Descobrir o Brasil

25/11/2013

A sociedade brasileira insiste em negar suas origens e maquiar sua própria História. “Aqui habita um povo pacato, ordeiro e trabalhador, que a todos recebe de braços abertos”, é o que ouvimos há várias gerações. Nada mais cínico e mentiroso.

Como todo o continente americano, somos parte das mais absurdas experiências de massacre que parte da humanidade perpetrou e da qual outra parte foi vítima. Por interesses econômicos da Corôa portuguesa, praticamente toda a população originária do que mais tarde veio a ser chamado de Brasil foi dizimada.

Nossos primeiros ancestrais não tinham “alma”, atestava a Igreja Católica, que chancelava e era beneficiária da expedição colonial das Américas. Se não tinham alma eram apenas seres que podiam ser tratados como animais, ainda que nem aos animais se deva tratar com violência e desonra.

Contraditoriamente, o maior de todos os empreendimentos de resistência, as missões jesuíticas do sul do país, foi dizimado com o consentimento da cúpula da própria Igreja Católica. Os colonialistas usaram as rixas e desavenças quase ingênuas entre as nações originárias como instrumento ardiloso para dividir e reinar.

Como os “selvagens” não se “adaptavam” bem à escravidão – leia-se resistiam – e ao cultivo de espécies de interesse comercial (porque eram nômades), rapidamente a empreitada colonial portuguesa transferiu africanos de diversas origens para trabalhar nas fazendas de cana-de-açucar, na extração de ouro, no cultivo do algodão, do cacau e na lavoura do café.

Dos cerca de seis milhões embarcados na costa africana, mais da metade sucumbiu às doenças e naufrágios. Aqui chegando, parte de nossos outros ancestrais que resistiram à viagem foram separados e vendidos como escravos. Sob o açoite dos feitores e a vigilância dos capitães-do-mato, produziram tudo quanto lhes foi determinado por mais de três séculos, a maior parte enviada a Portugal e repassada ao Império Britânico.

Suas culturas, religiões, formas de organização foram ignoradas. Mulheres violadas, homens castrados, crianças e jovens humilhados. Mesmo com o advento da independência e o fim da empreitada colonial, nossas elites brancas mantiveram as bases da mesma sociedade escravista. O país trocou de mãos, mas a injustiça e humilhação de seu povo permaneceram.

Por isso, é inaceitável a hipocrisia com que nos enxergamos. A resistência dos quilombos, das missões jesuíticas, da Confederação do Equador, dos levantes do período regencial, das diversas rebeliões populares, da Revolta das Vacinas, da Revolta das Chibatas, de Canudos, do Contestado e tantas outras, atesta a vontade de nosso povo em ser livre e dono de seu destino.

A existência das favelas, dos bairros de periferia, de polícias militares assassinas, do trabalho doméstico em larga escala, do trabalho feminino desvalorizado, do grande latifúndio travestido de agronegócio, dos cartórios, dos presídios degradantes, dos condomínios fechados são apenas expressões contemporâneas da velha Casa Grande e das Senzalas.

O genocídio contra a população negra e jovem, a intolerância com as tribos originárias, o descaso com a educação e a saúde públicas, a corrupção desenfreada, a impunidade, o transporte de massas degradante são manifestações explícitas e cotidianas de um país forjado na base da violência, da exclusão social e da opressão das classes dominantes contra seu povo.

Não somos descendentes apenas de brancos europeus. Somos uma mistura dos povos que aqui já estavam e dos que aqui chegaram e ficaram – inclusive os portugueses – para viver suas contradições durante séculos de exploração. Fomos forjados a ferro e fogo, mas assim mesmo o que de melhor temos é fruto da sensibilidade de nossos ancestrais.

Que seria deste país sem Sepé Tiaraju e seus guerreiros? Sem Zumbi e seus quilombolas? Sem Angelim e seus cabanos? Sem os revolucionários malês da velha Bahia? Sem João Cândido e os marinheiros revoltosos? Sem Prestes e seus correligionários da Coluna?

Que graça teria este país sem o choro de Ernesto Nazaré, Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha? Sem o samba de Ismael Silva, Donga, Cartola e Paulo da Portela, abençoados por Tia Ciata? Sem as canções de roda e as composições clássicas de Villa Lobos? Sem os sambas do asfalto de Noel e as marchinhas de Braguinha? Sem as crônicas de João do Rio e Lima Barreto? Sem as rodas de capoeira de mestre Pastinha e seus seguidores? Sem os bailes de forró? Sem os terreiros de Umbanda e Candomblé?

Que identidade teríamos sem as personagens dos sertões de Guimarães Rosa, dos pampas de Érico Veríssimo e dos romances nordestinos de Jorge Amado? Sem Oswald de Andrade e seus modernistas? Sem o baião de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga? Sem a Bossa de Jobim, sem Vinícius, Chico e a Tropicália de Caetano e Gil?

Que soluções encontraremos para enfrentar nossos problemas sem as recomendações de Anísio Teixeira, as experiências revolucionárias de educação popular de Paulo Freire e as pregações visionárias de Darcy Ribeiro?

O Brazil ainda teima em desconhecer o Brasil. Este encontro com nossas origens é a chave que abrirá as portas de uma nação que poderá acertar contas com seu passado. Nada de demagogia de “cotas”, porque aqui os negros são a maioria. Nada de programinhas compensatórios de bolsas alimentares ou cubículos, porque essas são as soluções que as velhas classes dominantes encontraram para não perder seus privilégios. Ao povo cabe tão somente se apoderar e dividir as riquezas que produz.

Como nosso passado de exploração e sofrimento, nada de nosso futuro será dádiva das elites hipócritas que se envergonham de seu povo. O povo negro, indígena, mestiço e brutalizado de nosso país terá que arrancar sua libertação.

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A grande mídia anuncia os leilões dos aeroportos do Galeão e Confins. Foram R$ 22 bi arrecadados pelo governo, que devem entrar na conta do chamado superávit primário. De cara ficou acertado entre governo e compradores que as reformas dos dois aeroportos contarão com 70% de financiamento em dinheiro público. Ou seja, o velho e bom BNDES – pai e mãe do empresariado – vai arcar com R$ 9,2 bilhões em obras nos próximos 30 anos.

No Rio, já sem grande alarde, a Prefeitura leiloou as vigas do viaduto da Perimetral, desfazendo-se de material de aço nobre por uma mixaria. De acordo com o levantamento do CREA o material vale em torno de R$ 96 milhões, mas a empresa Metral arrematou as vigas por R$ 4,7 milhões. Convenhamos, uma diferença irrisória…

Construir aeroportos e viadutos – até mesmo os mais questionáveis – é parte de um esforço financiado por toda a sociedade, sobretudo os setores menos favorecidos, que mais pagam impostos no Brasil. Essas obras, quase sempre eivadas de muitas irregularidades e realizadas sem transparência, são fontes de todo tipo de corrupção e enriquecimento ilícito por parte de grandes empreiteiras e governantes.

Administrar o que é público exige planejamento, manutenção, fiscalização, pessoal, etc. Tudo que os nossos governantes não querem. Muito mais fácil é largar o patrimônio público até cair aos pedaços, deixar a opinião pública revoltada e fazer a mídia descascar. Com isso, cria-se a cultura de que o que é público não presta e não pertence a ninguém.

Em contrapartida, infla-se o balão da iniciativa privada, sempre disposta a fazer o “sacrifício” de administrar de forma “competente” o que deveria ser feito pelo poder público. É o que o cidadão carioca percebe todos os dias quando entra num ônibus lotado e sem refrigeração, quando precisa de um plano de saúde e espera semanas por uma consulta, quando pega um trem do inferno para se deslocar ao trabalho e para casa ou quando precisa do metrô, que liga o nada a lugar algum.

Com exceções, nossos governantes ganham quando inauguram e também quando se livram de grandes obras. Seja pelos recursos empenhados e desviados, seja pelo abandono da responsabilidade em administrar o que é público.

Setores estratégicos da economia brasileira foram e continuam sendo privatizados. Isso num país que sequer assegura aos seus nacionais ensino público de qualidade, tratamento de água e esgoto, hospitais e postos de saúde em condições, empregos e salários dignos. A corrupção em países como o Brasil é uma questão determinante para o crescimento da desigualdade. Ela tem conseqüências diretas nas péssimas condições de vida da nossa população.

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Ao justificarem como disputa ideológica a prisão dos líderes petistas envolvidos no escândalo do mensalão, tratando-os como presos políticos, os dirigentes do PT e seus porta-vozes pretendem dar ao caso um status que ele não tem e nunca teve.

Foi apenas e tão somente o uso do velho esquema do caixa dois de campanha, dinheiro que foi oferecido a parlamentares para serem fiéis ao governo no Congresso Nacional. A matéria não é nova, em se tratando de política brasileira, mas foi usada mais uma vez, agora pelo PT, que tanto criticava esse tipo de operação.

É evidente que as Organizações Globo e outros setores da grande mídia conservadora tentam vender o PT como a imagem do capeta. Até hoje não digeriram o fato de terem perdido o monopólio do poder e não encontrarem uma alternativa plenamente confiável.

Por trás da toga e do discurso aparentemente técnico de Joaquim Barbosa se esconde um homem de idéias conservadoras, cheio de vaidades, como aliás são quase todos os ministros do STF, a maioria deles nomeada pelos governos Lula e Dilma.

O PT não é vítima de nenhuma perseguição ideológica ou de uma polarização política entre direita e esquerda. Antes fosse… O PT é arquiteto e canal de consolidação da sociedade que temos, repetindo o velho lema das classes dominantes no século XX no Brasil: mudar tudo para não mudar nada.

O discurso é de mudança, a imagem é popular, mas o projeto é conservador. Isso está comprovado pelas escolhas que o PT fez nestes três mandatos, a começar pelas alianças políticas, com o PMDB – partido das oligarquias regionais – e outros partidos fisiológicos. A tal “base aliada” cobra seu preço e ele é alto, muito alto.

Os petistas mais inocentes ainda acreditam que esta era a única via para governar. A única via para governar sem atritos, certamente. No entanto, atritos e pressões são expressões da luta de classes, da natureza dos interesses conflitantes que estão em jogo numa sociedade com tanta desigualdade.

Quando as classes dominantes estão insatisfeitas, seus negócios são ameaçados de verdade e um projeto popular avança com apoio das massas, acende-se o sinal de alerta. Aí surge a conspiração em nome da “democracia”, em defesa da “liberdade de imprensa” (na verdade de empresa), boicotes de abastecimento e outras coisas vergonhosas, como se viu no Chile de Allende e se vê hoje na Venezuela de Chavez e Maduro. Criam o caos para justificar o golpe.

No Brasil o único ruído que se houve na grande mídia são resmungos, maus prognósticos, muxoxos. Em verdade, a grande burguesia brasileira vai muito bem, obrigado.

Senão, vejamos: algum setor estratégico da economia foi nacionalizado ou estatizado pelos governos do PT? Algum setor do sistema financeiro foi prejudicado pela política econômica destes governos? O monopólio da mídia foi ameaçado em algum instante? A reforma agrária foi levada adiante? Ao contrário, os governos do PT consolidaram os interesses das grandes empresas. E se faltar capital, basta bater a porta do velho e bom BNDES para receber uma mãozinha…

Nada, absolutamente nada do que é fundamental para as classes dominantes foi alvo destes governos. Nem sequer uma auditoria da mentirosa dívida pública (interna e externa) brasileira foi feita, o que faz escorrer bilhões de reais pelo ralo que alimenta os credores do país todos os anos. A privatização de empresas, que foi um diferencial nas eleições, é coisa do passado. Dilma leiloou o maior campo de petróleo de pré-sal já descoberto e vai leiloar os aeroportos.

Para se diferenciar dos tucanos, seus velhos adversários eleitorais, os petistas apresentam a ladainha dos avanços sociais: 35 milhões saíram da miséria, as pessoas estão se alimentando, formou-se uma nova classe média que consome bens duráveis. Pouco importa se houve não avanço significativo na Educação, na cultura, nas condições de vida, nas relações de trabalho e se as pessoas estão endividadas. O PT distribuiu peixe, mas não ensinou ninguém a pescar.

Em resumo, o PT se tornou presa fácil de sua própria armadilha. Não se enfrenta as classes dominantes com ilusionismo e maquiagem, mas com medidas concretas que toquem em seus privilégios para distribuir a riqueza. Dificilmente os tucanos voltarão ao governo nas próximas eleições, mas isso não é um problema para o grande capital no Brasil. Afinal, nada mais tucano que a política do governo da Base Aliada.

A prisão de Dirceu, Genoíno e outros petistas menos cotados representa apenas um troféu para os setores mais conservadores da sociedade, um acerto de contas com antigos adversários e ex-guerrilheiros. Um troféu de consolação, já que os observadores mais atentos sabem que Dirceu, antes um “temível guerrilheiro”, hoje é apenas um lobista de grandes empresas.  

Depois de idas e vindas, com recursos de todo tipo, os mensaleiros foram finalmente parar atrás das grades. Pizzolato (ex-diretor do BB), que não tem costas tão largas assim, apelou para sua dupla nacionalidade e decidiu fazer pizza na Itália. Fala-se até numa possível troca: o Brasil entregaria Cesare Battisti e a Itália mandaria Pizzolato de volta. Será?

Ocorre que no meio do show, transmitido ao vivo pela Globonews no feriadão da proclamação da República, vários lances midiáticos puderam ser observados, com direito a comentaristas, direto do estúdio. Avião da PF para pegar os mensaleiros em São Paulo e Minas, gente que foi condenada a regime semi-aberto sendo encarcerado junto com os demais. Tudo para agradar a sede de “vingança” da chamada opinião pública.

Joaquim Barbosa continua exibindo sua já conhecida intolerância com tudo e com todos. Tudo bem que o sujeito esteja com a coluna torta, mas não precisa exagerar na irritação. Promovido a paladino da Justiça pelas Organizações Globo, Barbosa é uma espécie de Collor da atualidade. Não será de assustar se o atual Presidente do STF tiver seu nome seriamente cogitado para a Presidência da República por setores conservadores no ano que vem.

Como escrevi aqui em outras ocasiões, a turma do mensalão (ou do caixa dois de campanha, como queiram) tinha mesmo que ver o sol nascer quadrado. Não adianta as viúvas do PT alegarem que Dirceu, Genoíno, Delúbio e companhia são presos políticos. Seu crime foi tão comum quanto outros que já se viu neste país e que eles tanto condenaram.

Duro mesmo para os petistas não será amargar um tempinho na cadeia, mas ter que acordar com a interpretação matinal de “O sole mio”, na voz vibrante de Roberto Jefferson. Mas, apelando ao ditado popular, “diga-me com quem andas…”

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O Cruzeiro é Campeão Brasileiro 2013 com uma campanha irretocável. E o seu elenco nem é superior ao de outros clubes. O que fez a diferença? A estrutura do clube com sua Toca da Raposa? Talvez isso possa ter ajudado na conquista. Salários em dia? Também. Mas o que salta aos olhos é o trabalho do Marcelo Oliveira, treinador que tem raízes atleticanas e que enfrentou resistências quando chegou ao Cruzeiro.

Marcelo reuniu um grupo de jogadores de forma criteriosa. Combinou gente de algum talento, mas que chegou desacreditada, com garotos velozes. A começar com um bom goleiro (Fábio) e a contratação de Dedé (ex-Vasco), que deu mais firmeza à sua defesa. Nas laterais resgatou Egídio (formado no Fla) e manteve as melhores qualidades dos seus alas, com capacidade ofensiva e defensiva.

No meio juntou cabeças de área como Nilton (ex-Vasco), Leandro Guerreiro (ex-Bota), Tinga (ex-Inter), Souza (ex-Náutico) e outros que se firmaram no meio do caminho, como Lucas Silva. O grande nome da campanha de 2013 foi Everton Ribeiro, que saiu do Corinthians desacreditado e chegou ao Cruzeiro para brilhar.

No ataque Willian (ex-corintiano) e Ricardo Goulart. Note-se que Dagoberto, Borges, Martinuccio e Julio Baptista, jogadores tarimbados e de qualidade, foram apenas coadjuvantes num time veloz e objetivo. Do elenco cruzeirense não se pode destacar nenhum grande craque, digno de vestir a amarelinha.

Nas estatísticas, o que mais chama atenção da campanha cruzeirense, além do número de vitórias (23 em 34 jogos), é o de gols marcados: 72 até agora. É evidente que uma equipe com esses números privilegia o ataque e os grandes objetivos do futebol: os gols e as vitórias. Contrariando a mesmice modorrenta dos “professores”, Marcelo Oliveira formou um time preocupado em vencer e não em garantir resultados e seu emprego.

Marcelo já havia sobressaído em seu trabalho à frente do Coritiba, quando levou o clube paranaense à decisão da Copa do Brasil. Mas agora parece mais maduro, mais convicto do que propõe. O futebol brasileiro precisava de um treinador ofensivo, sem medo, humilde, mas disposto a resgatar o toque de bola rápido e objetivo. Uma espécie de Cuca com mais tranqüilidade.

E agora? Como explicar os super-técnicos e seus salários astronômicos? O que dizer de Tite e a pálida campanha do Corinthians, clube que mais empatou no campeonato? E Luxemburgo, que decepcionou no Grêmio e afundou o Flu? Quem pode defender Mano Menezes, que não conseguiu sequer formar um time titular no Fla? E o grande Oswaldo, que formou um time enceradeira (roda, roda, roda…)? O pior de todos foi mesmo o Dorival Junior, que derrubou todos por onde passou e ainda pode levar o Flu para a segundona.

Parabéns ao Cruzeiro e aos seus torcedores pelo título de 2013. Parabéns ao seu treinador, Marcelo Oliveira, digno representante do futebol brasileiro.

Obs: Ainda que tardio, o movimento dos jogadores de futebol por seus direitos foi outra grata surpresa neste final de Campeonato Brasileiro.

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1 – MP do Rio arquiva investigação sobre viagem de Cabral e Cavendish

Por seis votos a quatro o Conselho Superior do Ministério Público do Rio de Janeiro arquivou o pedido de investigação sobre aquela viagem do governador a Paris, em 2011, junto com seu amigo Fernando Delta Cavendish. Será que até o MP está dominado no Rio? Sempre ouvi dizer que a função do MP é investigar assuntos de interesse relevante, sempre que provocado pela sociedade (inclusive a imprensa). A denúncia não deu em nada, mas o bate-boca entre membros do Conselho deu a entender que há algo de podre nos interesses que rondam o MP do Estado do Rio de Janeiro.

 

2 – Depoimento de bandido vira propaganda do governo do Rio

Muito conveniente a Polícia do Rio apresentar uma gravação em que um suposto ex-gerente do tráfico no Alemão denuncia um suposto esquema para desacreditar o governador e as UPP, supostamente infiltrando gente em manifestações públicas. Com tanta suposição, também me dou ao direito de supor que quem “vazou” o tal depoimento supõe que todos os cidadãos fluminenses são idiotas. A propósito: qualquer um pode supor que o perigoso marginal recebeu algo em troca para arriscar sua vida assim…

 

3 – Da série “Tira o sofá da sala”

Projeto do senador tucano, Aloysio Nunes (SP), a PEC 33, prevê a redução da menoridade penal para 16 anos nos casos de crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia: tortura, terrorismo, tráfico de drogas e hediondos (artigo 5º, inciso XLIII da Constituição). A proposta do senador Aloysio também inclui os casos em que o menor tiver múltipla reincidência na prática de lesão corporal grave ou roubo qualificado. Nos últimos anos a classe média brasileira e seus representantes tem se esmerado em combater as conseqüências dos problemas, ignorando ou minimizando suas causas. Mais um projeto da série “Tira o sofá da sala”… 

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O verso cantado por Bezerra da Silva define com simplicidade a vida do que o IBGE denomina de “aglomerados subnormais”. Mas apesar do polêmico termo técnico, os dados do Censo 2010 sobre favelas, mocambos, palafitas, invasões e outras denominações regionais, não deixam margem a dúvidas sobre as condições de vida de grande parte da população brasileira.

Será possível dizer que somente 11,4 milhões de pessoas – ou pouco mais de 5% da população do Brasil – vivem em favelas? Qual a diferença de uma favela para um bairro na periferia, cabeças de porco ou conjuntos habitacionais de Recife, Belo Horizonte, Belém, São Paulo ou do Rio? O que, de fato, mudou no Brasil nos últimos anos para grande parte da sua população pobre?

A farra do crédito fácil, inaugurado nos governo do PT/Base Aliada, reforçou o acesso dos mais pobres a bens de consumo duráveis, como TV e geladeira. No entanto, o grande fosso social está na questão salarial e, sobretudo, no grau de instrução da população das comunidades de favela.

Em outras áreas pesquisadas em 2012 pelo IBGE 18,8% dos habitantes tinham rendimento médio per capta de até meio salário mínimo, mas nas favelas este percentual chegava a 31,6%. Na outra ponta da pirâmide, apenas 0,9% dos moradores das favelas tinham rendimento per capta de mais de cinco salários mínimos, enquanto nas demais áreas pesquisadas este percentual era de 11,2%.

Isso pode ser explicado por uma questão básica: a escolaridade. Nada menos que 56% dos moradores de favelas não tinham sequer o nível fundamental completo. Outros 20,5% tinham o nível fundamental completo e o nível médio incompleto. Apenas 21% dos moradores de favelas possuíam nível médio completo e superior incompleto. Restaram 1,6% dos moradores com nível superior completo.

Essas informações, que retratam o Brasil de 2010, revelam parte da tragédia social do nosso país. Através delas se pode ter a dimensão da realidade da grande maioria da população brasileira, que reside em condições um pouco melhores, mas semelhantes, as das comunidades de favelas.

A fronteira entre os bairros populares das periferias das grandes cidades e as favelas é pequena. A saída para a superação da desigualdade está justamente na educação. E os dados do IBGE nas ares de favelas revelam a tragédia educacional brasileira. Sem instrução não é possível galgar melhores postos de trabalho e melhor remuneração.

Mesmo com mais TVs, geladeiras e outros eletrodomésticos, a tendência é que essa população marginalizada siga “presa na miséria da favela”. Assim, é evidente que as periferias se constituem como verdadeiros guetos, nos quais o povo brasileiro está condenado a seguir apartado da classe média e dos ricos.

Acerto de contas

06/11/2013

É impressionante a promiscuidade entre governantes e empresas privadas no Brasil. Sob a justificativa de que existe uma perda grande de arrecadação, com os chamados “gatos”, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) concedeu à Light um aumento extra de 6,2% no preço da energia que a empresa compra do governo e repassa aos consumidores.

Na média o cidadão comum vai desembolsar 4,7% a mais para pagar suas contas de luz a partir de 7 de novembro. Já as indústrias terão redução de 1% em suas contas. O aumento contraria a proposta de revisão tarifária da própria Aneel, divulgada em agosto deste ano, que previa uma redução média nas tarifas da Light de 3,3%.

O roubo de energia, através dos chamados “gatos” (o que não ocorre apenas em comunidades carentes), seria responsável por perdas que chegariam a 40% das perdas da Light. Os impostos (ICMS) e energia comprada a custo mais alto também foram usados como argumentos para mais esta garfada no bolso do consumidor.

Para reduzir as perdas a Light promete investir mais de R$ 1 bilhão nos próximos cinco anos. Para isso, segundo seu Presidente, a empresa conta com o programa de segurança pública do governo estadual (UPP).

Ora, a UPP é um programa que já está sendo implantado há mais de cinco anos pelo governo estadual e está presente em mais de 30 comunidades do Rio. Ainda de acordo com a Light, apenas 4% dos consumidores residenciais fluminenses estão incluídos na chamada tarifa social (a preço reduzido).

Ou seja, com a implantação das UPP o aumento do faturamento da Light é líquido e certo. Ao contrário de usar os “gatos” como desculpa para pedir e conseguir aumento das tarifas de energia, a Light primeiro deveria ter feito o dever de casa.

A Light é uma das maiores prestadoras de serviços de energia elétrica do país. A empresa atinge mais de 4 milhões de unidades consumidoras (residências, comércio e indústrias) em 31 municípios do Rio de Janeiro. No entanto, seus serviços deixam muito a desejar. Em 2011 e 2012 a Light ultrapassou o limite tolerado de freqüência e duração das interrupções de fornecimento de energia. De acordo com dados da Aneel, a empresa foi obrigada a desembolsar R$ 47 milhões para compensar perdas de seus clientes.

Com todos os transtornos que causa aos consumidores, a Light teve como resultado em 2012 um lucro líquido de R$ 424 milhões, ou 24% a mais do que o registrado em 2011. No entanto, no ano passado os investimentos realizados pela Light foram 14,2% menores que em 2011.

Ou seja, apesar de todo o alarde que o governo Dilma fez com a redução das tarifas de energia, a partir de janeiro deste ano (uma média de 18%), no final das contas a Light não vai ter perdas. Basta lembrar que em novembro do ano passado a tarifa da Light aumentou, em média, 12,27%. Se somarmos a isso os 6,2% de agora, a empresa não pode reclamar nada.

Só quem pode e deve reclamar são os cidadãos do Estado do Rio de Janeiro, que contam com um serviço caro e de péssima qualidade. Afinal, quem está “gatunando” quem? E viva a privatização!!!

Caos do Porto

04/11/2013

Qual seria a intenção de um consórcio formado por grandes empreiteiras da construção civil, ao receber uma área de 5 milhões de metros quadrados, às margens da Baia de Guanabara? Revitalizar o Cais do Porto? Oferecer belas paisagens aos cariocas e turistas? Abrir parques e jardins públicos para deleite dos moradores da região?

Que a Perimetral sempre foi um absurdo não há dúvida. Nenhum carioca aplaudia aquele monstrengo que sacrificou a vista para a Baía e a vida dos moradores da área do Cais do Porto. Construído somente para desafogar o trânsito na cidade com pior mobilidade urbana do país, o viaduto pairava como uma aberração, mas ao menos quebrava um galho no propósito para o qual foi construído.

Antes mesmo de criar uma via expressa capaz de substituir a Perimetral e dar vazão ao trânsito caótico na região, a Prefeitura do Rio decidiu pela sua demolição. Mesmo que alguma ação judicial determine a paralisação das obras, a Perimetral já não mais poderá ser utilizada. O Prefeito delegou ao seu secretário de transportes, Roberto Osório, o papel que ele tanto gosta de representar: otimista de plantão. Para ele tudo está sempre bom, com alguns pequenos probleminhas a serem corrigidos. E para que tanta pressa?

Ao arrepio dos conselhos de estudiosos de transporte e trânsito, a Prefeitura acelerou a derrubada da Perimetral. Afinal, há muita coisa em jogo no grandioso projeto de “revitalização” do Cais do Porto. Acontece que Eduardo Paes quer ser candidato em 2016 e quer a obra pronta em tempo útil para fazer sua campanha. Acontece que o consórcio Porto Maravilha precisa limpar a área o quanto antes para seus grandes empreendimentos imobiliários, verdadeiro motivo pelo qual um grupo de empreiteiras detém plenos poderes sobre toda a região.

A derrubada da Perimetral, portanto, não segue uma lógica humanista de recuperar o Cais do Porto e as belezas do Rio para o cidadão. É claro que haverá alguns melhoramentos que deverão embelezar a região, mas não para o carioca e muito menos para os atuais moradores dos bairros vizinhos, gente muito pobre e herdeira da tradição portuária da cidade.

A nova região do Cais do Porto está reservada a grandes prédios, escritórios de grupos financeiros nacionais e estrangeiros. Tão pouco haverá espaço para o pequeno e o médio empreendedor para se aventurar na área. Todo um pedaço importante da História do Rio foi entregue à administração de um grupo privado voraz, que tem como meta extrair dali o máximo de lucros que puder. A Prefeitura entra como parceira para gastar em obras de infraestrutura com muito dinheiro público.

Outras cidades do mundo revitalizaram seus antigos portos, áreas que se tornaram decadentes ao longo do tempo. Mas pelo tamanho do chifre se imagina o touro e o nosso Porto do Rio vai pelo caminho de Puerto Madero, de Buenos Aires, uma área cara e totalmente reservada aos grandes negócios. A diferença é que Puerto Madero era uma região sem grande influência na locomoção dos buenoairenses, já a Região portuária do Rio forma uma artéria fundamental para o trânsito da nossa cidade.