Orgulho do preto*

14/11/2017

É preto, é coisa de preto

O samba de Cartola, Paulinho e Clementina

A engenharia dos irmãos Rebouças

O futebol de Leônidas, Didi e Pelé

 

É preto, é coisa de preto

O maior espetáculo da Terra

A literatura de Machado e Carolina de Jesus

A prosa de João do Rio e a crônica de Lima Barreto

 

É preto, é coisa de preto

O sax de Pixinguinha

O piano de Chiquinha

A elegância harmoniosa de Aniceto

 

É preto, é coisa de preto

O cinema de Pitanga e Ruth

A farofa dos terreiros

A feijoada de todos os brasileiros

 

É preto, é coisa de preto

A gargalhada de Grande Otelo

A determinação de Marighella

A palavra sábia de Milton Santos

 

É preto, é coisa de preto

São Jorge virado em Ogum

O amor declarado de Oxum

E a padroeira de Aparecida

 

É preto, é coisa de preto

A liberdade conquistada

a ferro e fogo

Sob a liderança de Zumbi e Dandara

 

É preto, é coisa de preto

O verso cortante de Cruz e Sousa

O martelo desconcertante do Aleijadinho

O pastoreio dos pampas do Negrinho

 

É preto, é coisa de preto

A dignidade de Luísa Mahin

A destreza de João Cândido

A tenacidade de Abdias do Nascimento

 

É preto, é coisa de preto

O que de melhor esse país produziu

E quem não gostou ou não entendeu

Que tome outro rumo

Ou, como diz aquele samba, “Vá pra longe do Brasil”.

 

* Com base no artigo de Aydano André Motta para o Projeto Colabora

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Está instaurado um conflito nas camadas médias no Brasil, que divide as pessoas por uma série de questões. Este confronto tem apenas uma aparência de conflito de gerações, ainda que ele esteja presente. Os nascidos a partir da década de 80 do século passado não viveram as crises mais graves de inflação, desemprego e baixo consumo.

São pessoas que cresceram sob a égide de uma sociedade que se abriu ao “mercado”, que não sabem o que é censura, que foram educadas num ambiente de extrema permissividade e com facilidade para acessar o mercado de trabalho.

Grande parte dessa turma de 20 a 30 anos de idade conviveu com certa estabilidade no emprego, cursos de pós-graduação e concursos públicos, programas de crédito que lhes permitiram dar entrada na casa própria, trocar de carro a cada cinco anos e fazer viagens ao exterior.

Além disso, são gerações que adiaram a formação da família e a chegada de filhos, esticaram a permanência nas casas dos pais, sem um gasto pessoal tão grande e com uma renda própria razoável.

Para essas pessoas o discurso da meritocracia cai como uma luva. Afinal, elas não têm noção de que as melhores escolas e universidades que frequentaram foram fruto de uma luta enorme de resistência de outras gerações de estudantes, professores e funcionários.

Tampouco sabem que a certa estabilidade econômica, de crédito, de emprego e de consumo que experimentaram foi fruto de toda uma luta contra o modelo neoliberal, que sucedeu à ditadura militar, implantado até o final da década de 90.

Queiramos ou não, o modelo econômico implantado pelos governos do PT, voltado para o mercado interno, foi a expressão máxima das reivindicações e das lutas dos trabalhadores das décadas de 70 e 80, justamente a geração que combateu a ditadura militar. Diga-se de passagem, boa parte desta política foi elaborada por intelectuais que emergiram da mesma classe média brasileira.

Muitos dos que hoje chegam ao serviço público e às empresas estatais não têm a menor ideia de que os direitos e benefícios que recebem não foram dádivas de nenhum governo, mas resultado de muitas lutas e greves. Boa parte despreza ou considera os sindicatos ultrapassados, mas não tem noção da importância que teve a organização sindical para uma série de conquistas que hoje parecem turvas em seus contracheques.

Este conflito, que opõe artificialmente os mais novos aos mais velhos, também é resultado de um sistema educacional que privilegiou o ensino privado. A grande maioria dos filhos da classe média urbana brasileira passou a frequentar as escolas particulares, não se misturou aos filhos dos mais pobres, comprou a falsa ideia de menosprezar as cadeiras de História, Geografia, Filosofia e tudo que tenha a ver com a memória do país.

A geração dos “concurseiros” decorou frases e um método de ensino que visava prepara-los para encarar provas de múltipla escolha. Os livros didáticos e romances foram substituídos pela mecânica da indústria de apostilas, que não estimula o raciocínio e a tomada de decisões a partir da interpretação crítica dos fenômenos.

Isso se reflete no que se posta e se escreve nas redes sociais. Há uma ignorância absurda sobre temas simples, como por exemplo: o nazismo é de esquerda ou de direita? O racismo é uma chaga a ser reparada na sociedade brasileira ou um “vitimismo”? A exibição da nudez pode ser encarada como natural no contexto artístico ou é um atentado ao pudor e pedofilia? Os governos do PT e seus aliados eram comunistas? A ditadura militar foi um dano ao país ou um mal necessário?

Este conflito exige um debate paciente e didático por quem pretende encará-lo. A primeira coisa a fazer é abandonar o palavrório, o xingamento e os adjetivos que visam a desqualificar os que divergem ou ignoram. A segunda é demonstrar que a classe média também será tragada pela ganância do grande capital, que a utiliza como bucha de canhão para seus propósitos reacionários.

Será preciso retomar o costume de fazer as pessoas pensarem, refletirem sobre o que fazem em todas as áreas do conhecimento. Um dos problemas do PT, dentre tantos outros, foi acreditar que seria possível elevar o nível de consciência da sociedade a partir da inclusão pelo consumo. Ora, o neoliberalismo aposta justamente nisso: convencer aos pobres e remediados que sua salvação se dará pelo consumo, sem reflexão, sem encarar as contradições.

Ao contrário da histeria de Marilena Chauí e seus discípulos, o caminho para neutralizar o pensamento reacionário que emerge de parte considerável das camadas médias é ampliar o debate, não é acabar com ele na base dos impropérios. Aliás, este é justamente o campo que agrada aos ideólogos dos grupos de direita.

Não se sabe se o ministro da Justiça resistirá à crise que provocou com suas declarações. Torquato Jardim só disse o que alguns sabem e o que muita gente pensa no Rio de Janeiro. Há conivência e parceria entre a cúpula da segurança pública e a bandidagem.

Como explicar que o tráfico varejista de drogas continue agindo nas barbas da polícia, mesmo nas favelas em que existem UPP? Como explicar que nas áreas controladas por milícias – comandadas por policiais, bombeiros e ex-policiais – não haja uma UPP?

Alguém bota fé – a não ser a grande mídia empresarial, que virou papagaio das fontes oficiais – na versão de que o comandante do batalhão da PM do Meier foi vítima de um arrastão? E o “deputado” ao qual o ministro se referiu, que faz parte do acerto para comandar a polícia: quem seria essa personagem?

Existe alguém mais bem informado sobre a segurança pública neste país do que o ministro da Justiça? O que levou Jardim a chutar o balde dos senhores Pezão e Roberto Sá? Que razão têm os comandantes da PM para se indignar, diante das declarações do ministro?

A impressão que qualquer leigo tem é que o governo estadual perdeu o controle sobre a segurança pública no Rio. Temos a polícia que mais mata e a que mais morre em todo o país, em números absolutos. Ainda assim, o tráfico varejista de drogas continua a todo vapor, abastecido de mercadoria e de armas. Sinal de que esta política não resolve e que alguém está se beneficiando dela.

Vira e mexe a mídia empresarial pede a presença de tropas das Forças Armadas nas comunidades, para ajudar na velha e surrada política de contenção social. O Exército vem, as coisas “esfriam” e quando as tropas saem tudo volta ao normal: tiroteios, assassinatos e a tradicional violência de traficantes e policiais, que coloca grande parte da população do Rio sob Estado de Sítio. Jardim já deve estar de saco cheio de enxugar gelo.

Mais da metade das chamadas áreas conflagradas, que nada mais são do que regiões abandonadas pelo Estado, estão sob o controle de milícias, formadas por policiais e ex-policiais. Nessas áreas a PM faz vistas grossas e não coloca os pés.

A segurança pública, quando feita para defender e garantir a liberdade dos cidadãos, é sempre bem vinda e não precisa ostentar armas. O seu oposto é a segurança imposta, na base da extorsão, que explora justamente a ausência do Estado e serviços básicos. Nesses casos, ela rende muito dinheiro aos “justiceiros” de plantão e a quem está por trás deles.

Torquato Jardim só colocou o dedo na ferida exposta. Ou a sociedade fluminense e brasileira exige uma mudança na estrutura da segurança pública, com o fim da PM e a formação de uma polícia civil técnica, ou vamos continuar alimentando o monstro que gera lucros a corruptos, justiceiros de araque e graves prejuízos à população, sobretudo ao povo pobre das favelas e periferias.