dia-a-dia infernal, numa roda-viva interminável. Muitos acabam num AVC, vítimas de atropelamento, ataque cardíaco e tantas outras doenças que se manifestam precocemente, provocadas pela inquietação permanente.

Muitas pessoas não sabem mais simplesmente o que é dormir oito horas por dia, hábito outrora tido como banal. Disfarçam as olheiras com maquiagem e partem desenfreados para a próxima jornada. Esqueceram que um dos melhores horários para fazer amor é de manhã cedinho, quando estamos com o corpo descansado e, ao mesmo tempo, com aquela sensação de preguiça matinal.

Por que não usamos o tempo livre de que dispomos para conversar, ler, trocar idéias ou simplesmente admirar as travessuras das crianças? Por que não sair de bicicleta e tomar um sorvete? Por que não sentar à mesa para tomar café da manhã com quem gostamos? Existe algo mais inspirador e libertário que caminhar na praia à beira-mar? Ir à feira pode ser extremamente divertido, mesmo que com uns trocados, se repararmos nas relações que ali se estabelecem entre amigos que se encontram depois de tanto tempo sem se ver, de barraqueiros com suas promoções anunciadas em voz alta, etc.

Somos tão bombardeados pelos “compromissos” e a publicidade que nos esquecemos ou não temos tempo para cultuar valores e sentimentos que marcam as nossas vidas. O bem mais importante que podemos ter e transmitir, ainda que parcialmente, é o conhecimento. Com ele, acrescido de uma dose de atualização de informações, é possível compreender o todo, fazer uma leitura da realidade que nos cerca, nos encaixar no que está à nossa volta. Junte-se uma pitada de amor ao próximo, tesão pela vida, alimentação saudável, olhar atento aos que nos cercam e exercícios físicos para manter o corpo.

Não há receita para viver, mas certamente o que os ideólogos do sistema querem nos impingir é uma armadilha composta de correria, desejos de consumo e pesadelos. Conviver na diversidade é estimular o que cada um tem de melhor. Não precisamos abrir mão de nossas vidas, ao contrário, devemos ter tempo para nós, para ter e dar prazer de forma plena aos outros. Por isso, sempre é hora de acordar e ajudar a construir a felicidade, ditando nosso próprio ritmo de vida. É evidente que a felicidade individual não supera a infelicidade coletiva, mas ela pode ajudar a contagiar os que estão à nossa volta.

Tão grave quanto privatizar é justificar a ineficiência e as elevadas tarifas dos serviços privatizados. É o que acontece no Estado do Rio de Janeiro, principal laboratório da política de privatizações, iniciado sob o governo Marcelo Alencar, na Era FHC.

Aqui privatizaram de tudo: energia, barcas, trens, metrô, gás canalizado, estacionamentos e até estádio de futebol, que deveria ser um “legado” dos Jogos Panamericanos de 2007. Agora, com a aprovação da Lei das Organizações Sociais, o próximo passo é a privatização dos serviços de saúde do Estado.

A Prefeitura simplesmente privatizou toda a Região Portuária da cidade, entregando a um consórcio de empresas a gestão da iluminação, limpeza e asfaltamento de diversos bairros contidos no projeto Porto Maravilha.

O resultado dessa política desastrosa de afastar o poder público da responsabilidade por serviços essenciais é o caos que se instalou no Estado. As empresas fazem o que querem, não há fiscalização e nem punição para os abusos praticados por concessionárias, que ainda são premiadas com subsídios e investimentos que saem dos cofres públicos, como a compra de composições para a Supervia e o Metrô S.A. operarem.

O carioca, o cidadão fluminense e eventualmente até turistas, todos estão sujeitos às mazelas e aos desrespeitos de um dia-a-dia infernal. Horas de engarrafamento dentro de ônibus ou trens e metrô lotados e com problemas constantes para ir ao trabalho ou chegar em casa. Alagamentos em dias de chuva ou explosões de bueiros da light em parceria com a CEG. Horas para ser mal atendido por um Plano de Saúde e transtornos com a operadora do telefone celular.

As vias Trans, planejadas para facilitar a locomoção de atletas e turistas pela cidade durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas, estão custando caro aos cofres do município e depois de prontas serão entregues a concessionárias, que vão cobrar pedágio. Isso sem contar o custo social das remoções de milhares de famílias, cujas indenizações por imóveis são irrisórias.

Cabral e Paes querem que os poucos serviços públicos que restaram no Estado e no Município apodreçam, para depois justificarem sua política privatista. É o que se vê no caso dos bondes de Santa Teresa. Quando não podem se livrar do estorvo de alguns serviços, como a Educação pública, estabelecem metas e políticas gerenciais para cortar investimentos.

Antes do governo FHC o Rio era um Estado com problemas, onde os negócios se estabeleciam como mais um ingrediente da vida econômica, social e política. Agora o Rio é que se tornou um ingrediente dos negócios, servindo de vitrine para a ganância de grupos econômicos que loteiam os espaços públicos, passando o trator sobre os cidadãos.

A maior expressão disso é o senhor Júlio Lopes, o secretário das concessionárias de transportes, que jamais veio a público defender os interesses da população, mas sempre para justificar a esculhambação promovida pelos empresários.

Um correspondente de uma TV brasileira declarou, recentemente, que se discute mais os atentados às Torres Gêmeas de Nova Iorque fora dos Estados Unidos do que por lá. Será que eles querem esquecer ou já esqueceram? Foram cerca de 2.700 mortos e as conseqüências são sentidas no mundo todo até hoje. Mais de 100 mil iraquianos inocentes foram mortos, sem contar a destruição do país, que também aconteceu no Afeganistão.

Se lá eles não lembram ou não querem saber o mesmo não posso dizer das imagens que guardei na memória de 11 de setembro de 1973. Lembro que estava no quarto de minha mãe, quando o noticiário da TV chamou a atenção para o que se passava no Chile. As informações, ainda desencontradas, davam conta de algo importante naquele país. As primeiras imagens mostravam correria nas ruas, tropas e tanques. Logo depois jatos bombardeando o Palácio presidencial, no Centro de Santiago.

Era o golpe militar que derrubou Salvador Allende e instituiu uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina. O ódio dos militares, marionetes do Governo Nixon/Kissinger, se voltou contra o povo chileno, assassinando milhares de militantes de esquerda (30 mil), torturando outros milhares e levando a uma onda de exílio em massa. Dias depois morria Pablo Neruda, o maior poeta chileno do século XX. Dias antes o compositor e cantor Victor Jara fora brutalmente assassinado. Um estádio de futebol foi transformado em centro de tortura e fuzilamento nos primeiros dias do golpe.

Ali se desenhou o futuro sombrio da América Latina até o final dos anos 80, quando caíram as últimas ditaduras. Se não era uma unanimidade na esquerda, o Governo Allende levantou e executou um programa de reformas ousadas, como a nacionalização das minas de cobre e de empresas estrangeiras em setores estratégicos.

Allende e boa parte da esquerda chilena acreditavam na possibilidade de um socialismo pela via constitucional, apostando no desgaste de sucessivos governos de direita e de centro. Se estavam certos ou não é um debate que seguirá.

A derrota da esquerda no Chile significou a implantação das ditaduras em todo o Cone Sul da América Latina, no Uruguay e depois na Argentina, projeto financiado por Washington. A Operação Condor – centro de tortura itinerante – funcionou por todos esses países, com instrutores brasileiros, precursores da máquina de morte.

Quando me refiro a 11 de setembro só consigo lembrar da TV ligada, no quarto da minha mãe, mostrando as primeiras imagens do golpe do Chile. E quem financiou aquela carnificina continuou por décadas a matança mundo afora. Lamentavelmente as Torres Gêmeas e suas vítimas se transformaram num pretexto para massacrar centenas de milhares de afegãos e iraquianos (afala-se em 900 mil mortos), mantendo a máquina de guerra dos EUA, esta sim a grande beneficiária da política externa de seus governantes.

Quem sabe um dia os cidadãos estadonidenses lembrem daquele 11 de setembro?        

(*) Uma bela visão do que representou o golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile está retratada no filme “Machuca”, de Andrés Wood.

A mídia trata com dois pesos e duas medidas os acontecimentos. Quando o autoritarismo atinge seu público alvo – a classe média – é repudiado de imediato com indignação. Quando o problema atinge os setores excluídos e menos favorecidos há sempre um rol de justificativas para aceitar a violência do Estado.

É o que se verifica no caso da favela do Alemão e adjacências. A ocupação militar no final de 2010 foi saudada pela mídia como libertação da comunidade. Até as denúncias de degola de soldados do tráfico por policiais foram toleradas, em nome do fim do controle armado do tráfico varejista de drogas. Diversas denúncias de abusos por parte de policiais contra moradores foram subestimadas e esquecidas.

Agora, nove meses depois da ocupação militar no Alemão, vêm à tona conflitos entre tropas do Exército e moradores que se dizem revoltados com os desmandos a que estão submetidos. A Polícia e o Exército atribuem as queixas e denúncias ao tráfico de drogas, que pretenderia retomar o controle da favela incentivando pessoas da comunidade a desmoralizar a ocupação militar.

O que ocorre é que a ocupação de parte das favelas do Rio é uma política que militariza as comunidades. Elas deixam de ficar sob o controle armado do tráfico de drogas para ficar sob o controle armado da polícia militar e, no caso do Alemão, do Exército. Se o morador das favelas enxergar o poder do Estado apenas pela força das armas ele tenderá a concluir, corretamente, que o autoritarismo apenas mudou de mãos.

Ora, sabe-se que tropas militares agem sob o tacão da disciplina da caserna. Não há diálogo possível entre civis e militares quando o poder, de fato, está baseado na força das armas. Os soldados do Exército e da polícia agem sob ordens de seus oficiais, independente se elas sejam acertadas ou não. Isso não só nas favelas do Rio, mas em qualquer ponto do Planeta onde existam conflitos desta magnitude.

A continuar do jeito que está a política das UPP corre o sério risco de se desmoralizar. Correto seria que antes da ocupação militar de cada uma das favelas já houvesse planos de saneamento básico, construção de creches e escolas, postos de saúde e espaços de cultura e lazer para fazer das favelas verdadeiros bairros da cidade. Essa seria a forma de desmoralizar o poder dos traficantes varejistas e levar vida nova e digna para os moradores. Mas será que esse é realmente o objetivo dos nossos governantes?

Enquanto isso o couro canta na Vila Kenedy e dezenas de pessoas estão sofrendo com a disputa do controle da comunidade por comandos de traficantes varejistas. Mas quem quer saber daquela região? A Copa do Mundo ou as Olimpíadas não passam por lá…

O governador do Rio de Janeiro nomeou o senhor Rogério Onofre (presidente do DETRO) interventor no Sistema de Bondes de Santa Teresa. Tudo porque a sociedade clama por respostas sobre o incidente que tirou a vida de cinco pessoas e, na falta de alguma, Cabral empurrou a bomba para um de seus subordinados.

Esta “solução” é no mínimo curiosa, visto que temos um sistema de transportes no qual as diversas concessionárias prestam serviços de péssima qualidade, com alto custo das passagens e inúmeros transtornos à população.

A intervenção só se justifica no caso dos bondes – cuja gestão é do Estado – mas não se cogita para as empresas privadas que comandam a esculhambação nos trens, nas barcas e no metrô? Se houvesse a intervenção nesses casos seria para acabar com a bandalha e os péssimos serviços prestados. E nos bondes, pra que será?

O interventor mal assumiu e já deu o tom de sua política, levantando a possibilidade da municipalização ou a privatização da gestão dos bondes de Santa Teresa. Como se sequer tomou pé do problema? Onofre é um gestor do Estado ou apenas mais um representante da política de privatização?

Se houvesse um mínimo de disposição em corrigir os desmandos, Cabral já teria exonerado o secretário dos transportes e convocado a Associação de Moradores e os funcionários do Bonde antes de tomar qualquer medida.

A pedra está cantada: Onofre vai anunciar que o sistema é inviável e que o remédio é privatizar. Mas antes, certamente o Estado vai assumir o ônus de reformar todo o sistema e depois entregá-lo de bandeja para uma concessionária “competente”. Por sua vez, essa concessionária vai priorizar o turismo, aumentar a passagem para valores elevados e elitizar de vez o serviço. Alguma novidade?