O carioca é mesmo um atleta, deve ser por isso que escolheram o Rio como cidade olímpica em 2016. Afinal, que povo teria tanta resistência para enfrentar obstáculos em seu dia-a-dia? Somos bons em arremesso de bueiros, natação em mar de esgoto, salto sobre poças d´água, levantamento de balde, canoagem urbana e tantos outros esportes não convencionais.

Com um treino puxado como esse, não tenho dúvidas em afirmar que vamos nos dar bem no ranking de medalhas de 2016. Nem as chuvas podem conter o ímpeto do povão do Rio.

Nos transportes públicos treinamos provas de resistência. Metrô e trens nos ajudam todos os dias a ampliar a paciência, aspecto fundamental na preparação psicológica dos nossos atletas para enfrentar os adversários. Engarrafamento é conosco mesmo: Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela, Grajaú/Jacarepaguá, Ponte Rio-Niterói, tudo para testar a resistência de nossos atletas.

Temos que torcer para que chova bastante nas duas semanas da competição. Com isso, seremos imbatíveis. Os gringos vão ter que rebolar pra chegar junto. E para animar a festa já estamos com aquele orçamento pronto… O parque aquático Maria Lenk e o velódromo, “legados” do PAN, já estão superados e vão precisar de reformas. A reforma do Maracanã vai custar dois engenhões, um recorde extraordinário. Ôh gente que gosta de obras! Nunca se viu tanto zelo por complexos esportivos como agora…

E para completar teremos a privatização dos aeroportos. Aposto que os preços vão decolar, das lojas de conveniência, passando por tarifas aeroportuárias até o uso de banheiros. Mas, plagiando o poeta Nordestino, o carioca é antes de tudo um forte… Por isso estou otimista. Vamos fazer bonito em 2016. Se nenhum recorde for quebrado, pelo menos já sabemos que na prova de estouro de Orçamento ninguém nos segura.

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Como diz meu amigo e filósofo Luiz Antônio Bap, só se faz 15 anos quando se chega aos 15 anos. Brincadeiras à parte, o Programa Boca Livre completou quinze anos dia 18 de abril. São anos de belas entrevistas, prestação de serviços, coberturas de acontecimentos importantes, sempre com o olhar crítico e independente que cabe ao jornalismo.

Por lá passaram e continuam a passar políticos, profissionais liberais, acadêmicos, artistas, escritores, sindicalistas, representantes de movimentos sociais, gente que leva ao ouvinte informação diferente e em tom descontraído, que não costuma ter destaque na chamada grande mídia.

Parece que foi ontem que três caras sentaram à mesa de um restaurante, no Centro, para discutir o projeto de um programa jornalístico, independente e vespertino no Rádio AM do Rio. Foram seis meses fazendo Rádio sem um tostão no bolso, só com a cara e a coragem. E começamos logo cobrindo o massacre de Eldorado de Carajás, que acontecera no dia anterior, direto do Sul do Pará, com o amigo e jornalista João Salame Neto.

Ao contrário do que pode parecer, Boca Livre não é uma tribuna de resistência ou coisa que o valha. É um programa de entrevistas e debates sobre os assuntos mais palpitantes do dia, sempre procurando dar um tom mais profundo aos acontecimentos. Não há tabu quanto aos assuntos abordados, que podem variar da política internacional, passando pela economia e até mesmo a novela das oito.

As opiniões divergentes são bem vindas, não há verdade absoluta, última palavra ou pronunciamento acadêmicos, porque entendemos que é do choque de idéias que o ouvinte pode tirar suas próprias conclusões. Aliás, uma das coisas que mais enriquece o Boca Livre é justamente a participação dos ouvintes.

Primeiro na Bandeirantes e hoje na Tropical 830 AM (www.tropical830am.com.br), o Programa procura apenas seguir as regras básicas do jormalismo, com uma pitada de emoção, sem a qual o Rádio não pode fisgar o ouvinte.

Abraços a todos que fizeram e fazem o Boca Livre, todas as estagiárias e estagiários, operadores de áudio, gente que acreditou no Programa e, principalmente, aos meus amigos e irmãos Luiz Antônio Bap e Lindinor Sá Laranjeira, que comigo formam uma equipe sempre antenada.

Com uma hora de duração – de segunda a sexta, das 13h às 14h – Boca Livre se tornou uma referência do rádio para os que buscam informação aprofundada. E esperamos completar mais 15 anos.

Ao levar seu comparsa Paulinho do Gás para se entregar em uma delegacia, um sujeito que atende pela alcunha de Falcon chamou a atenção do delegado: lá fora o aguardavam três seguranças e um veículo. Feita a revista do carro os policiais encontraram armas, munição, 32 mil reais em espécie e até um taco de beisebol. Paulinho, amigão de Falcon, pertence à milícia que toca terror na Zona Oeste do Rio, supostamente comandada pelo vereador Deco. 

Os levantamentos preliminares não deixaram margem de dúvida. Tratava-se de um policial. Mais tarde a opinião pública fica sabendo que seria aquele mesmo policial que fincou a bandeira no alto do morro do Alemão, quando da operação de tomada da favela, no final do ano passado. Nas horas vagas Falcon também atua como diretor da Portela.

Esse samba atravessado parece derrubar mais uma vez a tese difundida pela mídia, de que vivemos uma guerra do “bem” contra o “mal”. Então o Falcon, nosso herói que ergueu o pavilhão nacional no alto do Alemão, na verdade é miliciano???

Nossa polícia, herdeira da tradição colonial de caçar negro fujão, nem mais disfarça seu modus operandi. E tome dos chamados autos de resistência. O mesmo artifício usado contra guerrilheiros durante a ditadura, quando policiais assassinos diziam terem sido recebidos à bala e revidaram, ferindo seus agressores e os conduzindo ao hospital. Infelizmente nenhum deles chegava vivo ao pronto-socorro para confirmar a versão. O problema é que a ditadura acabou, mas nada disso foi passado a limpo. Resultado: eles estão aí, do mesmo jeito.

Antes dizia-se era que o policial estava mal armado. E hoje? Ah! Hoje o policial sabe que se prender um bandido a Justiça solta, então melhor detonar mesmo, alegam os defensores da força. Constitucionalmente o papel da Polícia seria dar segurança à população, zelando pelo cumprimento da Lei. Portanto, o policial deve ser exemplo para a sociedade. Mas intriga a qualquer um que existam três polícias e uma Guarda Municipal e ninguém consiga dar jeito na ilegalidade e na violência no Brasil.

Há denúncias de que a fuga em massa e desesperada dos bandidos pés-de-chinelo do Alemão aconteceu porque os presos pelo Bope estavam sendo degolados. Nenhuma razão para defender bandidos fascínoras, mas se isso realmente ocorreu precisa ser investigado. Ou a sociedade deu carta branca a uma força policial para assassinar? Já existe pena de morte na Lei?

Pra que tanta polícia com fraca formação escolar, com salários baixos e treinamento tão deficiente? A polícia no Brasil e no Rio é uma força a serviço das oligarquias, para manter a ralé no seu lugar, as favelas, becos, conjuntos habitacionais, cabeças-de-porco, etc. Pra que investigar os responsáveis pelas máfias? Pra que elucidar crimes comuns? Quem se incomoda com a violência que atinge mulheres, crianças e adolescentes? O importante é que a gentinha permaneça ali, distante dos centros de decisão.

O caso Falcon é um sinal muito forte. Do jeito que as coisas vão ninguém deve se assustar se as tão decantadas UPPs forem apenas a fachada legal para o trabalho das milícias nas favelas “pacificadas”. Afinal, os agentes das duas empresas são os mesmos…

Para cumprir sua obrigação constitucional a Polícia teria que investigar, atuar secretamente até levantar os responsáveis por crimes. A partir daí caberia aos policiais surpreender a marginalidade, dando o bote certeiro sobre os chefes e desmantelando as quadrilhas. É o que vemos a PF fazer nos últimos anos, a partir do trabalho investigativo do Ministério Público.

Para isso a polícia deveria ser composta de gente com nível superior, bem paga e com a missão de investigar e prender. Mas pra que formar um exército que aja na legalidade se o melhor para as oligarquias que mandam no País é continuar contando com os feitores e capatazes da modernidade? Afinal, nas horas vagas eles são jagunços, justiceiros, milicianos, seguranças, a serviço dos poderosos.

Interessante a polêmica aberta a partir da decisão da OEA de pedir ao governo brasileiro a suspensão das obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Cercada de confusão, a licitação para a construção de Belo Monte exigia em seus editais uma série de cuidados com o meio ambiente e as populações ribeirinhas, incluindo caboclos e indígenas.

Na prática, nada disso vem sendo respeitado, basta ver como são tratados os peões da construção civil pelas empreiteiras do consórcio vencedor. O estouro da boiada que levou à revolta da peãozada e ao quebra-quebra dos canteiros de obras, é uma demonstração das relações de trabalho medievais, praticadas por empreiteiras no Brasil. Fiscalização não existe.

Nem todas as irregularidades encontradas no projeto e em sua execução justificam a intervenção da OEA, órgão um tanto apagado para defender os interesses dos povos de nuestra América. O festival de ONGs, missionários e cientistas estadunidenses e japoneses na Amazônia é tão preocupante quanto a ocupação desordenada e desastrosa da região.

Até o açaí foi patenteado por uma empresa japonesa, o que virou alvo de contenda judiciária internacional. Toda a biodiversidade da fauna e da flora locais e até a existência de petróleo no subsolo estão em jogo quando o assunto é “defesa” da Amazônia.

Indígenas, caboclos, seringueiros, povos da floresta, todos defendem a Amazônia, sua fonte diária de sobrevivência. Mas defendem ao seu jeito, manejando as espécies sem atacar o meio-ambiente, convivendo com elas nas florestas e rios. Largados à sua própria sorte por sucessivos governos, muitos foram engabelados por madeireiras, falsas lideranças que se venderam, seitas religiosas e outros grupos que estão a serviço de interesses privados.

Não há porque acreditar na isenção da OEA, muito menos nas boas intenções do Governo brasileiro e do consórcio responsável pela execução e exploração da Usina de Belo Monte. Dos dois lados prevalece o interesse de grandes corporações privadas, com planos de desenvolvimento que excluem os povos.

Sem dúvida é urgente suspender as obras de Belo Monte, assim como outras iniciativas criminosas que enchem os cofres das empreiteiras em todo o país com dinheiro público. Da mesma forma é preciso limpar a área, tirando a gringalhada interesseira. A Amazônia pode e deve ser alvo de cuidados especiais, área de interesse nacional para preservação e desenvolvimento, sem ser apenas um grande parque ecológico.

Escola é lugar sagrado, se não é deveria ser. Mais do que o templo de qualquer religião, mais do que Palácios e gabinetes. Escola sempre foi e ainda é, mesmo na lembrança, sinônimo de conhecimento, educação, cultura, integração, troca, democracia.

O massacre de Realengo coloca na ordem do dia – já com muito atraso, é verdade – a necessidade de se debater os rumos da Escola Pública. Assim como a Saúde, a Educação consta na Constituição Federal como dever do Estado e direito do cidadão. E daí, perguntariam muitos. Afinal, quantas coisas constam da lei máxima do país e não são cumpridas?

A tentativa de transformar o ensino em porta de entrada para o mercado de trabalho, durante a década de 60 (ditadura militar), com os acordos MEC-Usaid, fez da escola pública uma instituição em crise permanente. Nem bem se ensina o fundamental para formar um cidadão, nem bem se forma um bom técnico. A retirada da Filosofia e Sociologia do currículo, o esvaziamento da História – que passou a ser apenas uma montoeira de datas e personagens – sequer levou à formação de bons técnicos.

Lembro dos diplomas que gerações de brasileiros recebiam ao término do segundo grau: técnico disso, técnico daquilo… Ninguém jamais teve formação técnica efetiva, era só pra constar mesmo. Mais um papel, uma formalidade que não prova nada.

 A crise se ampliou na medida em que se atribuiu ao ensino privado a excelência que ele não tem. Apenas as escolas religiosas e algumas outras se destacam, mas a esmagadora maioria vive no improviso, paga mal aos seus profissionais e tem problemas semelhantes aos das escolas públicas. O último projeto de Educação de maior vulto no Rio de Janeiro – os CIEPs – foi destruído pelo preconceito das elites e as canetadas de governadores.

O ensino público entrou em crise e as escolas públicas viraram terra de ninguém. Abandonadas pelos governantes, as salas superlotadas viraram depósitos de crianças e problemas para os professores, que de mestres se transformaram em alvo de violência e até psicólogos. Aos senhores governadores e prefeitos só o que interessa são estatísticas, números frios que podem ser interpretados de diversas maneiras.

Crianças que convivem com adultos semi-analfabetos, que não têm hábito de leitura, que vivem em ambientes de promiscuidade, que tratam os pequenos na base da agressão física e dos palavrões. Adolescentes cuja única opção cultural é baile funk, que não têm ao menos contato com outras escolas musicais. Garotos cujo exemplo é o traficante de drogas de arma na mão.

O resultado disso são meninos e meninas agressivas, que gritam mais do que falam, sexualmente precoces, que não aprenderam a ter limites e, por isso mesmo, não respeitam ninguém. Para completar o ambiente escolar é totalmente impróprio, com mobiliário velho, paredes sujas e descascadas, equipamentos quebrados e ultrapassados, salas pequenas e sem ventilação ou refrigeração. Quando não faltam profissionais (professores e funcionários), os salários são ridículos. Quem consegue ensinar ou aprender alguma coisa num ambiente desses?

Apesar de tudo isso quem estudou em escola pública como eu sabe que nela foi possível aprender mais do que letras e números nas salas de aulas, mas principalmente a lição da vida. Ainda dá tempo de recuperar um ensino público, democrático e de qualidade. Basta ouvir a sociedade e deixar os educadores tomarem conta dele.  

Seria de bom tom se todos os membros dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário fossem obrigados legalmente a matricular seus filhos e netos em escolas públicas. Certamente a Educação não estaria largada à própria sorte como está.

Os engomadinhos Cabral e Paes logo correram para a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, ávidos para tirar uma casquinha política do massacre que vitimou crianças. Um ex-aluno de 23 anos, portador do vírus HIV e de comportamento estranho nos últimos dias – segundo sua própria irmã – entrou na escola disparando. Carregava dois revólveres calibre 38 e usava colete à prova de balas.

Desnecessário descer aos pormenores do massacre, historiar a vida breve da maioria dos mortos e feridos. Especulações de toda espécie aparecem nos noticiários, com versões desencontradas sobre o caso. O sujeito seria um psicopata, um ser anti-social e todo um discurso que joga a responsabilidade exclusivamente nas costas do assassino. Até uma carta escrita pelo próprio criminoso teria sido encontrada, com justificativas para o massacre.

Mas algumas respostas precisam ser dadas à sociedade pelas autoridades sobre o ocorrido. 1) Como duas armas letais e um colete à prova de balas chegaram às mãos do assassino? 2) Como um único atirador com dois revólveres 38 pode matar mais de 10 e ferir 20 pessoas? 3) Houve troca de tiros, tiroteio dentro da escola cheia de alunos? 4) Por que não há guardas municipais nas portas das escolas da Prefeitura, se uma das funções da GM é proteger os Próprios municipais?

Estas poderiam ser algumas das perguntas dirigidas aos senhores Cabral e Paes. Indignado, Cabral preferiu enaltecer o ato de heroísmo dos policiais. Lamentavelmente a mídia prefere vender o espetáculo, aplacando a função da imprensa, justamente no dia do Jornalista.

A explosão de mais um bueiro da Light em Copacabana (o décimo desde 2007) dá a dimensão da bagunça que envolve o subsolo da cidade olímpica. Um tampão de ferro foi arremessado para o alto e atingiu um táxi, ferindo cinco pessoas. O próprio presidente da empresa veio a público e reconheceu a existência de outros 130 pontos críticos, principalmente no Centro e Copacabana.

A cada três meses um bueiro da Light apresenta problema. Há suspeitas que os transformadores mais velhos sejam alimentados com ascarel, aquele óleo altamente tóxico que foi proibido. Já se levanta a possibilidade de que a empresa não tenha sequer licença ambiental para operar seus aparelhos adequadamente e sob os parâmetros exigidos pela legislação.

Mas não é só a Light que entra nesse rolo. Até hoje não existe um mapeamento sério do subsolo da cidade, o que indica que as sucessivas administrações municipais simplesmente ignoraram que o que está abaixo dos nossos pés é de responsabilidade da Prefeitura. Empresas de telefonia, de TV a cabo, Cedae e outras também usam o subsolo da cidade para suas atividades.

Só em fevereiro deste ano foi anunciada a contratação de um estudo para o levantamento da situação, que deve ficar pronto em 2012. Enquanto isso o cidadão carioca e os que visitam a cidade seguem sob o risco de serem projetados para o alto por verdadeiras minas terrestres ou bombas-relógio.

Como se vê o Rio é mesmo o paraíso das concessionárias, que mandam até debaixo da terra. A velha Light, que outrora fora dos ingleses e depois foi estatizada, não era nenhum exemplo de empresa quando pertencia ao Estado. Ao menos era possível pressionar e fiscalizar seus serviços. Hoje, novamente privada, anda para a população. Salve-se quem puder!