O tom informal usado nas conversas de empresários e representantes de empresas numa suposta concorrência de urgência para um hospital público, mostra que eles estão mesmo bem à vontade. Ruffolo, Locanty e o dono da Toesa estão em todas, nas três esferas de poder. Contratos com o Estado, na Capital e até com a União.

O negócio é tão fácil e rentável que qualquer testa-de-ferro com boas indicações pode participar e tirar sua casquinha. É só notar o palavreado usado pelos representantes das empresas flagrados na reportagem. Percebe-se que são pessoas sem verniz, gente de poucos recursos intelectuais, ao estilo emergente da Barra.

Vale lembrar que no caso do acidente do helicóptero do dono da Delta, o governador foi flagrado em relações um tanto íntimas com um dos maiores prestadores de serviços ao Estado. Agora é a vez do Presidente do Tribunal de Contas do Município, comodoro do Iate Clube Jardim Guanabara, aparecer em ligações íntimas com os amigos da Ruffolo e Locanty.

Em matéria publicada por veículo de comunicação daquele clube, Rufolo tece detalhes sobre sua vida, gostos e personalidade na coluna “Prata da Casa”. Ali, Rufolo Villar afirma que sua filosofia é “ser bom” (?). O sujeito também revela sua paixão por viagens, nos vídeos em que aparece em Aspen, Bariloche e Las Vegas, gastando a grana suada do contribuinte. João Barreto, um dos proprietários da Locanty, também é “prata da casa”, visto que sua empresa patrocinou a equipe de futebol-soçaite Iate-Modus.

Já o português David Gomes de Lima, presidente da Toesa, foi agraciado com honrarias parlamentares. Do ex-deputado Jodenir Soares (PTdoB) recebeu a Medalha Tiradentes e da deputada Aparecida Gama (PMDB) levou o Título de Cidadão do Estado. Segundo os proponentes, as comendas se justificam “pelos relevantes serviços prestados à população na área de atendimento médico-emergencial” e “pela filosofia de honestidade e ética profissional”.

Não sou moralista, nunca fui e tenho raiva de quem é, mas o problema da corrupção no Brasil é que ela é parte integrante da Parceria Público-Privada estabelecida entre governantes corruptos e empresários corruptores há muito tempo. O preocupante é que esses desclassificados formam verdadeiras máfias e ampliam seus poderes, ocupando cada vez mais espaços nas esferas do Executivo, Judiciário e Legislativo.

Chico Anysio já não aparecia como protagonista na TV fazia tempo. Tirando uma ponta aqui outra homenagem lá, Chico já não tinha mais espaço na Globo. Seu humor popular não combina com o besteirol e a vulgaridade que dominam a telinha. Mas quem tem TV paga ainda pode vê-lo todos os dias no Canal Viva (35 da NET) na sua inesquecível Escolinha do Professor Raimundo.

Cada um de seus 209 personagens ganhou vida própria ao longo de seus 65 anos de carreira. Ao entrar em cena Chico Anysio sumia e surgia uma figura, sempre caricata, que qualquer pessoa do povo conhecia ou identificava. O malandro Azambuja, o velho contador de estórias Pantaleão, o pastor dos milagres Tim Tones, o artista convencido Alberto Roberto, o pai de santo Painho, o funcionário da Globo Bozó, o velho ranzinza Popó, o político cínico Justo Veríssimo, Salomé, a conselheira política dos presidentes. Foram tantos e tão bons que cada um deles daria um livro da coletânea de personagens que Chico criou.

Seu humor não era sofisticado, porque era popular. Mas em cada tipo que criava podia-se perceber claramente um tom crítico e cômico. A genialidade impressionante com que desenvolvia as personagens e suas características marcantes era de dar inveja a qualquer analista. Por isso fazia sucesso.

Chico era comediante, se apresentava em shows nos teatros, escrevia livros, compunha músicas, fazia roteiros, pintava quadros e também era ator de TV e cinema. Um artista completo, uma espécie de Pelé do humor, por isso insubstituível. Podia ter feito sucesso sozinho, mas sempre arrumava um jeito de promover novos talentos e dar oportunidade a colegas que estavam no ostracismo.

Mas o que o distinguia dos demais? Sua genialidade cresceu com sua carreira porque Chico era dono de uma vasta cultura, a qual somou mais e mais elementos ao longo da vida, na medida em que os anos avançaram. E com tudo isso jamais se afastou de sua marca: a simplicidade. Foi assim que desenvolveu a capacidade de observar os indivíduos e os fenômenos para construir suas personagens. Agradeço por ter tido o privilégio de vê-lo atuar.

Coincidência, mas os atentados terroristas atribuídos a um membro da Al Qaeda (sempre ela…) deram um upgrade na campanha de Sarkozy à reeleição presidencial, na França. Estranho… O terrorista foi cercado e morto por policiais franceses, que já tinha toda a ficha do sujeito.

Só pra recordar, o perigoso Bin Laden, cuja caricatura foi retratada no quadro “No cafofo do Osama”, do Casseta & Planeta, era membro de uma família de ricaços do petróleo, da Arábia Saudita. Sua primeira grande façanha: combater o exército soviético no Afeganistão, com apoio logístico, financeiro e material da CIA.

Comeu tanto na mão que acabou comendo a mão, como diz um amigo. Com a retirada das tropas soviéticas os talibãs tiveram campo livre para tomar o poder e governar o Afeganistão.

Lá pelos idos do início dos anos 2000, quando o governo Bush filho ia de mal a pior em sua popularidade, do nada aparece um punhado de fanáticos que organiza o atentado às torres gêmeas. Coincidência ou não, Bush filho unifica a nação em torno do governo e parte para a invasão do Afeganistão e do Iraque.

O déficit público norte-americano explode com a compra desenfreada de armamentos e equipamentos para sustentar a máquina de guerra dos EUA no oriente-médio. Bush filho é reeleito, centenas de milhares de civis perdem suas vidas nos bombardeios yankees. Afinal, quem se importa com coreanos, vietnamitas, palestinos, afegãos e  iraquianos? O que vale é que a máquina de guerra norte-americana continue de pé.

De lá pra cá virou moda todo governante conservador dos países mais ricos do Planeta alertar para os perigos do terrorismo da rede Al Qaeda. De preferência próximo de uma eleição ou decisão política importante. Fanatismo de conotação política ou religiosa sempre existiu. O interessante é como os serviços secretos das grandes potências lidam com isso.

Fica a nítida impressão de que esses grupelhos estão todos mapeados, são monitorados e usados convenientemente para diversos propósitos. O mais evidente deles é alimentar a eterna vigilância e a histeria conservadora nos EUA e em Israel.

Faz alguns anos o governo do PP, da Espanha, bem que tentou culpar o ETA e até ligá-lo diretamente a Al Qaeda nos atentados aos trens de Madri, mas o plano foi desmontado e o PP tomou uma lavada eleitoral.

Cá pra nós, essa tal de Al Qaeda é um grande achado para as potências imperialistas e suas pretensões. A Al Qaeda volta e meia divulga comunicados, promove atentados e seqüestros de cidadãos de países ricos. O discurso é sempre fundamentalista, baseado num fanatismo que nada tem a ver com as tradições do Islã. Mesmo com a perseguição e morte de seus líderes ela nunca é desbaratada. Como!? Numa época em que qualquer pessoa pode ser vigiada 24 horas por aparelhos ultra-sofisticados sem nem desconfiar?

Podem dizer que se trata de teoria da conspiração, mas essa turminha do falecido Bin Laden é mesmo uma “mão-na-roda” para as pretensões da indústria das armas e dos conservadores. Se ela não existisse alguém a inventaria…

Dados sobre doações de campanha da empresa Locanty, com base em informações do TRE-RJ e publicados na coluna do jornalista Fernando Molica (O Dia – 20/3/2012), comprovam a sustentação política das práticas de corrupção de grande monta no Estado do Rio.

De acordo com Molica, só a Locanty teria doado R$ 3,3 milhões nas eleições de 2010 para campanhas eleitorais no Rio de Janeiro. Os agraciados foram: PMDB = R$ 1,7 milhão; PT = R$ 800 mil; PSB = R$ 350 mil; PSC = 250 mil; PCdoB = 120 mil; PPS = 50 mil; PSDB nacional = R$ 50 mil.

Levantamento do Jornal Extra também dá conta que as quatro empresas cujos representantes apareceram nas imagens da reportagem do Fantástico – Locanty, Bella Vista, Toesa e Rufolo – faturaram R$ 345 milhões nos últimos quatro anos, em contratos com o Ministério da Saúde, a Prefeitura e o Governo do Estado.

Trata-se de prática mafiosa, de organizações criminosas que se locupletam de recursos públicos para seus negócios. Para isso, obviamente contam com o beneplácito de governantes que ajudam a eleger.

Novidade? Nenhuma, só que agora existem provas mais do que cabais do esquema das licitações fraudulentas, sobretudo em situações “emergenciais”. Uma das figuras filmadas na reportagem define a propina como a “ética do mercado”.

A reportagem do Fantástico é a ponta do iceberg. Estes mesmos esquemas certamente são utilizados nos outros estados e em outras instituições federais. Tudo isso cresceu muito depois que surgiu o recurso da terceirização de serviços, que originalmente eram de competência dos próprios órgãos públicos.

Órgãos públicos gastam muito mais recursos do que desembolsariam se tivessem servidores para as funções desempenhadas por empresas terceirizadas e, em geral, os funcionários dessas empresas recebem salários miseráveis. Segundo estudos do mercado de trabalho brasileiro, os terceirizados já representam ¼ de toda a mão–de-obra em atividade em todo o país.

Corrupção não é um fenômeno genuinamente brasileiro, mas no Brasil é parte fundamental das receitas de grandes empresas. Não por acaso o perfil da nova classe dominante brasileira é o dos emergentes da Barra, gente com muito dinheiro e sem qualquer formação ética e cultural, disposta a tudo, tudo mesmo, para defender seus interesses.

Não fosse o acidente que matou um ajudante de caminhoneiro na Rio-Petrópolis, o mega-empresário Eike Batista bem que poderia emplacar mais uma em seu currículo: pai de piloto de Fórmula 1. Seu garoto, Thor Batista, pilotava uma MacLaren, que chega a 300 por hora em 3 segundos de aceleração.

O que importa se testemunhas contam que o carro vinha em alta velocidade, tentou ultrapassar um ônibus e acabou atropelando Wanderson no acostamento da pista? Que importa se o impacto do acidente deixou destroços a 50 metros do local da ocorrência? Que importa se todas as fotos e imagens do veículo evidenciam um choque violento? Que importa se a ficha do motorista indica que ele já teria 40 pontos na carteira e não poderia sequer estar ao volante?

O que interessa é que o motorista teria socorrido a vítima e passou no teste do bafômetro. O advogado do piloto, ops… perdão, do motorista, competente como é, conseguiu retirar o carro do pátio da Polícia Rodoviária Federal, sob a promessa de que manterá o veículo tal como o encontrou. Ora, para que retirar o carro do depósito? Será que ele coleciona veículos avariados?

É evidente que a responsabilidade pelo acidente foi do ciclista imprudente, contra o qual pesa o fato de ser um joão-ninguém e filho de alcoólatras. Ou, como prefere a nota a da assessoria de imprensa da EBX (empresa de Eike), “que atravessava, inadvertidamente, a rodovia 040”.

O que não se explica é como o coração da vítima teria parado dentro do carro, se ele foi atingido atravessando a pista, portanto, de lado. Outra que não deu pra entender é como a bicicleta ficou inteira.

Se acaba precocemente com a carreira de piloto de Thor, o episódio ao menos acentua o caráter do pai. Diante de um acidente que poderia servir de exemplo para educar seu filho Thor, o todo-poderoso Odim se apressa em abafar o caso e construir um cenário em que a vítima se transforma em culpado pelo ocorrido. Imaginem o que será dessa pessoa se futuramente alcançar postos de comando… Ai de nós!

Depois do aumento de 60% nas passagens das barcas, autorizado pela Agetransp e referendado pelo Governador, agora os passageiros do Metrô e dos trens perdem o bilhete de integração mais barato. E de quebra entubaram mais 18% de aumento, isso se aderirem ao bilhete único da Fetranspor.

A alegação é que se tratava de uma promoção. Promoção em vigor há 12 anos!? E mais: que o sistema estava muito vulnerável com a venda irregular de bilhetes de integração. Ora, trata-se de um caso de polícia. Cabe à polícia receber a denúncia e investigar, porque bilhete de integração não nasce em árvore. Alguém está atravessando este sistema e este alguém está dentro das empresas. Alguma dúvida?

A solução encontrada tem muito mais a ver com a ganância das empresas do que propriamente com uma possível grande evasão de recursos. Como a Agetransp é um órgão figurativo e o governo estadual “anda” para a população, mais uma vez prevaleceu a cara-de-pau das concessionárias.

Cara-de-pau também dos nobres deputados estaduais. Eles alegam que não foram a favor e nem votaram nenhum reajuste das passagens das barcas, apenas aprovaram um projeto do Executivo que altera a forma de cobrança de tarifas, implantando o sistema subsidiado. O que dá exatamente no mesmo…

Vale lembrar que todo o sistema de bilhete único já é subsidiado pelo erário público. Ou seja, o cidadão do Rio de Janeiro paga caro para viajar de ônibus, trem, metrô e barca e as empresas ainda recebem um mimo do Governo. Com nosso dinheiro, é claro…

O maior problema de tudo isso é o verdadeiro caos em que essas concessionárias – com sua ganância – estão transformando o Rio e o Grande Rio. A chegada e a volta para casa de trabalhadores e estudantes virou um inferno. Todos os dias acontecem problemas, prenúncio de tragédias, como a que ocorreu recentemente em Buenos Aires. O ocorrido com o bonde de Santa Teresa foi só um aviso. Sinal de que prevenção e manutenção do sistema nunca foram prioridades para essas empresas.

Pouca gente falou a respeito, mas o sistema de trens urbanos da capital argentina foi privatizado na época de Carlos Menem e nos últimos anos protagonizou seis grandes acidentes. Será que vamos esperar mais para que isso aconteça aqui também?

Foram 23 anos de desmandos, negociatas que envolveram até a entrada no Brasil de equipamentos para um bar/restaurante de propriedade do próprio Presidente da CBF, no meio da bagagem dos campeões do mundo de 94. Duas copas conquistadas, se é que podemos lembrar da Copa dos EUA como vitoriosa. A seleção canarinho, símbolo do orgulho nacional e cartão-de-visitas do país, virou motivo de pilhéria no mundo esportivo, colecionando amistosos ridículos contra Andorra, Bósnia e outras menos cotadas.

Os chamados “amistosos da Nike” foram vendidos no mundo inteiro. Duas CPIs que encontraram sérios indícios de sonegação fiscal e evasão de divisas. Teixeira é acusado até hoje por um repórter da BBC de relações estreitas e de se beneficiar do contrato da FIFA com a ISL.

No lugar do amargurado Teixeira fica José Maria Marin, que na juventude era tão direitoso que combatia a UNE e chegou a ser nomeado governador de SP durante a Ditadura Militar. Entre outros dirigentes a CBF tem em seus quadros dirigentes o senhor Fernando Sarney, empresário sobre o qual também pairam dúvidas.

Como todo dirigente procurado da América Latina, Ricardo Teixeira já deixou o país e atualmente vive em Boca Ratón, Miami, terra dos piores corruptos, ladrões e assassinos. Há quem garanta que ele já está perfeitamente adaptado…

O pior da gestão Teixeira na CBF não foi a decadência da nossa seleção, mas o esquemão que foi montado para entregar o futebol brasileiro às Organizações Globo. Hoje não há campeonato regional ou nacional que não tenha a chancela exclusiva da Globo. Dirigentes de clubes corruptos embolsam dinheiro dos direitos de imagem e deixam a tabela (com dias e horários absurdos) nas mãos da TV. Os jogos passaram ser disputados pela conveniência da grade de anunciantes da TV, sob sol escaldante ou tarde da noite. Quem quiser que aceite ou então… azeite.

A filosofia da TV, obviamente, não é encher os estádios, mas aumentar a audiência. E o que se vê hoje nos campeonatos regionais? Arquibancadas vazias, jogos mal disputados, desinteresse e uma tabela para no máximo três meses. O resto do ano é para as competições nacionais, um filé para os grandes patrocinadores e para a Globo.

O mais dramático dessas mais de duas décadas de gestão Teixeira é o que se vê dentro de campo: futebol medíocre, de filosofia defensiva, que não ousa nada, que privilegia os botinudos (os cabeças-de-área) em detrimento dos craques e os “professores”, treinadores medíocres que estão aí para garantir emprego.

A despedida de Ricardo Teixeira da CBF pode ser comemorada pelos desportistas mais sérios de maneira simbólica. Já vai tarde, muito tarde! Mas, cá entre nós, mudam as moscas e a porcaria continua. Marin já deixou claro que sua gestão até depois da Copa de 2014 é de continuidade, ou seja, tudo como d´antes no Quartel de Abrantes… No Comitê Organizador Local da Copa fica Joana Havelange, filha de Teixeira.

Está evidente que a CBF, as federações e os clubes vão continuar sendo geridos sem qualquer transparência e democracia, com cartolas e a TV se apropriando da paixão do torcedor para faturar fábulas de dinheiro. Será que eles vão conseguir acabar com o futebol brasileiro, como temia o velho João Saldanha?

O ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, decidiu que não mais negociará com o secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke. Isso porque Valcke teria desrespeitado a Nação, ao afirmar que o Brasil precisa levar um pontapé no traseiro para que as obras da Copa de 2014 sejam realizadas a tempo.

Valckie é o homem forte da FIFA, administrador dos negócios que giram em torno da Copa do Mundo. Foi com ele que dona Dilma teve que se entender ano passado, para discutir a Lei Geral da Copa. Naquela oportunidade o governo brasileiro baixou a crista e entubou as imposições dos patrocinadores do megaevento.

Mas, por descuido ou ignorância a respeito do “jeitinho brasileiro”, provavelmente Valcke desconhece a modalidade brasileira de capitalismo. Aqui, senhor Valcke, o risco das grandes empresas é zero. Se está tudo atrasado não é por falta de planejamento, não. É para garantir os famosos aditivos contratuais de última hora, justamente sob a alegação de que os empreendimentos precisam ser concluídos em tempo, sob pena do evento ficar ameaçado. É aí que os contratos milionários se transformam em bilionários.

Em mais um rompante de nacionalismo de ocasião, o ministro Rebelo perdeu a esportiva com o secretário-geral da FIFA. Mas todas as condições impostas por patrocinadores, que afastam a Copa e os estádios do povão, continuam de pé.

É como se Aldo acenasse para a FIFA para dizer que aqui dentro quem manda somos nós. Em outras palavras, a roubalheira é grande, mas essa é só nossa, ninguém tasca e vocês, gringos, não têm nada a ver com isso.

Afinal, se a FIFA fica com a cereja, pelo menos nossas empreiteiras vão ficar com as fatias do bolo. E algumas fatias pagam as campanhas eleitorais dos partidos da “base aliada”.

Aniversário do Rio, Cidade Maravilhosa. Só se sabe o que a cidade natal representa quando se é obrigado a deixá-la, a trabalho ou por outras circunstâncias da vida. Já passei por isso e sei do que estou falando. Não que as outras cidades não mereçam suas homenagens, mas o Rio é diferente.

“Cariocas são sacanas”, diz a letra da música cantada pela gaúcha Adriana Calcanhoto. Sacanas na medida certa. Não há como resistir à lábia dos cariocas e à graça das cariocas. No Rio somos mais antropófagos que o resto do Brasil, afinal a cidade que foi durante muito tempo a capital do país, cujos olhos se abrem ao mundo pelos portos, dá um toque próprio a tudo que aqui chega. Por isso, a maioria que vem ao Rio se encanta e muitos largam tudo para ficar por aqui.

Cultura e política ainda encontram no Rio o maior tambor do Brasil. Aqui se deu a Revolta das Vacinas, a Revolta das Chibatas, o suicídio de Getúlio, a passeata dos cem mil. Outros movimentos contemporâneos, como a luta pela Anistia, a campanha das Diretas e o Fora Collor tiveram no Rio um espelho a irradiar mudanças por todo o país. É verdade que a Cinelândia anda esvaziada, mas ela continua ali, aguardando para ser preenchida por milhares de cariocas quando precisam dar seu grito de alerta.

Ser carioca é sempre ter feijão preto no prato, se possível aquela feijoada de domingo. Ser carioca é soltar pipa na laje, é ter uma piada saudável na ponta da língua para gozar de qualquer assunto, dos mais sérios aos mais jocosos. Ser carioca é rir de si mesmo, jogar totó, bater uma pelada, encostar a barriga no balcão de um pé-sujo, tomar uma branquinha acompanhada de um tira-gosto, de preferência aquele torresminho.

Desculpem pelo chute, mas só pode ter sido o carioca que inventou a cerveja bem gelada. Os alemães tomam cerveja na temperatura ambiente deles, entre 10 e 15 graus. Aqui só se pode tomar a loura estupidamente gelada, senão não desce. E como desce bem…

Por uma conjunção de fatores – a começar pela diversidade geográfica, com morros, praias, cachoeiras que convivem em harmonia – a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi um grande achado dos portugueses. Imaginem aqueles caras que ficaram meses no mar, enfrentando tempestades e calmaria, adentrando com suas embarcações à vela a Baía de Guanabara. Na época, com as águas cristalinas, rodeada de árvores e tribos de nativos, todos do jeito que vieram ao mundo. Com toda razão ficaram loucos.

E o sotaque carioca, único e inconfundível com seu erre arrastado e seu esse puxado herdamos justamente dos lusitanos. O resto é aquela mistura saudável, de mulatos de olhos verdes e louras de bunda grande.

Apesar dos pesares, da falsa malandragem, do jeitinho brasileiro, das milícias, do tráfico varejista de drogas, do tráfico de influência praticado por governantes, do clientelismo político das elites, do escracho dos transportes de massa, da vergonha em que transformaram nossas escolas e nossos hospitais, ainda é possível gostar do Rio. Sobretudo por um único motivo: o carioca, esse sujeito que ainda encontra motivos para levar a vida na esportiva, mesmo enfrentando tantos problemas em seu cotidiano.